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organização Soraya Maria Romano Pacífico e Um olhar polissêmico na construção de novas Lucília Maria Sousa Romão relações dos alunos com textos sta obra tem objetivo de propiciar ao leitor contato E tuações que perpassam contexto escolar, a saber: algumas periências de leitura e escrita vividas por professores e na sala de aula; reflexões sobre livro didático e a pedagógica e, para finalizar, apresentamos uma proposta de balho com um livro de literatura infantil, realizando uma leitura ca, leitura que, a nosso ver, vai numa direção oposta à perspectiva do didático. São questões ligadas ao funcionamento da linguagem. as sustentam as produções textuais infantis, textos dos livros obras literárias, desenhos televisivos, enfim, diferentes situações de da língua(gem). Consideramos que este trabalho contempla muitas das questões que gendram cotidiano escolar, especialmente aquelas relacionadas à leitura escrita, atividades estas que, muitas vezes, são trabalhadas visando someone à aquisição do código escrito, que tem distanciado nossos alunos da produ- ção textual, da interpretação, da vontade de aprender a ler e a Leitura e escrita: no caminho das linguagen ALPHABETO 788560 ALPHABETO24 O silêncio do/no livro didático lizar uma atividade que não parece ser condizente com a posição que ocupa. [...] Há todo um desequi- Capítulo 2 líbrio de forças que faz com que se prenda às suas obrigações enquanto aluno e não enquanto autor. Em meio a esse desequilíbrio, OS alunos vão sendo capturados por sentidos que OS fazem acreditar que é "difícil" ler e escrever; que eles "não sabem redigir"; que ler "é muito chato" e, dessa for- ma, a manutenção, a construção e a divulgação de sentidos perma- nece no poder daqueles que são autorizados para isso. Referências bibliográficas FARACO &MOURA. Linguagem Nova. São Paulo: Ática, 1997. GNERRE, M. Linguagem, escrita e poder. São Paulo: Martins Fontes, 1998. O livro didático na sala de aula: a ORLANDI, E.P. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. 4 ed., Campinas: Editora da UNICAMP, 1997. legitimação do sentido ORLANDI, E.P. Interpretação; autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. Petró- polis: Vozes, 1996. PACÍFICO, S.M.R. Os fios significativos da história: leitura e intertextualidade. Dis- Juliana Franco Silva e sertação de mestrado. Unesp Araraquara-SP, 1996. PACÍFICO, S.M.R. Argumentação e autoria: silenciamento do dizer. Tese de Dou- Soraya Maria Romano Pacífico torado. FFCLRP-USP: Ribeirão Preto, 2002. PÊCHEUX, M. "Ler arquivo hoje. In: ORLANDI, E.P. (org.) Gestos de leitura: da história no discurso. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997. Quadro nenhum está acabado, TFOUNI, L.V. A dispersão e a deriva na constituição da autoria e suas implicações disse certo pintor: para uma teoria de letramento. IN: (org) Investigando a relação oral/ escrito e as teorias do letramento. Campinas-SP: Mercado das Letras, 2001. Se pode sem fim continuá-lo, primeiro, ao além de outro quadro que, feito a partir de tal forma, tem, na tela, oculta, uma porta que dá a um corredor que leva a outra e a muitas portas João Cabral de Melo Neto Leitura e escrita: no caminho das linguagens Leitura e escrita: no caminho das linguagens26 O livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido O livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido 27 reocupados com ensino em nosso país e, entendendo um mesmo texto, por exemplo, possibilitam aos leitores, diferentes P que livro didático ocupa lugar quase que central na interpretações, uma vez que estes, ao realizarem esse movimento rotina escolar, acreditamos que estudos nesta área são de reflexão acerca do texto, de construção de sentidos, fazem-no sempre ricos, pois dão subsídios para a melhoria do segundo determinadas características, sócio-histórico-culturais ensino em nossas escolas. Este trabalho tem como ob- e ideológicas, que influenciam e determinam a leitura, ou seja, jetivo analisar, apoiado na teoria da Análise do Discurso de 'linha' gesto de interpretação. francesa, cinco textos literários, selecionados de livros didáticos de Este trabalho está fundamentado na Análise do Discurso de à série, do Ensino Fundamental, de diferentes editoras, sendo 'linha francesa' (AD), que tem em Michel Pêcheux seu principal OS textos e OS livros, respectivamente: Bicho papão da minha imagi- teórico. A AD está preocupada em estudar as interpretações que nação (Sylvia Orthof) Uma proposta para O letramento podem ser feitas sobre OS discursos, a partir de um determinado lu- (livro 2) de Magda Soares; A escola (José de Nicola) Português: gar sócio-histórico que OS interlocutores ocupam. Pêcheux (1993) Uma proposta para letramento (livro 1) de Magda Soares; Minhas apresentou um quadro epistemológico que sustenta esse novo férias, pula uma linha, parágrafo (Christiane Gribel) Porta Aberta campo teórico. De acordo com este autor (1993:163-164): Série, de Bragança e Carpaneda; No restaurante (Autor desco- ele reside na articulação de três regiões do conheci- nhecido) Porta Aberta Série, de Bragança e Carpaneda; Deu mento científico: pano pra manga (Anna Paula Escobar Freddi e Noemi Paulichenco Loureiro) Marcha Criança: Português série, Ed. Scipione. 1 materialismo histórico, como teoria das for- Nossa preocupação é investigar, nos textos selecionados, a ma- mações sociais e de suas transformações, compre- neira como a ideologia faz parecer natural determinados sentidos endida aí a teoria das ideologias; e não outros, como poderemos ver, um tanto preconceituosos e le- gitimadores de idéias. Tornar possível que O professor tenha aces- 2 - a lingüística, como teoria dos mecanismos sin- a uma discussão que leve a perceber que a linguagem não é táticos e dos processos de enunciação ao mesmo transparente, nem neutra, que outros sentidos são possíveis e que tempo; há uma ideologia que sustenta todo discurso é uma maneira de O 3 a teoria do discurso, como teoria da determina- professor não mais aceitar livro como verdade absoluta. Ao ques- ção histórica dos processos semânticos. tionar OS sentidos legitimados pelo livro didático, professor pode assumir a responsabilidade pelo seu dizer e, assim, permitir que O A Análise do Discurso não considera a linguagem como trans- aluno também ocupe este lugar. parente e homogênea; por isso, há a necessidade de interpretar, já O autor João Cabral de Melo Neto, ao reproduzir a fala de que a todo momento realizamos este trabalho, ou seja, desde um pintor, define com grande perfeição, a nosso ver, a maneira acontecimentos cotidianos (por exemplo, ao entramos em um su- como concebe a arte. Podemos estender a definição do autor para permercado e observarmos a ilustração de uma xícara de café em a questão dos sentidos, que não são únicos e evidentes, uma vez uma das paredes, interpretaremos, provavelmente, que ali está lo- que diferentes sentidos sempre são possíveis, como será exposto calizado espaço destinado à cafeteria; que aquele espaço é onde O no decorrer desta nossa reflexão. As leituras, mesmo partindo de consumidor encontra as marcas de pó de café, etc.) e, assim, vamos Leitura e escrita: no caminho das linguagens Leitura e escrita: no caminho das linguagens28 livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido 29 interpretando, até em situações que exigem a interpretação do ana- tes: eles têm sua materialidade e se constituem em lista, como exemplo, as interpretações que devem ser feitas com processos em que a língua, a história e a ideologia base no aparato teórico da AD, qual defende que sentido sem- ocorrem juntamente. pre pode ser outro e a construção deste se dá a partir da posição Como estamos discutindo a construção dos sentidos, não po- social ocupada pelos interlocutores do discurso, em determinado demos deixar de tocar nos conceitos de paráfrase e de polissemia, momento sócio-histórico, tendo sempre a ideologia interferindo no fundamentais para compreender-se a interpretação. Orlandi (1996) gesto de interpretação. chama de paráfrase a leitura ao "pé da letra", não ultra- Assim, a linguagem não é neutra; pelo contrário, ela é carregada passa a linha do dizer, ela nos permite dizer novamente O que já de ideologia e é com ela que construímos nossos discursos, dessa foi dito, sem que O sentido seja "alterado". Já a polissemia, (idem) ou daquela maneira e a interpretação dos discursos, para ana- como nome já diz (poli = muitas) são outras / diversas leituras lista, deixa de ser linguajeira e passa a ser embasada pelo aparato que podem ser feitas; assim, a leitura polissêmica permite extra- teórico, da AD. polar sentido e ir além do dito, procurando diferentes formas de Segundo Orlandi (2003), sujeito do discurso constrói seus interpretar. dizeres a partir do seu inconsciente e da ideologia, mesmo que, Os conceitos de paráfrase e de polissemia nos fazem pensar muitas vezes, não se dê conta de que é capturado ideologicamente. que, a escola, instituição de ensino que deve possibilitar ao aluno A ideologia é O princípio para que se constituam sujeito e sentido. entrar em contato com vários pontos de vista sobre determinado O indivíduo é capturado pela ideologia e, a partir dela, constrói objeto discursivo, para formar opiniões acerca dos temas, não con- seu dizer e torna-se sujeito do discurso. Orlandi (op.cit.:48) nos dá segue cumprir essa tarefa, muito difícil para todo O conjunto esco- uma boa explicação da ação que a ideologia tem; por isso, pedimos lar. Difícil, porque dentro da escola existem relações de poder: desculpas pela citação um pouco longa, mas que consideramos ser professor não deve desacatar que é estabelecido pelo diretor; este extremamente relevante. Assim, recorremos à citação literal, sem diretor está sendo pressionado por editoras a adotar determinados fazer a paráfrase das palavras da autora: materiais didáticos, a maioria dos professores não está devidamen- É (...) a ideologia que faz com que haja sujeitos. O te preparada para lidar com outros pontos de vista; por não ter efeito ideológico elementar é a constituição do su- tido uma formação adequada e contínua. Dessa forma, professor jeito. Pela interpelação ideológica do indivíduo em desanima e passa a aceitar que, muitas vezes, já é imposto pelo sujeito inaugura-se a discursividade. Por seu lado, a seu superior e, também, por ter dificuldades em lidar com outras interpelação do indivíduo em sujeito pela ideologia maneiras de trabalhar as atividades escolares. traz O apagamento da inscrição Por isso, além de outros fatores, podemos dizer que é mais da língua na história para que ela signifique produ- mum encontrarmos nas escolas, a leitura parafrástica, que traba- zindo efeito da evidência do sentido (o sentido-lá) lha com a repetição do sentido e, não, com questionamento. Na e a impressão do sujeito ser a origem do que diz. maioria das vezes, a escola dita que uma determinada forma de Efeitos que trabalham, ambos, a ilusão da transpa- interpretar é a correta, enquanto todas as outras são erradas. O alu- rência da linguagem. No entanto nem a linguagem, no é "proibido" de ultrapassar limite de leitura pré-estabelecida; nem OS sentidos nem OS sujeitos são transparen- por isso, aquele que não se enquadra no molde da escola acaba Leitura e escrita: no caminho das linguagens Leitura e escrita: no caminho das linguagens30 O livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido O livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido 31 excluído, rejeitado. legitimados, especialmente, pelo livro didático. Essa discussão, para nós, está relacionada ao conceito de forma- Para Grigoletto (1999), O livro didático constitui-se em um dis- ção discursiva, fundamental para a AD. Segundo Orlandi (2003:43) curso de verdade, pois erroneamente, apresenta-se como sendo um "a noção de formação discursiva (...) permite compreender proces- lugar de completude dos sentidos. Esta concepção de completude so de produção dos sentidos, a sua relação direta com a ideologia e dos sentidos do livro didático, não condiz com um dos princípios também dá ao analista a possibilidade de estabelecer regularidades que regem a AD, de que a incompletude é constituinte da lingua- no funcionamento do discurso". A formação discursiva é que per- gem. Essa incompletude, a que se refere a AD, deve-se ao fato de mite ao sujeito construir seu discurso a partir de uma formação que todo dizer é construído a partir de uma relação entre históri- ideológica, em um determinado lugar sócio-histórico. É a formação CO e lingüístico; sendo assim, não é possível contemplar todos OS discursiva que determina que pode e deve ser dito, em deter- sentidos de um discurso, nem afirmar sua origem. Nesse sentido, minada conjuntura sócio-histórica. Importante ressaltar que, toda podemos afirmar que O LD se apresenta como sendo um lugar de formação discursiva tem, subjacente, uma formação ideológica. completude dos sentidos, nele é esperado que sentido, já estabe- A escola, instituição mergulhada em regras e normas, é O local lecido pelo autor, seja repetido por professores e alunos. de nascimento e de garantia da continuidade do discurso pedagó- Grigoletto (op. cit.) argumenta ainda, que discurso de ver- gico, daqui em diante, DP, qual, conforme Orlandi, é classificado dade, existente no LD, pode ser reconhecido por vários motivos, como sendo do tipo autoritário. Para Orlandi, (1996:29) "(...) DP dentre eles, a concepção homogeneizante dos alunos, já que parte se dissimula como transmissor de informação, e faz isso caracteri- do princípio que todos OS alunos devem fazer a mesma interpre- zando essa informação sob a rubrica da cientificidade". Segundo a tação, a mesma leitura e chegar às mesmas soluções apresentadas autora (op.cit.), isso acontece, principalmente, pelo uso excessivo pelos materiais. Também podemos verificar discurso de verdade da metalinguagem (ênfase nas definições e esquecimento dos moti- na apresentação dos conteúdos e dos conceitos presentes nos li- vos, dos fatos) e pela apropriação do saber do cientista, pelo profes- que criam a falsa idéia de naturalidade, como se OS sentidos sor (que não aparece como mediador do conhecimento, mas sim, sempre estivessem ali, na sua concepção. Dessa maneira, não é fonte dele; falar sobre e conhecer passam a ter o mesmo significa- preciso que autor justifique a escolha dos conteúdos trabalhados do). Sendo assim, O professor legitima um sentido e faz com que em seu livro, pois essa característica já é dada; talvez, isso explique tal sentido seja repetido pelos alunos, seja por meio de respostas OS prefácios curtos existentes nos livros dos professores, já que não objetivas, dadas pelo livro didático; seja pela interdição ao acesso é necessário que autor justifique longamente a metodologia e OS àquilo que Pêcheux (1997) chama de arquivo, entendido como um conteúdos adotados, pois foram legitimados, anteriormente. campo de documentos pertinentes sobre uma questão. A autora (op. cit) ainda critica a visão do livro como pacote Essa tipologia do DP poderia ser mudada se professor permi- pronto e acabado, que deve ser utilizado por professores e alunos, tisse a instauração do discurso polêmico em sala de aula, se ele sendo que os primeiros são entendidos como usuários deste ma- deixasse brechas em sua fala, se ele ocupasse as posições de lo- terial, e não como analistas e construtores. Se OS professores não cutor e de ouvinte, abrindo espaços para OS alunos participarem fazem parte das preocupações dos autores dos livros didáticos em dessas construções, possibilitando-lhes falar e construir também relação à elaboração das atividades, são ainda menos considerados suas imagens de locutores e, não, meramente, copistas de sentidos OS alunos, pois em nenhum momento justifica-se, aos educandos, Leitura e escrita: no caminho das linguagens Leitura e escrita: no caminho das linguagens32 O livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido 33 O livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido o-porquê da escolha de determinado tipo de exercício e não outro. Bicho papão da minha imaginação A concepção do professor como usuário e consumidor, também Sylvia Orthof pode ser justificada pela presença, ao final de todas as atividades, A gente tem muitos bichos na vida. Eu, como toda criança, tive das respectivas respostas, já que a linguagem é encarada como ho- meu bicho-papão particular, chamado medo. mogênea, transparente e única, por parte dos autores. Desconside- Bicho-Papão aparecia nas horas mais escuras da noite, naque- ra-se, também, a experiência e a vivência que OS alunos têm, mais las horas em que a cabeça da gente começa a imaginar besteira, uma vez, a ilusão de discurso de verdade, como se livro fosse imagina, imagina, de repente medo toma conta do mundo. ponto de encontro dos sentidos, onde eles se fecham, completam- Bicho-Papão a gente inventa. se. Concordamos com Grigoletto (1999:69) ao afirmar que, "Vê-se O meu foi inventado por uma cozinheira gorda, chamada Guio- nessa ausência mais uma característica do LD como um discurso mar. Guiomar era preta, gordíssima, e contando histórias ter- de verdade, que não precisa de justificativas nem de explicações ríveis, de botar cabelo em pé. Eu tenho cabelo crespo até hoje por para se legitimar", pois são características que foram legitimadas, culpa de Ela me contou cada uma, arrepiei tanto que ar- anteriormente. Também concordamos com Grigoletto repiada fiquei! ao afirmar que: Dizem que a gente não deve contar histórias de meter medo pra a leitura polissêmica entendida como atribuição de crianças, por isso não vou contar que Guiomar contava. uma multiplicidade de sentidos, é ignorada pela Eu sei que, de tanto ouvir a cozinheira, criei meu Bicho-Papão escola (...) livro didático tem uma parcela de res- particular. Ele era assim: olhos cor de fogo, pés virados para trás, ponsabilidade nesse problema, já que todo O tempo soltava muita fumaça pelas ventas e era mula-sem-cabeça, além de cerceia a possibilidade de outras leituras, fazendo pular num pé só e usar uma touca vermelha, fumar um cachimbo e, com que leituras mais particulares raramente te- de vez em quando, parecer com a minha professora de matemática. nham espaço no livro didático. Tinha vezes que Bicho-Papão era ótimo, nem existia! Mas bastava Embasados nos estudos realizados por Grigoletto (op. cit.), de- ser noite de tempestade, lá vinha Bicho-Papão vestido de lençol fendemos que OS textos dos livros didáticos seguem uma certa "re- branco, casaco de padre, chapéu de freira, blusa de freira, blusa de ceita", pronta, que indica ao aluno exatamente O caminho a ser crochê e leque de plumas. Era realmente uma coisa impossível, não percorrido, para que ponto de chegada, após a "interpretação", existia, era meu medo. seja único. Isso acontece com diversos textos e, infelizmente, tam- bém com OS literários, OS quais deveriam proporcionar diferentes Bicho papão faz parte da história de todas as crianças e consti- possibilidades de leituras; no entanto, estas atividades de leitura tui a memória discursiva acerca dos sentidos que circulam sobre também caracterizam-se pela prática da leitura parafrástica. as crianças, visto que, falar em bicho papão significa acessar in- terdiscurso que sustenta OS sentidos de medo, de ameaça, sentido Análise dos dados este muitas vezes usado pelos adultos na tentativa de manipulação Este texto foi retirado do livro didático Português uma propos- e controle do comportamento infantil. ta para letramento (livro 2), de Magda Soares. Diante disso, este texto nos chamou a atenção e, durante a lei- Texto 1 tura do mesmo, além dos sentidos citados acima, que tínhamos a Leitura e escrita: no caminho das linguagens Leitura e escrita: no caminho das linguagens34 35 O livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido expectativa de encontrar, dado título, deparamo-nos com idéias uma relação intertextual com texto do saci-pererê é comparado a preconceituosas sobre O empregado que, como estamos defenden- ele, como no enunciado "... além de pular num pé só e usar touca do desde O início do nosso trabalho, pelo efeito da ideologia, circu- vermelha, fumar um cachimbo e de vez em quando, parecer com a lam no LD como se fossem naturais. Vejamos as análises: no início minha professora de do texto, O enunciador cria uma relação semântica de equivalência Por outro lado, quando bicho papão deixa de ser comparado entre as palavras bicho papão e medo. à cozinheira, ao saci-pererê, e passa a ser comparado ao padre, à Retomando O que já dissemos, que o discurso do LD se apresen- freira, uso da cor preta dá lugar ao "vestido de lençol branco, ao ta como um discurso de verdade (cf. Grigoletto 1999), causa-nos chapéu de freira, ao leque de plumas". Isso significa para nós que, um estranhamento encontrar enunciados como meu foi inventa- ideologicamente, enquanto negros, OS empregados, cozinhei- do por uma cozinheira gorda chamada Guiomar. Guiomar era pre- ros, estão relacionados à cor negra, ao cabelo crespo e em pé, ta, gordíssima, e vivia contando histórias terríveis, de botar cabelo padre e a freira estão relacionados à pureza, ao branco, que não são em pé", uma vez que, se O que está escrito no LD apresenta-se como assustadores. verdadeiro, parece natural, então, interpretar que, adjetivos como Questionamos tais sentidos, ou melhor, sua legitimação e de- "gordíssima, preta", são naturalmente atribuídos aos empregados, fendemos que professor deve fazer uma leitura rompendo com no caso, à cozinheira. OS sentidos dados como naturais, promovendo O discurso polêmi- Continuando a nossa análise, também observamos O uso pejo- CO na sala de aula e permitindo que OS alunos reflitam sobre tais rativo do adjetivo crespo em "cabelo crespo", pois há uma memória questões. discursiva que reverbera e nos faz relacionar cabelo crespo a cabe- Texto 2 lo ruim, ao negro, ao preto, como usado neste texto. Este texto foi retirado do livro Português: uma proposta para Nesse momento, paramos para uma reflexão: se a escola é a letramento (livro 1), de Magda Soares. instituição que legitima O saber, e, por outro lado, sabemos que há toda uma luta contra O preconceito em nossa sociedade, seja A escola ele racial, sexual, religioso, enfim, surge a questão sobre como as José de Nicola crianças que possuem cabelos crespos, rebeldes, "em pé", reagem O futebol, a queimada, diante da leitura deste texto. Os sentidos preconceituosos que es- a pipa dourada, tamos atribuindo às palavras deste texto podem ser confirmados a boneca sapeca. pelo uso de outras palavras, tais como "noite escura, besteira, cor A TV. de fogo, noite de tempestade". Eu e você Chama-nos a atenção também O rebaixamento do sujeito Guio- cara a cara mar, que deixa de ser tratado pelo nome e passa a ser tratado pela no pega-pega; profissão, cozinheira, que interpretamos não como um mecanismo tudo ao contrário de coesão por substituição, mas sim, por um desmerecimento do no esconde-esconde sujeito. Percebemos também, uma ironia ácida em relação ao pro- (eu no armário!). fessor de matemática, que ora é comparado ao bicho papão, ora por O canário na gaiola, Leitura e escrita: no caminho das linguagens Leitura e escrita: no caminho das linguagens36 37 livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido O livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido a figurinha, folia, as brincadeiras, a liberdade, a figurinha, a bola, ficaram para trás, pois agora a hora "é da escola". gira a roda, pula a bola, Percebemos que as atividades infantis são desconsideradas e a bola, a bola. ignoradas pela escola, pois nada que a criança aprendeu fora da instituição escolar é relevante, neste contexto. Dentro da escola Toca sino que se espera é que as regras sejam todas seguidas, que as coisas eu vou-me embora não saiam "da ordem" e isso é possível quando as crianças sentem- porque a hora se coagidas, sem ativa, na verdade, sem a oportunidade de, (agora) muitas vezes, expressarem-se. é da escola. Interessante observar que OS sentidos construídos, neste texto, vêm ao encontro daqueles apresentados e analisados por Assolini De tudo que estamos discutindo até aqui, texto "A escola" (2003), A festa de aniversário de Juquinha. Porém, que poderia ser ilustra com tamanha coerência OS sentidos tecidos, por nós, em entendido como uma crítica à concepção escolar em relação àquilo diálogo com outros autores, sobre as atividades permitidas e proi- que pertence, ou, não ao seu espaço, logo, ao espaço infantil, é bidas neste lugar. deixado de lado pelo livro didático e suas questões parafrásticas. O As primeiras estrofes começam mostrando as brincadeiras in- mesmo pode ser observado no recorte abaixo, em relação à inter- fantis e O movimento que elas sugerem (futebol, queimada, pipa, pretação das atividades relacionadas à instituição escolar. pega-pega, esconde-esconde e a boneca sapeca). Sabemos que ati- Texto 3 vidades que sugerem barulho, diversão, movimento, dinâmica, Este texto foi retirado do livro Porta Aberta série, de Bra- assim como O aluno "sapeca" não são bem-vindos à instituição es- gança e Carpaneda. colar, a qual preza pela ordem, silêncio, atenção, quietude, obedi- Minhas férias, pula uma linha, parágrafo. ência. Continuando a leitura, chama-nos a atenção verso "caná- Christiane Gribel rio na gaiola", pelo fato de que para muitos alunos a escola é vista O primeiro de aula é dia que eu mais gosto em segundo como uma prisão, uma gaiola. lugar. O que eu mais gosto em primeiro é último, porque no dia Como sabemos, para a AD a seleção das palavras não é neu- seguinte chegam as férias. tra, então, causa-nos estranhamento O uso da palavra gaiola, assim Os dois são melhores dias na escola porque a gente nem te como verso anterior "eu no armário", pois para nós, OS sentidos aula. No primeiro dia não dá para ter aula porque nosso corpo atribuídos a armário e à gaiola destoam do sentido de liberdade está na escola, mas a nossa cabeça ainda está nas férias. E, no atribuídos a futebol, queimada, pipa, à boneca, pega-pega, escon- último, também não dá para ter aula porque nosso corpo está na de-esconde, ciranda-cirandinha, gira a roda, pula a bola. Somos le- escola, mas a nossa cabeça já está nas férias. vados a interpretar que há uma oposição semântica entre liberdade Era primeiro dia e era para ser a aula de português mais era e prisão, considerando a liberdade ligada às brincadeiras infantis e porque todo mundo estava contando das férias. E como todo mundo a prisão às atividades escolares. Essa leitura é confirmada pelo fi- queria contar mais do que ouvir, O barulho na classe estava mesmo nal do texto, quando "toca 0 sino" e a criança vai embora, porque a ensurdecedor. O que explica fato de ninguém ter escutado a pro- Leitura e escrita: no caminho das linguagens Leitura e escrita: no caminho das linguagens38 39 livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido didático na sala de aula: a legitimação do sentido fessora gritando para a gente parar de gritar. Todo mundo estava relacionados às férias, justificando em seguida motivo de sua bem surdo mesmo. Mas quando ela bateu com OS livros em cima da preferência, "Os dois são melhores dias na escola porque a gente mesa a nossa surdez passou e todo mundo olhou para ela. Ela es- tem aula". Este trecho permite-nos entender a concepção de tava em pé, na frente do quadro e ficou em silêncio, com uma cara aula que a criança tem como algo que é extremamente desinteres- bem brava, olhando para a gente. sante e que não é prazeroso, uma vez que O melhor mesmo é estar Quando um professor está em silêncio com uma cara bem brava all sem ter a necessidade de "ter aula". olhando para você, é melhor também ficar em silêncio com uma A aula não é um momento de interação e descobertas em gru- cara de sem graça olhando para um ponto qualquer que não seja a po, não é um aprendizado prazeroso, em que as crianças podem cara brava do professor. dialogar e se expor. É O momento em que uma pessoa, a professo- A professora puxou a cadeira dela e se sentou. fala, enquanto todos OS outros, devem ficar em silêncio, fazen- Atrás dela, no quadro-negro, eu vi decretado fim das nossas fé- do as atividades que a professera solicita. Este é mais um exem- rias e fim do nosso primeiro dia de aula sem aula. Estava escrito: plo do discurso autoritário, (c.f.Orlandi, 1996), tão freqüente em Redação: escrever 30 linhas sobre as férias. nossas escolas. Quando a gente transforma as nossas férias numa redação, elas O aluno não se sente à vontade dentro da sala de aula, parece não são mais as nossas férias, são a nossa redação. Perdem toda a estar deslocado, de certa maneira rejeitado e excluído, de maneira graça. [...] que não consegue interagir e participar, pois a escola é um mun- De repente as nossas férias ficaram silenciosas. Onde já se viu do do qual ele não faz parte. Podemos, então, afirmar que texto férias sem barulho? também traz uma concepção de escola que não considera 0 aluno, E, além do mais, eu tenho certeza de que a professora nem quer de modo que ele não pode falar, a menos que alguém, no caso, a saber de verdade como foram as nossas férias. Ela quer só saber como professora, solicite que ele faça. é a nossa letra e se a gente tem jeito para escrever redação. Aqueles Os alunos estavam querendo compartilhar que haviam feito dois meses inteirinhos de despreocupações estavam prestes a virar 30 durante as férias, "todo mundo queria contar mais do que ouvir", linhas de preocupações com acentos, vírgulas, parágrafos e ainda por mas esse assunto não é permitido dentro da sala de aula, onde se cima com letra legível depois de tanto tempo sem treino. deve discutir as disciplinas que fazem parte do currículo escolar e, com certeza, nele, as férias não estão incluídas, só se for, na forma O texto selecionado é, na verdade, um trecho do livro "Minhas de uma redação. O silenciamento do dizer dos alunos fica marcado férias, pula uma linha, parágrafo", que julgamos ser interessante no momento em que eles são impedidos de se pronunciarem. analisar. Trata-se da narrativa de um aluno, em sua escola, recém A ira da professora, com relação à fala excessiva dos alunos, é chegado das férias, em seu primeiro dia de aula. Ao longo do texto, percebida no enunciado "Mas quando ela bateu com OS livros em menino vai descrevendo, que segundo ele mesmo "era para ser cima da mesa a nossa surdez passou e todo mundo olhou para ela". aula de português" e que, na verdade, acabou virando uma redação E, como podemos notar, silêncio ainda é 0 princípio desta rela- sobre as férias, não por escolha dos alunos e, sim, pela professora. ção, tão hierárquica. No trecho, descaso da professora com a vida Vejamos a análise: no primeiro parágrafo aluno evidencia OS dos alunos é marcante, trazendo à tona a concepção de que toda a seus dois dias preferidos na escola, primeiro e último, ambos bagagem que a criança traz, sua experiência, sua vivência, de nada Leitura e escrita: no caminho das linguagens Leitura e escrita: no caminho das linguagens40 O livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido 41 importa para a escola, como a própria criança percebe e registra no No restaurante seguinte enunciado: "E, além do mais, eu tenho certeza de que a (Autor desconhecido) professora nem quer saber de verdade como foram as nossas férias. O garçom pergunta ao cliente que acaba de entrar no restaurante: Ela quer só saber como é a nossa letra e se a gente tem jeito para - O que senhor toma? escrever redação". O cliente responde: Interessante observar que este texto, de Gribel, parece instaurar Eu tomo uma boa vitamina pela manhã, remédios para com- discurso polêmico, visto que critica uma postura autoritária da bater minha dor nas costas e, aos sábados, uma cervejinha com OS escola, indo contra a ideologia dominante e, para nós, é fundamen- amigos. tal uma investigação acerca dessas questões: Isso significa que de- Acho que senhor não está entendendo diz garçom. Eu fendemos que professor, diante de tal texto, deveria permitir que perguntei que senhor gostaria! OS alunos discutissem tema, apresentassem seus pontos de vista Ahhhh! Eu gostaria de ser rico, de ter uma casa na praia, de sobre as atividades de redação. No entanto, as atividades chamadas viajar bastante. de "estudo do texto", em seguida da apresentação deste, reduzem- O que eu quero saber é que senhor quer para beber! diz se à questões objetivas que possibilitam uma leitura parafrástica, garçom, já irritado. isto é, visam à repetição do sentido do texto, sem promover uma Ah, bom! Deixe-me ver... O que senhor tem? discussão acerca do tema, interditando acesso do aluno ao dis- Eu? Nada não, só estou chateado porque meu time perdeu, curso polêmico (cf. Orlandi, 1996), como podemos observar, nas salário aqui é muito baixo, estou me sentindo sozinho... seguintes questões propostas (cf. Bragança, A; Carpaneda, I: 28): 1- Por que texto foi escrito em linguagem coloquial? Neste texto, temos diálogo entre duas pessoas, garçom e 2- Em que lugar se passa a história? cliente, num determinado estabelecimento, restaurante. O gar- 3- Em que momento foi decretado, realmente, fim das férias? çom parece não "entender" cliente e 0 cliente passa pela mesma situação com garçom. Tais questões, para nós, não permitem a interpretação, tampou- Podemos perceber desencontro entre a fala dos dois envolvi- CO fazem O aluno duvidar da transparência da linguagem e ler dos no diálogo, quando OS interlocutores acreditam numa única sentidos de denúncia que O texto pretende fazer circular. Fingin- forma de interpretação do discurso. do dizer diferente, ou seja, selecionando para livro didático um Perguntas genéricas, que podem dar início a inúmeras respos- texto que denuncia uma situação que está fora da ordem, a saber, a redação sendo usada como castigo, como silenciamento de uma tas, são início da confusão, como podemos ver: "O que senhor toma? O que senhor gostaria? E que senhor tem?". Diante des- discussão, as questões propostas como estudo do texto, rompem sa situação riquíssima, pois apresenta um exemplo dos inúmeros com estes sentidos e promovem, mais uma vez, a paráfrase, aba- fando sentidos de desordem. equívocos que acontecem cotidianamente, pela linguagem, livro didático poderia trabalhar fato de que a linguagem não é transpa- Texto 4 rente, que dependendo do lugar que sujeito deste discurso ocupa, Este texto foi retirado do livro Porta Aberta: Língua Portuguesa diferentes interpretações podem ser feitas, mas ao invés disso, em série, de Bragança e seus exercícios é solicitado ao aluno que identifique "que pontua- Leitura e escrita: no caminho das linguagens Leitura e escrita: no caminho das linguagens42 livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido 43 ção antecede a fala do narrador". Eu desejo trinta mangas. O texto que poderia ser O início de uma discussão acerca da Quantas mangas?! linguagem, que está incompleta e que sempre permite outros sen- Trinta! tidos, apaga tal discussão em virtude dos exercícios que "matam" Mas... só as mangas? texto, de maneira que seja apenas um pretexto para atividades É. Algum problema? estritamente gramaticais. Quando questionado, pelo garçom, so- Não... O senhor é quem sabe! bre que gostaria, cliente não hesita em pronunciar desejos de Realmente sou eu que sei posso continuar pedido? ascensão social, "ser rico, ter uma casa na praia, viajar bastante", Claro! Seja qual for... como se isso fosse garantia de felicidade. Da mesma maneira, gar- Por favor, envie muitas verdes e poucas vermelhas. çom responde a questão do cliente afirmando que não tem nada, Sei... nós temos apenas verde-limão. Serve? "só estou triste porque meu time perdeu, salário daqui é muito Ah... Boa idéia! Aproveite e mande alguns limões e algumas baixo". laranjas. Constatamos, mais uma vez, pela análise das atividades do livro Cor-de-laranja? didático, que as questões de linguagem fundamentais para colocar É lógico! a língua em funcionamento são escamoteadas do contexto escolar, O cliente sempre tem razão... onde vigoram as tarefas de gramática, ortografia, pontuação, enfim, Por favor, você poderia mandá-las numa caixa para não amas- tarefas que não consideram a constituição histórica do sujeito e sar muito? dos sentidos, desprezando, assim toda a exterioridade constitutiva Sem problema algum! O senhor gostaria que já as mandássemos da linguagem. Dessa maneira, sujeitos muitas vezes não se en- passadas? tendem, nem dentro, nem fora da escola. Que absurdo! Quem gosta de manga passada?! Texto 5 O senhor me desculpe, mas eu gosto! Este texto foi retirado do livro Marcha Criança: Português Gosta? Que horror! Se bem que gosto não se discute, não é mesmo? série, Editora Scipione. É. Como senhor quer botões? Deu pano pra manga O quê?? Botões?? A senhora está bitura?! Nunca vi isso na Anna Paula Escobar Freddi e Noemi Paulichenco Loureiro minha vida! Era um dia como outro qualquer na confecção de roupas Fruto Pois fique sabendo que senhor está muito desinformado! Pro- da Moda, até que... vavelmente senhor deve usar apenas camiseta, certo? Triiimmm. Nada disso! E que tem a ver a manga com a camiseta?... Ô- Alô! 00000u, algo está errado... Alô. Tudo está muito estranho... Diga-me uma coisa... De onde fala? Pois não? Fruto da Moda, bom dia! A sua manga tem casca, caroço, fiapo e muito caldo?!... Bom dia! Eu gostaria de fazer uma encomenda. O quê?? Está de brincadeira comigo ou é senhor que está fi- Pode falar. O que 0 senhor deseja? cando biruta? Leitura e escrita: no caminho das linguagens Leitura e escrita: no caminho das linguagens44 O livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido 45 livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido Chiiiii... algo me diz que dei um fora!... O livro analisado era um exemplar do professor e por isso, tem É? Qual? as respostas ditas "corretas" que devem ser repetidas. Para nossa Eu acho que aí não é mercadinho Fruta da Época, é? surpresa, no caso do exercício citado, ao invés de esperar que a Não, aqui não é mercadinho Fruta da Época, não senhor! Aqui resposta mais adequada seja a alternativa sobre OS diversos sig- é a confecção de roupas Fruto da Moda, como eu já disse!!! nificados da palavra manga, livro considera que todo O proble- Ai, minha senhora, perdoe-me a confusão não quero manga de ma aconteceu por um erro na ligação, desprezando, novamente, a camisa, não!... Quero a manga fruta! Que engano! Desculpe-me, questão da linguagem e suas possibilidades de interpretação. sim?! Um professor desatento, ou que não tenha conhecimento dos Claro, isso acontece, até logo! Plec. princípios da AD, não questionará a reposta determinada pelo au- tor do livro e não aceitará a resposta que nós, julgamos que seja Alô! mais adequada neste caso. Da mesma maneira que, dificilmente, Alô. Por favor, eu vi um anúncio no jornal e gostaria de saber tal professor aceitará se um aluno apresentar-lhe outra resposta quanto vocês esão cobrando pela fazenda. que não a selecionada pelo livro do professor. Qual a metragem? Considerações finais Apenas mil alqueires. Compreendemos que podemos fazer, neste momento, uma re- O quê??? Pleft! flexão sobre estudos realizados ao longo deste trabalho, a partir Realmente não era um dia como outro qualquer na confecção de dos textos analisados, embasados na teoria da Análise do Discurso roupas Fruto da Moda... de 'linha' francesa. Consideramos pertinente expor que não temos respostas para todas as questões ou, então, fórmulas prontas, uma Pelo telefone, dois sujeitos iniciam um diálogo que tem, no fio vez que este trabalho visou à reflexão da prática pedagógica dentro discursivo, uma mesma palavra, manga, usada com sentidos dife- de sala de aula, por parte dos professores que têm sua atividade rentes. Enquanto um se refere à manga como fruta, outro a rela- profissional baseada na repetição do livro didático. Entendemos ciona como a manga de camisa. O texto joga tempo todo com a que livro didático deva ser fonte constante de diferentes estudos, polissemia desta palavra, que permite essas interpretações. Neste visto a importância que este material pedagógico assume dentro de texto, julgamos interessante trazer para a análise um dos exercícios sala de aula, como um instrumento de ensino que, a maioria dos propostos pelo livro, que poderia explorar a questão da polissemia professores usa para ancorar-se, ao realizar seu trabalho. da palavra, mas... Dos cinco textos selecionados, podemos notar, de diferentes Vejamos O exercício: formas, a maneira como a ideologia dominante está presente e faz "Assinale com um X a alternativa que mostra a causa de toda a parecer natural OS sentidos que já foram legitimados pela classe confusão no texto "Deu pano pra manga": dominante e que, por isso, devem continuar a circular, criando ( ) Estabelecimentos com nomes parecidos. a ilusão de que sempre estiveram lá. Sendo assim, pelo efeito ( ) Palavras com diversos significados. da ideologia, OS sujeitos não se dão conta de que estão sendo ( ) Discagem de número do telefone incorreto". interpelados por um dizer dominante que determina que pode e deve ser dito e que, da mesma maneira, oculta e silencia sentidos Leitura e escrita: no caminho das linguagens Leitura e escrita: no caminho das linguagens46 O livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido livro didático na sala de aula: a legitimação do sentido 47 que não devem circular em dadas formações discursivas. lingua portuguesa. (1997). Brasília: MEC/SEF. Os livros didáticos não devem ser consumidos como objetos CORACINI, Maria José R. O livro didático nos discursos da lingüística aplicada e da perfeitos e sem erros, mas também, não devem ser queimados em sala de aula. Interpretação, autoria e legitimação do livro didático: língua materna e fogueiras. O que precisa ser feito, e isso é de extrema importância, língua estrangeira. (1999). Campinas: Pontes, é disponibilizar para professor acesso ao arquivo que possibilite FARIA, Ana Lúcia G. de. Ideologia no livro didático. (2002). São Paulo: Cortez. fazer a leitura que estamos, por exemplo, propondo neste trabalho. FIORIN, José Luiz. Linguagem e Ideologia. (1993). São Paulo: Editora Ática. GRIGOLETTO, Marisa. Leitura e funcionamento discursivo do livro didático. In: Uma leitura questionadora, sócio-histórica, que duvida da transpa- CORACINI, Maria José Rodrigues Faria. Interpretação, autoria e legitimação do livro rência dos sentidos e não aceita a linguagem como sendo neutra, didático: língua materna e lingua estrangeira. (1999). Campinas: Pontes. que pode perceber OS tantos outros sentidos que estão silenciados, ORLANDI, E.P. Discurso e leitura. (1993). São Paulo: Cortez; Campinas: Editora da motivo desse apagamento, que não acontece por acaso. UNICAMP, Defendemos que está nas mãos dos professores deixar que OS ORLANDI, Eni Puccinelli. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. livros ampliem ou limitem horizonte dos alunos, pois eles darão, (1996). Campinas: Pontes, ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de discurso: princípios e procedimentos. a partir da sua experiência enquanto educadores, a partir do que Campinas: Pontes. acreditam ser melhor para seus alunos, a direção do caminho a ser PACÍFICO, Soraya Maria Romano. Os fios significativos da história: leitura e percorrido. intertextualidade. (1996). Dissertação de Mestrado. Faculdade de Ciências e Letras Criamos efeito de sentido de fim... É difícil parar de escre- da Universidade Estadual Paulista-UNESP: Araraquara. ver quando sabemos que tanto há para ser dito, tantos dizeres que PACÍFICO, Soraya Maria Romano. Argumentação e autoria: o silenciamento do foram silenciados em nossa trajetória, até aqui, desde OS tempos dizer, (2002). 190 p. Tese de Doutorado. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto / USP. da pré-escola. Agora, na posição de futuro professor, que temos a PÊCHEUX, M. Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra oportunidade de perceber que podemos dizer e assumir um lugar de Michel Pêcheux. (1993). IN: GADET, F. e HAK, T. (org.) Campinas: Editora da que deve possibilitar O dizer do outro, do nosso aluno, entendemos UNICAMP. que não faz sentido ficar na repetição, no discurso pedagógico do PÊCHEUX, M. Ler o arquivo hoje. (1997) IN: ORLANDI, E.P. Gestos de leitura: da tipo autoritário, uma vez que nós, professores e alunos, temos história no discurso. Campinas-SP: Editora da UNICAMP. que falar, não precisamos ser lidos e falados pelo livro didático, SOUZA, Deusa Maria de. Livro didático: arma pedagógica? (1999). In: CORACINI, Maria José Rodrigues Faria. Interpretação, autoria e legitimação do livro didático: nem pelos sentidos autorizados pela classe dominante. língua materna e língua estrangeira. ed. Campinas: Pontes. Livros didáticos analisados Referências bibliográficas Marcha criança: Português: série / Maria Teresa..; [et al.]. Ed. reform. São Paulo: Scipione, 2000. (Coleção Marcha Criança) ASSOLINI, Filomena Elaine Paiva. Pedagogia da leitura parafrástica (1999). 236 Porta aberta: portuguesa / Angiolina Domanico Bragança, Isabella Pessoa de p. (Dissertação de Mestrado. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Melo Carpaneda. São Paulo: FTD, 2001 (Coleção Porta Aberta). Preto / USP). Português: uma proposta para letramento: ensino fundamental (livro 1) / Magda ASSOLINI, Filomena Elaine Paiva. Interpretação e letramento: OS pilares de Soares. São Paulo: Moderna, 1999. sustentação da autoria (2003). 269 p. (Tese de Doutorado. Faculdade de Filosofia, Português: uma proposta para letramento: ensino fundamental (livro 3)/ Magda Ciências e Letras de Ribeirão Preto / USP). Soares. São Paulo: Moderna, 1999. BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Leitura e escrita: no caminho das linguagens Leitura e escrita: no caminho das linguagens

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