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1ª Edição 
Autoria:
 
 
Tópicos
Especiais em
Saúde 
Lucas Emmanuel da Silva Semeão
Luciane Eloisa Brandt Benazzi 
Deise Frantz Nagel 
Flaviana Aparecida de Mello
EXPEDIENTE EDITORIAL
Reitor: 
Valdecir Simão
Direx da Educação Continuada: 
Felipe Alberto Simas Donato
Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD:
Caroline De Freitas Martins 
Jairo Martins
Julia dos Santos 
Marcio Kisner 
Marcelo Bucci
Norberto Siegel 
Victor Vinicius Biazon 
Revisão Gramatical:
 
Diagramação e Capa:
 
Núcleo de educação a Distância
Núcleo de educação a Distância
V848
Semeão, Lucas Emmanuel da Silva 
Tópicos Especiais em Saúde/ Lucas Emmanuel da Silva Semeão — 
Florianópolis, SC: Arqué, 2025.
177 p.
ISBN Digital 978-65-5466-527-8
1. Promoção da Saúde. 2. Políticas Públicas. 3. Educação em Saúde.
4. Saúde Mental. CDD 613
FICHA CATALOGRÁFICA 
SUMÁRIO
Capítulo 1 ............................6
 
Capítulo 2 ...........................33
 
Capítulo 3 ...........................96
 
Educação em Saúde e o Cuidado Integral
Políticas Públicas e Saúde e o SUS em Perspectiva
Saúde Preventiva e a Promoção da Saúde Mental
APRESENTAÇÃO
 Estudar os diferentes aspectos que compõem o campo da saúde é
compreender que o cuidado ultrapassa a dimensão biológica e alcança o
campo social, psicológico, educacional e político. A saúde, em seu conceito
ampliado, envolve não apenas o tratamento de doenças, mas também a
promoção do bem-estar integral, a prevenção de agravos e a construção
de políticas públicas que assegurem o acesso equitativo e humanizado aos
serviços.
 O livro Tópicos Especiais em Saúde foi elaborado com o propósito de
oferecer uma visão abrangente e integrada dos principais eixos que
sustentam a atuação do profissional da saúde na contemporaneidade. Seu
conteúdo foi cuidadosamente selecionado para proporcionar uma leitura
transversal, aplicável a diferentes especialidades da área, fortalecendo o
compromisso com uma formação crítica, reflexiva e humanizada.
 No primeiro capítulo, são discutidas as Políticas Públicas de Saúde e o
Sistema Único de Saúde (SUS), abordando seus fundamentos históricos,
princípios e diretrizes, bem como os desafios para a consolidação de um
sistema público universal e integral. Essa base permite compreender o
papel das políticas de saúde como instrumento de cidadania e equidade
social.
 O segundo capítulo apresenta reflexões sobre Promoção da Saúde e
Educação em Saúde, destacando a importância das ações preventivas e
educativas na melhoria da qualidade de vida e na transformação das
práticas de cuidado. Nessa perspectiva, o profissional é convidado a
reconhecer o valor da educação como ferramenta essencial para a
autonomia e corresponsabilidade de indivíduos e comunidades na
construção de uma vida mais saudável.
 Por fim, o terceiro capítulo trata da Saúde Mental e Qualidade de Vida no
Trabalho, enfatizando os fatores psicossociais que influenciam o bem-
estar de trabalhadores da área da saúde e de outras categorias
profissionais. A discussão amplia a compreensão sobre a saúde mental
como parte indissociável da saúde integral e aponta caminhos para o
desenvolvimento de ambientes de trabalho mais saudáveis, éticos e
equilibrados.
 O percurso proposto nesta obra permite ao(à) pós-graduando(a) refletir
sobre as interfaces entre políticas públicas, promoção da saúde, educação
e saúde mental, integrando dimensões essenciais da prática profissional.
Espera-se que a leitura deste material estimule o pensamento crítico,
amplie o olhar sobre o cuidado em saúde e contribua para uma atuação
ética, responsável e voltada ao bem-estar coletivo.
 Desejo a você uma excelente leitura e um percurso de aprendizagem
significativo.
6
 
DE NEGÓCIOS
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
Estudar aspectos históricos importantes da evolução dos conceitos
de saúde e doença;
Entender o modelo biomédico de saúde e doença e suas
implicações;
Analisar a educação em saúde, conceituando-a e avaliando sua
importância na manutenção da saúde;
Aplicar os conhecimentos adquiridos sobre a evolução dos
conceitos de saúde e doença em contextos históricos específicos;
Identificar e discutir as implicações do modelo biomédico de saúde
e doença em diferentes cenários de prática;
Propor estratégias de educação em saúde para promover a
conscientização e a adoção de hábitos saudáveis na comunidade ou
em ambientes de trabalho.
CAPÍTULO 1
EDUCAÇÃO EM SAÚDE E O
CUIDADO INTEGRAL
7
 Olá, caro(a) aluno(a), seja muito bem-vindo a esta etapa de nosso estudo!
 Para contextualizar você com os temas abordados, começaremos, neste
encontro, estudando aspectos históricos importantes dos conceitos de
saúde e doença.
 Para começar, faremos um breve delineamento dos conceitos de saúde e
doença, onde abordaremos a evolução do conceito de saúde da
Organização Mundial de Saúde (OMS) e sua importância no entendimento
de saúde e enfermidade. Acompanharemos a inclusão da espiritualidade
enquanto prática importante na manutenção da saúde e trataremos,
brevemente, de sua função enquanto promotora e potencializadora da
saúde humana.
 Em seguida, trataremos da visão mágico-religiosa de saúde e doença, num
tempo em que estes eram atribuídos a divindades e/ou seres superiores.
Entenderemos, ainda, as implicações disso. Nesta época, conforme
veremos, a doença era entendida como uma forma de punição/castigo às
transgressões cometidas, devendo-se restabelecer os bons laços de
relacionamento com a divindade para que se restabelecesse o indivíduo.
 Em seguida, abordaremos a transição da medicina mágico-religiosa, para
uma medicina voltada ao entendimento não sobrenatural das
enfermidades, que após vários pensadores, veio a originar o modelo
biomédico de saúde e enfermidade.
CONTEXTUALIZAÇÃO
Capítulo 1
8
 Este modelo permitiu grandes avanços que nos trouxeram ao patamar de
saúde que temos hoje, embora seja por muitos criticado, pois, conforme
estudaremos, contém uma visão reducionista da doença enquanto
desequilíbrio compartimentalizado, não se valorizando a integralidade do
processo.
 Para finalizarmos este estudo, conceituaremos educação em saúde, bem
como suas implicações para profissionais e pacientes.
 Assim, convidamos você, aluno(a), para que nos acompanhe nessa jornada,
nos colocamos disponíveis para sanar quaisquer dúvidas e lhes desejam os
bons estudos.
9
 1 1. PERSPECTIVA HISTÓRICA DO
ENTENDIMENTO DA SAÚDE 
 Preparar profissionais de saúde é uma tarefa árdua e um tanto complicada,
porque envolve não somente o ofício do ensinar, mas também o ensinar a
cuidar e colocar em prática a arte do cuidado em saúde.
 Muitos são os desafios inerentes à prática da educação e muitos também são
aqueles inerentes ao cuidado. Porém, em meio a este âmbito tão desafiador, é
necessário que os profissionais, tanto de educação quanto de saúde, se
posicionem de maneira a obter sempre os melhores resultados, afinal, suas
atuações dependem em grande parte da ordem do progresso em que
vivemos.
 Em termos de educação em saúde, pensar em como ensinar os referidos
profissionais de saúde se torna um campo complexo de explanação e
desenvolvimento do trabalho. Não estamos aqui para sermos doutrinadores
na imposição de uma ou outra metodologia mais adequada de ensino ou
prática em saúde, o que propomos neste texto é a reflexão crítica de nossas
práticas a fim de aprimorá-las.
 Conceituar saúde e educação é tarefa árdua, uma vez que nenhum dos dois
termos possui definição padronizada. Talvez seja por conta do dinamismo e
da fluidez com que tais termos sejam renovados a que se deva tal dificuldade.
10
 
Capítulo 1
Figura 1. Saudável
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: a imagem captura uma mulher ao ar livre, ela está em uma pose com os
braços levantados e as mãos tocando a cabeça. Ela está usando um vestido branco com detalhes de
renda na parte superior, árvores e folhagem são visíveis ao fundo.
11
 
Capítulo 1realização, tornou-se um processo de discussão amplo e duradouro sobre
política de saúde, engendrando pré-conferências estaduais e conferências
específicas, trazendo à tona temas e áreas diversas, como saúde da mulher,
da criança, do trabalhador, saúde mental, entre outras, utilizando o
Relatório Final da VIII CNS como norteador (ESCOREL, 1999). 
 Assim, a VIII CNS foi um divisor de águas, reestruturando o sistema de
saúde do Brasil, bem como serviu para compor parte do texto apresentado
na Constituição Federal de 1988, sendo considerada uma das Conferências
mais importantes, se não a mais, realizada no país, devido ter sido decisiva
para a Reforma Sanitária e criação do SUS. 
 Agora que já transitamos pelo Movimento e a Reforma Sanitária, assim
como pela VIII CNS, daremos prosseguimento ao nosso conteúdo e nos
debruçaremos sobre o nosso Sistema Único de Saúde, popularmente
denominado de SUS.
Vídeo 
Para elucidar a importância do Movimento da Reforma Sanitária
e da VIII Conferência Nacional de Saúde para o nosso país,
convidamos você a assistir ao vídeo de abertura da VIII
Conferência Nacional de Saúde, com a fala do sanitarista Sérgio
Arouca, e ao vídeo que conta a história em comemoração aos 30
anos da VIII CNS, produzido pela ENSP/FIOCRUZ. Acesse nos Qr
Code ao lado.
1.3 PROCESSO HISTÓRICO DA CONSTRUÇÃO
DO SUS
 Nesse tópico, propomos algo diferenciado do que estamos acostumados a
ler e estudar sobre o Sistema Único de Saúde, ou seja, não nos ateremos e
discorreremos exaustivamente sobre o seu arcabouço legal e configuração
normativa e organizativa e sim apresentaremos um universo mais abrangente,
a fim de que você possa ampliar seu olhar sobre o SUS. 
Capítulo 2
49
Figura 2. A Construção do Sistema Único de Saúde (SUS)
Fonte: http://auxiliardasaude.blogspot.com/2017/07/22-promocao-da-saude-e-o-modelo-da.html.
Acesso em: 13 de maio de 2020. 
#ParaTodosVerem: a ilustração apresenta seis pessoas construindo uma casa de tijolos, cada uma
desempenhando uma função diferente, como pintar a porta, assentar tijolos, cortar madeira e
levantar paredes. Na porta da casa está escrito “SUS”.
 Desta forma, pontuaremos rapidamente alguns aspectos importantes, uma
vez que os marcos regulatórios do SUS são bastante conhecidos. 
 Revisitaremos a história da construção do SUS, por isso a escolha da
figura anterior, a qual representa bem o que retrataremos nesta seção. 
 Imagine mais de 140 milhões de pessoas em um local (essa era a
estimativa populacional no ano de criação do SUS). Consegue visualizar?
É muita gente, não é mesmo? Agora pense que deve ser construído um
local para atender toda essa população. É essa analogia que podemos e
devemos fazer ao pensar sobre o SUS. Por isso ele é considerado o
maior sistema de saúde do mundo, tornando-se referência internacional.
 Por falar em sistema, você sabe o que significa sistema de saúde?
Conforme a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) (2007, p. 317)
entende-se por sistema de saúde “o conjunto de entidades encarregadas
das intervenções na sociedade que têm como principal propósito a
saúde”, sendo que essas intervenções/ações de saúde englobam a
assistência às pessoas, com o objetivo de promover, proteger ou
recuperar a saúde e/ou reduzir e/ou compensar uma incapacidade
irrecuperável. Portanto, os sistemas de saúde são o reflexo dos valores
sociais, os quais se expressam institucional e juridicamente, nos quais a
formulação das políticas de saúde se enquadra.
Capítulo 2
50
 Cabe salientar que definição, estruturação (funcionamento e
organização) e objetivos de um sistema de saúde são característicos de
cada país, conforme o contexto econômico, político e histórico em que
está inserido. Ademais, um sistema de saúde, além de prestar serviços
em saúde, oferta ações de saúde pública. De acordo com Giovanella et
al. (2012, p. 89):
Sistema de Saúde é o conjunto de relações políticas,
econômicas e institucionais responsáveis pela condução
dos processos referentes à saúde de uma dada
população, que se concretizam em organizações, regras e
serviços que visam alcançar resultados condizentes com a
concepção de saúde prevalente na sociedade. 
 Agora que já se apropriou do conceito de sistema de saúde,
convidamos você a refletir sobre o SUS. O que significa a expressão
Sistema Único de Saúde ou a sigla SUS? Por que ele é único? Para
compreendermos, que tal desmembrarmos e analisarmos de forma
individual cada termo?
S = Sistema: conjunto de unidades, serviços e ações que interagem
para um determinado objetivo comum, sendo que os elementos que
o compõem são as atividades de promoção, proteção e recuperação
da saúde (LIMA, 2016). Assim, o SUS não é uma instituição ou um
serviço e sim um sistema, que é formado por várias instituições nos
três níveis governamentais e pelo setor privado, o qual é contratado
e conveniado, formando um corpus. 
U = Único: é único porque se refere à unificação de dois sistemas, ou
seja, o previdenciário e o do Ministério da Saúde (secretarias
estaduais e municipais de saúde) consubstanciada no acesso
universal e ao comando único em cada esfera governamental
(FIOCRUZ, c2020). Ademais, segue os mesmos princípios
organizativos e doutrinas em todo o território nacional (LIMA, 2016).
Assim, a ideia de unicidade do SUS nada mais é do que a
padronização da organização, com os mesmos objetivos e
funcionamento, conforme o modelo nacional. 
S = Saúde: compreendida como resultante e condicionante de
condições de vida, trabalho e acesso a bens e serviços e, portanto,
componente essencial da cidadania e democracia e não apenas vista
como ausência de doença e objeto de intervenção da medicina
(FIOCRUZ, c2020).
Pesquisa 
Seria um sistema, tendo em vista que não funciona
como deveria e está ineficiente e ineficaz? 
É único, uma vez que existe serviço suplementar e
privado? 
E a saúde, já que está voltado mais para a doença?
51
 Para Paim (2015), conhecer a sigla em sua forma estendida não significa
compreender o seu conceito, uma vez que o SUS é especial, distinto, que
não se pode reduzir à junção de três palavras: sistema + único + saúde. 
 Em termos conceituais, a expressão “Sistema Único de Saúde” faz alusão ao
formato e aos processos jurídicos institucionais e administrativos que se
coadunam com a universalização do direito à saúde. Já em termos
pragmáticos, refere-se à rede de instituições (serviços e ações), a qual é
responsável em garantir o acesso à atenção à saúde (FIOCRUZ, c2020). 
 Nessa dimensão, o SUS não pode ser considerado um sistema de prestação
de serviços assistenciais, uma vez que ele é um sistema complexo, que tem
inúmeras atribuições, atuando em diversas áreas, tendo como principal
incumbência articular e coordenar ações de promoção, proteção e
recuperação da saúde, com a realização integrada das ações assistenciais e
preventivas, conforme preconizado no Art. 5º da Lei nº 8.080/90 (BRASIL,
1990). 
 O Sistema Único de Saúde é definido pela Lei Federal nº 8.080/90 em seu
Art. 4º como:
[...] conjunto de ações e serviços de saúde prestados por
órgãos e instituições Públicas Federais, Estaduais e
Municipais, da Administração Direta e Indireta e das
Fundações mantidas pelo Poder Público. [...] A iniciativa
privada poderá participar do Sistema Único de Saúde
(SUS), em caráter complementar (BRASIL, 1990).
Capítulo 2
52
 Oficialmente, a criação do SUS foi registrada em 1988 na Constituição
Federal, mas vimos que a sua concepção (ideia e proposta) se inicia no
final da década de 1970, mais especificamente em 1979, por meio do
documento A questão democrática na área da saúde, apresentado pelo
CEBES no 1º Simpósio Nacional de Política de Saúde, conforme
evidenciado no capítulo anterior da nossa disciplina, ou seja, o SUS foi
concebido muito antes de 1988, pela sociedade e pela Academia, uma
vez que os valores, os princípios, as diretrizes e demais normativas que
regem o SUS constavam nesse documento. 
 De quem é o SUS? O SUS, como a Figura 3 do Conselho Nacional de
Saúde muito bem indica, é de todos e decada cidadão, sendo a maior
expressão de uma política social e democrática. No entanto, cabe
lembrar que ainda não há um sentimento de pertencimento por parte da
população com relação ao SUS, o que pode ser corroborado quando se
evidencia na mídia que os próprios governantes, autoridades públicas,
entre outros, são atendidos na rede privada. 
 O próprio Estado valida a expressão de que o SUS é para os pobres, à
medida que os próprios servidores não o utilizam. Desse modo,
infelizmente, faz parte do senso comum de gestores, políticos, mídia,
profissionais de saúde e da população atrelar o SUS ao atendimento
daqueles que não têm condições financeiras de pagar um plano privado,
ou seja, dos pobres, esquecendo-se que ele é universal e pertence ao
povo e não ao governo, como muitos pensam. 
Capítulo 2
53
Fonte: https://pontocritico.org/12/04/2018/sistema-unico-de-saude-sus-ameacado/o-sus-nao-e-de-
nenhum-governo-e-do-povo-brasileiro/. Acesso em: 16 maio 2020.
#ParaTodosVerem: a imagem mostra várias mãos coloridas erguidas ao redor de um fundo azul
claro. No centro está escrito em letras vermelhas: “O SUS não é de nenhum governo, é do povo
brasileiro.” Na parte inferior direita aparece o logotipo do Conselho Nacional de Saúde.
 A Constituição de 1988, ao instituir a saúde como direito de cidadania e
dever do Estado, rompeu com o padrão de política social anterior,
marcado pela exclusão de milhares de brasileiros que não tinham acesso
à atenção e assistência à saúde, sendo que, após 1988, a atenção e a
assistência à saúde passaram a ser ofertadas para essa demanda, o que
se tornou a maior conquista social da história do Brasil.
ᅠDessa forma, o SUS é assegurado pelo Estado e gerido sob
responsabilidade das três esferas autônomas (municípios, estados e
União), sendo regulamentado pelas Leis Orgânicas da Saúde (LOS) nº
8.080/90, a qual foi regulamentada pelo Decreto nº 7.508/2011, e pela
Lei nº 8.142/90 (BRASIL, 1990a; 1990b; 2011a). 
Figura 3. O sus não é de nenhum governo, é do povo brasileiro
https://pontocritico.org/12/04/2018/sistema-unico-de-saude-sus-ameacado/o-sus-nao-e-de-nenhum-governo-e-do-povo-brasileiro/
https://pontocritico.org/12/04/2018/sistema-unico-de-saude-sus-ameacado/o-sus-nao-e-de-nenhum-governo-e-do-povo-brasileiro/
https://pontocritico.org/12/04/2018/sistema-unico-de-saude-sus-ameacado/o-sus-nao-e-de-nenhum-governo-e-do-povo-brasileiro/
Testes A/B
Experimentação Lean
 Depois de duas décadas de operacionalização do SUS por intermédio
de portarias ministeriais, foi publicado o Decreto nº 7.508/2011, o qual
é o dispositivo legal no que se refere à organização do SUS, ao
planejamento da saúde, à assistência à saúde e à articulação
interfederativa (Art. 1º). A partir dele, os serviços de saúde devem ser
estruturados na Região de Saúde, em Redes de Atenção à Saúde (com
suas respectivas Portas de Entrada), conforme Art. 4º e 5º. Ele também
institui o Contrato Organizativo da Ação Pública da Saúde (COAP), que
tem como meta organizar e integrar as ações e os serviços de saúde na
Região, a fim de garantir a integralidade da assistência à saúde da
população (BRASIL, 2011a). Portanto, esse Decreto traz novos conceitos
e cria dispositivos.
Pesquisas de mercado
Entrevistas com clientes potenciais
Capítulo 2
54
 De forma concisa, a Lei nº 8.089/90 dispõe a organização e o
funcionamento dos serviços e ações com finalidade de proteção,
promoção e recuperação da saúde, bem como define os objetivos do
SUS, que são: a identificação e divulgação dos fatores condicionantes e
determinantes da saúde; a formulação de política de saúde destinada a
promover, nos campos econômico e social, a observância do disposto no
§ 1º do Art. 2º desta lei; a assistência às pessoas por intermédio de ações
de promoção, proteção e recuperação da saúde, com a realização
integrada das ações assistenciais e das atividades preventivas (BRASIL,
1990a). Ficam também estabelecidos os princípios e diretrizes e algumas
determinações com relação ao seu funcionamento.
 No entanto, após as LOS, ao longo das décadas, diversas normas e
pactos foram editados e acertados, objetivando operacionalizar,
normatizar e organizar os serviços e ações. Durante a implantação do
SUS, o foco estava na descentralização (municipalização) dos serviços,
sendo criadas as Normas Operacionais Básicas (NOB), as quais não
explicitaremos nesse momento, pois serão elencadas na Seção 3 deste
material.
Site
O Decreto nº 7.508/11 pode ser
conferido na íntegra. Acesse o Qr Code
ao lado e confira.
Capítulo 2
55
 Como já colocado, os rumos históricos, especialmente os dos anos 1970 e
1980, possibilitaram uma nova perspectiva para a saúde no contexto
brasileiro, fazendo com que o SUS incorporasse os princípios sustentados
pela Reforma Sanitária, sendo que a estrutura organizacional e as diretrizes
foram inspiradas, em sua maioria, nas políticas de bem-estar social de
diversos países (SANTOS; MELO, 2018). 
 Assim, seu tripé de sustentação se constitui nos princípios doutrinários:
universalidade (visa à garantia de que todas as pessoas tenham acesso à
saúde, a qual deve ser promovida pelo Estado, ou seja, todo cidadão é igual
perante o SUS e será atendido conforme as suas necessidades, sem
distinção ou restrições e sem custo); equidade (visa combater as
desigualdades em saúde no país, embora todos tenham direito à saúde,
nem todos têm as mesmas condições de acesso aos serviços de saúde e,
desta forma, a maneira de dirimir essa desigualdade é tratar de maneira
desigual os desiguais, ou seja, é ofertar mais a quem mais precisa, conforme
pode ser visualizado na Figura 3. Como exemplo, podemos citar uma pessoa
que necessita de atendimento, mas não pode se deslocar até o local de
atendimento, sendo que para isso tem as atividades de atenção domiciliar) e
integralidade (pode-se dizer que apresenta dois significados
complementares: o da integralidade do cidadão, que considera a pessoa
como um todo, atendendo as suas necessidades, e a integralidade das ações
a ele dirigidas, sem cisão da prevenção com a cura, abrangendo a promoção,
a proteção e a recuperação da saúde. Resumidamente, ver como um todo
(holisticamente) e agir nesse todo, integralmente).
 Cabe salientar que, incontestavelmente, a construção de um sistema de
saúde de acesso universal, gratuito, equânime e com atendimento integral é
uma demonstração de ousadia em um país com tamanha desigualdade
social, bem como uma evolução civilizatória.
Vídeo 
Sugerimos que você assista ao vídeo elaborado
pela Fiocruz, o qual conta parte da história da
construção do SUS. Acesse o Qr Code ao lado e
assista.
Capítulo 2
56
 O SUS é um sistema público, disponibilizado a toda a população
brasileira (universalização) e financiado com recursos arrecadados por
meio dos impostos pagos por pessoas físicas e jurídicas. Portanto,
podemos inferir que ele não é gratuito, uma vez que é financiado pela
sociedade brasileira. Embora ele seja reconhecidamente como público,
segundo a Constituição de 1988, os princípios externados na Lei nº
8.080/90 não trazem a administração pública do sistema de forma
categórica (SANTOS; MELO, 2018). 
 As opiniões são diversas entre os estudiosos do tema “SUS”. Para Souza
et al. (2019), o Brasil não tem um sistema realmente único de saúde e sim
dispõe de vários serviços fragmentados, os quais disputam os mesmos
recursos, com a oferta de serviços que reflete e reproduz desigualdades
sociais, mantendo a iniquidade, desfavorecendo grupos vulneráveis,
comprometendo a integralidade da atenção, haja vista a priorização do
diagnóstico e tratamento de doenças, em prejuízo à prevenção e à
promoção da saúde. Quem usa o SUS?
Figura 4. Todos usam o SUS 
Fonte: http://alvarodegas.blogspot.com/2017/01/vai-pro-sus.html. Acesso em: 17 maio 2020
#ParaTodosVerem: a imagem mostra uma ilustração com quatro figuras humanas estilizadas nas
cores azul, amarelo, verde e preto, de mãos dadas ao redor de uma cruz azul, símbolo do SUS. Ao
lado da cruz também aparece um cachorro vermelho. Abaixoestá escrito em negrito: “Todos usam
o SUS!”.
Capítulo 2
57
 Estamos acostumados a somente associar o SUS à assistência médico-
hospitalar, esquecendo-se que a rede que compõe esse sistema é enorme.
Portanto, todos usam o SUS, de uma forma ou de outra, seja por meio da
vigilância sanitária, que inspeciona os estabelecimentos comerciais
(supermercados, restaurantes, ópticas, farmácias etc.) ou por intermédio
dos agentes de saúde, que vistoriam as casas a fim de evitar a proliferação
do mosquito Aedes aegypti ou quando ocorre algum resgate pelos bombeiros
ou pelo SAMU, por exemplo. 
 Também não podemos deixar de mencionar os diversos procedimentos de
média e alta complexidade realizados pelo SUS, como quimioterapia, doação
de sangue, transplante de órgãos, doação de leite humano, hemodiálise,
medicamentos de alto custo, dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS),
dos serviços pré-hospitalares de urgência e emergência (SAMU), dos Centros
Regionais de Saúde do Trabalhador (CEREST), do acesso livre e universal ao
tratamento de HIV, entre outros. Lembrando que o SUS atende aos usuários
dos serviços de saúde privados quando necessitam de atenção de alta
complexidade.
 É nítido que são inúmeros os serviços oferecidos pelo SUS, sendo que a
rede cresce cada vez mais à medida que são introduzidos novos tratamentos
e medicamentos, novas políticas e programas de saúde, entre outros, cuja
oferta nem sempre é conhecida pela população. 
 Além disso, dados da Pesquisa Nacional de Saúde, de 2013, estimam
que cerca de 75 a 80% da população brasileira é SUS-dependente no que
se refere às ações de assistência à saúde (IBGE, 2015). No contexto atual,
essa situação, com certeza, deve ter se modificado e esse cenário tende a
persistir, sobretudo diante da crise econômica já instalada e intensificada
com a pandemia (COVID-19). O que de certa forma seria o ápice do SUS,
haja vista o princípio da universalidade, não fosse o despreparo do
sistema.
Saiba Mais
Enfim, como vimos, são várias as áreas em que o SUS atua beneficiando
a população. Portanto, ele está em toda a parte, podendo ser
considerado patrimônio nacional. Todavia, é pouco conhecido e mal
falado por muitos brasileiros, embora, durante a pandemia do
coronavírus (COVID-19), parece que aos poucos a população está
entendendo o real valor do SUS e compreendendo o significado do
princípio da universalização, e nem entraremos no mérito da questão
das constantes trocas ministeriais durante a pandemia.
Capítulo 2
58
 Relativo ao financiamento, não aprofundaremos o tema, visto que somente
sobre ele teríamos que reservar um capítulo. No decorrer da disciplina,
verificamos que a área da saúde, por parte governamental, sempre foi
negligenciada. Desde a criação do SUS, a crise no financiamento da saúde
pública no Brasil vigora, pois sabe-se que os recursos destinados a ela são
insuficientes para a tarefa de se executar um sistema universal de saúde.
Portanto, as mazelas relativas ao financiamento do sistema de saúde
brasileiro são recorrentes e o subfinanciamento sempre imperou e, nesse
sentido, a insuficiência de verbas está atrelada à qualidade dos serviços
ofertados, bem como às políticas de saúde, que recebem recursos limitados. 
 Conforme Silva, Giovanella e Camargo Junior (2020), apesar de, entre 2003 e
2014, ter ocorrido um aumento substancial nos gastos per capita em saúde,
por parte do governo, o SUS permaneceu subfinanciado. Dessa forma, o
financiamento em saúde nunca foi sufi ciente para que a meta de um
sistema universal refreasse as desigualdades sociais e regionais brasileiras.
Relatam, ainda, que a política ultraneoliberal, dos dias atuais (governo
Bolsonaro), além de impor sucessivos ataques diretos ao SUS, que não
somente alteram a sua forma de financiamento, causando sérios riscos
econômicos para os estados e munícipios, também desvaloriza o modelo de
atendimento que vinha sendo construído até há pouco tempo. 
 Para que seja ofertado um atendimento integral (que envolva promoção,
proteção, recuperação da saúde, assim como ações preventivas), o SUS está
interligado por uma rede de serviços que segue uma lógica hierarquizada
(conforme o nível de complexidade) e regionalizada (articula os serviços de
saúde de uma região), permitindo um maior conhecimento ou
reconhecimento dos problemas de saúde da população da área delimitada,
o que, em tese, favorece ações de educação em saúde, vigilância em saúde,
além das ações de atenção ambulatorial e hospitalar. 
 Salienta-se que essa rede também deve estar organizada consoante aos
demais princípios organizativos, que são: descentralização (cada nível
federativo tem responsabilidades próprias, sendo que de forma contextual, o
município tem autonomia para pensar qual é a melhor estratégia para tratar
as questões relacionadas à saúde, especialmente para a atenção básica) e
participação social (garantia de que a população, por meio de seus
representantes, participe de todo processo de formulação das diretrizes e
prioridades das políticas de saúde, bem como na fiscalização da sua
concretização e no cumprimento dos dispositivos legais e normativos). Para
tanto, a participação popular pode ocorrer por intermédio dos Conselhos e
Conferências de Saúde, conforme a Lei nº 8.142/90.
Capítulo 2
59
 Nessa linha de interpretação, há de considerar também que, de modo geral,
a saúde não é vista como um direito do cidadão, assim como não há uma
tradição em exercer cidadania, o que contribui para que a população não
atue como protagonista para a construção e aperfeiçoamento do sistema e
das políticas públicas de saúde. 
 O SUS é uma nova formulação política e organizacional para a reorganização
dos serviços e ações de saúde, englobando a atenção básica/primária, média
e de alta complexidade, a atenção hospitalar, os serviços de urgência e
emergência, as ações e serviços das vigilâncias sanitária e epidemiológica,
saúde ambiental e do trabalhador, assistência farmacêutica, entre outros
(BRASIL, 1990; 2011b). Ademais, ele é um aglutinador de políticas públicas
intersetoriais, as quais veremos no próximo capítulo, a fim de prover atenção
à saúde da população em todas as suas interfaces.
 É importante ter em mente que o SUS não é o sucessor do INAMPS ou do
SUDS. Ele é um novo sistema de saúde, bem definido conforme a legislação
que o rege e, apesar de ter mais de 30 anos, ainda está em construção e
aperfeiçoamento, ou seja, não está consolidado. 
 Quanto à consolidação ou não do SUS, Santos (2012) relata que do ponto de
vista jurídico-legal, sua implementação pode ser considerada concluída,
sendo que a Reforma Sanitária finaliza sua colaboração para um sistema
público plenamente instituído. Já sob a perspectiva da real política pública de
Estado, o SUS se encontra contra-hegemônico, engatinhando, na
implementação das diretrizes constitucionais. 
Saiba Mais
Entretanto, esse último princípio (participação social), atualmente, não
está sendo considerado em sua totalidade, o que, de certa forma,
contribui para a desestruturação do SUS. Diversas ações são realizadas
de forma impositiva, sem a participação da população, apesar de estar
prevista tanto na Constituição Federal de 1988 como na Lei nº
8.080/90. Como exemplo, podemos citar a reforma da Política Nacional
de Atenção Básica e a imposição de um teto nos gastos públicos.
Capítulo 2
60
 Outro aspecto a destacar é que na configuração normativa do SUS está
explícito que a saúde deve ser ofertada de forma universal e de modo
irrestrito, porém não de forma exclusiva, já que pode ser suplementada por
serviços privados. Assim como o preceito constitucional apregoa que o serviço
de saúde deverá ser público e gratuito, sem que haja prejuízo e busque o
serviço privado. Portanto, o sistema de saúde brasileiro é misto (SUS e privado
suplementar).
 Vale lembrar que o SUS não nasceu 100% público, visto que nos Arts. 197 e
199 da Constituição de 1988 há previsão de serviços do SUS realizados por
pessoas físicas ou jurídicas de direito privado, sendo a assistênciaà saúde de
livre iniciativa privada, mediante contrato de direito público ou convênio
(BRASIL, 1988). 
ᅠTodavia, essas instituições contratadas e conveniadas pelo Estado são
regidas por um arcabouço legal específico, sendo a partir daí que esses
modelos de gestão se tornam cada vez mais fortalecidos pelo Estado, por
meio da Lei nº 9.637/98 e Decreto nº 3.100/99 (criação das Organizações
Sociais (OS)), uma vez que a legislação confere benefícios e autonomias para
essas entidades (KRÜGER; REIS, 2019).
 Para o funcionamento do SUS, há que se considerar a definição de quem são
os gestores e suas atribuições e a forma como as decisões referentes às
políticas de saúde são processadas, atentando-se que o seu funcionamento
envolve uma quantidade expressiva de pessoas envolvidas e de serviços
(MACHADO; LIMA; BAPTISTA, 2011).
Dica de Leitura
Quer saber mais ou relembrar a configuração
do SUS? Acesse a publicação do Ministério da
Saúde: O SUS de A a Z: garantindo saúde nos
municípios. Acesse o Qr Code ao lado.
Feedback positivo dos clientes
Evolução do cenário competitivo
Feedback negativo dos clientes
Capítulo 2
61
 Cabe frisar que o caráter universal do SUS é mais perceptível nas ações de
vigilância em saúde, em virtude de que alcançam a população brasileira em
sua completude, como o Programa Nacional de Imunizações (PNI), assim
como as ações diante das epidemias/pandemias. 
 Outro fato que merece ser ressaltado é que a política de saúde dos anos
1995 a 2002 estava pautada na contrarreforma do Estado, sendo que nesse
período prevaleciam dois projetos de SUS. De acordo com Paim (2008), o
que estava descrito na legislação e nas normativas vigentes, pautado na
universalidade e na responsabilidade do Estado, e o SUS para os pobres,
submisso às medidas econômicas, à burocracia e ao clientelismo. 
 Para não nos estendermos, tendo em vista que a história é longa, faremos
um recorte e, portanto, daremos um passo à frente para abordarmos de
forma mais pontual a temática nos dias atuais. 
 O SUS passou por vários momentos, tempos turbulentos entre 1990 e
1992, tempos de crise financeira e descentralização nos anos de 1993 e
1994, pela luta política até 2015 e pela crise política, instabilidades
democráticas e fortes ameaças de desmonte, extinção e privatização, no
período de 2016 a 2020. Assim, desde o início, o SUS passou por condições
adversas, seja no âmbito político, econômico ou social. 
Artigo 
Não há como relatarmos todos os acontecimentos e fatos
históricos, por isso indicamos o artigo Políticas de saúde no
Brasil em tempos contraditórios: caminhos e tropeços na
construção de um sistema universal, de autoria de Cristiani
V. Machado, Luciana D. de Lima e Tatiana W. F. Baptista, que
apresenta um excelente resumo de 1990 a 2016. Vale muito
a leitura. Acesse o Qr Code ao lado.
62
 Nesta seção, a linha que traremos para você busca identificar os principais
avanços do SUS, obstáculos, desafios, perspectivas e alguns problemas
estruturais que afetam seu desenvolvimento e sua consolidação,
apresentando os desdobramentos recentes dessa história. 
 Depois que já possibilitamos uma aproximação com o SUS, seus
antecedentes e suas raízes, os quais vimos até aqui, é valoroso refletirmos
sobre ele, tendo em vista de que se trata de uma história marcante para as
políticas de saúde no Brasil, com lutas e inquestionáveis avanços a favor dos
direitos e necessidades da população. 
 Para você, o que representa o SUS? Para muitos, ainda é comum relacionar
o SUS a longas filas, falta de medicamentos, médicos e leitos hospitalares,
atendimento voltado para os pobres, enfim, a elementos e momentos não
muito interessantes e alvo de muitas críticas.
 Não há uma compreensão clara e definida do que é o SUS, pois de modo
geral, tanto a população quanto os profissionais de saúde, gestores do
sistema, políticos e até mesmo estudiosos sobre o tema, frequentemente
confundem-no com serviços de saúde. Há ainda aqueles, em especial os que
prestam serviço para o SUS, que o colocam na posição de sujeito, relatando
que o SUS paga mal e não o governo, que é o responsável por tal
pagamento, ou ainda, que a verba que o SUS envia é pouca, no caso de
políticos e gestores (PAIM, 2015). 
22. O SUS COMO POLÍTICA DE
SAÚDE: DESAFIOS E
PERSPECTIVAS
Capítulo 2
63
 Por isso a importância de se conhecer a história, pois como pudemos
constatar no Capítulo 1, isso não é prerrogativa do SUS, pois a debilidade na
atenção à saúde, as filas para atendimentos médicos e hospitalares, a
dicotomia entre atenção à saúde de pobres e de ricos, assim como o repasse
de verbas para a área da saúde e as remunerações não satisfatórias aos
profissionais de saúde, entre outras, sempre existiram, desde os primórdios
da nossa história.
 Ressalta-se que existem diversas vertentes relativas ao que é o SUS. Dentre
elas, há os que defendem que o SUS é uma política de Estado por ter se
materializado na Constituição de 1988, denominada por Ulysses Guimarães
como Constituição Cidadã, e por garantir para toda a população o acesso às
ações e serviços de saúde. Enquanto que outros asseguram que o SUS é a
maior política pública em execução no Brasil, no que se refere à inclusão
social. Existem ainda aqueles que o denominam como uma política pública
em construção, em um contexto mutável, considerando as dimensões
políticas, sociais, tecnológicas e ideológicas. Há quem pense que o SUS é o
maior plano de saúde do Brasil e os que o intitulam como política pública
brasileira de saúde. Além de todas essas dimensões dadas ao SUS, tem-se a
tese de que ele pode ser compreendido como um macrossistema de saúde.
Site
Sobre o SUS ser plano de saúde, existe uma
publicação denominada O SUS pode ser
seu melhor plano de saúde. Acesse o Qr
Code ao lado.
Capítulo 2
64
 Tipo de risco Exemplos de riscos 
 Para Paim (2018), o SUS precisa ser visto além de uma política de saúde
pública, pois ele é um sistema público e universal de saúde e não um
sistema de saúde pública ou parte dele. O mesmo autor relata que a mídia,
os conservadores e liberais misturam o SUS com a saúde pública, erro muito
comum até mesmo nos setores progressistas. Limitam-no ao controle de
doenças, epidemias ou à profilaxia e que poderá, se não houver atuação
política a seu favor, vir a se tornar um sistema de saúde pública
americanizado, como o Food and Drug Administration (FDA) e o Centers for
Disease Control and Prevention (CDC), que se restringem à regulação de
produtos e serviços de interesse para a saúde e ao controle de doenças,
assim como voltado para o atendimento da população mais carente. 
 Durante a leitura do material, você pôde perceber que o SUS foi instituído
como estratégia, fundamentado na premissa de que a saúde é determinada
socialmente, a fim de garantir atendimento integral, com cobertura
universal e de forma descentralizada. Também pode-se concluir que ao
longo de todo esse período, o país mudou sua conjuntura demográfica,
econômica, política, epidemiológica e educacional, porém, não superou as
desigualdades sociais e os problemas relacionados à saúde.
2.1 AVANÇOS DO SUS: UMA VISÃO GLOBAL
Dica de Leitura
O que é o SUS, de Jairnilson Paim, é um e-book
interativo da Editora Fiocruz, com edição de
2015. Acesse o Qr Code ao lado para a leitura.
Capítulo 2
65
 Embora sejam tecidas críticas, a trajetória do SUS é de conquistas. É
consenso que nos últimos anos houve avanços perceptíveis, trazendo, desde
a sua criação, diversas melhorias para a saúde da população no Brasil. 
 Entretanto, existe uma dicotomia entre as bases jurídicas do SUS, a
Constituição de 1988 e a realidade dos serviços ofertados, uma vez que esse
sistema inclusivo não conseguiu englobar toda a população, conforme os
ideais propostos pela Reforma Sanitária e os preceitos da legislação, visto
que parte da população continua ainda fora dele, sendo alocada em planos
de saúde privados. 
 Um dos fatores justificadores dessa situação está relacionado à
indisponibilidade de serviços ofertados pelo SUS, fazendocom que as
instituições privadas logrem “clientes” com condições financeiras favoráveis,
a fim de suprir essa lacuna. Na esteira dessa concepção, há uma
universalização excludente, pois junto ao acesso, por parte de toda a
população, aos serviços de saúde, transcorreu a precarização, resultando na
exclusão da classe mais abastada, migrando para o sistema privado
(FAVERET FILHO; OLIVEIRA, 1990).
 De acordo com Silva, Giovanella e Camargo Junior (2020), desde a sua
criação, o SUS, apesar de todas as adversidades provenientes do
subfinanciamento, ajustes fiscais e pressão do setor privado de saúde,
oportunizou a ampliação do acesso à assistência para a população,
especialmente no período de 2003 a 2014, durante as presidências de
centro-esquerda, em que houve a expansão do acesso aos serviços,
juntamente aos avanços sociais, como o Bolsa Família, aumento sistemático
do salário mínimo e aposentadoria rural, proporcionando melhorias nas
condições de saúde da população.
 Houve uma expansão da rede pública, principalmente das Unidades de
Atenção Básica (UBS), ampliando o acesso a consultas médicas, com
diminuição das internações (de 120 para 66/10.000 habitantes), entre 2001 e
2016, bem como essa expansão repercutiu nos indicadores de saúde, com
quedas nos índices de mortalidade materno-infantil por doenças
transmissíveis e de causas evitáveis, além da diminuição dos casos de
desnutrição infantil, por exemplo (SOUZA et al., 2019).
 Cabe mencionar que o SUS, como já declarado anteriormente, é referência
mundial, especialmente pelos programas de transplantes (estabelece fi la
única, garantindo equidade ao acesso), de combate ao tabagismo (reduziu de
30% para 15% o percentual de fumantes adultos, apesar de ser o 2º maior
produtor de tabaco) e o de HIV/Aids (tornando-se o primeiro país a ofertar
medicamentos gratuitamente). Além disso, promoveu diversos avanços,
dentre eles a expansão da rede de saúde a todo o país e a redução das taxas
de mortalidade e de doenças cardíacas (ABRASCO, 2018).
 A iniciativa de fornecimento de medicamentos gratuitos e de forma
universal, por meio da farmácia básica e da farmácia popular, é outro
impacto positivo do SUS (SOUZA et al., 2019). 
 Além disso, temos a implementação da Estratégia da Família (ESF), a qual
considera os princípios de universalidade de acesso, atendimento integral e
equidade, progressivamente ampliada. Em 2019 foram implantadas mais de
43.000 equipes de Saúde da Família, possibilitando um aumento do acesso
aos cuidados de saúde, permitindo estender a atenção básica/primária,
operando em todo o território nacional, abrangendo uma diversidade de
grupos populacionais. Contudo, todos esses desenvolvimentos estão sendo
ameaçados (SILVA; GIOVANELLA; CAMARGO JUNIOR, 2020).
 O Programa Mais Médicos, instituído em 2013, é outro avanço, uma vez
que conseguiu levar profissionais de saúde a localidades de difícil acesso e
baixa fixação, beneficiando milhares de pessoas. Recentemente por
remodelação, por assim dizer, tornando-se Programa Médicos pelo Brasil
(PMPB), lançado em 2019, sendo motivo de controvérsias. 
Capítulo 2
66
Artigo
Quer saber mais sobre o Programa
Médicos pelo Brasil? Acesse o artigo
Programa Médicos pelo Brasil: mérito e
equidade. Acesse o Qr Code ao lado.
Capítulo 2
67
 Machado e Silva (2019) relatam a ampliação da cobertura de imunização, e
com relação ao estado de saúde, observam que o SUS promoveu resultados
positivos, uma vez que vários estudos demonstram as reduções nas taxas de
mortalidade geral, materna e por doenças infecciosas e morbimortalidade
infantil, por exemplo, sendo que esses resultados podem ser atribuídos, em
parte, aos programas específicos implementados. 
 Outro aspecto importante a ser realçado é o papel do SUS face aos eventos
de emergência de interesse da Saúde Pública, como exemplos mais
contundentes no caso do H1N1, Zika Vírus e, mais recentemente, COVID-19,
nos quais o SUS coordenou inúmeras ações de vigilância, controle e atenção.
Como exemplo simbólico que reforça a importância do SUS podemos citar os
testes de COVID-19, que são disponibilizados de forma gratuita à população.
 Nesse enfoque, o SUS permitiu um progresso substancial no que se refere
à cobertura universal de saúde. Entretanto, está sob grande ameaça, visto
que o país passa por uma combinação de recessão econômica, crise política,
medidas de austeridade mal concebidas e decisões políticas que visam
reverter o direito à saúde, ocasionando uma fraqueza estrutural do SUS,
ameaçando a sua sustentabilidade (MASSUDA et al., 2018).
 Em 2018, a Revista Poli fez uma edição especial em decorrência dos 30 anos
do SUS, dentre as matérias apresentadas, destacou o SUS em números
(informações referentes ao ano de 2017), conforme você pode visualizar na
Figura 5.
Site 
Que tal uma pausa? Indicamos o vídeo “O SUS que dá certo”.
Há outros vídeos da série SOS SUS. É importante
ressaltarmos que o CONASEMS criou a Mostra Brasil, aqui
tem SUS para divulgar projetos que transformam a vida de
milhões de brasileiros, retratando as experiências exitosas
das secretarias municipais de saúde de todas as regiões do
país, mostrando o SUS que dá certo. A série já conta com 61
vídeos. Acesse os Qr Codes abaixo e confira.
Capítulo 2
68
Fonte: http://www.epsjv.fiocruz.br/sites/default/files/poliweb59.pdf. Acesso em 20 de maio 2020.
#ParaTodosVerem: a imagem mostra um cartaz informativo sobre o SUS com o título em destaque
e várias estatísticas. Está escrito: “209,2 milhões de habitantes”. “162 milhões dependem
exclusivamente do SUS (47,2 milhões têm planos de assistência médica)”. “42.606 unidades básicas
de saúde”. “42.660 equipes da Estratégia Saúde da Família, com 67,7% de cobertura no país”. “596
UPAs”. “322.336 hospitais”. “1.355 hospitais psiquiátricos”. “133 equipes de Consultório na Rua”.
“2.572 CAPS”. “436.887 leitos”. “3.307 ambulâncias”. “17.140.238.126 remédios distribuídos
gratuitamente”. “69.347.167 procedimentos cirúrgicos”. “299.722.519 atendimentos de urgência e
emergência”. “11.661.095 partos realizados, destes 1.272.411 via cesariana”. “26.329 transplantes”.
“24.522.206 procedimentos odontológicos, incluindo 2.722.675 tratamentos de câncer, 4.020.084
consultas oftalmológicas e mamografias”. “93.200.938 sessões de quimioterapia e radioterapia”.
“548 mil pessoas em tratamento por HIV/Aids, de um total de 694 mil diagnosticados”. “120.276.470
doses de vacinas aplicadas, de 25 diferentes tipos”. “220 bancos de leite humano, com 169 postos
de coleta com 1.513.482 atendimentos individuais”. “2.857.800 internações”. “R$ 131.253,8 bilhões
de orçamento do governo federal para a saúde em 2019”. “R$ 256.352,7 bilhões em gastos totais
público, financiado pelos três níveis de governo”. “R$ 1.320,48 gasto público por habitante (ou US$
331,74)”.
Figura 5. SUS em números
Capítulo 2
69
 Com base na Figura 5, podemos constatar a imensidão dos benefícios, uma
vez que mais de 17 trilhões de medicamentos foram distribuídos, mais de 69
milhões de cirurgias foram realizadas, mais de 120 milhões de doses de
vacinas foram aplicadas, mais de 42 mil unidades básicas de saúde estão
espalhadas pelo país e assim por diante. 
 Cabe salientar que todos esses esforços e avanços ajudam na construção de
uma rede de cuidados sob a tutela do SUS, que ainda atende de forma parcial
às necessidades da população, mas que ocasionam grande impacto nas
condições de vida, auxiliando, na medida do possível, na redução das
desigualdades e iniquidades. 
 Entretanto, há de se considerar que todos os ganhos conquistados durante
as mais de três décadas de existência do SUS não são perenes, necessitando,
desta forma, defendê-lo e acima de tudo lutar para que sua construção não
desmorone. 
 Na prática, o que se observa do SUS, apesar de todos os avanços, além da
falta de investimentos na rede de atendimento e o sucateamento, é o acesso
universal à saúde cada vez mais comprometido. O sistema, apesar de ter sido
pensado para atender toda a população brasileira, não comporta taltarefa,
favorecendo a invasão dos serviços terceirizados. Outrossim, carece de
recursos humanos e a formação de profissionais para trabalhar no sistema,
uma vez que o ensino da área da saúde ainda está voltado para o modelo
flexneriano (biomédico). Veremos as dificuldades e os desafios do SUS mais
detalhadamente no próximo tópico.
Dica de Leitura 
Indicamos a leitura do artigo SUS: oferta,
acesso e utilização de serviços de saúde nos
últimos 30 anos, de Francisco Viacava et al.
Acesse o Qr Code ao lado para a leitura.
70
 Desde sua gênese, o SUS é alvo de inúmeras medidas políticas e econômicas
que o desvirtuam da sua concepção original, o que acaba gerando empecilhos
para o seu desenvolvimento, além de incutir na população uma visão
desfavorável, especialmente por parte da mídia, que faz questão de enaltecer
suas mazelas, contribuindo ainda mais para diminuir sua credibilidade. 
 O primeiro desafio do SUS foi referente a sua implantação, a qual não se
realizou de forma pragmática, esbarrando em diversos obstáculos. O
momento político e econômico dos anos 1990 não era favorável à ampliação
de direitos sociais, no qual imperava a individualidade, o consumismo, a
supercapitalização, a contenção de gastos sociais, a privatização de setores
públicos e, por conseguinte, sustentar o projeto da Reforma Sanitária não era
tarefa fácil. 
 Um aspecto que contribui para que o SUS não atinja seu princípio da
universalização em saúde, dentre tantos que poderíamos citar, é a dificuldade
da integração entre as esferas governamentais no tocante ao sistema de
saúde, que, por consequência, compromete o acesso aos serviços,
impossibilitando que a população usufrua dos seus direitos constitucionais
em saúde, especialmente ao direito universal e equitativo, denotando
discrepância entre o SUS real e o constitucional.
 Apesar das inúmeras conquistas registradas, nenhum governo priorizou o
SUS, de fato. Assim ele apresenta grandes entraves, enfrenta críticas, é alvo de
discussões, oferta serviços de baixa qualidade em boa parte de suas unidades
de saúde e suporta o peso das cargas trazidas pelas modificações dos perfis
demográfico (aumento da expectativa de vida e envelhecimento populacional)
e epidemiológico (expansão de doenças, como dengue, zika, sarampo e,
atualmente, COVID-19), bem como pelas transformações sociais e
econômicas. 
 Conforme Paim (2018), as bases de sustentação política do SUS sempre
foram vistas com preocupação, desde as origens do movimento sanitário,
sendo que o CONASS e o CONASEMS, com os conselhos estaduais e
municipais, permitiram a ampliação da base de apoio, assim como o Conselho
Nacional de Saúde (CNS) tem mobilizado grupos sociais, confrontando
determinadas iniciativas governamentais, e a expansão dos gestores
municipais de saúde que também têm fortalecido as bases políticas e sociais.
2.2 SUS: PRINCIPAIS DESAFIOS, AMEAÇAS E
PERSPECTIVAS
Capítulo 2
Capítulo 2
71
 Nesse sentido, o SUS vivencia os efeitos das disputas e tensões políticas
desde sempre, passando por uma série de emendas, leis, portarias,
decretos e normas que nem sempre favorecem o seu projeto inicial. 
 Na concepção de Paim (2018), a situação do SUS piorou muito, seja devido
à Emenda Constitucional 95 (EC 95/2016), seja pelo golpe de Estado em
2016, ou pelas ações desastrosas do Ministério da Saúde. Ele ressalta
também que, enquanto ocorrem mudanças relevantes no perfil
demográfico e epidemiológico populacional, há uma redução de recursos
para o SUS, por parte do governo federal, indo contra aos direitos
constitucionais. Ademais, informa que a maior ameaça de todas é a
privatização da atenção por meio da financeirização do setor saúde. 
 Na atualidade, existe um esforço obscuro e negativo, que salta aos olhos,
pelo desmonte do SUS, o que seria um retrocesso. Ressalta-se que, se antes
o cenário era de subfinanciamento, agora temos uma conjuntura de
desfinanciamento, com a aprovação da EC 95/2016. Dentre as medidas que
expressam esse desmonte do SUS, podemos citar: a EC 95, que limita o
crescimento das despesas primárias à taxa de inflação durante 20 anos; a
revisão das diretrizes da Atenção Básica em sentido contrário à perspectiva
integradora da Atenção Primária à Saúde; a redução significativa do
Programa Farmácia Popular, entre outras (KRÜGER, 2019).
 Paim (2018) relata que dentre os obstáculos estão aspectos negativos,
como os valores dominantes da sociedade brasileira, calcados para o
individualismo, diferenciação e distinção em oposição à coletividade,
igualdade e solidariedade, associado pelas limitadas bases políticas e
sociais do SUS, uma vez que não conta com a força de partidos e com o
apoio de trabalhadores organizados em centrais e sindicatos que defendam
os direitos à saúde. Associado a isso, é possível, ainda, apontar a
insuficiência da estrutura pública, as dificuldades com a montagem de
redes na regionalização, a falta de planejamento ascendente, os impasses
para que os modelos de atenção e práticas de saúde sejam alterados e o
modelo médico centrado na doença, no tratamento, no hospital e menos na
comunidade e na atenção básica. 
Planilhas
Softwares
Capítulo 2
72
Figura 6. Análise de investimentos
Fonte: https://pfarma.com.br/noticia-setor-farmaceutico/saude/1874-saude-publica-ainda-sofre-
com-recursos-insuficientes.html. Acesso em: 20 maio 2020.
#ParaTodosVerem: a imagem mostra uma charge com médicos em volta da sigla “SUS” deitada
sobre uma mesa de cirurgia. Um deles diz: “Para o SUS ficar bom, precisa melhorar a gestão”. Outro
afirma: “Na minha opinião, falta uma boa dose de recursos”. Um terceiro comenta: “Precisa é
ampliar o acesso com qualidade”. E o último acrescenta: “É melhor um coquetel com todos esses
remédios”.
 A Figura 6 retrata muito bem a situação do SUS, ou seja, o diagnóstico é
sabido, cada um tem uma sugestão para o seu tratamento e ninguém chega
a um prognóstico.
Saiba Mais
Salienta-se que sempre que ocorre uma data significativa, como 15 anos, 20
anos, 25 anos e 30 anos de SUS, surgem inúmeras publicações científicas ou
não, entrevistas, reportagens, entre outras, fazendo análises críticas,
avaliações positivas e/ou negativas, balanços, apontamentos das
conquistas, desafios e perspectivas. Ao tomarmos conhecimentos sobre
elas, a retórica é a mesma, ou seja, o tempo passa e as adversidades são
sempre as mesmas. Como não é possível discorrermos sobre os resultados
encontrados, sugerimos que você busque nas bases de dados científicas, ao
menos, uma publicação de cada marco histórico, a fim de uma reflexão
crítica. 
Capítulo 2
73
 Existem diversos entraves que afetam a evolução do SUS, dentre eles, tem-se
a gestão ineficiente, que se retroalimenta com o financiamento insuficiente,
isto é, um coloca a culpa no outro e que, consequentemente, recai na
qualidade do atendimento, denegrindo a imagem do SUS. 
 As condições precárias dos equipamentos, a infraestrutura física, muitas
vezes em péssimo estado, e os recursos humanos insuficientes e mal
capacitados para atender à população são problemas recorrentes.
Congruente a isso, temos a pouca valorização salarial para os profissionais da
saúde, que é reflexo de uma gestão inoperante. 
 Nessa linha de raciocínio, é premente a melhoria no que se refere à
qualificação profissional para que haja acolhimento e qualidade nas práticas,
ofertando à população um atendimento humanizado por meio de uma equipe
onisciente, suscitando em uma atenção mais resolutiva.
 Outrossim, há a carência de inovações tecnológicas, as quais esbarram em
uma cultura organizacional que nem sempre está alinhada com a realidade
tecnológica, mostrando-se resistente ao novo. Assim, torna-se indispensável
a implantação da informatização das informações de saúde onde ainda não
tem, assim como a implementação e a incorporação dessas em toda a Rede.
Embora o prontuário eletrônico e os Sistemas de Informação da Saúde (SIS)
já existam, podem ser considerados obsoletos, assim como o agendamento
on-line, que pouco funciona. Portanto, urge umatransição de um SUS
analógico para um digital. 
Vídeo
Sob o prisma da integralidade, o encontro das práticas
formativas com as práticas de atenção e gestão no SUS é
um desafio a ser alcançado e para que o processo de
capacitação dos profissionais seja realizado, tem-se a
Educação Permanente em Saúde, na tentativa de romper
com o modelo hegemônico de capacitação, por meio da
Política Nacional de Educação Permanente em Saúde
(PNEPS), do Sistema Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS)
(https://www.unasus.gov.br/.) e do Ambiente Virtual de
Aprendizagem do SUS (AVASUS) (https://avasus.ufrn.br/),
por exemplo. 
Assista ao documentário elaborado pelo Conselho Federal
de Enfermagem alusivo aos 30 anos de SUS. Acesse o Qr
Code ao lado.
Capítulo 2
74
 Outro ponto a ser ressaltado é a pouca participação popular no controle
social, condição fundamental para que ocorram avanços e que os princípios
do SUS se consolidem. 
 
 De acordo com Souza et al. (2019), para o aprimoramento do SUS, há a
necessidade de adotar estratégias e táticas específicas, sendo que no
âmbito das políticas de saúde, o desafio é a reorientação do modelo de
atenção à saúde, superando o modelo biomédico e mercantilista, com o
propósito de fortalecer as práticas de promoção da saúde, articulando as
ações intersetoriais, além de ampliar a cobertura, melhorando a qualidade
das ações de diagnóstico, tratamento e prevenção das doenças. Assim, é
essencial garantir a primazia da política de saúde sobre os interesses
comerciais, colocando o complexo produtivo a serviço do SUS. 
 Na concepção dos autores supracitados, outro desafio que se refere ao
fortalecimento do SUS está relacionado à melhoria da sua eficiência, sendo
que a profissionalização e publicização da gestão, a regionalização da saúde
e a política pessoal são as questões que se destacam. Por último, relatam o
financiamento e a insuficiência de recursos, que é de conhecimento de
todos.
 Uma outra questão emergente se refere aos altos índices de desemprego,
desencadeando o cancelamento de muitos planos privados,
sobrecarregando os serviços públicos de saúde. Nesse sentido, as
dificuldades e os desafios são inúmeros a serem enfrentados pelo SUS no
século XXI, pois é um sistema de saúde em constante construção e que
acompanha o desenrolar da história social e econômica do país. 
 Além dos desafios já citados, podemos acrescentar e ratificar os seguintes:
visão hegemônica de que saúde é gasto e não investimento; taxa de gasto
público com a saúde abaixo da média mundial; escassez de profissionais;
má distribuição dos médicos entre os níveis de cuidados de saúde e zonas
geográficas; reserva de mercado; desigualdades regionais; dificuldades em
implantar/implementar a descentralização dos serviços de saúde;
dificuldade/falta de integração da atenção básica à rede; necessidade de
melhorias no atendimento de média complexidade; falta de compreensão
dos princípios e campo de atuação do SUS por parte da população; falta de
engajamento da população por seus direitos; judicialização; renúncia fiscal;
reformas trabalhistas e previdenciárias; falta de vontade política, entre
outros. Contudo, o maior desafio a ser enfrentado pelo SUS é político-
ideológico.
Capítulo 2
75
 Como vimos, o SUS passou por inúmeros períodos históricos turbulentos,
sobreviveu (e continua sobrevivendo) a diversos ataques ao longo de sua
história, sempre ligados ao financiamento e, apesar de todas as dificuldades
enfrentadas, permanece como parâmetro para outras democracias. 
 Recentemente foram impostos novos desafios ao SUS, como no caso da
pandemia COVID-19, que assola o país, associado às restrições orçamentárias
em todos os níveis de atenção, infelizmente, não se vislumbra um horizonte
promissor. 
 Destarte, nesses mais de 30 anos, o SUS passou pelas fases de crescimento
e amadurecimento, mas desde o início, o seu maior desafio a ser vencido,
além do financiamento ou subfinanciamento, é o de abarcar toda a
população, seguido pela ampliação do acesso as suas ações e serviços.
O maior desafio do SUS é político. É político o desafio de
torná-lo único. É político o desafio de fazê-lo efetivamente
público, democrático, integral e igualitário. Não só porque
o SUS tem a ver com o dever do Estado e o direito dos
cidadãos em relação à saúde, nem porque necessita
alargar as bases sociais, políticas e ideológicas em sua
defesa, a partir de uma consciência sanitária crítica. É
político porque lida com a questão do modelo de
desenvolvimento, com as desigualdades (sociais, raciais,
étnicas, de gênero etc.), com a articulação público-
privada, com a democratização da atenção à saúde, com
o complexo econômico e industrial da saúde, com a
questão ambiental na cidade e no campo, com o
orçamento e a disputa dos fundos públicos face aos
interesses do capital financeiro (PAIM, 2018, s.p.). 
Vídeo
Convidamos você a assistir ao vídeo em
que Jairnilson Paim faz uma leitura dos
30 anos do SUS. Acesse o Qr Code ao lado
e assista.
Capítulo 2
Dica de Leitura 
Relativo à pandemia e aos desafios a serem
enfrentados, propomos a leitura do artigo Pandemia
do Coronavírus e Atenção Primária: reflexões sobre
os desafios dos gestores. Acesse o Qr Code ao lado
para a leitura.
76
 Assim, os desafios são gigantes, proporcionais ao tamanho do SUS, sendo
imperativo que mudanças sejam realizadas a fim de garantir a sua
permanência como um sistema público, gratuito e universal, visando ao
cuidado integral de toda a população residente no Brasil, de forma resolutiva
e equânime.
2.3 CONTEXTO ATUAL DO SUS: ÚLTIMOS
ACONTECIMENTOS E PERSPECTIVAS
Artigo 
Não deixe de ler o artigo A saúde
nos governos Temer e Bolsonaro:
lutas e resistências. Acesse o Qr
Code ao lado para a leitura.
 Estudos realizados pelo Banco Mundial (2017; 2018) geraram um relatório
com propostas de reformas para o SUS, indicando que existem oportunidades
para aperfeiçoar a gestão do SUS e de ampliação da eficiência no uso de
recursos públicos, assim como sugere a expansão da cobertura de atenção
básica (atenção primária à saúde) e o seu fortalecimento como porta de
entrada do sistema de saúde; o desenvolvimento de redes integradas de
atenção à saúde; e a introdução de novos arranjos de gestão e governança,
aumentando a autonomia, a flexibilidade e a eficiência de provedores.
Também propõe a expansão de serviços privados de saúde, entre outras
sugestões. 
Capítulo 2
77
 Relativo às futuras ações de saúde sob o novo governo do Brasil, não foi
constatado, inicialmente, nenhum plano, bem como algumas atitudes
chamam a atenção, como a rejeição do uso das expressões “incluindo acesso
universal a serviços de saúde sexual e reprodutiva” e “a exclusão de serviços
de saúde sexual e reprodutiva de programas de cobertura universal de
saúde”, durante a 63ª sessão da Comissão sobre a Situação das Mulheres, da
ONU, em março de 2019, relatando que essas políticas podem promover o
aborto. Temos, ainda, a proibição de ilustrações em folhetos distribuídos a
adolescentes que fornecem instruções de como usar preservativos e a recusa
do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos em adicionar a
comunidade LGBTQ+ como um grupo explicitamente protegido, afirmando
que as políticas de diversidade ameaçaram a família brasileira (CASTRO et al.,
2019). Ademais, o que se via nos discursos iniciais do ex-ministro Henrique
Mandetta era o de caráter privatista, modificando-se ao longo da pandemia de
COVID-19 (CEBES, 2019). 
Site
Enfim, o relatório é bem polêmico, pois o Banco Mundial
é uma instituição financeira internacional que atende
aos interesses do setor privado e efetua empréstimos a
países em desenvolvimento. Isso gerou notas das
principais entidades em defesa do SUS, como CEBES e
ABRASCO. Confira o relatório com as propostas
apresentadas pelo Banco Mundial para a reforma do
SUS. Acesse os Qr Codes abaixo respectivamente para a
leitura.
Capítulo 2
78
Importante
Salienta-se que durante a elaboração desse material
houve a troca de ministros, sendo que Nelson Teich
assumiu apósa saída de Mandetta, permanecendo por um
curto período e que, nesse momento (setembro de 2020),
o ministro interino da Saúde é o general Eduardo Pazuello. 
 É importante realçar que o desmonte do SUS é um processo que vem
acontecendo a longo prazo, tornando-se mais intenso no atual governo.
Polêmica
O que se vê e escuta na mídia é que o atual governo
quer de fato desmantelar o SUS e com suas medidas
vem demonstrando que isso é um real interesse.
 Dentre as medidas tomadas, até o presente momento (setembro de 2020),
temos a substituição do Programa Mais Médicos pelo Programa Médicos
pelo Brasil, que, de forma controversa, reforça alguns inimigos da saúde
coletiva, como a hegemonia da categoria médica, a inserção de elementos
privatizantes tanto na assistência como na gestão, a flexibilização das leis
trabalhistas, o apagamento da participação social e a agenciação da
administração pública, sob o pretexto de avanço, desenvolvimento e
modernização (CEBES, 2019). 
 Relativo à Política de Saúde Mental, por meio da Nota Técnica nº 11/2019
do Ministério da Saúde: “Nova saúde mental”, há a defesa da retomada de
que o número de leitos sejam ampliados em hospitais psiquiátricos,
passando a considerar as comunidades terapêuticas como dispositivos das
redes de atenção psicossocial a serem financiadas pelos SUS, assim como,
no que se refere à Política Nacional de Álcool e Drogas, há uma condução
para o proibicionismo, priorizando as internações, em detrimento do
cuidado na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), agindo na contramão do
que foi construído até então na lógica da Reforma Psiquiátrica Brasileira
(CEBES, 2019).
Capítulo 2
79
 Mudanças também ocorreram no modelo de gestão de políticas para a saúde
indígena. Inicialmente, seria extinta a Secretaria Especial de Saúde Indígena,
do Ministério da Saúde, mas o governo voltou atrás devido à mobilização das
comunidades indígenas e oposições de outros gestores do SUS (CEBES, 2019).
Contudo, o Decreto nº 9.795/2019 (não específico para a saúde indígena)
extingue o Departamento de Gestão da Saúde Indígena, responsável pela
garantia das condições necessárias à gestão do subsistema, programando a
aquisição de insumos e coordenando as unidades de atendimento (BRASIL,
2019b). 
 Outra medida é o novo modelo de financiamento da Atenção Primária à
Saúde (APS) no âmbito do SUS, denominado de Programa Previne Brasil,
instituído pela Portaria nº 2.979, de 12 de novembro de 2019. Segundo a
Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS), essa iniciativa busca ampliar o
acesso da população aos serviços de saúde a fim de garantir a universalidade
do SUS, tendo como foco o atendimento às necessidades e prioridades
epidemiológicas, demográficas, socioeconômicas, espaciais, entre outras
(BRASIL, 2019a). 
 Face a essa medida do governo, o CONASS e o CONASEMS se manifestaram
favoráveis. De acordo com Erno Harzheim, secretário da Atenção Primária da
Saúde do Ministério da Saúde (SAPS/MS), essa medida está calcada em
critérios técnicos e científicos e, por ser ‘fácil, simples e factível’, fortalece a
atenção primária, à medida que valoriza a responsabilização das equipes de
Saúde da Família pelas pessoas e estimula o aumento da cobertura (NEVES;
MACHADO, 2019). 
 Em contrapartida, diversas entidades, instituições, grupos de pesquisa e
outras associações se pronunciaram contra, conforme ilustrado a seguir,
buscando a revogação da Portaria supracitada, tendo em vista que esse novo
modelo não foi elaborado com transparência e tampouco assegura a redução
das desigualdades regionais, à medida que adota o número de pessoas
cadastradas nas equipes de saúde e o desempenho das unidades como
critério para o repasse dos recursos.
Capítulo 2
80
Figura 7. Protesto Contra o Desmonte do SUS 
Fonte: https://abrasco.org.br/defesa-da-atencao-primaria-e-do-direito-universal-a-saude-pela-
revogacao-da-portaria-no-2979-19-do-ministerio-da-saude/. Acesso em: 22 maio 2020
#ParaTodosVerem: a imagem mostra uma manifestação em que várias pessoas caminham em
uma rua. Em destaque, uma mulher segura um cartaz escrito em letras grandes: “CONTRA O
DESMONTE DO SUS”.
Artigo
Um artigo para complementar o tema
anterior é Mudanças no financiamento da
Atenção Primária à Saúde no Sistema de
Saúde Brasileiro: avanço ou retrocesso?,
publicado em 2020. Acesse o Qr Code ao lado.
Capítulo 2
81
 O governo também vetou integralmente o projeto de lei (PLS 416/2009),
aprovado no Congresso Nacional, que garantia a todos os pacientes do SUS
a disponibilização de medicamentos, sangue, componentes hemoderivados
e outros recursos necessários ao diagnóstico e tratamento das doenças,
bem como à prevenção, alegando que o projeto cria despesa obrigatória,
sem indicar qual seria a fonte de custeio (AGÊNCIA SENADO, 2019). 
 Um outro ponto a discutir é a Saúde da Família, mais especificamente o
NASF-AB (Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica),
conforme veremos a seguir.
Saiba Mais
A Nota Técnica nº 3/2020-DESF/SAPS/MS informa, dentre
outras, que a composição de equipes multiprofissionais
deixa de estar vinculada às tipologias de equipes NASF-
AB e que a partir de janeiro de 2020 o Ministério da
Saúde não realizará mais o credenciamento de NASF-AB.
Acesse a fonte no Qr Code ao lado.
 O governo Bolsonaro, de modo fatídico, decretou o fim do Núcleo
Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica e, embora as novas
medidas não indiquem diretamente a sua extinção, acabam com o
financiamento específico, bem como liberam secretários municipais e
estaduais de saúde a adotarem qualquer modelo, inclusive nenhum
(FIOCRUZ, c2020). Isso era de se esperar, visto que em 2019 já havia
ocorrido a instituição do Programa Previne Brasil (novo modelo de
financiamento). 
Capítulo 2
82
 Reis e Meneses (2020) relatam que a inexistência de financiamento
específico para o NASF-AB traz risco de desmantelamento à medida que
reduz a atuação multiprofissional e como resultado restringe o acesso da
população a classes profissionais que antes eram acessadas por meio da
atenção secundária. Informam, ainda, que já há casos de dispensabilidade
de alguns profissionais, que atualmente são em torno de 30.000, e que
dificilmente os gestores municipais se arriscarão serem contrários ao que
está nas entrelinhas do Ministério da Saúde. Asseveram que mudanças
devem ocorrer, mas sem retrocessos, e que os trabalhadores do SUS e
usuários precisam ser consultados para as tomadas de decisões. 
 Baseado nisso, é importante nos atentarmos que no atual contexto em
que vivemos, de desemprego, desregulamentação do trabalho,
informalidade laboral, crise econômica, pandemia, violência, entre outros
tantos fatores, a demanda por ações de atenção psicossocial e
reabilitação tende a aumentar. 
 Salienta-se que, em plena pandemia pelo coronavírus, foi instituída a
Agência Para o Desenvolvimento da Atenção Primária à Saúde (ADAPS),
por meio do Decreto nº 10.283, de 20 de março de 2020 (BRASIL, 2020),
gerando novas insatisfações perante as entidades que defendem o SUS,
uma vez que essa ação induz a uma maior precariedade da organização
do Sistema, em especial a ESF. 
 Atualmente, o SUS vivencia um momento delicado, que está à beira de
um colapso, enfrentando um dos seus maiores desafios da história, que é
de como repensar a sua gestão e se fortalecer para atender à alta
demanda da pandemia do novo coronavírus, uma vez que sobrecarrega
ainda mais o Sistema. 
 Nesse sentido, o SUS vem fornecendo a base necessária para que as
ações de enfrentamento à pandemia sejam atendidas, por meio da sua
rede de serviços, equipamentos e recursos humanos disponíveis. 
 Contudo, suas mazelas ficam mais evidentes em momentos como estes,
denotando o déficit de recursos humanos na saúde, falta de investimento,
escassez de equipamentos de proteção individual (EPI), falta de
treinamento para lidar com as suspeitas e com os casos diagnosticados,
deficiência nas ações de prevenção interna nos espaços de cuidado, falta
de equipamentos e dispositivos essenciais aodiagnóstico e tratamento da
população com quadros clínicos suspeitos ou contaminados pelo vírus,
entre outras. 
Capítulo 2
83
ᅠDesta forma, a atual pandemia reacende a defesa do SUS,
demonstrando, mais uma vez, a sua importância e necessidade,
colocando em pauta seus princípios de universalidade, integralidade e
equidade.
 Por fim, nas últimas décadas, a realidade que se descortina demonstra
que o SUS tem experenciado interesses antagônicos, isto é, os que
defendem a sua permanência e consolidação como um sistema
plenamente público e universal e os que visam a sua submissão a um
setor privatizado e mercantilizado. 
 Diante de tudo isso, vem em mente o seguinte questionamento: o SUS
vai continuar? De acordo com Paim (2018), embora o SUS sofra com
ataques, boicotes, golpes, não é plausível a sua extinção, haja vista que
existem inúmeros interesses vinculados ao Estado, ao capital e às classes
dominantes que indicam a sua manutenção, seja por meio de legitimação
ou cooptação, seja como lócus de acumulação, expansão e circulação do
capital. Na verdade, é uma incógnita, um capítulo em aberto e o momento
atual é de apreensão frente ao atual governo federal. 
 O cenário que vem sendo desenhado nesses últimos tempos tem
demonstrado um quadro crítico, no qual o SUS padece de insufi ciência
crônica de recursos, diagnosticado com sérios problemas de organização
e gestão, com prognóstico não favorável sob o ponto de vista
governamental, necessitando de tratamento intensivo em todos os
âmbitos.
 Sejamos otimistas, aguardando as cenas dos próximos capítulos.
Site
O Relatório 30 anos de SUS, que SUS para
2030?, destaca importantes conquistas do
SUS e apresenta recomendações estratégicas
que poderão subsidiar presentes e futuros
gestores do SUS para o alcance das metas
dos ODS em 2030. Acesse o Qr Code ao lado.
84
 Nosso capítulo chega ao fim, e como bem vimos, historicamente,
a atenção à saúde no Brasil está atrelada às mudanças sociais,
econômicas, culturais, mas principalmente às políticas que
ocorreram desde o século XV, se intensificando nos séculos
seguintes até chegar ao século XXI, sempre produzindo alterações
significativas na vida e na saúde da população. 
 Foi uma imersão nos diversos acontecimentos relacionados à
saúde, mas em especial no Sistema Único de Saúde, em que foi
possível relembrar e conhecer fatos históricos, que esperamos que
tenham enriquecido seu aprendizado. Acima de tudo, almejamos
que seu olhar tenha se pluralizado no que se refere ao SUS. 
 O que será do SUS e das políticas de saúde nos próximos anos
ainda é um capítulo a ser redigido. O que sabemos é que
decorridos esses 32 anos, o SUS traz em sua biografia a concepção
de um sistema universal, equânime e integral, permeado de lutas,
desafios, entraves, mas com ganhos significativos para a sociedade. 
 Durante a abordagem teórica que o capítulo proporcionou, pôde-
se ratificar que progressos ocorreram na saúde da população, mas
também pôde-se inferir que ainda falta muito a ser conquistado e
que necessitamos prementemente que o modelo centrado na
doença e na assistência médico-hospitalar seja superado. 
 Constatamos também que o SUS é, e sempre será, uma obra
inacabada, pois está em constante aperfeiçoamento e adaptação e
que várias agendas e atores influenciam para que essa construção
permaneça ou vá à ruína. 
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Capítulo 2
85
 Embora o SUS seja questionado, alvo de críticas, discriminado e a
todo momento sejam revelados gargalos profundos, todos nós
devemos intervir para que ele se mantenha, especialmente no que
se refere a ser de acesso universal e atendimento integral, ainda
mais em tempos de pandemia. 
 Ao terminarmos mais uma etapa da nossa disciplina Políticas de
Saúde, esperamos que todas essas informações tenham
contribuído de forma positiva para o seu engrandecimento pessoal
e profissional e que tenham ampliado a sua visão crítica. 
 Desta forma, agradecemos seu empenho e nos encontraremos no
próximo e último capítulo!
86
1. Diante do que foi exposto, propomos que você leia as situações
hipotéticas a seguir: 
Situação 1: Seu Pedro sofreu um acidente doméstico em que teve o
braço queimado por água fervente (queimadura leve). Sua esposa logo
sugeriu que ele fosse até o hospital geral. Contudo, nesse instante,
receberam a visita de um agente comunitário de saúde, que
recomendou ao Seu Pedro sua ida até a Unidade Básica de Saúde. 
Diante dessa situação, cite dois princípios do SUS que podem ser
identificados.
2. Situação 2: Dona Jaci, atualmente com 62 anos de idade, lembra-se
de quando o atendimento médico era somente para os trabalhadores
com carteira de trabalho assinada e que mesmo assim havia restrições
de acesso a algumas necessidades de atendimento. Eram tempos
difíceis, segundo ela. 
Nessa narrativa, quais os dois princípios que podem ser apontados?
3. Situação 3: Margarida, 23 anos, necessita de um transplante de
medula óssea, o qual deverá ser realizado pelo SUS. É um
procedimento de alta complexidade e custo. 
Desta forma, ao assumir o financiamento desse procedimento para
Margarida, qual é o principal princípio do SUS?
ATIVIDADES
DE ESTUDO
87
ABRASCO. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE SAÚDE COLETIVA. SUS, 30 anos.
2018. Disponível em: https://www.abrasco.org.br/site/noticias/sistemas-
de saude/o-sus-trouxe-ganhos-imensos-para-populacao-mas-nenhum-
governo-o priorizou/37424/. Acesso em: 16 maio 2020. 
AGÊNCIA SENADO. Executivo veta extensão de oferta de sangue e
hemoderivados pelo SUS. 2019. Disponível em:
https://www12.senado.leg.br/ noticias/materias/2019/12/27/executivo-
veta-extensao-de-oferta-de-sangue-e hemoderivados-pelo-sus. Acesso
em: 20 maio 2020. 
BAHIA, L. Sistema Único de Saúde. c2020. Disponível em:
http://www.sites.epsjv.fiocruz.br/dicionario/verbetes/sisunisau.html.
Acesso em: 15 maio 2020. 
BANCO MUNDIAL. Propostas de reformas do sistema único de saúde
brasileiro: nota de política econômica. Brasília: Grupo Banco Mundial,
2018. Disponível em:
http://pubdocs.worldbank.org/en/545231536093524589/Propostas-de-
Reformas-do-SUS.pdf. Acesso em: 20 maio 2020. 
BANCO MUNDIAL. Um ajuste justo: análise da eficiência e equidade do
gasto público no Brasil. Brasília: Grupo Banco Mundial, 2017. Disponível
em:
http://documents.worldbank.org/curated/en/884871511196609355/pdf/1
21480-REVISED-PORTUGUESE-Brazil-Public-Expenditure-Review
Overview Portuguese-Final-revised.pdf. Acesso em: 20 maio 2020. 
BRASIL. Decreto nº 10.283, de 20 de março de 2020. Institui o Serviço
Social Autônomo denominado Agência para o Desenvolvimento da
Atenção Primária à Saúde - Adaps. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20192022/2020/decreto/D10283.
htm. Acesso em: 20 maio 2020. 
REFERÊNCIAS 
88
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Programa Previne Brasil, que estabelece novo modelo de financiamento
de custeio da Atenção Primária à Saúde no âmbito do Sistema Único de
Saúde, por meio da alteração da Portaria de Consolidação nº 6/GM/MS, de
28 de setembro de 2017. 2019a. Disponível em:
https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-2.979-de-12-de-
novembro-de-2019-227652180. Acesso em: 17 maio 2020. 
BRASIL. Decreto nº 9.795, de 17 de maio de 2019. Aprova a Estrutura
Regimental e o Quadro Demonstrativo dos Cargos em Comissão e das
Funções de Confiança do Ministério da Saúde, remaneja cargos em
comissão e funções de confiança, transforma funções de confiança e
substitui cargos em comissão do Grupo-Direção e Assessoramento
Superiores - DAS por Funções Comissionadas do Poder Executivo - FCPE.
2019b. Disponível em: https://www2.
camara.leg.br/legin/fed/decret/2019/decreto-9795-17-maio-2019-788131-
norma pe.html. Acesso em: 20 maio 2020. 
BRASIL. Conselho Nacional de Saúde. Relatório da 16ª Conferência
Nacional de Saúde: versão preliminar. Brasília: Conselho Nacional de
Saúde; 2019c. 255 p. Disponível em:
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BRASIL. Ministério da Saúde. Programa mais médicos– dois anos: mais
saúde para os brasileiros. Brasília, DF: Secretaria de Gestão do Trabalho e
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http://maismedicos.gov.br/images/PDF/Livro_2_Anos_Mais_Medicos_Minis
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BRASIL. Portaria nº 1.580, de 19 de julho de 2012. Afasta a exigência de
adesão ao Pacto pela Saúde ou assinatura do Termo de Compromisso de
Gestão, de que trata a Portaria nº 399/GM/MS, de 22 de fevereiro de
2006, para fins de repasse de recursos financeiros pelo Ministério da
Saúde a Estados, Distrito Federal e Municípios e revoga Portarias.
Disponível em: https://bvsms.
saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2012/prt1580_19_07_2012.html. Acesso
em: 22 maio 2020.
Capítulo 2
89
BRASIL. Decreto nº 7.508, de 28 de junho de 2011. Regulamenta a Lei nº
8.080, de 19 de setembro de 1990, para dispor sobre a organização do
Sistema Único de Saúde - SUS, o planejamento da saúde, a assistência à
saúde e a articulação interfederativa, e dá outras providências. 2011a.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-
2014/2011/Decreto/D7508.htm#:~:text=Regulamenta%20a%20Lei%20
n%C2%BA%208.080,interfederativa%2C%20e%20d%C3%A1%20outras%20
provid%C3%AAncias. Acesso em: 22 set. 2020. 
BRASIL. Portaria nº 2.488, de 21 de outubro de 2011. Aprova a Política
Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes e
normas para a organização da Atenção Básica, para a Estratégia Saúde da
Família (ESF) e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS).
2011b. Disponível em:
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BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria-Executiva. Mais saúde: direito de
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BRASIL. Portaria nº 4.279, de 30 de dezembro de 2010. Estabelece as
diretrizes para organização da Rede de Atenção à Saúde no âmbito do
Sistema Único de Saúde (SUS). 2010b. Disponível em:
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BRASIL. Portaria nº 154, de 24 de janeiro de 2008. Cria os Núcleos de
Apoio à Saúde da Família - NASF. Disponível em:
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BRASIL. Decreto nº 6.286, de 5 de dezembro de 2007. Institui o
Programa Saúde na Escola - PSE, e dá outras providências. Disponível em:
https://bvsms. saude.gov.br/bvs/publicacoes/dec_6286_05122007.pdf.
Acesso em: 22 maio 2020.
Capítulo 2
90
BRASIL. Portaria n° 399, de 22 de fevereiro de 2006. Divulga o Pacto
pela Saúde 2006 –Consolidação do SUS e aprova as Diretrizes
Operacionais do Referido Pacto. Disponível em:
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2006/prt0399_22_02_2006.
html. Acesso em: 22 set. 2020. 
BRASIL. Ministério da Saúde. Plano Nacional de Saúde: um pacto pela
saúde no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria Executiva,
Subsecretaria de Planejamento e Orçamento, 2005a. 
BRASIL. Portaria nº 1.065, de 4 de julho de 2005. Cria os Núcleos de
Atenção Integral na Saúde da Família, com a finalidade de ampliar a
integralidade e a resolubilidade da Atenção à Saúde. 2005b. Disponível
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gov.br/bvs/saudelegis/gm/2005/prt1065_04_07_2005.html. Acesso em: 20
maio 2020. 
BRASIL. Ministério da Saúde. A implantação da Unidade de Saúde da
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BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde da Família: uma estratégia para a
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BRASIL. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as
condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, da
organização e funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras
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http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8080.htm. Acesso em: 15 maio
2020. 
BRASIL. Lei nº 8.142, de 28 de dezembro de 1990. Dispõe sobre a
participação da comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e
sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros na
área da saúde e dá outras providências. 1990b. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/L8142.htm. Acesso em: 22 set.
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BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do
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Capítulo 2
91
BRASIL. Ministério da Previdência Social. 8ª Conferência Nacional de
Saúde: relatório final. Brasília: Ministério da Saúde, 1986. Disponível em:
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ocruz.br/local/File/na-corda bamba-cap_9.pdf. Acesso em: 25 maio 2020.
LIMA, N. T.;A saúde, assim como a educação, não permanece estática em seus conceitos,
e tampouco em suas práticas. Diariamente vemos a emergência e o declínio
de enfermidades novas, bem como a ressurgência de riscos causados por
doenças antigas que eram dadas como curadas. Isso deixa profissionais de
saúde e a população em geral em alarme, impedindo que nos estagnemos
frente a tão grande fluxo de fatos e informações. Neste aspecto, a educação
em saúde se vê obrigada à constante renovação, visando acompanhar a
velocidade dos processos vigentes.
 Não existe, ainda, uma definição universal do conceito de saúde e do conceito
de doença, porém, pontos em comum são compartilhados pelas
conceituações existentes.
 Para iniciarmos a discussão sobre saúde é extremamente válido pontuar
definições de órgãos e entidades reconhecidos neste aspecto, cuja atuação é
de relevância neste campo de atuação e nesta área do conhecimento.
 A Organização Mundial de Saúde (OMS), como seu próprio nome anuncia, é a
entidade responsável por regulamentar e promover ações em saúde a nível
global. Para a OMS, a saúde é um direito fundamental de todo ser humano,
sendo definida como: “[...] um estado de completo bem-estar físico, mental e
social, e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade”
(Organização Mundial de Saúde, 1946, on-line).
 Tal conceito foi criado na cidade de Nova Iorque, em 1946, e divulgado em
quatro idiomas a fim de estabelecer um conceito sobre saúde, sua
importância nas relações interpessoais e entre povos, além de estabelecer
medidas para a manutenção e promoção do mesmo (Organização Mundial de
Saúde, 1946). Visa, entre outros aspectos, quebrar a ideia vigente e enraizada
de que a saúde consiste apenas na ausência de doença, tentando demonstrar,
já naquela época, uma visão mais integralizada do termo.
 Mais tarde, no ano de 1998, com a Revisão da Constituição da Organização
Mundial de Saúde, o conceito de saúde foi reelaborado, passando a incluir em
suas vertentes relacionadas à qualidade de vida, afirmando: “A saúde é um
estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social, e
não somente a ausência de doença ou enfermidade” (Organização Mundial de
Saúde, 1998, on-line).
 No Brasil especificamente, seguindo os preceitos da Constituição Federal,
temos o conceito de que:
Capítulo 1
 É válido ressaltar que, nos termos dessa lei, o dever do Estado não exclui o
dever individual de cada sujeito, de modo que cidadãos comuns, empresas e
outras instituições não se isentem de responsabilidade na promoção,
proteção e recuperação da saúde (Brasil, 1988), evitando confusões quanto às
obrigações individuais e estatais no processo.
12
Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido
mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do
risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e
igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e
recuperação. (Brasil, 1988)
 Esta última definição concorda com o que é colocado pela Lei Orgânica do
SUS, Lei n. 8.080 de 19 de setembro de 1990 que dispõe que:
Art. 2º A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo
o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno
exercício. § 1º O dever do Estado de garantir a saúde consiste na
formulação e execução de políticas econômicas e sociais que visem
à redução de riscos de doenças e de outros agravos e no
estabelecimento de condições que assegurem acesso universal e
igualitário às ações e aos serviços para a sua promoção, proteção e
recuperação. (Brasil, 1990, on-line)
Importante
 § 2º O dever do Estado não exclui o das pessoas, da família,
das empresas e da sociedade.
Fonte: Brasil (1990, on-line).
 Analisando a história na tentativa de estabelecermos tais conceitos,
observamos a gradual transição do conceito de saúde e doença numa
perspectiva religiosa e mística, passando a teoria que é amplamente aceita
nos atuais dias representada pelo modelo biomédico (Barros, 2002).
 Até pouco tempo, os conceitos de saúde e doença traziam pouca significação
a ambos os processos. Conforme coloca Albuquerque e Oliveira (2002, on-line)
"num passado ainda recente a doença era frequentemente definida como
'ausência de saúde', sendo a saúde definida como 'ausência de doença' -
definições que não eram esclarecedoras".
13
Capítulo 1
 Barros (2002), em sua revisão, conceitua o que ele denomina de medicina
mágico-religiosa, que traduz em si uma compilação dos fatos principais da
história. Nessa perspectiva, o adoecimento era visto como uma forma de
castigo ou punição por transgressões cometidas, das quais os seres
superiores ou divindades eram responsáveis por sua realização.
 Neste âmbito, um sujeito ou grupo de sujeitos que haviam cometido
transgressões, a fim de recuperar a sua condição saudável, deviam
reestabelecer os laços de relacionamento pacífico com as divindades. Para
isso, recorria-se a sacerdotes e eram realizadas as mais diversas oferendas a
tais divindades a fim de se obter o reestabelecimento do que fora perdido.
Conforme colocado por Barros (2002, p. 68) em sua revisão:
a medicina mágico-religiosa, predominante na antiguidade, se
inseria em um contexto religioso-mitológico no qual o adoecer era
resultante de transgressões de natureza individual ou coletiva,
sendo requerido para reatar o enlace com as divindades, o
exercício de rituais que assumiam as mais diversas feições,
conforme a cultura local, liderados pelos feiticeiros, sacerdotes ou
xamãs.
 Com o passar do tempo, houve um redirecionamento no entendimento de
enfermidades. Passou-se a observar mais o enfermo em busca das causas da
doença, e menos às divindades ou outros fatores externos. Isso gerou uma
compreensão quanto à origem não sobrenatural das enfermidades.
 Partindo deste ponto, várias teorias foram formuladas para tentar entender
a origem das doenças, como a teoria dos humores de Hipócrates (460-377
a.C).
 Hipócrates nasceu na ilha de Cós, atual Grécia, no ano de 460 a.C., e teve
como contemporâneos grandes pensadores, como Sócrates e Platão. Após
passar algum tempo no Egito durante sua juventude, Hipócrates pôs-se a criar
um sistema racional baseado na observação e na experiência, descrevendo
sinais distintivos de várias enfermidades, passando a ser reconhecido como o
pai da Medicina (Félix et al., 2008).
 Ele foi um dos primeiros a discordar das teorias de que as enfermidades
eram causadas por forças sobrenaturais ou divinas (Félix et al., 2008). Em sua
crença, Hipócrates acreditava que o sangue radicava em si os quatro humores
e que quando este coagulava, podiam-se observar os elementos que lhe
compunham. De acordo com Félix (2008), Hipócrates designou aos elementos
do sangue coagulado como:
14
Capítulo 1
A fibrina, que era vista como a mucosidade presente no sangue. 
Flema
Que compreendia a parte vermelha do coágulo. 
Hema
Ao soro, que naquela época chamava de bílis amarela.
Cólera
Que compreende ao que denominava bílis negra.
Melancolia
 Conforme demonstrado por Barros (2002, p. 69) em suas teorias, Hipócrates
associava os humores corporais aos elementos da natureza e:
associando a bile amarela, bile negra, sangue e fleugma,
respectivamente, ao fogo, terra, ar e água, esses humores
predominariam em determinada estação do ano, isto é, verão (bile
amarela), outono (bile negra), primavera (sangue) e inverno
(fleugma).
 Por conta de pequenas alterações observadas na literatura a respeito do
tema, temos concluído que Flema e fleugma sejam sinônimos, assim como o
Hema e o sangue também o sejam.
Galeno foi outro pensador de importância na história do estudo dos
processos saúde-doença. Ele nasceu em Pérgamo, em 130 D.C., estudou
Filosofia e Medicina. Se embasou nos ensinamentos deixados pelos
seguidores de Hipócrates para postular observações, que por muito
perduraram na história da medicina (Barros, 2202; Romero et al., 2011). Para
ele, a concepção de enfermidade ainda procedia da teoria dos quatro
humores. Saúde era vista como "um estado de equilíbrioSANTANA, J. P. de (Org.). Saúde coletiva como compromisso:
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2020
Capítulo 2
96
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
CAPÍTULO 3 
SAÚDE PREVENTIVA E PROMOÇÃO
DA SAÚDE MENTAL DO TRABALHO
Conhecer os conceitos balizares de promoção e prevenção da saúde e à
influência dos determinantes sociais em saúde no processo saúde e
doença;
Aprender os modelos de atenção à saúde no Brasil;
Entender o contraponto que há entre o modelo biomédico em relação ao
modelo sanitarista que deu origem ao SUS.
Estudar a história da saúde mental no trabalho;
Compreender o campo teórico que compreende a saúde e ao trabalho
Estudar sobre o desgaste, a psicodinâmica do trabalho, a ergonomia e o
modo de vida, que são conceitos tão importantes para a área da saúde
mental no trabalho;
97
 Este capítulo tem como objetivo proporcionar informações e
conhecimentos fundamentais sobre os modelos e conceitos em saúde,
com foco especial no entendimento da promoção e prevenção da saúde e
dos determinantes sociais que influenciam esses processos.
 Também estudaremos os conceitos fundamentais relacionados, bem
como aprenderá a identificar o que são os DSS – determinantes sociais em
saúde. E, em seguida, vamos estudar os modelos de atenção à saúde no
Brasil: modelo biomédico e o modelo de determinação social – modelo
sanitarista, entendendo a respeito do contraponto que há entre o modelo
biomédico em relação ao modelo sanitarista que deu origem ao SUS. E,
ainda, conhecendo os diversos outros modelos de atenção à saúde que
ainda persistem na sociedade. 
 Para aprofundaresse entendimento sobre modelos e conceitos em
saúde, é essencial que também reflitamos sobre o conceito de saúde
mental. Embora esse termo esteja presente em diferentes contextos como
legislações, políticas públicas, manuais e produções científicas, ainda não
há um consenso definitivo sobre seu significado. Essa ausência de uma
definição única evidencia a complexidade do tema e reforça a necessidade
de uma abordagem ampla e crítica, que se articule com os determinantes
sociais e os modelos de promoção e prevenção da saúde que serão
apresentados no decorrer do capítulo. 
CONTEXTUALIZAÇÃO
Capítulo 3
98
 Ao longo deste capítulo, exploraremos os diversos fatores que podem
impactar a saúde mental dos trabalhadores, como a relação interpessoal,
os desafios na comunicação e o aumento da carga de trabalho. Além
disso, abordaremos os principais processos da psicodinâmica do trabalho
e a ergonomia, que visa criar condições laborais que favoreçam a saúde e
o bem-estar dos trabalhadores durante suas atividades. 
 Convidamos você a refletir sobre esses temas e a relacioná-los com sua
realidade profissional ou com as práticas que pretende desenvolver nos
espaços socio-ocupacionais em que estiver inserido. Assim, este capítulo
oferece um conjunto diversificado de abordagens que enriquecem o
entendimento e a aplicação dos princípios da Saúde Preventiva e
Promoção da Saúde mental no trabalho.
99
 
 
 Os cuidados absolutos com a saúde sugerem atos de promoção da saúde,
prevenção de enfermidades e fatores de risco e, após alojada a enfermidade,
o tratamento correspondente às pessoas enfermas (BUSS, 2010). 
 Saúde é considerada enquanto direito humano basilar admitida por todas as
agências mundiais e em todas as sociedades. Destarte, a saúde se apresenta
no mesmo patamar com diversos direitos afiançados pela Declaração
Universal dos Direitos Humanos – (DUDH), do ano de 1948: liberdade,
alimentação, educação, segurança, nacionalidade, entre outros. 
 A saúde é largamente admitida como uma elementar solução para o
desenvolvimento pessoal, social, econômico, bem como uma das mais
extraordinárias extensões da qualidade de vida. Desse modo, a saúde e
qualidade de vida, ambos os assuntos estão diametralmente conexos, fato
que podemos distinguir no nosso dia a dia. Logo, a saúde coopera para
aprimorar a qualidade de vida e esta é basilar para que um sujeito e a
comunidade tenham saúde. 
 Em sinopse, promover a saúde é agenciar a qualidade de vida. De acordo
com Buss (2010), no ano de 1986, na cidade de Ottawa, localizada no Canadá,
foi realizada uma Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, que
constituiu uma linha de princípios éticos e políticos, determinando os campos
de ação. 
 Segundo Buss (2010), esse tratado convencionado nessa conferência
internacional diz que promoção da saúde é o método de habilitação da
comunidade para agir no progresso da sua qualidade de vida e saúde,
compreendendo máxima participação no controle desse procedimento. 
1 1. O CONCEITO DE PROMOÇÃO
E PREVENÇÃO DA SAÚDE E OS
DETERMINANTES SOCIAIS EM
SAÚDE
Capítulo 3
100
 Ainda a respeito da promoção da saúde, os autores Verdi, Da Ros e Souza
(2012) citam outros díspares modelos conceituais, sendo um deles alvitrado
pela saúde coletiva brasileira e outros originários do Canadá. Desde o
Relatório Lalonde, publicado no ano de 1974, no Canadá, e mais
designadamente, posteriormente à Conferência Internacional sobre
Promoção da Saúde, ocorrida no ano de 1986, em Ottawa, a compreensão
de promoção da saúde irrompeu com o modelo de níveis de prevenção
amparado durante décadas. 
 Para alcançar uma condição de completo bem-estar mental, físico e social,
os sujeitos e coletivos necessitam ter ciência para adaptações, controlar
anseios, ter satisfação e alterar convenientemente o ambiente social,
natural e político. 
 Desse modo, a saúde contorna-se, segundo Buss (2010), um conceito
prosaico, que ressalta as soluções sociais e pessoais, assim como as
competências físicas. Portanto, não é encargo exclusivo de políticas de
saúde e vai além de um costume de vida saudável, na administração de um
bem-estar global. 
 Consideramos algumas soluções imprescindíveis para ter saúde de modo
pleno: alimentação adequada, recursos sustentáveis, paz, renda, moradia,
educação, ambiente saudável, equidade e justiça social, com toda a
complexidade que sugerem quaisquer desses quesitos. 
 Destarte, a promoção da saúde é a decorrência de um contíguo de fatores
sociais, coletivos, individuais, culturais, econômicos e políticos que se
ajustam de contorno privado em cada sociedade e em conjunturas
específicas, resultando em sociedades mais ou menos saudáveis. Na maior
parte do tempo de suas vidas, a maioria das pessoas é saudável, ou seja,
não necessita de hospitais, CTI ou complexos procedimentos médicos,
diagnósticos ou terapêuticos. 
 Mas, durante toda a vida, todas as pessoas necessitam de água e ar puros,
ambiente saudável, alimentação adequada, situações social, econômica e
cultural favoráveis, prevenção de problemas específicos de saúde, assim
como educação e informação – estes, componentes importantes da
promoção da saúde. Então, para promover a saúde é preciso enfrentar os
chamados determinantes sociais da saúde.
Capítulo 3
101
 A promoção da saúde se refere às ações sobre os condicionantes e
determinantes sociais da saúde, dirigidas a impactar convenientemente a
qualidade de vida. Por essa razão, assinala-se essencialmente por uma
conciliação intersetorial e pelas atuações de ampliação da compreensão
sanitária educação para a saúde, direitos e deveres, estilos de vida e
aspectos comportamentais, dentre outros. 
 De tal modo, para aprimorar as condições de saúde de uma população são
imprescindíveis modificações carregadas dos padrões econômicos no cerne
dessas sociedades e ativação de políticas sociais, que são de modo
eminente políticas públicas sociais. Isto é, para que uma sociedade alcance
saúde para todos os seus cidadãos é imprescindível atuação intersetorial e
políticas públicas de caráter integral (BUSS, 2010). 
 A comissão nacional dos determinantes sociais da saúde fez uma análise
profunda dos determinantes sociais da saúde no Brasil e uma série de
políticas e ações, cujo desígnio derradeiro é a promoção da saúde. 
 É importante destacarmos a definição que a Organização Mundial da
Saúde – OMS – desenvolveu sobre saúde determinando que o estado de
saúde não é apenas ausência de doença, mas o completo bem-estar
psicossocial do ser humano, admitido pelo nome de determinantes sociais
da saúde. 
 O processo saúde-doença não está sujeito exclusivamente aos mecanismos
biológicos que afetam o organismo humano, há múltiplos condicionantes
titulados determinantes do processo saúde x doença; eles são os fatores
sociais, étnico-raciais, culturais, econômicos, comportamentais e
psicológicos que influenciam o episódio de problemas de saúde e seus fatos
de risco na população. 
 Os DSS abrangem as características específicas do contexto social que
influem na saúde e o modo como as condições sociais afetam a saúde. As
interações entre distintos graus de condições sociais produzem
desigualdades em saúde, desde o âmbito individual até o nível das
condições culturais, ambientais e econômicas que incidem em ampla parte
da sociedade (GEIB, 2012).
 Ainda conforme Geib (2012), juntos, formam o contexto sociopolítico
responsável pela estratificação dos grupos segundo os níveis de renda,
escolaridade, profissão, sexo, gênero, local de moradia e outros fatores.
Esses mecanismos de estratificação socioeconômica são descritos como
determinantes estruturais da saúde ou como fatores sociais determinantes
das desigualdades na saúde
Capítulo 3
102
Figura 1. Determinantes Sociais no Processo Saúde X Doença
Fonte: A autora.
#ParaTodosVerem: a imagem mostra um círculo central amarelo com o texto “Processo Saúde x
Doença”, cercado por outros círculos coloridos que representam diferentes fatores. Estão escritos:
“Fatores Sociais”,“Fatores Psicológicos”, “Fatores Ambientais”, “Fatores Educacionais”, “Fatores
Culturais”, “Fatores Econômicos”, “Fatores Políticos”, “Fatores Ecológicos” e “Fatores Genéticos”.
 Para a atenção integral de saúde, de acordo com Buss (2010), é
imprescindível empregar e associar saberes e práticas atualmente
agregados em compartimentos avulsos: atenção médico-hospitalar;
programas de saúde pública; vigilância epidemiológica; vigilância sanitária;
educação para a saúde, entre outros. 
 O autor ainda pronuncia que essa integração deve combinar ações
extrassetoriais em abalizados âmbitos, como água, esgoto, resíduos,
drenagem urbana, e ainda, na educação, habitação, alimentação e
nutrição; e administrar esses saberes e práticas conexos a um território
característico, díspar de outros territórios, onde reside uma população
com predicados culturais, sociais, políticos, econômicos. 
Capítulo 3
103
 Em síntese, é a sugestão de uma inovação prática sanitária interdisciplinar,
que agrega díspares conhecimentos teóricos e práticas, que se cobrem de um
novo atributo ao proferir, de modo organizado pelo paradigma da promoção
da saúde, para o enfrentamento das dificuldades viventes num dado território
particular. 
 Um bom exemplo de ações que se voltam ao cuidado da promoção da saúde
em sua totalidade, temos a estratégia de saúde da família e dos agentes
comunitários de saúde, que ponderamos ser fundamental para esse processo
de promoção e merecem o mais decidido apoio político e técnico para sua
implementação.
 Verdi, Da Ros e Souza (2012) proferem que este exemplar conceitual em
saúde proporciona uma nova configuração de analisar o processo saúde x
doença. Cabe destacar que esse modo de analisar a saúde tem sua
ascendência no continente europeu, em meados do século XIX, num
movimento denominado Medicina Social. 
 Ainda de acordo com Verdi, Da Ros e Souza (2012), os autores mencionam a
respeito de um médico social e patologista conhecido como Virchow, em que
este afirmava que os indivíduos enfermam e falecem pelo modo no qual
vivem. Esse estilo de viver a vida é determinado por fatores de ordem social,
cultural e econômica, o que por sua vez assinala-se o todo da manifestação da
enfermidade. 
 Os mesmos autores ressaltam ainda que no ano de 1848, Virchow organizou,
com outros profissionais, a Lei de Saúde Pública da Prússia, em que profere
que incumbe ao Estado o encargo de cuidar da saúde da população, que o
Estado necessita promover a saúde e desenvolver estratégias de
enfrentamento e tratamento da doença para todos os sujeitos, isto é, saúde é
direito de todos, dever do Estado. Por fim, Verdi, Da Ros e Souza (2012)
acrescentam que foi esse movimento que guiou a constituição do nosso
sistema único de saúde – SUS. 
 A respeito do conceito de determinação social incidindo no processo saúde-
doença, Verdi, Da Ros e Souza (2012) mencionam outro profissional que se
dedicou a estudar a temática: Henry Sigerist, no ano de 1942, este
pronunciava que o profissional de medicina tinha quatro amplas tarefas, são
elas: 
Capítulo 3
104
promover saúde; 
prevenir doenças; 
restabelecer o doente; 
reabilitá-lo. 
 Promover saúde era apresentar qualidades de vida, trabalho, educação,
cultura, lazer, acesso à cultura, ter descanso, cabe ainda avultar que o modelo
da determinação social não se recusa a prestar o atendimento individual
quando imprescindível, entretanto, ela é contextualizada numa semelhança
entre cidadãos.
Pesquisa
Você sabia que existem modelos de saúde que são distintos
uns dos outros e, por essa razão, possuem concepções
distintas de saúde? Para aquecer o debate, consulte o artigo a
seguir: Modelos assistenciais: reformulando o pensamento e
incorporando a proteção e a promoção da saúde, com autoria
de: PAIM, Jairnilson Silva. Acesse o Qr Code para conferir.
Converse com sua equipe de trabalho e seus colegas de turma
sobre a relevância da compreensão a respeito dos distintos
modelos de atenção à saúde e a importância da concepção de
promoção e prevenção em saúde para a prática profissional
dos diversos profissionais que atuam no âmbito da saúde
pública em distintos espaços ocupacionais.
 De acordo com Carvalho (2008), o modelo de promoção da saúde originário
do Canadá tem a afirmação do social, já que exibe a consignação do processo
saúde-doença, a procura de superação do modelo biomédico e o
comprometimento de saúde como direito de cidadania.
Capítulo 3
105
 De acordo com Buss (2003), resumidamente, as formulações de promoção
da saúde podem ser agrupadas em duas amplas convergências, conforme
aponta o quadro a seguir:
Dica de Leitura
Caro estudante: para contribuir ainda mais com o seu conhecimento;
deixamos como sugestão de leitura os seguintes livros: Promoção da
Saúde: conceitos, reflexões, tendências. - O referido livro promove uma
reflexão a respeito dos conceitos e tendências presente no discurso
contemporâneo do campo da saúde coletiva com ênfase na promoção
da saúde. Referência: CZERESNIA, D. FREITAS, C. M. de. Promoção da
saúde: conceitos, reflexões, tendências. Scielo – Editora FIOCRUZ, 2009. 
Promoção da saúde: a construção social de um conceito em perspectiva
comparada. - O referido livro agencia uma discussão sobre mudanças
na abordagem da saúde e nas práticas de atenção e tem gerado debate
internacional, convergindo para um novo paradigma. Este é baseado na
promoção da saúde, a qual defende uma evolução substantiva no modo
como são formuladas e implementadas as políticas públicas que
influenciam as condições de saúde da população. A autora reconstitui a
história social do conceito e das práticas de promoção da saúde como
crítica ao entendimento prioritariamente biomédico da saúde. Analisa
como Brasil e Canadá incorporaram em suas políticas públicas a
proposta de promoção da saúde ratificada pela Declaração de Otawa,
em 1986, assim como os componentes conceituais dessa proposta,
teoricamente e em suas apropriações pelos dois países. Referência:
RABELLO, L. S. Promoção da saúde: a construção social de um conceito
em perspectiva comparada. Editora FIOCRUZ, 2010.
Minimização de riscos
Capítulo 3
106
Fonte: adaptado de Buss (2003).
A primeira, centrada no
comportamento dos
indivíduos e seus estilos de
vida.
Uma das características desta tendência é o seu
enfoque fortemente comportamental, expresso
por meio de ações de saúde que visam à
transformação de hábitos e estilos de vida dos
indivíduos, ponderando o ambiente familiar,
assim como o contexto cultural em que
convivem. 
A segunda, dirigida a um
enfoque mais amplo de
desenvolvimento de
políticas públicas e
condições favoráveis à
saúde.
Esta tendência se aproxima muito do modelo
preventivo. As semelhanças entre a promoção
da saúde e a prevenção de doenças nos exibe
que prevenir é vigiar, antecipar acontecimentos
indesejáveis em populações consideradas de
risco, enquanto promover a saúde, quando não
se trata de controlar politicamente as condições
sanitárias, de trabalho e de vida da população
em geral, mas quando procura cunhar hábitos
saudáveis, é também uma vigilância. Uma
vigilância que cada um de nós necessita
desempenhar sobre si próprio. 
Quadro 1. Promoção da Saúde
 Nessa ótica, centrada no comportamento dos indivíduos e seus estilos de
vida, a promoção da saúde acerca-se a priorizar aspectos educativos
acoplados a fatores de riscos comportamentais singulares e, deste modo,
método potencialmente atinado pelos próprios sujeitos. 
Capítulo 3
107
 Essa tendência, dirigida a um enfoque mais amplo de desenvolvimento de
políticas públicas e condições favoráveis à saúde, apontada por Buss (2003)
como mais atualizada, pondera como fundamental à função protagonista dos
determinantes sociais a respeito das condições de saúde, cujo extenso
espectro de fatores está absolutamente pertinente com a qualidade de vida
particular e coletiva. 
 Logo, promover a saúde implica considerar um padrão adequado de
alimentação, de habitação e de saneamento, boas condições de trabalho,
acesso à educação, ambientefísico limpo, apoio social para famílias e
indivíduos e estilo de vida responsável. 
 Promover a saúde envolve, também, dirigir o olhar ao coletivo de indivíduos
e ao ambiente em todas as dimensões, física, social, política, econômica e
cultural. Por fim, promover a saúde implica uma abordagem mais ampla da
questão da saúde na sociedade.
Fonte: A autora.
#ParaTodosVerem: a imagem apresenta três retângulos coloridos conectados por setas a um
círculo laranja central com o texto “Promoção da Saúde”. Os retângulos trazem os dizeres “Bem-
estar físico”, “Bem-estar social” e “Bem-estar emocional”.
Figura 2. Determinantes Sociais no Processo Saúde X Doença
Capítulo 3
108
 Importa sinalizar que as intenções para o debate de promoção da saúde
têm de forma trivial a importância do social, nessa conjuntura, a questão de
saúde necessita ser apreendida como a competência para viver a vida de
forma livre, independente, reflexiva e socialmente responsável, de que o
cerne de intervenção do setor da saúde precisa ser em volta dos serviços e
territórios (VERDI; DA ROS; SOUZA, 2012). Carece compreender a saúde por
meio da politização das práticas sanitárias, tendo como alvo a produção de
bens e serviços, a produção de sujeitos à democratização institucional. 
 Nesse aspecto, a promoção da saúde precisa abarcar o fortalecimento da
democracia e a intervenção no ambiente. A promoção da saúde é
componente de díspares instâncias de decisões e, destacadamente, do
aparelho estatal, que necessita organizar um conjunto de políticas públicas
de natureza estrutural econômicas e infraestruturais e da mesma forma
políticas públicas sociais como saúde, habitação, assistência social, segurança
alimentar, educação entre outras que envolvem a necessidade da população.
 É importante compreendermos que a determinação da doença está
diretamente ligada aos fatores sociais, e precisamos cada vez mais
desenvolver ações de educação em saúde para que a população possa
compreender a relevância destes determinantes sociais e adotar medidas de
promoção da sua própria saúde. 
 Destarte, compreensão da forma de organização da sociedade no
capitalismo nos permite conhecer o papel e os limites estruturais do Estado,
para viabilizar ou para não assumir políticas sociais e, dentre elas, as de
saúde. Assim, compreenderemos como isso vai gerar desigualdades sociais,
eixo para entender a determinação social da doença (VERDI; DA ROS; SOUZA,
2012). Este nos leva a refletir que o poder capitalista internacional com seus
representantes nacionais, bem como o próprio interesse capitalista nacional
procura adotar os encargos de comando, tanto no poder Executivo como no
Legislativo e Judiciário, para afiançar uma política que assevere a reprodução
do capital (VERDI; DA ROS; SOUZA, 2012).
 Assim, configura ser um problema para a classe trabalhadora e
principalmente para a grande massa de pessoas que vivem em situação de
pobreza extrema. É importante registrar que isso tem alusões diretas no
sistema único de saúde pública para a população brasileira. A hegemonia
dominante assume também papéis nos órgãos de imprensa e na lógica das
igrejas e impregna sua ideologia. 
Capítulo 3
109
 Por fim, fazendo referência ao que diz respeito ao modelo de prevenção de
saúde proposto originalmente para elucidar a história natural da doença,
oferece três coeficientes de prevenção: primário, secundário e terciário. 
 No coeficiente primário, defendia a existência de um nível primário de
prevenção. É salutar ressaltar que nesse modelo o foco central é a prevenção
da doença. Portanto, essa concepção de prevenção da saúde versa, na
veracidade, a respeito da doença, e não propriamente da promoção de saúde
(VERDI; DA ROS; SOUZA, 2012). 
 Contudo, a principal diferença encontrada entre prevenção e promoção está
no olhar sobre o conceito de saúde; na prevenção, a saúde é vista
simplesmente como ausência de doenças, enquanto na promoção, a saúde é
enfrentada como um conceito positivo e multidimensional procedendo deste
modo, em um modelo participativo de saúde na promoção em oposição ao
modelo médico de intervenção (CZERESNIA, 1999 apud FREITAS, 2003).
1.1 OS MODELOS DE ATENÇÃO À SAÚDE NO
BRASIL: MODELO BIOMÉDICO E MODELO DE
DETERMINAÇÃO SOCIAL - MODELO SANITARISTA
 Neste subtópico, você vai ter o ensejo de estudar a respeito das concepções
de alguns modelos de atenção à saúde, conhecendo-os e compreendendo
seus objetivos e características, além de apreender a respeito de um breve
histórico da constituição destes. 
 Para pronunciarmos a respeito dos modelos de atenção à saúde brasileira é
importante discorrermos a priori sobre a concepção de medicina social que
teve origem no século XVIII, na Europa, em uma ampla metodologia de
rearticulação social da prática médica o qual Foucault designou de
“nascimento da medicina social”, indicando que o capitalismo socializou o
corpo como força de produção e de trabalho, e isso iria se estabelecer
através da medicina (MENEGHEL, 2004). 
 Assim, a medicina, em uma estratégia biopolítica, conquistaria, depois disso,
um lugar na sociedade como seu objeto de trabalho. A medicina não social,
individualista, clínica, essa não existe, no entanto foi uma fantasia pela qual
certa forma de prática “associal” de medicina – a prática privada – se
respaldou e se fundamentou (MENEGUEL, 2004).
Capítulo 3
110
 A medicina social pesquisa e estuda a dinâmica do processo saúde/doença,
a ligação com a estrutura organizacional de atenção médica e com o corpo
social, intencionando à obtenção de níveis robustos possíveis de saúde e
bem-estar. 
 Na Europa do século XVIII, a medicina social surgiu distinguindo-se em três
principais tendências: o sanitarismo inglês, focado na medicina da força de
trabalho; o urbanismo francês, empenhado com a salubridade das cidades; e
por fim, a polícia médica, essa se constituiu na Alemanha, delimitada por
uma imensa atenção com o controle sanitário. 
 O movimento da medicina social definia que a participação política é o
principal meio estratégico de mudança da realidade de saúde, na perspectiva
de que as revoluções populares garantissem justiça, igualdade e cidadania. 
 Na América Latina, o período transcorrido entre o final do século XIX até
1930, distingue-se pelas investigações no âmbito da higiene, patrocinadas
pelo Estado e elaboradas por institutos de pesquisa nos padrões europeus. A
chamada “revolução científica”, permeada pelas descobertas da
bacteriologia, disporia com que o foco causal se transportasse das condições
sociais para os microrganismos. 
 Desse modo, o ideal indicado era o de achar uma vacina para cada tipo de
agente infeccioso e executar medidas de controle das doenças sem uma
análise ou questionamento do ambiente socioeconômico e cultural. É como
se o retorno às explicações causais de cunho biológico em desfavor dos
pressupostos sociais das doenças acontecesse periodicamente.
 No momento atual, esse juízo impregna os estudos e pesquisas que trata de
vários agravos, podendo-se mostrar mais diretamente a intensa busca por
uma vacina para a AIDS, que possa controlar a doença sem pontuar questões
importantes que envolvem gênero, sexualidade e drogadição, entre outros. 
 Nos primórdios do século XX, coincidiu com a criação dos institutos de
medicina tropical e as campanhas contra determinadas doenças, o
saneamento dos portos, a revolta contra a vacina obrigatória. 
 Tivemos ainda as pesquisas fundamentadas na parasitologia e os
levantamentos entomológicos, independentemente do pensamento de
alguns sanitaristas do período, já se depara-se com o embrião do
pensamento ecológico, principalmente na obra de Samuel Pessoa, este
elaborou interessantes teorias a respeito dos nichos ecológicos de doenças
transmissíveis (MENEGHEL, 2004).
Capítulo 3
111
 Um aspecto a salientar é que a redução nos índices das doenças
transmissíveis na Europa foi atribuída aos feitos da medicina bacteriana.
Porém, mais tarde, foi evidenciado que tal fato deveu-se, na realidade, à
Revolução Vital,ou seja, à melhoria da qualidade de vida, e não aos atos
médicos propriamente ditos. 
 As esperanças em relação à medicina bacteriana caíram na década de 1930,
um momento crítico permeado pela crise ocasionada pelos elevados custos
da medicina científica sem diminuir os níveis das doenças. A morbidade e a
mortalidade, ocasionadas por doenças infecciosas e parasitárias,
transformaram para um cenário do qual os agravos crônico-degenerativos
tomaram maiores proporções, somados do acréscimo da expectativa de vida,
padrão qualificado de transição epidemiológica (MENEGHEL, 2004). 
 O novo modelo de justificativa para a saúde/doença, criado em 1930, nos
Estados Unidos, tentava racionalizar os altos custos da assistência médica.
Assim, estava inaugurada a medicina preventiva, respaldada na história
natural da doença e também nos pressupostos de prevenção à saúde. 
 A gênese das doenças encontrava-se em um período de pré-patogênese,
composto pela notável tríade de agentes e hospedeiros equilibrados em uma
balança, do qual fiel é o ambiente. Estudiosos e pesquisadores elaboraram
duras críticas ao modelo preventivista, especialmente no que toca à
superficialidade da proposta e à homogeneização dos fatores determinantes
da saúde/doença (MENEGHEL, 2004). 
 Na década de 1970, muitas propostas de ampliação de cobertura de
serviços de saúde e ainda de cuidados básicos em saúde foram
questionados. 
 A medicina social acompanhou de perto essas propostas, entretanto,
paralelamente, ela tenha se estabelecido em uma referência de contestação
ao pensamento hegemônico da saúde pública – reducionista e biologista.
Desse modo, a saúde coletiva só iria aflorar nos anos 1980, baseada na
interdisciplinaridade como facilitadora de um conhecimento vasto de saúde e
na multiprofissionalidade como uma maneira de enfrentar a diversidade
interna ao saber/fazer das práticas sanitárias (MENEGHEL, 2004).
112
 A saúde coletiva – estabelecida nos limites do biológico e do social – segue
pela frente a responsabilidade de pesquisar, compreender e interpretar as
questões determinantes da produção social das doenças e da organização
social dos serviços de saúde, quer no âmbito diacrônico quer no plano
sincrônico da história. A saúde coletiva, ao incorporar as ciências humanas
no campo da saúde, reorganiza as coordenadas deste campo, conduzindo
para seu interior as perspectivas simbólica, ética e política. 
 A atenção à saúde caracteriza a organização estratégica do sistema e das
práticas de saúde em explicação às necessidades da população. E manifesta-
se em políticas, programas e serviços de saúde consoante os princípios e as
diretrizes que compõem e estruturam o Sistema Único de Saúde (SUS). 
 O entendimento do termo atenção à saúde diz respeito tanto a processos
históricos, políticos e culturais que manifestam disputas por projetos no
campo da saúde e à própria visão de saúde sobre o objeto e os objetivos de
suas ações e serviços, significa como tem de ser as ações e os serviços de
saúde, como a quem se destinam, sobre o que incidem e a maneira como se
organizam para alcançar suas metas (MATTA; MOROSINI, s.d.). 
 Numa concepção histórica, o sentido de atenção almeja superar a clássica
oposição entre as dualidades: a assistência e a prevenção, entre indivíduo e
coletividade, que por longo tempo marcou as políticas de saúde no Brasil.
Sendo assim, refere-se à história ao corte entre as iniciativas de caráter
individual e curativo, que definem a assistência médica, e as iniciativas de
caráter coletivo e massivo, de finalidades preventivas, específicas da saúde
pública. 
 Essas duas formas aqui mencionadas de configurar e de ordenar as ações e
os serviços de saúde caracterizaram dois modelos diferenciados – o modelo
biomédico e o modelo campanhista/preventivista – estes marcaram,
mutuamente, a assistência médica e a saúde pública, expressões do setor
saúde brasileiro cuja separação, há muito instituída, ainda reflete um desafio
para a configuração da saúde em um sistema integrado. 
 O modelo biomédico, desenvolvido ainda o século XIX, relaciona doença à
lesão, limitando o processo saúde-doença a sua dimensão
anatomofisiológica, removendo as dimensões histórico-sociais, como a
cultura, a política e a economia e, em consequência disso, colocando seus
principais planejamentos interventivos no corpo doente.
Capítulo 3
Capítulo 3
113
Conceito
Você sabe que também existe o conceito de medicina
preventiva? E você sabe o que significa medicina preventiva? A
medicina preventiva é a especialidade médica focada em evitar
o desenvolvimento de doenças, reduzir o impacto das
enfermidades na saúde dos indivíduos e melhorar a qualidade
de vida de pacientes em tratamento. O conceito de medicina
preventiva surgiu em meados do século XX como um movimento
que propunha uma abordagem diferente da medicina. A ideia
básica era mudar o foco da prática médica, que até então se
concentrava exclusivamente no tratamento das doenças, para
uma visão mais voltada à promoção da saúde.
 Em contrapartida, desde o final do século XIX, o modelo preventivista
ampliou o paradigma microbiológico da doença para as populações,
definindo-se como um saber epidemiológico e sanitário, objetivando o
ordenamento, organização e à higienização dos espaços humanos. No Brasil,
tais modelos de atenção são possíveis ser compreendidos em relação às
condições socioeconômicas e políticas criadas nos vários períodos históricos
de organização da sociedade brasileira (MATTA; MOROSINI, s.d.). 
 Os autores ainda expressam que o modelo campanhista – motivado por
interesses agroexportadores no começo do século XX – fundamentou-se em
campanhas sanitárias no combate às epidemias de febre amarela, peste
bubônica e varíola, estabelecendo programas de vacinação obrigatória,
desinfecção dos espaços públicos e residências e demais ações de
medicalização do espaço urbano, que focaram, em sua maioria, nas camadas
mais empobrecidas da população. Esse modelo perdurou no cenário das
políticas de saúde brasileiras até o início da década de 1960 (MATTA;
MOROSINI, s.d.). 
 O modelo previdenciário-privatista surgiu na década de 1920 influenciado
pela medicina liberal, e seu objetivo era ofertar assistência médico-hospitalar
para os trabalhadores urbanos e industriais, na modalidade de seguro-
saúde/ previdência. 
Capítulo 3
114
 Sua ordenação é marcada pela lógica da assistência e da previdência social,
a princípio, limita-se a algumas corporações de trabalhadores e, em seguida,
unificando-se no Instituto Nacional de Assistência e Previdência Social – INPS
– em 1966, e vai ampliando-se gradualmente aos demais trabalhadores
formalmente inseridos na economia. 
 Esse modelo é conhecido também pela sua dimensão hospitalocêntrica,
pois, a partir da década de 1940, a rede hospitalar começou a receber um
volume robusto de investimentos, e a atenção à saúde foi se consolidando
sinônimo de assistência hospitalar. 
 Refere-se à maior manifestação na história do setor saúde brasileiro da
concepção médico-curativa, alicerçada no paradigma flexneriano, marcado
por uma concepção mecanicista do processo saúde-doença, pelo
reducionismo da causalidade aos agentes biológicos, focado na atenção
sobre a doença e o indivíduo. 
 Nessa perspectiva organizou o ensino, e o trabalho médico foi um dos
responsáveis pela fragmentação e hierarquização do desenvolvimento de
trabalho em saúde e pelo alastramento das especialidades médicas (MATTA;
MOROSINI, s.d.).
 Conforme os apontamentos dos autores, nesse mesmo processo, o modelo
campanhista da saúde pública, guiado pelas intervenções na coletividade e
nos espaços sociais, perde terreno e influencia o cenário político e o
orçamento público do setor saúde, que passa a preferir a assistência médico-
curativa, chegando a comprometer a prevenção e o controle das endemias
no território nacional (MATTA; MOROSINI, s.d.). 
Dica de Leitura 
Se você quiser conhecer mais sobre os assuntos abordados,
vamos deixar a indicação de alguns livros que se articulamcom o
assunto tratado neste subtópico: Manual de Saúde Pública - Este
livro é indicado para as áreas de Medicina, Nutrição, Enfermagem,
Fisioterapia, Psicologia, Odontologia, Farmácia, Medicina
Veterinária, Serviço Social, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional e
muitas outras ligadas à saúde. Possui um arcabouço teórico bem
aprofundado a respeito dos conceitos, teorias sobre a saúde
pública no Brasil. Referência: MAGALHÃES, Thereza Maria (coord.)
Manual de Saúde Pública. 2. ed. Salvador: Editora Sanar, 2019.
Políticas e sistema de saúde no Brasil - Um livro didático e de
referência que inclui os eixos de análise individual/coletivo,
clínico/epidemiológico e público/privado, além de congregar
autores com experiência na gestão de serviços e do próprio
sistema, nos três níveis da federação. A construção do SUS há
muito deixou de ser obra exclusiva de intelectuais capazes de ler
em língua estrangeira. Temos ‘construtores’ que leem na realidade
concreta dos serviços e da gestão, e que participam ativamente do
complexo processo de construção cotidiana da saúde. Referência:
GIOVANELLA, Lígia; ESCOREL, Sarah; LOBATO, Lenaura de
Vasconcelos Costa; NORONHA, José de Carvalho; CARVALHO,
Antônio Ivo de. Políticas e sistema de saúde no Brasil. SciELO -
Editora FIOCRUZ, 2012.
Capítulo 3
115
 Ao final da década de 1970, vários segmentos da sociedade civil – entre eles,
usuários e profissionais de saúde pública – aborrecidos com o sistema de
saúde brasileiro começaram um movimento de luta pela ‘atenção à saúde’
como um direito de todos e um dever do Estado. 
 Esse movimento ficou conhecido como Reforma Sanitária Brasileira e
resultou na instituição do SUS por meio da Constituição de 1988. 
 A Constituição de 1988 destinou alguns artigos específicos para tratar
especificamente a respeito da saúde, tamanha a necessidade de avalizá-la
enquanto direito inerente a todos os cidadãos.
 O texto constitucional apresenta a saúde delineando-a legalmente através
de princípios e diretrizes que necessitam ponderar as atividades do Estado e
da sociedade em prol da proteção social e integral da saúde enquanto direito
no Brasil. Nesse compasso, os legisladores brasileiros elaboraram normas
legais com vistas a proteger o direito à saúde no Brasil, expandindo
significativamente esse direito a todas as pessoas que dele necessitarem.
Capítulo 3
116
 Dentre os direcionamentos legais promovidos pela Constituição Federal de
1988, que protegem o Direito à Saúde, destacam-se os artigos 196 ao 200.
Tratando, assim, a saúde um dever do Estado, além de orientar legalmente a
necessidade dos estados, municípios e União de organizar os atendimentos
em saúde de maneira descentralizada e com a participação da população,
além de avultar sobre a necessidade de sistematizar esse atendimento em
forma de um sistema único. 
 O Estado em suas três esferas, precisa implementar políticas econômicas e
sociais com vistas à redução dos riscos de enfermidades e demais agravos, e,
sobretudo realizar ações de promoção do acesso universal e igualitário às
ações e serviços empreendidos pelo poder público em relação a saúde. 
 Com o reconhecimento legal da saúde sendo inserida no texto
constitucional, sendo considerada direito social fundamental, ela passa a
receber proteção jurídica e legal com vistas a assegurar esse direito a todos
os cidadãos, o que concerne em obrigar o poder público a fazer seu papel na
oferta de atendimento em saúde em todos os níveis de atenção, sempre de
acordo com as necessidades da população. 
 A Constituição Federal de 1988 representa o principal marco legal de
consolidação de direitos sociais no país, e do Estado democrático de Direito;
mormente, porque se delineou após o longo período de ausência de
democracia, de liberdade de expressão e direitos cassados e negados. 
 A Constituição Federal, ainda, pôs fim à lógica de atendimento à saúde,
atrelada à contribuição com a previdência social, passando assim a ser
universal e demarcou o início do atendimento em saúde nos motes de
sistema único, podemos assegurar que ela preconizou o Sistema Único de
Saúde – SUS – brasileiro. Posteriormente regulamentado pelas leis nº
8.080/90 e 8.142/90, chamadas Leis Orgânicas da Saúde.
 Em meio ao movimento de consolidação do SUS, a noção de atenção afirma-
se na tentativa de produzir uma síntese que expresse a complexidade e a
extensão da concepção ampliada de saúde que marcou o movimento pela
Reforma Sanitária: saúde é a resultado das condições de habitação,
alimentação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte,
emprego, lazer, liberdade, promoção e posse da terra e ascensão a serviços
de saúde (MATTA, MOROSINI, s.d.). 
Capítulo 3
117
 A partir dessa concepção ampliada do processo saúde-doença, a atenção à
saúde intenta conceber e organizar as políticas e as ações de saúde numa
perspectiva interdisciplinar, partindo da crítica em relação aos modelos
excludentes, seja o biomédico curativo ou o preventivista. No âmbito do SUS,
há três princípios fundamentais a serem considerados em relação à
organização da atenção à saúde, são eles: o princípio da universalidade, pelo
qual o SUS deve garantir o atendimento de toda a população brasileira; o
princípio da integralidade, pelo qual a assistência é apreendida como um
conjunto articulado e ininterrupto das ações e serviços preventivos e
curativos, singulares e coletivos; e o princípio da equidade, pelo qual esse
atendimento deve ser garantido de forma igualitária, porém, contemplando a
multiplicidade e a desigualdade das condições sociossanitárias da população
(BRASIL, 1990). 
 Em relação à universalidade, o desafio posto à organização da ‘atenção à
saúde’ é o de constituir um conjunto de ações e práticas que permitam
incorporar ou reincorporar parcelas da população historicamente apartadas
dos serviços de saúde. Da mesma forma, ao pautar-se pelo princípio da
integralidade, a organização da ‘atenção à saúde’ implica a produção de
serviços, ações e práticas de saúde que possam garantir, a toda a população,
o atendimento mais abrangente de suas necessidades. 
 Já em relação à equidade, a ‘atenção à saúde’ precisa orientar os serviços e
as ações de saúde segundo o respeito ao direito da população brasileira em
geral de ter as suas necessidades de saúde atendidas, considerando,
entretanto, as diferenças historicamente instituídas e que se expressam em
situações desiguais de saúde segundo as regiões do país, os estratos sociais,
etários, de gênero entre outros. 
Capítulo 3
118
Figura 3. Princípios Organizativos e Doutrinários do Sistema Único de Saúde Preconizados a partir
da Constituição Federal de 1988 
Fonte: A autora. 
#ParaTodosVerem: a imagem apresenta um esquema com dois blocos principais. O primeiro,
intitulado “Princípios Doutrinários”, está ligado a três retângulos que contêm as palavras
“universalidade”, “equidade” e “integralidade”. O segundo bloco, chamado “Princípios
Organizativos”, conecta-se a dois retângulos com os termos “regionalização, descentralização” e
“participação popular”.
Já os princípios organizativos têm as seguintes funções: 
Regionalização - ter serviços de saúde dentro dos territórios sem ter a
necessidade das pessoas se deslocarem para muito distante de sua
região; artigo 198 da CF/1988. 
Capítulo 3
119
Descentralização - responsabilização dos vários entes (municípios,
estados, DF e União) em fazer um sistema único de alcance e qualidade
para todos; está preconizado no artigo 198 da CF/1988.
Participação popular – tem os cidadãos participando das discussões e
debates sobre o atendimento em saúde, através dos conselhos
municipais de saúde, conferências entre outros, nos três níveis –
Municipal, Estadual e Federal.
 Premido, de um lado, pelas tensões geradas por essa pauta de princípios e,
de outro, pela convivência com os paradigmas do modelo assistencialista, o
SUS organizou o modelo de atenção à saúde de forma hierarquizada, em
níveis crescentes de complexidade. Segundo essa lógica, os serviços de saúde
são classificados nosníveis primário, secundário e terciário de atenção,
conforme o grau de complexidade tecnológica requerida aos procedimentos
realizados. 
 A imagem associada a essa hierarquização é a de uma pirâmide, em cuja
base se encontram os serviços de menor complexidade e maior frequência,
que funcionariam como a porta de entrada para o sistema. No meio da
pirâmide estão os serviços de complexidade média e alta, aos quais o acesso
se dá por encaminhamento e, finalmente, no topo estão os serviços de alta
complexidade, fortemente especializados.
 Essa tentativa de organizar e racionalizar o SUS, se, por um lado,
proporcionou um desenho e um fluxo para o sistema, por outro, reforçou a
sua fragmentação e subvalorizou a atenção primária como um lócus de
tecnologias simples, de baixa complexidade. 
 Em contraposição, o modelo de atenção pode constituir-se na resposta dos
gestores, serviços e profissionais de saúde para o desenvolvimento de
políticas e a organização dos serviços, das ações e do próprio trabalho em
saúde, de forma a atenderem às necessidades de saúde dos indivíduos, nas
suas singularidades, e dos grupos sociais, na sua relação com suas formas de
vida, suas especificidades culturais e políticas. 
 O modelo de atenção pode, enfim, buscar garantir a continuidade do
atendimento nos diversos momentos e contextos em que se objetiva a
atenção à saúde.
Capítulo 3
120
 Nesse sentido, existem também propostas de atenção dirigidas a grupos
específicos que podem ser descritas como políticas voltadas para atenção à
saúde por ciclo de vida – atenção à saúde do idoso, à criança e ao
adolescente, atenção à saúde do adulto; a portadores de doenças específicas
– atenção à hipertensão arterial, diabetes, hanseníase, DST/Aids, entre
outras; e relativas a questões de gênero – saúde da mulher e, mais
recentemente, saúde do homem. 
 Essas propostas podem vir associadas a estratégias de centralização política
e especialização técnica, historicamente concebidas como programas de
saúde que antagonizam com a lógica da integralidade, uma vez que
favorecem a fragmentação das políticas e das ações de saúde e buscam
uniformizar a intervenção por meio de protocolos técnico-científicos pouco
permeáveis às especificidades políticas, sociais e culturais. 
 Ao contrário, argumenta-se que a complexidade dos problemas de saúde
requer para o seu enfrentamento a utilização de múltiplos saberes e práticas.
Desse modo:
O sentido da mudança do foco dos serviços e ações de
saúde para as necessidades individuais e coletivas,
portanto para o cuidado, implica a produção de relações
de acolhimento, de vínculo e de responsabilização entre
os trabalhadores e a população, reforçando a
centralidade do trabalho da equipe multiprofissional
(EPSJV, 2005, p. 75). 
 Numa dimensão ético-política, isso significa afirmar que a ‘atenção à saúde’
se constrói a partir de uma perspectiva múltipla, interdisciplinar e, também,
participativa, na qual a intervenção sobre o processo saúde-doença é
resultado da interação e do protagonismo dos sujeitos envolvidos:
trabalhadores e usuários que produzem e conduzem as ações de saúde.
 É importante destacar que os modelos apresentados anteriormente são
formas de organização do sistema em diferentes períodos históricos no
Brasil. Atualmente, apesar do modelo preconizado ser a Atenção Básica em
Saúde, os demais modelos aqui estudados ainda estão presentes em formas
de organização de programas e nas práticas de atenção à saúde. 
 Para melhor síntese de compreensão sobre os modelos de atenção,
explicitamos no quadro os principais modelos do Estado brasileiro e suas
distintas características: 
SANITARISMO ASSISTENCIALISMO
MÉDICO
ATENÇÃO BÁSICA EM
SAÚDE
Características
organizacionais
Financiament
o público
estatal
Financiamento
misto (estado,
empregador)
Financiamento
público com repasse
e autonomia
municipal
Acesso
universal
Acesso à
população
definida
Acesso
progressivamente
universal (territorial)
Ações não
hospitalares
Ações
enfaticamente
hospitalares
Controle social
incipient
Ações
verticais sem
participação
social
Controle social
incipient
Participação popular
e controle social
Características
das práticas de
atenção à saúde
Proteção
social
focalizada e
seletiva
Proteção social
meritocrática
(acesso para quem
tem vínculo de
trabalho ou
pagamento direto
Proteção social
universal
Ações de
prevenção
Ações curativas
Orientado pela
integralidade
Capítulo 3
121
 
Quadro 2. Síntese dos Modelos de Atenção à Saúde no Estado Brasileiro 
Ações
programadas 
Atendimento à
demanda
Equilíbrio entre ações
programadas e
atendimento à
demanda espontânea
Ações sobre o
ambiente e
coletividade
Ações
individuais
Ações individuais e
coletivas centradas no
usuário/família/comun
idade
Práticas não
necessariamen
te médicas
Práticas
enfaticamente
médicas
Práticas
multiprofissionais
Processo
saúde-doença
na perspectiva
microbiológica
Processo
saúde-doença
na perspectiva
anatomoclínica
Processo saúde-doença
baseado nos
determinantes sociais
de saúde
122
Capítulo 3
Fonte: https://dms.ufpel.edu.br/sus/files/U02.html. Acesso em: 11 de maio de 2021
 Compreendemos que a saúde foi uma das áreas cujos avanços
constitucionais foram mais relevantes. O Sistema Único de Saúde – SUS –,
constituinte da Seguridade Social e uma das proposições do Projeto de
Reforma Sanitária, foi regulamentado, em 1990, pela Lei Orgânica da Saúde –
LOS. Ao analisar o SUS como uma estratégia, o Projeto de Reforma Sanitária
tem como base o Estado democrático de direito, encarregado das políticas
sociais e, consequentemente, da saúde (CFESS, 2010). 
 Ressalta-se como fundamentos desse plano a democratização do acesso; a
universalização das ações; a evolução da qualidade dos serviços, com a
implementação de um novo modelo assistencial centrado na integralidade e
equidade das ações; a democratização das informações e lisura no uso de
recursos, bens e ações do governo; a descentralização com controle social
democrático; a interdisciplinaridade nas ações. Possui como premissa básica
a defesa da saúde como direito de todos e dever do Estado (BRAVO, 1999;
BRAVO; MATOS, 2001).
Capítulo 3
123
 A proposta elementar da Reforma Sanitária é a defesa da universalização
das políticas sociais e a garantia dos direitos sociais. Nesse sentido, destaca-
se a concepção ampliada de saúde, definidas como melhores condições de
vida e de trabalho, com destaque nos determinantes sociais; a nova
organização do sistema de saúde através da construção do SUS, aliado aos
princípios da intersetorialidade, integralidade, descentralização,
universalização, participação social e também a redefinição dos papéis
institucionais das unidades políticas (União, Estado, municípios, territórios)
na prestação dos serviços de saúde; e efetivo financiamento do Estado. 
 Cabe destacar que no ano de 1989, nas eleições presidenciais, há uma
disputa entre dois projetos societários: Democracia de Massas X Democracia
Restrita (NETTO, 1990), erigidos no processo da relação Estado – Sociedade.
O projeto Democracia de Massas pressupõe a ampla participação social,
agregando as instituições parlamentares e os sistemas partidários através de
uma malha de organizações de base: sindicatos, comissões de empresas,
organizações de profissionais e de bairros, movimentos sociais urbanos e
rurais.
Figura 4. Avaliando a escalabilidade do negócio
Fonte: A autora.
#ParaTodosVerem:a imagem mostra duas engrenagens conectadas. A da esquerda contém a
expressão “democracia de massas” e a da direita apresenta “democracia restrita”. Acima de cada
engrenagem há uma seta curva indicando movimento, sugerindo a relação de interdependência
entre os dois conceitos.
Capítulo 3
124
 Esse projeto propõe associar a democracia representativa com a democracia
direta e concebe ao Estado democrático de direito a responsabilidade e o
dever de construir respostas às expressões da questão social. 
 O projeto Democracia Restrita restringe os direitos sociais e políticos com aconcepção de Estado mínimo, ou seja, máximo para o capital e mínimo para
o trabalho. O enxugamento do Estado é a grande meta, como também a
substituição das lutas coletivas por lutas corporativas. 
 Na década de 1990, em consequência das derrotas sofridas pelo projeto
Democracia de Massas, fortalece-se um rumo político das classes
dominantes no processo de enfrentamento da crise brasileira. Nessa
perspectiva, as principais estratégias do grande capital passam a ser:
fervorosa crítica às conquistas sociais da Constituição Federal de 1988, com
ênfase para a concepção de Seguridade Social, e a edificação de uma cultura
persuasiva para a transmissão e tornar seu projeto consensual e
compartilhado (MOTA, 1995). 
 É notável, nessa década, a afirmação das contrarreformas de forte caráter
neoliberal, apregoadas pelas agências internacionais. As propostas do grande
capital têm como vetores privilegiados, segundo Mota (1995), a defesa do
desenvolvimento de privatização e a constituição do cidadão consumidor. Na
defesa do processo de desenvolvimento de privatização, destaca-se a
mercantilização da Saúde e da Previdência e a ampliação do assistencialismo.
 As principais diretrizes são: a Reforma da Previdência anexada no bojo da
Reforma do Estado, que vem sendo instituída progressivamente e possui
características de uma contrarrevolução ou contrarreforma; a defesa do SUS
para os menos favorecidos e a refilantropização da assistência social, com
forte proliferação da ação do setor privado no âmbito das políticas sociais
(GUERRA, 1998). 
 A contrarreforma do Estado atingiu a saúde através das proposições de
contenção do financiamento público; da divisão entre ações curativas e
preventivas, rompendo com a concepção de integralidade por intermédio da
elaboração de dois subsistemas: o subsistema de entrada e controle. Ou seja,
de atendimento básico, de obrigação do setor estatal visto que esse
atendimento não é de preocupação do setor privado e o subsistema de
referência ambulatorial e especializada, composto por unidades de maior
complexidade que seriam transformadas em Organizações Sociais (CFESS,
2010). 
Capítulo 3
125
 A política pública de saúde tem encontrado notórias dificuldades para sua
efetivação, como a desigualdade de acesso da população aos serviços de
saúde, o desafio de construção de práticas baseadas na integralidade, os
dilemas para alcançar a equidade no financiamento do setor, os avanços e
recuos nas experiências de controle social, a falta de articulação entre os
movimentos sociais, entre outras. 
 Todas essas questões são exemplos de que a construção e consolidação dos
princípios da Reforma Sanitária permanecem como desafios fundamentais
na agenda contemporânea da política de saúde.
 É importante enfatizarmos que o projeto de reforma sanitária brasileira,
edificado a partir da metade dos anos de 1970, encontra-se sendo
intencionalmente deslegitimado e enfraquecido em suas ações e recursos,
para que assim possa perder sua notoriedade para o projeto voltado para o
mercado ou privatista, que encontrou base na lógica neoliberal a partir dos
anos 1990. 
 O projeto da saúde articulado ao mercado ou à reatualização do modelo
médico assistencial privatista está pautado na Política de Ajuste, que tem
como principais tendências: 
a contenção dos gastos com racionalização da oferta; 
a descentralização com isenção de responsabilidade do poder central. 
 A incumbência do Estado, nesse projeto, se traduz em garantir um mínimo
àqueles que não podem pagar, ficando para o setor privado o suporte aos
que têm acesso ao mercado, diante disso, suas propostas relevantes nesse
sentido são: caráter focalizado para assistir às populações em situação de
vulnerabilidade através do pacote básico para a saúde, expansão da
privatização, forte incentivo ao seguro privado, descentralização dos serviços
em âmbito local e eliminação da vinculação de fonte com relação ao
financiamento (CFESS, 2010).
 A universalidade do direito – um dos fundamentos centrais do SUS e contido
no projeto de Reforma Sanitária – é um dos aspectos que tem provocado
resistência dos formuladores do projeto privatista da saúde. 
 Os valores solidários, coletivos e universais que alicerçam a formulação da
Seguridade Social lavrada na Constituição de 1988 estão sendo trocados
pelos valores individualistas, corporativos, focalistas, que expande a
consolidação do projeto direcionado para o mercado, que possui por suporte
a consolidação do SUS para os vulneráveis e a segmentação do sistema
(CFESS, 2010).
Capítulo 3
126
 Nessa situação, várias entidades definidas até então no campo progressista
têm modificado suas lutas coletivas por lutas corporativas, limitadas a grupos
de interesses. Essa visão está de total acordo com o ideário das classes
dominantes que vislumbram como perspectiva a “americanização perversa”
da sociedade brasileira, enfraquecendo os processos de resistência com a
utilização de métodos e estratégias persuasivas, intimidando os
trabalhadores a uma prática política defensiva (VIANA, 1999). 
 Por fim, esse projeto coletivo, cuja construção iniciou-se nos anos de 1980,
tem sido questionado e substituído pelo projeto corporativo e privatista que
procura naturalizar a objetividade da ordem burguesa, considerando, assim,
a necessidade de a saúde ser um produto a ser comercializado a quem dela
precisar, procurando reforçar a lógica de seguro saúde no Brasil. 
 Contudo, cabe aos profissionais do âmbito da saúde pública brasileira
desenvolver estratégias cotidianas em seu exercício de trabalho para fazer
valer os preceitos constitucionais, bem como a materialidade dos princípios
balizadores da reforma sanitária que culminaram na constituição do SUS –
Sistema Único de Saúde.
127
22. HISTÓRICO DA SAÚDE
MENTAL NO TRABALHO
 Vamos iniciar o nosso estudo trazendo um pouco sobre a Saúde mental, um
conceito tão importante para nossa profissão. É preciso entendê-lo sozinho
para depois adentrar nas questões do trabalho.
Visto que, este conceito é utilizado em leis e políticas governamentais, 
em manuais, livros, artigos, meios de comunicação, entre outros.
 Como introduzido brevemente, um dos autores mais famosos da temática
refere-se a Michel Foucault e Canguilhem, que trazem oposição entre saúde e
doença e como essas categorias foram sendo constituídas discursivamente
em suas dimensões culturais, sociais, políticas e econômicas. 
Design regenerativo
Capítulo 3
128
Figura 5. Saúde Mental no Trabalho
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: a imagem mostra um homem sentado em frente a uma mesa de madeira. O
homem está vestindo uma camiseta branca e uma jaqueta verde e tem as duas mãos levantadas de
maneira expressiva. Na mesa, há papéis espalhados com gráficos de pizza visíveis impressos neles.
Um laptop cinza está aberto, posicionado para o lado esquerdo da imagem. Há fones de ouvido ao
lado do laptop na mesa. Um copo de café para viagem também está presente no lado direito da
mesa. Ao fundo, há uma janela que permite a entrada de luz natural e uma prateleira de metal com
vários itens, incluindo livros e plantas em vasos.
Nessa mesma lógica, Tavares et al. (2019) trazem que, para entender a
doença mental, é importante diferenciarmos o sofrimento psíquico não
patológico e o transtorno mental.
 O sofrimento psíquico não patológico se refere àquele comum, que todos os
seres humanos sentem em suas vidas, não é considerado uma pa- tologia,
mas também não se deve deixar de reconhecer quando precisa de
intervenção, caso evolua para um quadro de piora. Já o transtorno mental se
refere a uma variedade de condições que podem afetar o humor, o ra-
ciocínio e o comportamento. O registro mais antigo em relação às questões
biológicas de saúde e doença remonta ao século V a.C., feito por Hipócrates,
que era um médico grego considerado uma das figuras mais marcantes da
história da medicina. Ele tinha uma divisão bastante clara do processo de
saúde. Porém, trazia a ideia de que a saúde/doença estaria relacionada com
religião,e chamava de doença sagrada, em que a natureza seria de origem
biológica, baseada no equilíbrio entre quatro fluidos do corpo: bile amarela,
bile negra, fleuma e sangue.
Capítulo 3
129
 Mesmo com muita influência, a ideia de Hipócrates não impediu a
interferência religiosa sobre o cuidado em saúde. Na Idade Média europeia,
seguiu-se com a influência da religião cristã na concepção da doença como
resultado do pecado e a cura como questão de fé. Aqui, o cuidado de doen-
tes era entregue a ordens religiosas. Nesse mesmo sentido, trago a ideia de
saúde e o místico, reconhecido na cultura oriental.
Os chakras são caracterizados por movimentos de energia em rotação
que se dão em sete partes do corpo, em que a saúde acontece quando há
harmonia na energia dessas sete partes, enquanto a doença decorre do
seu desequilíbrio (Alcântara et al., 2022).
Figura 6. Hipócrates
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: a imagem mostra uma pequena estátua ou busto de Hipócrates, como
indicado pela inscrição na base. A estátua é detalhada, mostrando desenhos intrincados na túnica e
no cabelo de Hipócrates. É feita de um material branco, possivelmente mármore ou gesso. A base
da estátua tem uma inscrição que inclui texto em grego e em inglês indicando “Hipócrates 460-377
a.C.”.
Capítulo 3
130
Nesse período, ocorre o reconhecimento do pensamento científico,
surgindo, então, o hospital como um espaço terapêutico.
 Historicamente, foi no século XVIII que se marcou a captação do fenômeno
da loucura como objeto do saber médico, ou seja, a caracterizando como
doença mental.
 Porém, o modelo hospitalar necessitava da instauração de medidas
disciplinares que garantissem ordem, considerando uma separação do es-
paço físico, com vigilância constante e registro contínuo.
 Sendo assim, ocorre a institucionalização, que acabou por afastar cada vez
mais o indivíduo de suas relações exteriores, em que os “loucos” seriam
seres perigosos e inconvenientes. Foi apenas no fim da Segunda Guerra
Mundial, com a propagação de terapias psicológicas e a chegada dos
psicofármacos, que o isolamento do doente mental nas instituições foi visto
como um modelo de tratamento desumano e segregante (Alcântara et al.,
2022; Sampaio; Bispo Junior, 2021).
Figura 7. Hospital psiquiátrico
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: a imagem retrata o interior de um hospital psiquiátrico antigo. O corredor é
longo, com paredes de pedra desgastadas que mostram sinais visíveis de envelhecimento. Há por-
tas das celas em ambos os lados do corredor; as portas têm barras pesadas e fechaduras antigas.
Luzes penduradas estão alinhadas ao longo do teto do corredor, iluminando fracamente o espaço.
O final do corredor não está claramente visível.
Capítulo 3
131
Figura 8. Tratamentos psiquiátricos antigos
 O tratamento que se dava aos tratados como “loucos” coibia a liberdade e a
autonomia desses indivíduos, fazendo com que ficassem sob intenso
sofrimento. Foi a partir dessa compreensão que se deram os movimentos de
reforma psiquiátrica pelo mundo todo, especialmente nos seguintes paí- ses:
Itália, França, Inglaterra, Estados Unidos e Canadá, mas com tempos e
características diferentes. Foi apenas a partir de 1970 que países como a
Espanha e o Brasil também reformaram sua assistência psiquiátrica
(Sampaio; Bispo Junior, 2021; Alcântara et al., 2022).
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: imagem mostra duas pessoas, uma delas está deitada em uma cama ou maca,
vestindo roupas claras. A segunda pessoa, também vestida com roupas claras, está ao lado da
primeira e está prendendo as mãos da pessoa à maca.
 No ano de 1948, houve uma importante etapa referente à saúde no
mundo, pois a Organização Mundial da Saúde (OMS, 1946) formulou o
seguinte conceito:
Saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não
apenas a ausência de doença.
Capítulo 3
132
Essa concepção traz um novo olhar para a saúde, que passa a ser ba-
seado em um tripé: físico, biológico e psicológico. Nesse contexto, aquele
modelo curativo que se concentra no tratamento de doenças muda e se
passa a pensar na prevenção de doenças, na promoção da saúde e na rea-
bilitação. A mudança significa que vai além da reformulação do conceito e
também começa a se tornar inevitável a existência de saneamento básico,
acesso à alimentação saudável, políticas de imunização, acesso a lazer e
atividade física, educação em saúde, entre outros.
Embora o Ministério da Saúde não apresente uma definição própria de 
saúde ou saúde mental, a Constituição Federal de 1988 estabelece diretri-
zes fundamentais. No artigo 196, garante-se a universalidade da assistência
em saúde, declarando que a saúde é um direito de todos e um dever do
Estado. Isso é garantido por meio de políticas sociais e econômicas voltadas
para a redução do risco de doenças e outros agravos, bem como para o
acesso universal e igualitário a ações e serviços que promovam, protejam e
recuperem a saúde (Brasil, 1988).
 Como mencionado, essas novas concessões representam uma ruptura com
os modelos de saúde anteriores. Anteriormente, o acesso aos serviços de
saúde estava limitado aos trabalhadores com carteira assinada e seus
dependentes. No entanto, houve uma mudança que passou a garantir que
nenhuma forma de exclusão ocorresse, reconhecendo o papel do Estado em
fornecer assistência, promoção e educação em saúde. Isso inclui o aces- so a
uma alimentação equilibrada e acessível, a prática regular de ativida- des
físicas, fornecimento de saneamento básico, imunização, prevenção e outras
medidas (Paiva; Teixeira, 2014).
Capítulo 3
133
Figura 9. Promoção da saúde
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: imagem de duas mãos unidas, segurando um coração vermelho brilhante.
Uma das mãos está vestida com uma manga branca, a outra mão não possui nenhuma vesti-
menta identificável. Ao lado das mãos, há um estetoscópio preto enrolado e um caderno bege com
uma caneta em cima. No canto superior direito da imagem, é possível ver parte de um laptop cinza
escuro. A cena é iluminada por uma luz suave, realçando o coração vermelho dentro das mãos
unidas.
 Durante três anos consecutivos, entre 1986 e 1988, importantes marcos
foram estabelecidos na história brasileira, particularmente no campo da
saúde. Em 1986, ocorreu a VII Conferência Nacional de Saúde (CNS), se-
guida pela promulgação da Constituição em 1988, que consagrou a saúde
como um direito de cidadania e uma responsabilidade do Estado. Nesse
mesmo ano, foram promulgadas as leis 8.080/1990 e 8.142/1990, que regu-
lamentaram o Sistema Único de Saúde (SUS).
 No ano subsequente, em 1987, teve lugar a I Conferência Nacional de
Saúde Mental (CNSM), um evento crucial que reuniu diversos teóricos
importantes no campo da saúde mental, promovendo uma maior
visibilidade ao debate sobre saúde mental em diversos âmbitos sociais,
acadêmicos e políticos. Além disso, durante o II Congresso Nacional dos
Trabalhadores em Saúde Mental, foi estabelecido o Dia Nacional da Luta
Antimanicomial, celebrado em 18 de maio, e adotado o lema “Por uma
sociedade sem manicômios” (Paim et al., 2011; Brasil, 2005).
Capítulo 3
134
Importante 
Vale lembrar que a OMS (1946) traz em seus relatórios um
conceito de saúde mental entendido como “[…] um estado de
bem-estar no qual o indivíduo percebe as suas próprias
capacidades, pode lidar com as tensões normais da vida, pode
trabalhar de forma produtiva e frutífera e pode contribuir para a
sua comunidade”.
!
O conceito de saúde, conforme defendido pela OMS, abrange não
apenas a ausência de doenças, mas também o bem-estar físico, mental
e social.
Fonte: Freepik (2024).
#ParaTodosVerem: imagem de uma pessoa segurando um tablet com uma ilustração relaciona- da
à saúde mental. A ilustração inclui palavras como “saúde mental”, “discutir”, “resolver’ e “amor”,
junto com ícones representativos. Ao fundo, pessoas desfocadas estão sentadas em cadeiras.
Figura 10. Saúde mental
Capítulo 3
135
 Anteriormente, debatemos sobre o conceito de saúde na IdadeMédia, e
agora adentraremos nas questões contemporâneas. Atualmente, temos
uma concepção que defende a compreensão global dos fenômenos, de
forma integrativa. Sendo assim, incorpora diversas visões sobre a saúde e
concretiza o conceito de saúde proposto pela OMS.
Uma das críticas a esse modelo se refere ao fato de que o conceito é
idealizado e utópico, alegando que o completo bem-estar físico,
mental e social é inatingível a qualquer ser humano.
 Ou seja, os críticos argumentam que, se pensássemos de forma literal,
ninguém seria considerado saudável. Além disso, esse conceito estimula que o
Estado seja excessivamente paternalista e intervencionista, podendo assumir
posturas autoritárias justificadas pela busca do completo bem-estar social
(Scliar, 2007).
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: imagem mostra cinco profissionais de saúde, com as mãos empilhadas em um
gesto de união e trabalho em equipe. Eles usam jalecos ou uniformes associados à área da saúde, e
o ambiente é ao ar livre, com um edifício moderno ao fundo. 
Figura 11. Saúde integrativa
Capítulo 3
136
O ser humano é considerado um ser social, responsável pelas transformações
que ocorrem na sociedade.
O conceito de bem-estar social varia entre culturas e indivíduos, pois
diferentes percepções influenciam o que é considerado como promotor
desse bem-estar.
 Mesmo nos dias de hoje, existem comportamentos que divergem das
“normas culturais” e são rotulados como doenças mentais. Portanto, é
importante evitar a adoção da compreensão puramente biológica da saúde
como o único modelo correto ou absoluto, considerando que essa
abordagem resultou em décadas de predominância do modelo biomédico,
centrado no hospital, focado na cura e na especialização.
 Sendo assim, podemos dizer que é na vivência diária que cada sujeito 
constrói suas percepções e conhecimentos do seu entorno, em um processo
social que ocorre dentro de um contexto cercado por crenças, valores e
interpretações que interagem. Ou seja, o indivíduo se reconhece no outro na
medida em que transforma e é transformado. É por meio do trabalho que se
pode compreender a concepção de autorrealização humana, pois é uma
atividade de suma importância para o desenvolvimento da sociedade e do
processo de criação individual.
Sendo assim, a relação do sujeito com o trabalho contribui para a
construção de identidade e para o processo subjetivo:
“
O cotidiano ajuda na constituição da identidade individual e social. É
a partir de trocas materiais e afetivas que o sujeito constitui sua
singularidade em meio às diferenças. O espaço do trabalho é um
campo importante para essas trocas, aparecendo como um
mediador do desenvolvimento, da constituição e da
complementação da identidade e da construção da vida psíquica.
(Lancman, 2008)
Capítulo 3
137
Figura 12. Mulher trabalhando
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: a imagem mostra uma mulher segurando um telefone e olhando para um
laptop. Há uma xícara de café em um pires à esquerda do laptop. Papéis são visíveis sob a mão
direita da mulher, que está descansando os braços acima de papeis abaixo do teclado do laptop. Ao
fundo, há divisórias de vidro e outra mesa. 
 Vamos explorar agora a história da saúde mental no ambiente de trabalho.
As investigações sobre esse tema começaram nos anos 1950 com estudos
realizados por Lê Guillant (1954 apud Girotto; Diehl, 2016) e Sivadon (1952;
1957 apud Girotto; Diehl, 2016), que examinavam as possíveis doenças
mentais causadas pelo trabalho. Em 1980, Christophe Dejours, um
psiquiatra, introduziu uma nova teoria que explorava a relação entre o
trabalho e o sofrimento psicológico. Essas pesquisas, voltadas a identificar
doenças mentais entre os trabalhadores, não encontraram casos clássicos
de doenças mentais, mas sim um enfraquecimento que predisponha ao
surgimento de tais doenças. Esse novo modelo teórico foi denominado
“Psicodinâmica do Trabalho”, cujos detalhes serão abordados
posteriormente (Girotto; Diehl, 2016).
Capítulo 3
138
No Brasil, apenas na segunda metade do século XIX é que surge alguma
atenção para a saúde dos trabalhadores, devido à restrição do uso de
escravos negros.
Figura 13. Saúde mental no trabalho
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: a imagem apresenta uma mulher sentada em uma cadeira em um ambiente
que parece ser seu local de trabalho. Seus cabelos estão presos e ela está com os braços esticados,
alongando-os. 
 Para encerrar este assunto, vale mencionar Dejours (1992), que delineia a
“História da Saúde dos Trabalhadores” ao longo das lutas e mudanças nas
condições de trabalho. Ele divide essa história em três fases: a discussão
inicial sobre a Psicopatologia do Trabalho, a proposição da Psicodinâmica do
Trabalho e, por fim, a emergência da Clínica das Patologias Sociais.
 Na primeira fase, Dejours, sob o título “Século XIX e a luta pela
sobrevivência”, aborda o período que antecede a Primeira Guerra
Mundial. Ele destaca aspectos como a hostilidade do ambiente de
trabalho, as longas horas laborais, a participação de crianças e os
frequentes acidentes com alta taxa de mortalidade entre os
trabalhadores. Nessa época, a preocupação principal não era com a
saúde, mas sim com a sobrevivência.
Capítulo 3
139
 Esse período foi marcado pela escassez de alimentos e moradia, resultando
em uma alta taxa de mortalidade devido a doenças. Com o advento das
indústrias e fazendas, o sistema escravista foi gradualmente substituído pelo
trabalho assalariado.
 Mesmo após a promulgação da Constituição de 1891, o Estado não
interveio nas relações trabalhistas, que eram regidas pelo Código Penal.
Desde a Primeira Guerra Mundial até 1968, houve movimentos
organizados pelos trabalhadores na Europa, demandando inspeções
médicas nas fábricas, o que levou ao reconhecimento de algumas doenças
profissionais e à implementação de compensações por elas.
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: imagem de um malhete de madeira polida repousando sobre sua base
circular, também de madeira, em uma superfície de madeira escura e texturizada. Ao lado do
malhete, há um livro azul escuro com capa rígida fechado e algemas prateadas parcialmente
visíveis repousando sobre ele. 
Figura 14. Código penal
Capítulo 3
140
 Em 1919, foi fundada a Organização Internacional do Trabalho (OIT), uma
resposta humanitária e política às consequências humanas da Revolução
Industrial, visando estabelecer leis internacionais para a proteção dos
trabalhadores. No mesmo período, no Brasil, foram promulgadas as 
primeiras leis sobre Acidentes de Trabalho e a Previdência Social, conhecida
como Lei Eloy Chaves. Esta última foi instituída em 24 de janeiro de 1923
(Decreto nº 4.682/1923) e estabeleceu as bases do sistema previdenciário
brasileiro, incluindo a criação da Caixa de Aposentadorias e Pensões para os
funcionários das empresas ferroviárias.
 Podemos observar que o sistema de saúde no Brasil inicialmente se
concentrou na prestação de assistência aos trabalhadores urbanos. Somente
em 1943 foi promulgada a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que
abordava questões relacionadas à organização sindical, previdência social e
proteção ao trabalhador, além da instauração da justiça do trabalho. No
entanto, foi apenas em 1978 que a CLT, em seu Capítulo V, introduziu as
Normas Regulamentadoras de Segurança e Medicina do Trabalho.
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: a imagem mostra duas mulheres sentadas à mesa, assinando um documento.
Na mesa, há três livros de capas vermelhas empilhados, um martelo de juiz e uma calculadora. 
Figura 15. Leis trabalhistas
Capítulo 3
141
 Após o período posterior a 1968, designado por Dejours (1992) como o
Terceiro Período, houve um avanço na discussão em torno da saúde física.
Passou-se a considerar também as condições e a organização do trabalho.
Foi somente por volta de 1970 que começou a surgir, ainda que
gradualmente, uma preocupação em relação às condições psicológicas do
trabalho menos qualificado e seus impactos na saúde. Nesse contexto,
surgiramentre a natureza do
organismo e suas funções" (Romero et al., 2011).
15
Capítulo 1
 Segundo ele, as causas de doenças podiam ser de cunho interno, ou seja,
inerentes ao próprio indivíduo, ou externo, causadas pelos excessos
cometidos pelo paciente (alimentar, sexual ou de exercício físico), bem como
podiam decorrer da combinação de ambos (Barros, 2002; Romero et al.,
2011)."
 Ele preconizava ainda que o diagnóstico devia ser realizado com base em
análise cuidadosa do enfermo, avaliando fatores inerentes à sua vida pessoal,
personalidade, alimentação e fatores externos como a época do ano (Barros,
2002). Conforme revisado por Romero et al. (2011, on-line, traduzido pelo
autor):
Galeno recomendou conhecer a todos os enfermos em estado de
saúde em relação a constituição, calor natural, pulso, ânimo, sexo,
ambiente físico em que ele vive entre outros, como dados clínicos
fundamentais para determinar alterações produzidas pela
enfermidade.
 Galeno demonstrava, já nesta época, uma visão integrada da enfermidade,
uma prática a frente de seu tempo e pouco comum para aquela época.
 Outro grande pensador desta era foi Paracelso, e é tido como uma transição
entre a escola Galênica e o modelo biomédico (Barros, 2002). Paracelso tinha
uma visão mística do que era a medicina na época, porém mais próxima do
conhecimento atual que seus predecessores. Ligado a conhecimentos de
medicina e também de magia e misticismo, Paracelso criticava as práticas
médicas de sua época, bem como a formação médica daquele tempo
(Finkielman, 2008).
 Por seu êxito em curar, Paracelso foi convidado a lecionar, e não tardou em
expor sua opinião:
na classe inaugural, em 1527, frente a uma multidão de docentes e
alunos, iniciou uma dissertação que começava assim: 'Os cordões
de meus sapatos possuem mais sabedoria que Galeno e Avicena
juntos, e os pelos de minha barba tem mais experiência que toda a
academia [...]'. (Finkielman, 2008, traduzido pelo autor)
 Viajava muito, não por lazer, mas com o objetivo de complementar sua
formação médica que julgava falha e fraca. Em suas viagens, interagia com
curandeiros, ciganos, cartomantes e várias outras classes de pessoas que
julgara potenciais contribuidores para sua formação.
16
Capítulo 1
Na determinação da doença, Paracelso identificava influências
cósmicas e telúricas além de substâncias tóxicas e venenosas, bem
como da predisposição do próprio organismo e das motivações
psíquicas. A doença também se explicava em virtude de reações
inadequadas dos elementos constitutivos do mundo (excesso de
um ou de mais de um deles). (Barros, 2002, p. 71)"
 Ademais de seu lado excêntrico, sua contribuição é marcada por sua
oposição às visões de saúde-doença de seus predecessores Hipócrates e
Galeno, sendo um dos pioneiros na utilização de medicamentos químicos no
tratamento de enfermidades (Barros, 2002).
 Foi um dos primeiros a utilizar o mercúrio no tratamento da sífilis,
descrevendo o efeito diurético deste medicamento; fez, ainda, observações
sobre a presença de cristais e albumina na urina de pacientes diabéticos. Foi
também responsável por descrever a doença chamada Silicose dos mineiros,
que é uma enfermidade pulmonar que leva a perda da capacidade
respiratória, além de advertir sobre o nascimento de crianças com cretinismo
provindas de pais com bócio (Finkielman, 2008).
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: a imagem retrata uma mulher em um ambiente médico, examinando uma
imagem de raio-X do tronco humano exibida em um monitor. A mulher veste um jaleco branco, o
raio-X mostra o tronco humano com contornos claros da caixa torácica, coluna vertebral e pelve, os
ossos estão destacados em branco contra um fundo escuro. 
Figura 2. Saúde e doença
17
Capítulo 122. O MODELO BIOMÉDICO DE
SAÚDE E DOENÇA
 No contexto histórico do renascimento, nasce o modelo biomédico de saúde.
Com ele, a concepção puramente física do mundo foi também transposta aos
seres vivos. Gerou-se uma perspectiva reducionista, na qual os seres humanos
são estudados parte a parte em separado, de modo que cada uma deve ser
avaliada em relação à sua conformação específica e respectivas funções,
visando o entendimento da doença (Barros, 2002; Albuquerque, Oliveira,
2002).
 A doença, nesta interpretação, é vista por uma perspectiva mecanicista,
como o desequilíbrio em uma destas partes individualizadas e que deve ser
consertada.
 O corpo humano era visto como um complexo sistema onde todas as partes
se organizam de maneira ordenada e seguindo um processo lógico. Isso
reflete o modelo biomédico de saúde e doença.
 Grandes personalidades que contribuíram direta ou indiretamente para o
modelo biomédico foram William Harvey e Edward Jenner pela descoberta da
circulação sanguínea e da primeira vacina respectivamente, assim como Louis
Pasteur e Robert Koch por sua essencial participação na era bacteriológica
(Barros, 2002).
 René Descartes também apresentou grande contribuição para este modelo
por meio de seus postulados que orientaram o estabelecimento de métodos
para o estudo das doenças e que orientam a investigação até os dias atuais
(Barros, 2002).
 É inegável que o modelo biomédico de saúde tem promovido avanços nos
campos de diagnóstico, tratamento e investigação que são consideráveis e em
muito ajudam a sociedade, fato este que se refere no aumento continuado de
nossa expectativa de vida.
Capítulo 1
 Planilhas, fluxogramas e protocolos são elaborados todos os dias por
profissionais de saúde e para profissionais de saúde, numa tentativa de que
se padronizem seus meios e seus métodos para a promoção da saúde,
visando a manutenção da idoneidade que tem o sistema de saúde.
18
 Em relação aos tempos de Florence Nightingale (1820 - 1910), onde não se
tinham devidos cuidados, hoje os temos em proporção adequada às maiores
demandas da sociedade, de maneira que doenças como gripes e diarreias não
nos representam mais riscos de morte. Em linhas gerais, este modelo permitiu
grande avanço no entendimento das doenças colocando-as no centro de
atenção dos estudos e permitiu, também, grandes avanços na área da
investigação de enfermidades.
 Por outro lado, a assistência à saúde, em especial os hospitais, tem se
tornado um meio tecnicista de tentativa de promoção do bem-estar.
Paralelamente ao avanço e sofisticação da biomedicina foi sendo
detectada sua impossibilidade de oferecer respostas conclusivas
ou satisfatórias para muitos problemas ou, sobretudo, para os
componentes psicológicos ou subjetivos que acompanham, em
grau maior ou menor, qualquer doença. (Barros, 2002, p. 79)
Saiba Mais 
O modelo biomédico, apesar de contribuir com incontestáveis
avanços para a medicina, tem sido fortemente criticado por
sua visão reducionista e seccionadora do sujeito no processo
saúde-doença. Deste modo, reflete-se, e se convida a uma
reflexão, de maneiras que este modelo possa ser trabalhado
para gerar uma metodologia de trabalho mais integral do ser
humano nos seus aspectos físico, mental, espiritual e social,
conforme nos coloca a OMS em seu conceito de saúde.
 Esforça-se muito para se ostentar a imagem de um sistema assertivamente
correto com profissionais que nunca falham, imputando-se essa cobrança aos
assistentes de saúde (Barros, 2002).
A própria morte, termo inevitável da vida, passou a ser vista como
um reflexo da incapacidade do médico ou dos sistemas
responsáveis pela manutenção da vida. (Barros, 2002, p. 80)
 Continuando este raciocínio, vemos que:
Capítulo 1
19
[...] o modelo biomédico estimula os médicos a aderir a um
comportamento extremamente cartesiano na separação entre o
observador e o objeto observado. (Barros, 2002, p. 79)
 A visão engessada do paciente enquanto um ser terceiro e a visão de doença
compartimentalizada tem, em muito, deteriorado a assistência em saúde. Isso
se dá por meio da erosão mental de nossos trabalhadores, no campo da
execução das técnicas e no campo emocional dos próprios prestadores
(Carlotto, 2011; Albadarejo et al., 2004).
 Conforme colocado por Barros (2002,os estudos da Psicodinâmica do Trabalho. O foco desses estudos
se voltou para a preservação da normalidade diante das adversidades
enfrentadas no dia a dia laboral. 
A partir de 1980, no Brasil, com a promulgação da Constituição Federal
de 1988, ficou estabelecido o dever do Estado de garantir a saúde da
população.
Importante 
Esses estudos aprofundaram a compreensão da relação entre a
construção da subjetividade e o trabalho. Por fim, as Patologias
Sociais são o resultado dos conflitos vivenciados pelos trabalha-
dores em seus ambientes laborais. Essas patologias também são
resultado das dificuldades extremas em lidar com as demandas
impostas pelo trabalho contemporâneo, conciliando as
adversidades e o sofrimento resultante delas.
 Conforme o Artigo 196, a saúde do trabalhador e o ambiente de trabalho
são abordados no capítulo do direito à saúde. Além disso, o Artigo 200
descreve as competências do Sistema Único de Saúde (SUS), que ganhou
forma com a aprovação da Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080), em 1990.
Em 2002, foi criada a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do
Trabalhador (RENAST) como uma iniciativa externa específica para a
saúde do trabalhador, estabelecendo diretrizes e estratégias.
 Atualmente, temos a Política Nacional da Saúde do Trabalhador e da
Trabalhadora, conforme a Portaria nº 1.823, de 23 de agosto de 2012. Os
estudos de Dejours e a Psicodinâmica do Trabalho foram amplamente
difundidos e adotados por pesquisadores e profissionais envolvidos com o
tema e a prática da saúde do trabalhador.
!
Capítulo 3
142
3 3. O CAMPO TEÓRICO DA
SAÚDE E TRABALHO
O cotidiano ajuda na constituição da identidade individual e social. É a 
partir de trocas materiais e afetivas que o sujeito constitui sua
singularidade em meio às diferenças. O espaço do trabalho é um
campo importante para essas trocas, aparecendo como um mediador
do desenvolvimento, da constituição e da complementação da
identidade e da construção da vida psíquica. (Lancman, 2008)
 Conforme o Artigo 196, a saúde do trabalhador e o ambiente de trabalho
são abordados no capítulo do direito à saúde. Além disso, o Artigo 200
descreve as competências do Sistema Único de Saúde (SUS), que ganhou
forma com a aprovação da Lei Orgânica da Saúde (Lei nº 8.080), em 1990.
Em 2002, foi criada a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do
Trabalhador (RENAST) como uma iniciativa externa específica para a saúde
do trabalhador, estabelecendo diretrizes e estratégias.
Segundo Penido e Perone (2013, p. 23):
 Uma curiosidade interessante de trazer se refere ao termo Trabalho, que
deriva do latim Tripalium ou tripalus, que na antiguidade era um
instrumento de três pontas de ferro utilizado para a ceifa dos cereais, em
que a ferramenta imobilizava cavalos e bois para serem ferrados. Esse
termo também era o nome de um instrumento de tortura, que era utilizado
contra os escravos e também presos, foi a partir disso que se originou o
verbo tripaliare, cujo primeiro significado era “torturar”. Nos tempos atuais,
o trabalho tem um duplo significado: prazer e sofrimento (Ribeiro; Léda,
2004). 
Capítulo 3
143
Conceito
A saúde mental abrange o indivíduo em sua totalidade
biopsicossocial, incluindo seu contexto social e estágio de
desenvolvimento. É um equilíbrio dinâmico resultado da interação
com seus diversos ecossistemas, que englobam tanto seu ambiente
interno quanto externo, suas características orgânicas e suas
questões pessoais e familiares.
 O trabalho não pode ser considerado como natural ou a-histórico.
O trabalho é tomado de subjetividade e inserido no contexto econômico,
político e social, , com inúmeras diversidades, fazendo com que os indivíduos
tenham vivências diferentes sobre o mesmo assunto.
 Na contemporaneidade, sabe-se que há visões contrárias de pessoas que
convivem até mesmo nos mesmos espaços de trabalho. Há dois principais
modelos que explicam as relações entre saúde mental e trabalho: a
psicopatologia do trabalho – intitulada por psicodinâmica do trabalho a
partir dos estudos de Dejours – e os estudos que envolvem a relação entre
estresse e trabalho (Ribeiro; Léda, 2004; Glina et al., 2001).
Figura 16. Ambiente de trabalho
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: imagem de três pessoas em um ambiente de escritório. As pessoas estão
rodeadas por mesas brancas repletas de pilhas de documentos, laptops e outros itens de escritório.
Uma pessoa está sentada, parecendo estar revisando os documentos, enquanto outra está em pé,
manuseando papéis. A terceira pessoa está sentada em frente a um computador.
Capítulo 3
144
O ambiente de trabalho atualmente se tornou bastante competitivo e passou
a exigir dos indivíduos mais receptividade, adaptabilidade e envolvimento
individual. 
 Podemos pensar que há até certo “descartar” humano dentro de algumas
organizações, em que a ideia de hierarquia acaba por naturalizar uma
super concorrência, fazendo com que se instiguem os sentimentos de
insegurança, bem como se alimentam as frustrações e as angústias em
torno do emprego, pois em qualquer momento poderá se transformar em
desemprego.
Figura 17. Competitividade no trabalho
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: imagem de um ambiente de escritório com duas pessoas. A primeira pessoa
está sentada à mesa, concentrada em escrever em um caderno aberto com uma caneta. Há um
laptop preto e uma xícara de café branca na mesa. A segunda pessoa está em pé ao lado da
mesa, apontando para a pessoa sentada. O fundo é uma parede cinza escura com um relógio
pendurado e prateleiras contendo vários objetos.
Capítulo 3
145
 Estudiosos do assunto afirmam que se espera que o trabalhador seja útil e
produtivo. Mesmo havendo uma certa preocupação com a saúde mental
dos indivíduos, há também um desejo implícito de intensificar o trabalho e
o rendimento organizacional. Nesse sentido, o local de trabalho se torna
uma fonte de sofrimento psicológico, aumentando os casos de afastamento
do trabalho por psicopatologias.
 Três décadas após a criação do SUS, o Brasil ainda tem pouco a comemorar
em relação à saúde do trabalhador. Segundo dados da Organização
Internacional do Trabalho, em 2013, o Brasil foi o quarto país com o maior
número de acidentes de trabalho, com cerca de 700 mil ocorrências.
De acordo com os dados da Previdência Social, no Brasil, a terceira causa de
afastamento entre os trabalhadores são os transtornos mentais, responsáveis
por mais de 12% da incapacitação decorrente de doenças.
 Entre as causas de incapacitação, encontram-se os transtornos
psiquiátricos. A depressão é a mais prevalente, com 13%, seguida pelo
alcoolismo, com 7,1%, esquizofrenia, com 4%, transtorno bipolar, com 3,3%,
e, por último, o transtorno obsessivo-compulsivo, com 2,8%. Esse aumento
levou a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a OMS a enfatizarem
a importância dos fatores psicossociais e sua influência no estabelecimento
do estresse relacionado ao trabalho (WHO, 2008).
Saiba Mais 
A Política Nacional de Segurança e Saúde do Trabalhador
destaca a importância da cooperação entre os Ministérios do
Trabalho, da Previdência Social e da Saúde para promover uma
melhor qualidade de vida e o bem-estar pessoal e social dos
trabalhadores, sem comprometer sua saúde física e mental
(Brasil, 2005).
Capítulo 3
146
Figura 18. Doença ocupacional
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: a imagem mostra dois homens em um ambiente com uma parede de tijolos e
prateleiras ao fundo. Um dos homens está vestido com um jaleco e um estetoscópio ao redor do
pescoço, e está segurando uma prancheta com papéis anexados. O outro homem está sentado ao
lado dele e tem ambas as mãos colocadas na cabeça. 
 No entanto, o Brasil enfrenta um alto índice de afastamentos do trabalho
devido a doenças mentais. As doenças listadas no Capítulo V da
Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde
(CID 10) foram a terceira causa mais comum de concessão de benefícios de
auxílio-doença por incapacidade no trabalho em 2010 (Brasil, 2012). Maisde 201 mil novos benefícios foram concedidos naquele ano, com cerca de
6% considerados acidentários, o que significa que a perícia do INSS
reconheceu que o adoecimento do trabalhador estava relacionado à
exposição a fatores presentes no ambiente de trabalho. 
Capítulo 3
147
 No Brasil, a Política Nacional de Promoção da Saúde propõe intervenções
em três áreas principais: modos de vida, condições e relações de trabalho, e
questões ambientais. Isso inclui alimentação, atividade física, lazer, redução
de riscos, melhoria dos ambientes laborais, redução de doenças
ocupacionais e acidentes de trabalho, humanização dos serviços de saúde,
violência, redução da morbimortalidade por causas externas, saneamento,
qualidade da água e saúde nas escolas. Portanto, essa política estabelece
uma conexão direta entre as práticas de promoção da saúde e as condições
de trabalho. Podemos afirmar que a Saúde do Trabalhador no Brasil é um
campo de práticas e conhecimento baseado nos princípios da Saúde
Coletiva.
Importante 
A saúde do trabalhador busca compreender e intervir nas
relações entre trabalho e saúde-doença, tendo como foco
principal a inclusão de um novo ator social, a classe operária
industrial, em meio a profundas transformações políticas,
econômicas e sociais na sociedade. O campo da saúde do
trabalhador é delineado por três principais elementos: a
produção acadêmica, a implementação de programas de saúde
pública e a mobilização do movimento dos trabalhadores
(Lacaz, 2007).
!
 Todos os dias, a sociedade enfrenta dificuldades e desafios para
compreender e controlar os riscos que vêm do trabalho, que é complexo.
As novas formas de produção, apoiadas em tecnologias de informação,
aceleram o ritmo do trabalho, tornando-o mais exigente. Nesse sentido, o
cuidado com a força de trabalho se torna importante para as organizações
e para a própria sociedade, o que torna o debate e os estudos sobre a
saúde mental dentro das organizações extremamente importantes.
Vídeo 
Assista ao vídeo Saúde Mental no Trabalho, parte
da Série Profissional do Futuro, em que o professor
Leandro Karnal aborda a importância da saúde
mental na rotina de trabalho. Ele apresenta o tema
de maneira prática e acessível, discutindo doenças
mentais e como são percebidas pela sociedade,
inclusive em relação à pandemia.
Acesse o QR Code ao lado para assistir.
Capítulo 3
148
 O trabalho, um dos elementos importantes da vida social que contribuem
para uma vida digna e de qualidade, tem um grande impacto no cotidiano
do ser humano. Como já mencionado, passamos uma grande parte da vida
no ambiente laboral.
O trabalho influencia comportamentos e oferece condições de risco que
podem afetar o processo saúde-doença.
 Atualmente, a qualidade de vida no trabalho tem sido uma preocupação
para as empresas. Se uma empresa não oferece boas condições aos seus
trabalhadores, terá funcionários desmotivados e sofrerá mais prejuízos.
Fonte: Envato (2024). 
#ParaTodosVerem: a imagem retrata um ambiente de escritório moderno e bem iluminado. Uma
mulher no primeiro plano está focada e sorridente em seu laptop, enquanto outras pessoas podem
ser vistas ao fundo, também trabalhando em laptops ou documentos.
Figura 19. Trabalhadora Sorrindo
Capítulo 3
149
 A promoção da saúde no ambiente de trabalho é crucial, pois contribui
para a melhoria tanto do ambiente físico quanto do psicossocial, trazendo
benefícios para a saúde e promovendo o desenvolvimento de valores e
estilos de vida saudáveis. Isso resulta em um ambiente de trabalho mais
saudável, que, por sua vez, aumenta o bem-estar geral dos trabalhadores. 
 Podemos afirmar que a promoção da saúde ocorre por meio da integração
entre o indivíduo e o coletivo, o setor público e o privado, o Estado e a
sociedade, entre outros aspectos, com o objetivo de reduzir a
vulnerabilidade, os riscos e os danos à saúde. Isso culmina na formação de
redes de comprometimento e corresponsabilidade pela qualidade de vida
da população, em que todos participam do processo de proteção e cuidado
com a vida (Brasil, 2005; Sicoli; Nascimento, 2003). 
4
 Compreender e estabelecer vínculos entre os aspectos psicossociais do
trabalho e os fatores estressantes que podem levar ao surgimento de
doenças é uma tarefa desafiadora, devido à complexidade dessa relação.
Considere, por exemplo, o sofrimento psíquico. A experiência negativa no
ambiente de trabalho é muitas vezes difícil de quantificar, o que complica a
identificação da conexão entre o processo de adoecimento e as condições
laborais. 
 Muitas vezes, o próprio trabalhador doente não consegue reconhecer esse
sofrimento como de natureza mental. Quando o faz, pode enfrentar
dificuldades para obter a ajuda necessária. Frequentemente, a atenção é
direcionada à questão apenas quando o trabalhador é diagnosticado com
alguma patologia que requer tratamento especializado e afastamento do
trabalho.
150
4. AS ABORDAGENS DO DESGASTE:
DA PSICODINÂMICA DO TRABALHO;
DO ESTRESSE OCUPACIONAL; DA
ERGONOMIA; DO MODO DE VIDA
Importante 
“A síndrome de Burnout não é modismo, não é meramente um
trend topic, é uma doença sorrateira que existe realmente, que
acomete milhares de trabalhadores em todo o mundo neste exato
momento e que pode se tornar uma grave ameaça para a saúde das
pessoas, das organizações e da sociedade em geral, trazendo
diversos prejuízos” (Carvalho, 2023, p. 73).
 É importante compreender que as doenças relacionadas ao trabalho e os
acidentes estão associados a uma variedade de causas, incluindo fatores
organizacionais, físicos e humanos (Mesquita et al., 2016). 
Capítulo 3
151
4.1 DO DESGASTE
 O desequilíbrio na saúde dos profissionais pode levar a um aumento das
faltas no trabalho, conhecido como absenteísmo, pois eles podem precisar
tirar licenças médicas, o que exige que a organização tome medidas como a
substituição de funcionários, transferências, novas contratações e
treinamentos adicionais, entre outros. A expressão “burnout” no contexto
profissional foi cunhada por Herbert Freudenberger, em 1974, para
descrever uma síndrome caracterizada por exaustão, desilusão e
isolamento entre os trabalhadores da saúde mental. 
 Na década de 1970, nos Estados Unidos, Herbert Freudenberger foi o
primeiro a definir a síndrome de Burnout. Ele descreveu essa condição
como um conjunto de sintomas biológicos, psicológicos e sociais não
específicos que surgem no contexto do trabalho e resultam em uma
demanda excessiva de energia. Isso ocorre devido à disparidade entre o
esforço investido e os resultados obtidos, que muitas vezes não atendem às
expectativas do profissional.
Artigo
Indicamos o artigo Síndrome de burnout ou estafa
profissional e os transtornos psiquiátricos, que conduz
uma revisão da literatura sobre a síndrome no Brasil e
em outras nações, abordando sua prevalência,
potenciais fatores de risco associados ao seu
desenvolvimento, sua conexão com outros transtornos
psiquiátricos e os impactos tanto para o indivíduo
quanto para a organização em que trabalha. Acesse o QR
Code ao lado para ler o artigo.
 Posteriormente, Maslach e Jackson expandiram esse conceito,
identificando três dimensões inter-relacionadas: exaustão emocional (perda
de recursos emocionais para lidar com o trabalho), despersonalização
(desenvolvimento de atitudes negativas, insensibilidade e cinismo em
relação aos usuários do serviço prestado) e falta de realização pessoal
(tendência a avaliar negativamente o próprio trabalho, associada a
sentimentos de baixa autoestima profissional) (Garcia; Marziale; 2018). 
Capítulo 3
152
Figura 20. Síndrome de Burnout
Fonte: Ufscar (2021). 
#ParaTodosVerem: a imagem apresenta um infográfico sobre a Síndrome de Burnout (SB),
descrita como a síndrome do esgotamento profissional. Em quatro círculos alaranjados, estão
escritas as seguintes informações: “É uma doença ocupacional reconhecida pela Organização
Mundial da Saúde (OMS).”; “É gerada a partir de exposição contínua ao estresse no ambiente de
trabalho.”; “Caracteriza-se pelo estado decansaço extremo, exaustão total e perda do propósito em
relação ao trabalho.”; e “Acomete principalmente trabalhadores que estão em contato direto com
outras pessoas, o que pressupõe a mediação das relações, estabelecimento de expectativas,
conflitos etc.”. No centro, há a ilustração de uma pessoa exausta, apoiando a cabeça nas mãos
diante de um notebook.
 As profissões que lidam com o Burnout o reconhecem como um risco
ocupacional, principalmente. No Decreto nº 3.048, de 6 de maio de 1999, no
Brasil, foi aprovado o Regulamento da Previdência Social. Ele trata dos
Agentes Patogênicos causadores de Doenças Profissionais, tendo o item XII
da tabela de Transtornos Mentais e do Comportamento Relacionados com o
Trabalho, trazendo a “Sensação de Estar Acabado” (“Síndrome de Burnout”,
“Síndrome do Esgotamento Profissional”) como sinônimos do burnout. Essa
síndrome é considerada um grande problema no mundo profissional da
atualidade (Trigo et al., 2007).
Capítulo 3
153
Para melhor entendimento, trago alguns pontos sobre o Burnout.
Exaustão emocional
Diminuição da realização pessoal
Apatia ou distanciamento
Trata-se de sintoma central do
burnout, que é caracterizada por
um profundo esgotamento emo-
cional, refletindo-se em irrita-
bilidade, falta de motivação e
dificuldade de concentração, im-
pactando tanto o desempenho no
trabalho quanto a saúde mental.
Caracteriza-se por uma atitude
desinteressada e distante em rela-
ção ao trabalho, manifestando-se
por meio da falta de envolvimen-
to, da indiferença e do isolamento
social, afetando negativamente o
desempenho e bem-estar no am-
biente profissional.
Manifesta-se pela sensação de incompetência e falta de realização no trabalho,
acompanhada pela perda de interesse em tarefas que antes eram gratificantes,
levando à percepção de que o trabalho não contribui mais para as metas
pessoais ou profissionais, impactando negativamente o bem-estar e a
motivação no am- biente profissional.
Essa síndrome tem um impacto significativo tanto nos indivíduos quanto
nas empresas, influenciando seus principais componentes e resultados.
Ela se manifesta por meio da exaustão emocional, despersonalização e
diminuição da realização pessoal, afetando profundamente a saúde e o bem-
estar dos indivíduos, bem como a eficiência das organizações.
 Concluímos que a Síndrome de Burnout é um fenômeno preocupante e
complexo.
Capítulo 3
154
4.2 DA PSICODINÂMICA DO TRABALHO
 Os conceitos da Psicodinâmica do Trabalho ressaltam a importância
central do trabalho na vida dos indivíduos, explorando os elementos que
podem contribuir para a saúde ou o adoecimento. De acordo com
Christophe Dejours (1986), a organização do trabalho tem um papel crucial
nos efeitos, tanto negativos quanto positivos, no funcionamento psíquico e
na saúde mental do trabalhador. Dejours (1986) define a organização do
trabalho como a estruturação das tarefas, que inclui o conteúdo e o modo
operatório regulados pela organização, e a estruturação dos grupos de
trabalho, que se refere à forma como as pessoas são distribuídas e às
relações humanas estabelecidas dentro da empresa.
Figura 21. Grupo de pessoas trabalhando
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: imagem de quatro pessoas sentadas ao redor de uma mesa de madeira. Elas
estão envolvidas em uma reunião ou sessão de estudo colaborativo. Na mesa, há um notebook
aberto, um tablet, folhas de papel com desenhos e anotações, além de uma planta verde em um
pequeno vaso. 
 A abordagem da psicodinâmica do trabalho é uma área de pesquisa que
combina elementos da Psicanálise, Ergonomia e Sociologia do Trabalho.
Inicialmente, sua base era a psicopatologia, mas ao longo do tempo
desenvolveu seus próprios métodos e teorias. A evolução da psicodinâmica
do trabalho pode ser dividida em três fases interligadas. Na primeira fase,
conhecida como Psicopatologia do Trabalho, a influência da Psicanálise era
predominante, com foco na investigação das origens do sofrimento
decorrente da interação entre o trabalhador e a organização do trabalho. 
 A segunda fase marca o estabelecimento da psicodinâmica como uma
abordagem própria, explorando tanto o prazer quanto o sofrimento no
trabalho, assim como as estratégias de defesa utilizadas pelos indivíduos
para evitar o adoecimento sem comprometer a produtividade. Por fim, a
terceira fase destaca outros aspectos relevantes, como a forma como os
trabalhadores internalizam suas experiências, as estratégias de
enfrentamento coletivo, a cooperação e as consequências sociais do
confronto entre a organização do trabalho, o sofrimento e a ação (Conde et
al., 2019). 
 A psicodinâmica do trabalho é um tema de extrema relevância
atualmente, dada a compreensão das consequências que o trabalho pode
ter sobre os indivíduos, conforme ele é organizado, dividido e distribuído
socialmente. Diante da crescente desregulação do mundo laboral
contemporâneo, caracterizado por altos índices de desemprego,
precariedade nas relações de trabalho, flexibilidade extrema, exploração e
assédio, surge o questionamento central dessa abordagem.
Capítulo 3
155
Polêmica
Como alguns trabalhadores conseguem manter sua
saúde mental intacta em situações que poderiam
desencadear sérios problemas decorrentes do ambiente
de trabalho? Por que não sucumbem ao estresse
 A maioria dos trabalhadores se acostumou a uma realidade de sofrimento
como algo normal. Para a psicodinâmica do trabalho, a relação entre o
indivíduo e o trabalho é frequentemente associada ao sofrimento e à
doença, embora também reconheça que o trabalho pode ser uma fonte de
prazer e saúde (Areosa, 2021). 
Capítulo 3
156
A normalidade é interpretada como o resultado de uma
composição entre o sofrimento e a luta (individual e
coletiva) contra o sofrimento no trabalho. Portanto, a
normalidade não implica ausência de sofrimento, muito
pelo contrário. Pode-se propor um conceito de
‘normalidade sofrente’, sendo, pois, a normalidade não o
efeito passivo de um condicionamento social, de algum
conformismo ou de uma ‘normalização’ pejorativa e
desprezível, obtida pela ‘interiorização’ da dominação
social, e sim o resultado alcançado na dura luta contra a
desestabilização psíquica provocada pelas pressões do
trabalho (Dejours, 1992, p. 36).
O papel do reconhecimento é apontado como um indicador de prazer no
trabalho, este pode compor uma recompensa ou retribuição simbólica, o que
pode reforçar a identidade psicológica e social.
 Há dois tipos de reconhecimentos: o que advém dos superiores
hierárquicos ou chefias, definido como julgamento de “utilidade”; e o
reconhecimento por parte dos colegas, chamado de julgamento de “beleza”. 
 Em relação ao prazer/sofrimento, podemos destacar como indicadores de
prazer no trabalho a realização profissional e a liberdade de expressão,
pois proporciona ao trabalhador conservação de sua saúde e integridade
psíquica. Já o sofrimento, esgotamento emocional e a falta de
reconhecimento, são os formadores de doença, de descompensação
psicossomática e psíquica. 
 Dejours (1992) difere duas formas de sofrimento: o criativo, onde o
indivíduo produz estratégias e soluções adaptativas, para assim manter a
sua saúde frente as pressões do trabalho; e o patológico, onde a pessoa faz
escolhas consideradas prejudiciais para a sua saúde e vida (drogas como
bebidas alcoólicas), e passam a chegar em um extremo como as tentativas
de suicídio em ambiente laboral.
4.3 ESTRESSE OCUPACIONAL
Capítulo 3
157
O estresse ocupacional é definido como um conjunto de perturbações
psicológicas ou sofrimento mental relacionado às experiências no ambiente
de trabalho. 
 A maneira como as tarefas são organizadas e distribuídas entre os
profissionais está diretamente ligada a fontes significativas de estresse no
trabalho. Isso pode resultar em consequências importantes devido às
condições precárias de organização, tais como baixa valorização e
remuneração, carga desproporcional de tarefas, escassez de recursos e
problemas de infraestrutura.
Saiba Mais
O estresse ocupacional surgeem resposta aos
estímulos do ambiente de trabalho que demandam
uma reação do indivíduo.
 A maneira como as tarefas são organizadas e distribuídas entre os
profissionais está diretamente ligada a fontes significativas de estresse no
trabalho. Isso pode resultar em consequências importantes devido às
condições precárias de organização, tais como baixa valorização e
remuneração, carga desproporcional de tarefas, escassez de recursos e
problemas de infraestrutura.
Capítulo 3
158
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: a imagem mostra um homem sentado à mesa de trabalho, com as mãos na
cabeça. Ele está cercado por pessoas que lhe estendem objetos ao mesmo tempo, como celular,
documentos e caneta. À sua frente há um notebook aberto.
Figura 22. Estresse ocupacional
 Quando abordamos o estresse ocupacional, podemos considerar
diferentes perspectivas: a biológica, a psicológica e a sociológica. Embora
distintas, essas vertentes são complementares e estão intrinsecamente
ligadas. Na abordagem biológica, o estresse é caracterizado pelo desgaste
físico do corpo. Na perspectiva psicológica, focamos nos processos
afetivos, emocionais e intelectuais do indivíduo, ou seja, como as pessoas
se relacionam com os outros e com o mundo ao seu redor. Já a abordagem
sociológica compreende as variáveis que surgem no contexto social mais
amplo (Prado, 2016).
4.4 DA ERGONOMIA
A Ergonomia tem como função gerenciar o desenvolvimento de situações
de trabalho, considerando aspectos materiais e ferramentas sociais e
organizacionais.
Capítulo 3
159
 O objetivo principal é a saúde, segurança, conforto, satisfação e eficácia no
desempenho das atividades do trabalhador. As mudanças nas condições e
no ambiente de trabalho ocorrem através dos estudos ergonômicos. É por
meio das condições físicas e psicológicas do indivíduo que as máquinas, os
equipamentos e os mobiliários são melhorados e adaptados para o
desempenho de uma tarefa. As ações sugeridas pela ergonomia trazem
resultados benéficos para a qualidade de vida no trabalho (Pinto; Casarin,
2018). 
 Podemos afirmar que a ergonomia compreende um corpo de
conhecimentos teóricos e metodológicos que possibilita a análise do
trabalho com o objetivo de compreendê-lo para transformá-lo. Isso leva em
conta as exigências dos processos de trabalho, sua eficácia e a saúde do
trabalhador.
Figura 23. Ergonomia
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: a imagem retrata um homem sentado em uma cadeira, e parece estar alongando
o braço, com uma mão alongando um braço e o cotovelo apoiado no braço da cadeira. Ao lado desta
pessoa, na mesa, há um par de óculos e alguns papéis. 
Capítulo 3
160
 Um assunto importante é referente ao risco ergonômico, que diz respeito
a todos os fatores que podem interferir nas características psicofisiológicas
do trabalhador, causar desconforto ou afetar sua saúde. É obrigação do
local de trabalho se organizar ergonomicamente, pois assim os sujeitos têm
um local com condições físicas e mentais. Isso é interessante inclusive para
a própria organização porque diminui a fadiga e das ferramentas
adequadas para a realização de tarefas com o menor esforço, reduzindo ao
máximo o risco de acidentes de trabalho. A seguir, elencamos algumas
soluções relacionadas à ergonomia. 
Design de mobiliário adequado
Organização do layout do ambiente de trabalho
Implementação de pausas ativas e alongamentos
Reorganizar o layout do ambiente de trabalho para otimizar a circulação e
minimizar o alcance excessivo pode melhorar a eficiência e reduzir o risco de
acidentes. Isso inclui posicionar equipamentos, materiais e ferramentas de
forma acessível e ergonômica, facilitando a realização das tarefas sem a
necessidade de movimentos repetitivos ou desconfortáveis.
Investir em mobiliário ergonômico, como cadeiras com suporte lombar
ajustável e mesas com altura regulável, pode ajudar a reduzir a fadiga e
prevenir lesões musculoesqueléticas. Esses móveis são projetados para se
adaptar às necessidades individuais dos trabalhadores, proporcionando
conforto e suporte durante longas horas de trabalho.
Promover pausas regulares para alongamentos e exercícios físicos leves pode
ajudar a aliviar a tensão muscular e melhorar a circulação sanguínea,
reduzindo o estresse físico e mental. Essas pausas também proporcionam
oportunidades para descansar os olhos, relaxar a mente e recarregar as
energias, contribuindo para a saúde e o bem-estar geral dos trabalhadores ao
longo do dia.
Capítulo 3
161
 É importante destacar que os riscos ergonômicos se distinguem dos
riscos psicossociais. Esses últimos surgem de falhas na concepção,
organização e gestão do trabalho, além de um contexto social laboral
problemático, podendo acarretar efeitos adversos nos níveis psicológico,
físico e social. Entre suas características estão cargas de trabalho
excessivas, demandas contraditórias e falta de clareza nas atribuições,
ausência de participação na tomada de decisões que impactam o
trabalhador, má administração das mudanças, entre outros aspectos. 
4.5 DO MODO DE VIDA
 No âmbito da ergonomia, a implementação das práticas sugeridas traz
consigo uma gama de vantagens para a qualidade de vida no ambiente
laboral, sendo um elemento crucial para o êxito de uma empresa. A
qualidade de vida no trabalho desempenha um papel fundamental no
crescimento das organizações, pois promove a integração entre indivíduos,
atividades laborais e estrutura organizacional, com foco na obtenção de
resultados favoráveis tanto para a empresa quanto para o desenvolvimento
pessoal dos colaboradores.
A qualidade de vida no trabalho é um programa que visa facilitar e
atender às necessidades dos trabalhadores enquanto realizam suas
atividades nas organizações.
 Parte-se do pressuposto de que as pessoas são mais produtivas quando
estão satisfeitas e engajadas em suas tarefas. Isso se concretiza por meio
de ações comportamentais que levam em consideração as necessidades
humanas e o desempenho individual, como a definição clara das funções.
Um aspecto relevante a ser destacado é que a qualidade de vida no
trabalho tem como objetivo auxiliar os gestores na identificação de
problemas dentro da organização que necessitam de melhorias, seja em
relação aos padrões mínimos da empresa, ao ambiente de trabalho ou aos
fatores que impactam o desempenho dos colaboradores e a qualidade dos
serviços prestados (Pinto; Casarin, 2018).
 Podemos concluir que a qualidade de vida no trabalho está
intrinsecamente ligada à motivação. Quanto mais motivado estiver o
trabalhador, melhor será seu desempenho e sua autoestima, o que
resultará em maior saúde e disposição para gerar resultados. Assim, a
qualidade de vida no trabalho representa a busca pelo equilíbrio entre o
indivíduo e a organização. 
162
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
 Neste capítulo destacamos a relevância dos conhecimentos fundamentais
para estudantes e profissionais do campo da saúde preventiva. O
entendimento sobre os diferentes modelos conceituais de saúde,
especialmente a transição do modelo biomédico para a determinação social
da doença, permite uma reflexão crítica sobre as práticas profissionais e a
influência das relações sociais na constituição desses modelos.
Compreender essa evolução histórica e os modelos adotados
mundialmente, assim como seu impacto no Brasil, é essencial para que os
profissionais tenham clareza sobre o acesso à saúde e os processos de
atenção exercidos no contexto nacional.
 
 A reforma sanitária brasileira buscou instituir um modelo de atenção
universal, porém, o sistema de saúde brasileiro (SUS) sofre constantemente
com influências da lógica privatista, ameaçando o princípio da
universalidade. Cabe aos profissionais, com conhecimento e visão crítica da
totalidade do sistema, defender e fortalecer o SUS, visando garantir saúde
de qualidade para todos os brasileiros. Nesse contexto, é fundamental
reconhecer que os determinantes da saúde mental extrapolam questões
individuais, incluindo fatores sociais, culturais, econômicos, políticos e
ambientais,com destaque para as condições laborais. A relação entre
saúde, trabalho e doença vem sendo constantemente investigada, visto que
ambientes de trabalho prejudiciais contribuem para o surgimento de
distúrbios mentais, como aponta a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Fatores como sobrecarga nas atividades laborais, falta de reconhecimento e
relações interpessoais prejudiciais refletem os desafios enfrentados no
cotidiano profissional, impactando diretamente a saúde mental.
Capítulo 3
163
 Integrar o conhecimento sobre modelos de atenção à saúde, os desafios
estruturais enfrentados pelo SUS e os fatores que compõem a saúde
mental no trabalho conduz a uma prática profissional mais ampla e
humana. A capacidade de atuar criticamente em defesa do sistema público
de saúde, considerando o sujeito integral e o contexto social, é o caminho
para promover ações de saúde transformadoras e inclusivas no Brasil.
164
1) (Adaptada - 2018 - FCC – Órgão Prefeitura de Macapá – AP): Saúde” e
“Doença” são termos que, sob a perspectiva da História, vêm mudando de
significado ao longo do tempo. Contemporaneamente, a Organização
Mundial de Saúde (OMS) considera que “Saúde não é apenas a ausência de
doença ou enfermidade, mas um estado de completo bem-estar físico,
mental e social”, sendo este conceito baseado em: 
 
2) (2020 - CESPE/CEBRASPE – Órgão: Hub – Residência multiprofissional em
saúde coletiva): A intersetorialidade constitui um dos princípios da Política
Nacional de Promoção de Saúde (PNPS) e pressupõe a articulação dos
saberes para a promoção de saúde. Quanto a esse assunto, analise e
assinale o item a seguir:
A integração dos setores público e privado constitui a base do conceito da
intersetorialidade em saúde, e tem o objetivo de alcançar a integralidade e
a solução de um problema complexo e multicausal. 
ATIVIDADES
DE ESTUDO
a) ( ) Uma abordagem holística da saúde. 
b) ( ) Uma abordagem negativa de saúde. 
c) ( ) Características individuais e específicas, próprias da espécie
humana. 
d) ( ) Evidências científicas que se consolidaram após o final da Idade
Média.
( ) CERTO 
( ) ERRADO 
Capítulo 3
165
3) No que diz respeito à saúde enquanto política pública brasileira, como
ela está apresentada no campo da seguridade social da Constituição
Federal de 1988? 
4) Sabe-se que a promulgação da Carta Magna em 1988 assegurou o direito
da população à saúde e, ao Estado, o dever de assegurar esse direito a
todos brasileiros. Assim, como o Estado garantirá o acesso à saúde para a
população?
5) A psicodinâmica do trabalho surgiu na França, na década de 1980, e foi
desenvolvida por Christophe Dejours, é multidisciplinar e pautada na
ergonomia, sociologia do trabalho, psicanálise, psicologia, medicina do
trabalho. A trajetória da psicodinâmica é composta por três fases, que se
articulam e se integram. Quais são elas? 
6) O trabalho atualmente tem se tornado uma fonte do sofrimento
psicológico, sendo inclusive um ambiente que tem apresentado aumento
nos casos de afastamento do trabalho por psicopatologias. Há dados
preocupantes em relação aos acidentes de trabalho, por exemplo, pois
segundo os dados da Organização internacional do trabalho, em 2013, o
Brasil foi o quarto país com maior número de acidentes de trabalho. No
Brasil, qual a terceira causa de afastamento entre os trabalhadores? 
a. Psicopatologia do Trabalho, Psicodinâmica como abordagem,
Subjetividade, defesas coletivas, cooperação e consequências sociais. 
b. Psicopatologia do Trabalho, Psicodinâmica como forma de relação,
Relacionamentos interpessoais. 
c. Psicopatologia do Trabalho, Psicodinâmica como abordagem,
Questões internas e externas ao sujeito trabalhador. 
d. Psicodinâmica como abordagem, Subjetividade, defesas coletivas,
cooperação e consequências sociais. 
a. Transtornos mentais. 
b. Estresse ocupacional. 
c. Depressão. 
d. Síndrome de Bournout.
Capítulo 3
166
7) A qualidade de vida no ambiente de trabalho é benéfica porque traz
facilidade e ao mesmo tempo, satisfaz as necessidades do trabalhador. A ideia
é conciliar os interesses dos indivíduos e os das organizações. Marque a
alternativa correta sobre a finalidade da qualidade de vida no trabalho. 
a. A finalidade é auxiliar o gestor a identificar quais problemas existem
dentro da organização e que precisam de melhorias, bem como, quais às
circunstâncias ambientais de trabalho e os fatores que influenciam no
desempenho dos trabalhadores e na qualidade dos serviços oferecidos. 
b. A finalidade é possibilitar um convívio melhor entre o trabalhador e
organização, bem como, promover o bem-estar. 
c. A finalidade é em refletir o plano de carreira e as expectativas do
trabalhador com o seu trabalho desenvolvido dentro da organização. 
d. A finalidade é manter uma boa saúde do trabalhador pois assim ele
trabalhará melhor, bem como, sua produtividade será maior. 
167
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Capítulo 3
174
CAPÍTULO 2
Questão 1 
R.: Hierarquização e regionalização.
Questão 2 
R.: Universalidade e integralidade.
Questão 3 
R.: Equidade.
CAPÍTULO 1
Questão 1
R.: F – V – V – F – F.
Questão 2
R.: V - V - F - V -F.
Questão 3
R.: d) A educação informal em saúde é aquela que se dá em salas de aula. 
GABARITO GERAL
CAPÍTULO 3
Questão 1 
R.: a) Uma abordagem holística da saúde.
Questão 2 
R.: ERRADO; Espera-se que o estudante contemple em suas respostas que a
afirmativa em questão esteja errada, uma vez que a relação do setor público
e privado não se constitui base da concepção de intersetorialidade.
178
Gabarito Geral
Questão 3 
R.: Espera-se que o estudante apresente como resposta que a saúde é
apresentada no campo da seguridade social da Constituição Federal no artigo
196, que a explicita como direito de todos e dever do Estado.
Questão 4
R.: Espera-se que o estudante descreva que com a promulgação da CF/1988,
e a saúde elencada como política de seguridade social, ela está garantida para
a população mediante políticas sociais e econômicas.
Questão 5
R.: a) Psicopatologia do Trabalho, Psicodinâmica como abordagem,
Subjetividade, defesas coletivas, cooperação e consequências sociais.
Questão 6
R.: a) Transtornos Mentais
Questão 7
R.: a) A finalidade é auxiliar o gestor a identificar quais problemas existem
dentro da organização e que precisam de melhorias, bem como, quais às
circunstâncias ambientais de trabalho e os fatores que influenciam no
desempenho dos trabalhadores e na qualidade dos serviços oferecidos.p. 80):
a intensificação da divisão do indivíduo em pedaços contribui
sobremaneira para dificultar a valorização do todo [...] Desta
maneira, por mais que alguns profissionais queiram visualizar seu
paciente como um todo e situá-lo, de alguma maneira, no seu
contexto socioeconômico, terminam por regressar ao
reducionismo, pois este foi o modelo em que foi pautada sua
formação na escola médica.
 Apesar de seus inegáveis avanços, discute-se a eficácia deste modelo no
entendimento de problemas de saúde e se avalia uma readequação deste
modelo.
 Embora o modelo biomédico seja predominante, ainda há espaço para
outras formas de terapêuticas, como a busca pela cura ou alívio associados à
espiritualidade e a religiosidade.
Assim, apesar da hegemonia do modelo biomédico, há espaço
social para a coexistência de diferentes formas terapêuticas e de
cura, o que os autores denominam de medicinas paralelas.
(Laplantine; Rabeyron, 1989 apud Mello; Oliveira, 2013)
 Tais práticas, embora sejam em muito questionadas, tem mostrado bons
resultados no auxílio à manutenção e à prática da saúde. Conforme revisam
Mello e Oliveira (2013), muitas das doenças e sintomas do paciente são
consultados pelo médico e também pelo sacerdote religioso, seja ele qual for,
existindo sempre a percepção de supremacia do sobrenatural, em relação ao
material (Mello; Oliveira, 2013).
É a religiosidade que confere à medicina popular seu caráter
sacral, condição que faz alimentar no homem e no grupo social ao
qual pertence, a crença nos "poderes" sobrenaturais do curador de
interpretar doenças, indicar terapias e de preparar remédios, aos
quais se admite de eficácia garantida. (Camargo, 2014, p. 4)
Capítulo 1
20
 Subsequentes ao modelo Biomédico, Albuquerque e Oliveira (2002) pontuam
o que chama de Revoluções na área da saúde, porém que nada mais são que
aprimoramentos do modelo biomédico até chegar no que conhecemos hoje.
Se observa que na primeira revolução o enfoque era mais direcionado à
prevenção das doenças, uma vez que o contexto histórico propiciava tais
reflexões. Na segunda, por sua vez, se enfoca na manutenção da saúde por
meio da melhora e/ou preservação de hábitos individuais, do monitoramento
do estado de saúde da população utilizando estudos demográficos da mesma
(Albuquerque; Oliveira, 2002).
 Desta forma, estudando os aspectos importantes e os principais pensadores
envolvidos no entendimento do processo saúde-doença, e os principais
modelos de abordagem da saúde e doença, finalizamos esta aula e estamos
um passo mais próximos do melhor entendimento do trabalho em saúde e
suas implicações.
Fonte: Freepik (2024). 
#ParaTodosVerem: a imagem contém três profissionais envolvidos em uma discussão. Eles estão
sentados ao redor de uma mesa branca. Um dos trabalhadores está vestindo um jaleco branco; as
outras duas estão com uniformes azuis. O trabalhador de jaleco branco está segurando e
mostrando um papel as outras. Uma das trabalhadoras de azul está atenta ao papel, enquanto a
outra parece estar fazendo anotações em um laptop. 
Figura 1. Saudável
Capítulo 1
21
33. EDUCAÇÃO E SAÚDE
 O conceito de educação pode ser definido de diversas maneiras, tendo
servido de debate conforme nos mostra a literatura:
A Educação, em sentido amplo, representa tudo aquilo que pode
ser feito para desenvolver o ser humano e, no sentido estrito,
representa a instrução e o desenvolvimento de competências e
habilidades. (Vianna, 2006, p. 130)
 Assim como em saúde, no decorrer da história, grandes personalidades se
preocuparam em tentar entender e conceituar educação enquanto prática de
transmissão de saber, dentre elas citamos Platão, Sócrates e outros
pensadores. Não trataremos de nos aprofundar neste trabalho em conceitos
de educação, mas aportaremos os principais tópicos relativos à educação e
aplicáveis à saúde.
 O conceito de educação em saúde passou a ser discutido no século passado,
estabelecendo-se como área específica do conhecimento na década de 20 do
século passado, em uma conferência nos Estados Unidos (Schall; Struchiner,
1999).
 Tal conceito engloba não apenas a educação de profissionais de saúde no
sentido de capacitação tecnicista dos mesmos, mas também a educação da
população leiga em geral, visando a diminuição nos índices de ocorrência de
doenças.
 Entende-se cada dia mais que a participação ativa da população no tocante a
prevenção de doenças é demasiado necessária e essencial para a redução na
ocorrência das mesmas. Conforme postulado por Schall e Struchiner (1999,
on-line):
ao conceito de educação em saúde, se sobrepõe o conceito de
promoção da saúde, como uma definição mais ampla de um
processo que abrange a participação de toda a população no
contexto de sua vida cotidiana e não apenas das pessoas sob risco
de adoecer.
Capítulo 1
22
 Desta forma, tem-se educação em saúde como uma tentativa de manter
aquilo que é descrito no conceito de saúde. Ou seja, manter, ou promover,
quando necessário, o bem-estar físico, mental e social de um sujeito (Schall;
Struchiner, 1999).
 Entre vários aspectos, a educação em saúde trata de prevenção e promoção
de saúde. Ela consiste em um meio para que o conhecimento produzido por
profissionais de saúde chegue à população leiga e que esta, modifique hábitos
e melhore a vida quotidiana das pessoas (Alves, 2005).
Trata-se de um recurso por meio do qual o conhecimento
cientificamente produzido no campo da saúde, intermediado pelos
profissionais de saúde, atinge a vida cotidiana das pessoas, uma
vez que a compreensão dos condicionantes do processo saúde-
doença oferece subsídios para a adoção de novos hábitos e
condutas de saúde. (Alves, 2005, p. 43)
 Conforme colocado por Schall e Struchiner (1999, on-line), a educação em
saúde aborda várias vertentes:
Verifica-se que, dentre várias, duas dimensões dessa disciplina se
destacam e persistem atualmente. Uma primeira envolve a
aprendizagem sobre as doenças, como evitá-las, seus efeitos sobre
a saúde e como restabelecê-la. A outra tendência, caracterizada
como promoção da saúde pela Organização Mundial da Saúde,
inclui os fatores sociais que afetam a saúde, abordando os
caminhos pelos quais diferentes estados de saúde e bem-estar são
construídos socialmente.
 Pimont (1977) propõe que a educação em saúde seja considerada em três
níveis, sendo eles o individual, o familiar e o comunitário, devendo ser
desenvolvido nos indivíduos destes meios a consciência de si mesmos, bem
como do meio em que interagem. Neste âmbito, alguns aspectos principais
devem ser objetivados como resultados da educação em saúde que são o
conhecimento sobre os processos saúde/doença, dos seus direitos em relação
à saúde, bem como dos serviços de saúde que dispõe (Pimont, 1977).
 É importante ainda pontuar que existem diferenças entre os termos
educação em saúde e promoção em saúde.
Capítulo 1
23
Conceito 
A educação em saúde requer a comunhão de conhecimentos de
distintas áreas, como a psicologia, epidemiologia, a filosofia e
conhecimentos da própria medicina para ser efetiva em seu
objetivo, que é o de promover a saúde (Machado et al., 2007). 
 Por outro lado, o termo promoção de saúde designa um conjunto atos e de
condições que visa conduzir a saúde de maneira voluntária. Conforme
colocam Machado et al. (2007, p. 40):
a Promoção da Saúde é definida como o processo de capacitação
da comunidade para atuar na melhoria da sua qualidade de vida e
saúde, incluindo uma maior participação no controle desse
processo.
 Esta não é apenas uma responsabilidade governamental e do sistema de
saúde, mas requer a participação de várias instâncias da sociedade,
principalmente a individual, (Machado et al., 2007) atendendo aquilo que
precede na Lei orgânica do SUS Lei n. 8.080 de 19 de setembro de 1990, que
diz que, no Art 2º [...], § 2º O dever do Estado não exclui o das pessoas, da
família, das empresas e da sociedade (Brasil, 1990).
 Em suma, a educação em saúde e a promoção de saúde são práticas
intimamente relacionadas e indissociáveis e que requerema participação de
toda a sociedade no contexto de sua práxis (Machado et al., 2007).
Conceito 
Desde que foi proposto, em 1919, o termo educação sanitária veio
com propostas que se davam num sentido de mudança de
comportamentos da população quanto à hábitos que afetavam a
sua saúde. Este termo, apesar de ainda existir, passou a ser
substituído gradativamente pelo termo Educação em saúde.
Fonte: Renovato e Bagnato (2012).
 Em se tratando de educação, estamos acostumados a pensá-la nos seus
moldes formais, como conhecemos. Ou seja, ao pensar em educação nos
remetemos quase que imediatamente a pensar em escolas e universidades
que são reconhecidamente transmissoras e geradoras do saber.
Capítulo 1
24
 Fomos treinados e estamos habituados a ligarmos quase que
espontaneamente a educação que conhecemos à "Educação bancária"
retratada por Paulo Freire, que designa a educação formal arcaica - na qual o
professor se posiciona como detentor único do saber e o aluno é enxergado
como um ser vazio, desprovido de conhecimento e capacidade crítica, e que
precisa ser moldado pelo professor (Linhares, 2014).
 O trabalho do professor, em qualquer área, é de suma importância e de
nenhuma maneira queremos desmerecê-lo. Como coloca Libâneo ([20-?], on-
line), "o aluno aprende a ser profissional e cidadão na sala de aula", sendo
diretamente influenciados pela figura do professor em sua formação.
Na relação social que se estabelece em sala de aula, o profissional
liberal que ministra aulas – o engenheiro, advogado, arquiteto,
físico, economista, veterinário, biólogo, – passa a seus alunos uma
visão de mundo, uma visão das relações sociais, uma visão da
profissão, ou seja, passam uma intencionalidade em relação à
formação dos futuros profissionais que é, eminentemente,
pedagógica. (Libâneo, [20-?], on-line)
 Deste modo, cabe ao educador que se destaque para esta área, ocupar sua
posição enquanto profissional de saúde, no sentido de eleger a melhor
maneira de conduzir à docência e de melhor conscientizar seu público quanto
à importância de determinados atos e práticas no trabalho com pacientes e
população. Chamamos, ainda, que tais práticas conscientizadoras não se
restrinjam apenas ao campo das ideias e das palavras proferidas, mas que
sejam transferidas gradativamente e urgentemente para a nossa práxis diária,
pois como sabemos, o exemplo tem se mostrado um grande instrutor no
processo saúde-doença. O pensamento limitante da educação formal tem nos
impedido de perceber a educação nos moldes informais, ou seja, aquela na
qual há a transmissão quase que passiva de conhecimento, sendo este
passado por meio de simples instruções ou até mesmo atitudes de um
indivíduo.
Na educação informal, não há lugar, horários ou currículos. Os
conhecimentos são partilhados em meio a uma interação
sociocultural que tem, como única condição necessária e
suficiente, existir quem saiba e quem queira ou precise saber.
Nela, ensino e aprendizagem ocorrem espontaneamente, sem que,
na maioria das vezes, os próprios participantes do processo deles
tenham consciência. (Gaspar, 2002, p. 173).
 Em termos de saúde, a educação informal é uma das grandes norteadoras
daquilo que vemos sendo realizado em serviços de saúde, uma vez que, as
práticas atuais nada mais são do que reflexos aprimorados das práticas de
nossos predecessores.
Capítulo 1
 A educação informal exerce, sem sombra de dúvidas, grande influência no
trabalho de profissionais de saúde e, consequentemente, naquilo que é
ensinado por eles, bem como, por meio dela, se dá boa parte educação da
população leiga quanto a temas relativos à saúde.
 O exemplo é consagradamente um grande educador, até mais que a prática
do ensino propriamente dita e cada sujeito pondera de acordo com seu
sistema de crenças as práticas que observa, para que a realização das
mesmas lhes seja mais palatável.
25
Vídeo 
Programa Paulo Freire Vivo 7 - Educação Bancária x
Educação Problematizadora. Neste vídeo se discute a
Educação bancária de Paulo Freire, e sua solução
proposta – a educação problematizadora. Com base
nele, propomos a reflexão de como tais concepções
podem ser transpostas para a educação em saúde.
Acesse o QR Code ao lado.
Importante 
Na educação informal, não há lugar, horários ou currículos.
[...] Nela, ensino e aprendizagem ocorrem
espontaneamente, sem que, na maioria das vezes, os
próprios participantes do processo deles tenham
consciência. Fonte: Gaspar (2002, p. 173).
Capítulo 1
26
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
 Olá, caro(a) aluno(a), finalizamos esta etapa do estudo e convidamos você
para que façamos um breve repasso daquilo que acabamos de ver.
 Vimos, primeiramente, o dinamismo e a fluidez dos conceitos de saúde e
doença. Entendemos que saúde não é apenas a ausência de enfermidades e
que tal concepção não contempla por completo a definição de saúde que
necessitamos.
 Acompanhamos uma gradual transição dos conceitos vigentes de saúde, até
o atual, que engloba não somente a vigência de enfermidades, mas também o
bem-estar do sujeito.
 Estudamos, ainda, a transição histórica das concepções de saúde e de
enfermidade. Primeiramente, compreendemos as visões mais primordiais
destes conceitos, em que vimos que saúde e doença eram atribuídos ao
sobrenatural, perfazendo uma concepção mágico-religiosa destes conceitos.
 Em seguida, acompanhamos a transição do entendimento mágico-religioso,
para o entendimento não sobrenatural de saúde e de doença, no qual
estudamos pontos importantes das teorias Hipocráticas e também
conhecemos o trabalho de outros pensadores como Galeno e Paracelso.
 Prosseguindo na história, vimos a ascensão do modelo biomédico de saúde-
doença, o qual ainda é vigente nos dias atuais. Vimos que neste modelo,
entende-se a doença enquanto um desequilíbrio compartimentalizado de
alguma das 'partes' que compõe o ser humano; e, neste aspecto, o sujeito é
entendido de maneira fragmentada/seccionada e reducionista, em que se
tolhe a integralidade do indivíduo em detrimento do estudo de suas partes
separadas.
Capítulo 1
27
 Por fim, trabalhamos com os conceitos de educação em saúde, educação
sanitária e a importância de sua correta aplicação para a promoção e
manutenção da saúde.
 Assim, finalizamos esta etapa do nosso estudo, nos despedimos e lhes
desejamos bons estudos, lembrando que estamos disponíveis para sanar
quaisquer dúvidas e questionamentos.
Capítulo 1
28
ATIVIDADES
DE ESTUDO
1. De acordo com o conceito de saúde da Organização Mundial de Saúde
(OMS), a espiritualidade representa uma importante vertente da essência do
ser humano, devendo ser trabalhado para a geração de bem-estar e
consequentemente de saúde. Deste modo, analise a afirmação acima,
correlacione com aquilo que estudamos e assinale as alternativas abaixo
enquanto Verdadeiras (V) ou Falsas (F):
( ) A saúde independe da prática da espiritualidade, uma vez que é relativa à
ausência de enfermidades no indivíduo.
( ) A espiritualidade é comprovadamente benéfica aos seus praticantes e se
dá, principalmente, (mas não exclusivamente) por meio de manifestações
religiosas.
( ) O aspecto mágico-religioso da concepção de saúde e doença é em partes
resgatado pela OMS ao tentar integralizar o conceito de saúde, incluindo nele
a espiritualidade.
( ) A OMS está equivocada em considerar a espiritualidade enquanto parte
importante do conceito de saúde, uma vez que já se sabe a espiritualidade
nada influi neste processo.
( ) A OMS deve reelaborar o conceito de saúde retirando a espiritualidade,
uma vez que tal associação é espúria.
Assinale a alternativa correta:
a. F, F, F, V, V. 
b. V, V, F, V, F. 
c. F, V, V, F, F. 
d. V, F, F, V, F. 
e. V, V, V, V, V.
Capítulo 1
29
2. A visão do corpo enquanto "engenho", no qual as partes se encaixam e
interagem perfeitamente, é uma das componentes principais do modelo
biomédico. Avaliando este modelo, assinale as alternativas abaixo enquanto
verdadeiras (V) ou falsas (F):
( ) O modelo biomédico, apesar de não ter uma visão integralizada do ser
humano, tempromovido muitos avanços no entendimento do organismo.
( ) Alguns dos avanços mais notáveis deste modelo foram a descoberta da
circulação sanguínea, a descrição de microrganismos e a geração da vacina.
( ) O aumento da expectativa de vida foi uma das consequências prejudiciais
que trouxe o modelo biomédico.
( ) A sistematização é um dos pontos principais deste modelo para a saúde.
( ) Promoveu poucos avanços nos campos de diagnóstico, sendo focado,
principalmente, na terapêutica, ou seja, no tratamento.
3. Avaliando a temática da educação em saúde, é incorreto afirmar que:
a. V, V, V, F, F. 
b. F, V, V, F, V. 
c. V, F, F, V, V. 
d. F, F, F, V, V. 
e. V, V, F, V, F.
a. A saúde depende da participação ativa da população, dos profissionais
de saúde e do estado para que seja promovida e devidamente mantida. 
b. A comunidade é participante ativa do processo de promoção à saúde. 
c. O trabalho do professor em saúde, sempre é complementado por meio
do exemplo, caracterizando assim a educação informal. 
d. A educação informal em saúde é aquela que se dá em salas de aula. 
e. A conscientização de profissionais representa um grande passo do
trabalho em saúde.
Capítulo 1
30
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Acesso em: 4 abr. 2024.
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ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE – OMS. Review o the Constitution of the
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SCHALL, V. T.; STRUCHINER, M. Educação em saúde: novas perspectivas.
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VIANNA, C. E. S. Evolução histórica do conceito de educação e os objetivos
constitucionais da educação brasileira. Revista de Administração da
UNIFATEA, v. 3, n. 4, jul. 2006.
33
 
DE NEGÓCIOS
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes 
objetivos de aprendizagem:
Compreender o processo histórico de formação do Sistema Único
de Saúde (SUS), sua relação com o movimento da Reforma Sanitária
e sua interface com as políticas de saúde. 
Relacionar o contexto atual do SUS com aspectos históricos, sociais
e econômicos do país e com as raízes históricas das políticas de
saúde implantadas ao longo do tempo, dentro de uma perspectiva
crítica/reflexiva, reconhecendo o sistema de saúde como um
processo em constante construção. 
Identificar os fundamentos teórico-políticos e as dimensões do
processo do movimento e da Reforma Sanitária. 
Conhecer e analisar o processo de construção do SUS em sua base
legale social de sustentação. 
Conceituar e identificar os princípios do SUS. 
CAPÍTULO 2 
POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE E
O SUS: EM PERSPECTIVA
34
 Prezado acadêmico, é com satisfação que apresentamos o
Capítulo 2, intitulado Políticas Públicas de Saúde e o SUS em
Perspectiva, da disciplina Políticas de Saúde. 
 Esse material didático reúne temas relacionados às Políticas
Públicas de Saúde, enfatizando o Sistema Único de Saúde (SUS),
considerando, inicialmente, a Reforma Sanitária e a VIII
Conferência Nacional de Saúde, para em seguida versarmos
sobre o SUS como política de saúde, apresentando seus
principais desafios e perspectivas e, finalmente, abordaremos as
principais políticas de saúde no período pós-constituinte e sua
relação com o SUS. 
 Como você pode perceber, trataremos de temas complexos e,
portanto, apresentaremos um panorama geral sobre as
temáticas envolvidas, considerando se a heterogeneidade e as
infinitas vertentes. Partindo dessa premissa, nosso intuito é
fazer com que você pluralize seu olhar, a fim de proporcionar
uma reflexão crítica, pois o eixo orientador deste capítulo está
largamente baseado no Sistema Único de Saúde (SUS), nosso
protagonista.
 O tema central da nossa disciplina são as políticas de saúde,
assim, é notório que elas são fundamentais para todas as
dimensões da vida cotidiana, visto que a afetam de forma direta
e indireta ao abranger comportamentos e ações que contribuem
para a melhoria da saúde da população, além de desempenhar
papel preponderante nos serviços e sistemas de saúde, à
medida que respondem às necessidades populacionais. 
CONTEXTUALIZAÇÃO
Capítulo 2
35
 De forma sucinta, podemos asseverar que no Brasil Colônia e
Imperial (1500 a 1889), a organização sanitária era basilar,
episódica e centralizada, sendo incapaz de assegurar assistência à
saúde da população. Já a República Velha (1889 a 1930) foi
caracterizada pela omissão por parte do governo no que se refere
à assistência, uma vez que não havia um sistema de saúde e o
Estado somente intervinha em situações extremas. No que se
refere à atenção à saúde da população, ela ocorria por meio de
campanhas impositivas. 
 As décadas seguintes foram marcadas pela manutenção do
sanitarismo campanhista, sendo posteriormente priorizadas a
assistência médico-hospitalar e a criação da medicina de grupo,
com ações curativas e individuais, bem como privilegiando
somente a classe trabalhadora formal, excluindo milhares de
brasileiros da assistência à saúde. 
 Durante o decorrer da história, constatamos também que houve
a tentativa de reverter o quadro caótico que se apresentava, por
meio da criação de diversos órgãos, departamentos e institutos
(SNA, INPS, INAMPS, FUNRURAL, SUDS, entre outros), a fim de
ofertar “saúde” ao povo brasileiro, os quais não obtiveram êxito. 
 No contexto atual, o Brasil se organiza em um sistema político
federativo alicerçado em três esferas de governo (União, estados
e municípios) consideradas pela Constituição de 1988 como entes
autônomos administrativamente e sem vínculo hierárquico,
composto por 26 estados e o Distrito Federal e 5.570 municípios,
com uma população estimada em mais de 211 milhões de
habitantes, de diversos pertenci mentos étnicos, socioculturais e
econômicos, espalhados em mais de 8 milhões de km² (IBGE,
c2020). Desta feita, garantir um sistema de saúde público,
gratuito e de qualidade é um desafio. 
Capítulo 2
36
 Assim, convidamos você a continuar a viagem pela máquina do
tempo, que levará ao universo do SUS. O embarque acontece na
década de 1980, sendo que aqueles que vivenciaram esses
momentos relembrarão e aqueles que não haviam nascido terão
a oportunidade de apreender, mas antes de chegar ao destino
principal, ocorrerão duas escalas: a primeira no Movimento
Sanitário – Reforma Sanitária Brasileira –, e a segunda parada
será na VIII Conferência Nacional de Saúde (CNS), como já
mencionado. Após, a viagem segue com destino à criação do SUS,
com desembarque nos dias atuais. 
 Então, preparado para mais essa aventura? Boa viagem!
37
 1 
 Como era o SUS antes do SUS? No capítulo anterior, você já se apropriou
dos antecedentes históricos, fazendo uma imersão nos diversos
acontecimentos. Para respondermos a esse questionamento,
relembraremos rapidamente os últimos episódios da história. 
 Antes da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), a atuação do setor
público estava baseada na assistência médico-hospitalar, a qual era
prestada por meio do Instituto Nacional de Assistência Médica da
Previdência Social (INAMPS), que era uma autarquia do Ministério da
Previdência e Assistência Social (MPAS) e não do Ministério da Saúde, que
desenvolvia basicamente ações e campanhas de vacinação e controle de
endemias. A assistência à saúde, nessa época, beneficiava apenas os
trabalhadores formais, que eram segurados do INPS, junto aos seus
dependentes. Portanto, não tinha caráter universal. 
 Diante desse cenário, podemos dizer que antes da criação do SUS, o
Estado brasileiro era de certa forma negligente com relação à saúde da
população, uma vez que era de senso comum que o próprio cidadão
deveria cuidar da sua saúde, já que a intervenção estatal ocorria apenas em
casos considerados graves, os quais não podiam ser resolvidos pelo
indivíduo ou que representassem risco à saúde pública ou à economia
(epidemias). 
 Antes de adentrarmos no processo histórico do SUS, conforme havíamos
informado no Capítulo 1, retomaremos os temas Reforma Sanitária e VIII
Conferência Nacional de Saúde.
1. PROCESSO HISTÓRICO DO
SUS
1.1 REFORMA SANITÁRIA BRASILEIRA
Capítulo 2
38
 Inicialmente, faz-se necessário relatar que não é nossa intenção esgotar 
esse tema, dada a dimensão e relevância, mas sim tecer algumas
questões importantes para que você possa contextualizar com a
construção do SUS, apresentando, assim, uma visão panorâmica da
Reforma Sanitária no Brasil. 
 Também é importante frisar que devido às inúmeras bibliografi as que
abordam essa temática, optou-se por se concentrar naquelas em que os
autores e/ou entidades participaram ativamente do movimento, em
especial a obra de Sarah Escorel, publicada em 1999, resultante da sua
tese, orientada por Sérgio Arouca, servindo de base para a elaboração do
nosso tópico por ser referência dentre as publicações existentes, e a tese
de Jairnilson Paim, defendida em 2007. 
 Diante dessas considerações preliminares, daremos início à
fundamentação teórica. 
 Os relatos em torno da origem da Reforma Sanitária brasileira surgem
por volta da segunda metade do anos 1970, período que se compatibiliza
com as criações, em 1976, do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde
(CEBES) e da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva
(ABRASCO), em 1979 (ESCOREL, 1999; PAIM, 2008).
 Relativo a essas duas entidades (CEBES e ABRASCO) e suas vinculações
com a Reforma Sanitária, mereceriam um tópico à parte, devido à
importância e destaque que tiveram para o processo por meio do
movimento sanitário, assim como atuação na VIII CNS e especialmente
para a construção da saúde coletiva no Brasil, no entanto, foge aos
objetivos da disciplina. 
Dica de Leitura 
Se você quer aprofundar seus conhecimentos sobre o CEBES e a
ABRASCO, sugerimos que acesse a Parte II - A articulação do
movimento sanitário - O movimento estudantil e o Centro
Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), do livro Reviravolta na
saúde: origem e articulação do movimento sanitário, de Sarah
Escorel, e o livro Saúde Coletiva como compromisso: a
trajetória da ABRASCO, de Nísia Trindade Lima e José Paranaguá
de Santana. Acesse os Qr Codes ao lado para confeir.
Capítulo 2
39
 De maneira sucinta, podemos dizer que tanto o CEBES como a ABRASCO
defendiam, na época, a promoção da saúde em vez de políticas públicas
que somente se preocupavam com o controle das doenças, a existência
de um sistema de saúde universal e unificado e a participação social
(LIMA; SANTANA, 2006; SOPHIA, 2012). 
 Por que surge um movimento sanitário? De acordo com Escorel (1999),um pensamento transformador na área da saúde surge no período da
ditadura militar, no momento mais repressivo, no qual a classe popular e
seus representantes eram calados pelo regime. Manifesta-se, então, uma
“voz”, sob bases universitárias, em busca dos personagens, ou seja, da
classe popular e da classe trabalhadora, que não marcava presença no
cenário político (geral e setorial), antes mesmo delas próprias se
organizarem, sendo, portanto, esse desenvolvimento teórico que acabou
dando sustentação ao movimento sanitário. 
 Nessa perspectiva, o movimento da Reforma Sanitária brasileira iniciou
na década de 1970, por profissionais da saúde e pessoas vinculada ao
setor, em busca da melhoria das condições de saúde, qualidade de vida e
de atenção à saúde da população, tendo o sanitarista Sérgio Arouca como
um dos principais militantes, em um cenário repressivo, devido à ditadura
militar, e de crise econômica, repercutindo de maneira negativa nas
condições de vida e saúde do povo brasileiro. 
 Assim, buscava-se a transformação do setor saúde, por meio de práticas
ideológicas, teóricas e políticas, visando à consecução dos direitos de
cidadania (ESCOREL, 1999; 2008). 
ᅠConforme Escorel (1999), esse movimento iniciou dentro das
universidades por ação conjunta entre professores e alunos da área da
saúde, em especial de medicina, que pressionavam para que houvesse uma
maior aproximação com a realidade sanitária populacional. Em sua
composição original, era formado por três vertentes principais: o CEBES,
em conjunto com os estudantes; os médicos residentes e de renovação
médica e os profissionais das áreas de docência e pesquisa das
universidades, sendo o CEBES o veículo de difusão e ampliação dos debates
e elaboração das propostas.
Capítulo 2
40
 Portanto, foi um movimento social organizado, que se revelou muito
mais permanente do que pontual, representado por diversas categorias
(professores, acadêmicos, pesquisadores, profissionais, sociedades
científicas, entidades comunitárias, sindicatos) que lutava pela
reestruturação do sistema de serviços de saúde e defendia a
democratização da saúde, sendo contrário à política de saúde vigente,
que era da medicina privatista previdenciária.
 O movimento sanitário foi conceituado por Escorel (1999, p. 63) como a
“articulação de um grupo de pessoas em torno de um pensamento e de
uma proposta de transformação do setor saúde [...] com uma atuação
bem definida e bem visível para outros setores”. 
 Nessa dimensão, o movimento sanitário apregoava a criação de um
sistema único de saúde, sendo o Estado o responsável soberano, sendo
delegado a ele o planejamento e a execução da política de saúde,
devendo estabelecer mecanismos para o financiamento desse sistema,
que deveria ser organizado de forma descentralizada, permitindo que a
população participasse de forma democrática para que obtivesse maior
eficácia (ESCOREL, 1999). 
 Vale salientar que, de acordo com a Fiocruz (c2020), a Reforma Sanitária
foi aventada durante um período de mudanças intensas, cuja realidade
social (anos 1980) era de exclusão da maioria da população no que se
refere aos direitos à saúde, haja vista que a assistência era restrita aos
contribuintes do INAMPS, e desde sempre teve o objetivo de ser muito
mais do que uma reforma setorial, ambicionando servir à democracia e à
consolidação da cidadania no Brasil. Ademais, o movimento sanitário
apresentava basicamente quatro propostas concretas: 1ª – o direito de
todo cidadão, sem distinção, exclusão ou discriminação, ao acesso à
assistência pública de saúde; 2ª – as ações de saúde deveriam ser de
cunho preventivo e/ou curativo; 3ª – descentralização administrativa e
financeira da gestão e 4ª – controle social das ações de saúde.
 Não podemos deixar de mencionar o trabalho de Silvia Gerschman, A
democracia inconclusa: um estudo da reforma sanitária brasileira (1999),
que versa, dentre vários temas, a atuação dos movimentos populares de
saúde e o movimento médico, considerando-os protagonistas no
processo de formulação e implementação das políticas de saúde entre os
anos de 1970 e 1994, assim como aborda as limitações da Reforma
Sanitária, que, segundo a autora, deixam de ser vistas como derrota e
tornam-se parte de um processo inconcluso da construção da
democracia. 
Capítulo 2
41
 Gerschman (1999) aponta também para o importante papel que os
movimentos sociais tiveram para a construção dos ideais da Reforma
Sanitária, os quais foram expressos na VIII CNS. Portanto, os princípios e as
diretrizes da Reforma Sanitária foram sistematizados nesta Conferência,
destacando-se o conceito ampliado de saúde, o sistema unificado de saúde
e a participação popular. Lembrando que esse movimento está presente
até os dias atuais, tendo como a bandeira de luta a continuidade e a
consolidação do SUS, que serão discutidas posteriormente. 
 O que vem a ser exatamente a Reforma Sanitária? Segundo Paim (2007, p.
135), a primeira edição do Jornal da Reforma Sanitária tentou definir o que
é Reforma Sanitária, relatando que “deve ser entendida como um longo
processo político de conquistas da sociedade em direção à democratização
da saúde, num movimento de construção de um novo Sistema Nacional de
Saúde”. 
 Nessa acepção, sobre a democratização da saúde, Paim (2007) relata que
para que ela aconteça, deve-se ir muito além do que a formulação de uma
Política Nacional de Saúde ou a construção de um novo Sistema Nacional
de Saúde, sendo necessária uma revisão das concepções, paradigmas e
técnicas, de forma crítica, além de mudanças no relacionamento entre
Estado e seus aparelhos com a sociedade. 
 Lembrando que o tema “Saúde é democracia” foi a tônica das proposições
da Reforma Sanitária, a qual foi defendida pelo sanitarista Sergio Arouca
em seu discurso de abertura na VIII CNS.
 Sérgio Arouca elaborou a primeira sistematização sobre o que seria a
Reforma Sanitária, a qual deveria ser entendida como um processo de
transformação da atual situação sanitária, com base em pelo menos quatro
dimensões (específica, institucional, ideológica e das relações), levando à
discussão cinco questões: estrutura do SUS, controle social, modernidade,
ciência e tecnologia e produção (PAIM, 2007). 
Capítulo 2
42
 Cabe salientar que, na época, não houve um consenso para a definição de
Reforma Sanitária, apesar dos esforços em delimitar de forma teórica e
conceitual. Após revisarem as concepções de saúde e seus determinantes,
concluíram que a Reforma Sanitária é uma ideia (que se plasmava durante
a ditadura); uma proposta (apresentada pelo CEBES); um movimento
(mobilizando forças sociais, ideológicas e políticas); um projeto (sintetizado
no Relatório Final da VIII CNS) e um processo (transformando-se em
bandeira de luta) simultaneamente. Paim (2007) concluiu e definiu que a
Reforma Sanitária Brasileira é uma reforma social centrada nas
democratizações da saúde, do Estado e da sociedade e cultura.
 Assim, podemos depreender que a definição de Reforma Sanitária não é
unívoca, apresentando distintos entendimentos, uma vez que envolve
posições e perspectivas acerca do tema em si. 
 De acordo com Souza et al. (2019), a Reforma Sanitária Brasileira obteve
conquistas importantes por meio de três vias estratégicas, ou seja, pela via
parlamentar, uma vez que registrou o direito à saúde e criou o Sistema
Único de Saúde na Constituição; pela via técnico-institucional, haja vista que
possibilitou a implantação de políticas e programas de saúde; e pela via
sociocomunitária, ao passo que apostou na participação social. 
 Outro aspecto importante a ser retratado é que a expressão Reforma
Sanitária não consta nos relatórios das CNS posteriores, somente
ressurgindo na XII CNS, em 2003. Além disso, é relevante recordar que a
Reforma Sanitária Brasileira impulsionou a criação do Sistema Único de
Saúde, instituído pela Constituição Federal de 1988. 
 No que tange ao movimento sanitário, entre 1986 e 1990, ele passou por
significativas transformações, assumindo uma configuração diferenciadadaquela de sua origem, que lhe imprimiram novas características,
incorporando novas vertentes. Com isso, surgiram alguns confl itos e pontos
de tensão dentro do próprio movimento, assim como novos desafi os
externos a serem enfrentados. Nesse sentido, o processo da Reforma
Sanitária adentrou em um momento caracterizado por ser eminentemente
de base local e municipal (ESCOREL, 1999).
Capítulo 2
43
 Iniciamos o nosso tópico com a imagem da VIII Conferência Nacional de
Saúde, bem como com seus eixos temáticos (principais temas) e elementos
constitutivos. 
 Da mesma forma que relatamos no tópico anterior, não é nossa intenção
nos aprofundar nesse assunto, mas trazer à tona os principais elementos
para que você possa compreender a dimensão e a signifi cância dessa
Conferência, ocorrida há mais de 30 anos, que continua sendo reverberada
até hoje.
Dica de Leitura 
Na atual conjuntura, ainda existe o movimento da
Reforma Sanitária? Não traremos a resposta para esse
questionamento, pois queremos que você acesse o link
a seguir, leia o material intitulado Para onde vai a
Reforma Sanitária Brasileira? e tire as suas próprias
conclusões. Acesse o QR Code ao lado para assistir o
vídeo.
Vídeo 
Sugerimos que você acesse a videoaula - Parte 1 -
Reforma Sanitária: trajetória e rumos do SUS, de
Jairnilson, bem como a Parte 2. Acesse o QR Code
ao lado para assistir o vídeo.
1.2 VIII CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE
PRINCIPAIS TEMAS: Saúde como direito. 
Reformulação do Sistema Nacional de Saúde. 
Financiamento do setor. 
PRINCIPAIS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS: Ampliação do
conceito de saúde. 
Reconhecimento da saúde como direito de todos e dever do
Estado. 
Criação de um Sistema Único de Saúde. Participação
popular. 
Constituição e ampliação do orçamento social.
Capítulo 2
44
Figura 1. VIII CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE 
Fonte: https://conselho.saude.gov.br/ultimas-noticias-cns/592-8-conferencia-nacional-de-saude-
quando-o-suas-ganhou-forma.
#ParaTodosVerem: a imagem mostra uma fotografia em preto e branco da 8ª Conferência
Nacional de Saúde. Em primeiro plano, várias pessoas levantam as mãos . Ao fundo, há uma longa
mesa com pessoas sentadas e, atrás delas, um grande painel escrito “8ª Conferência Nacional de
Saúde”.
Quadro 1. Tipos de riscos empresariais 
Fonte: adaptado de Paim (2007).
Capítulo 2
45
 Pronto para conhecer ou relembrar um pouco desse fato histórico? Então,
vamos lá! 
 Em julho de 1985, por solicitação do Ministro da Saúde, o Presidente da
República convoca a VIII CNS, que foi realizada em março de 1986. Ressalta-
se que essa convocação ocorreu durante um conflito entre o Ministério da
Saúde (MS) e o Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS), uma
vez que a ideia era levar o INAMPS para o MS e estender a assistência à
saúde aos demais que não eram previdenciários, conforme uma das
propostas do movimento sanitário, o que não foi bem-aceito pelo MPAS.
Assim, a VIII CNS seria uma tentativa de solucionar o impasse (PAIM, 2008;
CHAGAS; TORRES, 2008). 
 Ainda em 1985, a ABRASCO elabora um documento, denominado Pelo
direito universal à saúde, assumindo a bandeira da Reforma Sanitária para
fundamentar as discussões a serem apresentadas na VIII CNS. Nesse
documento foi salientado que a saúde deveria ser vista como um conjunto
de condições de vida que devem ir além do setor saúde, bem como
defendeu a participação da população na política de saúde e o controle da
sociedade sobre o aparelho estatal (controle social), definindo uma
estratégia política e diretrizes a fim de subsidiar elementos teóricos, técnicos
e científicos para a Reforma Sanitária a ser desenvolvida a partir de 1987
(PAIM, 2007).
 O Relatório final da VIII CNS, elaborado pelo Prof. Guilherme R. da Silva,
registrou a participação de mais de 4 mil pessoas, incluindo mil delegados
(indicados por organizações e entidades), tornando-se o maior evento em
termos de participação populacional para debater políticas e programas de
saúde. Vale lembrar que as CNS anteriores se pautavam por um caráter
eminentemente técnico, com participação quase restrita de técnicos e
gestores, com baixa representatividade social (BRASIL, 1986; CHAGAS;
TORRES, 2008).
 De acordo com o Relatório, os temas centrais da VIII CNS foram: Saúde
como direito (tratou dos aspectos da saúde em geral e como ela seria
definida no Brasil); Reformulação do Sistema Nacional de Saúde
(apresentou a necessidade de um sistema de saúde capaz de suprir as
demandas, iniciando-se a discussão da formação de um sistema de saúde
que fosse único); Financiamento setorial (tratou sobre como esse sistema
seria financiado) (BRASIL, 1986). Outros temas também foram debatidos,
dentre eles a hierarquização, a participação popular, o atendimento integral,
as ações de promoção, proteção e recuperação da saúde etc., proposições
advindas dos movimentos da Medicina Preventiva da Saúde Comunitária
(PAIM, 2007). 
Capítulo 2
46
Site 
Quer ter acesso aos Anais da VIII
CNS? Acesse o Qr Code ao lado para
conferir.
 O Relatório da VIII CNS indicou a necessidade de mudanças no sistema de
saúde brasileiro, apontando que tais mudanças não seriam alcançadas
apenas com reformas administrativas e financeiras, seria necessário ampliar
o conceito de saúde, revisar a legislação, recomendando que um novo
sistema único de saúde fosse formado, desmembrado da Previdência, ou
seja, era fundamental uma Reforma Sanitária. Também expôs a necessidade
da participação da população na formulação da política, planejamento,
gestão e avaliação do sistema de saúde, por intermédio de órgãos
representativos. Cabe frisar que este documento fomentou a criação do
Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde (SUDS), em 1987, o qual
mencionamos no Capítulo 1, assim como o Sistema Único de Saúde (SUS).
Capítulo 2
47
 Dessa forma, a VIII CNS definiu as estratégias a serem defendidas na
Constituição de 1988 e contribuiu com ideias fundamentais para a
constituição do novo Sistema Único de Saúde, como a participação popular,
a equidade (acesso dos que necessitam de mais atenção, tratando os
desiguais de forma igual, priorizando os que têm menos); a descentralização
(gestão dos serviços em MS, SES, SMS); a integralidade (superação da
dicotomia serviços preventivos e curativos), ver o indivíduo como um todo,
verificando os fatores que levaram à doença; a universalidade (cobertura
populacional de qualquer classe socioeconômica, prevalecendo a equidade).
 Ressalta-se que ao encerrar a VIII CNS, novas imposições foram colocadas
para a Reforma Sanitária, sendo instituída a Comissão Nacional de
Reforma Sanitária (CNRS), composta por representantes de diversos
segmentos público e privado, a qual teria como responsabilidade estruturar
as resoluções da Conferência, trabalhando de forma técnica o documento
que seria entregue para a Assembleia Constituinte, contribuindo para a nova
Constituição (CHAGAS; TORRES, 2008). Entretanto, Paim (2007) relata que a
CNRS não desempenhou de maneira satisfatória sua função, que seria de
ser o braço normatizador, mas que apesar das críticas, acabou
apresentando um saldo positivo. 
 Os principais desdobramentos da VIII CNS foram a formação da CNRS e a
conformação da Plenária Nacional de Entidades de Saúde, a qual se fez
representar no processo constituinte a fim de que as propostas elaboradas
durante a Conferência fossem aprovadas, culminando em um capítulo sobre
saúde inédito na história constitucional (ESCOREL, 1999). 
 Conforme Paim (2007), após a VIII CNS, houve um certo imobilismo por
parte do governo e falta de compromisso com o projeto da Reforma
Sanitária, causando perplexidade das entidades, uma vez que o Ministério
da Saúde continuou com a sua prática campanhista no combate à dengue.
Necessitando, desta forma, da intervenção do movimento sanitarista para
pressionar o governo, a fim de que a Reforma Sanitária fosse colocada em
prática, sendo que a ABRASCO teve papel fundamental.
Capítulo 2
48
 Cabe mencionar que a Conferência em tela não ficou restrita a sua

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