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UNIPLAN CENTRO UNIVERSITÁRIO PLANALTO DO DISTRITO FEDERAL BACHARELADO EM ENFERMAGEM FABIANO SILVEIRA COSTA - UL23206051 ELETROCARDIOGRAMA ALTAMIRA - PA 2026 FABIANO SILVEIRA COSTA ELETROCARDIOGRAMA Fundamentos, técnica, interpretação e relevância clínica Trabalho acadêmico apresentado como requisito avaliativo para a conclusão do Estágio Curricular II do curso de Bacharelado em Enfermagem, sob orientação da enfermeira docente Joelma Santos de Oliveira Souza. ALTAMIRA - PA 2026 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO....................................................................................................................1 2 OBJETIVOS........................................................................................................................ 2 2.1 Objetivo geral............................................................................................................2 2.2 Objetivos específicos...............................................................................................2 3 DESENVOLVIMENTO.......................................................................................................2 3.1 Conceito e evolução histórica do eletrocardiograma..........................................2 3.2 Bases eletrofisiológicas da atividade cardíaca....................................................3 3.3 Sistema de derivações e eletrodos....................................................................... 4 3.4 Padronização e técnica de realização.................................................................. 5 3.5 Ondas, segmentos e intervalos do ECG.............................................................. 6 3.6 Análise sistemática do eletrocardiograma............................................................7 3.7 Principais alterações eletrocardiográficas............................................................8 3.8 Ritmo sinusal e variações da frequência cardíaca............................................. 9 3.9 Arritmias supraventriculares.................................................................................10 3.10 Arritmias ventriculares.........................................................................................11 3.11 Bloqueios atrioventriculares e intraventriculares............................................ 11 3.12 Isquemia, lesão miocárdica e síndrome coronariana aguda........................ 12 3.13 Sobrecargas atriais e ventriculares...................................................................13 3.14 Alterações eletrolíticas e efeitos farmacológicos............................................14 3.15 Eletrocardiograma em populações e situações especiais............................ 14 3.16 ECG de repouso, monitorização e métodos complementares.....................15 3.17 Aplicações clínicas, vantagens e limitações....................................................15 3.18 Erros técnicos, artefatos e prevenção de interpretações equivocadas.......16 3.19 Segurança, qualidade do registro e atuação da equipe de saúde...............17 3.20 Importância do eletrocardiograma para a formação e prática em saúde... 18 4 METODOLOGIA...............................................................................................................18 5 CONCLUSÃO................................................................................................................... 19 REFERÊNCIAS....................................................................................................................21 1 1 INTRODUÇÃO O eletrocardiograma (ECG) é um exame complementar não invasivo que registra, na superfície corporal, as variações de potencial elétrico produzidas pela despolarização e pela repolarização do miocárdio. Embora seja um método de execução relativamente simples, sua interpretação exige conhecimento de anatomia, fisiologia, eletrofisiologia, técnica de registro e correlação com o quadro clínico. A American Heart Association destaca que o ECG mede a atividade elétrica do coração e fornece informações sobre frequência, regularidade do ritmo e temporização dos sinais elétricos cardíacos (AMERICAN HEART ASSOCIATION, 2026). Desde a consolidação da eletrocardiografia no início do século XX, o exame tornou-se um dos procedimentos diagnósticos cardiovasculares mais utilizados na prática clínica. Kligfield et al. (2007) ressaltam que o ECG é uma ferramenta fundamental, particularmente para a identificação de arritmias, distúrbios de condução e alterações associadas às síndromes coronarianas agudas. Seu baixo custo, ampla disponibilidade e rapidez favorecem o emprego em unidades básicas, ambulatórios, enfermarias, serviços de urgência, terapia intensiva e avaliações pré-operatórias. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Cardiologia estabelece critérios para padronizar a análise e a emissão de laudos eletrocardiográficos. A diretriz brasileira recomenda que a avaliação descritiva contemple ritmo e frequência cardíaca, onda P e intervalo PR, eixos elétricos, complexo QRS e repolarização ventricular, incluindo ST, T, QT e onda U quando pertinente (SAMESIMA et al., 2022). Essa sistematização reduz ambiguidades e contribui para maior uniformidade na comunicação entre profissionais. O ECG deve ser compreendido como parte de uma avaliação clínica integrada. Um traçado normal não exclui todas as doenças cardiovasculares, e um achado alterado nem sempre representa doença aguda. A interpretação depende de idade, sexo, condição clínica, medicamentos, distúrbios metabólicos, posicionamento dos eletrodos e qualidade técnica do registro. Por essa razão, a análise eletrocardiográfica deve ser correlacionada com anamnese, exame físico e, quando indicado, outros exames complementares (SAMESIMA et al., 2022). 2 Este relatório aborda os fundamentos do eletrocardiograma, as bases eletrofisiológicas, as derivações, a técnica de realização, os componentes do traçado, a sequência de interpretação, alterações frequentes, aplicações clínicas, limitações e cuidados relacionados à qualidade do exame. A discussão é baseada prioritariamente em diretrizes e documentos científicos de referência, buscando apresentar o tema de forma acadêmica, organizada e aplicável à formação dos profissionais de saúde. 2 OBJETIVOS 2.1 Objetivo geral Analisar os fundamentos, a técnica, os parâmetros de interpretação e as principais aplicações clínicas do eletrocardiograma, destacando sua importância na avaliação cardiovascular e na tomada de decisões em saúde. 2.2 Objetivos específicos • Compreender os princípios eletrofisiológicos responsáveis pela formação do traçado eletrocardiográfico; • Descrever as derivações do ECG de 12 derivações e o posicionamento básico dos eletrodos; • Identificar ondas, segmentos, intervalos e principais parâmetros utilizados na leitura sistemática do ECG; • Apresentar alterações eletrocardiográficas frequentemente relacionadas a arritmias, distúrbios de condução, sobrecargas e isquemia miocárdica; • Discutir aplicações, vantagens, limitações e fatores técnicos capazes de interferir na qualidade e na interpretação do exame. 3 DESENVOLVIMENTO 3.1 Conceito e evolução histórica do eletrocardiograma O eletrocardiograma representa graficamente as diferenças de potencial elétrico geradas pelo coração ao longo do tempo. O aparelho registra sinais captados por eletrodos posicionados em locais padronizados do corpo e os apresenta como ondas e 3 complexos. O equipamento não aplica eletricidade ao paciente; ele registra a atividade elétrica já produzida pelo coração, característica que torna o ECG de repouso um exame seguro e não invasivo (AMERICAN HEART ASSOCIATION, 2026). A eletrocardiografia moderna está historicamente relacionada aos trabalhos de Willem Einthoven, que desenvolveu métodos de registro capazes de tornar a atividade elétrica cardíaca mensurável e clinicamente interpretável. Ao longo das décadas, o método evoluiu de equipamentos volumosos para sistemas digitais, portáteis eintegrados a softwares de análise. Apesar da automação, a interpretação clínica permanece dependente de revisão profissional, pois algoritmos podem produzir medições e hipóteses diagnósticas que necessitam ser confrontadas com o traçado e com o contexto do paciente (KLIGFIELD et al., 2007). A padronização internacional foi essencial para que registros obtidos em diferentes equipamentos e serviços pudessem ser comparados. Recomendações da AHA, ACC e HRS abordam tecnologia, aquisição digital, apresentação das ondas, posicionamento dos eletrodos e terminologia diagnóstica, com o objetivo de aumentar a precisão e a utilidade clínica do exame (KLIGFIELD et al., 2007; MASON et al., 2007). 3.2 Bases eletrofisiológicas da atividade cardíaca A atividade elétrica cardíaca resulta da geração e propagação de potenciais de ação através do sistema de condução e do miocárdio. Em condições fisiológicas, o impulso inicia-se no nó sinoatrial, localizado no átrio direito, propaga-se pelos átrios e alcança o nó atrioventricular. Em seguida, percorre o feixe de His, seus ramos e a rede de Purkinje, promovendo ativação organizada dos ventrículos. A sequência temporal dessa ativação está refletida nas diferentes partes do traçado. A despolarização atrial é representada principalmente pela onda P. O intervalo PR inclui o tempo necessário para a condução desde os átrios até o sistema His- Purkinje, enquanto o complexo QRS representa a despolarização ventricular. Após a ativação, ocorre a repolarização ventricular, observada sobretudo no segmento ST e na onda T. A diretriz brasileira recomenda que esses elementos sejam avaliados de maneira ordenada e que alterações de duração, amplitude, morfologia e eixo sejam descritas no laudo (SAMESIMA et al., 2022). A direção do vetor elétrico em relação a cada derivação 4 influencia a deflexão registrada. Quando a atividade elétrica se dirige ao polo positivo de uma derivação, tende a produzir deflexão positiva; quando se afasta, tende a produzir deflexão negativa. Essa relação vetorial explica por que o mesmo evento cardíaco assume morfologias distintas nas diferentes derivações e fundamenta a avaliação do eixo elétrico. A frequência cardíaca modifica a duração de alguns intervalos, especialmente o QT. Por isso, utiliza-se o QT corrigido para a frequência cardíaca (QTc). A interpretação do QTc deve considerar método de correção, frequência, sexo, idade, fármacos e condições clínicas, evitando conclusões isoladas. A avaliação adequada desse parâmetro é relevante porque alterações importantes da repolarização podem se associar a maior risco de arritmias ventriculares (SAMESIMA et al., 2022). 3.3 Sistema de derivações e eletrodos O ECG convencional utiliza 12 derivações: seis derivações dos membros e seis precordiais. As derivações bipolares I, II e III registram diferenças de potencial entre eletrodos dos membros. As derivações aumentadas aVR, aVL e aVF utilizam referências calculadas e também observam a atividade elétrica no plano frontal. As derivações V1 a V6 analisam o coração no plano horizontal, permitindo observar a progressão da despolarização ventricular através do precórdio. É importante diferenciar eletrodo de derivação. O eletrodo é o componente físico colocado sobre a pele, enquanto a derivação corresponde à perspectiva elétrica obtida a partir da combinação dos sinais. No ECG de 12 derivações são utilizados dez eletrodos para gerar doze perspectivas elétricas. A padronização do posicionamento é indispensável, pois erros de localização podem modificar a morfologia e simular alterações patológicas (KLIGFIELD et al., 2007). Nas derivações precordiais, V1 é posicionada no quarto espaço intercostal à direita do esterno e V2 no quarto espaço intercostal à esquerda. V4 situa-se no quinto espaço intercostal na linha hemiclavicular esquerda; V3 é colocada entre V2 e V4. V5 e V6 permanecem no mesmo nível horizontal de V4, respectivamente nas linhas axilar anterior e axilar média. A identificação correta dos espaços intercostais é necessária 5 para reduzir erros de registro. Os eletrodos dos membros devem ser aplicados de modo simétrico e com bom contato com a pele. Quando condições clínicas exigem posições alternativas, essa modificação deve ser reconhecida, porque registros obtidos com configurações diferentes não são necessariamente equivalentes ao ECG padrão. Kligfield et al. (2007) alertam que sistemas sintetizados a partir de conjuntos reduzidos de derivações não devem ser considerados automaticamente substitutos do ECG convencional de 12 derivações. 3.4 Padronização e técnica de realização A qualidade do ECG depende de preparação adequada do paciente, posicionamento correto dos eletrodos, calibração do equipamento e redução de artefatos. Antes do exame, recomenda-se explicar o procedimento, posicionar o paciente confortavelmente em decúbito dorsal e expor apenas as áreas necessárias. A pele deve estar limpa e seca; excesso de pelos pode dificultar a adesão e, quando necessário, deve ser manejado de forma apropriada. Na padronização convencional, a velocidade do papel ou da tela é de 25 mm/s e a calibração usual corresponde a 10 mm para 1 mV. Essas configurações permitem que distâncias horizontais representem tempo e distâncias verticais representem amplitude. Alterações de velocidade ou ganho podem ser úteis em situações específicas, porém devem ser claramente indicadas no registro para evitar interpretações equivocadas (KLIGFIELD et al., 2007). Artefatos podem ser produzidos por tremores, movimentação, mau contato dos eletrodos, interferência elétrica e preparação inadequada da pele. Antes de atribuir uma irregularidade a uma arritmia, deve-se verificar se o achado está presente de maneira coerente em diferentes derivações e se existe correspondência fisiológica. A repetição do exame pode ser necessária quando a qualidade do registro compromete a análise. A inversão de eletrodos dos membros e o posicionamento incorreto das derivações precordiais são causas evitáveis de traçados atípicos. A técnica deve seguir protocolos institucionais e recomendações de padronização, porque a confiabilidade diagnóstica depende não apenas da 6 interpretação, mas também da aquisição correta do sinal (SAMESIMA et al., 2022; KLIGFIELD et al., 2007). 3.5 Ondas, segmentos e intervalos do ECG A onda P corresponde à despolarização atrial e deve ser avaliada quanto à presença, regularidade, morfologia, duração, amplitude e relação com os complexos QRS. A análise da onda P contribui para identificar o ritmo sinusal e pode fornecer indícios de alterações atriais. Entretanto, a conclusão deve considerar o conjunto das derivações e o contexto clínico. O intervalo PR é medido do início da onda P ao início do complexo QRS. Ele representa o tempo de condução atrioventricular e pelo sistema especializado até o começo da ativação ventricular. Intervalos anormalmente prolongados podem ocorrer em distúrbios de condução atrioventricular, enquanto intervalos curtos podem estar presentes em condições específicas, incluindo padrões de pré-excitação. O complexo QRS representa a despolarização ventricular. Sua duração, amplitude, morfologia, progressão nas derivações precordiais e eixo elétrico são parâmetros centrais da interpretação. Complexos alargados podem estar relacionados a bloqueios de ramo, ritmos ventriculares, estimulação artificial ou outras alterações de condução. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia inclui a análise do QRS entre os componentes obrigatórios do laudo descritivo (SAMESIMA et al., 2022). O segmento ST corresponde ao período inicial da repolarização ventricular e normalmente é analisado em relação à linha de base. Elevações ou depressões do ST podem ocorrer em diferentes condições e não devem ser interpretadas de maneira isolada. Em cenários de dor torácica, alterações do ST podem ter elevada relevância clínica, mas precisam ser correlacionadas com sintomas, tempode evolução, derivações envolvidas e demais dados disponíveis. A onda T representa parte importante da repolarização ventricular. Sua polaridade, simetria, amplitude e relação com o QRS auxiliam na identificação de alterações de repolarização. Ondas T invertidas ou muito apiculadas podem ocorrer em situações diversas, incluindo isquemia, sobrecarga, alterações eletrolíticas e variantes fisiológicas. Samesima et al. (2022) ressaltam que características individuais, como sexo e faixa etária, também influenciam 7 padrões de repolarização. O intervalo QT compreende a despolarização e a repolarização ventricular. Como varia de acordo com a frequência cardíaca, é frequentemente expresso como QTc. O reconhecimento de prolongamento ou encurtamento relevante pode contribuir para investigação de condições congênitas, efeitos farmacológicos e alterações metabólicas. A interpretação deve evitar dependência exclusiva de medidas automatizadas e considerar a qualidade do traçado. A onda U, quando visível, aparece após a onda T e pode variar em amplitude. Embora nem sempre seja identificada, sua presença e características podem adquirir relevância em situações específicas. A diretriz brasileira inclui a descrição da onda U quando presente e pertinente ao laudo (SAMESIMA et al., 2022). 3.6 Análise sistemática do eletrocardiograma A interpretação sistemática reduz a possibilidade de omissão de achados. Uma sequência prática inicia-se pela verificação da qualidade técnica e da calibração, seguida da frequência cardíaca, ritmo, onda P, intervalo PR, eixo elétrico, duração e morfologia do QRS, segmento ST, onda T e intervalo QT/QTc. Ao final, os achados devem ser sintetizados em uma conclusão coerente. A frequência cardíaca pode ser estimada de diferentes maneiras conforme a regularidade do ritmo. Em ritmos regulares, a distância entre complexos QRS pode ser utilizada para cálculo aproximado; em ritmos irregulares, métodos baseados em uma janela temporal maior são mais adequados. A frequência deve ser interpretada juntamente com o ritmo e com o estado clínico do paciente. A identificação do ritmo sinusal depende da presença de ativação atrial compatível com origem no nó sinoatrial e relação adequada entre ondas P e complexos QRS. Ritmos que não atendem a esses critérios requerem investigação do mecanismo provável. A simples presença de uma frequência dentro de valores usuais não é suficiente para definir normalidade do ritmo. O eixo elétrico do QRS representa a direção predominante da despolarização ventricular no plano frontal. Desvios do eixo podem ocorrer por variações anatômicas, bloqueios fasciculares, hipertrofias, infartos prévios e outras condições. O eixo deve ser analisado em conjunto com a morfologia do 8 QRS, evitando interpretações descontextualizadas. A avaliação do QRS inclui largura, morfologia, ondas Q, progressão de R e critérios relacionados a distúrbios de condução ou sobrecargas. Em seguida, avaliam- se ST e T em busca de alterações de repolarização. A interpretação de padrões isquêmicos exige especial cautela, pois diferentes doenças e variantes podem produzir alterações semelhantes. O laudo deve ser claro e padronizado. Samesima et al. (2022) propõem um laudo descritivo, com análise dos principais componentes, e um laudo conclusivo contendo a síntese diagnóstica. Mason et al. (2007) também defendem terminologia diagnóstica uniforme, destacando que um vocabulário padronizado reduz sobreposição de termos e melhora a comunicação clínica. 3.7 Principais alterações eletrocardiográficas As arritmias constituem uma das aplicações clássicas do ECG. Taquicardias, bradicardias, extrassístoles e ritmos irregulares podem ser reconhecidos a partir da relação entre atividade atrial e ventricular, largura do QRS, regularidade dos intervalos e morfologia das ondas. Em pacientes com suspeita de bradicardia ou distúrbio de condução, o ECG de 12 derivações é componente essencial da avaliação inicial, especialmente quando obtido durante sintomas (KUSUMOTO et al., 2019). A fibrilação atrial caracteriza-se por atividade atrial desorganizada e resposta ventricular geralmente irregular, embora a frequência possa variar. O ECG é fundamental para documentar o ritmo no momento do registro. Entretanto, arritmias paroxísticas podem não estar presentes durante um ECG de curta duração, o que evidencia uma limitação temporal do exame de repouso. Os bloqueios atrioventriculares decorrem de atraso ou interrupção na condução entre átrios e ventrículos e apresentam diferentes padrões eletrocardiográficos. A avaliação da relação P-QRS e do intervalo PR é central para sua classificação. Distúrbios intraventriculares, como bloqueios de ramo, alteram a duração e a morfologia do QRS, sendo o ECG um método de referência para sua identificação (SURAWICZ et al., 2009). Alterações sugestivas de sobrecarga de câmaras cardíacas podem ser observadas no ECG, embora o método não substitua exames de imagem para 9 avaliação estrutural. Critérios de voltagem, duração e morfologia podem levantar hipóteses de aumento atrial ou hipertrofia ventricular, mas apresentam sensibilidade e especificidade variáveis. Assim, o achado eletrocardiográfico deve ser integrado à avaliação clínica e, quando indicado, ao ecocardiograma. Nas síndromes coronarianas agudas, o ECG assume papel de grande relevância porque alterações do segmento ST, da onda T e o aparecimento de ondas Q podem contribuir para reconhecimento de isquemia ou necrose. Kligfield et al. (2007) descrevem o ECG como ferramenta indispensável para diagnóstico e início rápido da terapêutica em pacientes com síndromes coronarianas agudas. Contudo, um ECG inicial sem alterações diagnósticas não exclui evento isquêmico, podendo ser necessários registros seriados e biomarcadores. Distúrbios eletrolíticos e efeitos de medicamentos também podem modificar o ECG. Alterações do potássio, cálcio e magnésio podem interferir na condução e repolarização. Diversos fármacos podem prolongar o QT ou alterar frequência e condução. Por isso, a interpretação adequada deve incluir conhecimento das medicações em uso e do estado metabólico do paciente. Condições como pericardite, miocardite, embolia pulmonar e doenças sistêmicas podem produzir alterações eletrocardiográficas, porém muitas delas não são específicas. O ECG contribui para a avaliação, mas raramente deve ser usado como único critério diagnóstico nessas situações. A diretriz brasileira reúne diferentes padrões e condições clínicas, reforçando a necessidade de interpretação contextualizada (SAMESIMA et al., 2022). Em atletas, crianças e outros grupos específicos, padrões fisiológicos podem diferir daqueles observados na população adulta geral. A Sociedade Brasileira de Cardiologia dedica seções específicas ao ECG em atletas e crianças, demonstrando que idade, treinamento físico e características individuais precisam ser considerados para reduzir diagnósticos equivocados (SAMESIMA et al., 2022). 3.8 Ritmo sinusal e variações da frequência cardíaca A determinação do ritmo constitui uma das primeiras etapas da leitura eletrocardiográfica. Em condições fisiológicas, o ritmo sinusal decorre da formação do 10 impulso no nó sinoatrial e apresenta sequência organizada de ativação atrial e ventricular. A identificação depende da análise da onda P, de sua relação com cada complexo QRS e da regularidade dos ciclos. A Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda que ritmo e frequência cardíaca sejam descritos no início da análise, pois esses parâmetros orientam a interpretação dos demais componentes do traçado (SAMESIMA et al., 2022). A bradicardia sinusal corresponde à redução da frequência com manutenção da origem sinusal. Pode ser encontrada em indivíduos treinados, durante o sono, sob ação de determinados medicamentos ou em condições patológicas. A taquicardia sinusal, por sua vez, representa aumento da frequência com preservação do padrãosinusal e pode acompanhar exercício, febre, dor, hipovolemia, ansiedade e diversas situações clínicas. O significado de ambas depende da presença de sintomas e da condição do paciente. A regularidade dos intervalos RR também deve ser observada. Pequenas oscilações relacionadas à respiração podem ocorrer no ritmo sinusal, especialmente em indivíduos jovens. Já irregularidades acentuadas exigem investigação de extrassístoles, fibrilação atrial, bloqueios ou outros mecanismos. Portanto, frequência e regularidade não devem ser avaliadas separadamente da morfologia das ondas e da relação atrioventricular. 3.9 Arritmias supraventriculares As arritmias supraventriculares têm origem acima da bifurcação do feixe de His e podem envolver os átrios, o nó atrioventricular ou circuitos de reentrada. O ECG permite analisar início, regularidade, atividade atrial, relação P-QRS e largura dos complexos ventriculares. Embora muitos episódios sejam paroxísticos e não sejam registrados no ECG de repouso, quando presentes no traçado suas características fornecem informações importantes para a classificação do ritmo. Na fibrilação atrial, a ativação atrial organizada é substituída por atividade elétrica desordenada, e a resposta ventricular costuma apresentar irregularidade marcante. A ausência de ondas P sinusais bem definidas e a irregularidade dos intervalos RR são elementos relevantes. Entretanto, a confirmação diagnóstica deve ser realizada por profissional habilitado, considerando possíveis artefatos e outras causas de irregularidade. O ECG 11 documentado também contribui para decisões posteriores relacionadas à investigação e ao manejo clínico. O flutter atrial apresenta atividade atrial rápida e organizada, frequentemente com ondas repetitivas características. A condução para os ventrículos pode ocorrer em diferentes proporções, fazendo com que a frequência ventricular seja regular ou variável. Taquicardias supraventriculares por reentrada podem apresentar complexos QRS estreitos e frequência elevada, mas a diferenciação do mecanismo específico requer avaliação cuidadosa do traçado e, em determinadas situações, investigação especializada. 3.10 Arritmias ventriculares As arritmias ventriculares originam-se no miocárdio ventricular ou no sistema de condução distal e podem variar desde extrassístoles isoladas até taquicardias potencialmente graves. As extrassístoles ventriculares geralmente apresentam complexo QRS prematuro e de morfologia diferente dos batimentos conduzidos normalmente. Frequência, padrão de repetição, morfologia e associação com sintomas são informações relevantes para a avaliação clínica. A taquicardia ventricular é caracterizada por sequência de batimentos de origem ventricular, geralmente com complexos QRS alargados. Em contexto clínico apropriado, deve ser reconhecida rapidamente devido ao potencial de instabilidade hemodinâmica. A interpretação de uma taquicardia de QRS largo exige cautela, pois diferentes mecanismos podem produzir apresentações semelhantes. A avaliação do paciente e a aplicação de protocolos assistenciais têm prioridade diante de sinais de instabilidade. Ritmos ventriculares graves reforçam a importância de treinamento para reconhecimento de padrões eletrocardiográficos e comunicação imediata com a equipe responsável. O ECG, entretanto, representa apenas parte da avaliação: estado de consciência, pulso, pressão arterial, perfusão e sintomas precisam ser avaliados simultaneamente quando houver suspeita de emergência cardiovascular. 3.11 Bloqueios atrioventriculares e intraventriculares Os bloqueios atrioventriculares representam alterações na condução do impulso dos átrios para os ventrículos. No bloqueio atrioventricular de primeiro grau, observa-se atraso de condução, expresso por prolongamento do intervalo PR, mantendo-se a 12 condução de cada impulso atrial aos ventrículos. Nos bloqueios de segundo grau, parte dos impulsos não é conduzida, produzindo padrões distintos que devem ser diferenciados pela relação entre ondas P e complexos QRS. No bloqueio atrioventricular completo, a atividade atrial e ventricular torna-se dissociada, pois os impulsos atriais não conduzem aos ventrículos. A frequência ventricular passa a depender de um ritmo de escape. Kusumoto et al. (2019) destacam a importância do ECG de 12 derivações na avaliação de pacientes com bradicardia e distúrbios de condução, particularmente quando o registro pode ser correlacionado aos sintomas. Os bloqueios de ramo alteram a sequência de despolarização ventricular e, consequentemente, a duração e a morfologia do QRS. Surawicz et al. (2009) apresentam recomendações específicas para a padronização e interpretação de distúrbios de condução intraventricular. A diferenciação entre bloqueio de ramo direito, bloqueio de ramo esquerdo e bloqueios fasciculares depende de critérios morfológicos e temporais observados em derivações específicas. A presença de distúrbio de condução pode modificar a interpretação de outras alterações, inclusive da repolarização. Assim, o examinador deve reconhecer quando a alteração do QRS produz mudanças secundárias de ST e T. Essa análise evita atribuir automaticamente significado isquêmico a alterações de repolarização que podem decorrer da própria sequência anormal de ativação ventricular. 3.12 Isquemia, lesão miocárdica e síndrome coronariana aguda O ECG possui papel central na avaliação inicial de pacientes com suspeita de síndrome coronariana aguda. Alterações dinâmicas do segmento ST e da onda T, além do desenvolvimento de ondas Q em determinados contextos, podem indicar sofrimento miocárdico. A distribuição das alterações entre as derivações ajuda a localizar o território elétrico envolvido, embora a anatomia coronariana e a extensão da lesão não devam ser inferidas apenas pelo ECG. A elevação do segmento ST pode ocorrer em infarto agudo do miocárdio, mas também em outras condições. Da mesma forma, depressão de ST e inversão de T possuem diferentes diagnósticos diferenciais. Por isso, 13 a interpretação deve considerar características morfológicas, derivações contíguas, sintomas, registros anteriores e evolução temporal. Kligfield et al. (2007) enfatizam o valor do ECG na avaliação das síndromes coronarianas agudas, ao mesmo tempo em que a prática clínica reconhece a necessidade de integração com biomarcadores e demais exames. Registros seriados são especialmente importantes quando os sintomas persistem ou se modificam. Um traçado inicial sem alterações conclusivas não exclui isquemia. A comparação entre ECGs pode revelar mudanças sutis que não seriam percebidas em uma análise isolada. Essa característica reforça a importância de identificar corretamente data, horário, sintomas e condições de aquisição de cada registro. Em serviços de urgência, a rapidez na obtenção e interpretação do ECG pode influenciar o tempo até intervenções terapêuticas. Entretanto, a velocidade não deve comprometer a qualidade técnica. Eletrodos mal posicionados, artefatos ou calibração inadequada podem atrasar decisões ou produzir interpretações equivocadas, motivo pelo qual protocolos de aquisição devem ser rigorosamente seguidos. 3.13 Sobrecargas atriais e ventriculares O eletrocardiograma pode apresentar sinais associados a aumento atrial e hipertrofia ventricular. Alterações da onda P podem sugerir sobrecarga atrial, enquanto critérios baseados em voltagem, eixo, duração do QRS e repolarização podem levantar suspeita de hipertrofia ventricular. Entretanto, esses critérios não equivalem diretamente à medida anatômica das câmaras cardíacas. A sensibilidade dos critérios eletrocardiográficos para hipertrofia varia conforme população, idade, composição corporal e condição clínica. Assim, um ECG sem critérios de sobrecarga não exclui hipertrofia, e critérios positivos podem necessitar confirmação por métodos de imagem. O ecocardiograma, por exemplo, fornece informações estruturais e funcionais quecomplementam os achados elétricos. A interpretação responsável deve evitar transformar um critério eletrocardiográfico em diagnóstico anatômico definitivo. O mais adequado é reconhecer o padrão, descrevê-lo de acordo com critérios aceitos e correlacioná-lo com dados clínicos. Essa postura está de acordo com a proposta de padronização dos laudos, que 14 busca precisão terminológica e redução de conclusões excessivas (SAMESIMA et al., 2022). 3.14 Alterações eletrolíticas e efeitos farmacológicos O equilíbrio eletrolítico influencia diretamente a formação e propagação do potencial de ação cardíaco. Alterações importantes do potássio podem modificar ondas T, duração do QRS e outros componentes do traçado. Distúrbios do cálcio podem interferir principalmente na duração da repolarização, enquanto alterações do magnésio também podem participar de condições associadas a instabilidade elétrica. O ECG pode fornecer pistas para distúrbios metabólicos, mas não substitui a dosagem laboratorial. Quando alterações eletrocardiográficas compatíveis surgem em pacientes com doença renal, perdas gastrointestinais, uso de diuréticos ou outras condições de risco, a correlação com exames laboratoriais torna-se especialmente importante. A gravidade clínica deve orientar a urgência da investigação. Medicamentos podem alterar frequência cardíaca, condução atrioventricular, duração do QRS e repolarização. Fármacos com potencial de prolongar o QT merecem atenção quando coexistem outros fatores predisponentes. A avaliação do ECG deve, portanto, incluir a revisão das medicações, das doses e de possíveis interações, especialmente quando o traçado apresenta mudança em relação a registros anteriores. 3.15 Eletrocardiograma em populações e situações especiais A interpretação eletrocardiográfica deve considerar características da população avaliada. Em crianças, parâmetros como frequência, eixo e morfologia variam com o desenvolvimento. A aplicação direta de referências de adultos pode gerar erros. Samesima et al. (2022) incluem critérios específicos para o ECG pediátrico, reforçando a necessidade de considerar idade e estágio de desenvolvimento. Em atletas, adaptações fisiológicas ao treinamento podem modificar frequência cardíaca, condução e padrões de voltagem. Alguns achados podem representar adaptações benignas, enquanto outros exigem investigação de cardiopatias. A diferenciação depende do padrão eletrocardiográfico, do tipo de treinamento, dos sintomas, da história familiar e de critérios específicos para essa população. 15 Na gestação, mudanças hemodinâmicas e anatômicas podem influenciar determinados parâmetros do ECG. Em idosos, maior prevalência de doença estrutural, distúrbios de condução e uso de múltiplos medicamentos também interfere na interpretação. Esses exemplos demonstram que valores e padrões eletrocardiográficos devem ser analisados dentro do contexto biológico e clínico. 3.16 ECG de repouso, monitorização e métodos complementares O ECG de repouso registra um intervalo relativamente curto da atividade elétrica cardíaca. Quando os sintomas são intermitentes, um traçado normal pode não representar o ritmo presente durante os episódios. Nesses casos, métodos de monitorização ambulatorial podem aumentar a possibilidade de correlação entre sintomas e alterações do ritmo. A monitorização contínua em ambiente hospitalar tem finalidade diferente do ECG diagnóstico de 12 derivações. Ela permite acompanhar ritmo e frequência ao longo do tempo, porém a configuração das derivações e a qualidade do sinal podem não fornecer todas as informações do ECG padrão. Quando ocorre uma alteração relevante no monitor, frequentemente é necessário obter um ECG de 12 derivações para documentação e análise detalhada. Outros exames cardiovasculares, como teste ergométrico, ecocardiograma e métodos de imagem, respondem a perguntas diferentes e complementares. O ECG não deve ser visto como concorrente desses métodos, mas como parte de uma estratégia diagnóstica. A escolha do exame adicional depende da hipótese clínica, dos sintomas e dos achados iniciais. 3.17 Aplicações clínicas, vantagens e limitações O eletrocardiograma é utilizado na investigação de palpitações, síncope, dor torácica, dispneia, alterações de pulso, suspeita de distúrbios de condução, monitoramento de determinadas terapias e avaliação de condições cardiovasculares. A American Heart Association relaciona o exame à investigação de arritmias, cardiomiopatias, cardiopatias congênitas, doença arterial coronariana, infarto, insuficiência cardíaca e doenças valvares (AMERICAN HEART ASSOCIATION, 2026). Entre as principais vantagens estão rapidez, baixo custo relativo, disponibilidade, caráter não invasivo e possibilidade de repetição. O ECG também permite 16 documentação objetiva de um momento específico da atividade elétrica cardíaca, favorecendo comparações com registros anteriores. Em emergências, a obtenção rápida do traçado pode contribuir decisivamente para a definição de condutas. Suas limitações incluem a curta duração do registro, a possibilidade de doenças sem manifestações eletrocardiográficas no momento do exame e a existência de alterações inespecíficas. A interpretação automatizada pode auxiliar na mensuração, mas não elimina a necessidade de revisão humana. Kligfield et al. (2007) destacam que o processamento computadorizado oferece medições e declarações diagnósticas automáticas, mas a tecnologia deve ser compreendida dentro de padrões técnicos e implicações clínicas. Além disso, erros de posicionamento, filtros inadequados, ruídos e calibração incorreta podem gerar falsos achados. Portanto, a qualidade técnica é parte integrante da segurança diagnóstica. O valor do ECG aumenta quando há comparação com traçados prévios, correlação temporal com sintomas e integração com exames laboratoriais e de imagem. 3.18 Erros técnicos, artefatos e prevenção de interpretações equivocadas Artefatos são alterações do registro que não correspondem à atividade elétrica cardíaca real. Tremores musculares, movimentação, cabos soltos, interferência elétrica e contato inadequado entre eletrodo e pele podem produzir traçados que simulam arritmias ou dificultam a análise. Reconhecer essas situações é uma competência essencial para quem realiza e interpreta o exame. O posicionamento incorreto dos eletrodos precordiais pode alterar a progressão da onda R e modificar segmentos e ondas. A inversão dos eletrodos dos membros também produz padrões característicos que podem ser confundidos com alterações do eixo ou outras anormalidades. A verificação técnica deve anteceder conclusões diagnósticas quando o traçado apresenta padrão inesperado. Filtros eletrônicos podem reduzir ruídos, mas seu uso inadequado pode modificar a aparência do sinal. As recomendações de padronização ressaltam a necessidade de configurações técnicas capazes de preservar informações clinicamente relevantes. Assim, a busca por um traçado visualmente 'limpo' não deve resultar em filtragem excessiva que distorça componentes importantes do ECG (KLIGFIELD et al., 2007). 17 Uma estratégia de prevenção consiste em seguir rotina fixa: confirmar identidade, explicar o procedimento, preparar a pele, localizar referências anatômicas, posicionar os eletrodos, verificar calibração, solicitar imobilidade, avaliar o traçado antes de retirar os eletrodos e repetir derivações quando houver dúvida técnica. Essa sequência aumenta a confiabilidade e reduz a necessidade de exames repetidos. 3.19 Segurança, qualidade do registro e atuação da equipe de saúde O ECG de superfície é considerado um procedimento seguro, pois registra sinais elétricos sem introduzir corrente no organismo. A American Heart Association informa que a máquina apenas registra a atividade elétrica cardíaca e não envia eletricidade ao corpo (AMERICAN HEART ASSOCIATION, 2026). O desconforto costuma limitar-se à colocação e retirada dos adesivos e à preparaçãoda pele. A equipe responsável pela aquisição do traçado deve assegurar identificação correta do paciente, privacidade, explicação do procedimento, posicionamento adequado, integridade do equipamento e registro das configurações utilizadas. A confirmação de que o traçado está livre de artefatos importantes deve ocorrer antes da finalização do exame. Em contextos de ensino e assistência, é relevante desenvolver competência para reconhecer situações potencialmente urgentes no traçado e encaminhar o resultado conforme protocolos locais. A identificação de alterações críticas não deve resultar em interpretação isolada fora da competência profissional; deve desencadear comunicação rápida com a equipe responsável e avaliação clínica apropriada. A padronização da linguagem também é um componente de qualidade. Mason et al. (2007) propõem terminologia diagnóstica uniforme para reduzir termos vagos ou sobrepostos. No contexto brasileiro, Samesima et al. (2022) recomendam que abreviaturas sejam utilizadas de forma criteriosa e que o laudo conclusivo sintetize os diagnósticos descritos. Assim, a qualidade do ECG depende de uma cadeia de etapas: indicação apropriada, aquisição técnica correta, identificação de artefatos, análise sistemática, comunicação clara e correlação clínica. A falha em qualquer uma dessas etapas pode reduzir o valor diagnóstico do exame. 18 3.20 Importância do eletrocardiograma para a formação e prática em saúde O ensino do ECG contribui para integrar conhecimentos de anatomia, fisiologia, semiologia e assistência clínica. A leitura sistemática estimula o raciocínio por etapas e ajuda o estudante a relacionar fenômenos elétricos a manifestações clínicas. Entretanto, o aprendizado deve evitar a memorização isolada de padrões, priorizando a compreensão dos mecanismos que explicam cada alteração. Para profissionais de saúde envolvidos na realização do exame, competências técnicas incluem preparo do paciente, posicionamento de eletrodos, reconhecimento de artefatos, documentação e encaminhamento do registro. Para aqueles responsáveis pela interpretação diagnóstica, são necessários treinamento específico, conhecimento de critérios e correlação clínica. A atuação multiprofissional favorece segurança e continuidade do cuidado. A comunicação de achados potencialmente críticos precisa ser objetiva e seguir os fluxos do serviço. Um traçado sugestivo de situação urgente deve ser rapidamente apresentado ao profissional responsável pela avaliação clínica. A qualidade assistencial depende tanto do conhecimento técnico quanto da capacidade de reconhecer limites de atuação e acionar os recursos adequados. Por fim, a eletrocardiografia exemplifica como um exame centenário permanece relevante quando associado a padronização, tecnologia e raciocínio clínico. A evolução dos equipamentos e algoritmos amplia possibilidades de aquisição e análise, mas não elimina a necessidade de técnica correta, revisão profissional e interpretação contextualizada. Dessa forma, o domínio dos princípios do ECG continua sendo parte importante da formação em saúde. 4 METODOLOGIA Trata-se de um relatório acadêmico de caráter descritivo e de revisão narrativa da literatura. A construção do texto foi orientada pela busca de documentos técnicos e científicos relacionados à eletrocardiografia, com prioridade para diretrizes de sociedades cardiológicas e documentos de referência sobre padronização, tecnologia, interpretação e aplicações clínicas do eletrocardiograma. Foram utilizados como eixos principais a Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos, publicada em 2022, documentos científicos da American Heart Association, American College of Cardiology Foundation e Heart 19 Rhythm Society sobre padronização e interpretação do ECG, além de material educativo institucional da American Heart Association. Foram priorizadas fontes com autoria institucional ou publicação em periódico científico. A análise foi organizada nos seguintes núcleos temáticos: conceito e evolução histórica; bases eletrofisiológicas; derivações; técnica e padronização; ondas, segmentos e intervalos; interpretação sistemática; alterações frequentes; aplicações clínicas; limitações e qualidade do registro. As informações foram sintetizadas de forma acadêmica, com citações no sistema autor-data, conforme prática utilizada em trabalhos formatados segundo as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas. 5 CONCLUSÃO O eletrocardiograma permanece como um dos exames fundamentais da avaliação cardiovascular. Sua capacidade de registrar rapidamente a atividade elétrica cardíaca possibilita identificar alterações de frequência, ritmo, condução, despolarização e repolarização, fornecendo informações úteis em contextos ambulatoriais, hospitalares e de urgência. Apesar de sua aparente simplicidade técnica, o valor diagnóstico depende de aquisição adequada e interpretação sistemática. A análise do ECG deve seguir critérios padronizados, contemplando ritmo, frequência, onda P, intervalo PR, eixo elétrico, complexo QRS, segmento ST, onda T e QT/QTc, entre outros parâmetros pertinentes. Diretrizes nacionais e internacionais demonstram que a padronização melhora a comunicação clínica e reduz inconsistências na descrição dos achados. Também se destaca que o ECG não deve ser interpretado isoladamente. Alterações eletrocardiográficas podem ser inespecíficas, variantes fisiológicas podem simular doença e algumas condições cardiovasculares podem apresentar ECG normal em determinados momentos. A integração com história clínica, exame físico, medicamentos, exames laboratoriais e métodos de imagem é indispensável. Conclui-se que o conhecimento dos fundamentos eletrofisiológicos, da técnica de realização e dos critérios de interpretação é essencial para o uso seguro e eficiente do eletrocardiograma. Na formação em saúde, o estudo do ECG contribui para o raciocínio 20 clínico, para o reconhecimento precoce de situações potencialmente graves e para uma comunicação profissional mais precisa. 21 REFERÊNCIAS AMERICAN HEART ASSOCIATION. Electrocardiogram (EKG or ECG). Dallas: American Heart Association, 2026. Disponível em: https://www.heart.org/en/health- topics/heart-attack/diagnosing-a-heart-attack/electrocardiogram. Acesso em: 21 set. 2026. KLIGFIELD, Paul et al. Recommendations for the standardization and interpretation of the electrocardiogram: Part I: the electrocardiogram and its technology. Circulation, v. 115, n. 10, p. 1306-1324, 2007. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.106.180200. KUSUMOTO, Fred M. et al. 2018 ACC/AHA/HRS guideline on the evaluation and management of patients with bradycardia and cardiac conduction delay. Circulation, v. 140, n. 8, p. e382-e482, 2019. DOI: 10.1161/CIR.0000000000000628. MASON, Jay W.; HANCOCK, E. William; GETTES, Leonard S. Recommendations for the standardization and interpretation of the electrocardiogram: Part II: electrocardiography diagnostic statement list. Circulation, v. 115, n. 10, p. 1325-1332, 2007. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.106.180201. SAMESIMA, Nelson et al. Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre a análise e emissão de laudos eletrocardiográficos – 2022. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 119, n. 4, p. 638-680, 2022. DOI: 10.36660/abc.20220623. SURAWICZ, Borys et al. AHA/ACCF/HRS recommendations for the standardization and interpretation of the electrocardiogram: Part III: intraventricular conduction disturbances. Circulation, v. 119, n. 10, p. e235-e240, 2009. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.108.191095. 1 INTRODUÇÃO 2 OBJETIVOS 2.1 Objetivo geral 2.2 Objetivos específicos 3 DESENVOLVIMENTO 3.1 Conceito e evolução histórica do eletrocardiog 3.2 Bases eletrofisiológicas da atividade cardíaca 3.3 Sistema de derivações e eletrodos 3.4 Padronização e técnica de realização 3.5 Ondas, segmentos e intervalos do ECG 3.6 Análise sistemática do eletrocardiograma 3.7Principais alterações eletrocardiográficas 3.8 Ritmo sinusal e variações da frequência cardía 3.9 Arritmias supraventriculares 3.10 Arritmias ventriculares 3.11 Bloqueios atrioventriculares e intraventricul 3.12 Isquemia, lesão miocárdica e síndrome coronar 3.13 Sobrecargas atriais e ventriculares 3.14 Alterações eletrolíticas e efeitos farmacológ 3.15 Eletrocardiograma em populações e situações e 3.16 ECG de repouso, monitorização e métodos compl 3.17 Aplicações clínicas, vantagens e limitações 3.18 Erros técnicos, artefatos e prevenção de inte 3.19 Segurança, qualidade do registro e atuação da 3.20 Importância do eletrocardiograma para a forma 4 METODOLOGIA 5 CONCLUSÃO