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http://dx.doi.org/10.1590/0103-6564e240110 Psicologia USP, 2025, volume 36, e240110 1-9 Introdução O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento que apresenta níveis diferenciados quanto à gravidade, podendo apresentar prejuízos persistentes nas habilidades sociais, cognitivas e comportamentais (American Psychiatric Association, 2014). Os critérios utilizados para o diagnóstico foram alterados ao longo do tempo (Fernandes, Tomazelli, & Girianelli, 2020), e atualmente é denominado transtorno do espectro autista (TEA) na última versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR) e na Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11), embora ainda esteja vigente no Brasil a CID-10, que utiliza o termo transtornos globais do desenvolvimento (TGD). O diagnóstico precoce favorece o desenvolvimento cognitivo e adaptativo, pela plasticidade cerebral nos primeiros anos de vida, aumentando a autonomia e qualidade de vida (Sociedade Brasileira de Pediatria, 2019). No Brasil, o diagnóstico tem sido tardio, ocorrendo por volta dos seis anos de idade (Ribeiro et al., 2017), comprometendo o desenvolvimento socioadaptativo e o prognóstico a longo prazo. Estudo no Brasil, que definiu diagnóstico precoce como aqueles realizados Resumo: Este artigo analisa características socioeconômicas, clínicas e assistenciais de crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista residentes no município de Magé e atendidas no Centro de Atenção Psicossocial, entre 2020 e 2022, e compara com demais municípios do Rio de Janeiro. Realizou-se estudo transversal descritivo, utilizando dados do Registro de Ações Ambulatoriais de Saúde. Para avaliar a existência de diferença entre as variáveis, utilizou-se os testes qui-quadrado ou Mann-Whitney. Foram registrados 486 atendimentos no município de Magé, correspondendo a 114 pacientes, todos por demanda espontânea, mas 22,8% sem atendimento subsequente. Entre os casos de Magé, 81,6% são de indivíduos do sexo masculino, e 97,4% tiveram diagnóstico não tipificado e idade mediana de 5 anos, apresentando diagnóstico mais precoce do que nos demais municípios (p≤0,05). Há necessidade de capacitação dos profissionais e ampliação do atendimento familiar. Pesquisas futuras precisam investigar dificuldades de encaminhamento, atendimento e preenchimento do sistema de informação. Palavras-chave: transtorno do espectro autista, epidemiologia descritiva, sistemas de informação, Sistema Único de Saúde, direitos humanos. 1 Artigo * Endereço para correspondência: vaniagirianelli@yahoo.com.br antes dos 4 anos de idade, encontrou que apenas 30% das crianças atendidas no Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) receberam diagnóstico precoce, sendo a idade média de diagnóstico de 5,5 anos (Girianelli, Tomazelli, Silva, & Fernandes, 2023). Os Centros de Atenção Psicossocial (NAPS/ CAPS) foram provenientes da reforma psiquiátrica contrapondo-se aos manicômios, serviços de internação de longa permanência (Portaria SNAS/MS nº 224, 1992). Apenas em 2001, entretanto, a Lei Antimanicomial muda o modelo assistencial em saúde mental, tendo, entre os direitos, o acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde (Lei no 10.216/01, 2001). A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), contudo, só foi instituída no final de 2011, com enfoque no acolhimento e acompanhamento contínuo e universal (Portaria nº 3.088, 2011). Os atendimentos ambulatoriais e visitas domiciliares realizados são registrados no sistema de Registro das Ações Ambulatoriais de Saúde (RAAS), possibilitando o monitoramento das ações e serviços (Portaria nº 276/12, 2012). Em 2017, no entanto, os hospitais psiquiátricos passam a fazer parte da Raps (Resolução no 32/17, 2017), contribuindo para o resgate do modelo manicomial. O CAPSi é o serviço especializado para crianças e adolescentes, sendo, atualmente, indicado para municípios ou regiões acima de 70 mil habitantes (Portaria nº 3.088, 2011). No município de Magé, o CAPSi foi registrado no Características das crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista no município de Magé Daiana Silveira da Silvaa Jeane Tomazellib Késia Pereira de Matos D’Almeidaa Vania Reis Girianellia* aEscola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, RJ, Brasil bInstituto Nacional de Câncer, Rio de Janeiro, RJ, Brasil mailto:vaniagirianelli@yahoo.com.br https://orcid.org/0009-0006-8056-3840 https://orcid.org/0000-0002-2472-3444 https://orcid.org/0000-0002-1891-8018 https://orcid.org/0000-0002-8690-9893 Psicologia USP I www.scielo.br/pusp 2 2 Daiana Silveira da Silva, Jeane Tomazelli, Késia Pereira de Matos D’Almeida & Vania Reis Girianelli 2 Cadastro Nacional de estabelecimento de Saúde (CNES) em 2012, mas apenas tem dados no RAAS a partir de 2020. O objetivo deste estudo foi analisar as características socioeconômicas, clínicas e assistenciais das crianças e adolescentes autistas residentes no município de Magé e atendidas no Centro de Atenção Psicossocial, no período de 2020 a 2022, e comparar com os demais municípios do estado do Rio de Janeiro. Métodos Trata-se de um estudo observacional do tipo transversal descritivo, sobre as características socioeconômicas, clínicas e assistenciais de crianças e adolescentes autistas residentes no estado do Rio de Janeiro, e atendidas no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) no período de 2020 a 2022. Os dados foram extraídos do Registro de Ações Ambulatoriais de Saúde (RAAS), disponíveis no sítio eletrônico do DataSus, que são anônimos e de acesso irrestrito. Desta forma, o projeto não necessitou de apreciação pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Inicialmente, foram selecionados os registros de residentes no estado do Rio de Janeiro no período de 2013 a 2022, e excluídos os com diagnóstico anterior a 2020. A verificação da base de dados em período anterior ao estudado foi necessária para garantir que os casos não elegíveis fossem indevidamente incluídos. Em seguida, foram selecionados os menores de 19 anos com diagnóstico de transtorno global do desenvolvimento (TGD), com base na CID-10, por ser a classificação vigente no Sistema Único de Saúde. Posteriormente, foram excluídos registros replicados para contemplar a versão CID-11 a ser implementada no Brasil, e as categorias diagnósticas iniciais de TGD de síndrome de Rett (F84.2) e transtornos com hipercinesia associada a retardo mental e a movimentos estereotipados (F84.4) também foram excluídas por não comporem o diagnóstico de TEA nessa versão. Assim, o conjunto de diagnósticos que compõem o TGD, deste estudo, serão denominados TEA, ao mesmo tempo em que se faz uma discussão dos tipos diagnósticos que compõem a TGD. Esta decisão metodológica se baseia na necessidade de adoção da terminologia mais recente e adequada para designação do transtorno, ao mesmo tempo em que permite uma discussão dos tipos de transtorno do neurodesenvolvimento registrados nos serviços do SUS. Foram considerados registros replicados aqueles em que 100% dos campos registrados no sistema de informação eram idênticos. As variáveis consideradas foram as disponíveis no sistema de informação relativas às características socioeconômicas, clínicas e assistenciais. Em relação às características sociodemográficas, foram consideradas: idade, sexo e raça/cor da pele. Quanto aos aspectos clínicos, foram considerados: categoria dos tipos de diagnóstico inicial do TGD conforme CID-10; mudança de diagnóstico no período (comparando diagnóstico subsequente com o inicial), restrita aos residentes em Magé, e ano do diagnóstico. As variáveis referentes à assistência foram restritas aos residentes no município de Magé: unidade de atendimento (CAPSi, outros CAPS, outros), origem do paciente (demanda espontânea, atenção básica, serviço de urgência, outros CAPS, hospital dia, e hospital psiquiátrico), quantitativo e tiposde atendimentos e/ou procedimentos realizados (individual, em grupo etc.), e atendimentos realizados em outros municípios. Para identificar o primeiro atendimento da criança registrado no RAAS, utilizou-se os campos “cartão SUS codificado” e “data de início” como a primeira data de atendimento. O percentual de cada categoria das variáveis qualitativas estudadas foi calculado, estratificando por residentes em Magé e demais municípios do estado do Rio de Janeiro. O teste qui-quadrado de Pearson foi utilizado para avaliar a existência de diferença estatisticamente significativa (p≤0,05) entre as proporções dos estratos. Também foram calculadas as medidas de tendência central (média e mediana) e de dispersão (amplitude, desvio padrão, 1º e 3º quartis) para idade por categoria diagnóstica, estratificando por residentes em Magé e demais municípios do estado do Rio de Janeiro. O teste de Mann-Whitney foi utilizado para avaliar a existência de diferença estatisticamente significativa (p≤0,05) entre os estratos. Os dados foram armazenados no programa Excel e analisados no programa estatístico R, versão 4.2.1, sendo utilizada a função read.dbc para extração dos dados. Resultados A base de dados do RAAS tinha 5.913.852 registros do estado do Rio de Janeiro dos anos de 2013 a 2022, sendo que apenas 20.465 registros se referiam a atendimentos de crianças e adolescentes com diagnóstico de TEA a partir de 2020. Desses atendimentos, 486 (2,4%) eram de residentes no município de Magé, correspondendo a 114 pacientes, e 26 (22,8%) não tiveram acompanhamento subsequente na rede de assistência psicossocial do SUS (Figura 1). A Tabela 1 apresenta as características das crianças e adolescentes com diagnóstico de TEA e os tipos de diagnóstico inicial considerados no estudo. A maioria era do sexo masculino (74,8%), sendo proporcionalmente maior nos residentes de Magé (81,3%), embora a diferença em relação aos demais municípios (74,5%) não seja estatisticamente significativa (p=0,113). O principal diagnóstico inicial foi TGD não tipificado (70,2%), sendo proporcionalmente maior no município de Magé (97,4%; ptérmino dos nove atendimentos analisados. A criança “P3” do sexo masculino e dez anos de idade, passou de transtorno global do desenvolvimento não tipificado, diagnóstico inicial, para autismo infantil no seu terceiro atendimento, e encerrando com este diagnóstico nos dois atendimentos seguintes. Finalizando, paciente “P4”, sexo feminino e diagnóstico aos quatro anos de idade, a alteração ocorreu do diagnóstico inicial autismo infantil para transtorno global do desenvolvimento não tipificado no terceiro e último atendimento do período pesquisado. Quadro 1. Crianças e adolescentes com TGD não tipificado que apresentaram mudança do tipo de diagnóstico. Residentes em Magé (RJ), Brasil, 2020 a 2022 Pacientes Características Diagnóstico Idade do diagnóstico inicial Sexo Quantidade de atendimentos Mês/ano e número do atendimento CID Principal P1 11 M 19 01/2021 (1º) F84 05/2021 (4º) F841 12/2021 (6º) F843 05/2022 (12º) F84 07/2022 (14º) F841 10/2022 (16º) F84 P2 3 M 9 03/2021 (1º) F84 09/2022 (6º) F841 P3 10 M 5 07/2022 (1º) F84 10/2022 (3º) F840 P4 4 F 3 10/2022 (1º) F840 12/2022 (3º) F84 Fonte: Elaboração própria. Sexo: M – Masculino, F – Feminino; CID: F84 – Transtornos Globais do Desenvolvimento, F840 – Autismo Infantil, F841 – Autismo Atípico, F843 – Outro Transtorno Desintegrativo da Infância. Discussão Identificou-se 114 crianças e adolescentes com diagnóstico de TEA atendidas no CAPSi de Magé no período de 2020 a 2022. A restrição das categorias do TGD da CID-10 que não fazem parte do TEA na CID-11 possibilitou identificar no RAAS o registro de crianças e adolescentes com TEA, atendendo à classificação mais atual, e simultaneamente permitir uma discussão das tipificações diagnósticas mais frequentemente no sistema ainda vigente no país. Psicologia USP I www.scielo.br/pusp 6 6 Daiana Silveira da Silva, Jeane Tomazelli, Késia Pereira de Matos D’Almeida & Vania Reis Girianelli 6 A maioria das crianças residentes em Magé era do sexo masculino (81,6%), resultado em conformidade com a literatura, onde identifica-se que o TEA tende a ser até quatro vezes mais diagnosticado no sexo masculino (American Psychiatric Association, 2014; Rocha, Souza, Costa, & Portes, 2019; Tomazelli, & Fernandes, 2021; Tomazelli, Girianelli, & Fernandes, 2022). Alguns estudos têm buscado explicação genética com base na teoria de que o autismo seria uma expressão da hipermasculinização do cérebro devido à maior capacidade cognitiva para sistematização, em oposição ao feminino, que se destaca pela empatia (Baron-Cohen, 2002). Moraes (2014) sintetizou estudos que corroboram essa teoria, os possíveis genes envolvidos e a atuação da testosterona no tronco cerebral. Brickhill, Atherton, Piovesan e Cross (2023) testaram associações entre autismo e sexo, sendo identificado preconceito implícito e explícito relacionado ao sexo masculino, que podem dificultar o diagnóstico no sexo feminino. Assim, pesquisas têm identificado diagnóstico mais tardio nas meninas, nas quais a influência social exige um determinado comportamento estereotipado mascarando os sinais do transtorno, ou seja, requerendo o desenvolvimento de habilidades que disfarcem suas dificuldades e características (Ceballos, Paula, Ribeiro, & Santos., 2019; Tomazelli, & Fernandes, 2021). O diagnóstico de TEA aumentou ao longo do período estudado, o que também tem sido observado em todo país (Tomazelli, & Fernandes, 2021). Estudos têm ressaltado, contudo, que o aumento no número de casos não significa obrigatoriamente aumento da incidência, pois várias situações podem ter contribuído, como: maior conhecimento dos profissionais para identificação dos casos, sensibilidade dos métodos e critérios diagnósticos, acesso da população aos serviços de saúde, bem como a conscientização sobre o tratamento e diagnóstico precoce (Paula et al., 2011; Tomazelli, & Fernandes, 2021). Estudo com base nos diagnósticos de autismo realizado na Califórnia, nos Estados Unidos, estimou que 26,4% do aumento se referia a crianças previamente diagnosticadas com retardo mental, isto é, o aumento como resultado da substituição e acréscimo de diagnóstico (King, & Bearman, 2009). Outros fatores ainda desconhecidos também podem estar contribuindo para o aumento do autismo no mundo (Paula et al., 2011). O diagnóstico, entretanto, apresentou alto percentual de registro não tipificado no município de Magé (97,4%) e nos demais municípios do estado do Rio de Janeiro (69,0%); ficando acima do observado no país (54,3%) (Tomazelli, & Fernandes, 2021), que já é muito elevado. A não tipificação do diagnóstico pode estar relacionada com a necessidade de mais de uma consulta para fechar o diagnóstico, a inexistência de campo específico para suspeita e a exigência de registro do diagnóstico para cadastro no sistema para a continuidade do acompanhamento (Tomazelli et al., 2022). O acompanhamento da mudança diagnóstica pode também apontar para uma dificuldade diagnóstica ao longo do tempo ou de acuidade no registro da CID durante os atendimentos. O acompanhamento dos pacientes no município de Magé, contudo, não contribuiu para a tipificação do diagnóstico, pois apenas dois pacientes (1,8%) foram reclassificados, ambos menores de 12 anos, um para autismo infantil e o outro para autismo atípico. No país, a reclassificação com tipificação do diagnóstico em crianças até 12 anos foi ainda mais baixa (0,4%) (Tomazelli et al., 2022). Os profissionais destacam que a grande quantidade de atendimentos diários inviabiliza as discussões de cada caso e intervenções conjuntas (Silva, 2016). Também tem sido sinalizada a inexperiência dos profissionais, levando a agirem de maneira “intuitiva” (Silva, 2016), em particular no diagnóstico de crianças e adolescentes tendo necessidade em adequar estratégias de intervenção individuais de acordo com as peculiaridades dessa fase de desenvolvimento (Ronchi, & Avellar, 2010). Ademais, há uma maior experiência dos profissionais da saúde mental com a classificação do DSM-5 do que com a CID-10, destacando a necessidade tanto de profissionais quanto de instrumentos qualificados para o diagnóstico e intervenção (Rocha et al., 2019). A idade mediana do diagnóstico no município de Magé foi de 5 anos, estando abaixo dos demais municípios do estado do Rio de Janeiro; mas similar ao encontrado no país (Girianelli et al., 2023), embora a população deste estudo tenha sido restrita a até 12 anos de idade. Ademais, tem sido observada uma tendência de aumento no diagnóstico em crianças de até três anos no país (Tomazelli et al., 2022). A Sociedade Brasileira de Pediatria (2019) ressalta a importância do diagnóstico até os dois anos de idade, pois a intervenção precoce pode contribuir para melhoria da qualidade de vida e potencialmente impedir a manifestação completa ou mais grave do transtorno. Há, entretanto, uma maior dificuldade em realizar o diagnóstico em crianças antes do desenvolvimento da linguagem (Tomazelli et al., 2022). Houve um aumento exponencial no quantitativo de atendimento no município de Magé, mas a maioria individual (88,9%), sugerindo a hegemonia da abordagem clínica tradicional em detrimento às novas estratégias (Lima et al., 2017). O aumento expressivo da assistência também tem sido observado no país, mas com predominância dos atendimentos em grupo (Tomazelli et al., 2022). A pandemia de covid-19 também contribuiu para redução da assistência, em particular dos atendimentos em grupos (Centers for Disease Control And Prevention, 2023), o que pode justificar parcialmente os atendimentos majoritariamente individuais. De forma geral, a falta de atendimentos grupais e visitas domiciliares indica deficiência na assistência a essas famílias, ou seja, o esvaziamento da escuta, porque são nesses espaços que ocorrem trocas de experiências, desafios, descobertas e angústias (Lima et al., 2020). A inclusão das famílias pode ser por diversosprocedimentos, como: busca ativa, visita domiciliar, oficinas terapêuticas, grupo familiar e atendimentos individuais (Camatta, & Schneider, 2009). 7 7 Psicologia USP, 2025, volume 36, e240110 7 Características das crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista no município de Magé A maioria dos pacientes teve até três atendimentos (61,4%). Estudo realizado com familiares (Lima et al., 2020) identificou que a continuidade do atendimento está relacionada à dificuldade com o deslocamento, seja pelo custo da passagem, seja pela distância da residência do usuário, além da necessidade de melhoria na infraestrutura, ambiência e higiene da unidade de atendimento. A pessoa com TEA é considerada deficiente para todos os efeitos legais (Lei no 12.764/12, 2012), sendo indubitável o direito ao transporte e à mobilidade com eliminação das barreiras (Lei no 13.146/15, 2015). O direito ao Passe Livre também estabelece gratuidade ao acompanhante do assegurado. Estudo realizado na região metropolitana do estado do Rio de Janeiro constatou que apenas 52% dos autistas usuários dos CAPSi entrevistados recebiam o benefício do Passe Livre (Lima et al., 2017). Os cuidadores também relataram que alguns transportes não aceitam o Passe Livre ou que o assegurado ocupe outro assento (Lima et al., 2017). O horário de funcionamento dos CAPSi também pode dificultar a adesão dos cuidadores que trabalham e não contam com uma rede de apoio (Rocha et al., 2019; Silva, & Lima, 2017). Tal contexto pode levar ao desligamento do usuário, seja por abandono, a pedido dos pais (Rocha et al., 2019), ou pela não inclusão/participação dos cuidadores no Projeto Terapêutico Individual (PTI) (Camatta, & Schneider, 2009). Nesse sentido, é importante conhecer as dificuldades das famílias para o entendimento da não continuidade no tratamento e buscar ajustar um projeto terapêutico mais adequado à realidade familiar. Todas as crianças e adolescentes com TEA atendidas no CAPSi do município foram provenientes de demanda espontânea. É possível ter havido erro de registro, mas estudo realizado no país constatou alto percentual (50,1%) de demanda espontânea (Tomazelli et al., 2022). O esperado é que o encaminhamento seja realizado pela Atenção Primária, o que também facilita práticas colaborativas entre setores (Ronchi, & Avellar, 2010; Teixeira, Couto, & Delgado, 2017). Em estudo realizado há mais de dez anos em Fortaleza, no Ceará, cuidadores relataram que a procura do CAPSi ocorreu por indicação dos profissionais da educação, sugestão de familiares que observaram “comportamentos estranhos” e indicação pós-consulta ao pediatra (Távora et al., 2010). O Sistema de Informação Registro de Ações Ambulatoriais de Saúde (RAAS) não contempla dados sobre a necessidade de apoio do usuário, nem da família; e a raça/cor da pele que ainda é uma aproximação do nível socioeconômico não foi preenchida, embora o seu preenchimento seja obrigatório. Pesquisas futuras são necessárias para compreender como tem ocorrido o encaminhamento na rede, as dificuldades encontradas por usuários (as) e profissionais, incluindo o preenchimento dos dados para alimentar o sistema de informação. Considerações finais Ao longo dos anos, ocorreram alterações sobre o que se entendia sobre o autismo. Apesar da ampliação dos estudos, ainda há controvérsias, como exemplo, o autismo ser abordado como uma doença, mesmo que implicitamente, ao apontar as características como “sintomas”. Este estudo identificou que ainda há dificuldade dos profissionais de saúde na tipificação diagnóstica, mas talvez seja apenas inabilidade na utilização da CID-10 apesar de ser a classificação diagnóstica utilizada no SUS. A disponibilização dos dados no RAAS é fundamental para o acompanhamento e monitoramento do TEA, mas ainda são insuficientes para compreender as características socioeconômicas das famílias atendidas e as causas do não acompanhamento subsequente. Alguns campos poderiam ser incluídos no RAAS, como escolaridade, renda, raça/etnia e ocupação dos responsáveis, bem como o registro obrigatório no caso de descontinuidade do acompanhamento. A ausência dessas informações torna necessária a realização de estudos com entrevista de profissionais e familiares, mas que tendem a ser restritos a poucas unidades devido ao alto custo. O município de Magé, embora tenha implantado o CAPSi apenas em 2020, ano da pandemia de covid-19, o diagnóstico foi mais precoce do que nos demais municípios do estado do Rio de Janeiro. Em contrapartida, é necessário a capacitação dos profissionais de todo o estado para registro adequado do diagnóstico e demais campos do RAAS, bem como a ampliação do atendimento familiar. Disponibilidade de dados Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo Characteristics of children and adolescents with autism in the municipality of Magé Abstract: This study analyzes the socioeconomic, clinical, and assistance characteristics of children and adolescents with autism spectrum disorder living in the municipality of Magé and cared at the Psychosocial Care Center from 2020 to 2022 and compare them with other municipalities in the state of Rio de Janeiro. A descriptive cross-sectional study was carried out using data from the Outpatient Health Actions Registry. To assess differences between variables, the chi-squared or Mann-Whitney tests were used. In total, 486 consultations were recorded in the municipality of Magé, corresponding to 114 patients, all due spontaneous demand, but 22.8% without subsequent care. Among the cases in Magé, 81.6% were boys, 97.4% had a non-typed diagnosis, a median age of five years, and an earlier diagnosis than in other municipalities (p≤0.05). There exists the need for professional training and expansion of family care. Future research must investigate difficulties in referral, service, and filling out the information system. Psicologia USP I www.scielo.br/pusp 8 8 Daiana Silveira da Silva, Jeane Tomazelli, Késia Pereira de Matos D’Almeida & Vania Reis Girianelli 8 Keywords: autism spectrum disorder, descriptive epidemiology, information systems, Unified Health System, human rights. Caractéristiques des enfants et adolescents atteints de troubles du spectre autistique de Magé Resumé : Cet article analyse les caractéristiques socio-économiques, cliniques et de soin des enfants et adolescents atteints de troubles du spectre autistique dans la municipalité de Magé et prisent en charge psychosociale entre 2020-2022 et les compare avec d’autres municipalités au Rio de Janeiro. Une étude transversale descriptive a áté menée avec les données du registre des actions de santé ambulatoires. Les différences entre les variables ont été évalué par les tests du-chi-carré ou Mann-Whitney. Le système a registré 486 consultations, correspondant à 114 patients, toutes dues à une demande spontanée mais 22,8% sans prise en charge ultérieure. Parmi les cas à Magé, 81,6% étaient des hommes, 97,4% avaient un diagnostic non typé et un âge médian de 5 ans, présentant diagnostic plus précoce que dans autres villes (p≤0,05). Il y a un besoin de formation professionnelle et d’expansion de prise en charge familiale. Les recherches futures doivent étudier les difficultés liées à l’orientation, au service et au remplissage du système d’information. Mots-clés: troubles du spectre autistique, épidémiologie descriptive, systèmes d’information, Système Unique de Santé, droits humains. Características de niños y adolescentes con el trastorno del especto autista en el municipio de Magé Resumen: Este artículo analiza las características socioeconómicas, clínicas y asistenciales de niños y de adolescentes con trastorno del espectro autista residentes en el municipio de Magé y atendidos en el Centro de Atención Psicosocial entre 2020 y 2022, así como las compara con otros municipios del estado de Rio de Janeiro.Se realizó un estudio descriptivo transversal, a partir de los datos del Registro de Acciones Ambulatorias de Salud. Para evaluar la existencia de diferencias entre variables, se utilizó la prueba de chi cuadrado o Mann-Whitney. Se registraron 486 consultas en municipio de Magé, correspondientes a 114 pacientes, todas por demanda espontánea, pero el 22,8% sin atención posterior. Entre los casos de Magé, el 81,6% fueron del sexo masculino, el 97,4% tuvo diagnóstico no tipificado y mediana de edad de 5 años, y presentó un diagnóstico más temprano que en otros municipios (p≤0,05). Es necesario una formación profesional y ampliación del cuidado familiar. Se espera que las investigaciones futuras analicen las dificultades en derivación, servicio y llenado del sistema de información. Palabras clave: trastorno del espectro autista, epidemiología descriptiva, sistemas de información, Sistema Único de Salud, derechos humanos. Referências American Psychiatric Association. (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5 (5a Ed). Artmed. Baron-Cohen, S. (2002). The extreme male brain theory of autism. Trends in Cognitive Sciences, 6(6), 248-254. doi: 10.1016/S1364-6613(02)01904-6 Brickhill, R., Atherton, G., Piovesan, A., & Cross, L. (2023). Autism, thy name is man: Exploring implicit and explicit gender bias in autism perceptions. PLOS ONE, 18(8), e0284013. doi: 10.1371/journal.pone.0284013 Camatta, M. W., & Schneider, J. F. (2009). O trabalho da equipe de um Centro de Atenção Psicossocial na perspectiva da família. Revista da Escola de Enfermagem da USP, 43(2), 393-400. Ceballos, G. Y., Paula, C. S., Ribeiro, E. L., & Santos, D. N. (2019). Child and Adolescent Psychosocial Care Center service use profile in Brazil: 2008 to 2012. Brazilian Journal of Psychiatry, 41(2), 138-147. Centers for Disease Control And Prevention. (2023). Community report on autismo 2023. A Snapshot of Autism Spectrum Disorder among 4-year-old and 8-year-old Children in Multiple Communities across the United States in 2023. 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