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Guia de Pares Cranianos

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Guia de Estudo — Pares Cranianos 
Anatomia, Semiologia e Clínica 
Baseado na sua Ficha de Tronco Encefálico, na Aula 2 "Pares Cranianos e sua Semiologia" e em pesquisa 
complementar. 
Como você já domina a parte de tronco encefálico (topografia, regra 2-2-4-4, síndromes alternas), este guia foca 
em cada nervo craniano individualmente: origem/trajeto → função → como examinar → o que a lesão causa → 
pérolas clínicas. Isso é exatamente o que cai em prova prática e em questões de caso clínico. 
 
Visão geral dos 12 pares cranianos e seus territórios sensitivos/motores. (Netter, slide da Aula 2) 
 
 
 
 
 
 
 
 
Como pensar em qualquer par craniano (checklist mental) 
Para cada nervo, pergunte: 
1. De onde sai (núcleo/tronco) e por onde sai do crânio (forame)? 
2. É motor, sensitivo ou misto? 
3. Como eu testo à beira do leito? 
4. Lesão central (núcleo/via) vs. periférica (nervo) — qual a diferença no quadro? 
5. Qual doença "clássica" a prova ama associar a esse nervo? 
 
NC I — Nervo Olfatório 
Anatomia: exclusivamente sensitivo. Neurônios receptores no epitélio olfatório → filetes atravessam a lâmina 
crivosa do etmoide → bulbo olfatório → trato olfatório (não passa pelo tálamo antes do córtex — via sensitiva 
"diferentona"). 
Exame: raramente testado de rotina; só quando há queixa ou suspeita de lesão de base de crânio anterior. 
Testa-se cada narina separadamente (ocluindo a outra), olhos fechados, com substâncias não irritantes (café, 
cravo, canela, baunilha) — nunca álcool/amônia puros, pois estimulam o trigêmeo (via nasal) e mascaram uma 
anosmia real. 
Alterações: 
• Anosmia (perda total), hiposmia (redução), disosmia/parosmia (distorção), fantosmia (alucinação olfativa, 
sugere crise epiléptica de lobo temporal/uncus). 
• Causas mais cobradas: TCE (cisalhamento das fibras na lâmina crivosa), tumores de base de crânio (ex.: 
meningioma de sulco olfatório), doenças neurodegenerativas (sinal precoce de Parkinson e Alzheimer), 
infecções virais (COVID-19 é hoje causa clássica). 
• Diferenciar: anosmia de condução (obstrução nasal, rinite, pólipo) vs. neurossensorial (lesão do próprio 
nervo/epitélio) vs. central (córtex/via). 
 
NC II — Nervo Óptico 
Anatomia: sensitivo. Retina → nervo óptico → quiasma óptico (cruzamento das fibras nasais) → trato óptico → 
corpo geniculado lateral → radiações ópticas → córtex occipital. É tecnicamente um trato do SNC (mielina por 
oligodendrócito) — por isso pode ser envolvido em esclerose múltipla (neurite óptica). 
Exame: 
• Acuidade visual: tabela de Snellen a 6 m (ou tabela de bolso a 35-40 cm), cada olho isoladamente. 
• Campo visual por confrontação: paciente fixa o nariz do examinador; este move o dedo na periferia dos 4 
quadrantes. 
• Reflexo fotomotor (aferência do II, eferência do III) e fundoscopia (avalia papila/disco óptico). 
 
Padrões de defeito de campo visual conforme o local da lesão. 
Padrões de lesão (muito cobrado em prova): 
Local da lesão Déficit visual 
Nervo óptico (antes do quiasma) Amaurose (cegueira) unilateral 
Quiasma (ex.: tumor de hipófise) Hemianopsia bitemporal 
Trato óptico/radiação (pós-quiasma) Hemianopsia homônima contralateral 
Radiação temporal (alça de Meyer) Quadrantanopsia superior homônima 
Córtex occipital Hemianopsia homônima com preservação macular 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
NC III, IV e VI — Oculomotor, Troclear e Abducente 
Já estudados na ficha de tronco (III no mesencéfalo/fossa interpeduncular, IV único dorsal e cruzado, VI na 
ponte). Aqui o foco é o exame conjunto, pois são testados juntos. 
Função: 
• III (Oculomotor): move quase todos os músculos extraoculares (reto superior, inferior, medial, oblíquo 
inferior), eleva a pálpebra e é a via eferente do reflexo pupilar (miose e acomodação). 
• IV (Troclear): oblíquo superior — olhar para baixo quando o olho está aduzido (ex.: descer escada). 
• VI (Abducente): reto lateral — abdução do olho. 
 
Teste das 6 posições cardinais do olhar ("H") e o músculo/nervo responsável em cada direção. 
Exame (o "H" de olhar): 
6. Inspeção estática: simetria dos olhos, ptose, posição do globo, estrabismo. 
7. Pede-se para seguir o dedo do examinador nas 6 posições cardinais do olhar, sem mover a cabeça. 
8. Observar: desvio assimétrico, diplopia (monocular = ocular; binocular = nervo/músculo), nistagmo. 
9. Reflexo fotomotor direto e consensual e reflexo de acomodação/convergência. 
10. Semiologia pupilar: forma, tamanho (2-4 mm), simetria, reatividade. 
Achados de lesão: 
• Paralisia do III: ptose + olho desviado "para baixo e para fora" + midríase (compressão — ex.: aneurisma de 
comunicante posterior, herniação de úncus). *Pupila poupada* sugere causa isquêmica/microvascular 
(diabetes). 
• Paralisia do IV: dificuldade de olhar para baixo/dentro — paciente inclina a cabeça para o lado contrário 
(tilt compensatório), diplopia vertical ao descer escadas. 
• Paralisia do VI: olho não abduz, diplopia horizontal binocular. É o nervo mais longo intracranialmente — 
vulnerável a hipertensão intracraniana (sinal "falso localizatório"). 
• FLM: conecta III-IV-VI-VIII para o olhar conjugado; lesão causa oftalmoplegia internuclear (comum em EM 
em jovens). 
 
NC V — Nervo Trigêmeo 
(Aula 2 dedica bastante tempo a este nervo — anatomia do gânglio de Gasser/trigeminal e os 3 ramos.) 
Anatomia: o maior nervo craniano; misto, mas predominantemente sensitivo. Origem aparente na face 
anterolateral da ponte. Corpos celulares sensitivos no gânglio trigeminal (gasseriano), no cavo de Meckel. Três 
ramos: 
• V1 (oftálmico): sensibilidade da fronte, córnea, dorso do nariz — fissura orbital superior. 
• V2 (maxilar): bochecha, lábio superior, dentes superiores, palato — forame redondo. 
• V3 (mandibular): único ramo misto — mandíbula, lábio inferior, 2/3 anteriores da língua, meninges — 
forame oval. Núcleo motor inerva os músculos da mastigação. 
 
Ramo mandibular do trigêmeo (V3) e seu território sensitivo. (Netter, slide da Aula 2) 
Exame: 
• Função motora: palpar masseter/temporal com dentes cerrados; a mandíbula desvia para o lado fraco se 
houver paresia; testar lateralização e protrusão. 
• Função sensitiva: tato, dor e temperatura nos 3 territórios (V1, V2, V3), comparando os dois lados. 
• Reflexo corneopalpebral: aferência V1 → eferência VII. 
• Reflexo mandibular (mentoniano): percussão do queixo → contração do masseter (arco todo pelo V). 
Clínica: 
• Neuralgia do trigêmeo: dor lancinante em choque, unilateral, com zona de gatilho (barbear, escovar 
dentes, vento no rosto). Geralmente compressão vascular; pode ser secundária a esclerose múltipla, 
tumores do ângulo pontocerebelar, doenças do colágeno (Sjögren, esclerodermia). 
• Herpes zoster oftálmico (V1) — risco de acometimento corneano. 
 
NC VII — Nervo Facial 
(Parte mais detalhada da aula — atenção redobrada aqui.) 
Anatomia e trajeto: origem aparente no sulco bulbopontino. Trajeto intrapetroso longo e tortuoso dentro do 
canal facial, perto da orelha média (por isso lesões óticas afetam o VII). Ramos importantes: 
• Nervo petroso maior: lacrimejamento (glândula lacrimal). 
• Nervo do músculo estapédio: protege a orelha de sons altos (paralisia causa hiperacusia). 
• Corda do tímpano: paladar dos 2/3 anteriores da língua + sensibilidade de parte do canal auditivo. 
• Ramo motor terminal: temporal, zigomático, bucal, mandibular e cervical — toda a musculatura mímica. 
 
Trajeto intrapetroso do facial e relação com a orelha média/tímpano. (Netter, slide da Aula 2) 
Exame da função motora: 
• Inspeção estática: assimetria de sulcos (nasolabial), da fenda palpebral. 
• Inspeção dinâmica: enrugar a testa, fechar os olhos com força, sorrir mostrando os dentes, assobiar/estufar 
a bochecha. 
Exame da função sensitiva/outras: paladar nos 2/3 anteriores da língua; reflexo corneopalpebral (eferência). 
A distinção mais cobrada em prova — Paralisia facial CENTRAL vs. PERIFÉRICA: 
 Central (via corticonuclear/AVC)Periférica (Paralisia de Bell) 
Testa Poupada (inervação cortical bilateral) Comprometida (não franze, não fecha o 
olho) 
Andar inferior Comprometido, contralateral Comprometido, ipsilateral 
Sinal de Bell Ausente Presente (globo desvia para cima) 
 
 
Paralisia de Bell (PFP à esquerda): incapacidade de levantar a sobrancelha, fechar o olho e desvio da boca. (Slide da Aula 2) 
• Paralisia de Bell (PFP idiopática): causa mais comum de PFP. Fatores associados: diabetes mellitus (4-5x 
mais risco), HIV, doença de Lyme (10-25% em áreas endêmicas), herpes zoster (síndrome de Ramsay-Hunt), 
sarcoidose, tumores de parótida/ângulo pontocerebelar. 
• Dependendo do nível da lesão no trajeto, somam-se: perda de lacrimejamento, hiperacusia ou perda de 
paladar — ajuda a localizar topograficamente a lesão. 
• Toxina botulínica é usada tanto para espasmo hemifacial quanto para fins estéticos. 
 
NC VIII — Nervo Vestibulococlear 
Anatomia: duas porções — coclear (audição) e vestibular (equilíbrio) — que se juntam no meato acústico 
interno, no ângulo pontocerebelar (local do schwannoma vestibular). 
 
Anatomia do nervo vestibulococlear: porções coclear e vestibular. (Netter, slide da Aula 2) 
Exame da porção coclear: 
• Observação funcional: conversar em voz baixa/alta, repetir palavras, virar a cabeça para ouvir, dificuldade 
ao telefone. 
• Teste de Weber: diapasão (512 Hz) no vértice do crânio. Lateraliza para o ouvido doente → perda 
condutiva; lateraliza para o sadio → perda neurossensorial do lado que não ouviu. 
• Teste de Rinne: compara condução aérea x óssea; normal/neurossensorial = aérea > óssea; condutiva = 
óssea > aérea. 
• Sempre verificar a membrana timpânica antes. 
Exame da porção vestibular: nistagmo, Romberg, marcha, manobra de Dix-Hallpike (VPPB). 
Clínica — causas de vertigem: 
• Otológicas: VPPB (mais comum), doença de Ménière, neurite vestibular, labirintite. 
• Neurológicas: enxaqueca vestibular, isquemia vertebrobasilar, schwannoma vestibular. 
• Periférica x central: periférica = início súbito, náusea importante, nistagmo horizontal que melhora com 
fixação visual; central = sinais neurológicos associados (diplopia, disartria, ataxia), nistagmo multidirecional 
sem melhora com fixação — alarme para AVC de fossa posterior. 
 
NC IX — Nervo Glossofaríngeo 
Anatomia: emerge no sulco lateral posterior do bulbo (junto com X e XI). Nervo misto: 
• Motor: músculo estilofaríngeo (eleva a faringe/laringe). 
• Sensitivo: 1/3 posterior da língua (paladar azedo/amargo), faringe, tonsila, orelha média, seio e corpo 
carotídeos. 
• Parassimpático: glândula parótida. 
 
Exame do palato/úvula — testado em 
conjunto com o nervo vago (X). (Slide 
da Aula 2) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Exame: testado junto com o X — reflexo do vômito (nauseoso): aferência IX, eferência X. 
Clínica: Neuralgia do glossofaríngeo — dor lancinante unilateral na garganta, irradiando para trompa de 
Eustáquio/canal auditivo/ângulo da mandíbula. Zona de gatilho: faringe, tonsila, base da língua. Pode causar 
síncope, convulsão e raramente parada cardíaca (reflexo do seio carotídeo). 
 
NC X — Nervo Vago 
Anatomia: maior trajeto e distribuição do corpo — pescoço, mediastino, tórax e abdome. Sensitivo, motor 
(faringe/laringe) e parassimpático (coração, pulmões, TGI). 
Exame: 
• Avaliar qualidade da voz (rouquidão, voz nasalada) e a fala. 
• Observar posição do palato mole e da úvula em repouso e ao dizer "A". 
• Sinal da cortina de Vernet: em lesão unilateral do X, o palato cai e a úvula desvia para o lado oposto 
(sadio) — como puxar uma cortina para o lado são. 
• A úvula/palato também é protegida pelo tensor do véu palatino (do V). 
• Disfonia aguda unilateral pode vir acompanhada de disfagia. 
Clínica — causas a suspeitar: doenças do pescoço, tumores de mediastino alto (carcinoma de tireoide), 
adenopatia cervical, lesões metastáticas, doença de Hodgkin, linfossarcoma, aneurisma aórtico (compressão do 
laríngeo recorrente esquerdo), trauma cirúrgico (tireoidectomia). 
 
NC XI — Nervo Acessório (espinhal) 
Anatomia: origem dupla — raiz craniana (bulbar) e raiz espinhal (C1-C5/C6). É a raiz espinhal que inerva o 
esternocleidomastóideo (ECM) e o trapézio. 
 
Nervo acessório (espinhal) e sua distribuição para ECM e trapézio. (Netter, slide da Aula 2) 
Função/exame: 
• ECM: rodar a cabeça contra resistência — o ECM direito roda a cabeça para a esquerda (ação 
contralateral). 
• Trapézio: elevar os ombros contra resistência (assimetria, atrofia, "ombro caído"). 
Clínica: nervo superficial no triângulo posterior do pescoço — vulnerável a lesões iatrogênicas (biópsias, 
esvaziamento cervical). Causas: lesão de base de crânio, meningite, tumores extramedulares, adenopatia 
cervical, abscesso, e doenças neuromusculares que mimetizam fraqueza (miastenia gravis, polimiosite, distrofia 
fascioescapuloumeral). 
 
NC XII — Nervo Hipoglosso 
Anatomia: origem no sulco lateral anterior (pré-olivar) do bulbo, sai pelo canal do hipoglosso. Exclusivamente 
motor — musculatura da língua (genioglosso, hioglosso, estiloglosso). 
 
Trajeto do nervo hipoglosso até a musculatura da língua. (Netter, slide da Aula 2) 
Exame: 
• Inspeção da língua em repouso: atrofia, fasciculações (lesão de neurônio motor inferior, ex.: ELA). 
• Protrusão da língua: em lesão periférica unilateral, a língua desvia para o lado da lesão. 
• Testar força lateral da língua contra a bochecha/abaixador de língua. 
Clínica: 
• Síndrome Bulbar Medial (Dejerine): paralisia/atrofia da língua ipsilateral + hemiparesia contralateral. 
• Lesão central unilateral: desvio discreto e transitório, sem atrofia/fasciculação. 
 
Reflexos de tronco (revisão rápida, sentido craniocaudal) 
Reflexo Nível Aferência Eferência 
Fotomotor Mesencéfalo II III 
Corneopalpebral Ponte V VII 
Oculocefálico ("olhos de boneca") Ponte/mesencéfalo VIII III e VI (FLM) 
Nauseoso/tosse Bulbo IX X 
 
 
Pérolas de raciocínio clínico para a prova 
1. Regra-mestre da síndrome alterna: sintoma do nervo craniano = ipsilateral; sintoma motor/sensitivo do 
corpo = contralateral. 
2. Central vs. periférico é o tema mais recorrente: facial (poupa testa x não poupa), hipoglosso 
(fasciculação/atrofia = periférico), vago (voz/úvula). 
3. Associe sempre nervo → forame de saída → estrutura vizinha que pode comprimi-lo (ex.: VI na 
hipertensão intracraniana; VII no canal facial; VIII no ângulo pontocerebelar junto ao V e VII). 
4. Diferencie neuralgias de pares cranianos (V e IX): dor em choque, breve, com zona de gatilho — pense em 
compressão vascular/desmielinização. 
5. Quando a prova junta dois nervos num mesmo quadro (IX+X, ou VII+VIII), pense na localização anatômica 
compartilhada (forame jugular para IX-X-XI; ângulo pontocerebelar para VII-VIII). 
 
Dica de estudo: use esse guia junto com a Ficha de tronco encefálico que você já tem — ela dá a "visão de cima" 
(topografia, núcleos, síndromes alternas) e este guia dá a "visão de beira de leito" (como examinar e o que cada 
achado significa). Fazer perguntas do tipo "se o paciente tem X ao exame, onde está a lesão?" é o melhor jeito de 
treinar para questões de caso clínico.

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