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1ª Edição Autoria: Tópicos Especiais em Saúde Lucas Emmanuel da Silva Semeão Luciane Eloisa Brandt Benazzi Deise Frantz Nagel Flaviana Aparecida de Mello EXPEDIENTE EDITORIAL Reitor: Valdecir Simão Direx da Educação Continuada: Felipe Alberto Simas Donato Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Caroline De Freitas Martins Jairo Martins Julia dos Santos Marcio Kisner Marcelo Bucci Norberto Siegel Victor Vinicius Biazon Revisão Gramatical: Diagramação e Capa: Núcleo de educação a Distância Núcleo de educação a Distância V848 Semeão, Lucas Emmanuel da Silva Tópicos Especiais em Saúde/ Lucas Emmanuel da Silva Semeão — Florianópolis, SC: Arqué, 2025. 177 p. ISBN Digital 978-65-5466-527-8 1. Promoção da Saúde. 2. Políticas Públicas. 3. Educação em Saúde. 4. Saúde Mental. CDD 613 FICHA CATALOGRÁFICA SUMÁRIO Capítulo 1 ............................6 Capítulo 2 ...........................33 Capítulo 3 ...........................96 Educação em Saúde e o Cuidado Integral Políticas Públicas e Saúde e o SUS em Perspectiva Saúde Preventiva e a Promoção da Saúde Mental APRESENTAÇÃO Estudar os diferentes aspectos que compõem o campo da saúde é compreender que o cuidado ultrapassa a dimensão biológica e alcança o campo social, psicológico, educacional e político. A saúde, em seu conceito ampliado, envolve não apenas o tratamento de doenças, mas também a promoção do bem-estar integral, a prevenção de agravos e a construção de políticas públicas que assegurem o acesso equitativo e humanizado aos serviços. O livro Tópicos Especiais em Saúde foi elaborado com o propósito de oferecer uma visão abrangente e integrada dos principais eixos que sustentam a atuação do profissional da saúde na contemporaneidade. Seu conteúdo foi cuidadosamente selecionado para proporcionar uma leitura transversal, aplicável a diferentes especialidades da área, fortalecendo o compromisso com uma formação crítica, reflexiva e humanizada. No primeiro capítulo, são discutidas as Políticas Públicas de Saúde e o Sistema Único de Saúde (SUS), abordando seus fundamentos históricos, princípios e diretrizes, bem como os desafios para a consolidação de um sistema público universal e integral. Essa base permite compreender o papel das políticas de saúde como instrumento de cidadania e equidade social. O segundo capítulo apresenta reflexões sobre Promoção da Saúde e Educação em Saúde, destacando a importância das ações preventivas e educativas na melhoria da qualidade de vida e na transformação das práticas de cuidado. Nessa perspectiva, o profissional é convidado a reconhecer o valor da educação como ferramenta essencial para a autonomia e corresponsabilidade de indivíduos e comunidades na construção de uma vida mais saudável. Por fim, o terceiro capítulo trata da Saúde Mental e Qualidade de Vida no Trabalho, enfatizando os fatores psicossociais que influenciam o bem- estar de trabalhadores da área da saúde e de outras categorias profissionais. A discussão amplia a compreensão sobre a saúde mental como parte indissociável da saúde integral e aponta caminhos para o desenvolvimento de ambientes de trabalho mais saudáveis, éticos e equilibrados. O percurso proposto nesta obra permite ao(à) pós-graduando(a) refletir sobre as interfaces entre políticas públicas, promoção da saúde, educação e saúde mental, integrando dimensões essenciais da prática profissional. Espera-se que a leitura deste material estimule o pensamento crítico, amplie o olhar sobre o cuidado em saúde e contribua para uma atuação ética, responsável e voltada ao bem-estar coletivo. Desejo a você uma excelente leitura e um percurso de aprendizagem significativo. 6 DE NEGÓCIOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes objetivos de aprendizagem: Estudar aspectos históricos importantes da evolução dos conceitos de saúde e doença; Entender o modelo biomédico de saúde e doença e suas implicações; Analisar a educação em saúde, conceituando-a e avaliando sua importância na manutenção da saúde; Aplicar os conhecimentos adquiridos sobre a evolução dos conceitos de saúde e doença em contextos históricos específicos; Identificar e discutir as implicações do modelo biomédico de saúde e doença em diferentes cenários de prática; Propor estratégias de educação em saúde para promover a conscientização e a adoção de hábitos saudáveis na comunidade ou em ambientes de trabalho. CAPÍTULO 1 EDUCAÇÃO EM SAÚDE E O CUIDADO INTEGRAL 7 Olá, caro(a) aluno(a), seja muito bem-vindo a esta etapa de nosso estudo! Para contextualizar você com os temas abordados, começaremos, neste encontro, estudando aspectos históricos importantes dos conceitos de saúde e doença. Para começar, faremos um breve delineamento dos conceitos de saúde e doença, onde abordaremos a evolução do conceito de saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS) e sua importância no entendimento de saúde e enfermidade. Acompanharemos a inclusão da espiritualidade enquanto prática importante na manutenção da saúde e trataremos, brevemente, de sua função enquanto promotora e potencializadora da saúde humana. Em seguida, trataremos da visão mágico-religiosa de saúde e doença, num tempo em que estes eram atribuídos a divindades e/ou seres superiores. Entenderemos, ainda, as implicações disso. Nesta época, conforme veremos, a doença era entendida como uma forma de punição/castigo às transgressões cometidas, devendo-se restabelecer os bons laços de relacionamento com a divindade para que se restabelecesse o indivíduo. Em seguida, abordaremos a transição da medicina mágico-religiosa, para uma medicina voltada ao entendimento não sobrenatural das enfermidades, que após vários pensadores, veio a originar o modelo biomédico de saúde e enfermidade. CONTEXTUALIZAÇÃO Capítulo 1 8 Este modelo permitiu grandes avanços que nos trouxeram ao patamar de saúde que temos hoje, embora seja por muitos criticado, pois, conforme estudaremos, contém uma visão reducionista da doença enquanto desequilíbrio compartimentalizado, não se valorizando a integralidade do processo. Para finalizarmos este estudo, conceituaremos educação em saúde, bem como suas implicações para profissionais e pacientes. Assim, convidamos você, aluno(a), para que nos acompanhe nessa jornada, nos colocamos disponíveis para sanar quaisquer dúvidas e lhes desejam os bons estudos. 9 1 1. PERSPECTIVA HISTÓRICA DO ENTENDIMENTO DA SAÚDE Preparar profissionais de saúde é uma tarefa árdua e um tanto complicada, porque envolve não somente o ofício do ensinar, mas também o ensinar a cuidar e colocar em prática a arte do cuidado em saúde. Muitos são os desafios inerentes à prática da educação e muitos também são aqueles inerentes ao cuidado. Porém, em meio a este âmbito tão desafiador, é necessário que os profissionais, tanto de educação quanto de saúde, se posicionem de maneira a obter sempre os melhores resultados, afinal, suas atuações dependem em grande parte da ordem do progresso em que vivemos. Em termos de educação em saúde, pensar em como ensinar os referidos profissionais de saúde se torna um campo complexo de explanação e desenvolvimento do trabalho. Não estamos aqui para sermos doutrinadores na imposição de uma ou outra metodologia mais adequada de ensino ou prática em saúde, o que propomos neste texto é a reflexão crítica de nossas práticas a fim de aprimorá-las. Conceituar saúde e educação é tarefa árdua, uma vez que nenhum dos dois termos possui definição padronizada. Talvez seja por conta do dinamismo e da fluidez com que tais termos sejam renovados a que se deva tal dificuldade. 10 Capítulo 1 Figura 1. Saudável Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: a imagem captura uma mulher ao ar livre, ela está em uma pose com os braços levantados e as mãos tocando a cabeça. Ela está usando um vestido branco com detalhes de renda na parte superior, árvores e folhagem são visíveis ao fundo. 11 Capítulo 1realização, tornou-se um processo de discussão amplo e duradouro sobre política de saúde, engendrando pré-conferências estaduais e conferências específicas, trazendo à tona temas e áreas diversas, como saúde da mulher, da criança, do trabalhador, saúde mental, entre outras, utilizando o Relatório Final da VIII CNS como norteador (ESCOREL, 1999). Assim, a VIII CNS foi um divisor de águas, reestruturando o sistema de saúde do Brasil, bem como serviu para compor parte do texto apresentado na Constituição Federal de 1988, sendo considerada uma das Conferências mais importantes, se não a mais, realizada no país, devido ter sido decisiva para a Reforma Sanitária e criação do SUS. Agora que já transitamos pelo Movimento e a Reforma Sanitária, assim como pela VIII CNS, daremos prosseguimento ao nosso conteúdo e nos debruçaremos sobre o nosso Sistema Único de Saúde, popularmente denominado de SUS. Vídeo Para elucidar a importância do Movimento da Reforma Sanitária e da VIII Conferência Nacional de Saúde para o nosso país, convidamos você a assistir ao vídeo de abertura da VIII Conferência Nacional de Saúde, com a fala do sanitarista Sérgio Arouca, e ao vídeo que conta a história em comemoração aos 30 anos da VIII CNS, produzido pela ENSP/FIOCRUZ. Acesse nos Qr Code ao lado. 1.3 PROCESSO HISTÓRICO DA CONSTRUÇÃO DO SUS Nesse tópico, propomos algo diferenciado do que estamos acostumados a ler e estudar sobre o Sistema Único de Saúde, ou seja, não nos ateremos e discorreremos exaustivamente sobre o seu arcabouço legal e configuração normativa e organizativa e sim apresentaremos um universo mais abrangente, a fim de que você possa ampliar seu olhar sobre o SUS. Capítulo 2 49 Figura 2. A Construção do Sistema Único de Saúde (SUS) Fonte: http://auxiliardasaude.blogspot.com/2017/07/22-promocao-da-saude-e-o-modelo-da.html. Acesso em: 13 de maio de 2020. #ParaTodosVerem: a ilustração apresenta seis pessoas construindo uma casa de tijolos, cada uma desempenhando uma função diferente, como pintar a porta, assentar tijolos, cortar madeira e levantar paredes. Na porta da casa está escrito “SUS”. Desta forma, pontuaremos rapidamente alguns aspectos importantes, uma vez que os marcos regulatórios do SUS são bastante conhecidos. Revisitaremos a história da construção do SUS, por isso a escolha da figura anterior, a qual representa bem o que retrataremos nesta seção. Imagine mais de 140 milhões de pessoas em um local (essa era a estimativa populacional no ano de criação do SUS). Consegue visualizar? É muita gente, não é mesmo? Agora pense que deve ser construído um local para atender toda essa população. É essa analogia que podemos e devemos fazer ao pensar sobre o SUS. Por isso ele é considerado o maior sistema de saúde do mundo, tornando-se referência internacional. Por falar em sistema, você sabe o que significa sistema de saúde? Conforme a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) (2007, p. 317) entende-se por sistema de saúde “o conjunto de entidades encarregadas das intervenções na sociedade que têm como principal propósito a saúde”, sendo que essas intervenções/ações de saúde englobam a assistência às pessoas, com o objetivo de promover, proteger ou recuperar a saúde e/ou reduzir e/ou compensar uma incapacidade irrecuperável. Portanto, os sistemas de saúde são o reflexo dos valores sociais, os quais se expressam institucional e juridicamente, nos quais a formulação das políticas de saúde se enquadra. Capítulo 2 50 Cabe salientar que definição, estruturação (funcionamento e organização) e objetivos de um sistema de saúde são característicos de cada país, conforme o contexto econômico, político e histórico em que está inserido. Ademais, um sistema de saúde, além de prestar serviços em saúde, oferta ações de saúde pública. De acordo com Giovanella et al. (2012, p. 89): Sistema de Saúde é o conjunto de relações políticas, econômicas e institucionais responsáveis pela condução dos processos referentes à saúde de uma dada população, que se concretizam em organizações, regras e serviços que visam alcançar resultados condizentes com a concepção de saúde prevalente na sociedade. Agora que já se apropriou do conceito de sistema de saúde, convidamos você a refletir sobre o SUS. O que significa a expressão Sistema Único de Saúde ou a sigla SUS? Por que ele é único? Para compreendermos, que tal desmembrarmos e analisarmos de forma individual cada termo? S = Sistema: conjunto de unidades, serviços e ações que interagem para um determinado objetivo comum, sendo que os elementos que o compõem são as atividades de promoção, proteção e recuperação da saúde (LIMA, 2016). Assim, o SUS não é uma instituição ou um serviço e sim um sistema, que é formado por várias instituições nos três níveis governamentais e pelo setor privado, o qual é contratado e conveniado, formando um corpus. U = Único: é único porque se refere à unificação de dois sistemas, ou seja, o previdenciário e o do Ministério da Saúde (secretarias estaduais e municipais de saúde) consubstanciada no acesso universal e ao comando único em cada esfera governamental (FIOCRUZ, c2020). Ademais, segue os mesmos princípios organizativos e doutrinas em todo o território nacional (LIMA, 2016). Assim, a ideia de unicidade do SUS nada mais é do que a padronização da organização, com os mesmos objetivos e funcionamento, conforme o modelo nacional. S = Saúde: compreendida como resultante e condicionante de condições de vida, trabalho e acesso a bens e serviços e, portanto, componente essencial da cidadania e democracia e não apenas vista como ausência de doença e objeto de intervenção da medicina (FIOCRUZ, c2020). Pesquisa Seria um sistema, tendo em vista que não funciona como deveria e está ineficiente e ineficaz? É único, uma vez que existe serviço suplementar e privado? E a saúde, já que está voltado mais para a doença? 51 Para Paim (2015), conhecer a sigla em sua forma estendida não significa compreender o seu conceito, uma vez que o SUS é especial, distinto, que não se pode reduzir à junção de três palavras: sistema + único + saúde. Em termos conceituais, a expressão “Sistema Único de Saúde” faz alusão ao formato e aos processos jurídicos institucionais e administrativos que se coadunam com a universalização do direito à saúde. Já em termos pragmáticos, refere-se à rede de instituições (serviços e ações), a qual é responsável em garantir o acesso à atenção à saúde (FIOCRUZ, c2020). Nessa dimensão, o SUS não pode ser considerado um sistema de prestação de serviços assistenciais, uma vez que ele é um sistema complexo, que tem inúmeras atribuições, atuando em diversas áreas, tendo como principal incumbência articular e coordenar ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, com a realização integrada das ações assistenciais e preventivas, conforme preconizado no Art. 5º da Lei nº 8.080/90 (BRASIL, 1990). O Sistema Único de Saúde é definido pela Lei Federal nº 8.080/90 em seu Art. 4º como: [...] conjunto de ações e serviços de saúde prestados por órgãos e instituições Públicas Federais, Estaduais e Municipais, da Administração Direta e Indireta e das Fundações mantidas pelo Poder Público. [...] A iniciativa privada poderá participar do Sistema Único de Saúde (SUS), em caráter complementar (BRASIL, 1990). Capítulo 2 52 Oficialmente, a criação do SUS foi registrada em 1988 na Constituição Federal, mas vimos que a sua concepção (ideia e proposta) se inicia no final da década de 1970, mais especificamente em 1979, por meio do documento A questão democrática na área da saúde, apresentado pelo CEBES no 1º Simpósio Nacional de Política de Saúde, conforme evidenciado no capítulo anterior da nossa disciplina, ou seja, o SUS foi concebido muito antes de 1988, pela sociedade e pela Academia, uma vez que os valores, os princípios, as diretrizes e demais normativas que regem o SUS constavam nesse documento. De quem é o SUS? O SUS, como a Figura 3 do Conselho Nacional de Saúde muito bem indica, é de todos e decada cidadão, sendo a maior expressão de uma política social e democrática. No entanto, cabe lembrar que ainda não há um sentimento de pertencimento por parte da população com relação ao SUS, o que pode ser corroborado quando se evidencia na mídia que os próprios governantes, autoridades públicas, entre outros, são atendidos na rede privada. O próprio Estado valida a expressão de que o SUS é para os pobres, à medida que os próprios servidores não o utilizam. Desse modo, infelizmente, faz parte do senso comum de gestores, políticos, mídia, profissionais de saúde e da população atrelar o SUS ao atendimento daqueles que não têm condições financeiras de pagar um plano privado, ou seja, dos pobres, esquecendo-se que ele é universal e pertence ao povo e não ao governo, como muitos pensam. Capítulo 2 53 Fonte: https://pontocritico.org/12/04/2018/sistema-unico-de-saude-sus-ameacado/o-sus-nao-e-de- nenhum-governo-e-do-povo-brasileiro/. Acesso em: 16 maio 2020. #ParaTodosVerem: a imagem mostra várias mãos coloridas erguidas ao redor de um fundo azul claro. No centro está escrito em letras vermelhas: “O SUS não é de nenhum governo, é do povo brasileiro.” Na parte inferior direita aparece o logotipo do Conselho Nacional de Saúde. A Constituição de 1988, ao instituir a saúde como direito de cidadania e dever do Estado, rompeu com o padrão de política social anterior, marcado pela exclusão de milhares de brasileiros que não tinham acesso à atenção e assistência à saúde, sendo que, após 1988, a atenção e a assistência à saúde passaram a ser ofertadas para essa demanda, o que se tornou a maior conquista social da história do Brasil. ᅠDessa forma, o SUS é assegurado pelo Estado e gerido sob responsabilidade das três esferas autônomas (municípios, estados e União), sendo regulamentado pelas Leis Orgânicas da Saúde (LOS) nº 8.080/90, a qual foi regulamentada pelo Decreto nº 7.508/2011, e pela Lei nº 8.142/90 (BRASIL, 1990a; 1990b; 2011a). Figura 3. O sus não é de nenhum governo, é do povo brasileiro https://pontocritico.org/12/04/2018/sistema-unico-de-saude-sus-ameacado/o-sus-nao-e-de-nenhum-governo-e-do-povo-brasileiro/ https://pontocritico.org/12/04/2018/sistema-unico-de-saude-sus-ameacado/o-sus-nao-e-de-nenhum-governo-e-do-povo-brasileiro/ https://pontocritico.org/12/04/2018/sistema-unico-de-saude-sus-ameacado/o-sus-nao-e-de-nenhum-governo-e-do-povo-brasileiro/ Testes A/B Experimentação Lean Depois de duas décadas de operacionalização do SUS por intermédio de portarias ministeriais, foi publicado o Decreto nº 7.508/2011, o qual é o dispositivo legal no que se refere à organização do SUS, ao planejamento da saúde, à assistência à saúde e à articulação interfederativa (Art. 1º). A partir dele, os serviços de saúde devem ser estruturados na Região de Saúde, em Redes de Atenção à Saúde (com suas respectivas Portas de Entrada), conforme Art. 4º e 5º. Ele também institui o Contrato Organizativo da Ação Pública da Saúde (COAP), que tem como meta organizar e integrar as ações e os serviços de saúde na Região, a fim de garantir a integralidade da assistência à saúde da população (BRASIL, 2011a). Portanto, esse Decreto traz novos conceitos e cria dispositivos. Pesquisas de mercado Entrevistas com clientes potenciais Capítulo 2 54 De forma concisa, a Lei nº 8.089/90 dispõe a organização e o funcionamento dos serviços e ações com finalidade de proteção, promoção e recuperação da saúde, bem como define os objetivos do SUS, que são: a identificação e divulgação dos fatores condicionantes e determinantes da saúde; a formulação de política de saúde destinada a promover, nos campos econômico e social, a observância do disposto no § 1º do Art. 2º desta lei; a assistência às pessoas por intermédio de ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, com a realização integrada das ações assistenciais e das atividades preventivas (BRASIL, 1990a). Ficam também estabelecidos os princípios e diretrizes e algumas determinações com relação ao seu funcionamento. No entanto, após as LOS, ao longo das décadas, diversas normas e pactos foram editados e acertados, objetivando operacionalizar, normatizar e organizar os serviços e ações. Durante a implantação do SUS, o foco estava na descentralização (municipalização) dos serviços, sendo criadas as Normas Operacionais Básicas (NOB), as quais não explicitaremos nesse momento, pois serão elencadas na Seção 3 deste material. Site O Decreto nº 7.508/11 pode ser conferido na íntegra. Acesse o Qr Code ao lado e confira. Capítulo 2 55 Como já colocado, os rumos históricos, especialmente os dos anos 1970 e 1980, possibilitaram uma nova perspectiva para a saúde no contexto brasileiro, fazendo com que o SUS incorporasse os princípios sustentados pela Reforma Sanitária, sendo que a estrutura organizacional e as diretrizes foram inspiradas, em sua maioria, nas políticas de bem-estar social de diversos países (SANTOS; MELO, 2018). Assim, seu tripé de sustentação se constitui nos princípios doutrinários: universalidade (visa à garantia de que todas as pessoas tenham acesso à saúde, a qual deve ser promovida pelo Estado, ou seja, todo cidadão é igual perante o SUS e será atendido conforme as suas necessidades, sem distinção ou restrições e sem custo); equidade (visa combater as desigualdades em saúde no país, embora todos tenham direito à saúde, nem todos têm as mesmas condições de acesso aos serviços de saúde e, desta forma, a maneira de dirimir essa desigualdade é tratar de maneira desigual os desiguais, ou seja, é ofertar mais a quem mais precisa, conforme pode ser visualizado na Figura 3. Como exemplo, podemos citar uma pessoa que necessita de atendimento, mas não pode se deslocar até o local de atendimento, sendo que para isso tem as atividades de atenção domiciliar) e integralidade (pode-se dizer que apresenta dois significados complementares: o da integralidade do cidadão, que considera a pessoa como um todo, atendendo as suas necessidades, e a integralidade das ações a ele dirigidas, sem cisão da prevenção com a cura, abrangendo a promoção, a proteção e a recuperação da saúde. Resumidamente, ver como um todo (holisticamente) e agir nesse todo, integralmente). Cabe salientar que, incontestavelmente, a construção de um sistema de saúde de acesso universal, gratuito, equânime e com atendimento integral é uma demonstração de ousadia em um país com tamanha desigualdade social, bem como uma evolução civilizatória. Vídeo Sugerimos que você assista ao vídeo elaborado pela Fiocruz, o qual conta parte da história da construção do SUS. Acesse o Qr Code ao lado e assista. Capítulo 2 56 O SUS é um sistema público, disponibilizado a toda a população brasileira (universalização) e financiado com recursos arrecadados por meio dos impostos pagos por pessoas físicas e jurídicas. Portanto, podemos inferir que ele não é gratuito, uma vez que é financiado pela sociedade brasileira. Embora ele seja reconhecidamente como público, segundo a Constituição de 1988, os princípios externados na Lei nº 8.080/90 não trazem a administração pública do sistema de forma categórica (SANTOS; MELO, 2018). As opiniões são diversas entre os estudiosos do tema “SUS”. Para Souza et al. (2019), o Brasil não tem um sistema realmente único de saúde e sim dispõe de vários serviços fragmentados, os quais disputam os mesmos recursos, com a oferta de serviços que reflete e reproduz desigualdades sociais, mantendo a iniquidade, desfavorecendo grupos vulneráveis, comprometendo a integralidade da atenção, haja vista a priorização do diagnóstico e tratamento de doenças, em prejuízo à prevenção e à promoção da saúde. Quem usa o SUS? Figura 4. Todos usam o SUS Fonte: http://alvarodegas.blogspot.com/2017/01/vai-pro-sus.html. Acesso em: 17 maio 2020 #ParaTodosVerem: a imagem mostra uma ilustração com quatro figuras humanas estilizadas nas cores azul, amarelo, verde e preto, de mãos dadas ao redor de uma cruz azul, símbolo do SUS. Ao lado da cruz também aparece um cachorro vermelho. Abaixoestá escrito em negrito: “Todos usam o SUS!”. Capítulo 2 57 Estamos acostumados a somente associar o SUS à assistência médico- hospitalar, esquecendo-se que a rede que compõe esse sistema é enorme. Portanto, todos usam o SUS, de uma forma ou de outra, seja por meio da vigilância sanitária, que inspeciona os estabelecimentos comerciais (supermercados, restaurantes, ópticas, farmácias etc.) ou por intermédio dos agentes de saúde, que vistoriam as casas a fim de evitar a proliferação do mosquito Aedes aegypti ou quando ocorre algum resgate pelos bombeiros ou pelo SAMU, por exemplo. Também não podemos deixar de mencionar os diversos procedimentos de média e alta complexidade realizados pelo SUS, como quimioterapia, doação de sangue, transplante de órgãos, doação de leite humano, hemodiálise, medicamentos de alto custo, dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), dos serviços pré-hospitalares de urgência e emergência (SAMU), dos Centros Regionais de Saúde do Trabalhador (CEREST), do acesso livre e universal ao tratamento de HIV, entre outros. Lembrando que o SUS atende aos usuários dos serviços de saúde privados quando necessitam de atenção de alta complexidade. É nítido que são inúmeros os serviços oferecidos pelo SUS, sendo que a rede cresce cada vez mais à medida que são introduzidos novos tratamentos e medicamentos, novas políticas e programas de saúde, entre outros, cuja oferta nem sempre é conhecida pela população. Além disso, dados da Pesquisa Nacional de Saúde, de 2013, estimam que cerca de 75 a 80% da população brasileira é SUS-dependente no que se refere às ações de assistência à saúde (IBGE, 2015). No contexto atual, essa situação, com certeza, deve ter se modificado e esse cenário tende a persistir, sobretudo diante da crise econômica já instalada e intensificada com a pandemia (COVID-19). O que de certa forma seria o ápice do SUS, haja vista o princípio da universalidade, não fosse o despreparo do sistema. Saiba Mais Enfim, como vimos, são várias as áreas em que o SUS atua beneficiando a população. Portanto, ele está em toda a parte, podendo ser considerado patrimônio nacional. Todavia, é pouco conhecido e mal falado por muitos brasileiros, embora, durante a pandemia do coronavírus (COVID-19), parece que aos poucos a população está entendendo o real valor do SUS e compreendendo o significado do princípio da universalização, e nem entraremos no mérito da questão das constantes trocas ministeriais durante a pandemia. Capítulo 2 58 Relativo ao financiamento, não aprofundaremos o tema, visto que somente sobre ele teríamos que reservar um capítulo. No decorrer da disciplina, verificamos que a área da saúde, por parte governamental, sempre foi negligenciada. Desde a criação do SUS, a crise no financiamento da saúde pública no Brasil vigora, pois sabe-se que os recursos destinados a ela são insuficientes para a tarefa de se executar um sistema universal de saúde. Portanto, as mazelas relativas ao financiamento do sistema de saúde brasileiro são recorrentes e o subfinanciamento sempre imperou e, nesse sentido, a insuficiência de verbas está atrelada à qualidade dos serviços ofertados, bem como às políticas de saúde, que recebem recursos limitados. Conforme Silva, Giovanella e Camargo Junior (2020), apesar de, entre 2003 e 2014, ter ocorrido um aumento substancial nos gastos per capita em saúde, por parte do governo, o SUS permaneceu subfinanciado. Dessa forma, o financiamento em saúde nunca foi sufi ciente para que a meta de um sistema universal refreasse as desigualdades sociais e regionais brasileiras. Relatam, ainda, que a política ultraneoliberal, dos dias atuais (governo Bolsonaro), além de impor sucessivos ataques diretos ao SUS, que não somente alteram a sua forma de financiamento, causando sérios riscos econômicos para os estados e munícipios, também desvaloriza o modelo de atendimento que vinha sendo construído até há pouco tempo. Para que seja ofertado um atendimento integral (que envolva promoção, proteção, recuperação da saúde, assim como ações preventivas), o SUS está interligado por uma rede de serviços que segue uma lógica hierarquizada (conforme o nível de complexidade) e regionalizada (articula os serviços de saúde de uma região), permitindo um maior conhecimento ou reconhecimento dos problemas de saúde da população da área delimitada, o que, em tese, favorece ações de educação em saúde, vigilância em saúde, além das ações de atenção ambulatorial e hospitalar. Salienta-se que essa rede também deve estar organizada consoante aos demais princípios organizativos, que são: descentralização (cada nível federativo tem responsabilidades próprias, sendo que de forma contextual, o município tem autonomia para pensar qual é a melhor estratégia para tratar as questões relacionadas à saúde, especialmente para a atenção básica) e participação social (garantia de que a população, por meio de seus representantes, participe de todo processo de formulação das diretrizes e prioridades das políticas de saúde, bem como na fiscalização da sua concretização e no cumprimento dos dispositivos legais e normativos). Para tanto, a participação popular pode ocorrer por intermédio dos Conselhos e Conferências de Saúde, conforme a Lei nº 8.142/90. Capítulo 2 59 Nessa linha de interpretação, há de considerar também que, de modo geral, a saúde não é vista como um direito do cidadão, assim como não há uma tradição em exercer cidadania, o que contribui para que a população não atue como protagonista para a construção e aperfeiçoamento do sistema e das políticas públicas de saúde. O SUS é uma nova formulação política e organizacional para a reorganização dos serviços e ações de saúde, englobando a atenção básica/primária, média e de alta complexidade, a atenção hospitalar, os serviços de urgência e emergência, as ações e serviços das vigilâncias sanitária e epidemiológica, saúde ambiental e do trabalhador, assistência farmacêutica, entre outros (BRASIL, 1990; 2011b). Ademais, ele é um aglutinador de políticas públicas intersetoriais, as quais veremos no próximo capítulo, a fim de prover atenção à saúde da população em todas as suas interfaces. É importante ter em mente que o SUS não é o sucessor do INAMPS ou do SUDS. Ele é um novo sistema de saúde, bem definido conforme a legislação que o rege e, apesar de ter mais de 30 anos, ainda está em construção e aperfeiçoamento, ou seja, não está consolidado. Quanto à consolidação ou não do SUS, Santos (2012) relata que do ponto de vista jurídico-legal, sua implementação pode ser considerada concluída, sendo que a Reforma Sanitária finaliza sua colaboração para um sistema público plenamente instituído. Já sob a perspectiva da real política pública de Estado, o SUS se encontra contra-hegemônico, engatinhando, na implementação das diretrizes constitucionais. Saiba Mais Entretanto, esse último princípio (participação social), atualmente, não está sendo considerado em sua totalidade, o que, de certa forma, contribui para a desestruturação do SUS. Diversas ações são realizadas de forma impositiva, sem a participação da população, apesar de estar prevista tanto na Constituição Federal de 1988 como na Lei nº 8.080/90. Como exemplo, podemos citar a reforma da Política Nacional de Atenção Básica e a imposição de um teto nos gastos públicos. Capítulo 2 60 Outro aspecto a destacar é que na configuração normativa do SUS está explícito que a saúde deve ser ofertada de forma universal e de modo irrestrito, porém não de forma exclusiva, já que pode ser suplementada por serviços privados. Assim como o preceito constitucional apregoa que o serviço de saúde deverá ser público e gratuito, sem que haja prejuízo e busque o serviço privado. Portanto, o sistema de saúde brasileiro é misto (SUS e privado suplementar). Vale lembrar que o SUS não nasceu 100% público, visto que nos Arts. 197 e 199 da Constituição de 1988 há previsão de serviços do SUS realizados por pessoas físicas ou jurídicas de direito privado, sendo a assistênciaà saúde de livre iniciativa privada, mediante contrato de direito público ou convênio (BRASIL, 1988). ᅠTodavia, essas instituições contratadas e conveniadas pelo Estado são regidas por um arcabouço legal específico, sendo a partir daí que esses modelos de gestão se tornam cada vez mais fortalecidos pelo Estado, por meio da Lei nº 9.637/98 e Decreto nº 3.100/99 (criação das Organizações Sociais (OS)), uma vez que a legislação confere benefícios e autonomias para essas entidades (KRÜGER; REIS, 2019). Para o funcionamento do SUS, há que se considerar a definição de quem são os gestores e suas atribuições e a forma como as decisões referentes às políticas de saúde são processadas, atentando-se que o seu funcionamento envolve uma quantidade expressiva de pessoas envolvidas e de serviços (MACHADO; LIMA; BAPTISTA, 2011). Dica de Leitura Quer saber mais ou relembrar a configuração do SUS? Acesse a publicação do Ministério da Saúde: O SUS de A a Z: garantindo saúde nos municípios. Acesse o Qr Code ao lado. Feedback positivo dos clientes Evolução do cenário competitivo Feedback negativo dos clientes Capítulo 2 61 Cabe frisar que o caráter universal do SUS é mais perceptível nas ações de vigilância em saúde, em virtude de que alcançam a população brasileira em sua completude, como o Programa Nacional de Imunizações (PNI), assim como as ações diante das epidemias/pandemias. Outro fato que merece ser ressaltado é que a política de saúde dos anos 1995 a 2002 estava pautada na contrarreforma do Estado, sendo que nesse período prevaleciam dois projetos de SUS. De acordo com Paim (2008), o que estava descrito na legislação e nas normativas vigentes, pautado na universalidade e na responsabilidade do Estado, e o SUS para os pobres, submisso às medidas econômicas, à burocracia e ao clientelismo. Para não nos estendermos, tendo em vista que a história é longa, faremos um recorte e, portanto, daremos um passo à frente para abordarmos de forma mais pontual a temática nos dias atuais. O SUS passou por vários momentos, tempos turbulentos entre 1990 e 1992, tempos de crise financeira e descentralização nos anos de 1993 e 1994, pela luta política até 2015 e pela crise política, instabilidades democráticas e fortes ameaças de desmonte, extinção e privatização, no período de 2016 a 2020. Assim, desde o início, o SUS passou por condições adversas, seja no âmbito político, econômico ou social. Artigo Não há como relatarmos todos os acontecimentos e fatos históricos, por isso indicamos o artigo Políticas de saúde no Brasil em tempos contraditórios: caminhos e tropeços na construção de um sistema universal, de autoria de Cristiani V. Machado, Luciana D. de Lima e Tatiana W. F. Baptista, que apresenta um excelente resumo de 1990 a 2016. Vale muito a leitura. Acesse o Qr Code ao lado. 62 Nesta seção, a linha que traremos para você busca identificar os principais avanços do SUS, obstáculos, desafios, perspectivas e alguns problemas estruturais que afetam seu desenvolvimento e sua consolidação, apresentando os desdobramentos recentes dessa história. Depois que já possibilitamos uma aproximação com o SUS, seus antecedentes e suas raízes, os quais vimos até aqui, é valoroso refletirmos sobre ele, tendo em vista de que se trata de uma história marcante para as políticas de saúde no Brasil, com lutas e inquestionáveis avanços a favor dos direitos e necessidades da população. Para você, o que representa o SUS? Para muitos, ainda é comum relacionar o SUS a longas filas, falta de medicamentos, médicos e leitos hospitalares, atendimento voltado para os pobres, enfim, a elementos e momentos não muito interessantes e alvo de muitas críticas. Não há uma compreensão clara e definida do que é o SUS, pois de modo geral, tanto a população quanto os profissionais de saúde, gestores do sistema, políticos e até mesmo estudiosos sobre o tema, frequentemente confundem-no com serviços de saúde. Há ainda aqueles, em especial os que prestam serviço para o SUS, que o colocam na posição de sujeito, relatando que o SUS paga mal e não o governo, que é o responsável por tal pagamento, ou ainda, que a verba que o SUS envia é pouca, no caso de políticos e gestores (PAIM, 2015). 22. O SUS COMO POLÍTICA DE SAÚDE: DESAFIOS E PERSPECTIVAS Capítulo 2 63 Por isso a importância de se conhecer a história, pois como pudemos constatar no Capítulo 1, isso não é prerrogativa do SUS, pois a debilidade na atenção à saúde, as filas para atendimentos médicos e hospitalares, a dicotomia entre atenção à saúde de pobres e de ricos, assim como o repasse de verbas para a área da saúde e as remunerações não satisfatórias aos profissionais de saúde, entre outras, sempre existiram, desde os primórdios da nossa história. Ressalta-se que existem diversas vertentes relativas ao que é o SUS. Dentre elas, há os que defendem que o SUS é uma política de Estado por ter se materializado na Constituição de 1988, denominada por Ulysses Guimarães como Constituição Cidadã, e por garantir para toda a população o acesso às ações e serviços de saúde. Enquanto que outros asseguram que o SUS é a maior política pública em execução no Brasil, no que se refere à inclusão social. Existem ainda aqueles que o denominam como uma política pública em construção, em um contexto mutável, considerando as dimensões políticas, sociais, tecnológicas e ideológicas. Há quem pense que o SUS é o maior plano de saúde do Brasil e os que o intitulam como política pública brasileira de saúde. Além de todas essas dimensões dadas ao SUS, tem-se a tese de que ele pode ser compreendido como um macrossistema de saúde. Site Sobre o SUS ser plano de saúde, existe uma publicação denominada O SUS pode ser seu melhor plano de saúde. Acesse o Qr Code ao lado. Capítulo 2 64 Tipo de risco Exemplos de riscos Para Paim (2018), o SUS precisa ser visto além de uma política de saúde pública, pois ele é um sistema público e universal de saúde e não um sistema de saúde pública ou parte dele. O mesmo autor relata que a mídia, os conservadores e liberais misturam o SUS com a saúde pública, erro muito comum até mesmo nos setores progressistas. Limitam-no ao controle de doenças, epidemias ou à profilaxia e que poderá, se não houver atuação política a seu favor, vir a se tornar um sistema de saúde pública americanizado, como o Food and Drug Administration (FDA) e o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), que se restringem à regulação de produtos e serviços de interesse para a saúde e ao controle de doenças, assim como voltado para o atendimento da população mais carente. Durante a leitura do material, você pôde perceber que o SUS foi instituído como estratégia, fundamentado na premissa de que a saúde é determinada socialmente, a fim de garantir atendimento integral, com cobertura universal e de forma descentralizada. Também pode-se concluir que ao longo de todo esse período, o país mudou sua conjuntura demográfica, econômica, política, epidemiológica e educacional, porém, não superou as desigualdades sociais e os problemas relacionados à saúde. 2.1 AVANÇOS DO SUS: UMA VISÃO GLOBAL Dica de Leitura O que é o SUS, de Jairnilson Paim, é um e-book interativo da Editora Fiocruz, com edição de 2015. Acesse o Qr Code ao lado para a leitura. Capítulo 2 65 Embora sejam tecidas críticas, a trajetória do SUS é de conquistas. É consenso que nos últimos anos houve avanços perceptíveis, trazendo, desde a sua criação, diversas melhorias para a saúde da população no Brasil. Entretanto, existe uma dicotomia entre as bases jurídicas do SUS, a Constituição de 1988 e a realidade dos serviços ofertados, uma vez que esse sistema inclusivo não conseguiu englobar toda a população, conforme os ideais propostos pela Reforma Sanitária e os preceitos da legislação, visto que parte da população continua ainda fora dele, sendo alocada em planos de saúde privados. Um dos fatores justificadores dessa situação está relacionado à indisponibilidade de serviços ofertados pelo SUS, fazendocom que as instituições privadas logrem “clientes” com condições financeiras favoráveis, a fim de suprir essa lacuna. Na esteira dessa concepção, há uma universalização excludente, pois junto ao acesso, por parte de toda a população, aos serviços de saúde, transcorreu a precarização, resultando na exclusão da classe mais abastada, migrando para o sistema privado (FAVERET FILHO; OLIVEIRA, 1990). De acordo com Silva, Giovanella e Camargo Junior (2020), desde a sua criação, o SUS, apesar de todas as adversidades provenientes do subfinanciamento, ajustes fiscais e pressão do setor privado de saúde, oportunizou a ampliação do acesso à assistência para a população, especialmente no período de 2003 a 2014, durante as presidências de centro-esquerda, em que houve a expansão do acesso aos serviços, juntamente aos avanços sociais, como o Bolsa Família, aumento sistemático do salário mínimo e aposentadoria rural, proporcionando melhorias nas condições de saúde da população. Houve uma expansão da rede pública, principalmente das Unidades de Atenção Básica (UBS), ampliando o acesso a consultas médicas, com diminuição das internações (de 120 para 66/10.000 habitantes), entre 2001 e 2016, bem como essa expansão repercutiu nos indicadores de saúde, com quedas nos índices de mortalidade materno-infantil por doenças transmissíveis e de causas evitáveis, além da diminuição dos casos de desnutrição infantil, por exemplo (SOUZA et al., 2019). Cabe mencionar que o SUS, como já declarado anteriormente, é referência mundial, especialmente pelos programas de transplantes (estabelece fi la única, garantindo equidade ao acesso), de combate ao tabagismo (reduziu de 30% para 15% o percentual de fumantes adultos, apesar de ser o 2º maior produtor de tabaco) e o de HIV/Aids (tornando-se o primeiro país a ofertar medicamentos gratuitamente). Além disso, promoveu diversos avanços, dentre eles a expansão da rede de saúde a todo o país e a redução das taxas de mortalidade e de doenças cardíacas (ABRASCO, 2018). A iniciativa de fornecimento de medicamentos gratuitos e de forma universal, por meio da farmácia básica e da farmácia popular, é outro impacto positivo do SUS (SOUZA et al., 2019). Além disso, temos a implementação da Estratégia da Família (ESF), a qual considera os princípios de universalidade de acesso, atendimento integral e equidade, progressivamente ampliada. Em 2019 foram implantadas mais de 43.000 equipes de Saúde da Família, possibilitando um aumento do acesso aos cuidados de saúde, permitindo estender a atenção básica/primária, operando em todo o território nacional, abrangendo uma diversidade de grupos populacionais. Contudo, todos esses desenvolvimentos estão sendo ameaçados (SILVA; GIOVANELLA; CAMARGO JUNIOR, 2020). O Programa Mais Médicos, instituído em 2013, é outro avanço, uma vez que conseguiu levar profissionais de saúde a localidades de difícil acesso e baixa fixação, beneficiando milhares de pessoas. Recentemente por remodelação, por assim dizer, tornando-se Programa Médicos pelo Brasil (PMPB), lançado em 2019, sendo motivo de controvérsias. Capítulo 2 66 Artigo Quer saber mais sobre o Programa Médicos pelo Brasil? Acesse o artigo Programa Médicos pelo Brasil: mérito e equidade. Acesse o Qr Code ao lado. Capítulo 2 67 Machado e Silva (2019) relatam a ampliação da cobertura de imunização, e com relação ao estado de saúde, observam que o SUS promoveu resultados positivos, uma vez que vários estudos demonstram as reduções nas taxas de mortalidade geral, materna e por doenças infecciosas e morbimortalidade infantil, por exemplo, sendo que esses resultados podem ser atribuídos, em parte, aos programas específicos implementados. Outro aspecto importante a ser realçado é o papel do SUS face aos eventos de emergência de interesse da Saúde Pública, como exemplos mais contundentes no caso do H1N1, Zika Vírus e, mais recentemente, COVID-19, nos quais o SUS coordenou inúmeras ações de vigilância, controle e atenção. Como exemplo simbólico que reforça a importância do SUS podemos citar os testes de COVID-19, que são disponibilizados de forma gratuita à população. Nesse enfoque, o SUS permitiu um progresso substancial no que se refere à cobertura universal de saúde. Entretanto, está sob grande ameaça, visto que o país passa por uma combinação de recessão econômica, crise política, medidas de austeridade mal concebidas e decisões políticas que visam reverter o direito à saúde, ocasionando uma fraqueza estrutural do SUS, ameaçando a sua sustentabilidade (MASSUDA et al., 2018). Em 2018, a Revista Poli fez uma edição especial em decorrência dos 30 anos do SUS, dentre as matérias apresentadas, destacou o SUS em números (informações referentes ao ano de 2017), conforme você pode visualizar na Figura 5. Site Que tal uma pausa? Indicamos o vídeo “O SUS que dá certo”. Há outros vídeos da série SOS SUS. É importante ressaltarmos que o CONASEMS criou a Mostra Brasil, aqui tem SUS para divulgar projetos que transformam a vida de milhões de brasileiros, retratando as experiências exitosas das secretarias municipais de saúde de todas as regiões do país, mostrando o SUS que dá certo. A série já conta com 61 vídeos. Acesse os Qr Codes abaixo e confira. Capítulo 2 68 Fonte: http://www.epsjv.fiocruz.br/sites/default/files/poliweb59.pdf. Acesso em 20 de maio 2020. #ParaTodosVerem: a imagem mostra um cartaz informativo sobre o SUS com o título em destaque e várias estatísticas. Está escrito: “209,2 milhões de habitantes”. “162 milhões dependem exclusivamente do SUS (47,2 milhões têm planos de assistência médica)”. “42.606 unidades básicas de saúde”. “42.660 equipes da Estratégia Saúde da Família, com 67,7% de cobertura no país”. “596 UPAs”. “322.336 hospitais”. “1.355 hospitais psiquiátricos”. “133 equipes de Consultório na Rua”. “2.572 CAPS”. “436.887 leitos”. “3.307 ambulâncias”. “17.140.238.126 remédios distribuídos gratuitamente”. “69.347.167 procedimentos cirúrgicos”. “299.722.519 atendimentos de urgência e emergência”. “11.661.095 partos realizados, destes 1.272.411 via cesariana”. “26.329 transplantes”. “24.522.206 procedimentos odontológicos, incluindo 2.722.675 tratamentos de câncer, 4.020.084 consultas oftalmológicas e mamografias”. “93.200.938 sessões de quimioterapia e radioterapia”. “548 mil pessoas em tratamento por HIV/Aids, de um total de 694 mil diagnosticados”. “120.276.470 doses de vacinas aplicadas, de 25 diferentes tipos”. “220 bancos de leite humano, com 169 postos de coleta com 1.513.482 atendimentos individuais”. “2.857.800 internações”. “R$ 131.253,8 bilhões de orçamento do governo federal para a saúde em 2019”. “R$ 256.352,7 bilhões em gastos totais público, financiado pelos três níveis de governo”. “R$ 1.320,48 gasto público por habitante (ou US$ 331,74)”. Figura 5. SUS em números Capítulo 2 69 Com base na Figura 5, podemos constatar a imensidão dos benefícios, uma vez que mais de 17 trilhões de medicamentos foram distribuídos, mais de 69 milhões de cirurgias foram realizadas, mais de 120 milhões de doses de vacinas foram aplicadas, mais de 42 mil unidades básicas de saúde estão espalhadas pelo país e assim por diante. Cabe salientar que todos esses esforços e avanços ajudam na construção de uma rede de cuidados sob a tutela do SUS, que ainda atende de forma parcial às necessidades da população, mas que ocasionam grande impacto nas condições de vida, auxiliando, na medida do possível, na redução das desigualdades e iniquidades. Entretanto, há de se considerar que todos os ganhos conquistados durante as mais de três décadas de existência do SUS não são perenes, necessitando, desta forma, defendê-lo e acima de tudo lutar para que sua construção não desmorone. Na prática, o que se observa do SUS, apesar de todos os avanços, além da falta de investimentos na rede de atendimento e o sucateamento, é o acesso universal à saúde cada vez mais comprometido. O sistema, apesar de ter sido pensado para atender toda a população brasileira, não comporta taltarefa, favorecendo a invasão dos serviços terceirizados. Outrossim, carece de recursos humanos e a formação de profissionais para trabalhar no sistema, uma vez que o ensino da área da saúde ainda está voltado para o modelo flexneriano (biomédico). Veremos as dificuldades e os desafios do SUS mais detalhadamente no próximo tópico. Dica de Leitura Indicamos a leitura do artigo SUS: oferta, acesso e utilização de serviços de saúde nos últimos 30 anos, de Francisco Viacava et al. Acesse o Qr Code ao lado para a leitura. 70 Desde sua gênese, o SUS é alvo de inúmeras medidas políticas e econômicas que o desvirtuam da sua concepção original, o que acaba gerando empecilhos para o seu desenvolvimento, além de incutir na população uma visão desfavorável, especialmente por parte da mídia, que faz questão de enaltecer suas mazelas, contribuindo ainda mais para diminuir sua credibilidade. O primeiro desafio do SUS foi referente a sua implantação, a qual não se realizou de forma pragmática, esbarrando em diversos obstáculos. O momento político e econômico dos anos 1990 não era favorável à ampliação de direitos sociais, no qual imperava a individualidade, o consumismo, a supercapitalização, a contenção de gastos sociais, a privatização de setores públicos e, por conseguinte, sustentar o projeto da Reforma Sanitária não era tarefa fácil. Um aspecto que contribui para que o SUS não atinja seu princípio da universalização em saúde, dentre tantos que poderíamos citar, é a dificuldade da integração entre as esferas governamentais no tocante ao sistema de saúde, que, por consequência, compromete o acesso aos serviços, impossibilitando que a população usufrua dos seus direitos constitucionais em saúde, especialmente ao direito universal e equitativo, denotando discrepância entre o SUS real e o constitucional. Apesar das inúmeras conquistas registradas, nenhum governo priorizou o SUS, de fato. Assim ele apresenta grandes entraves, enfrenta críticas, é alvo de discussões, oferta serviços de baixa qualidade em boa parte de suas unidades de saúde e suporta o peso das cargas trazidas pelas modificações dos perfis demográfico (aumento da expectativa de vida e envelhecimento populacional) e epidemiológico (expansão de doenças, como dengue, zika, sarampo e, atualmente, COVID-19), bem como pelas transformações sociais e econômicas. Conforme Paim (2018), as bases de sustentação política do SUS sempre foram vistas com preocupação, desde as origens do movimento sanitário, sendo que o CONASS e o CONASEMS, com os conselhos estaduais e municipais, permitiram a ampliação da base de apoio, assim como o Conselho Nacional de Saúde (CNS) tem mobilizado grupos sociais, confrontando determinadas iniciativas governamentais, e a expansão dos gestores municipais de saúde que também têm fortalecido as bases políticas e sociais. 2.2 SUS: PRINCIPAIS DESAFIOS, AMEAÇAS E PERSPECTIVAS Capítulo 2 Capítulo 2 71 Nesse sentido, o SUS vivencia os efeitos das disputas e tensões políticas desde sempre, passando por uma série de emendas, leis, portarias, decretos e normas que nem sempre favorecem o seu projeto inicial. Na concepção de Paim (2018), a situação do SUS piorou muito, seja devido à Emenda Constitucional 95 (EC 95/2016), seja pelo golpe de Estado em 2016, ou pelas ações desastrosas do Ministério da Saúde. Ele ressalta também que, enquanto ocorrem mudanças relevantes no perfil demográfico e epidemiológico populacional, há uma redução de recursos para o SUS, por parte do governo federal, indo contra aos direitos constitucionais. Ademais, informa que a maior ameaça de todas é a privatização da atenção por meio da financeirização do setor saúde. Na atualidade, existe um esforço obscuro e negativo, que salta aos olhos, pelo desmonte do SUS, o que seria um retrocesso. Ressalta-se que, se antes o cenário era de subfinanciamento, agora temos uma conjuntura de desfinanciamento, com a aprovação da EC 95/2016. Dentre as medidas que expressam esse desmonte do SUS, podemos citar: a EC 95, que limita o crescimento das despesas primárias à taxa de inflação durante 20 anos; a revisão das diretrizes da Atenção Básica em sentido contrário à perspectiva integradora da Atenção Primária à Saúde; a redução significativa do Programa Farmácia Popular, entre outras (KRÜGER, 2019). Paim (2018) relata que dentre os obstáculos estão aspectos negativos, como os valores dominantes da sociedade brasileira, calcados para o individualismo, diferenciação e distinção em oposição à coletividade, igualdade e solidariedade, associado pelas limitadas bases políticas e sociais do SUS, uma vez que não conta com a força de partidos e com o apoio de trabalhadores organizados em centrais e sindicatos que defendam os direitos à saúde. Associado a isso, é possível, ainda, apontar a insuficiência da estrutura pública, as dificuldades com a montagem de redes na regionalização, a falta de planejamento ascendente, os impasses para que os modelos de atenção e práticas de saúde sejam alterados e o modelo médico centrado na doença, no tratamento, no hospital e menos na comunidade e na atenção básica. Planilhas Softwares Capítulo 2 72 Figura 6. Análise de investimentos Fonte: https://pfarma.com.br/noticia-setor-farmaceutico/saude/1874-saude-publica-ainda-sofre- com-recursos-insuficientes.html. Acesso em: 20 maio 2020. #ParaTodosVerem: a imagem mostra uma charge com médicos em volta da sigla “SUS” deitada sobre uma mesa de cirurgia. Um deles diz: “Para o SUS ficar bom, precisa melhorar a gestão”. Outro afirma: “Na minha opinião, falta uma boa dose de recursos”. Um terceiro comenta: “Precisa é ampliar o acesso com qualidade”. E o último acrescenta: “É melhor um coquetel com todos esses remédios”. A Figura 6 retrata muito bem a situação do SUS, ou seja, o diagnóstico é sabido, cada um tem uma sugestão para o seu tratamento e ninguém chega a um prognóstico. Saiba Mais Salienta-se que sempre que ocorre uma data significativa, como 15 anos, 20 anos, 25 anos e 30 anos de SUS, surgem inúmeras publicações científicas ou não, entrevistas, reportagens, entre outras, fazendo análises críticas, avaliações positivas e/ou negativas, balanços, apontamentos das conquistas, desafios e perspectivas. Ao tomarmos conhecimentos sobre elas, a retórica é a mesma, ou seja, o tempo passa e as adversidades são sempre as mesmas. Como não é possível discorrermos sobre os resultados encontrados, sugerimos que você busque nas bases de dados científicas, ao menos, uma publicação de cada marco histórico, a fim de uma reflexão crítica. Capítulo 2 73 Existem diversos entraves que afetam a evolução do SUS, dentre eles, tem-se a gestão ineficiente, que se retroalimenta com o financiamento insuficiente, isto é, um coloca a culpa no outro e que, consequentemente, recai na qualidade do atendimento, denegrindo a imagem do SUS. As condições precárias dos equipamentos, a infraestrutura física, muitas vezes em péssimo estado, e os recursos humanos insuficientes e mal capacitados para atender à população são problemas recorrentes. Congruente a isso, temos a pouca valorização salarial para os profissionais da saúde, que é reflexo de uma gestão inoperante. Nessa linha de raciocínio, é premente a melhoria no que se refere à qualificação profissional para que haja acolhimento e qualidade nas práticas, ofertando à população um atendimento humanizado por meio de uma equipe onisciente, suscitando em uma atenção mais resolutiva. Outrossim, há a carência de inovações tecnológicas, as quais esbarram em uma cultura organizacional que nem sempre está alinhada com a realidade tecnológica, mostrando-se resistente ao novo. Assim, torna-se indispensável a implantação da informatização das informações de saúde onde ainda não tem, assim como a implementação e a incorporação dessas em toda a Rede. Embora o prontuário eletrônico e os Sistemas de Informação da Saúde (SIS) já existam, podem ser considerados obsoletos, assim como o agendamento on-line, que pouco funciona. Portanto, urge umatransição de um SUS analógico para um digital. Vídeo Sob o prisma da integralidade, o encontro das práticas formativas com as práticas de atenção e gestão no SUS é um desafio a ser alcançado e para que o processo de capacitação dos profissionais seja realizado, tem-se a Educação Permanente em Saúde, na tentativa de romper com o modelo hegemônico de capacitação, por meio da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS), do Sistema Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) (https://www.unasus.gov.br/.) e do Ambiente Virtual de Aprendizagem do SUS (AVASUS) (https://avasus.ufrn.br/), por exemplo. Assista ao documentário elaborado pelo Conselho Federal de Enfermagem alusivo aos 30 anos de SUS. Acesse o Qr Code ao lado. Capítulo 2 74 Outro ponto a ser ressaltado é a pouca participação popular no controle social, condição fundamental para que ocorram avanços e que os princípios do SUS se consolidem. De acordo com Souza et al. (2019), para o aprimoramento do SUS, há a necessidade de adotar estratégias e táticas específicas, sendo que no âmbito das políticas de saúde, o desafio é a reorientação do modelo de atenção à saúde, superando o modelo biomédico e mercantilista, com o propósito de fortalecer as práticas de promoção da saúde, articulando as ações intersetoriais, além de ampliar a cobertura, melhorando a qualidade das ações de diagnóstico, tratamento e prevenção das doenças. Assim, é essencial garantir a primazia da política de saúde sobre os interesses comerciais, colocando o complexo produtivo a serviço do SUS. Na concepção dos autores supracitados, outro desafio que se refere ao fortalecimento do SUS está relacionado à melhoria da sua eficiência, sendo que a profissionalização e publicização da gestão, a regionalização da saúde e a política pessoal são as questões que se destacam. Por último, relatam o financiamento e a insuficiência de recursos, que é de conhecimento de todos. Uma outra questão emergente se refere aos altos índices de desemprego, desencadeando o cancelamento de muitos planos privados, sobrecarregando os serviços públicos de saúde. Nesse sentido, as dificuldades e os desafios são inúmeros a serem enfrentados pelo SUS no século XXI, pois é um sistema de saúde em constante construção e que acompanha o desenrolar da história social e econômica do país. Além dos desafios já citados, podemos acrescentar e ratificar os seguintes: visão hegemônica de que saúde é gasto e não investimento; taxa de gasto público com a saúde abaixo da média mundial; escassez de profissionais; má distribuição dos médicos entre os níveis de cuidados de saúde e zonas geográficas; reserva de mercado; desigualdades regionais; dificuldades em implantar/implementar a descentralização dos serviços de saúde; dificuldade/falta de integração da atenção básica à rede; necessidade de melhorias no atendimento de média complexidade; falta de compreensão dos princípios e campo de atuação do SUS por parte da população; falta de engajamento da população por seus direitos; judicialização; renúncia fiscal; reformas trabalhistas e previdenciárias; falta de vontade política, entre outros. Contudo, o maior desafio a ser enfrentado pelo SUS é político- ideológico. Capítulo 2 75 Como vimos, o SUS passou por inúmeros períodos históricos turbulentos, sobreviveu (e continua sobrevivendo) a diversos ataques ao longo de sua história, sempre ligados ao financiamento e, apesar de todas as dificuldades enfrentadas, permanece como parâmetro para outras democracias. Recentemente foram impostos novos desafios ao SUS, como no caso da pandemia COVID-19, que assola o país, associado às restrições orçamentárias em todos os níveis de atenção, infelizmente, não se vislumbra um horizonte promissor. Destarte, nesses mais de 30 anos, o SUS passou pelas fases de crescimento e amadurecimento, mas desde o início, o seu maior desafio a ser vencido, além do financiamento ou subfinanciamento, é o de abarcar toda a população, seguido pela ampliação do acesso as suas ações e serviços. O maior desafio do SUS é político. É político o desafio de torná-lo único. É político o desafio de fazê-lo efetivamente público, democrático, integral e igualitário. Não só porque o SUS tem a ver com o dever do Estado e o direito dos cidadãos em relação à saúde, nem porque necessita alargar as bases sociais, políticas e ideológicas em sua defesa, a partir de uma consciência sanitária crítica. É político porque lida com a questão do modelo de desenvolvimento, com as desigualdades (sociais, raciais, étnicas, de gênero etc.), com a articulação público- privada, com a democratização da atenção à saúde, com o complexo econômico e industrial da saúde, com a questão ambiental na cidade e no campo, com o orçamento e a disputa dos fundos públicos face aos interesses do capital financeiro (PAIM, 2018, s.p.). Vídeo Convidamos você a assistir ao vídeo em que Jairnilson Paim faz uma leitura dos 30 anos do SUS. Acesse o Qr Code ao lado e assista. Capítulo 2 Dica de Leitura Relativo à pandemia e aos desafios a serem enfrentados, propomos a leitura do artigo Pandemia do Coronavírus e Atenção Primária: reflexões sobre os desafios dos gestores. Acesse o Qr Code ao lado para a leitura. 76 Assim, os desafios são gigantes, proporcionais ao tamanho do SUS, sendo imperativo que mudanças sejam realizadas a fim de garantir a sua permanência como um sistema público, gratuito e universal, visando ao cuidado integral de toda a população residente no Brasil, de forma resolutiva e equânime. 2.3 CONTEXTO ATUAL DO SUS: ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS E PERSPECTIVAS Artigo Não deixe de ler o artigo A saúde nos governos Temer e Bolsonaro: lutas e resistências. Acesse o Qr Code ao lado para a leitura. Estudos realizados pelo Banco Mundial (2017; 2018) geraram um relatório com propostas de reformas para o SUS, indicando que existem oportunidades para aperfeiçoar a gestão do SUS e de ampliação da eficiência no uso de recursos públicos, assim como sugere a expansão da cobertura de atenção básica (atenção primária à saúde) e o seu fortalecimento como porta de entrada do sistema de saúde; o desenvolvimento de redes integradas de atenção à saúde; e a introdução de novos arranjos de gestão e governança, aumentando a autonomia, a flexibilidade e a eficiência de provedores. Também propõe a expansão de serviços privados de saúde, entre outras sugestões. Capítulo 2 77 Relativo às futuras ações de saúde sob o novo governo do Brasil, não foi constatado, inicialmente, nenhum plano, bem como algumas atitudes chamam a atenção, como a rejeição do uso das expressões “incluindo acesso universal a serviços de saúde sexual e reprodutiva” e “a exclusão de serviços de saúde sexual e reprodutiva de programas de cobertura universal de saúde”, durante a 63ª sessão da Comissão sobre a Situação das Mulheres, da ONU, em março de 2019, relatando que essas políticas podem promover o aborto. Temos, ainda, a proibição de ilustrações em folhetos distribuídos a adolescentes que fornecem instruções de como usar preservativos e a recusa do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos em adicionar a comunidade LGBTQ+ como um grupo explicitamente protegido, afirmando que as políticas de diversidade ameaçaram a família brasileira (CASTRO et al., 2019). Ademais, o que se via nos discursos iniciais do ex-ministro Henrique Mandetta era o de caráter privatista, modificando-se ao longo da pandemia de COVID-19 (CEBES, 2019). Site Enfim, o relatório é bem polêmico, pois o Banco Mundial é uma instituição financeira internacional que atende aos interesses do setor privado e efetua empréstimos a países em desenvolvimento. Isso gerou notas das principais entidades em defesa do SUS, como CEBES e ABRASCO. Confira o relatório com as propostas apresentadas pelo Banco Mundial para a reforma do SUS. Acesse os Qr Codes abaixo respectivamente para a leitura. Capítulo 2 78 Importante Salienta-se que durante a elaboração desse material houve a troca de ministros, sendo que Nelson Teich assumiu apósa saída de Mandetta, permanecendo por um curto período e que, nesse momento (setembro de 2020), o ministro interino da Saúde é o general Eduardo Pazuello. É importante realçar que o desmonte do SUS é um processo que vem acontecendo a longo prazo, tornando-se mais intenso no atual governo. Polêmica O que se vê e escuta na mídia é que o atual governo quer de fato desmantelar o SUS e com suas medidas vem demonstrando que isso é um real interesse. Dentre as medidas tomadas, até o presente momento (setembro de 2020), temos a substituição do Programa Mais Médicos pelo Programa Médicos pelo Brasil, que, de forma controversa, reforça alguns inimigos da saúde coletiva, como a hegemonia da categoria médica, a inserção de elementos privatizantes tanto na assistência como na gestão, a flexibilização das leis trabalhistas, o apagamento da participação social e a agenciação da administração pública, sob o pretexto de avanço, desenvolvimento e modernização (CEBES, 2019). Relativo à Política de Saúde Mental, por meio da Nota Técnica nº 11/2019 do Ministério da Saúde: “Nova saúde mental”, há a defesa da retomada de que o número de leitos sejam ampliados em hospitais psiquiátricos, passando a considerar as comunidades terapêuticas como dispositivos das redes de atenção psicossocial a serem financiadas pelos SUS, assim como, no que se refere à Política Nacional de Álcool e Drogas, há uma condução para o proibicionismo, priorizando as internações, em detrimento do cuidado na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), agindo na contramão do que foi construído até então na lógica da Reforma Psiquiátrica Brasileira (CEBES, 2019). Capítulo 2 79 Mudanças também ocorreram no modelo de gestão de políticas para a saúde indígena. Inicialmente, seria extinta a Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde, mas o governo voltou atrás devido à mobilização das comunidades indígenas e oposições de outros gestores do SUS (CEBES, 2019). Contudo, o Decreto nº 9.795/2019 (não específico para a saúde indígena) extingue o Departamento de Gestão da Saúde Indígena, responsável pela garantia das condições necessárias à gestão do subsistema, programando a aquisição de insumos e coordenando as unidades de atendimento (BRASIL, 2019b). Outra medida é o novo modelo de financiamento da Atenção Primária à Saúde (APS) no âmbito do SUS, denominado de Programa Previne Brasil, instituído pela Portaria nº 2.979, de 12 de novembro de 2019. Segundo a Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS), essa iniciativa busca ampliar o acesso da população aos serviços de saúde a fim de garantir a universalidade do SUS, tendo como foco o atendimento às necessidades e prioridades epidemiológicas, demográficas, socioeconômicas, espaciais, entre outras (BRASIL, 2019a). Face a essa medida do governo, o CONASS e o CONASEMS se manifestaram favoráveis. De acordo com Erno Harzheim, secretário da Atenção Primária da Saúde do Ministério da Saúde (SAPS/MS), essa medida está calcada em critérios técnicos e científicos e, por ser ‘fácil, simples e factível’, fortalece a atenção primária, à medida que valoriza a responsabilização das equipes de Saúde da Família pelas pessoas e estimula o aumento da cobertura (NEVES; MACHADO, 2019). Em contrapartida, diversas entidades, instituições, grupos de pesquisa e outras associações se pronunciaram contra, conforme ilustrado a seguir, buscando a revogação da Portaria supracitada, tendo em vista que esse novo modelo não foi elaborado com transparência e tampouco assegura a redução das desigualdades regionais, à medida que adota o número de pessoas cadastradas nas equipes de saúde e o desempenho das unidades como critério para o repasse dos recursos. Capítulo 2 80 Figura 7. Protesto Contra o Desmonte do SUS Fonte: https://abrasco.org.br/defesa-da-atencao-primaria-e-do-direito-universal-a-saude-pela- revogacao-da-portaria-no-2979-19-do-ministerio-da-saude/. Acesso em: 22 maio 2020 #ParaTodosVerem: a imagem mostra uma manifestação em que várias pessoas caminham em uma rua. Em destaque, uma mulher segura um cartaz escrito em letras grandes: “CONTRA O DESMONTE DO SUS”. Artigo Um artigo para complementar o tema anterior é Mudanças no financiamento da Atenção Primária à Saúde no Sistema de Saúde Brasileiro: avanço ou retrocesso?, publicado em 2020. Acesse o Qr Code ao lado. Capítulo 2 81 O governo também vetou integralmente o projeto de lei (PLS 416/2009), aprovado no Congresso Nacional, que garantia a todos os pacientes do SUS a disponibilização de medicamentos, sangue, componentes hemoderivados e outros recursos necessários ao diagnóstico e tratamento das doenças, bem como à prevenção, alegando que o projeto cria despesa obrigatória, sem indicar qual seria a fonte de custeio (AGÊNCIA SENADO, 2019). Um outro ponto a discutir é a Saúde da Família, mais especificamente o NASF-AB (Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica), conforme veremos a seguir. Saiba Mais A Nota Técnica nº 3/2020-DESF/SAPS/MS informa, dentre outras, que a composição de equipes multiprofissionais deixa de estar vinculada às tipologias de equipes NASF- AB e que a partir de janeiro de 2020 o Ministério da Saúde não realizará mais o credenciamento de NASF-AB. Acesse a fonte no Qr Code ao lado. O governo Bolsonaro, de modo fatídico, decretou o fim do Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica e, embora as novas medidas não indiquem diretamente a sua extinção, acabam com o financiamento específico, bem como liberam secretários municipais e estaduais de saúde a adotarem qualquer modelo, inclusive nenhum (FIOCRUZ, c2020). Isso era de se esperar, visto que em 2019 já havia ocorrido a instituição do Programa Previne Brasil (novo modelo de financiamento). Capítulo 2 82 Reis e Meneses (2020) relatam que a inexistência de financiamento específico para o NASF-AB traz risco de desmantelamento à medida que reduz a atuação multiprofissional e como resultado restringe o acesso da população a classes profissionais que antes eram acessadas por meio da atenção secundária. Informam, ainda, que já há casos de dispensabilidade de alguns profissionais, que atualmente são em torno de 30.000, e que dificilmente os gestores municipais se arriscarão serem contrários ao que está nas entrelinhas do Ministério da Saúde. Asseveram que mudanças devem ocorrer, mas sem retrocessos, e que os trabalhadores do SUS e usuários precisam ser consultados para as tomadas de decisões. Baseado nisso, é importante nos atentarmos que no atual contexto em que vivemos, de desemprego, desregulamentação do trabalho, informalidade laboral, crise econômica, pandemia, violência, entre outros tantos fatores, a demanda por ações de atenção psicossocial e reabilitação tende a aumentar. Salienta-se que, em plena pandemia pelo coronavírus, foi instituída a Agência Para o Desenvolvimento da Atenção Primária à Saúde (ADAPS), por meio do Decreto nº 10.283, de 20 de março de 2020 (BRASIL, 2020), gerando novas insatisfações perante as entidades que defendem o SUS, uma vez que essa ação induz a uma maior precariedade da organização do Sistema, em especial a ESF. Atualmente, o SUS vivencia um momento delicado, que está à beira de um colapso, enfrentando um dos seus maiores desafios da história, que é de como repensar a sua gestão e se fortalecer para atender à alta demanda da pandemia do novo coronavírus, uma vez que sobrecarrega ainda mais o Sistema. Nesse sentido, o SUS vem fornecendo a base necessária para que as ações de enfrentamento à pandemia sejam atendidas, por meio da sua rede de serviços, equipamentos e recursos humanos disponíveis. Contudo, suas mazelas ficam mais evidentes em momentos como estes, denotando o déficit de recursos humanos na saúde, falta de investimento, escassez de equipamentos de proteção individual (EPI), falta de treinamento para lidar com as suspeitas e com os casos diagnosticados, deficiência nas ações de prevenção interna nos espaços de cuidado, falta de equipamentos e dispositivos essenciais aodiagnóstico e tratamento da população com quadros clínicos suspeitos ou contaminados pelo vírus, entre outras. Capítulo 2 83 ᅠDesta forma, a atual pandemia reacende a defesa do SUS, demonstrando, mais uma vez, a sua importância e necessidade, colocando em pauta seus princípios de universalidade, integralidade e equidade. Por fim, nas últimas décadas, a realidade que se descortina demonstra que o SUS tem experenciado interesses antagônicos, isto é, os que defendem a sua permanência e consolidação como um sistema plenamente público e universal e os que visam a sua submissão a um setor privatizado e mercantilizado. Diante de tudo isso, vem em mente o seguinte questionamento: o SUS vai continuar? De acordo com Paim (2018), embora o SUS sofra com ataques, boicotes, golpes, não é plausível a sua extinção, haja vista que existem inúmeros interesses vinculados ao Estado, ao capital e às classes dominantes que indicam a sua manutenção, seja por meio de legitimação ou cooptação, seja como lócus de acumulação, expansão e circulação do capital. Na verdade, é uma incógnita, um capítulo em aberto e o momento atual é de apreensão frente ao atual governo federal. O cenário que vem sendo desenhado nesses últimos tempos tem demonstrado um quadro crítico, no qual o SUS padece de insufi ciência crônica de recursos, diagnosticado com sérios problemas de organização e gestão, com prognóstico não favorável sob o ponto de vista governamental, necessitando de tratamento intensivo em todos os âmbitos. Sejamos otimistas, aguardando as cenas dos próximos capítulos. Site O Relatório 30 anos de SUS, que SUS para 2030?, destaca importantes conquistas do SUS e apresenta recomendações estratégicas que poderão subsidiar presentes e futuros gestores do SUS para o alcance das metas dos ODS em 2030. Acesse o Qr Code ao lado. 84 Nosso capítulo chega ao fim, e como bem vimos, historicamente, a atenção à saúde no Brasil está atrelada às mudanças sociais, econômicas, culturais, mas principalmente às políticas que ocorreram desde o século XV, se intensificando nos séculos seguintes até chegar ao século XXI, sempre produzindo alterações significativas na vida e na saúde da população. Foi uma imersão nos diversos acontecimentos relacionados à saúde, mas em especial no Sistema Único de Saúde, em que foi possível relembrar e conhecer fatos históricos, que esperamos que tenham enriquecido seu aprendizado. Acima de tudo, almejamos que seu olhar tenha se pluralizado no que se refere ao SUS. O que será do SUS e das políticas de saúde nos próximos anos ainda é um capítulo a ser redigido. O que sabemos é que decorridos esses 32 anos, o SUS traz em sua biografia a concepção de um sistema universal, equânime e integral, permeado de lutas, desafios, entraves, mas com ganhos significativos para a sociedade. Durante a abordagem teórica que o capítulo proporcionou, pôde- se ratificar que progressos ocorreram na saúde da população, mas também pôde-se inferir que ainda falta muito a ser conquistado e que necessitamos prementemente que o modelo centrado na doença e na assistência médico-hospitalar seja superado. Constatamos também que o SUS é, e sempre será, uma obra inacabada, pois está em constante aperfeiçoamento e adaptação e que várias agendas e atores influenciam para que essa construção permaneça ou vá à ruína. CONSIDERAÇÕES FINAIS Capítulo 2 85 Embora o SUS seja questionado, alvo de críticas, discriminado e a todo momento sejam revelados gargalos profundos, todos nós devemos intervir para que ele se mantenha, especialmente no que se refere a ser de acesso universal e atendimento integral, ainda mais em tempos de pandemia. Ao terminarmos mais uma etapa da nossa disciplina Políticas de Saúde, esperamos que todas essas informações tenham contribuído de forma positiva para o seu engrandecimento pessoal e profissional e que tenham ampliado a sua visão crítica. Desta forma, agradecemos seu empenho e nos encontraremos no próximo e último capítulo! 86 1. Diante do que foi exposto, propomos que você leia as situações hipotéticas a seguir: Situação 1: Seu Pedro sofreu um acidente doméstico em que teve o braço queimado por água fervente (queimadura leve). Sua esposa logo sugeriu que ele fosse até o hospital geral. Contudo, nesse instante, receberam a visita de um agente comunitário de saúde, que recomendou ao Seu Pedro sua ida até a Unidade Básica de Saúde. Diante dessa situação, cite dois princípios do SUS que podem ser identificados. 2. Situação 2: Dona Jaci, atualmente com 62 anos de idade, lembra-se de quando o atendimento médico era somente para os trabalhadores com carteira de trabalho assinada e que mesmo assim havia restrições de acesso a algumas necessidades de atendimento. Eram tempos difíceis, segundo ela. Nessa narrativa, quais os dois princípios que podem ser apontados? 3. Situação 3: Margarida, 23 anos, necessita de um transplante de medula óssea, o qual deverá ser realizado pelo SUS. É um procedimento de alta complexidade e custo. Desta forma, ao assumir o financiamento desse procedimento para Margarida, qual é o principal princípio do SUS? ATIVIDADES DE ESTUDO 87 ABRASCO. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE SAÚDE COLETIVA. SUS, 30 anos. 2018. Disponível em: https://www.abrasco.org.br/site/noticias/sistemas- de saude/o-sus-trouxe-ganhos-imensos-para-populacao-mas-nenhum- governo-o priorizou/37424/. Acesso em: 16 maio 2020. AGÊNCIA SENADO. Executivo veta extensão de oferta de sangue e hemoderivados pelo SUS. 2019. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/ noticias/materias/2019/12/27/executivo- veta-extensao-de-oferta-de-sangue-e hemoderivados-pelo-sus. Acesso em: 20 maio 2020. BAHIA, L. Sistema Único de Saúde. c2020. Disponível em: http://www.sites.epsjv.fiocruz.br/dicionario/verbetes/sisunisau.html. Acesso em: 15 maio 2020. BANCO MUNDIAL. Propostas de reformas do sistema único de saúde brasileiro: nota de política econômica. Brasília: Grupo Banco Mundial, 2018. Disponível em: http://pubdocs.worldbank.org/en/545231536093524589/Propostas-de- Reformas-do-SUS.pdf. Acesso em: 20 maio 2020. BANCO MUNDIAL. Um ajuste justo: análise da eficiência e equidade do gasto público no Brasil. Brasília: Grupo Banco Mundial, 2017. 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Aprova a Estrutura Regimental e o Quadro Demonstrativo dos Cargos em Comissão e das Funções de Confiança do Ministério da Saúde, remaneja cargos em comissão e funções de confiança, transforma funções de confiança e substitui cargos em comissão do Grupo-Direção e Assessoramento Superiores - DAS por Funções Comissionadas do Poder Executivo - FCPE. 2019b. Disponível em: https://www2. camara.leg.br/legin/fed/decret/2019/decreto-9795-17-maio-2019-788131- norma pe.html. Acesso em: 20 maio 2020. BRASIL. Conselho Nacional de Saúde. Relatório da 16ª Conferência Nacional de Saúde: versão preliminar. Brasília: Conselho Nacional de Saúde; 2019c. 255 p. Disponível em: http://conselho.saude.gov.br/16cns/Relatorio_16CNS.pdf. Acesso em: 13 maio 2020. BRASIL. Ministério da Saúde. Programa mais médicos– dois anos: mais saúde para os brasileiros. Brasília, DF: Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, 2015. 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Estabelece as diretrizes para organização da Rede de Atenção à Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). 2010b. Disponível em: http://conselho.saude.gov.br/ultimas_noticias/2011/img/07_jan_portaria4 279_301210.pdf. Acesso em: 22 set. 2020. BRASIL. Portaria nº 154, de 24 de janeiro de 2008. Cria os Núcleos de Apoio à Saúde da Família - NASF. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2008/prt0154_24_01_2008. html. Acesso em: 22 maio 2020. BRASIL. Decreto nº 6.286, de 5 de dezembro de 2007. Institui o Programa Saúde na Escola - PSE, e dá outras providências. Disponível em: https://bvsms. saude.gov.br/bvs/publicacoes/dec_6286_05122007.pdf. Acesso em: 22 maio 2020. Capítulo 2 90 BRASIL. Portaria n° 399, de 22 de fevereiro de 2006. Divulga o Pacto pela Saúde 2006 –Consolidação do SUS e aprova as Diretrizes Operacionais do Referido Pacto. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2006/prt0399_22_02_2006. html. Acesso em: 22 set. 2020. BRASIL. 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Disponível em: http://observatoriohistoria.coc.fi ocruz.br/local/File/na-corda bamba-cap_9.pdf. Acesso em: 25 maio 2020. LIMA, N. T.;A saúde, assim como a educação, não permanece estática em seus conceitos, e tampouco em suas práticas. Diariamente vemos a emergência e o declínio de enfermidades novas, bem como a ressurgência de riscos causados por doenças antigas que eram dadas como curadas. Isso deixa profissionais de saúde e a população em geral em alarme, impedindo que nos estagnemos frente a tão grande fluxo de fatos e informações. Neste aspecto, a educação em saúde se vê obrigada à constante renovação, visando acompanhar a velocidade dos processos vigentes. Não existe, ainda, uma definição universal do conceito de saúde e do conceito de doença, porém, pontos em comum são compartilhados pelas conceituações existentes. Para iniciarmos a discussão sobre saúde é extremamente válido pontuar definições de órgãos e entidades reconhecidos neste aspecto, cuja atuação é de relevância neste campo de atuação e nesta área do conhecimento. A Organização Mundial de Saúde (OMS), como seu próprio nome anuncia, é a entidade responsável por regulamentar e promover ações em saúde a nível global. Para a OMS, a saúde é um direito fundamental de todo ser humano, sendo definida como: “[...] um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade” (Organização Mundial de Saúde, 1946, on-line). Tal conceito foi criado na cidade de Nova Iorque, em 1946, e divulgado em quatro idiomas a fim de estabelecer um conceito sobre saúde, sua importância nas relações interpessoais e entre povos, além de estabelecer medidas para a manutenção e promoção do mesmo (Organização Mundial de Saúde, 1946). Visa, entre outros aspectos, quebrar a ideia vigente e enraizada de que a saúde consiste apenas na ausência de doença, tentando demonstrar, já naquela época, uma visão mais integralizada do termo. Mais tarde, no ano de 1998, com a Revisão da Constituição da Organização Mundial de Saúde, o conceito de saúde foi reelaborado, passando a incluir em suas vertentes relacionadas à qualidade de vida, afirmando: “A saúde é um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social, e não somente a ausência de doença ou enfermidade” (Organização Mundial de Saúde, 1998, on-line). No Brasil especificamente, seguindo os preceitos da Constituição Federal, temos o conceito de que: Capítulo 1 É válido ressaltar que, nos termos dessa lei, o dever do Estado não exclui o dever individual de cada sujeito, de modo que cidadãos comuns, empresas e outras instituições não se isentem de responsabilidade na promoção, proteção e recuperação da saúde (Brasil, 1988), evitando confusões quanto às obrigações individuais e estatais no processo. 12 Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. (Brasil, 1988) Esta última definição concorda com o que é colocado pela Lei Orgânica do SUS, Lei n. 8.080 de 19 de setembro de 1990 que dispõe que: Art. 2º A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício. § 1º O dever do Estado de garantir a saúde consiste na formulação e execução de políticas econômicas e sociais que visem à redução de riscos de doenças e de outros agravos e no estabelecimento de condições que assegurem acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para a sua promoção, proteção e recuperação. (Brasil, 1990, on-line) Importante § 2º O dever do Estado não exclui o das pessoas, da família, das empresas e da sociedade. Fonte: Brasil (1990, on-line). Analisando a história na tentativa de estabelecermos tais conceitos, observamos a gradual transição do conceito de saúde e doença numa perspectiva religiosa e mística, passando a teoria que é amplamente aceita nos atuais dias representada pelo modelo biomédico (Barros, 2002). Até pouco tempo, os conceitos de saúde e doença traziam pouca significação a ambos os processos. Conforme coloca Albuquerque e Oliveira (2002, on-line) "num passado ainda recente a doença era frequentemente definida como 'ausência de saúde', sendo a saúde definida como 'ausência de doença' - definições que não eram esclarecedoras". 13 Capítulo 1 Barros (2002), em sua revisão, conceitua o que ele denomina de medicina mágico-religiosa, que traduz em si uma compilação dos fatos principais da história. Nessa perspectiva, o adoecimento era visto como uma forma de castigo ou punição por transgressões cometidas, das quais os seres superiores ou divindades eram responsáveis por sua realização. Neste âmbito, um sujeito ou grupo de sujeitos que haviam cometido transgressões, a fim de recuperar a sua condição saudável, deviam reestabelecer os laços de relacionamento pacífico com as divindades. Para isso, recorria-se a sacerdotes e eram realizadas as mais diversas oferendas a tais divindades a fim de se obter o reestabelecimento do que fora perdido. Conforme colocado por Barros (2002, p. 68) em sua revisão: a medicina mágico-religiosa, predominante na antiguidade, se inseria em um contexto religioso-mitológico no qual o adoecer era resultante de transgressões de natureza individual ou coletiva, sendo requerido para reatar o enlace com as divindades, o exercício de rituais que assumiam as mais diversas feições, conforme a cultura local, liderados pelos feiticeiros, sacerdotes ou xamãs. Com o passar do tempo, houve um redirecionamento no entendimento de enfermidades. Passou-se a observar mais o enfermo em busca das causas da doença, e menos às divindades ou outros fatores externos. Isso gerou uma compreensão quanto à origem não sobrenatural das enfermidades. Partindo deste ponto, várias teorias foram formuladas para tentar entender a origem das doenças, como a teoria dos humores de Hipócrates (460-377 a.C). Hipócrates nasceu na ilha de Cós, atual Grécia, no ano de 460 a.C., e teve como contemporâneos grandes pensadores, como Sócrates e Platão. Após passar algum tempo no Egito durante sua juventude, Hipócrates pôs-se a criar um sistema racional baseado na observação e na experiência, descrevendo sinais distintivos de várias enfermidades, passando a ser reconhecido como o pai da Medicina (Félix et al., 2008). Ele foi um dos primeiros a discordar das teorias de que as enfermidades eram causadas por forças sobrenaturais ou divinas (Félix et al., 2008). Em sua crença, Hipócrates acreditava que o sangue radicava em si os quatro humores e que quando este coagulava, podiam-se observar os elementos que lhe compunham. De acordo com Félix (2008), Hipócrates designou aos elementos do sangue coagulado como: 14 Capítulo 1 A fibrina, que era vista como a mucosidade presente no sangue. Flema Que compreendia a parte vermelha do coágulo. Hema Ao soro, que naquela época chamava de bílis amarela. Cólera Que compreende ao que denominava bílis negra. Melancolia Conforme demonstrado por Barros (2002, p. 69) em suas teorias, Hipócrates associava os humores corporais aos elementos da natureza e: associando a bile amarela, bile negra, sangue e fleugma, respectivamente, ao fogo, terra, ar e água, esses humores predominariam em determinada estação do ano, isto é, verão (bile amarela), outono (bile negra), primavera (sangue) e inverno (fleugma). Por conta de pequenas alterações observadas na literatura a respeito do tema, temos concluído que Flema e fleugma sejam sinônimos, assim como o Hema e o sangue também o sejam. Galeno foi outro pensador de importância na história do estudo dos processos saúde-doença. Ele nasceu em Pérgamo, em 130 D.C., estudou Filosofia e Medicina. Se embasou nos ensinamentos deixados pelos seguidores de Hipócrates para postular observações, que por muito perduraram na história da medicina (Barros, 2202; Romero et al., 2011). Para ele, a concepção de enfermidade ainda procedia da teoria dos quatro humores. Saúde era vista como "um estado de equilíbrioSANTANA, J. P. de (Org.). Saúde coletiva como compromisso: a trajetória da Abrasco. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2006. Disponível em: http://www. abrasco.org.br/publicacoes/arquivos/20070913164801.pdf. Acesso em: 13 maio 2020. LIMA, T. Sistema Único de Saúde – Parte 01: Conhecendo melhor o SUS e suas doutrinas. 2016. 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Estudar a história da saúde mental no trabalho; Compreender o campo teórico que compreende a saúde e ao trabalho Estudar sobre o desgaste, a psicodinâmica do trabalho, a ergonomia e o modo de vida, que são conceitos tão importantes para a área da saúde mental no trabalho; 97 Este capítulo tem como objetivo proporcionar informações e conhecimentos fundamentais sobre os modelos e conceitos em saúde, com foco especial no entendimento da promoção e prevenção da saúde e dos determinantes sociais que influenciam esses processos. Também estudaremos os conceitos fundamentais relacionados, bem como aprenderá a identificar o que são os DSS – determinantes sociais em saúde. E, em seguida, vamos estudar os modelos de atenção à saúde no Brasil: modelo biomédico e o modelo de determinação social – modelo sanitarista, entendendo a respeito do contraponto que há entre o modelo biomédico em relação ao modelo sanitarista que deu origem ao SUS. E, ainda, conhecendo os diversos outros modelos de atenção à saúde que ainda persistem na sociedade. Para aprofundaresse entendimento sobre modelos e conceitos em saúde, é essencial que também reflitamos sobre o conceito de saúde mental. Embora esse termo esteja presente em diferentes contextos como legislações, políticas públicas, manuais e produções científicas, ainda não há um consenso definitivo sobre seu significado. Essa ausência de uma definição única evidencia a complexidade do tema e reforça a necessidade de uma abordagem ampla e crítica, que se articule com os determinantes sociais e os modelos de promoção e prevenção da saúde que serão apresentados no decorrer do capítulo. CONTEXTUALIZAÇÃO Capítulo 3 98 Ao longo deste capítulo, exploraremos os diversos fatores que podem impactar a saúde mental dos trabalhadores, como a relação interpessoal, os desafios na comunicação e o aumento da carga de trabalho. Além disso, abordaremos os principais processos da psicodinâmica do trabalho e a ergonomia, que visa criar condições laborais que favoreçam a saúde e o bem-estar dos trabalhadores durante suas atividades. Convidamos você a refletir sobre esses temas e a relacioná-los com sua realidade profissional ou com as práticas que pretende desenvolver nos espaços socio-ocupacionais em que estiver inserido. Assim, este capítulo oferece um conjunto diversificado de abordagens que enriquecem o entendimento e a aplicação dos princípios da Saúde Preventiva e Promoção da Saúde mental no trabalho. 99 Os cuidados absolutos com a saúde sugerem atos de promoção da saúde, prevenção de enfermidades e fatores de risco e, após alojada a enfermidade, o tratamento correspondente às pessoas enfermas (BUSS, 2010). Saúde é considerada enquanto direito humano basilar admitida por todas as agências mundiais e em todas as sociedades. Destarte, a saúde se apresenta no mesmo patamar com diversos direitos afiançados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos – (DUDH), do ano de 1948: liberdade, alimentação, educação, segurança, nacionalidade, entre outros. A saúde é largamente admitida como uma elementar solução para o desenvolvimento pessoal, social, econômico, bem como uma das mais extraordinárias extensões da qualidade de vida. Desse modo, a saúde e qualidade de vida, ambos os assuntos estão diametralmente conexos, fato que podemos distinguir no nosso dia a dia. Logo, a saúde coopera para aprimorar a qualidade de vida e esta é basilar para que um sujeito e a comunidade tenham saúde. Em sinopse, promover a saúde é agenciar a qualidade de vida. De acordo com Buss (2010), no ano de 1986, na cidade de Ottawa, localizada no Canadá, foi realizada uma Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, que constituiu uma linha de princípios éticos e políticos, determinando os campos de ação. Segundo Buss (2010), esse tratado convencionado nessa conferência internacional diz que promoção da saúde é o método de habilitação da comunidade para agir no progresso da sua qualidade de vida e saúde, compreendendo máxima participação no controle desse procedimento. 1 1. O CONCEITO DE PROMOÇÃO E PREVENÇÃO DA SAÚDE E OS DETERMINANTES SOCIAIS EM SAÚDE Capítulo 3 100 Ainda a respeito da promoção da saúde, os autores Verdi, Da Ros e Souza (2012) citam outros díspares modelos conceituais, sendo um deles alvitrado pela saúde coletiva brasileira e outros originários do Canadá. Desde o Relatório Lalonde, publicado no ano de 1974, no Canadá, e mais designadamente, posteriormente à Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, ocorrida no ano de 1986, em Ottawa, a compreensão de promoção da saúde irrompeu com o modelo de níveis de prevenção amparado durante décadas. Para alcançar uma condição de completo bem-estar mental, físico e social, os sujeitos e coletivos necessitam ter ciência para adaptações, controlar anseios, ter satisfação e alterar convenientemente o ambiente social, natural e político. Desse modo, a saúde contorna-se, segundo Buss (2010), um conceito prosaico, que ressalta as soluções sociais e pessoais, assim como as competências físicas. Portanto, não é encargo exclusivo de políticas de saúde e vai além de um costume de vida saudável, na administração de um bem-estar global. Consideramos algumas soluções imprescindíveis para ter saúde de modo pleno: alimentação adequada, recursos sustentáveis, paz, renda, moradia, educação, ambiente saudável, equidade e justiça social, com toda a complexidade que sugerem quaisquer desses quesitos. Destarte, a promoção da saúde é a decorrência de um contíguo de fatores sociais, coletivos, individuais, culturais, econômicos e políticos que se ajustam de contorno privado em cada sociedade e em conjunturas específicas, resultando em sociedades mais ou menos saudáveis. Na maior parte do tempo de suas vidas, a maioria das pessoas é saudável, ou seja, não necessita de hospitais, CTI ou complexos procedimentos médicos, diagnósticos ou terapêuticos. Mas, durante toda a vida, todas as pessoas necessitam de água e ar puros, ambiente saudável, alimentação adequada, situações social, econômica e cultural favoráveis, prevenção de problemas específicos de saúde, assim como educação e informação – estes, componentes importantes da promoção da saúde. Então, para promover a saúde é preciso enfrentar os chamados determinantes sociais da saúde. Capítulo 3 101 A promoção da saúde se refere às ações sobre os condicionantes e determinantes sociais da saúde, dirigidas a impactar convenientemente a qualidade de vida. Por essa razão, assinala-se essencialmente por uma conciliação intersetorial e pelas atuações de ampliação da compreensão sanitária educação para a saúde, direitos e deveres, estilos de vida e aspectos comportamentais, dentre outros. De tal modo, para aprimorar as condições de saúde de uma população são imprescindíveis modificações carregadas dos padrões econômicos no cerne dessas sociedades e ativação de políticas sociais, que são de modo eminente políticas públicas sociais. Isto é, para que uma sociedade alcance saúde para todos os seus cidadãos é imprescindível atuação intersetorial e políticas públicas de caráter integral (BUSS, 2010). A comissão nacional dos determinantes sociais da saúde fez uma análise profunda dos determinantes sociais da saúde no Brasil e uma série de políticas e ações, cujo desígnio derradeiro é a promoção da saúde. É importante destacarmos a definição que a Organização Mundial da Saúde – OMS – desenvolveu sobre saúde determinando que o estado de saúde não é apenas ausência de doença, mas o completo bem-estar psicossocial do ser humano, admitido pelo nome de determinantes sociais da saúde. O processo saúde-doença não está sujeito exclusivamente aos mecanismos biológicos que afetam o organismo humano, há múltiplos condicionantes titulados determinantes do processo saúde x doença; eles são os fatores sociais, étnico-raciais, culturais, econômicos, comportamentais e psicológicos que influenciam o episódio de problemas de saúde e seus fatos de risco na população. Os DSS abrangem as características específicas do contexto social que influem na saúde e o modo como as condições sociais afetam a saúde. As interações entre distintos graus de condições sociais produzem desigualdades em saúde, desde o âmbito individual até o nível das condições culturais, ambientais e econômicas que incidem em ampla parte da sociedade (GEIB, 2012). Ainda conforme Geib (2012), juntos, formam o contexto sociopolítico responsável pela estratificação dos grupos segundo os níveis de renda, escolaridade, profissão, sexo, gênero, local de moradia e outros fatores. Esses mecanismos de estratificação socioeconômica são descritos como determinantes estruturais da saúde ou como fatores sociais determinantes das desigualdades na saúde Capítulo 3 102 Figura 1. Determinantes Sociais no Processo Saúde X Doença Fonte: A autora. #ParaTodosVerem: a imagem mostra um círculo central amarelo com o texto “Processo Saúde x Doença”, cercado por outros círculos coloridos que representam diferentes fatores. Estão escritos: “Fatores Sociais”,“Fatores Psicológicos”, “Fatores Ambientais”, “Fatores Educacionais”, “Fatores Culturais”, “Fatores Econômicos”, “Fatores Políticos”, “Fatores Ecológicos” e “Fatores Genéticos”. Para a atenção integral de saúde, de acordo com Buss (2010), é imprescindível empregar e associar saberes e práticas atualmente agregados em compartimentos avulsos: atenção médico-hospitalar; programas de saúde pública; vigilância epidemiológica; vigilância sanitária; educação para a saúde, entre outros. O autor ainda pronuncia que essa integração deve combinar ações extrassetoriais em abalizados âmbitos, como água, esgoto, resíduos, drenagem urbana, e ainda, na educação, habitação, alimentação e nutrição; e administrar esses saberes e práticas conexos a um território característico, díspar de outros territórios, onde reside uma população com predicados culturais, sociais, políticos, econômicos. Capítulo 3 103 Em síntese, é a sugestão de uma inovação prática sanitária interdisciplinar, que agrega díspares conhecimentos teóricos e práticas, que se cobrem de um novo atributo ao proferir, de modo organizado pelo paradigma da promoção da saúde, para o enfrentamento das dificuldades viventes num dado território particular. Um bom exemplo de ações que se voltam ao cuidado da promoção da saúde em sua totalidade, temos a estratégia de saúde da família e dos agentes comunitários de saúde, que ponderamos ser fundamental para esse processo de promoção e merecem o mais decidido apoio político e técnico para sua implementação. Verdi, Da Ros e Souza (2012) proferem que este exemplar conceitual em saúde proporciona uma nova configuração de analisar o processo saúde x doença. Cabe destacar que esse modo de analisar a saúde tem sua ascendência no continente europeu, em meados do século XIX, num movimento denominado Medicina Social. Ainda de acordo com Verdi, Da Ros e Souza (2012), os autores mencionam a respeito de um médico social e patologista conhecido como Virchow, em que este afirmava que os indivíduos enfermam e falecem pelo modo no qual vivem. Esse estilo de viver a vida é determinado por fatores de ordem social, cultural e econômica, o que por sua vez assinala-se o todo da manifestação da enfermidade. Os mesmos autores ressaltam ainda que no ano de 1848, Virchow organizou, com outros profissionais, a Lei de Saúde Pública da Prússia, em que profere que incumbe ao Estado o encargo de cuidar da saúde da população, que o Estado necessita promover a saúde e desenvolver estratégias de enfrentamento e tratamento da doença para todos os sujeitos, isto é, saúde é direito de todos, dever do Estado. Por fim, Verdi, Da Ros e Souza (2012) acrescentam que foi esse movimento que guiou a constituição do nosso sistema único de saúde – SUS. A respeito do conceito de determinação social incidindo no processo saúde- doença, Verdi, Da Ros e Souza (2012) mencionam outro profissional que se dedicou a estudar a temática: Henry Sigerist, no ano de 1942, este pronunciava que o profissional de medicina tinha quatro amplas tarefas, são elas: Capítulo 3 104 promover saúde; prevenir doenças; restabelecer o doente; reabilitá-lo. Promover saúde era apresentar qualidades de vida, trabalho, educação, cultura, lazer, acesso à cultura, ter descanso, cabe ainda avultar que o modelo da determinação social não se recusa a prestar o atendimento individual quando imprescindível, entretanto, ela é contextualizada numa semelhança entre cidadãos. Pesquisa Você sabia que existem modelos de saúde que são distintos uns dos outros e, por essa razão, possuem concepções distintas de saúde? Para aquecer o debate, consulte o artigo a seguir: Modelos assistenciais: reformulando o pensamento e incorporando a proteção e a promoção da saúde, com autoria de: PAIM, Jairnilson Silva. Acesse o Qr Code para conferir. Converse com sua equipe de trabalho e seus colegas de turma sobre a relevância da compreensão a respeito dos distintos modelos de atenção à saúde e a importância da concepção de promoção e prevenção em saúde para a prática profissional dos diversos profissionais que atuam no âmbito da saúde pública em distintos espaços ocupacionais. De acordo com Carvalho (2008), o modelo de promoção da saúde originário do Canadá tem a afirmação do social, já que exibe a consignação do processo saúde-doença, a procura de superação do modelo biomédico e o comprometimento de saúde como direito de cidadania. Capítulo 3 105 De acordo com Buss (2003), resumidamente, as formulações de promoção da saúde podem ser agrupadas em duas amplas convergências, conforme aponta o quadro a seguir: Dica de Leitura Caro estudante: para contribuir ainda mais com o seu conhecimento; deixamos como sugestão de leitura os seguintes livros: Promoção da Saúde: conceitos, reflexões, tendências. - O referido livro promove uma reflexão a respeito dos conceitos e tendências presente no discurso contemporâneo do campo da saúde coletiva com ênfase na promoção da saúde. Referência: CZERESNIA, D. FREITAS, C. M. de. Promoção da saúde: conceitos, reflexões, tendências. Scielo – Editora FIOCRUZ, 2009. Promoção da saúde: a construção social de um conceito em perspectiva comparada. - O referido livro agencia uma discussão sobre mudanças na abordagem da saúde e nas práticas de atenção e tem gerado debate internacional, convergindo para um novo paradigma. Este é baseado na promoção da saúde, a qual defende uma evolução substantiva no modo como são formuladas e implementadas as políticas públicas que influenciam as condições de saúde da população. A autora reconstitui a história social do conceito e das práticas de promoção da saúde como crítica ao entendimento prioritariamente biomédico da saúde. Analisa como Brasil e Canadá incorporaram em suas políticas públicas a proposta de promoção da saúde ratificada pela Declaração de Otawa, em 1986, assim como os componentes conceituais dessa proposta, teoricamente e em suas apropriações pelos dois países. Referência: RABELLO, L. S. Promoção da saúde: a construção social de um conceito em perspectiva comparada. Editora FIOCRUZ, 2010. Minimização de riscos Capítulo 3 106 Fonte: adaptado de Buss (2003). A primeira, centrada no comportamento dos indivíduos e seus estilos de vida. Uma das características desta tendência é o seu enfoque fortemente comportamental, expresso por meio de ações de saúde que visam à transformação de hábitos e estilos de vida dos indivíduos, ponderando o ambiente familiar, assim como o contexto cultural em que convivem. A segunda, dirigida a um enfoque mais amplo de desenvolvimento de políticas públicas e condições favoráveis à saúde. Esta tendência se aproxima muito do modelo preventivo. As semelhanças entre a promoção da saúde e a prevenção de doenças nos exibe que prevenir é vigiar, antecipar acontecimentos indesejáveis em populações consideradas de risco, enquanto promover a saúde, quando não se trata de controlar politicamente as condições sanitárias, de trabalho e de vida da população em geral, mas quando procura cunhar hábitos saudáveis, é também uma vigilância. Uma vigilância que cada um de nós necessita desempenhar sobre si próprio. Quadro 1. Promoção da Saúde Nessa ótica, centrada no comportamento dos indivíduos e seus estilos de vida, a promoção da saúde acerca-se a priorizar aspectos educativos acoplados a fatores de riscos comportamentais singulares e, deste modo, método potencialmente atinado pelos próprios sujeitos. Capítulo 3 107 Essa tendência, dirigida a um enfoque mais amplo de desenvolvimento de políticas públicas e condições favoráveis à saúde, apontada por Buss (2003) como mais atualizada, pondera como fundamental à função protagonista dos determinantes sociais a respeito das condições de saúde, cujo extenso espectro de fatores está absolutamente pertinente com a qualidade de vida particular e coletiva. Logo, promover a saúde implica considerar um padrão adequado de alimentação, de habitação e de saneamento, boas condições de trabalho, acesso à educação, ambientefísico limpo, apoio social para famílias e indivíduos e estilo de vida responsável. Promover a saúde envolve, também, dirigir o olhar ao coletivo de indivíduos e ao ambiente em todas as dimensões, física, social, política, econômica e cultural. Por fim, promover a saúde implica uma abordagem mais ampla da questão da saúde na sociedade. Fonte: A autora. #ParaTodosVerem: a imagem apresenta três retângulos coloridos conectados por setas a um círculo laranja central com o texto “Promoção da Saúde”. Os retângulos trazem os dizeres “Bem- estar físico”, “Bem-estar social” e “Bem-estar emocional”. Figura 2. Determinantes Sociais no Processo Saúde X Doença Capítulo 3 108 Importa sinalizar que as intenções para o debate de promoção da saúde têm de forma trivial a importância do social, nessa conjuntura, a questão de saúde necessita ser apreendida como a competência para viver a vida de forma livre, independente, reflexiva e socialmente responsável, de que o cerne de intervenção do setor da saúde precisa ser em volta dos serviços e territórios (VERDI; DA ROS; SOUZA, 2012). Carece compreender a saúde por meio da politização das práticas sanitárias, tendo como alvo a produção de bens e serviços, a produção de sujeitos à democratização institucional. Nesse aspecto, a promoção da saúde precisa abarcar o fortalecimento da democracia e a intervenção no ambiente. A promoção da saúde é componente de díspares instâncias de decisões e, destacadamente, do aparelho estatal, que necessita organizar um conjunto de políticas públicas de natureza estrutural econômicas e infraestruturais e da mesma forma políticas públicas sociais como saúde, habitação, assistência social, segurança alimentar, educação entre outras que envolvem a necessidade da população. É importante compreendermos que a determinação da doença está diretamente ligada aos fatores sociais, e precisamos cada vez mais desenvolver ações de educação em saúde para que a população possa compreender a relevância destes determinantes sociais e adotar medidas de promoção da sua própria saúde. Destarte, compreensão da forma de organização da sociedade no capitalismo nos permite conhecer o papel e os limites estruturais do Estado, para viabilizar ou para não assumir políticas sociais e, dentre elas, as de saúde. Assim, compreenderemos como isso vai gerar desigualdades sociais, eixo para entender a determinação social da doença (VERDI; DA ROS; SOUZA, 2012). Este nos leva a refletir que o poder capitalista internacional com seus representantes nacionais, bem como o próprio interesse capitalista nacional procura adotar os encargos de comando, tanto no poder Executivo como no Legislativo e Judiciário, para afiançar uma política que assevere a reprodução do capital (VERDI; DA ROS; SOUZA, 2012). Assim, configura ser um problema para a classe trabalhadora e principalmente para a grande massa de pessoas que vivem em situação de pobreza extrema. É importante registrar que isso tem alusões diretas no sistema único de saúde pública para a população brasileira. A hegemonia dominante assume também papéis nos órgãos de imprensa e na lógica das igrejas e impregna sua ideologia. Capítulo 3 109 Por fim, fazendo referência ao que diz respeito ao modelo de prevenção de saúde proposto originalmente para elucidar a história natural da doença, oferece três coeficientes de prevenção: primário, secundário e terciário. No coeficiente primário, defendia a existência de um nível primário de prevenção. É salutar ressaltar que nesse modelo o foco central é a prevenção da doença. Portanto, essa concepção de prevenção da saúde versa, na veracidade, a respeito da doença, e não propriamente da promoção de saúde (VERDI; DA ROS; SOUZA, 2012). Contudo, a principal diferença encontrada entre prevenção e promoção está no olhar sobre o conceito de saúde; na prevenção, a saúde é vista simplesmente como ausência de doenças, enquanto na promoção, a saúde é enfrentada como um conceito positivo e multidimensional procedendo deste modo, em um modelo participativo de saúde na promoção em oposição ao modelo médico de intervenção (CZERESNIA, 1999 apud FREITAS, 2003). 1.1 OS MODELOS DE ATENÇÃO À SAÚDE NO BRASIL: MODELO BIOMÉDICO E MODELO DE DETERMINAÇÃO SOCIAL - MODELO SANITARISTA Neste subtópico, você vai ter o ensejo de estudar a respeito das concepções de alguns modelos de atenção à saúde, conhecendo-os e compreendendo seus objetivos e características, além de apreender a respeito de um breve histórico da constituição destes. Para pronunciarmos a respeito dos modelos de atenção à saúde brasileira é importante discorrermos a priori sobre a concepção de medicina social que teve origem no século XVIII, na Europa, em uma ampla metodologia de rearticulação social da prática médica o qual Foucault designou de “nascimento da medicina social”, indicando que o capitalismo socializou o corpo como força de produção e de trabalho, e isso iria se estabelecer através da medicina (MENEGHEL, 2004). Assim, a medicina, em uma estratégia biopolítica, conquistaria, depois disso, um lugar na sociedade como seu objeto de trabalho. A medicina não social, individualista, clínica, essa não existe, no entanto foi uma fantasia pela qual certa forma de prática “associal” de medicina – a prática privada – se respaldou e se fundamentou (MENEGUEL, 2004). Capítulo 3 110 A medicina social pesquisa e estuda a dinâmica do processo saúde/doença, a ligação com a estrutura organizacional de atenção médica e com o corpo social, intencionando à obtenção de níveis robustos possíveis de saúde e bem-estar. Na Europa do século XVIII, a medicina social surgiu distinguindo-se em três principais tendências: o sanitarismo inglês, focado na medicina da força de trabalho; o urbanismo francês, empenhado com a salubridade das cidades; e por fim, a polícia médica, essa se constituiu na Alemanha, delimitada por uma imensa atenção com o controle sanitário. O movimento da medicina social definia que a participação política é o principal meio estratégico de mudança da realidade de saúde, na perspectiva de que as revoluções populares garantissem justiça, igualdade e cidadania. Na América Latina, o período transcorrido entre o final do século XIX até 1930, distingue-se pelas investigações no âmbito da higiene, patrocinadas pelo Estado e elaboradas por institutos de pesquisa nos padrões europeus. A chamada “revolução científica”, permeada pelas descobertas da bacteriologia, disporia com que o foco causal se transportasse das condições sociais para os microrganismos. Desse modo, o ideal indicado era o de achar uma vacina para cada tipo de agente infeccioso e executar medidas de controle das doenças sem uma análise ou questionamento do ambiente socioeconômico e cultural. É como se o retorno às explicações causais de cunho biológico em desfavor dos pressupostos sociais das doenças acontecesse periodicamente. No momento atual, esse juízo impregna os estudos e pesquisas que trata de vários agravos, podendo-se mostrar mais diretamente a intensa busca por uma vacina para a AIDS, que possa controlar a doença sem pontuar questões importantes que envolvem gênero, sexualidade e drogadição, entre outros. Nos primórdios do século XX, coincidiu com a criação dos institutos de medicina tropical e as campanhas contra determinadas doenças, o saneamento dos portos, a revolta contra a vacina obrigatória. Tivemos ainda as pesquisas fundamentadas na parasitologia e os levantamentos entomológicos, independentemente do pensamento de alguns sanitaristas do período, já se depara-se com o embrião do pensamento ecológico, principalmente na obra de Samuel Pessoa, este elaborou interessantes teorias a respeito dos nichos ecológicos de doenças transmissíveis (MENEGHEL, 2004). Capítulo 3 111 Um aspecto a salientar é que a redução nos índices das doenças transmissíveis na Europa foi atribuída aos feitos da medicina bacteriana. Porém, mais tarde, foi evidenciado que tal fato deveu-se, na realidade, à Revolução Vital,ou seja, à melhoria da qualidade de vida, e não aos atos médicos propriamente ditos. As esperanças em relação à medicina bacteriana caíram na década de 1930, um momento crítico permeado pela crise ocasionada pelos elevados custos da medicina científica sem diminuir os níveis das doenças. A morbidade e a mortalidade, ocasionadas por doenças infecciosas e parasitárias, transformaram para um cenário do qual os agravos crônico-degenerativos tomaram maiores proporções, somados do acréscimo da expectativa de vida, padrão qualificado de transição epidemiológica (MENEGHEL, 2004). O novo modelo de justificativa para a saúde/doença, criado em 1930, nos Estados Unidos, tentava racionalizar os altos custos da assistência médica. Assim, estava inaugurada a medicina preventiva, respaldada na história natural da doença e também nos pressupostos de prevenção à saúde. A gênese das doenças encontrava-se em um período de pré-patogênese, composto pela notável tríade de agentes e hospedeiros equilibrados em uma balança, do qual fiel é o ambiente. Estudiosos e pesquisadores elaboraram duras críticas ao modelo preventivista, especialmente no que toca à superficialidade da proposta e à homogeneização dos fatores determinantes da saúde/doença (MENEGHEL, 2004). Na década de 1970, muitas propostas de ampliação de cobertura de serviços de saúde e ainda de cuidados básicos em saúde foram questionados. A medicina social acompanhou de perto essas propostas, entretanto, paralelamente, ela tenha se estabelecido em uma referência de contestação ao pensamento hegemônico da saúde pública – reducionista e biologista. Desse modo, a saúde coletiva só iria aflorar nos anos 1980, baseada na interdisciplinaridade como facilitadora de um conhecimento vasto de saúde e na multiprofissionalidade como uma maneira de enfrentar a diversidade interna ao saber/fazer das práticas sanitárias (MENEGHEL, 2004). 112 A saúde coletiva – estabelecida nos limites do biológico e do social – segue pela frente a responsabilidade de pesquisar, compreender e interpretar as questões determinantes da produção social das doenças e da organização social dos serviços de saúde, quer no âmbito diacrônico quer no plano sincrônico da história. A saúde coletiva, ao incorporar as ciências humanas no campo da saúde, reorganiza as coordenadas deste campo, conduzindo para seu interior as perspectivas simbólica, ética e política. A atenção à saúde caracteriza a organização estratégica do sistema e das práticas de saúde em explicação às necessidades da população. E manifesta- se em políticas, programas e serviços de saúde consoante os princípios e as diretrizes que compõem e estruturam o Sistema Único de Saúde (SUS). O entendimento do termo atenção à saúde diz respeito tanto a processos históricos, políticos e culturais que manifestam disputas por projetos no campo da saúde e à própria visão de saúde sobre o objeto e os objetivos de suas ações e serviços, significa como tem de ser as ações e os serviços de saúde, como a quem se destinam, sobre o que incidem e a maneira como se organizam para alcançar suas metas (MATTA; MOROSINI, s.d.). Numa concepção histórica, o sentido de atenção almeja superar a clássica oposição entre as dualidades: a assistência e a prevenção, entre indivíduo e coletividade, que por longo tempo marcou as políticas de saúde no Brasil. Sendo assim, refere-se à história ao corte entre as iniciativas de caráter individual e curativo, que definem a assistência médica, e as iniciativas de caráter coletivo e massivo, de finalidades preventivas, específicas da saúde pública. Essas duas formas aqui mencionadas de configurar e de ordenar as ações e os serviços de saúde caracterizaram dois modelos diferenciados – o modelo biomédico e o modelo campanhista/preventivista – estes marcaram, mutuamente, a assistência médica e a saúde pública, expressões do setor saúde brasileiro cuja separação, há muito instituída, ainda reflete um desafio para a configuração da saúde em um sistema integrado. O modelo biomédico, desenvolvido ainda o século XIX, relaciona doença à lesão, limitando o processo saúde-doença a sua dimensão anatomofisiológica, removendo as dimensões histórico-sociais, como a cultura, a política e a economia e, em consequência disso, colocando seus principais planejamentos interventivos no corpo doente. Capítulo 3 Capítulo 3 113 Conceito Você sabe que também existe o conceito de medicina preventiva? E você sabe o que significa medicina preventiva? A medicina preventiva é a especialidade médica focada em evitar o desenvolvimento de doenças, reduzir o impacto das enfermidades na saúde dos indivíduos e melhorar a qualidade de vida de pacientes em tratamento. O conceito de medicina preventiva surgiu em meados do século XX como um movimento que propunha uma abordagem diferente da medicina. A ideia básica era mudar o foco da prática médica, que até então se concentrava exclusivamente no tratamento das doenças, para uma visão mais voltada à promoção da saúde. Em contrapartida, desde o final do século XIX, o modelo preventivista ampliou o paradigma microbiológico da doença para as populações, definindo-se como um saber epidemiológico e sanitário, objetivando o ordenamento, organização e à higienização dos espaços humanos. No Brasil, tais modelos de atenção são possíveis ser compreendidos em relação às condições socioeconômicas e políticas criadas nos vários períodos históricos de organização da sociedade brasileira (MATTA; MOROSINI, s.d.). Os autores ainda expressam que o modelo campanhista – motivado por interesses agroexportadores no começo do século XX – fundamentou-se em campanhas sanitárias no combate às epidemias de febre amarela, peste bubônica e varíola, estabelecendo programas de vacinação obrigatória, desinfecção dos espaços públicos e residências e demais ações de medicalização do espaço urbano, que focaram, em sua maioria, nas camadas mais empobrecidas da população. Esse modelo perdurou no cenário das políticas de saúde brasileiras até o início da década de 1960 (MATTA; MOROSINI, s.d.). O modelo previdenciário-privatista surgiu na década de 1920 influenciado pela medicina liberal, e seu objetivo era ofertar assistência médico-hospitalar para os trabalhadores urbanos e industriais, na modalidade de seguro- saúde/ previdência. Capítulo 3 114 Sua ordenação é marcada pela lógica da assistência e da previdência social, a princípio, limita-se a algumas corporações de trabalhadores e, em seguida, unificando-se no Instituto Nacional de Assistência e Previdência Social – INPS – em 1966, e vai ampliando-se gradualmente aos demais trabalhadores formalmente inseridos na economia. Esse modelo é conhecido também pela sua dimensão hospitalocêntrica, pois, a partir da década de 1940, a rede hospitalar começou a receber um volume robusto de investimentos, e a atenção à saúde foi se consolidando sinônimo de assistência hospitalar. Refere-se à maior manifestação na história do setor saúde brasileiro da concepção médico-curativa, alicerçada no paradigma flexneriano, marcado por uma concepção mecanicista do processo saúde-doença, pelo reducionismo da causalidade aos agentes biológicos, focado na atenção sobre a doença e o indivíduo. Nessa perspectiva organizou o ensino, e o trabalho médico foi um dos responsáveis pela fragmentação e hierarquização do desenvolvimento de trabalho em saúde e pelo alastramento das especialidades médicas (MATTA; MOROSINI, s.d.). Conforme os apontamentos dos autores, nesse mesmo processo, o modelo campanhista da saúde pública, guiado pelas intervenções na coletividade e nos espaços sociais, perde terreno e influencia o cenário político e o orçamento público do setor saúde, que passa a preferir a assistência médico- curativa, chegando a comprometer a prevenção e o controle das endemias no território nacional (MATTA; MOROSINI, s.d.). Dica de Leitura Se você quiser conhecer mais sobre os assuntos abordados, vamos deixar a indicação de alguns livros que se articulamcom o assunto tratado neste subtópico: Manual de Saúde Pública - Este livro é indicado para as áreas de Medicina, Nutrição, Enfermagem, Fisioterapia, Psicologia, Odontologia, Farmácia, Medicina Veterinária, Serviço Social, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional e muitas outras ligadas à saúde. Possui um arcabouço teórico bem aprofundado a respeito dos conceitos, teorias sobre a saúde pública no Brasil. Referência: MAGALHÃES, Thereza Maria (coord.) Manual de Saúde Pública. 2. ed. Salvador: Editora Sanar, 2019. Políticas e sistema de saúde no Brasil - Um livro didático e de referência que inclui os eixos de análise individual/coletivo, clínico/epidemiológico e público/privado, além de congregar autores com experiência na gestão de serviços e do próprio sistema, nos três níveis da federação. A construção do SUS há muito deixou de ser obra exclusiva de intelectuais capazes de ler em língua estrangeira. Temos ‘construtores’ que leem na realidade concreta dos serviços e da gestão, e que participam ativamente do complexo processo de construção cotidiana da saúde. Referência: GIOVANELLA, Lígia; ESCOREL, Sarah; LOBATO, Lenaura de Vasconcelos Costa; NORONHA, José de Carvalho; CARVALHO, Antônio Ivo de. Políticas e sistema de saúde no Brasil. SciELO - Editora FIOCRUZ, 2012. Capítulo 3 115 Ao final da década de 1970, vários segmentos da sociedade civil – entre eles, usuários e profissionais de saúde pública – aborrecidos com o sistema de saúde brasileiro começaram um movimento de luta pela ‘atenção à saúde’ como um direito de todos e um dever do Estado. Esse movimento ficou conhecido como Reforma Sanitária Brasileira e resultou na instituição do SUS por meio da Constituição de 1988. A Constituição de 1988 destinou alguns artigos específicos para tratar especificamente a respeito da saúde, tamanha a necessidade de avalizá-la enquanto direito inerente a todos os cidadãos. O texto constitucional apresenta a saúde delineando-a legalmente através de princípios e diretrizes que necessitam ponderar as atividades do Estado e da sociedade em prol da proteção social e integral da saúde enquanto direito no Brasil. Nesse compasso, os legisladores brasileiros elaboraram normas legais com vistas a proteger o direito à saúde no Brasil, expandindo significativamente esse direito a todas as pessoas que dele necessitarem. Capítulo 3 116 Dentre os direcionamentos legais promovidos pela Constituição Federal de 1988, que protegem o Direito à Saúde, destacam-se os artigos 196 ao 200. Tratando, assim, a saúde um dever do Estado, além de orientar legalmente a necessidade dos estados, municípios e União de organizar os atendimentos em saúde de maneira descentralizada e com a participação da população, além de avultar sobre a necessidade de sistematizar esse atendimento em forma de um sistema único. O Estado em suas três esferas, precisa implementar políticas econômicas e sociais com vistas à redução dos riscos de enfermidades e demais agravos, e, sobretudo realizar ações de promoção do acesso universal e igualitário às ações e serviços empreendidos pelo poder público em relação a saúde. Com o reconhecimento legal da saúde sendo inserida no texto constitucional, sendo considerada direito social fundamental, ela passa a receber proteção jurídica e legal com vistas a assegurar esse direito a todos os cidadãos, o que concerne em obrigar o poder público a fazer seu papel na oferta de atendimento em saúde em todos os níveis de atenção, sempre de acordo com as necessidades da população. A Constituição Federal de 1988 representa o principal marco legal de consolidação de direitos sociais no país, e do Estado democrático de Direito; mormente, porque se delineou após o longo período de ausência de democracia, de liberdade de expressão e direitos cassados e negados. A Constituição Federal, ainda, pôs fim à lógica de atendimento à saúde, atrelada à contribuição com a previdência social, passando assim a ser universal e demarcou o início do atendimento em saúde nos motes de sistema único, podemos assegurar que ela preconizou o Sistema Único de Saúde – SUS – brasileiro. Posteriormente regulamentado pelas leis nº 8.080/90 e 8.142/90, chamadas Leis Orgânicas da Saúde. Em meio ao movimento de consolidação do SUS, a noção de atenção afirma- se na tentativa de produzir uma síntese que expresse a complexidade e a extensão da concepção ampliada de saúde que marcou o movimento pela Reforma Sanitária: saúde é a resultado das condições de habitação, alimentação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, promoção e posse da terra e ascensão a serviços de saúde (MATTA, MOROSINI, s.d.). Capítulo 3 117 A partir dessa concepção ampliada do processo saúde-doença, a atenção à saúde intenta conceber e organizar as políticas e as ações de saúde numa perspectiva interdisciplinar, partindo da crítica em relação aos modelos excludentes, seja o biomédico curativo ou o preventivista. No âmbito do SUS, há três princípios fundamentais a serem considerados em relação à organização da atenção à saúde, são eles: o princípio da universalidade, pelo qual o SUS deve garantir o atendimento de toda a população brasileira; o princípio da integralidade, pelo qual a assistência é apreendida como um conjunto articulado e ininterrupto das ações e serviços preventivos e curativos, singulares e coletivos; e o princípio da equidade, pelo qual esse atendimento deve ser garantido de forma igualitária, porém, contemplando a multiplicidade e a desigualdade das condições sociossanitárias da população (BRASIL, 1990). Em relação à universalidade, o desafio posto à organização da ‘atenção à saúde’ é o de constituir um conjunto de ações e práticas que permitam incorporar ou reincorporar parcelas da população historicamente apartadas dos serviços de saúde. Da mesma forma, ao pautar-se pelo princípio da integralidade, a organização da ‘atenção à saúde’ implica a produção de serviços, ações e práticas de saúde que possam garantir, a toda a população, o atendimento mais abrangente de suas necessidades. Já em relação à equidade, a ‘atenção à saúde’ precisa orientar os serviços e as ações de saúde segundo o respeito ao direito da população brasileira em geral de ter as suas necessidades de saúde atendidas, considerando, entretanto, as diferenças historicamente instituídas e que se expressam em situações desiguais de saúde segundo as regiões do país, os estratos sociais, etários, de gênero entre outros. Capítulo 3 118 Figura 3. Princípios Organizativos e Doutrinários do Sistema Único de Saúde Preconizados a partir da Constituição Federal de 1988 Fonte: A autora. #ParaTodosVerem: a imagem apresenta um esquema com dois blocos principais. O primeiro, intitulado “Princípios Doutrinários”, está ligado a três retângulos que contêm as palavras “universalidade”, “equidade” e “integralidade”. O segundo bloco, chamado “Princípios Organizativos”, conecta-se a dois retângulos com os termos “regionalização, descentralização” e “participação popular”. Já os princípios organizativos têm as seguintes funções: Regionalização - ter serviços de saúde dentro dos territórios sem ter a necessidade das pessoas se deslocarem para muito distante de sua região; artigo 198 da CF/1988. Capítulo 3 119 Descentralização - responsabilização dos vários entes (municípios, estados, DF e União) em fazer um sistema único de alcance e qualidade para todos; está preconizado no artigo 198 da CF/1988. Participação popular – tem os cidadãos participando das discussões e debates sobre o atendimento em saúde, através dos conselhos municipais de saúde, conferências entre outros, nos três níveis – Municipal, Estadual e Federal. Premido, de um lado, pelas tensões geradas por essa pauta de princípios e, de outro, pela convivência com os paradigmas do modelo assistencialista, o SUS organizou o modelo de atenção à saúde de forma hierarquizada, em níveis crescentes de complexidade. Segundo essa lógica, os serviços de saúde são classificados nosníveis primário, secundário e terciário de atenção, conforme o grau de complexidade tecnológica requerida aos procedimentos realizados. A imagem associada a essa hierarquização é a de uma pirâmide, em cuja base se encontram os serviços de menor complexidade e maior frequência, que funcionariam como a porta de entrada para o sistema. No meio da pirâmide estão os serviços de complexidade média e alta, aos quais o acesso se dá por encaminhamento e, finalmente, no topo estão os serviços de alta complexidade, fortemente especializados. Essa tentativa de organizar e racionalizar o SUS, se, por um lado, proporcionou um desenho e um fluxo para o sistema, por outro, reforçou a sua fragmentação e subvalorizou a atenção primária como um lócus de tecnologias simples, de baixa complexidade. Em contraposição, o modelo de atenção pode constituir-se na resposta dos gestores, serviços e profissionais de saúde para o desenvolvimento de políticas e a organização dos serviços, das ações e do próprio trabalho em saúde, de forma a atenderem às necessidades de saúde dos indivíduos, nas suas singularidades, e dos grupos sociais, na sua relação com suas formas de vida, suas especificidades culturais e políticas. O modelo de atenção pode, enfim, buscar garantir a continuidade do atendimento nos diversos momentos e contextos em que se objetiva a atenção à saúde. Capítulo 3 120 Nesse sentido, existem também propostas de atenção dirigidas a grupos específicos que podem ser descritas como políticas voltadas para atenção à saúde por ciclo de vida – atenção à saúde do idoso, à criança e ao adolescente, atenção à saúde do adulto; a portadores de doenças específicas – atenção à hipertensão arterial, diabetes, hanseníase, DST/Aids, entre outras; e relativas a questões de gênero – saúde da mulher e, mais recentemente, saúde do homem. Essas propostas podem vir associadas a estratégias de centralização política e especialização técnica, historicamente concebidas como programas de saúde que antagonizam com a lógica da integralidade, uma vez que favorecem a fragmentação das políticas e das ações de saúde e buscam uniformizar a intervenção por meio de protocolos técnico-científicos pouco permeáveis às especificidades políticas, sociais e culturais. Ao contrário, argumenta-se que a complexidade dos problemas de saúde requer para o seu enfrentamento a utilização de múltiplos saberes e práticas. Desse modo: O sentido da mudança do foco dos serviços e ações de saúde para as necessidades individuais e coletivas, portanto para o cuidado, implica a produção de relações de acolhimento, de vínculo e de responsabilização entre os trabalhadores e a população, reforçando a centralidade do trabalho da equipe multiprofissional (EPSJV, 2005, p. 75). Numa dimensão ético-política, isso significa afirmar que a ‘atenção à saúde’ se constrói a partir de uma perspectiva múltipla, interdisciplinar e, também, participativa, na qual a intervenção sobre o processo saúde-doença é resultado da interação e do protagonismo dos sujeitos envolvidos: trabalhadores e usuários que produzem e conduzem as ações de saúde. É importante destacar que os modelos apresentados anteriormente são formas de organização do sistema em diferentes períodos históricos no Brasil. Atualmente, apesar do modelo preconizado ser a Atenção Básica em Saúde, os demais modelos aqui estudados ainda estão presentes em formas de organização de programas e nas práticas de atenção à saúde. Para melhor síntese de compreensão sobre os modelos de atenção, explicitamos no quadro os principais modelos do Estado brasileiro e suas distintas características: SANITARISMO ASSISTENCIALISMO MÉDICO ATENÇÃO BÁSICA EM SAÚDE Características organizacionais Financiament o público estatal Financiamento misto (estado, empregador) Financiamento público com repasse e autonomia municipal Acesso universal Acesso à população definida Acesso progressivamente universal (territorial) Ações não hospitalares Ações enfaticamente hospitalares Controle social incipient Ações verticais sem participação social Controle social incipient Participação popular e controle social Características das práticas de atenção à saúde Proteção social focalizada e seletiva Proteção social meritocrática (acesso para quem tem vínculo de trabalho ou pagamento direto Proteção social universal Ações de prevenção Ações curativas Orientado pela integralidade Capítulo 3 121 Quadro 2. Síntese dos Modelos de Atenção à Saúde no Estado Brasileiro Ações programadas Atendimento à demanda Equilíbrio entre ações programadas e atendimento à demanda espontânea Ações sobre o ambiente e coletividade Ações individuais Ações individuais e coletivas centradas no usuário/família/comun idade Práticas não necessariamen te médicas Práticas enfaticamente médicas Práticas multiprofissionais Processo saúde-doença na perspectiva microbiológica Processo saúde-doença na perspectiva anatomoclínica Processo saúde-doença baseado nos determinantes sociais de saúde 122 Capítulo 3 Fonte: https://dms.ufpel.edu.br/sus/files/U02.html. Acesso em: 11 de maio de 2021 Compreendemos que a saúde foi uma das áreas cujos avanços constitucionais foram mais relevantes. O Sistema Único de Saúde – SUS –, constituinte da Seguridade Social e uma das proposições do Projeto de Reforma Sanitária, foi regulamentado, em 1990, pela Lei Orgânica da Saúde – LOS. Ao analisar o SUS como uma estratégia, o Projeto de Reforma Sanitária tem como base o Estado democrático de direito, encarregado das políticas sociais e, consequentemente, da saúde (CFESS, 2010). Ressalta-se como fundamentos desse plano a democratização do acesso; a universalização das ações; a evolução da qualidade dos serviços, com a implementação de um novo modelo assistencial centrado na integralidade e equidade das ações; a democratização das informações e lisura no uso de recursos, bens e ações do governo; a descentralização com controle social democrático; a interdisciplinaridade nas ações. Possui como premissa básica a defesa da saúde como direito de todos e dever do Estado (BRAVO, 1999; BRAVO; MATOS, 2001). Capítulo 3 123 A proposta elementar da Reforma Sanitária é a defesa da universalização das políticas sociais e a garantia dos direitos sociais. Nesse sentido, destaca- se a concepção ampliada de saúde, definidas como melhores condições de vida e de trabalho, com destaque nos determinantes sociais; a nova organização do sistema de saúde através da construção do SUS, aliado aos princípios da intersetorialidade, integralidade, descentralização, universalização, participação social e também a redefinição dos papéis institucionais das unidades políticas (União, Estado, municípios, territórios) na prestação dos serviços de saúde; e efetivo financiamento do Estado. Cabe destacar que no ano de 1989, nas eleições presidenciais, há uma disputa entre dois projetos societários: Democracia de Massas X Democracia Restrita (NETTO, 1990), erigidos no processo da relação Estado – Sociedade. O projeto Democracia de Massas pressupõe a ampla participação social, agregando as instituições parlamentares e os sistemas partidários através de uma malha de organizações de base: sindicatos, comissões de empresas, organizações de profissionais e de bairros, movimentos sociais urbanos e rurais. Figura 4. Avaliando a escalabilidade do negócio Fonte: A autora. #ParaTodosVerem:a imagem mostra duas engrenagens conectadas. A da esquerda contém a expressão “democracia de massas” e a da direita apresenta “democracia restrita”. Acima de cada engrenagem há uma seta curva indicando movimento, sugerindo a relação de interdependência entre os dois conceitos. Capítulo 3 124 Esse projeto propõe associar a democracia representativa com a democracia direta e concebe ao Estado democrático de direito a responsabilidade e o dever de construir respostas às expressões da questão social. O projeto Democracia Restrita restringe os direitos sociais e políticos com aconcepção de Estado mínimo, ou seja, máximo para o capital e mínimo para o trabalho. O enxugamento do Estado é a grande meta, como também a substituição das lutas coletivas por lutas corporativas. Na década de 1990, em consequência das derrotas sofridas pelo projeto Democracia de Massas, fortalece-se um rumo político das classes dominantes no processo de enfrentamento da crise brasileira. Nessa perspectiva, as principais estratégias do grande capital passam a ser: fervorosa crítica às conquistas sociais da Constituição Federal de 1988, com ênfase para a concepção de Seguridade Social, e a edificação de uma cultura persuasiva para a transmissão e tornar seu projeto consensual e compartilhado (MOTA, 1995). É notável, nessa década, a afirmação das contrarreformas de forte caráter neoliberal, apregoadas pelas agências internacionais. As propostas do grande capital têm como vetores privilegiados, segundo Mota (1995), a defesa do desenvolvimento de privatização e a constituição do cidadão consumidor. Na defesa do processo de desenvolvimento de privatização, destaca-se a mercantilização da Saúde e da Previdência e a ampliação do assistencialismo. As principais diretrizes são: a Reforma da Previdência anexada no bojo da Reforma do Estado, que vem sendo instituída progressivamente e possui características de uma contrarrevolução ou contrarreforma; a defesa do SUS para os menos favorecidos e a refilantropização da assistência social, com forte proliferação da ação do setor privado no âmbito das políticas sociais (GUERRA, 1998). A contrarreforma do Estado atingiu a saúde através das proposições de contenção do financiamento público; da divisão entre ações curativas e preventivas, rompendo com a concepção de integralidade por intermédio da elaboração de dois subsistemas: o subsistema de entrada e controle. Ou seja, de atendimento básico, de obrigação do setor estatal visto que esse atendimento não é de preocupação do setor privado e o subsistema de referência ambulatorial e especializada, composto por unidades de maior complexidade que seriam transformadas em Organizações Sociais (CFESS, 2010). Capítulo 3 125 A política pública de saúde tem encontrado notórias dificuldades para sua efetivação, como a desigualdade de acesso da população aos serviços de saúde, o desafio de construção de práticas baseadas na integralidade, os dilemas para alcançar a equidade no financiamento do setor, os avanços e recuos nas experiências de controle social, a falta de articulação entre os movimentos sociais, entre outras. Todas essas questões são exemplos de que a construção e consolidação dos princípios da Reforma Sanitária permanecem como desafios fundamentais na agenda contemporânea da política de saúde. É importante enfatizarmos que o projeto de reforma sanitária brasileira, edificado a partir da metade dos anos de 1970, encontra-se sendo intencionalmente deslegitimado e enfraquecido em suas ações e recursos, para que assim possa perder sua notoriedade para o projeto voltado para o mercado ou privatista, que encontrou base na lógica neoliberal a partir dos anos 1990. O projeto da saúde articulado ao mercado ou à reatualização do modelo médico assistencial privatista está pautado na Política de Ajuste, que tem como principais tendências: a contenção dos gastos com racionalização da oferta; a descentralização com isenção de responsabilidade do poder central. A incumbência do Estado, nesse projeto, se traduz em garantir um mínimo àqueles que não podem pagar, ficando para o setor privado o suporte aos que têm acesso ao mercado, diante disso, suas propostas relevantes nesse sentido são: caráter focalizado para assistir às populações em situação de vulnerabilidade através do pacote básico para a saúde, expansão da privatização, forte incentivo ao seguro privado, descentralização dos serviços em âmbito local e eliminação da vinculação de fonte com relação ao financiamento (CFESS, 2010). A universalidade do direito – um dos fundamentos centrais do SUS e contido no projeto de Reforma Sanitária – é um dos aspectos que tem provocado resistência dos formuladores do projeto privatista da saúde. Os valores solidários, coletivos e universais que alicerçam a formulação da Seguridade Social lavrada na Constituição de 1988 estão sendo trocados pelos valores individualistas, corporativos, focalistas, que expande a consolidação do projeto direcionado para o mercado, que possui por suporte a consolidação do SUS para os vulneráveis e a segmentação do sistema (CFESS, 2010). Capítulo 3 126 Nessa situação, várias entidades definidas até então no campo progressista têm modificado suas lutas coletivas por lutas corporativas, limitadas a grupos de interesses. Essa visão está de total acordo com o ideário das classes dominantes que vislumbram como perspectiva a “americanização perversa” da sociedade brasileira, enfraquecendo os processos de resistência com a utilização de métodos e estratégias persuasivas, intimidando os trabalhadores a uma prática política defensiva (VIANA, 1999). Por fim, esse projeto coletivo, cuja construção iniciou-se nos anos de 1980, tem sido questionado e substituído pelo projeto corporativo e privatista que procura naturalizar a objetividade da ordem burguesa, considerando, assim, a necessidade de a saúde ser um produto a ser comercializado a quem dela precisar, procurando reforçar a lógica de seguro saúde no Brasil. Contudo, cabe aos profissionais do âmbito da saúde pública brasileira desenvolver estratégias cotidianas em seu exercício de trabalho para fazer valer os preceitos constitucionais, bem como a materialidade dos princípios balizadores da reforma sanitária que culminaram na constituição do SUS – Sistema Único de Saúde. 127 22. HISTÓRICO DA SAÚDE MENTAL NO TRABALHO Vamos iniciar o nosso estudo trazendo um pouco sobre a Saúde mental, um conceito tão importante para nossa profissão. É preciso entendê-lo sozinho para depois adentrar nas questões do trabalho. Visto que, este conceito é utilizado em leis e políticas governamentais, em manuais, livros, artigos, meios de comunicação, entre outros. Como introduzido brevemente, um dos autores mais famosos da temática refere-se a Michel Foucault e Canguilhem, que trazem oposição entre saúde e doença e como essas categorias foram sendo constituídas discursivamente em suas dimensões culturais, sociais, políticas e econômicas. Design regenerativo Capítulo 3 128 Figura 5. Saúde Mental no Trabalho Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: a imagem mostra um homem sentado em frente a uma mesa de madeira. O homem está vestindo uma camiseta branca e uma jaqueta verde e tem as duas mãos levantadas de maneira expressiva. Na mesa, há papéis espalhados com gráficos de pizza visíveis impressos neles. Um laptop cinza está aberto, posicionado para o lado esquerdo da imagem. Há fones de ouvido ao lado do laptop na mesa. Um copo de café para viagem também está presente no lado direito da mesa. Ao fundo, há uma janela que permite a entrada de luz natural e uma prateleira de metal com vários itens, incluindo livros e plantas em vasos. Nessa mesma lógica, Tavares et al. (2019) trazem que, para entender a doença mental, é importante diferenciarmos o sofrimento psíquico não patológico e o transtorno mental. O sofrimento psíquico não patológico se refere àquele comum, que todos os seres humanos sentem em suas vidas, não é considerado uma pa- tologia, mas também não se deve deixar de reconhecer quando precisa de intervenção, caso evolua para um quadro de piora. Já o transtorno mental se refere a uma variedade de condições que podem afetar o humor, o ra- ciocínio e o comportamento. O registro mais antigo em relação às questões biológicas de saúde e doença remonta ao século V a.C., feito por Hipócrates, que era um médico grego considerado uma das figuras mais marcantes da história da medicina. Ele tinha uma divisão bastante clara do processo de saúde. Porém, trazia a ideia de que a saúde/doença estaria relacionada com religião,e chamava de doença sagrada, em que a natureza seria de origem biológica, baseada no equilíbrio entre quatro fluidos do corpo: bile amarela, bile negra, fleuma e sangue. Capítulo 3 129 Mesmo com muita influência, a ideia de Hipócrates não impediu a interferência religiosa sobre o cuidado em saúde. Na Idade Média europeia, seguiu-se com a influência da religião cristã na concepção da doença como resultado do pecado e a cura como questão de fé. Aqui, o cuidado de doen- tes era entregue a ordens religiosas. Nesse mesmo sentido, trago a ideia de saúde e o místico, reconhecido na cultura oriental. Os chakras são caracterizados por movimentos de energia em rotação que se dão em sete partes do corpo, em que a saúde acontece quando há harmonia na energia dessas sete partes, enquanto a doença decorre do seu desequilíbrio (Alcântara et al., 2022). Figura 6. Hipócrates Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: a imagem mostra uma pequena estátua ou busto de Hipócrates, como indicado pela inscrição na base. A estátua é detalhada, mostrando desenhos intrincados na túnica e no cabelo de Hipócrates. É feita de um material branco, possivelmente mármore ou gesso. A base da estátua tem uma inscrição que inclui texto em grego e em inglês indicando “Hipócrates 460-377 a.C.”. Capítulo 3 130 Nesse período, ocorre o reconhecimento do pensamento científico, surgindo, então, o hospital como um espaço terapêutico. Historicamente, foi no século XVIII que se marcou a captação do fenômeno da loucura como objeto do saber médico, ou seja, a caracterizando como doença mental. Porém, o modelo hospitalar necessitava da instauração de medidas disciplinares que garantissem ordem, considerando uma separação do es- paço físico, com vigilância constante e registro contínuo. Sendo assim, ocorre a institucionalização, que acabou por afastar cada vez mais o indivíduo de suas relações exteriores, em que os “loucos” seriam seres perigosos e inconvenientes. Foi apenas no fim da Segunda Guerra Mundial, com a propagação de terapias psicológicas e a chegada dos psicofármacos, que o isolamento do doente mental nas instituições foi visto como um modelo de tratamento desumano e segregante (Alcântara et al., 2022; Sampaio; Bispo Junior, 2021). Figura 7. Hospital psiquiátrico Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: a imagem retrata o interior de um hospital psiquiátrico antigo. O corredor é longo, com paredes de pedra desgastadas que mostram sinais visíveis de envelhecimento. Há por- tas das celas em ambos os lados do corredor; as portas têm barras pesadas e fechaduras antigas. Luzes penduradas estão alinhadas ao longo do teto do corredor, iluminando fracamente o espaço. O final do corredor não está claramente visível. Capítulo 3 131 Figura 8. Tratamentos psiquiátricos antigos O tratamento que se dava aos tratados como “loucos” coibia a liberdade e a autonomia desses indivíduos, fazendo com que ficassem sob intenso sofrimento. Foi a partir dessa compreensão que se deram os movimentos de reforma psiquiátrica pelo mundo todo, especialmente nos seguintes paí- ses: Itália, França, Inglaterra, Estados Unidos e Canadá, mas com tempos e características diferentes. Foi apenas a partir de 1970 que países como a Espanha e o Brasil também reformaram sua assistência psiquiátrica (Sampaio; Bispo Junior, 2021; Alcântara et al., 2022). Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: imagem mostra duas pessoas, uma delas está deitada em uma cama ou maca, vestindo roupas claras. A segunda pessoa, também vestida com roupas claras, está ao lado da primeira e está prendendo as mãos da pessoa à maca. No ano de 1948, houve uma importante etapa referente à saúde no mundo, pois a Organização Mundial da Saúde (OMS, 1946) formulou o seguinte conceito: Saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença. Capítulo 3 132 Essa concepção traz um novo olhar para a saúde, que passa a ser ba- seado em um tripé: físico, biológico e psicológico. Nesse contexto, aquele modelo curativo que se concentra no tratamento de doenças muda e se passa a pensar na prevenção de doenças, na promoção da saúde e na rea- bilitação. A mudança significa que vai além da reformulação do conceito e também começa a se tornar inevitável a existência de saneamento básico, acesso à alimentação saudável, políticas de imunização, acesso a lazer e atividade física, educação em saúde, entre outros. Embora o Ministério da Saúde não apresente uma definição própria de saúde ou saúde mental, a Constituição Federal de 1988 estabelece diretri- zes fundamentais. No artigo 196, garante-se a universalidade da assistência em saúde, declarando que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado. Isso é garantido por meio de políticas sociais e econômicas voltadas para a redução do risco de doenças e outros agravos, bem como para o acesso universal e igualitário a ações e serviços que promovam, protejam e recuperem a saúde (Brasil, 1988). Como mencionado, essas novas concessões representam uma ruptura com os modelos de saúde anteriores. Anteriormente, o acesso aos serviços de saúde estava limitado aos trabalhadores com carteira assinada e seus dependentes. No entanto, houve uma mudança que passou a garantir que nenhuma forma de exclusão ocorresse, reconhecendo o papel do Estado em fornecer assistência, promoção e educação em saúde. Isso inclui o aces- so a uma alimentação equilibrada e acessível, a prática regular de ativida- des físicas, fornecimento de saneamento básico, imunização, prevenção e outras medidas (Paiva; Teixeira, 2014). Capítulo 3 133 Figura 9. Promoção da saúde Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: imagem de duas mãos unidas, segurando um coração vermelho brilhante. Uma das mãos está vestida com uma manga branca, a outra mão não possui nenhuma vesti- menta identificável. Ao lado das mãos, há um estetoscópio preto enrolado e um caderno bege com uma caneta em cima. No canto superior direito da imagem, é possível ver parte de um laptop cinza escuro. A cena é iluminada por uma luz suave, realçando o coração vermelho dentro das mãos unidas. Durante três anos consecutivos, entre 1986 e 1988, importantes marcos foram estabelecidos na história brasileira, particularmente no campo da saúde. Em 1986, ocorreu a VII Conferência Nacional de Saúde (CNS), se- guida pela promulgação da Constituição em 1988, que consagrou a saúde como um direito de cidadania e uma responsabilidade do Estado. Nesse mesmo ano, foram promulgadas as leis 8.080/1990 e 8.142/1990, que regu- lamentaram o Sistema Único de Saúde (SUS). No ano subsequente, em 1987, teve lugar a I Conferência Nacional de Saúde Mental (CNSM), um evento crucial que reuniu diversos teóricos importantes no campo da saúde mental, promovendo uma maior visibilidade ao debate sobre saúde mental em diversos âmbitos sociais, acadêmicos e políticos. Além disso, durante o II Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental, foi estabelecido o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio, e adotado o lema “Por uma sociedade sem manicômios” (Paim et al., 2011; Brasil, 2005). Capítulo 3 134 Importante Vale lembrar que a OMS (1946) traz em seus relatórios um conceito de saúde mental entendido como “[…] um estado de bem-estar no qual o indivíduo percebe as suas próprias capacidades, pode lidar com as tensões normais da vida, pode trabalhar de forma produtiva e frutífera e pode contribuir para a sua comunidade”. ! O conceito de saúde, conforme defendido pela OMS, abrange não apenas a ausência de doenças, mas também o bem-estar físico, mental e social. Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: imagem de uma pessoa segurando um tablet com uma ilustração relaciona- da à saúde mental. A ilustração inclui palavras como “saúde mental”, “discutir”, “resolver’ e “amor”, junto com ícones representativos. Ao fundo, pessoas desfocadas estão sentadas em cadeiras. Figura 10. Saúde mental Capítulo 3 135 Anteriormente, debatemos sobre o conceito de saúde na IdadeMédia, e agora adentraremos nas questões contemporâneas. Atualmente, temos uma concepção que defende a compreensão global dos fenômenos, de forma integrativa. Sendo assim, incorpora diversas visões sobre a saúde e concretiza o conceito de saúde proposto pela OMS. Uma das críticas a esse modelo se refere ao fato de que o conceito é idealizado e utópico, alegando que o completo bem-estar físico, mental e social é inatingível a qualquer ser humano. Ou seja, os críticos argumentam que, se pensássemos de forma literal, ninguém seria considerado saudável. Além disso, esse conceito estimula que o Estado seja excessivamente paternalista e intervencionista, podendo assumir posturas autoritárias justificadas pela busca do completo bem-estar social (Scliar, 2007). Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: imagem mostra cinco profissionais de saúde, com as mãos empilhadas em um gesto de união e trabalho em equipe. Eles usam jalecos ou uniformes associados à área da saúde, e o ambiente é ao ar livre, com um edifício moderno ao fundo. Figura 11. Saúde integrativa Capítulo 3 136 O ser humano é considerado um ser social, responsável pelas transformações que ocorrem na sociedade. O conceito de bem-estar social varia entre culturas e indivíduos, pois diferentes percepções influenciam o que é considerado como promotor desse bem-estar. Mesmo nos dias de hoje, existem comportamentos que divergem das “normas culturais” e são rotulados como doenças mentais. Portanto, é importante evitar a adoção da compreensão puramente biológica da saúde como o único modelo correto ou absoluto, considerando que essa abordagem resultou em décadas de predominância do modelo biomédico, centrado no hospital, focado na cura e na especialização. Sendo assim, podemos dizer que é na vivência diária que cada sujeito constrói suas percepções e conhecimentos do seu entorno, em um processo social que ocorre dentro de um contexto cercado por crenças, valores e interpretações que interagem. Ou seja, o indivíduo se reconhece no outro na medida em que transforma e é transformado. É por meio do trabalho que se pode compreender a concepção de autorrealização humana, pois é uma atividade de suma importância para o desenvolvimento da sociedade e do processo de criação individual. Sendo assim, a relação do sujeito com o trabalho contribui para a construção de identidade e para o processo subjetivo: “ O cotidiano ajuda na constituição da identidade individual e social. É a partir de trocas materiais e afetivas que o sujeito constitui sua singularidade em meio às diferenças. O espaço do trabalho é um campo importante para essas trocas, aparecendo como um mediador do desenvolvimento, da constituição e da complementação da identidade e da construção da vida psíquica. (Lancman, 2008) Capítulo 3 137 Figura 12. Mulher trabalhando Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: a imagem mostra uma mulher segurando um telefone e olhando para um laptop. Há uma xícara de café em um pires à esquerda do laptop. Papéis são visíveis sob a mão direita da mulher, que está descansando os braços acima de papeis abaixo do teclado do laptop. Ao fundo, há divisórias de vidro e outra mesa. Vamos explorar agora a história da saúde mental no ambiente de trabalho. As investigações sobre esse tema começaram nos anos 1950 com estudos realizados por Lê Guillant (1954 apud Girotto; Diehl, 2016) e Sivadon (1952; 1957 apud Girotto; Diehl, 2016), que examinavam as possíveis doenças mentais causadas pelo trabalho. Em 1980, Christophe Dejours, um psiquiatra, introduziu uma nova teoria que explorava a relação entre o trabalho e o sofrimento psicológico. Essas pesquisas, voltadas a identificar doenças mentais entre os trabalhadores, não encontraram casos clássicos de doenças mentais, mas sim um enfraquecimento que predisponha ao surgimento de tais doenças. Esse novo modelo teórico foi denominado “Psicodinâmica do Trabalho”, cujos detalhes serão abordados posteriormente (Girotto; Diehl, 2016). Capítulo 3 138 No Brasil, apenas na segunda metade do século XIX é que surge alguma atenção para a saúde dos trabalhadores, devido à restrição do uso de escravos negros. Figura 13. Saúde mental no trabalho Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: a imagem apresenta uma mulher sentada em uma cadeira em um ambiente que parece ser seu local de trabalho. Seus cabelos estão presos e ela está com os braços esticados, alongando-os. Para encerrar este assunto, vale mencionar Dejours (1992), que delineia a “História da Saúde dos Trabalhadores” ao longo das lutas e mudanças nas condições de trabalho. Ele divide essa história em três fases: a discussão inicial sobre a Psicopatologia do Trabalho, a proposição da Psicodinâmica do Trabalho e, por fim, a emergência da Clínica das Patologias Sociais. Na primeira fase, Dejours, sob o título “Século XIX e a luta pela sobrevivência”, aborda o período que antecede a Primeira Guerra Mundial. Ele destaca aspectos como a hostilidade do ambiente de trabalho, as longas horas laborais, a participação de crianças e os frequentes acidentes com alta taxa de mortalidade entre os trabalhadores. Nessa época, a preocupação principal não era com a saúde, mas sim com a sobrevivência. Capítulo 3 139 Esse período foi marcado pela escassez de alimentos e moradia, resultando em uma alta taxa de mortalidade devido a doenças. Com o advento das indústrias e fazendas, o sistema escravista foi gradualmente substituído pelo trabalho assalariado. Mesmo após a promulgação da Constituição de 1891, o Estado não interveio nas relações trabalhistas, que eram regidas pelo Código Penal. Desde a Primeira Guerra Mundial até 1968, houve movimentos organizados pelos trabalhadores na Europa, demandando inspeções médicas nas fábricas, o que levou ao reconhecimento de algumas doenças profissionais e à implementação de compensações por elas. Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: imagem de um malhete de madeira polida repousando sobre sua base circular, também de madeira, em uma superfície de madeira escura e texturizada. Ao lado do malhete, há um livro azul escuro com capa rígida fechado e algemas prateadas parcialmente visíveis repousando sobre ele. Figura 14. Código penal Capítulo 3 140 Em 1919, foi fundada a Organização Internacional do Trabalho (OIT), uma resposta humanitária e política às consequências humanas da Revolução Industrial, visando estabelecer leis internacionais para a proteção dos trabalhadores. No mesmo período, no Brasil, foram promulgadas as primeiras leis sobre Acidentes de Trabalho e a Previdência Social, conhecida como Lei Eloy Chaves. Esta última foi instituída em 24 de janeiro de 1923 (Decreto nº 4.682/1923) e estabeleceu as bases do sistema previdenciário brasileiro, incluindo a criação da Caixa de Aposentadorias e Pensões para os funcionários das empresas ferroviárias. Podemos observar que o sistema de saúde no Brasil inicialmente se concentrou na prestação de assistência aos trabalhadores urbanos. Somente em 1943 foi promulgada a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que abordava questões relacionadas à organização sindical, previdência social e proteção ao trabalhador, além da instauração da justiça do trabalho. No entanto, foi apenas em 1978 que a CLT, em seu Capítulo V, introduziu as Normas Regulamentadoras de Segurança e Medicina do Trabalho. Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: a imagem mostra duas mulheres sentadas à mesa, assinando um documento. Na mesa, há três livros de capas vermelhas empilhados, um martelo de juiz e uma calculadora. Figura 15. Leis trabalhistas Capítulo 3 141 Após o período posterior a 1968, designado por Dejours (1992) como o Terceiro Período, houve um avanço na discussão em torno da saúde física. Passou-se a considerar também as condições e a organização do trabalho. Foi somente por volta de 1970 que começou a surgir, ainda que gradualmente, uma preocupação em relação às condições psicológicas do trabalho menos qualificado e seus impactos na saúde. Nesse contexto, surgiramentre a natureza do organismo e suas funções" (Romero et al., 2011). 15 Capítulo 1 Segundo ele, as causas de doenças podiam ser de cunho interno, ou seja, inerentes ao próprio indivíduo, ou externo, causadas pelos excessos cometidos pelo paciente (alimentar, sexual ou de exercício físico), bem como podiam decorrer da combinação de ambos (Barros, 2002; Romero et al., 2011)." Ele preconizava ainda que o diagnóstico devia ser realizado com base em análise cuidadosa do enfermo, avaliando fatores inerentes à sua vida pessoal, personalidade, alimentação e fatores externos como a época do ano (Barros, 2002). Conforme revisado por Romero et al. (2011, on-line, traduzido pelo autor): Galeno recomendou conhecer a todos os enfermos em estado de saúde em relação a constituição, calor natural, pulso, ânimo, sexo, ambiente físico em que ele vive entre outros, como dados clínicos fundamentais para determinar alterações produzidas pela enfermidade. Galeno demonstrava, já nesta época, uma visão integrada da enfermidade, uma prática a frente de seu tempo e pouco comum para aquela época. Outro grande pensador desta era foi Paracelso, e é tido como uma transição entre a escola Galênica e o modelo biomédico (Barros, 2002). Paracelso tinha uma visão mística do que era a medicina na época, porém mais próxima do conhecimento atual que seus predecessores. Ligado a conhecimentos de medicina e também de magia e misticismo, Paracelso criticava as práticas médicas de sua época, bem como a formação médica daquele tempo (Finkielman, 2008). Por seu êxito em curar, Paracelso foi convidado a lecionar, e não tardou em expor sua opinião: na classe inaugural, em 1527, frente a uma multidão de docentes e alunos, iniciou uma dissertação que começava assim: 'Os cordões de meus sapatos possuem mais sabedoria que Galeno e Avicena juntos, e os pelos de minha barba tem mais experiência que toda a academia [...]'. (Finkielman, 2008, traduzido pelo autor) Viajava muito, não por lazer, mas com o objetivo de complementar sua formação médica que julgava falha e fraca. Em suas viagens, interagia com curandeiros, ciganos, cartomantes e várias outras classes de pessoas que julgara potenciais contribuidores para sua formação. 16 Capítulo 1 Na determinação da doença, Paracelso identificava influências cósmicas e telúricas além de substâncias tóxicas e venenosas, bem como da predisposição do próprio organismo e das motivações psíquicas. A doença também se explicava em virtude de reações inadequadas dos elementos constitutivos do mundo (excesso de um ou de mais de um deles). (Barros, 2002, p. 71)" Ademais de seu lado excêntrico, sua contribuição é marcada por sua oposição às visões de saúde-doença de seus predecessores Hipócrates e Galeno, sendo um dos pioneiros na utilização de medicamentos químicos no tratamento de enfermidades (Barros, 2002). Foi um dos primeiros a utilizar o mercúrio no tratamento da sífilis, descrevendo o efeito diurético deste medicamento; fez, ainda, observações sobre a presença de cristais e albumina na urina de pacientes diabéticos. Foi também responsável por descrever a doença chamada Silicose dos mineiros, que é uma enfermidade pulmonar que leva a perda da capacidade respiratória, além de advertir sobre o nascimento de crianças com cretinismo provindas de pais com bócio (Finkielman, 2008). Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: a imagem retrata uma mulher em um ambiente médico, examinando uma imagem de raio-X do tronco humano exibida em um monitor. A mulher veste um jaleco branco, o raio-X mostra o tronco humano com contornos claros da caixa torácica, coluna vertebral e pelve, os ossos estão destacados em branco contra um fundo escuro. Figura 2. Saúde e doença 17 Capítulo 122. O MODELO BIOMÉDICO DE SAÚDE E DOENÇA No contexto histórico do renascimento, nasce o modelo biomédico de saúde. Com ele, a concepção puramente física do mundo foi também transposta aos seres vivos. Gerou-se uma perspectiva reducionista, na qual os seres humanos são estudados parte a parte em separado, de modo que cada uma deve ser avaliada em relação à sua conformação específica e respectivas funções, visando o entendimento da doença (Barros, 2002; Albuquerque, Oliveira, 2002). A doença, nesta interpretação, é vista por uma perspectiva mecanicista, como o desequilíbrio em uma destas partes individualizadas e que deve ser consertada. O corpo humano era visto como um complexo sistema onde todas as partes se organizam de maneira ordenada e seguindo um processo lógico. Isso reflete o modelo biomédico de saúde e doença. Grandes personalidades que contribuíram direta ou indiretamente para o modelo biomédico foram William Harvey e Edward Jenner pela descoberta da circulação sanguínea e da primeira vacina respectivamente, assim como Louis Pasteur e Robert Koch por sua essencial participação na era bacteriológica (Barros, 2002). René Descartes também apresentou grande contribuição para este modelo por meio de seus postulados que orientaram o estabelecimento de métodos para o estudo das doenças e que orientam a investigação até os dias atuais (Barros, 2002). É inegável que o modelo biomédico de saúde tem promovido avanços nos campos de diagnóstico, tratamento e investigação que são consideráveis e em muito ajudam a sociedade, fato este que se refere no aumento continuado de nossa expectativa de vida. Capítulo 1 Planilhas, fluxogramas e protocolos são elaborados todos os dias por profissionais de saúde e para profissionais de saúde, numa tentativa de que se padronizem seus meios e seus métodos para a promoção da saúde, visando a manutenção da idoneidade que tem o sistema de saúde. 18 Em relação aos tempos de Florence Nightingale (1820 - 1910), onde não se tinham devidos cuidados, hoje os temos em proporção adequada às maiores demandas da sociedade, de maneira que doenças como gripes e diarreias não nos representam mais riscos de morte. Em linhas gerais, este modelo permitiu grande avanço no entendimento das doenças colocando-as no centro de atenção dos estudos e permitiu, também, grandes avanços na área da investigação de enfermidades. Por outro lado, a assistência à saúde, em especial os hospitais, tem se tornado um meio tecnicista de tentativa de promoção do bem-estar. Paralelamente ao avanço e sofisticação da biomedicina foi sendo detectada sua impossibilidade de oferecer respostas conclusivas ou satisfatórias para muitos problemas ou, sobretudo, para os componentes psicológicos ou subjetivos que acompanham, em grau maior ou menor, qualquer doença. (Barros, 2002, p. 79) Saiba Mais O modelo biomédico, apesar de contribuir com incontestáveis avanços para a medicina, tem sido fortemente criticado por sua visão reducionista e seccionadora do sujeito no processo saúde-doença. Deste modo, reflete-se, e se convida a uma reflexão, de maneiras que este modelo possa ser trabalhado para gerar uma metodologia de trabalho mais integral do ser humano nos seus aspectos físico, mental, espiritual e social, conforme nos coloca a OMS em seu conceito de saúde. Esforça-se muito para se ostentar a imagem de um sistema assertivamente correto com profissionais que nunca falham, imputando-se essa cobrança aos assistentes de saúde (Barros, 2002). A própria morte, termo inevitável da vida, passou a ser vista como um reflexo da incapacidade do médico ou dos sistemas responsáveis pela manutenção da vida. (Barros, 2002, p. 80) Continuando este raciocínio, vemos que: Capítulo 1 19 [...] o modelo biomédico estimula os médicos a aderir a um comportamento extremamente cartesiano na separação entre o observador e o objeto observado. (Barros, 2002, p. 79) A visão engessada do paciente enquanto um ser terceiro e a visão de doença compartimentalizada tem, em muito, deteriorado a assistência em saúde. Isso se dá por meio da erosão mental de nossos trabalhadores, no campo da execução das técnicas e no campo emocional dos próprios prestadores (Carlotto, 2011; Albadarejo et al., 2004). Conforme colocado por Barros (2002,os estudos da Psicodinâmica do Trabalho. O foco desses estudos se voltou para a preservação da normalidade diante das adversidades enfrentadas no dia a dia laboral. A partir de 1980, no Brasil, com a promulgação da Constituição Federal de 1988, ficou estabelecido o dever do Estado de garantir a saúde da população. Importante Esses estudos aprofundaram a compreensão da relação entre a construção da subjetividade e o trabalho. Por fim, as Patologias Sociais são o resultado dos conflitos vivenciados pelos trabalha- dores em seus ambientes laborais. Essas patologias também são resultado das dificuldades extremas em lidar com as demandas impostas pelo trabalho contemporâneo, conciliando as adversidades e o sofrimento resultante delas. Conforme o Artigo 196, a saúde do trabalhador e o ambiente de trabalho são abordados no capítulo do direito à saúde. Além disso, o Artigo 200 descreve as competências do Sistema Único de Saúde (SUS), que ganhou forma com a aprovação da Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080), em 1990. Em 2002, foi criada a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST) como uma iniciativa externa específica para a saúde do trabalhador, estabelecendo diretrizes e estratégias. Atualmente, temos a Política Nacional da Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora, conforme a Portaria nº 1.823, de 23 de agosto de 2012. Os estudos de Dejours e a Psicodinâmica do Trabalho foram amplamente difundidos e adotados por pesquisadores e profissionais envolvidos com o tema e a prática da saúde do trabalhador. ! Capítulo 3 142 3 3. O CAMPO TEÓRICO DA SAÚDE E TRABALHO O cotidiano ajuda na constituição da identidade individual e social. É a partir de trocas materiais e afetivas que o sujeito constitui sua singularidade em meio às diferenças. O espaço do trabalho é um campo importante para essas trocas, aparecendo como um mediador do desenvolvimento, da constituição e da complementação da identidade e da construção da vida psíquica. (Lancman, 2008) Conforme o Artigo 196, a saúde do trabalhador e o ambiente de trabalho são abordados no capítulo do direito à saúde. Além disso, o Artigo 200 descreve as competências do Sistema Único de Saúde (SUS), que ganhou forma com a aprovação da Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080), em 1990. Em 2002, foi criada a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST) como uma iniciativa externa específica para a saúde do trabalhador, estabelecendo diretrizes e estratégias. Segundo Penido e Perone (2013, p. 23): Uma curiosidade interessante de trazer se refere ao termo Trabalho, que deriva do latim Tripalium ou tripalus, que na antiguidade era um instrumento de três pontas de ferro utilizado para a ceifa dos cereais, em que a ferramenta imobilizava cavalos e bois para serem ferrados. Esse termo também era o nome de um instrumento de tortura, que era utilizado contra os escravos e também presos, foi a partir disso que se originou o verbo tripaliare, cujo primeiro significado era “torturar”. Nos tempos atuais, o trabalho tem um duplo significado: prazer e sofrimento (Ribeiro; Léda, 2004). Capítulo 3 143 Conceito A saúde mental abrange o indivíduo em sua totalidade biopsicossocial, incluindo seu contexto social e estágio de desenvolvimento. É um equilíbrio dinâmico resultado da interação com seus diversos ecossistemas, que englobam tanto seu ambiente interno quanto externo, suas características orgânicas e suas questões pessoais e familiares. O trabalho não pode ser considerado como natural ou a-histórico. O trabalho é tomado de subjetividade e inserido no contexto econômico, político e social, , com inúmeras diversidades, fazendo com que os indivíduos tenham vivências diferentes sobre o mesmo assunto. Na contemporaneidade, sabe-se que há visões contrárias de pessoas que convivem até mesmo nos mesmos espaços de trabalho. Há dois principais modelos que explicam as relações entre saúde mental e trabalho: a psicopatologia do trabalho – intitulada por psicodinâmica do trabalho a partir dos estudos de Dejours – e os estudos que envolvem a relação entre estresse e trabalho (Ribeiro; Léda, 2004; Glina et al., 2001). Figura 16. Ambiente de trabalho Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: imagem de três pessoas em um ambiente de escritório. As pessoas estão rodeadas por mesas brancas repletas de pilhas de documentos, laptops e outros itens de escritório. Uma pessoa está sentada, parecendo estar revisando os documentos, enquanto outra está em pé, manuseando papéis. A terceira pessoa está sentada em frente a um computador. Capítulo 3 144 O ambiente de trabalho atualmente se tornou bastante competitivo e passou a exigir dos indivíduos mais receptividade, adaptabilidade e envolvimento individual. Podemos pensar que há até certo “descartar” humano dentro de algumas organizações, em que a ideia de hierarquia acaba por naturalizar uma super concorrência, fazendo com que se instiguem os sentimentos de insegurança, bem como se alimentam as frustrações e as angústias em torno do emprego, pois em qualquer momento poderá se transformar em desemprego. Figura 17. Competitividade no trabalho Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: imagem de um ambiente de escritório com duas pessoas. A primeira pessoa está sentada à mesa, concentrada em escrever em um caderno aberto com uma caneta. Há um laptop preto e uma xícara de café branca na mesa. A segunda pessoa está em pé ao lado da mesa, apontando para a pessoa sentada. O fundo é uma parede cinza escura com um relógio pendurado e prateleiras contendo vários objetos. Capítulo 3 145 Estudiosos do assunto afirmam que se espera que o trabalhador seja útil e produtivo. Mesmo havendo uma certa preocupação com a saúde mental dos indivíduos, há também um desejo implícito de intensificar o trabalho e o rendimento organizacional. Nesse sentido, o local de trabalho se torna uma fonte de sofrimento psicológico, aumentando os casos de afastamento do trabalho por psicopatologias. Três décadas após a criação do SUS, o Brasil ainda tem pouco a comemorar em relação à saúde do trabalhador. Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho, em 2013, o Brasil foi o quarto país com o maior número de acidentes de trabalho, com cerca de 700 mil ocorrências. De acordo com os dados da Previdência Social, no Brasil, a terceira causa de afastamento entre os trabalhadores são os transtornos mentais, responsáveis por mais de 12% da incapacitação decorrente de doenças. Entre as causas de incapacitação, encontram-se os transtornos psiquiátricos. A depressão é a mais prevalente, com 13%, seguida pelo alcoolismo, com 7,1%, esquizofrenia, com 4%, transtorno bipolar, com 3,3%, e, por último, o transtorno obsessivo-compulsivo, com 2,8%. Esse aumento levou a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a OMS a enfatizarem a importância dos fatores psicossociais e sua influência no estabelecimento do estresse relacionado ao trabalho (WHO, 2008). Saiba Mais A Política Nacional de Segurança e Saúde do Trabalhador destaca a importância da cooperação entre os Ministérios do Trabalho, da Previdência Social e da Saúde para promover uma melhor qualidade de vida e o bem-estar pessoal e social dos trabalhadores, sem comprometer sua saúde física e mental (Brasil, 2005). Capítulo 3 146 Figura 18. Doença ocupacional Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: a imagem mostra dois homens em um ambiente com uma parede de tijolos e prateleiras ao fundo. Um dos homens está vestido com um jaleco e um estetoscópio ao redor do pescoço, e está segurando uma prancheta com papéis anexados. O outro homem está sentado ao lado dele e tem ambas as mãos colocadas na cabeça. No entanto, o Brasil enfrenta um alto índice de afastamentos do trabalho devido a doenças mentais. As doenças listadas no Capítulo V da Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID 10) foram a terceira causa mais comum de concessão de benefícios de auxílio-doença por incapacidade no trabalho em 2010 (Brasil, 2012). Maisde 201 mil novos benefícios foram concedidos naquele ano, com cerca de 6% considerados acidentários, o que significa que a perícia do INSS reconheceu que o adoecimento do trabalhador estava relacionado à exposição a fatores presentes no ambiente de trabalho. Capítulo 3 147 No Brasil, a Política Nacional de Promoção da Saúde propõe intervenções em três áreas principais: modos de vida, condições e relações de trabalho, e questões ambientais. Isso inclui alimentação, atividade física, lazer, redução de riscos, melhoria dos ambientes laborais, redução de doenças ocupacionais e acidentes de trabalho, humanização dos serviços de saúde, violência, redução da morbimortalidade por causas externas, saneamento, qualidade da água e saúde nas escolas. Portanto, essa política estabelece uma conexão direta entre as práticas de promoção da saúde e as condições de trabalho. Podemos afirmar que a Saúde do Trabalhador no Brasil é um campo de práticas e conhecimento baseado nos princípios da Saúde Coletiva. Importante A saúde do trabalhador busca compreender e intervir nas relações entre trabalho e saúde-doença, tendo como foco principal a inclusão de um novo ator social, a classe operária industrial, em meio a profundas transformações políticas, econômicas e sociais na sociedade. O campo da saúde do trabalhador é delineado por três principais elementos: a produção acadêmica, a implementação de programas de saúde pública e a mobilização do movimento dos trabalhadores (Lacaz, 2007). ! Todos os dias, a sociedade enfrenta dificuldades e desafios para compreender e controlar os riscos que vêm do trabalho, que é complexo. As novas formas de produção, apoiadas em tecnologias de informação, aceleram o ritmo do trabalho, tornando-o mais exigente. Nesse sentido, o cuidado com a força de trabalho se torna importante para as organizações e para a própria sociedade, o que torna o debate e os estudos sobre a saúde mental dentro das organizações extremamente importantes. Vídeo Assista ao vídeo Saúde Mental no Trabalho, parte da Série Profissional do Futuro, em que o professor Leandro Karnal aborda a importância da saúde mental na rotina de trabalho. Ele apresenta o tema de maneira prática e acessível, discutindo doenças mentais e como são percebidas pela sociedade, inclusive em relação à pandemia. Acesse o QR Code ao lado para assistir. Capítulo 3 148 O trabalho, um dos elementos importantes da vida social que contribuem para uma vida digna e de qualidade, tem um grande impacto no cotidiano do ser humano. Como já mencionado, passamos uma grande parte da vida no ambiente laboral. O trabalho influencia comportamentos e oferece condições de risco que podem afetar o processo saúde-doença. Atualmente, a qualidade de vida no trabalho tem sido uma preocupação para as empresas. Se uma empresa não oferece boas condições aos seus trabalhadores, terá funcionários desmotivados e sofrerá mais prejuízos. Fonte: Envato (2024). #ParaTodosVerem: a imagem retrata um ambiente de escritório moderno e bem iluminado. Uma mulher no primeiro plano está focada e sorridente em seu laptop, enquanto outras pessoas podem ser vistas ao fundo, também trabalhando em laptops ou documentos. Figura 19. Trabalhadora Sorrindo Capítulo 3 149 A promoção da saúde no ambiente de trabalho é crucial, pois contribui para a melhoria tanto do ambiente físico quanto do psicossocial, trazendo benefícios para a saúde e promovendo o desenvolvimento de valores e estilos de vida saudáveis. Isso resulta em um ambiente de trabalho mais saudável, que, por sua vez, aumenta o bem-estar geral dos trabalhadores. Podemos afirmar que a promoção da saúde ocorre por meio da integração entre o indivíduo e o coletivo, o setor público e o privado, o Estado e a sociedade, entre outros aspectos, com o objetivo de reduzir a vulnerabilidade, os riscos e os danos à saúde. Isso culmina na formação de redes de comprometimento e corresponsabilidade pela qualidade de vida da população, em que todos participam do processo de proteção e cuidado com a vida (Brasil, 2005; Sicoli; Nascimento, 2003). 4 Compreender e estabelecer vínculos entre os aspectos psicossociais do trabalho e os fatores estressantes que podem levar ao surgimento de doenças é uma tarefa desafiadora, devido à complexidade dessa relação. Considere, por exemplo, o sofrimento psíquico. A experiência negativa no ambiente de trabalho é muitas vezes difícil de quantificar, o que complica a identificação da conexão entre o processo de adoecimento e as condições laborais. Muitas vezes, o próprio trabalhador doente não consegue reconhecer esse sofrimento como de natureza mental. Quando o faz, pode enfrentar dificuldades para obter a ajuda necessária. Frequentemente, a atenção é direcionada à questão apenas quando o trabalhador é diagnosticado com alguma patologia que requer tratamento especializado e afastamento do trabalho. 150 4. AS ABORDAGENS DO DESGASTE: DA PSICODINÂMICA DO TRABALHO; DO ESTRESSE OCUPACIONAL; DA ERGONOMIA; DO MODO DE VIDA Importante “A síndrome de Burnout não é modismo, não é meramente um trend topic, é uma doença sorrateira que existe realmente, que acomete milhares de trabalhadores em todo o mundo neste exato momento e que pode se tornar uma grave ameaça para a saúde das pessoas, das organizações e da sociedade em geral, trazendo diversos prejuízos” (Carvalho, 2023, p. 73). É importante compreender que as doenças relacionadas ao trabalho e os acidentes estão associados a uma variedade de causas, incluindo fatores organizacionais, físicos e humanos (Mesquita et al., 2016). Capítulo 3 151 4.1 DO DESGASTE O desequilíbrio na saúde dos profissionais pode levar a um aumento das faltas no trabalho, conhecido como absenteísmo, pois eles podem precisar tirar licenças médicas, o que exige que a organização tome medidas como a substituição de funcionários, transferências, novas contratações e treinamentos adicionais, entre outros. A expressão “burnout” no contexto profissional foi cunhada por Herbert Freudenberger, em 1974, para descrever uma síndrome caracterizada por exaustão, desilusão e isolamento entre os trabalhadores da saúde mental. Na década de 1970, nos Estados Unidos, Herbert Freudenberger foi o primeiro a definir a síndrome de Burnout. Ele descreveu essa condição como um conjunto de sintomas biológicos, psicológicos e sociais não específicos que surgem no contexto do trabalho e resultam em uma demanda excessiva de energia. Isso ocorre devido à disparidade entre o esforço investido e os resultados obtidos, que muitas vezes não atendem às expectativas do profissional. Artigo Indicamos o artigo Síndrome de burnout ou estafa profissional e os transtornos psiquiátricos, que conduz uma revisão da literatura sobre a síndrome no Brasil e em outras nações, abordando sua prevalência, potenciais fatores de risco associados ao seu desenvolvimento, sua conexão com outros transtornos psiquiátricos e os impactos tanto para o indivíduo quanto para a organização em que trabalha. Acesse o QR Code ao lado para ler o artigo. Posteriormente, Maslach e Jackson expandiram esse conceito, identificando três dimensões inter-relacionadas: exaustão emocional (perda de recursos emocionais para lidar com o trabalho), despersonalização (desenvolvimento de atitudes negativas, insensibilidade e cinismo em relação aos usuários do serviço prestado) e falta de realização pessoal (tendência a avaliar negativamente o próprio trabalho, associada a sentimentos de baixa autoestima profissional) (Garcia; Marziale; 2018). Capítulo 3 152 Figura 20. Síndrome de Burnout Fonte: Ufscar (2021). #ParaTodosVerem: a imagem apresenta um infográfico sobre a Síndrome de Burnout (SB), descrita como a síndrome do esgotamento profissional. Em quatro círculos alaranjados, estão escritas as seguintes informações: “É uma doença ocupacional reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).”; “É gerada a partir de exposição contínua ao estresse no ambiente de trabalho.”; “Caracteriza-se pelo estado decansaço extremo, exaustão total e perda do propósito em relação ao trabalho.”; e “Acomete principalmente trabalhadores que estão em contato direto com outras pessoas, o que pressupõe a mediação das relações, estabelecimento de expectativas, conflitos etc.”. No centro, há a ilustração de uma pessoa exausta, apoiando a cabeça nas mãos diante de um notebook. As profissões que lidam com o Burnout o reconhecem como um risco ocupacional, principalmente. No Decreto nº 3.048, de 6 de maio de 1999, no Brasil, foi aprovado o Regulamento da Previdência Social. Ele trata dos Agentes Patogênicos causadores de Doenças Profissionais, tendo o item XII da tabela de Transtornos Mentais e do Comportamento Relacionados com o Trabalho, trazendo a “Sensação de Estar Acabado” (“Síndrome de Burnout”, “Síndrome do Esgotamento Profissional”) como sinônimos do burnout. Essa síndrome é considerada um grande problema no mundo profissional da atualidade (Trigo et al., 2007). Capítulo 3 153 Para melhor entendimento, trago alguns pontos sobre o Burnout. Exaustão emocional Diminuição da realização pessoal Apatia ou distanciamento Trata-se de sintoma central do burnout, que é caracterizada por um profundo esgotamento emo- cional, refletindo-se em irrita- bilidade, falta de motivação e dificuldade de concentração, im- pactando tanto o desempenho no trabalho quanto a saúde mental. Caracteriza-se por uma atitude desinteressada e distante em rela- ção ao trabalho, manifestando-se por meio da falta de envolvimen- to, da indiferença e do isolamento social, afetando negativamente o desempenho e bem-estar no am- biente profissional. Manifesta-se pela sensação de incompetência e falta de realização no trabalho, acompanhada pela perda de interesse em tarefas que antes eram gratificantes, levando à percepção de que o trabalho não contribui mais para as metas pessoais ou profissionais, impactando negativamente o bem-estar e a motivação no am- biente profissional. Essa síndrome tem um impacto significativo tanto nos indivíduos quanto nas empresas, influenciando seus principais componentes e resultados. Ela se manifesta por meio da exaustão emocional, despersonalização e diminuição da realização pessoal, afetando profundamente a saúde e o bem- estar dos indivíduos, bem como a eficiência das organizações. Concluímos que a Síndrome de Burnout é um fenômeno preocupante e complexo. Capítulo 3 154 4.2 DA PSICODINÂMICA DO TRABALHO Os conceitos da Psicodinâmica do Trabalho ressaltam a importância central do trabalho na vida dos indivíduos, explorando os elementos que podem contribuir para a saúde ou o adoecimento. De acordo com Christophe Dejours (1986), a organização do trabalho tem um papel crucial nos efeitos, tanto negativos quanto positivos, no funcionamento psíquico e na saúde mental do trabalhador. Dejours (1986) define a organização do trabalho como a estruturação das tarefas, que inclui o conteúdo e o modo operatório regulados pela organização, e a estruturação dos grupos de trabalho, que se refere à forma como as pessoas são distribuídas e às relações humanas estabelecidas dentro da empresa. Figura 21. Grupo de pessoas trabalhando Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: imagem de quatro pessoas sentadas ao redor de uma mesa de madeira. Elas estão envolvidas em uma reunião ou sessão de estudo colaborativo. Na mesa, há um notebook aberto, um tablet, folhas de papel com desenhos e anotações, além de uma planta verde em um pequeno vaso. A abordagem da psicodinâmica do trabalho é uma área de pesquisa que combina elementos da Psicanálise, Ergonomia e Sociologia do Trabalho. Inicialmente, sua base era a psicopatologia, mas ao longo do tempo desenvolveu seus próprios métodos e teorias. A evolução da psicodinâmica do trabalho pode ser dividida em três fases interligadas. Na primeira fase, conhecida como Psicopatologia do Trabalho, a influência da Psicanálise era predominante, com foco na investigação das origens do sofrimento decorrente da interação entre o trabalhador e a organização do trabalho. A segunda fase marca o estabelecimento da psicodinâmica como uma abordagem própria, explorando tanto o prazer quanto o sofrimento no trabalho, assim como as estratégias de defesa utilizadas pelos indivíduos para evitar o adoecimento sem comprometer a produtividade. Por fim, a terceira fase destaca outros aspectos relevantes, como a forma como os trabalhadores internalizam suas experiências, as estratégias de enfrentamento coletivo, a cooperação e as consequências sociais do confronto entre a organização do trabalho, o sofrimento e a ação (Conde et al., 2019). A psicodinâmica do trabalho é um tema de extrema relevância atualmente, dada a compreensão das consequências que o trabalho pode ter sobre os indivíduos, conforme ele é organizado, dividido e distribuído socialmente. Diante da crescente desregulação do mundo laboral contemporâneo, caracterizado por altos índices de desemprego, precariedade nas relações de trabalho, flexibilidade extrema, exploração e assédio, surge o questionamento central dessa abordagem. Capítulo 3 155 Polêmica Como alguns trabalhadores conseguem manter sua saúde mental intacta em situações que poderiam desencadear sérios problemas decorrentes do ambiente de trabalho? Por que não sucumbem ao estresse A maioria dos trabalhadores se acostumou a uma realidade de sofrimento como algo normal. Para a psicodinâmica do trabalho, a relação entre o indivíduo e o trabalho é frequentemente associada ao sofrimento e à doença, embora também reconheça que o trabalho pode ser uma fonte de prazer e saúde (Areosa, 2021). Capítulo 3 156 A normalidade é interpretada como o resultado de uma composição entre o sofrimento e a luta (individual e coletiva) contra o sofrimento no trabalho. Portanto, a normalidade não implica ausência de sofrimento, muito pelo contrário. Pode-se propor um conceito de ‘normalidade sofrente’, sendo, pois, a normalidade não o efeito passivo de um condicionamento social, de algum conformismo ou de uma ‘normalização’ pejorativa e desprezível, obtida pela ‘interiorização’ da dominação social, e sim o resultado alcançado na dura luta contra a desestabilização psíquica provocada pelas pressões do trabalho (Dejours, 1992, p. 36). O papel do reconhecimento é apontado como um indicador de prazer no trabalho, este pode compor uma recompensa ou retribuição simbólica, o que pode reforçar a identidade psicológica e social. Há dois tipos de reconhecimentos: o que advém dos superiores hierárquicos ou chefias, definido como julgamento de “utilidade”; e o reconhecimento por parte dos colegas, chamado de julgamento de “beleza”. Em relação ao prazer/sofrimento, podemos destacar como indicadores de prazer no trabalho a realização profissional e a liberdade de expressão, pois proporciona ao trabalhador conservação de sua saúde e integridade psíquica. Já o sofrimento, esgotamento emocional e a falta de reconhecimento, são os formadores de doença, de descompensação psicossomática e psíquica. Dejours (1992) difere duas formas de sofrimento: o criativo, onde o indivíduo produz estratégias e soluções adaptativas, para assim manter a sua saúde frente as pressões do trabalho; e o patológico, onde a pessoa faz escolhas consideradas prejudiciais para a sua saúde e vida (drogas como bebidas alcoólicas), e passam a chegar em um extremo como as tentativas de suicídio em ambiente laboral. 4.3 ESTRESSE OCUPACIONAL Capítulo 3 157 O estresse ocupacional é definido como um conjunto de perturbações psicológicas ou sofrimento mental relacionado às experiências no ambiente de trabalho. A maneira como as tarefas são organizadas e distribuídas entre os profissionais está diretamente ligada a fontes significativas de estresse no trabalho. Isso pode resultar em consequências importantes devido às condições precárias de organização, tais como baixa valorização e remuneração, carga desproporcional de tarefas, escassez de recursos e problemas de infraestrutura. Saiba Mais O estresse ocupacional surgeem resposta aos estímulos do ambiente de trabalho que demandam uma reação do indivíduo. A maneira como as tarefas são organizadas e distribuídas entre os profissionais está diretamente ligada a fontes significativas de estresse no trabalho. Isso pode resultar em consequências importantes devido às condições precárias de organização, tais como baixa valorização e remuneração, carga desproporcional de tarefas, escassez de recursos e problemas de infraestrutura. Capítulo 3 158 Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: a imagem mostra um homem sentado à mesa de trabalho, com as mãos na cabeça. Ele está cercado por pessoas que lhe estendem objetos ao mesmo tempo, como celular, documentos e caneta. À sua frente há um notebook aberto. Figura 22. Estresse ocupacional Quando abordamos o estresse ocupacional, podemos considerar diferentes perspectivas: a biológica, a psicológica e a sociológica. Embora distintas, essas vertentes são complementares e estão intrinsecamente ligadas. Na abordagem biológica, o estresse é caracterizado pelo desgaste físico do corpo. Na perspectiva psicológica, focamos nos processos afetivos, emocionais e intelectuais do indivíduo, ou seja, como as pessoas se relacionam com os outros e com o mundo ao seu redor. Já a abordagem sociológica compreende as variáveis que surgem no contexto social mais amplo (Prado, 2016). 4.4 DA ERGONOMIA A Ergonomia tem como função gerenciar o desenvolvimento de situações de trabalho, considerando aspectos materiais e ferramentas sociais e organizacionais. Capítulo 3 159 O objetivo principal é a saúde, segurança, conforto, satisfação e eficácia no desempenho das atividades do trabalhador. As mudanças nas condições e no ambiente de trabalho ocorrem através dos estudos ergonômicos. É por meio das condições físicas e psicológicas do indivíduo que as máquinas, os equipamentos e os mobiliários são melhorados e adaptados para o desempenho de uma tarefa. As ações sugeridas pela ergonomia trazem resultados benéficos para a qualidade de vida no trabalho (Pinto; Casarin, 2018). Podemos afirmar que a ergonomia compreende um corpo de conhecimentos teóricos e metodológicos que possibilita a análise do trabalho com o objetivo de compreendê-lo para transformá-lo. Isso leva em conta as exigências dos processos de trabalho, sua eficácia e a saúde do trabalhador. Figura 23. Ergonomia Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: a imagem retrata um homem sentado em uma cadeira, e parece estar alongando o braço, com uma mão alongando um braço e o cotovelo apoiado no braço da cadeira. Ao lado desta pessoa, na mesa, há um par de óculos e alguns papéis. Capítulo 3 160 Um assunto importante é referente ao risco ergonômico, que diz respeito a todos os fatores que podem interferir nas características psicofisiológicas do trabalhador, causar desconforto ou afetar sua saúde. É obrigação do local de trabalho se organizar ergonomicamente, pois assim os sujeitos têm um local com condições físicas e mentais. Isso é interessante inclusive para a própria organização porque diminui a fadiga e das ferramentas adequadas para a realização de tarefas com o menor esforço, reduzindo ao máximo o risco de acidentes de trabalho. A seguir, elencamos algumas soluções relacionadas à ergonomia. Design de mobiliário adequado Organização do layout do ambiente de trabalho Implementação de pausas ativas e alongamentos Reorganizar o layout do ambiente de trabalho para otimizar a circulação e minimizar o alcance excessivo pode melhorar a eficiência e reduzir o risco de acidentes. Isso inclui posicionar equipamentos, materiais e ferramentas de forma acessível e ergonômica, facilitando a realização das tarefas sem a necessidade de movimentos repetitivos ou desconfortáveis. Investir em mobiliário ergonômico, como cadeiras com suporte lombar ajustável e mesas com altura regulável, pode ajudar a reduzir a fadiga e prevenir lesões musculoesqueléticas. Esses móveis são projetados para se adaptar às necessidades individuais dos trabalhadores, proporcionando conforto e suporte durante longas horas de trabalho. Promover pausas regulares para alongamentos e exercícios físicos leves pode ajudar a aliviar a tensão muscular e melhorar a circulação sanguínea, reduzindo o estresse físico e mental. Essas pausas também proporcionam oportunidades para descansar os olhos, relaxar a mente e recarregar as energias, contribuindo para a saúde e o bem-estar geral dos trabalhadores ao longo do dia. Capítulo 3 161 É importante destacar que os riscos ergonômicos se distinguem dos riscos psicossociais. Esses últimos surgem de falhas na concepção, organização e gestão do trabalho, além de um contexto social laboral problemático, podendo acarretar efeitos adversos nos níveis psicológico, físico e social. Entre suas características estão cargas de trabalho excessivas, demandas contraditórias e falta de clareza nas atribuições, ausência de participação na tomada de decisões que impactam o trabalhador, má administração das mudanças, entre outros aspectos. 4.5 DO MODO DE VIDA No âmbito da ergonomia, a implementação das práticas sugeridas traz consigo uma gama de vantagens para a qualidade de vida no ambiente laboral, sendo um elemento crucial para o êxito de uma empresa. A qualidade de vida no trabalho desempenha um papel fundamental no crescimento das organizações, pois promove a integração entre indivíduos, atividades laborais e estrutura organizacional, com foco na obtenção de resultados favoráveis tanto para a empresa quanto para o desenvolvimento pessoal dos colaboradores. A qualidade de vida no trabalho é um programa que visa facilitar e atender às necessidades dos trabalhadores enquanto realizam suas atividades nas organizações. Parte-se do pressuposto de que as pessoas são mais produtivas quando estão satisfeitas e engajadas em suas tarefas. Isso se concretiza por meio de ações comportamentais que levam em consideração as necessidades humanas e o desempenho individual, como a definição clara das funções. Um aspecto relevante a ser destacado é que a qualidade de vida no trabalho tem como objetivo auxiliar os gestores na identificação de problemas dentro da organização que necessitam de melhorias, seja em relação aos padrões mínimos da empresa, ao ambiente de trabalho ou aos fatores que impactam o desempenho dos colaboradores e a qualidade dos serviços prestados (Pinto; Casarin, 2018). Podemos concluir que a qualidade de vida no trabalho está intrinsecamente ligada à motivação. Quanto mais motivado estiver o trabalhador, melhor será seu desempenho e sua autoestima, o que resultará em maior saúde e disposição para gerar resultados. Assim, a qualidade de vida no trabalho representa a busca pelo equilíbrio entre o indivíduo e a organização. 162 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo destacamos a relevância dos conhecimentos fundamentais para estudantes e profissionais do campo da saúde preventiva. O entendimento sobre os diferentes modelos conceituais de saúde, especialmente a transição do modelo biomédico para a determinação social da doença, permite uma reflexão crítica sobre as práticas profissionais e a influência das relações sociais na constituição desses modelos. Compreender essa evolução histórica e os modelos adotados mundialmente, assim como seu impacto no Brasil, é essencial para que os profissionais tenham clareza sobre o acesso à saúde e os processos de atenção exercidos no contexto nacional. A reforma sanitária brasileira buscou instituir um modelo de atenção universal, porém, o sistema de saúde brasileiro (SUS) sofre constantemente com influências da lógica privatista, ameaçando o princípio da universalidade. Cabe aos profissionais, com conhecimento e visão crítica da totalidade do sistema, defender e fortalecer o SUS, visando garantir saúde de qualidade para todos os brasileiros. Nesse contexto, é fundamental reconhecer que os determinantes da saúde mental extrapolam questões individuais, incluindo fatores sociais, culturais, econômicos, políticos e ambientais,com destaque para as condições laborais. A relação entre saúde, trabalho e doença vem sendo constantemente investigada, visto que ambientes de trabalho prejudiciais contribuem para o surgimento de distúrbios mentais, como aponta a Organização Mundial da Saúde (OMS). Fatores como sobrecarga nas atividades laborais, falta de reconhecimento e relações interpessoais prejudiciais refletem os desafios enfrentados no cotidiano profissional, impactando diretamente a saúde mental. Capítulo 3 163 Integrar o conhecimento sobre modelos de atenção à saúde, os desafios estruturais enfrentados pelo SUS e os fatores que compõem a saúde mental no trabalho conduz a uma prática profissional mais ampla e humana. A capacidade de atuar criticamente em defesa do sistema público de saúde, considerando o sujeito integral e o contexto social, é o caminho para promover ações de saúde transformadoras e inclusivas no Brasil. 164 1) (Adaptada - 2018 - FCC – Órgão Prefeitura de Macapá – AP): Saúde” e “Doença” são termos que, sob a perspectiva da História, vêm mudando de significado ao longo do tempo. Contemporaneamente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que “Saúde não é apenas a ausência de doença ou enfermidade, mas um estado de completo bem-estar físico, mental e social”, sendo este conceito baseado em: 2) (2020 - CESPE/CEBRASPE – Órgão: Hub – Residência multiprofissional em saúde coletiva): A intersetorialidade constitui um dos princípios da Política Nacional de Promoção de Saúde (PNPS) e pressupõe a articulação dos saberes para a promoção de saúde. Quanto a esse assunto, analise e assinale o item a seguir: A integração dos setores público e privado constitui a base do conceito da intersetorialidade em saúde, e tem o objetivo de alcançar a integralidade e a solução de um problema complexo e multicausal. ATIVIDADES DE ESTUDO a) ( ) Uma abordagem holística da saúde. b) ( ) Uma abordagem negativa de saúde. c) ( ) Características individuais e específicas, próprias da espécie humana. d) ( ) Evidências científicas que se consolidaram após o final da Idade Média. ( ) CERTO ( ) ERRADO Capítulo 3 165 3) No que diz respeito à saúde enquanto política pública brasileira, como ela está apresentada no campo da seguridade social da Constituição Federal de 1988? 4) Sabe-se que a promulgação da Carta Magna em 1988 assegurou o direito da população à saúde e, ao Estado, o dever de assegurar esse direito a todos brasileiros. Assim, como o Estado garantirá o acesso à saúde para a população? 5) A psicodinâmica do trabalho surgiu na França, na década de 1980, e foi desenvolvida por Christophe Dejours, é multidisciplinar e pautada na ergonomia, sociologia do trabalho, psicanálise, psicologia, medicina do trabalho. A trajetória da psicodinâmica é composta por três fases, que se articulam e se integram. Quais são elas? 6) O trabalho atualmente tem se tornado uma fonte do sofrimento psicológico, sendo inclusive um ambiente que tem apresentado aumento nos casos de afastamento do trabalho por psicopatologias. Há dados preocupantes em relação aos acidentes de trabalho, por exemplo, pois segundo os dados da Organização internacional do trabalho, em 2013, o Brasil foi o quarto país com maior número de acidentes de trabalho. No Brasil, qual a terceira causa de afastamento entre os trabalhadores? a. Psicopatologia do Trabalho, Psicodinâmica como abordagem, Subjetividade, defesas coletivas, cooperação e consequências sociais. b. Psicopatologia do Trabalho, Psicodinâmica como forma de relação, Relacionamentos interpessoais. c. Psicopatologia do Trabalho, Psicodinâmica como abordagem, Questões internas e externas ao sujeito trabalhador. d. Psicodinâmica como abordagem, Subjetividade, defesas coletivas, cooperação e consequências sociais. a. Transtornos mentais. b. Estresse ocupacional. c. Depressão. d. Síndrome de Bournout. Capítulo 3 166 7) A qualidade de vida no ambiente de trabalho é benéfica porque traz facilidade e ao mesmo tempo, satisfaz as necessidades do trabalhador. A ideia é conciliar os interesses dos indivíduos e os das organizações. Marque a alternativa correta sobre a finalidade da qualidade de vida no trabalho. a. A finalidade é auxiliar o gestor a identificar quais problemas existem dentro da organização e que precisam de melhorias, bem como, quais às circunstâncias ambientais de trabalho e os fatores que influenciam no desempenho dos trabalhadores e na qualidade dos serviços oferecidos. b. A finalidade é possibilitar um convívio melhor entre o trabalhador e organização, bem como, promover o bem-estar. c. A finalidade é em refletir o plano de carreira e as expectativas do trabalhador com o seu trabalho desenvolvido dentro da organização. d. A finalidade é manter uma boa saúde do trabalhador pois assim ele trabalhará melhor, bem como, sua produtividade será maior. 167 REFERÊNCIAS ALCÂNTARA, V. P. et al. Perspectivas acerca do conceito de saúde mental: análise das produções científicas brasileiras. 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Questão 2 R.: Universalidade e integralidade. Questão 3 R.: Equidade. CAPÍTULO 1 Questão 1 R.: F – V – V – F – F. Questão 2 R.: V - V - F - V -F. Questão 3 R.: d) A educação informal em saúde é aquela que se dá em salas de aula. GABARITO GERAL CAPÍTULO 3 Questão 1 R.: a) Uma abordagem holística da saúde. Questão 2 R.: ERRADO; Espera-se que o estudante contemple em suas respostas que a afirmativa em questão esteja errada, uma vez que a relação do setor público e privado não se constitui base da concepção de intersetorialidade. 178 Gabarito Geral Questão 3 R.: Espera-se que o estudante apresente como resposta que a saúde é apresentada no campo da seguridade social da Constituição Federal no artigo 196, que a explicita como direito de todos e dever do Estado. Questão 4 R.: Espera-se que o estudante descreva que com a promulgação da CF/1988, e a saúde elencada como política de seguridade social, ela está garantida para a população mediante políticas sociais e econômicas. Questão 5 R.: a) Psicopatologia do Trabalho, Psicodinâmica como abordagem, Subjetividade, defesas coletivas, cooperação e consequências sociais. Questão 6 R.: a) Transtornos Mentais Questão 7 R.: a) A finalidade é auxiliar o gestor a identificar quais problemas existem dentro da organização e que precisam de melhorias, bem como, quais às circunstâncias ambientais de trabalho e os fatores que influenciam no desempenho dos trabalhadores e na qualidade dos serviços oferecidos.p. 80): a intensificação da divisão do indivíduo em pedaços contribui sobremaneira para dificultar a valorização do todo [...] Desta maneira, por mais que alguns profissionais queiram visualizar seu paciente como um todo e situá-lo, de alguma maneira, no seu contexto socioeconômico, terminam por regressar ao reducionismo, pois este foi o modelo em que foi pautada sua formação na escola médica. Apesar de seus inegáveis avanços, discute-se a eficácia deste modelo no entendimento de problemas de saúde e se avalia uma readequação deste modelo. Embora o modelo biomédico seja predominante, ainda há espaço para outras formas de terapêuticas, como a busca pela cura ou alívio associados à espiritualidade e a religiosidade. Assim, apesar da hegemonia do modelo biomédico, há espaço social para a coexistência de diferentes formas terapêuticas e de cura, o que os autores denominam de medicinas paralelas. (Laplantine; Rabeyron, 1989 apud Mello; Oliveira, 2013) Tais práticas, embora sejam em muito questionadas, tem mostrado bons resultados no auxílio à manutenção e à prática da saúde. Conforme revisam Mello e Oliveira (2013), muitas das doenças e sintomas do paciente são consultados pelo médico e também pelo sacerdote religioso, seja ele qual for, existindo sempre a percepção de supremacia do sobrenatural, em relação ao material (Mello; Oliveira, 2013). É a religiosidade que confere à medicina popular seu caráter sacral, condição que faz alimentar no homem e no grupo social ao qual pertence, a crença nos "poderes" sobrenaturais do curador de interpretar doenças, indicar terapias e de preparar remédios, aos quais se admite de eficácia garantida. (Camargo, 2014, p. 4) Capítulo 1 20 Subsequentes ao modelo Biomédico, Albuquerque e Oliveira (2002) pontuam o que chama de Revoluções na área da saúde, porém que nada mais são que aprimoramentos do modelo biomédico até chegar no que conhecemos hoje. Se observa que na primeira revolução o enfoque era mais direcionado à prevenção das doenças, uma vez que o contexto histórico propiciava tais reflexões. Na segunda, por sua vez, se enfoca na manutenção da saúde por meio da melhora e/ou preservação de hábitos individuais, do monitoramento do estado de saúde da população utilizando estudos demográficos da mesma (Albuquerque; Oliveira, 2002). Desta forma, estudando os aspectos importantes e os principais pensadores envolvidos no entendimento do processo saúde-doença, e os principais modelos de abordagem da saúde e doença, finalizamos esta aula e estamos um passo mais próximos do melhor entendimento do trabalho em saúde e suas implicações. Fonte: Freepik (2024). #ParaTodosVerem: a imagem contém três profissionais envolvidos em uma discussão. Eles estão sentados ao redor de uma mesa branca. Um dos trabalhadores está vestindo um jaleco branco; as outras duas estão com uniformes azuis. O trabalhador de jaleco branco está segurando e mostrando um papel as outras. Uma das trabalhadoras de azul está atenta ao papel, enquanto a outra parece estar fazendo anotações em um laptop. Figura 1. Saudável Capítulo 1 21 33. EDUCAÇÃO E SAÚDE O conceito de educação pode ser definido de diversas maneiras, tendo servido de debate conforme nos mostra a literatura: A Educação, em sentido amplo, representa tudo aquilo que pode ser feito para desenvolver o ser humano e, no sentido estrito, representa a instrução e o desenvolvimento de competências e habilidades. (Vianna, 2006, p. 130) Assim como em saúde, no decorrer da história, grandes personalidades se preocuparam em tentar entender e conceituar educação enquanto prática de transmissão de saber, dentre elas citamos Platão, Sócrates e outros pensadores. Não trataremos de nos aprofundar neste trabalho em conceitos de educação, mas aportaremos os principais tópicos relativos à educação e aplicáveis à saúde. O conceito de educação em saúde passou a ser discutido no século passado, estabelecendo-se como área específica do conhecimento na década de 20 do século passado, em uma conferência nos Estados Unidos (Schall; Struchiner, 1999). Tal conceito engloba não apenas a educação de profissionais de saúde no sentido de capacitação tecnicista dos mesmos, mas também a educação da população leiga em geral, visando a diminuição nos índices de ocorrência de doenças. Entende-se cada dia mais que a participação ativa da população no tocante a prevenção de doenças é demasiado necessária e essencial para a redução na ocorrência das mesmas. Conforme postulado por Schall e Struchiner (1999, on-line): ao conceito de educação em saúde, se sobrepõe o conceito de promoção da saúde, como uma definição mais ampla de um processo que abrange a participação de toda a população no contexto de sua vida cotidiana e não apenas das pessoas sob risco de adoecer. Capítulo 1 22 Desta forma, tem-se educação em saúde como uma tentativa de manter aquilo que é descrito no conceito de saúde. Ou seja, manter, ou promover, quando necessário, o bem-estar físico, mental e social de um sujeito (Schall; Struchiner, 1999). Entre vários aspectos, a educação em saúde trata de prevenção e promoção de saúde. Ela consiste em um meio para que o conhecimento produzido por profissionais de saúde chegue à população leiga e que esta, modifique hábitos e melhore a vida quotidiana das pessoas (Alves, 2005). Trata-se de um recurso por meio do qual o conhecimento cientificamente produzido no campo da saúde, intermediado pelos profissionais de saúde, atinge a vida cotidiana das pessoas, uma vez que a compreensão dos condicionantes do processo saúde- doença oferece subsídios para a adoção de novos hábitos e condutas de saúde. (Alves, 2005, p. 43) Conforme colocado por Schall e Struchiner (1999, on-line), a educação em saúde aborda várias vertentes: Verifica-se que, dentre várias, duas dimensões dessa disciplina se destacam e persistem atualmente. Uma primeira envolve a aprendizagem sobre as doenças, como evitá-las, seus efeitos sobre a saúde e como restabelecê-la. A outra tendência, caracterizada como promoção da saúde pela Organização Mundial da Saúde, inclui os fatores sociais que afetam a saúde, abordando os caminhos pelos quais diferentes estados de saúde e bem-estar são construídos socialmente. Pimont (1977) propõe que a educação em saúde seja considerada em três níveis, sendo eles o individual, o familiar e o comunitário, devendo ser desenvolvido nos indivíduos destes meios a consciência de si mesmos, bem como do meio em que interagem. Neste âmbito, alguns aspectos principais devem ser objetivados como resultados da educação em saúde que são o conhecimento sobre os processos saúde/doença, dos seus direitos em relação à saúde, bem como dos serviços de saúde que dispõe (Pimont, 1977). É importante ainda pontuar que existem diferenças entre os termos educação em saúde e promoção em saúde. Capítulo 1 23 Conceito A educação em saúde requer a comunhão de conhecimentos de distintas áreas, como a psicologia, epidemiologia, a filosofia e conhecimentos da própria medicina para ser efetiva em seu objetivo, que é o de promover a saúde (Machado et al., 2007). Por outro lado, o termo promoção de saúde designa um conjunto atos e de condições que visa conduzir a saúde de maneira voluntária. Conforme colocam Machado et al. (2007, p. 40): a Promoção da Saúde é definida como o processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria da sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle desse processo. Esta não é apenas uma responsabilidade governamental e do sistema de saúde, mas requer a participação de várias instâncias da sociedade, principalmente a individual, (Machado et al., 2007) atendendo aquilo que precede na Lei orgânica do SUS Lei n. 8.080 de 19 de setembro de 1990, que diz que, no Art 2º [...], § 2º O dever do Estado não exclui o das pessoas, da família, das empresas e da sociedade (Brasil, 1990). Em suma, a educação em saúde e a promoção de saúde são práticas intimamente relacionadas e indissociáveis e que requerema participação de toda a sociedade no contexto de sua práxis (Machado et al., 2007). Conceito Desde que foi proposto, em 1919, o termo educação sanitária veio com propostas que se davam num sentido de mudança de comportamentos da população quanto à hábitos que afetavam a sua saúde. Este termo, apesar de ainda existir, passou a ser substituído gradativamente pelo termo Educação em saúde. Fonte: Renovato e Bagnato (2012). Em se tratando de educação, estamos acostumados a pensá-la nos seus moldes formais, como conhecemos. Ou seja, ao pensar em educação nos remetemos quase que imediatamente a pensar em escolas e universidades que são reconhecidamente transmissoras e geradoras do saber. Capítulo 1 24 Fomos treinados e estamos habituados a ligarmos quase que espontaneamente a educação que conhecemos à "Educação bancária" retratada por Paulo Freire, que designa a educação formal arcaica - na qual o professor se posiciona como detentor único do saber e o aluno é enxergado como um ser vazio, desprovido de conhecimento e capacidade crítica, e que precisa ser moldado pelo professor (Linhares, 2014). O trabalho do professor, em qualquer área, é de suma importância e de nenhuma maneira queremos desmerecê-lo. Como coloca Libâneo ([20-?], on- line), "o aluno aprende a ser profissional e cidadão na sala de aula", sendo diretamente influenciados pela figura do professor em sua formação. Na relação social que se estabelece em sala de aula, o profissional liberal que ministra aulas – o engenheiro, advogado, arquiteto, físico, economista, veterinário, biólogo, – passa a seus alunos uma visão de mundo, uma visão das relações sociais, uma visão da profissão, ou seja, passam uma intencionalidade em relação à formação dos futuros profissionais que é, eminentemente, pedagógica. (Libâneo, [20-?], on-line) Deste modo, cabe ao educador que se destaque para esta área, ocupar sua posição enquanto profissional de saúde, no sentido de eleger a melhor maneira de conduzir à docência e de melhor conscientizar seu público quanto à importância de determinados atos e práticas no trabalho com pacientes e população. Chamamos, ainda, que tais práticas conscientizadoras não se restrinjam apenas ao campo das ideias e das palavras proferidas, mas que sejam transferidas gradativamente e urgentemente para a nossa práxis diária, pois como sabemos, o exemplo tem se mostrado um grande instrutor no processo saúde-doença. O pensamento limitante da educação formal tem nos impedido de perceber a educação nos moldes informais, ou seja, aquela na qual há a transmissão quase que passiva de conhecimento, sendo este passado por meio de simples instruções ou até mesmo atitudes de um indivíduo. Na educação informal, não há lugar, horários ou currículos. Os conhecimentos são partilhados em meio a uma interação sociocultural que tem, como única condição necessária e suficiente, existir quem saiba e quem queira ou precise saber. Nela, ensino e aprendizagem ocorrem espontaneamente, sem que, na maioria das vezes, os próprios participantes do processo deles tenham consciência. (Gaspar, 2002, p. 173). Em termos de saúde, a educação informal é uma das grandes norteadoras daquilo que vemos sendo realizado em serviços de saúde, uma vez que, as práticas atuais nada mais são do que reflexos aprimorados das práticas de nossos predecessores. Capítulo 1 A educação informal exerce, sem sombra de dúvidas, grande influência no trabalho de profissionais de saúde e, consequentemente, naquilo que é ensinado por eles, bem como, por meio dela, se dá boa parte educação da população leiga quanto a temas relativos à saúde. O exemplo é consagradamente um grande educador, até mais que a prática do ensino propriamente dita e cada sujeito pondera de acordo com seu sistema de crenças as práticas que observa, para que a realização das mesmas lhes seja mais palatável. 25 Vídeo Programa Paulo Freire Vivo 7 - Educação Bancária x Educação Problematizadora. Neste vídeo se discute a Educação bancária de Paulo Freire, e sua solução proposta – a educação problematizadora. Com base nele, propomos a reflexão de como tais concepções podem ser transpostas para a educação em saúde. Acesse o QR Code ao lado. Importante Na educação informal, não há lugar, horários ou currículos. [...] Nela, ensino e aprendizagem ocorrem espontaneamente, sem que, na maioria das vezes, os próprios participantes do processo deles tenham consciência. Fonte: Gaspar (2002, p. 173). Capítulo 1 26 CONSIDERAÇÕES FINAIS Olá, caro(a) aluno(a), finalizamos esta etapa do estudo e convidamos você para que façamos um breve repasso daquilo que acabamos de ver. Vimos, primeiramente, o dinamismo e a fluidez dos conceitos de saúde e doença. Entendemos que saúde não é apenas a ausência de enfermidades e que tal concepção não contempla por completo a definição de saúde que necessitamos. Acompanhamos uma gradual transição dos conceitos vigentes de saúde, até o atual, que engloba não somente a vigência de enfermidades, mas também o bem-estar do sujeito. Estudamos, ainda, a transição histórica das concepções de saúde e de enfermidade. Primeiramente, compreendemos as visões mais primordiais destes conceitos, em que vimos que saúde e doença eram atribuídos ao sobrenatural, perfazendo uma concepção mágico-religiosa destes conceitos. Em seguida, acompanhamos a transição do entendimento mágico-religioso, para o entendimento não sobrenatural de saúde e de doença, no qual estudamos pontos importantes das teorias Hipocráticas e também conhecemos o trabalho de outros pensadores como Galeno e Paracelso. Prosseguindo na história, vimos a ascensão do modelo biomédico de saúde- doença, o qual ainda é vigente nos dias atuais. Vimos que neste modelo, entende-se a doença enquanto um desequilíbrio compartimentalizado de alguma das 'partes' que compõe o ser humano; e, neste aspecto, o sujeito é entendido de maneira fragmentada/seccionada e reducionista, em que se tolhe a integralidade do indivíduo em detrimento do estudo de suas partes separadas. Capítulo 1 27 Por fim, trabalhamos com os conceitos de educação em saúde, educação sanitária e a importância de sua correta aplicação para a promoção e manutenção da saúde. Assim, finalizamos esta etapa do nosso estudo, nos despedimos e lhes desejamos bons estudos, lembrando que estamos disponíveis para sanar quaisquer dúvidas e questionamentos. Capítulo 1 28 ATIVIDADES DE ESTUDO 1. De acordo com o conceito de saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS), a espiritualidade representa uma importante vertente da essência do ser humano, devendo ser trabalhado para a geração de bem-estar e consequentemente de saúde. Deste modo, analise a afirmação acima, correlacione com aquilo que estudamos e assinale as alternativas abaixo enquanto Verdadeiras (V) ou Falsas (F): ( ) A saúde independe da prática da espiritualidade, uma vez que é relativa à ausência de enfermidades no indivíduo. ( ) A espiritualidade é comprovadamente benéfica aos seus praticantes e se dá, principalmente, (mas não exclusivamente) por meio de manifestações religiosas. ( ) O aspecto mágico-religioso da concepção de saúde e doença é em partes resgatado pela OMS ao tentar integralizar o conceito de saúde, incluindo nele a espiritualidade. ( ) A OMS está equivocada em considerar a espiritualidade enquanto parte importante do conceito de saúde, uma vez que já se sabe a espiritualidade nada influi neste processo. ( ) A OMS deve reelaborar o conceito de saúde retirando a espiritualidade, uma vez que tal associação é espúria. Assinale a alternativa correta: a. F, F, F, V, V. b. V, V, F, V, F. c. F, V, V, F, F. d. V, F, F, V, F. e. V, V, V, V, V. Capítulo 1 29 2. A visão do corpo enquanto "engenho", no qual as partes se encaixam e interagem perfeitamente, é uma das componentes principais do modelo biomédico. Avaliando este modelo, assinale as alternativas abaixo enquanto verdadeiras (V) ou falsas (F): ( ) O modelo biomédico, apesar de não ter uma visão integralizada do ser humano, tempromovido muitos avanços no entendimento do organismo. ( ) Alguns dos avanços mais notáveis deste modelo foram a descoberta da circulação sanguínea, a descrição de microrganismos e a geração da vacina. ( ) O aumento da expectativa de vida foi uma das consequências prejudiciais que trouxe o modelo biomédico. ( ) A sistematização é um dos pontos principais deste modelo para a saúde. ( ) Promoveu poucos avanços nos campos de diagnóstico, sendo focado, principalmente, na terapêutica, ou seja, no tratamento. 3. Avaliando a temática da educação em saúde, é incorreto afirmar que: a. V, V, V, F, F. b. F, V, V, F, V. c. V, F, F, V, V. d. F, F, F, V, V. e. V, V, F, V, F. a. A saúde depende da participação ativa da população, dos profissionais de saúde e do estado para que seja promovida e devidamente mantida. b. A comunidade é participante ativa do processo de promoção à saúde. c. O trabalho do professor em saúde, sempre é complementado por meio do exemplo, caracterizando assim a educação informal. d. A educação informal em saúde é aquela que se dá em salas de aula. e. A conscientização de profissionais representa um grande passo do trabalho em saúde. Capítulo 1 30 REFERÊNCIAS ALBADAJAREJO, R. et.al. Síndrome de Burnout en el personal de enfermería de um hospital de Madrid. Revista Española de Salud Pública, v. 78, n. 4, p. 505-516, jul./ago. 2004. Disponível em: . Acesso em: 4 abr. 2024. ALBUQUERQUE, C.; OLIVEIRA, C. P. F. de. Saúde e doença: significações e perspectivas em mudança. Milenium, v. 25, 2002. Disponível em: https://repositorio.ipv.pt/bitstream/10400.19/635/1/Sa%C3%BAde%20e%20Do en%C3%A7a.pdf. Acesso em: 26 abr. 2024. ALVES, V. S. A health education model for the Family Health Program: towards comprehensive health care and model reorientation. 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A religiosidade na medicina popular. Revista Nures. n. 26, jan./abr. 2014. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/nures/article/view/24700. Acesso em: 4 abr. 2024. CARLOTTO, M. S. Fatores de risco da síndrome de burnout em técnicos de enfermagem. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar, Rio de Janeiro, v.14, n. 2, dez. 2011. Disponível em: . Acesso em: 4 abr. 2024. FÉLIX, O. et al. Hipócrates de Cos, Padre de la Medicina y de la Ética Médica. Cuadernos Hospital de Clínicas. v. 55, n. 1. 2018. Disponível em: https://www.revistasbolivianas.org.bo/pdf/chc/. Acesso em: 3 abr. 2024. FINKIELMAN, S. Paracelso, quijotesco sanador andante. Medicina, Buenos Aires, v. 68, n. 6 p. 470-474, 2008. Disponível em: http://www.scielo.org.ar/pdf/medba/v68n6/v68n6a13.pdf. Acesso em: 3 abr. 2024. GASPAR, A. A educação formal e a educação informal em ciências. In: Ciência e público: caminhos da divulgação científica no Brasil. 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Relacionar o contexto atual do SUS com aspectos históricos, sociais e econômicos do país e com as raízes históricas das políticas de saúde implantadas ao longo do tempo, dentro de uma perspectiva crítica/reflexiva, reconhecendo o sistema de saúde como um processo em constante construção. Identificar os fundamentos teórico-políticos e as dimensões do processo do movimento e da Reforma Sanitária. Conhecer e analisar o processo de construção do SUS em sua base legale social de sustentação. Conceituar e identificar os princípios do SUS. CAPÍTULO 2 POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE E O SUS: EM PERSPECTIVA 34 Prezado acadêmico, é com satisfação que apresentamos o Capítulo 2, intitulado Políticas Públicas de Saúde e o SUS em Perspectiva, da disciplina Políticas de Saúde. Esse material didático reúne temas relacionados às Políticas Públicas de Saúde, enfatizando o Sistema Único de Saúde (SUS), considerando, inicialmente, a Reforma Sanitária e a VIII Conferência Nacional de Saúde, para em seguida versarmos sobre o SUS como política de saúde, apresentando seus principais desafios e perspectivas e, finalmente, abordaremos as principais políticas de saúde no período pós-constituinte e sua relação com o SUS. Como você pode perceber, trataremos de temas complexos e, portanto, apresentaremos um panorama geral sobre as temáticas envolvidas, considerando se a heterogeneidade e as infinitas vertentes. Partindo dessa premissa, nosso intuito é fazer com que você pluralize seu olhar, a fim de proporcionar uma reflexão crítica, pois o eixo orientador deste capítulo está largamente baseado no Sistema Único de Saúde (SUS), nosso protagonista. O tema central da nossa disciplina são as políticas de saúde, assim, é notório que elas são fundamentais para todas as dimensões da vida cotidiana, visto que a afetam de forma direta e indireta ao abranger comportamentos e ações que contribuem para a melhoria da saúde da população, além de desempenhar papel preponderante nos serviços e sistemas de saúde, à medida que respondem às necessidades populacionais. CONTEXTUALIZAÇÃO Capítulo 2 35 De forma sucinta, podemos asseverar que no Brasil Colônia e Imperial (1500 a 1889), a organização sanitária era basilar, episódica e centralizada, sendo incapaz de assegurar assistência à saúde da população. Já a República Velha (1889 a 1930) foi caracterizada pela omissão por parte do governo no que se refere à assistência, uma vez que não havia um sistema de saúde e o Estado somente intervinha em situações extremas. No que se refere à atenção à saúde da população, ela ocorria por meio de campanhas impositivas. As décadas seguintes foram marcadas pela manutenção do sanitarismo campanhista, sendo posteriormente priorizadas a assistência médico-hospitalar e a criação da medicina de grupo, com ações curativas e individuais, bem como privilegiando somente a classe trabalhadora formal, excluindo milhares de brasileiros da assistência à saúde. Durante o decorrer da história, constatamos também que houve a tentativa de reverter o quadro caótico que se apresentava, por meio da criação de diversos órgãos, departamentos e institutos (SNA, INPS, INAMPS, FUNRURAL, SUDS, entre outros), a fim de ofertar “saúde” ao povo brasileiro, os quais não obtiveram êxito. No contexto atual, o Brasil se organiza em um sistema político federativo alicerçado em três esferas de governo (União, estados e municípios) consideradas pela Constituição de 1988 como entes autônomos administrativamente e sem vínculo hierárquico, composto por 26 estados e o Distrito Federal e 5.570 municípios, com uma população estimada em mais de 211 milhões de habitantes, de diversos pertenci mentos étnicos, socioculturais e econômicos, espalhados em mais de 8 milhões de km² (IBGE, c2020). Desta feita, garantir um sistema de saúde público, gratuito e de qualidade é um desafio. Capítulo 2 36 Assim, convidamos você a continuar a viagem pela máquina do tempo, que levará ao universo do SUS. O embarque acontece na década de 1980, sendo que aqueles que vivenciaram esses momentos relembrarão e aqueles que não haviam nascido terão a oportunidade de apreender, mas antes de chegar ao destino principal, ocorrerão duas escalas: a primeira no Movimento Sanitário – Reforma Sanitária Brasileira –, e a segunda parada será na VIII Conferência Nacional de Saúde (CNS), como já mencionado. Após, a viagem segue com destino à criação do SUS, com desembarque nos dias atuais. Então, preparado para mais essa aventura? Boa viagem! 37 1 Como era o SUS antes do SUS? No capítulo anterior, você já se apropriou dos antecedentes históricos, fazendo uma imersão nos diversos acontecimentos. Para respondermos a esse questionamento, relembraremos rapidamente os últimos episódios da história. Antes da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), a atuação do setor público estava baseada na assistência médico-hospitalar, a qual era prestada por meio do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS), que era uma autarquia do Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) e não do Ministério da Saúde, que desenvolvia basicamente ações e campanhas de vacinação e controle de endemias. A assistência à saúde, nessa época, beneficiava apenas os trabalhadores formais, que eram segurados do INPS, junto aos seus dependentes. Portanto, não tinha caráter universal. Diante desse cenário, podemos dizer que antes da criação do SUS, o Estado brasileiro era de certa forma negligente com relação à saúde da população, uma vez que era de senso comum que o próprio cidadão deveria cuidar da sua saúde, já que a intervenção estatal ocorria apenas em casos considerados graves, os quais não podiam ser resolvidos pelo indivíduo ou que representassem risco à saúde pública ou à economia (epidemias). Antes de adentrarmos no processo histórico do SUS, conforme havíamos informado no Capítulo 1, retomaremos os temas Reforma Sanitária e VIII Conferência Nacional de Saúde. 1. PROCESSO HISTÓRICO DO SUS 1.1 REFORMA SANITÁRIA BRASILEIRA Capítulo 2 38 Inicialmente, faz-se necessário relatar que não é nossa intenção esgotar esse tema, dada a dimensão e relevância, mas sim tecer algumas questões importantes para que você possa contextualizar com a construção do SUS, apresentando, assim, uma visão panorâmica da Reforma Sanitária no Brasil. Também é importante frisar que devido às inúmeras bibliografi as que abordam essa temática, optou-se por se concentrar naquelas em que os autores e/ou entidades participaram ativamente do movimento, em especial a obra de Sarah Escorel, publicada em 1999, resultante da sua tese, orientada por Sérgio Arouca, servindo de base para a elaboração do nosso tópico por ser referência dentre as publicações existentes, e a tese de Jairnilson Paim, defendida em 2007. Diante dessas considerações preliminares, daremos início à fundamentação teórica. Os relatos em torno da origem da Reforma Sanitária brasileira surgem por volta da segunda metade do anos 1970, período que se compatibiliza com as criações, em 1976, do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES) e da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO), em 1979 (ESCOREL, 1999; PAIM, 2008). Relativo a essas duas entidades (CEBES e ABRASCO) e suas vinculações com a Reforma Sanitária, mereceriam um tópico à parte, devido à importância e destaque que tiveram para o processo por meio do movimento sanitário, assim como atuação na VIII CNS e especialmente para a construção da saúde coletiva no Brasil, no entanto, foge aos objetivos da disciplina. Dica de Leitura Se você quer aprofundar seus conhecimentos sobre o CEBES e a ABRASCO, sugerimos que acesse a Parte II - A articulação do movimento sanitário - O movimento estudantil e o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), do livro Reviravolta na saúde: origem e articulação do movimento sanitário, de Sarah Escorel, e o livro Saúde Coletiva como compromisso: a trajetória da ABRASCO, de Nísia Trindade Lima e José Paranaguá de Santana. Acesse os Qr Codes ao lado para confeir. Capítulo 2 39 De maneira sucinta, podemos dizer que tanto o CEBES como a ABRASCO defendiam, na época, a promoção da saúde em vez de políticas públicas que somente se preocupavam com o controle das doenças, a existência de um sistema de saúde universal e unificado e a participação social (LIMA; SANTANA, 2006; SOPHIA, 2012). Por que surge um movimento sanitário? De acordo com Escorel (1999),um pensamento transformador na área da saúde surge no período da ditadura militar, no momento mais repressivo, no qual a classe popular e seus representantes eram calados pelo regime. Manifesta-se, então, uma “voz”, sob bases universitárias, em busca dos personagens, ou seja, da classe popular e da classe trabalhadora, que não marcava presença no cenário político (geral e setorial), antes mesmo delas próprias se organizarem, sendo, portanto, esse desenvolvimento teórico que acabou dando sustentação ao movimento sanitário. Nessa perspectiva, o movimento da Reforma Sanitária brasileira iniciou na década de 1970, por profissionais da saúde e pessoas vinculada ao setor, em busca da melhoria das condições de saúde, qualidade de vida e de atenção à saúde da população, tendo o sanitarista Sérgio Arouca como um dos principais militantes, em um cenário repressivo, devido à ditadura militar, e de crise econômica, repercutindo de maneira negativa nas condições de vida e saúde do povo brasileiro. Assim, buscava-se a transformação do setor saúde, por meio de práticas ideológicas, teóricas e políticas, visando à consecução dos direitos de cidadania (ESCOREL, 1999; 2008). ᅠConforme Escorel (1999), esse movimento iniciou dentro das universidades por ação conjunta entre professores e alunos da área da saúde, em especial de medicina, que pressionavam para que houvesse uma maior aproximação com a realidade sanitária populacional. Em sua composição original, era formado por três vertentes principais: o CEBES, em conjunto com os estudantes; os médicos residentes e de renovação médica e os profissionais das áreas de docência e pesquisa das universidades, sendo o CEBES o veículo de difusão e ampliação dos debates e elaboração das propostas. Capítulo 2 40 Portanto, foi um movimento social organizado, que se revelou muito mais permanente do que pontual, representado por diversas categorias (professores, acadêmicos, pesquisadores, profissionais, sociedades científicas, entidades comunitárias, sindicatos) que lutava pela reestruturação do sistema de serviços de saúde e defendia a democratização da saúde, sendo contrário à política de saúde vigente, que era da medicina privatista previdenciária. O movimento sanitário foi conceituado por Escorel (1999, p. 63) como a “articulação de um grupo de pessoas em torno de um pensamento e de uma proposta de transformação do setor saúde [...] com uma atuação bem definida e bem visível para outros setores”. Nessa dimensão, o movimento sanitário apregoava a criação de um sistema único de saúde, sendo o Estado o responsável soberano, sendo delegado a ele o planejamento e a execução da política de saúde, devendo estabelecer mecanismos para o financiamento desse sistema, que deveria ser organizado de forma descentralizada, permitindo que a população participasse de forma democrática para que obtivesse maior eficácia (ESCOREL, 1999). Vale salientar que, de acordo com a Fiocruz (c2020), a Reforma Sanitária foi aventada durante um período de mudanças intensas, cuja realidade social (anos 1980) era de exclusão da maioria da população no que se refere aos direitos à saúde, haja vista que a assistência era restrita aos contribuintes do INAMPS, e desde sempre teve o objetivo de ser muito mais do que uma reforma setorial, ambicionando servir à democracia e à consolidação da cidadania no Brasil. Ademais, o movimento sanitário apresentava basicamente quatro propostas concretas: 1ª – o direito de todo cidadão, sem distinção, exclusão ou discriminação, ao acesso à assistência pública de saúde; 2ª – as ações de saúde deveriam ser de cunho preventivo e/ou curativo; 3ª – descentralização administrativa e financeira da gestão e 4ª – controle social das ações de saúde. Não podemos deixar de mencionar o trabalho de Silvia Gerschman, A democracia inconclusa: um estudo da reforma sanitária brasileira (1999), que versa, dentre vários temas, a atuação dos movimentos populares de saúde e o movimento médico, considerando-os protagonistas no processo de formulação e implementação das políticas de saúde entre os anos de 1970 e 1994, assim como aborda as limitações da Reforma Sanitária, que, segundo a autora, deixam de ser vistas como derrota e tornam-se parte de um processo inconcluso da construção da democracia. Capítulo 2 41 Gerschman (1999) aponta também para o importante papel que os movimentos sociais tiveram para a construção dos ideais da Reforma Sanitária, os quais foram expressos na VIII CNS. Portanto, os princípios e as diretrizes da Reforma Sanitária foram sistematizados nesta Conferência, destacando-se o conceito ampliado de saúde, o sistema unificado de saúde e a participação popular. Lembrando que esse movimento está presente até os dias atuais, tendo como a bandeira de luta a continuidade e a consolidação do SUS, que serão discutidas posteriormente. O que vem a ser exatamente a Reforma Sanitária? Segundo Paim (2007, p. 135), a primeira edição do Jornal da Reforma Sanitária tentou definir o que é Reforma Sanitária, relatando que “deve ser entendida como um longo processo político de conquistas da sociedade em direção à democratização da saúde, num movimento de construção de um novo Sistema Nacional de Saúde”. Nessa acepção, sobre a democratização da saúde, Paim (2007) relata que para que ela aconteça, deve-se ir muito além do que a formulação de uma Política Nacional de Saúde ou a construção de um novo Sistema Nacional de Saúde, sendo necessária uma revisão das concepções, paradigmas e técnicas, de forma crítica, além de mudanças no relacionamento entre Estado e seus aparelhos com a sociedade. Lembrando que o tema “Saúde é democracia” foi a tônica das proposições da Reforma Sanitária, a qual foi defendida pelo sanitarista Sergio Arouca em seu discurso de abertura na VIII CNS. Sérgio Arouca elaborou a primeira sistematização sobre o que seria a Reforma Sanitária, a qual deveria ser entendida como um processo de transformação da atual situação sanitária, com base em pelo menos quatro dimensões (específica, institucional, ideológica e das relações), levando à discussão cinco questões: estrutura do SUS, controle social, modernidade, ciência e tecnologia e produção (PAIM, 2007). Capítulo 2 42 Cabe salientar que, na época, não houve um consenso para a definição de Reforma Sanitária, apesar dos esforços em delimitar de forma teórica e conceitual. Após revisarem as concepções de saúde e seus determinantes, concluíram que a Reforma Sanitária é uma ideia (que se plasmava durante a ditadura); uma proposta (apresentada pelo CEBES); um movimento (mobilizando forças sociais, ideológicas e políticas); um projeto (sintetizado no Relatório Final da VIII CNS) e um processo (transformando-se em bandeira de luta) simultaneamente. Paim (2007) concluiu e definiu que a Reforma Sanitária Brasileira é uma reforma social centrada nas democratizações da saúde, do Estado e da sociedade e cultura. Assim, podemos depreender que a definição de Reforma Sanitária não é unívoca, apresentando distintos entendimentos, uma vez que envolve posições e perspectivas acerca do tema em si. De acordo com Souza et al. (2019), a Reforma Sanitária Brasileira obteve conquistas importantes por meio de três vias estratégicas, ou seja, pela via parlamentar, uma vez que registrou o direito à saúde e criou o Sistema Único de Saúde na Constituição; pela via técnico-institucional, haja vista que possibilitou a implantação de políticas e programas de saúde; e pela via sociocomunitária, ao passo que apostou na participação social. Outro aspecto importante a ser retratado é que a expressão Reforma Sanitária não consta nos relatórios das CNS posteriores, somente ressurgindo na XII CNS, em 2003. Além disso, é relevante recordar que a Reforma Sanitária Brasileira impulsionou a criação do Sistema Único de Saúde, instituído pela Constituição Federal de 1988. No que tange ao movimento sanitário, entre 1986 e 1990, ele passou por significativas transformações, assumindo uma configuração diferenciadadaquela de sua origem, que lhe imprimiram novas características, incorporando novas vertentes. Com isso, surgiram alguns confl itos e pontos de tensão dentro do próprio movimento, assim como novos desafi os externos a serem enfrentados. Nesse sentido, o processo da Reforma Sanitária adentrou em um momento caracterizado por ser eminentemente de base local e municipal (ESCOREL, 1999). Capítulo 2 43 Iniciamos o nosso tópico com a imagem da VIII Conferência Nacional de Saúde, bem como com seus eixos temáticos (principais temas) e elementos constitutivos. Da mesma forma que relatamos no tópico anterior, não é nossa intenção nos aprofundar nesse assunto, mas trazer à tona os principais elementos para que você possa compreender a dimensão e a signifi cância dessa Conferência, ocorrida há mais de 30 anos, que continua sendo reverberada até hoje. Dica de Leitura Na atual conjuntura, ainda existe o movimento da Reforma Sanitária? Não traremos a resposta para esse questionamento, pois queremos que você acesse o link a seguir, leia o material intitulado Para onde vai a Reforma Sanitária Brasileira? e tire as suas próprias conclusões. Acesse o QR Code ao lado para assistir o vídeo. Vídeo Sugerimos que você acesse a videoaula - Parte 1 - Reforma Sanitária: trajetória e rumos do SUS, de Jairnilson, bem como a Parte 2. Acesse o QR Code ao lado para assistir o vídeo. 1.2 VIII CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE PRINCIPAIS TEMAS: Saúde como direito. Reformulação do Sistema Nacional de Saúde. Financiamento do setor. PRINCIPAIS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS: Ampliação do conceito de saúde. Reconhecimento da saúde como direito de todos e dever do Estado. Criação de um Sistema Único de Saúde. Participação popular. Constituição e ampliação do orçamento social. Capítulo 2 44 Figura 1. VIII CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE Fonte: https://conselho.saude.gov.br/ultimas-noticias-cns/592-8-conferencia-nacional-de-saude- quando-o-suas-ganhou-forma. #ParaTodosVerem: a imagem mostra uma fotografia em preto e branco da 8ª Conferência Nacional de Saúde. Em primeiro plano, várias pessoas levantam as mãos . Ao fundo, há uma longa mesa com pessoas sentadas e, atrás delas, um grande painel escrito “8ª Conferência Nacional de Saúde”. Quadro 1. Tipos de riscos empresariais Fonte: adaptado de Paim (2007). Capítulo 2 45 Pronto para conhecer ou relembrar um pouco desse fato histórico? Então, vamos lá! Em julho de 1985, por solicitação do Ministro da Saúde, o Presidente da República convoca a VIII CNS, que foi realizada em março de 1986. Ressalta- se que essa convocação ocorreu durante um conflito entre o Ministério da Saúde (MS) e o Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS), uma vez que a ideia era levar o INAMPS para o MS e estender a assistência à saúde aos demais que não eram previdenciários, conforme uma das propostas do movimento sanitário, o que não foi bem-aceito pelo MPAS. Assim, a VIII CNS seria uma tentativa de solucionar o impasse (PAIM, 2008; CHAGAS; TORRES, 2008). Ainda em 1985, a ABRASCO elabora um documento, denominado Pelo direito universal à saúde, assumindo a bandeira da Reforma Sanitária para fundamentar as discussões a serem apresentadas na VIII CNS. Nesse documento foi salientado que a saúde deveria ser vista como um conjunto de condições de vida que devem ir além do setor saúde, bem como defendeu a participação da população na política de saúde e o controle da sociedade sobre o aparelho estatal (controle social), definindo uma estratégia política e diretrizes a fim de subsidiar elementos teóricos, técnicos e científicos para a Reforma Sanitária a ser desenvolvida a partir de 1987 (PAIM, 2007). O Relatório final da VIII CNS, elaborado pelo Prof. Guilherme R. da Silva, registrou a participação de mais de 4 mil pessoas, incluindo mil delegados (indicados por organizações e entidades), tornando-se o maior evento em termos de participação populacional para debater políticas e programas de saúde. Vale lembrar que as CNS anteriores se pautavam por um caráter eminentemente técnico, com participação quase restrita de técnicos e gestores, com baixa representatividade social (BRASIL, 1986; CHAGAS; TORRES, 2008). De acordo com o Relatório, os temas centrais da VIII CNS foram: Saúde como direito (tratou dos aspectos da saúde em geral e como ela seria definida no Brasil); Reformulação do Sistema Nacional de Saúde (apresentou a necessidade de um sistema de saúde capaz de suprir as demandas, iniciando-se a discussão da formação de um sistema de saúde que fosse único); Financiamento setorial (tratou sobre como esse sistema seria financiado) (BRASIL, 1986). Outros temas também foram debatidos, dentre eles a hierarquização, a participação popular, o atendimento integral, as ações de promoção, proteção e recuperação da saúde etc., proposições advindas dos movimentos da Medicina Preventiva da Saúde Comunitária (PAIM, 2007). Capítulo 2 46 Site Quer ter acesso aos Anais da VIII CNS? Acesse o Qr Code ao lado para conferir. O Relatório da VIII CNS indicou a necessidade de mudanças no sistema de saúde brasileiro, apontando que tais mudanças não seriam alcançadas apenas com reformas administrativas e financeiras, seria necessário ampliar o conceito de saúde, revisar a legislação, recomendando que um novo sistema único de saúde fosse formado, desmembrado da Previdência, ou seja, era fundamental uma Reforma Sanitária. Também expôs a necessidade da participação da população na formulação da política, planejamento, gestão e avaliação do sistema de saúde, por intermédio de órgãos representativos. Cabe frisar que este documento fomentou a criação do Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde (SUDS), em 1987, o qual mencionamos no Capítulo 1, assim como o Sistema Único de Saúde (SUS). Capítulo 2 47 Dessa forma, a VIII CNS definiu as estratégias a serem defendidas na Constituição de 1988 e contribuiu com ideias fundamentais para a constituição do novo Sistema Único de Saúde, como a participação popular, a equidade (acesso dos que necessitam de mais atenção, tratando os desiguais de forma igual, priorizando os que têm menos); a descentralização (gestão dos serviços em MS, SES, SMS); a integralidade (superação da dicotomia serviços preventivos e curativos), ver o indivíduo como um todo, verificando os fatores que levaram à doença; a universalidade (cobertura populacional de qualquer classe socioeconômica, prevalecendo a equidade). Ressalta-se que ao encerrar a VIII CNS, novas imposições foram colocadas para a Reforma Sanitária, sendo instituída a Comissão Nacional de Reforma Sanitária (CNRS), composta por representantes de diversos segmentos público e privado, a qual teria como responsabilidade estruturar as resoluções da Conferência, trabalhando de forma técnica o documento que seria entregue para a Assembleia Constituinte, contribuindo para a nova Constituição (CHAGAS; TORRES, 2008). Entretanto, Paim (2007) relata que a CNRS não desempenhou de maneira satisfatória sua função, que seria de ser o braço normatizador, mas que apesar das críticas, acabou apresentando um saldo positivo. Os principais desdobramentos da VIII CNS foram a formação da CNRS e a conformação da Plenária Nacional de Entidades de Saúde, a qual se fez representar no processo constituinte a fim de que as propostas elaboradas durante a Conferência fossem aprovadas, culminando em um capítulo sobre saúde inédito na história constitucional (ESCOREL, 1999). Conforme Paim (2007), após a VIII CNS, houve um certo imobilismo por parte do governo e falta de compromisso com o projeto da Reforma Sanitária, causando perplexidade das entidades, uma vez que o Ministério da Saúde continuou com a sua prática campanhista no combate à dengue. Necessitando, desta forma, da intervenção do movimento sanitarista para pressionar o governo, a fim de que a Reforma Sanitária fosse colocada em prática, sendo que a ABRASCO teve papel fundamental. Capítulo 2 48 Cabe mencionar que a Conferência em tela não ficou restrita a sua