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TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 1 Meningites e encefalites Tutoria de Medicina com os seis objetivos integrados Revisão ampliada de 2 de outubro de 2026 A meningite é uma síndrome inflamatória que exige reconhecer rapidamente a causa provável e a gravidade. Na suspeita de infecção bacteriana aguda, os exames e o tratamento devem avançar em paralelo. Na suspeita de encefalite herpética, o antiviral também deve começar antes da confirmação laboratorial quando a probabilidade clínica é relevante. Esta apostila desenvolve os seis objetivos da tutoria: conceitos e etiologias; fisiopatologia; sinais de alerta e complicações; investigação e diagnósticos diferenciais; interpretação do líquido cefalorraquidiano; tratamento e prevenção. Cada causa importante reaparece ao longo dos capítulos, permitindo ligar mecanismo, manifestação, exame e conduta. O conteúdo acadêmico dos materiais enviados foi reorganizado e complementado com documentos oficiais do Ministério da Saúde e recomendações internacionais identificadas nas referências. As doses são apresentadas para estudo; idade, peso, função renal, gestação, alergias, resistência local e gravidade determinam a prescrição individual. Roteiro de leitura Objetivo Pergunta que deve ser respondida ao final 1 Conceito e etiologias Onde está a inflamação e quais causas combinam com este paciente? 2 Fisiopatologia Como o agente e a resposta inflamatória produzem os sintomas? 3 Gravidade Quais achados ameaçam a vida ou indicam complicações? 4 Diagnóstico Quais exames fazer agora e quando adiar a punção? 5 Líquor Como interpretar células, glicose, proteínas, pressão e microbiologia? 6 Tratamento O que iniciar, como direcionar e como proteger contatos e sobreviventes? Como usar na discussão: comece pela síndrome e pela urgência, formule hipóteses com idade e exposições, interprete o líquor em conjunto e termine justificando o tratamento. Evite apresentar apenas uma lista de agentes ou decorar uma tabela sem relacioná-la ao caso. As chamadas numéricas entre colchetes remetem às referências ao final. “Líquor”, “líquido cefalorraquidiano” e “líquido cerebrospinal” designam o mesmo fluido. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 2 Guia de siglas e termos Termo Significado e utilidade LCR ou LCS Líquido cefalorraquidiano ou cerebrospinal; também chamado líquor. SNC Sistema nervoso central: encéfalo e medula espinhal. BHE Barreira hematoencefálica; regula a passagem do sangue para o tecido nervoso. PL Punção lombar; procedimento para obter líquor e medir sua pressão. PIC e HIC Pressão intracraniana e hipertensão intracraniana. TC e RM Tomografia computadorizada e ressonância magnética. EEG Eletroencefalograma; registra a atividade elétrica cerebral. PCR molecular Reação em cadeia da polimerase; detecta material genético do agente. Proteína C reativa Marcador inflamatório sanguíneo; também pode ser abreviado PCR, mas é outro exame. HSV e VZV Vírus herpes simples e vírus varicela-zóster. HIV Vírus da imunodeficiência humana. Hib Haemophilus influenzae tipo b; bactéria, apesar do nome semelhante a influenza. BCG Bacilo de Calmette e Guérin; vacina contra formas graves de tuberculose. DNA e RNA Ácido desoxirribonucleico e ácido ribonucleico; moléculas de material genético. TB e TARV Tuberculose e terapia antirretroviral. IV, IM e VO Vias intravenosa, intramuscular e oral. mg/kg/dose Quantidade por quilograma em cada administração. mg/kg/dia Quantidade total por quilograma nas 24 horas; pode exigir divisão em doses. Pleocitose Aumento de leucócitos no líquor. Hipoglicorraquia Diminuição da glicose do líquor. Hiperproteinorraquia Aumento da concentração de proteínas no líquor. Empírico e dirigido Tratamento antes da identificação do agente e tratamento ajustado ao resultado. CIM Concentração inibitória mínima; auxilia a avaliar sensibilidade ao antibiótico. Exemplo de leitura de dose: 100 mg/kg/dia divididos de 6 em 6 horas correspondem a quatro administrações de 25 mg/kg/dose. Confundir “por dia” com “por dose” pode quadruplicar a quantidade administrada. Exemplo de leitura de exame: “PCR para HSV no LCR” significa pesquisa molecular do herpes no líquor. Não significa medir proteína C reativa. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 3 Objetivo 1 Conceito e classificação Anatomia que explica a doença As meninges envolvem o encéfalo e a medula. A dura-máter é a membrana externa, resistente; no crânio, participa da formação dos seios venosos e das pregas que sustentam o encéfalo. A aracnoide é intermediária. A pia-máter adere à superfície nervosa. Aracnoide e pia constituem as leptomeninges. O espaço subaracnoideo, entre ambas, contém líquor e vasos. O líquor é produzido predominantemente pelos plexos coroides. Circula dos ventrículos laterais para o terceiro e o quarto ventrículos e alcança o espaço subaracnoideo. A drenagem envolve as granulações aracnoideas e outras vias de eliminação, incluindo vias linfáticas. O fluido protege mecanicamente e contribui para a estabilidade do meio que envolve o sistema nervoso. Meningite é a inflamação das meninges, especialmente das leptomeninges e do espaço subaracnoideo, frequentemente acompanhada de alterações liquóricas. Não é sinônimo de infecção bacteriana: vírus, micobactérias, fungos, parasitos e processos não infecciosos também podem produzi-la. [1-4] Por que essa localização importa Inflamação de estruturas sensíveis à dor e irritação meníngea ajudam a explicar cefaleia, fotofobia e rigidez de nuca. O exsudato pode dificultar circulação e reabsorção do líquor, provocando hidrocefalia. O envolvimento de vasos pode produzir infartos; o de nervos cranianos pode causar diplopia, alterações auditivas e outros déficits. Classificar em três eixos Eixo Categorias Uso no raciocínio Etiologia Bacteriana, viral, tuberculosa, fúngica, parasitária, não infecciosa Orienta testes e terapia. Evolução Aguda, subaguda, crônica Horas ou dias favorecem piogênicas e virais; semanas ampliam TB, fungos e causas inflamatórias. Contexto Comunitária ou associada à assistência Neurocirurgia e dispositivos mudam o espectro de agentes. A meningite crônica é usualmente definida pela persistência de sintomas e inflamação liquórica por pelo menos quatro semanas. As divisões temporais são orientadoras: tuberculose pode descompensar agudamente e uma infecção bacteriana parcialmente tratada pode ter evolução menos típica. Meningite asséptica descreve uma síndrome com cultura bacteriana habitual negativa; não prova etiologia viral. Antibiótico prévio, tuberculose, fungos e doenças não infecciosas também precisam ser considerados. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 4 Objetivo 1 Agentes e perfil do paciente O agente provável depende da idade e das condições do hospedeiro. A escolha do tratamento empírico resulta dessa probabilidade, somada à epidemiologia e ao antibiograma local. A vacinação modifica a frequência relativa dos agentes, sem eliminar todas as causas de meningite. [1-4] Paciente ou contexto Agentes e implicação Recém-nascido Streptococcus agalactiae, Escherichia coli e outras enterobactérias; considerar Listeria. Transmissão perinatal e defesa imune imatura são relevantes. Lactente pequeno Há transição entre agentes neonatais e comunitários. Não aplicar automaticamente o esquema do adulto. Criança maior e adolescente Pneumococo e meningococo; Hib ganha relevância se imunização incompleta ou em situações específicas. Adulto Streptococcus pneumoniae e Neisseria meningitidis são hipóteses centrais na forma comunitária aguda. Idoso, gestante ou imunossuprimido Acrescentar Listeria monocytogenes ao raciocínio; imunossupressão também amplia fungos, TB e vírus oportunistas. Fístula de líquor, fratura de base ou implante coclear Risco de infecção por pneumococo;A imunização contra Hib, pneumococo e formas graves de tuberculose também integra a prevenção. O calendário de 2026 já descreve transição para pneumocócica 20-valente, com regras próprias; não aplicar automaticamente calendários antigos. [7,16] A vacina BCG reduz o risco de formas graves de tuberculose na infância, especialmente meníngea e disseminada; não protege contra todas as meningites. ACWY não é uma vacina contra todo agente meníngeo, nem contra o meningococo do sorogrupo B. Pessoas com condições especiais podem necessitar esquemas específicos nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. Depois da alta Acompanhamento auditivo é importante mesmo quando o paciente parece recuperado. Crianças precisam de vigilância do desenvolvimento, linguagem e rendimento escolar; adultos podem apresentar alterações de memória, concentração e comportamento que interferem no retorno ao trabalho ou estudo. [1,6] Reabilitação pode envolver fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, neuropsicologia e suporte emocional. Também é necessário revisar adesão, eventos adversos, uso de anticonvulsivantes quando indicados, vacinação e investigação de fatores predisponentes em recorrência. Plano de alta bem construído: explicar o diagnóstico, o tratamento restante, os sinais de retorno, os exames pendentes e quem acompanhará as sequelas. Encerrar a internação não significa encerrar o cuidado. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 30 Casos integradores para a tutoria 1 Febre púrpura e choque Jovem com febre, sonolência, lesões purpúricas em progressão e perfusão ruim. A prioridade é tratar doença invasiva e choque, iniciar antibiótico apropriado, adotar precauções e colher exames sem atrasar a terapia. A punção não é prioridade enquanto houver instabilidade. Em paralelo, comunicar a vigilância e identificar exposições relevantes. Objetivos integrados: meningococo como hipótese; inflamação sistêmica e coagulopatia como mecanismos; choque como sinal de alerta; hemoculturas e investigação posterior; tratamento imediato e prevenção dos contatos. 2 Idoso com meningite comunitária Paciente de 72 anos com febre, confusão e rigidez. Além de pneumococo e meningococo, considerar Listeria. Ceftriaxona isolada não cobre essa bactéria. A necessidade de vancomicina depende de resistência e protocolo. Rebaixamento, focalidade e demais achados orientam imagem e segurança da punção. Objetivos integrados: idade altera etiologia e esquema; confusão pode ser meningite, encefalite ou complicação; o líquor e a microbiologia permitem direcionar a terapia. 3 Cefaleia subaguda em pessoa com HIV Pessoa com imunossupressão, cefaleia progressiva e visão turva. A investigação deve contemplar criptococo e tuberculose, medir pressão quando seguro e procurar complicações. Se for criptococose, antifúngico sem controle da pressão pode ser insuficiente. O momento da terapia antirretroviral exige planejamento específico. Objetivos integrados: hospedeiro modifica a apresentação; poucas células não excluem doença; mecanismo da pressão orienta punção terapêutica e eventual drenagem. 4 Febre alteração de comportamento e crise focal Adulto com afasia, desorientação e crise focal. Pensar em encefalite herpética, sem esquecer meningite bacteriana complicada e lesões focais. Iniciar aciclovir quando a suspeita é relevante, solicitar RM, teste molecular e EEG conforme quadro. Um primeiro teste negativo precoce pode exigir repetição. 5 Piora durante o tratamento Paciente inicialmente tratado melhora da febre, mas torna-se mais confuso após elevação de creatinina. Reavaliar infecção, infarto, hidrocefalia, crises e distúrbios metabólicos. Revisar dose de medicamentos eliminados pelos rins: toxicidade por cefepima ou aciclovir pode imitar doença neurológica em progressão. Estrutura para apresentar cada caso: hipótese sindrômica; causas prováveis; mecanismo dos achados; ameaça imediata; exames que mudam conduta; tratamento inicial; resultado que permitiria mudar o plano. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 31 Revisão dos seis objetivos 1 Definir e diferenciar Meningite é inflamação meníngea; encefalite envolve parênquima com disfunção cerebral. As síndromes podem coexistir. Idade, imunidade, evolução e exposições orientam as etiologias, mas nenhuma pista isolada confirma o agente. 2 Explicar o mecanismo Na bacteriana, a multiplicação no líquor desencadeia resposta inflamatória, alteração de barreiras, edema, vasculite e prejuízo de circulação liquórica. Na tuberculosa, o exsudato basal ajuda a explicar nervos cranianos, hidrocefalia e infartos. Na criptocócica, o comprometimento da reabsorção torna o controle da pressão essencial. No herpes, o acometimento temporal e límbico explica memória, comportamento, linguagem e crises. 3 Reconhecer gravidade Rebaixamento, pupilas anormais, focalidade, crises repetidas, púrpura progressiva e hipoperfusão exigem ação urgente. Extremos de idade e imunossupressão ampliam risco. Ausência de rigidez, papiledema ou lesões cutâneas não assegura baixo risco. 4 Investigar com segurança Colher hemoculturas e líquor quando viável, sem atrasar terapia. A tomografia prévia é seletiva. Instabilidade, risco hemorrágico e suspeita de herniação exigem adiar a punção e tratar as ameaças. Neuroimagem normal não substitui julgamento clínico. 5 Interpretar o conjunto do líquor Pressão, células, diferencial, glicose proporcional ao sangue, proteínas e microbiologia devem ser lidos juntos. “Linfócitos” não significa automaticamente “viral”; “cultura negativa” não exclui infecção. O momento da coleta e os tratamentos prévios alteram o resultado. 6 Justificar tratamento e prevenção A terapia empírica cobre os agentes prováveis e deve ser ajustada ao resultado. Listeria exige cobertura específica. Encefalite herpética requer aciclovir precoce. Tuberculose e criptococose exigem regimes próprios e prolongados. Tratamento do caso, profilaxia dos contatos, vacinação e reabilitação têm finalidades distintas. Perguntas que o grupo deve conseguir responder Por que a inflamação pode continuar produzindo dano após esterilizar o líquor? Em qual paciente a tomografia deve preceder a punção e o que fazer enquanto ela é aguardada? Por que ceftriaxona pode ser insuficiente no idoso com suspeita de meningite? Como diferenciar meningite viral isolada de possível encefalite? Por que uma pessoa com criptococose e poucos leucócitos pode estar gravemente doente? Qual a diferença entre dose de tratamento e dose de profilaxia? TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 32 Referências e identificação das fontes Materiais enviados e base acadêmica [1] Roos KL e Tyler KL. Meningite aguda. Harrison. Arquivo enviado “meningite harrisom DOC-20260927- WA0020.pdf”, 51 páginas. Utilizado para patogênese, manifestações, diagnóstico, antimicrobianos, dexametasona e complicações. A edição completa não foi inferida a partir do nome do arquivo. [2] Buzo B e Fiorini V. Infecções do Sistema Nervoso Central Meningites. Estratégia MED. Curso Extensivo, 2023. Arquivo enviado “DOC-20260927-WA0021.pdf”, 88 páginas. Seções de interpretação do líquor, meningites bacterianas, TB, criptococose, neurocisticercose e meningoencefalite herpética. Recomendações de prova foram contextualizadas e não tratadas como normas nacionais atuais. [3] Li HY, Lopes MIBF e Serra LG. Meningites. Clínica Médica, capítulo 19, páginas impressas 685 a 695. Arquivo enviado “meningites usp DOC-20260909-WA0023.pdf”, 11 páginas. Utilizado para organização sindrômica, fisiopatogenia e diferenciais. Dados epidemiológicos históricos não foram apresentados como dados de 2026. [4] Material da tutoria enviado e apostila integrada anterior. “TUTORIA 5 - SP 2.2 - MENINGITES.docx” e “Apostila_Tutoria_Meningites_INTEGRADA_OBJETIVOS_1_A_6.pdf”. Utilizados como roteirodos seis objetivos e base de revisão. A presente versão reorganiza, amplia e corrige a síntese anterior. Ministério da Saúde e OMS [5] Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 154/2024 DPNI SVSA MS. Novas orientações para vigilância epidemiológica das meningites. Fonte normativa para contato próximo e quimioprofilaxia. A nota retifica orientações anteriores; não deve ser combinada indiscriminadamente com critérios de outras jurisdições. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/m/meningite/notas-tecnicas/nota-tecnica-conjunta-no-154-2024-dpni-svsa-ms [6] World Health Organization. WHO guidelines on meningitis diagnosis treatment and care. 2025. Escopo principal: meningite comunitária aguda em crianças acima de um mês e adultos. Consultadas recomendações de imagem, terapia empírica e cuidado após meningite. Não constitui protocolo neonatal nem substitui protocolos de infecção pós-neurocirúrgica. https://www.who.int/publications/i/item/9789240108042 Texto das recomendações: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK614844/ [7] Brasil. Ministério da Saúde. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026. Consultada para vacinação meningocócica e atualização pneumocócica. https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/pni/calendario-tecnico/instrucao-normativa-que-instrui-o-calendario-nacional-de- vacinacao-2026 TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 33 Referências complementares [8] Brasil. Ministério da Saúde. Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil. 2ª edição atualizada, 2019. Seção de tratamento da forma meningoencefálica, páginas impressas 106 a 109. Documento oficial consultado em repositório de secretaria estadual. https://cevs.rs.gov.br/upload/arquivos/202109/02124805-manual-recomendacoes-controle-tuberculose-brasil-2-ed.pdf [9] Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos. Módulo II Coinfecções e Infecções Oportunistas. 2024. Capítulo de criptococose, especialmente esquemas e manejo nas páginas impressas 83 a 85. Seu escopo é o adulto vivendo com HIV; não extrapolar automaticamente para todo hospedeiro. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/pcdt_manejo_hiv_adultos_modulo2.pdf [10] National Institutes of Health. Herpes Simplex Virus Adult and Adolescent Opportunistic Infections. Fonte oficial de confirmação da dose e duração de aciclovir na encefalite em adultos com HIV. https://clinicalinfo.hiv.gov/en/guidelines/hiv-clinical-guidelines-adult-and-adolescent-opportunistic-infections/herpes-simplex [11] Tunkel AR e colaboradores. The Management of Encephalitis. IDSA. Clinical Infectious Diseases. 2008;47:303-327. Diretriz histórica, atualmente arquivada no portal da sociedade, utilizada com essa identificação para abordagem diagnóstica e repetição do teste para herpes; não apresentada como publicação nova. https://www.idsociety.org/practice-guideline/encephalitis https://doi.org/10.1086/589747 [12] Centers for Disease Control and Prevention. Clinical Treatment of Rat Lungworm. Manejo de Angiostrongylus cantonensis. https://www.cdc.gov/angiostrongylus/hcp/clinical-care/index.html [13] Centers for Disease Control and Prevention. Clinical Care of Naegleria fowleri Infection. Tratamento especializado da meningoencefalite amebiana primária. https://www.cdc.gov/naegleria/hcp/clinical-care/index.html [14] Centers for Disease Control and Prevention. Clinical and Laboratory Diagnosis for Naegleria fowleri Infection. Testes diagnósticos específicos. https://www.cdc.gov/naegleria/hcp/diagnosis-testing/index.html [15] Secretaria da Saúde do Estado da Bahia. Meningite. Orientações de assistência e vigilância, página atualizada em 2026. https://www.ba.gov.br/saude/publicacoes/patologias_med_estra/meningite [16] Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 50/2026 CGICI DPNI SVSA MS. Grupos de vacinação meningocócica ACWY e indicadores. https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2026/nota-tecnica-no-50-2026-cgici-dpni-svsa-ms Fontes eletrônicas consultadas na revisão iniciada em 2 de outubro de 2026, horário da Bahia. Material educacional para discussão acadêmica; prescrições e fluxos assistenciais devem ser conferidos no protocolo aplicável ao paciente e ao serviço. Tutoria de Medicina com os seis objetivos integrados Roteiro de leitura Guia de siglas e termos Objetivo 1 Conceito e classificação Anatomia que explica a doença Por que essa localização importa Classificar em três eixos Objetivo 1 Agentes e perfil do paciente Particularidades dos agentes Objetivo 1 Quadros clínicos Síndrome meníngea e exame físico Apresentações que não podem passar despercebidas Objetivo 1 Causas subagudas e menos comuns Tuberculose e fungos Parasitos e amebas de vida livre Meningites não infecciosas Objetivo 2 Fisiopatologia bacteriana Da porta de entrada ao espaço subaracnoideo A resposta imune também produz lesão Objetivo 2 Edema pressão e outras etiologias Meningite viral Meningite tuberculosa Meningite criptocócica Parasitária e não infecciosa Objetivo 2 Meningite e encefalite Encefalite herpética Outras encefalites Objetivo 3 Sinais de alerta Sinais que exigem interpretação Risco aumentado não é o mesmo que sinal de herniação Objetivo 3 Complicações e seguimento Complicações neurológicas Complicações sistêmicas Hiponatremia não tem um único mecanismo Objetivo 4 Sequência diagnóstica Primeiro decidir o que não pode esperar Imagem antes da punção segundo a OMS Outras razões para adiar a punção A exceção que ajuda a entender o mecanismo Objetivo 4 Exames e indicações Exames dirigidos Objetivo 4 Diagnósticos diferenciais Meningismo e meningite Hipótese provável não é certeza Objetivo 5 Líquor normal e coleta O que registrar na punção Unidades que costumam confundir Relação entre glicose liquórica e sanguínea Objetivo 5 Padrões liquóricos comparados Por que a glicose cai Por que a proteína sobe Armadilhas frequentes Objetivo 5 Testes específicos e limitações Gram e cultura Pesquisa molecular Tuberculose Criptococo Lactato e marcadores sanguíneos Punção traumática Objetivo 5 Casos para interpretar o líquor Caso A Início agudo e neutrófilos Caso B Linfócitos e glicose preservada Caso C Evolução subaguda e glicose baixa Caso D Poucas células e pressão alta Caso E Febre e afasia Objetivo 6 Tratamento inicial Medidas que ocorrem ao mesmo tempo Escolha empírica por contexto Por que as fontes apresentam esquemas diferentes O que significa descalonar Objetivo 6 Doses antibacterianas para estudo Crianças e recém-nascidos Como calcular sem confundir unidades Objetivo 6 Farmacologia e segurança Contraindicação e precaução são conceitos diferentes Farmacocinética que muda a conduta Objetivo 6 Corticoide e duração Dexametasona na meningite bacteriana Terapia dirigida em doença não complicada Listeria e gentamicina Objetivo 6 Meningite viral e encefalite herpética Meningite viral sem complicações Suspeita de encefalite por herpes Se o primeiro teste for negativo Cuidados associados Objetivo 6 Meningite tuberculosa Tratar a infecção e a inflamação Doses fixas combinadas no esquema brasileiro Farmacologia para compreender o acompanhamento Objetivo 6 Meningite criptocócica Esquema do Ministério da Saúde para adultos com HIV Controle da pressão Como os fármacos atuam Por que não começar tudo ao mesmo tempo Objetivo 6 Outras causas e suporte Parasitárias e amebianas Não infecciosas Suporte clínico com justificativa Objetivo 6 Contatos e vigilância Três medidas com objetivos distintos Atualização brasileira que deve orientar a avaliação Exemplos de raciocínio epidemiológico Vigilância no Brasil Objetivo 6 Quimioprofilaxia Doença meningocócica Doença invasiva por Hib Por que os esquemas não são iguais E o próprio paciente tratado Para quaiscausas não se aplica esta tabela Objetivo 6 Precauções vacinação e reabilitação Vacinação Depois da alta Casos integradores para a tutoria 1 Febre púrpura e choque 2 Idoso com meningite comunitária 3 Cefaleia subaguda em pessoa com HIV 4 Febre alteração de comportamento e crise focal 5 Piora durante o tratamento Revisão dos seis objetivos 1 Definir e diferenciar 2 Explicar o mecanismo 3 Reconhecer gravidade 4 Investigar com segurança 5 Interpretar o conjunto do líquor 6 Justificar tratamento e prevenção Perguntas que o grupo deve conseguir responder Referências e identificação das fontes Materiais enviados e base acadêmica Ministério da Saúde e OMS Referências complementaresinvestigar via de entrada, especialmente em recorrência. Otite, mastoidite ou sinusite Disseminação contígua; procurar empiema e abscesso se focalidade ou resposta inadequada. Neurocirurgia ou derivação Estafilococos e bacilos Gram-negativos, inclusive Pseudomonas; avaliar infecção do dispositivo. Asplenia ou disfunção esplênica Maior vulnerabilidade a bactérias encapsuladas. Deficiência terminal do complemento Associação importante com doença meningocócica recorrente. Particularidades dos agentes Pneumococo: pode acompanhar pneumonia ou foco otorrinolaringológico. Tem potencial de complicações neurológicas importantes. A sensibilidade a penicilina e cefalosporinas deve ser interpretada com critérios próprios para meningite. Meningococo: coloniza a nasofaringe e pode causar meningite, infecção invasiva do sangue ou ambas. Petéquias e púrpura são pistas, mas sua ausência não exclui doença. A transmissão e a investigação dos contatos têm importância coletiva. Listeria: é um bacilo Gram-positivo relacionado, entre outras exposições, a alimentos contaminados. Pode produzir meningite e comprometimento do tronco encefálico. Sua resistência intrínseca às cefalosporinas explica por que ceftriaxona isolada não oferece cobertura adequada. Haemophilus influenzae: o tipo b é prevenível por vacina, mas existem outros sorotipos e cepas não tipáveis que também podem causar doença invasiva. Não se deve usar “Haemophilus” e “Hib” como termos equivalentes. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 5 Objetivo 1 Quadros clínicos Síndrome meníngea e exame físico Febre, cefaleia, fotofobia, náuseas, vômitos e rigidez de nuca são manifestações frequentes. A tríade clássica da meningite bacteriana é febre, rigidez de nuca e alteração do estado mental, mas frequentemente está incompleta. A combinação de febre, cefaleia e rigidez é uma apresentação meníngea comum, sem constituir critério obrigatório. [1-3] Na rigidez de nuca existe resistência à flexão passiva do pescoço. No sinal de Kernig, a extensão do joelho com quadril flexionado desencadeia resistência ou dor. No sinal de Brudzinski, a flexão passiva do pescoço provoca flexão involuntária dos membros inferiores. Esses achados ajudam quando presentes, mas a baixa sensibilidade impede utilizá-los para excluir meningite. Forma Apresentação sugestiva O que deve chamar atenção Bacteriana piogênica Início rápido, febre, cefaleia, meningismo e possível confusão Deterioração em horas, choque ou disfunção neurológica. Viral isolada Febre e meningismo, muitas vezes com consciência relativamente preservada Rebaixamento persistente ou focalidade exige investigar encefalite e outras causas. Tuberculosa Cefaleia progressiva, febre, mal-estar e evolução subaguda Pares cranianos, hidrocefalia e déficit focal. Criptocócica Cefaleia persistente, febre variável, sinais meníngeos discretos ou ausentes Alterações visuais, pressão elevada e imunossupressão. Encefalite herpética Febre com alteração de comportamento, memória, linguagem ou consciência Crises epilépticas e lesões temporais na ressonância. Apresentações que não podem passar despercebidas Recém-nascidos e lactentes: recusa alimentar, letargia, irritabilidade, apneia, hipotonia, instabilidade térmica e convulsões podem preceder sinais meníngeos. Fontanela abaulada é relevante, mas não precisa estar presente. Idosos: delirium, sonolência e perda funcional podem predominar; rigidez de nuca pode ser difícil de interpretar por doença cervical prévia. Imunossuprimidos: febre, rigidez e pleocitose podem ser discretas apesar de doença grave. Um líquor pouco inflamatório não encerra a investigação. Para a tutoria: a história clínica modifica a interpretação do exame. Um adulto alerta com cefaleia e febre pode ter meningite; um idoso confuso sem rigidez também pode. A ausência de um sinal isolado não substitui a avaliação do conjunto. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 6 Objetivo 1 Causas subagudas e menos comuns Tuberculose e fungos A meningite tuberculosa pode surgir após disseminação hematogênica do Mycobacterium tuberculosis. Contato com TB, emagrecimento e imunossupressão reforçam a suspeita, mas não são obrigatórios. A ausência de tuberculose pulmonar reconhecida não exclui acometimento meníngeo. [2,3] Na criptococose, a infecção é usualmente adquirida do ambiente por inalação, com posterior disseminação. Cryptococcus neoformans é particularmente importante em imunodeficiência celular; Cryptococcus gattii também pode acometer pessoas sem imunossupressão aparente e formar criptococomas. Histoplasma e outros fungos entram no diferencial conforme região, exposição e hospedeiro. [2,3] Parasitos e amebas de vida livre Angiostrongylus cantonensis: considerar na síndrome de meningite eosinofílica associada à exposição alimentar compatível, incluindo ingestão acidental de moluscos ou vegetais contaminados. Eosinofilia no líquor orienta a investigação, mas não identifica sozinha o agente. [12] Naegleria fowleri: a entrada de água doce contaminada pelo nariz pode permitir invasão pelas vias olfatórias. A meningoencefalite amebiana primária evolui rapidamente e pode imitar meningite bacteriana. A história de exposição é decisiva para solicitar testes específicos precocemente. [13,14] Neurocisticercose subaracnoidea: pode provocar aracnoidite, hidrocefalia e vasculite. A cisticercose decorre da ingestão de ovos de Taenia solium por via fecal-oral; comer carne suína contendo cisticercos causa teníase, uma situação diferente. A forma meníngea não deve receber automaticamente o mesmo esquema curto usado em algumas formas parenquimatosas. [2] Meningites não infecciosas Doença neoplásica leptomeníngea, sarcoidose, doenças autoimunes e reação a medicamentos podem produzir inflamação meníngea. Entre os medicamentos relacionados à meningite asséptica estão anti- inflamatórios não esteroides e alguns antimicrobianos, dependendo da história e da relação temporal. [1,3,4] Na doença neoplásica, podem coexistir cefaleia, múltiplos nervos cranianos comprometidos e sintomas radiculares. Na reação medicamentosa, a ligação temporal e a melhora após suspensão orientam a hipótese; não se recomenda reexposição deliberada para “confirmar”. A exclusão de infecção precisa ser adequada, especialmente antes de imunossupressão. Integração: uma cultura bacteriana negativa não transforma automaticamente o caso em meningite viral. Reavalie tempo de evolução, glicose liquórica, imunidade, medicações, exposições e necessidade de testes adicionais. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 7 Objetivo 2 Fisiopatologia bacteriana Da porta de entrada ao espaço subaracnoideo Pneumococo e meningococo podem colonizar a nasofaringe sem causar doença. Quando ocorre invasão, fatores bacterianos e condições do hospedeiro permitem atravessar a mucosa, sobreviver no sangue e alcançar o sistema nervoso. Outras rotas incluem extensão de um foco adjacente e inoculação direta por trauma ou cirurgia. [1,3] A cápsula polissacarídica de importantes patógenos dificulta opsonização e fagocitose. Opsonização é o revestimento do microrganismo por moléculas que facilitam seu reconhecimento pelos fagócitos. Não se deve confundir cápsula polissacarídica com lipopolissacarídeo da membrana externa de bactérias Gram-negativas. O agente atravessa barreiras celulares por passagem através das células, entre elas ou, em alguns casos, dentro de células infectadas. No líquor, a baixa concentração de anticorpos e complemento favorece multiplicação. A inflamação resultante aumenta proteínas e permite recrutamento de leucócitos. A resposta imune também produz lesão Componentes bacterianos ativam células da imunidade inata, como micróglia e monócitos, além do endotélio. São liberadas citocinas, entre elas fator de necrose tumoral alfa e interleucina 1 beta, e quimiocinasque atraem leucócitos. Neutrófilos, enzimas, radicais livres e alterações vasculares participam da lesão secundária. [1] Etapa Consequência Relação com a conduta Multiplicação bacteriana Aumento da carga de microrganismos Antibiótico precoce reduz a fonte do estímulo infeccioso. Permeabilidade vascular aumentada Entrada de proteínas e líquido no tecido Explica proteinorraquia e edema vasogênico. Exsudato inflamatório Prejuízo de circulação e absorção do líquor Explica hidrocefalia e pressão elevada. Inflamação e trombose vascular Isquemia cerebral Explica déficit focal e pior prognóstico. Lesão e disfunção neuronal Crises, confusão e sequelas Justifica monitorização neurológica e manejo de complicações. A lise bacteriana após o antibiótico pode aumentar transitoriamente a liberação de componentes inflamatórios. Isso fundamenta o uso adjuvante precoce de dexametasona em situações indicadas. Não fundamenta atrasar o antibiótico: o risco da progressão da infecção permanece prioritário. Frase para explicar na tutoria: eliminar a bactéria e controlar as consequências da inflamação são objetivos relacionados, mas distintos; o dano neurológico pode persistir mesmo após a esterilização do líquor. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 8 Objetivo 2 Edema pressão e outras etiologias Mecanismo O que acontece Manifestação possível Edema vasogênico A barreira vascular perde seletividade; líquido e proteínas extravasam Aumento do volume cerebral e da pressão. Edema citotóxico A célula perde controle de íons e água por disfunção metabólica Edema intracelular e lesão neuronal. Edema intersticial Pressão e dinâmica liquórica alteradas favorecem passagem de líquido ao tecido Associação com hidrocefalia. Vasculite e trombose Inflamação e obstrução dos vasos Infarto, hemiparesia e alterações de linguagem. O crânio adulto tem capacidade limitada de acomodar aumento de volume. O crescimento do volume de tecido, sangue ou líquor pode elevar a pressão intracraniana. A pressão de perfusão cerebral depende da diferença entre pressão arterial média e pressão intracraniana. Assim, hipotensão e pressão intracraniana elevada podem somar-se e comprometer a perfusão. [1,3] Meningite viral Vírus podem atingir o sistema nervoso por disseminação sanguínea ou vias neurais. A resposta costuma ser predominantemente mononuclear. Como o processo tende a ser menos purulento na meningite viral isolada, a glicose frequentemente se mantém preservada. Isso é um padrão probabilístico: vírus também podem causar doença grave, e neutrófilos podem predominar no início. [1-3] Meningite tuberculosa A disseminação e a inflamação granulomatosa produzem exsudato especialmente na base do encéfalo. O processo envolve nervos cranianos, interfere no fluxo do líquor e compromete vasos perfurantes. Essa associação explica a combinação de paralisias de nervos cranianos, hidrocefalia e infartos. A piora pode decorrer tanto da infecção quanto da resposta inflamatória. [2,3] Meningite criptocócica Leveduras e componentes capsulares prejudicam a reabsorção do líquor. Na imunossupressão importante, uma carga fúngica elevada pode coexistir com poucas células inflamatórias no exame. Por isso, cefaleia e pressão de abertura elevada têm grande importância mesmo quando a celularidade parece pouco alterada. [2] Parasitária e não infecciosa Na neurocisticercose subaracnoidea, a reação inflamatória ao parasito favorece aracnoidite e obstrução liquórica. Na doença neoplásica, infiltração e obstrução das vias de circulação podem produzir manifestações semelhantes. O mecanismo final de hipertensão intracraniana não identifica sozinho a causa; testes etiológicos e imagem continuam necessários. [2-4] TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 9 Objetivo 2 Meningite e encefalite Encefalite é a inflamação do parênquima encefálico acompanhada de disfunção neurológica. Encefalopatia é um termo mais amplo para disfunção cerebral e pode ocorrer por sepse, distúrbios metabólicos, fármacos e outras causas sem inflamação encefálica primária. A distinção depende do conjunto clínico, liquórico, radiológico e eletrofisiológico. [1,2,4,11] Aspecto Meningite Encefalite Local predominante Meninges e espaço subaracnoideo Parênquima encefálico Síndrome central Cefaleia, fotofobia e irritação meníngea Alterações de comportamento, consciência, memória e função focal Convulsões e focalidade Podem ocorrer, sobretudo em complicações Podem constituir parte central da apresentação Exame decisivo Líquor com análise etiológica Integração de líquor, RM, EEG e contexto Sobreposição Inflamação pode afetar o encéfalo Pode coexistir meningite, formando meningoencefalite Encefalite herpética O vírus herpes simples tipo 1 tem predileção por regiões temporais e límbicas e pode produzir necrose hemorrágica. Memória, comportamento e linguagem dependem dessas redes; seu comprometimento explica amnésia, afasia, alucinações e mudanças de personalidade. Crises focais podem ocorrer com ou sem generalização. [1,2] A doença pode surgir em pessoas imunocompetentes. Não é necessário haver herpes labial ativo. A ausência de hemácias no líquor ou de uma lesão temporal evidente na primeira avaliação também não exclui o diagnóstico. A investigação inclui pesquisa molecular de herpes no líquor e ressonância. O eletroencefalograma é útil quando há suspeita de crises subclínicas ou rebaixamento que não se explica apenas pelo exame inicial. Um resultado molecular muito precoce pode ser negativo; se a suspeita permanece alta, deve-se manter a avaliação e considerar nova amostra em três a sete dias. [11] Outras encefalites Arbovírus, varicela-zóster e agentes oportunistas entram no diferencial conforme exposições e imunidade. Encefalite autoimune deve ser considerada em quadros subagudos com sintomas psiquiátricos, crises, alteração cognitiva, movimentos anormais ou disautonomia. Esses achados não autorizam excluir infecção sem investigação. Consequência prática: alteração mental em um paciente com febre pode resultar de encefalite, meningite complicada ou encefalopatia sistêmica. A suspeita de herpes justifica aciclovir precoce; quando bactéria permanece possível, pode ser necessário cobrir ambas as hipóteses inicialmente. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 10 Objetivo 3 Sinais de alerta Sinais de alerta, ou red flags, identificam risco de deterioração e determinam a urgência. Não são uma lista que precisa estar completa. A avaliação deve ser repetida porque a doença pode mudar em poucas horas. [1- 4] Achado Principal preocupação Implicação imediata Queda da consciência ou incapacidade de proteger a via aérea Disfunção cerebral, edema, crise ou choque Estabilização e monitorização intensiva. Déficit focal novo Infarto, abscesso, empiema, encefalite ou efeito de massa Neuroimagem e reavaliação da segurança da punção. Crise prolongada ou repetida sem recuperação Estado de mal epiléptico Tratamento urgente e investigação da causa. Pupilas assimétricas ou pouco reativas e posturas anormais Herniação ou comprometimento de tronco Emergência neurocrítica; adiar punção. Papiledema Pressão intracraniana elevada Avaliar imagem e contexto antes de punção diagnóstica. Púrpura progressiva em paciente febril Doença meningocócica invasiva e coagulopatia Tratar sepse e iniciar antibiótico sem aguardar líquor. Hipotensão, extremidades frias, oligúria e perfusão ruim Choque e disfunção orgânica Ressuscitação e suporte hemodinâmico. Dispneia, hipoxemia ou apneia Falência respiratória Suporte respiratório e proteção de via aérea. Sinais que exigem interpretação Vômito e cefaleia podem ocorrer em meningite sem herniação. Sua associação com deterioração neurológica, pupilas anormais ou focalidade aumenta a preocupação. O papiledema pode estar ausente em elevação aguda da pressão, portantoseu exame normal não garante segurança. A tríade de Cushing consiste em hipertensão arterial, bradicardia e alteração respiratória. É um sinal tardio e grave; não se deve esperar sua instalação para reconhecer deterioração neurológica. Risco aumentado não é o mesmo que sinal de herniação Extremos de idade, gestação, imunossupressão, ausência de baço e neurocirurgia recente alteram a probabilidade de agentes e complicações. São fatores de risco importantes, mas não equivalem, isoladamente, a choque ou herniação. A distinção evita tanto subestimar o caso quanto indicar procedimentos sem necessidade. Erro a evitar: aguardar petéquias para pensar em meningococo. A doença invasiva pode começar com sintomas inespecíficos e evoluir antes de surgir a manifestação cutânea clássica. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 11 Objetivo 3 Complicações e seguimento Complicações neurológicas Hidrocefalia: decorre de dificuldade na circulação ou reabsorção do líquor. Pode provocar cefaleia, vômitos, alteração de consciência e déficits. A necessidade de drenagem depende do mecanismo e da gravidade. Infartos e tromboses: inflamação vascular, trombose arterial ou venosa e hipoperfusão podem produzir lesão isquêmica. Novo déficit focal durante o tratamento exige investigação; não se deve atribuí-lo automaticamente a sedação ou “fraqueza”. Empiema e abscesso: suspeitar diante de febre persistente, crise focal, deterioração ou foco otorrinolaringológico. São coleções que podem exigir abordagem cirúrgica além dos antimicrobianos. Perda auditiva: pode resultar de lesão coclear e neural. O paciente nem sempre percebe imediatamente o déficit; crianças podem manifestá-lo como atraso de linguagem ou dificuldade escolar. Epilepsia e déficits cognitivos: a recuperação da febre não assegura recuperação completa. Atenção, memória, linguagem e funções executivas podem continuar comprometidas. [1-4] Complicações sistêmicas Na meningococcemia, a resposta inflamatória sistêmica pode causar choque e coagulação intravascular disseminada, isto é, ativação difusa da coagulação, com trombose e consumo de fatores e plaquetas. Podem coexistir sangramento, necrose de extremidades e disfunção de órgãos. Hemorragia adrenal bilateral é uma manifestação associada à síndrome de Waterhouse-Friderichsen, mas não explica sozinha todo choque meningocócico. Hiponatremia não tem um único mecanismo Pode ocorrer por secreção inadequada de hormônio antidiurético, perdas de sal, hipovolemia, líquidos administrados e outras condições. A avaliação exige sódio, osmolaridade e estado volêmico. Restringir água automaticamente pode piorar a perfusão em quem está hipovolêmico. Convulsões também podem resultar de alterações metabólicas, além da própria infecção. Momento O que reavaliar Durante internação Consciência, pupilas, força, crises, perfusão, diurese, sódio e função renal. Antes da alta Audição, mobilidade, linguagem, cognição, necessidade de reabilitação e plano terapêutico. Após a alta Sequelas que se tornam mais evidentes no retorno às atividades e acompanhamento do desenvolvimento infantil. As diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) incluem cuidado das sequelas e avaliação auditiva como parte do manejo. Recuperação funcional, retorno ao estudo e apoio à família devem integrar o plano de seguimento. [6] TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 12 Objetivo 4 Sequência diagnóstica Primeiro decidir o que não pode esperar 1 Avaliar estabilidade. Examinar via aérea, ventilação, circulação, consciência, pupilas e glicemia. Identificar choque, crise em curso e sinais de herniação. Em paciente instável, estabilizar e tratar a infecção; a punção pode esperar. 2 Colher amostras que não atrasem a terapia. Obter hemoculturas e exames sanguíneos rapidamente. Se for possível realizar punção imediatamente e com segurança, colher líquor antes do antibiótico. Se isso provocar atraso relevante, administrar o tratamento e colher depois. 3 Definir necessidade de imagem antes da punção. A tomografia não é exame obrigatório em toda suspeita de meningite. Seu uso depende de risco de lesão expansiva, edema grave e outros achados clínicos. 4 Iniciar terapia empírica adequada ao paciente. A escolha incorpora idade, imunidade, exposição hospitalar e possibilidade de encefalite. Resultados posteriores permitem ajustar o esquema. 5 Integrar exames e reavaliar. Um teste negativo ou líquor atípico não encerra a investigação quando a suspeita clínica continua forte. [1-4] Imagem antes da punção segundo a OMS Em suspeita de meningite aguda, a OMS relaciona: Glasgow abaixo de 10, sinais focais, déficits de nervos cranianos, papiledema, crise de início recente em adultos e imunossupressão grave. Se a punção for adiada, colher sangue e tratar antes da imagem. [6] Outras razões para adiar a punção Instabilidade cardiorrespiratória, coagulopatia relevante, anticoagulação com efeito significativo e infecção no local da punção exigem avaliação e correção quando possível. O risco hemorrágico depende de plaquetas, coagulação, medicamento utilizado e protocolo; não existe um único número que substitua a avaliação clínica. Tomografia normal não significa autorização automática para puncionar. A decisão continua clínica. Sinais de herniação, deterioração grave ou instabilidade persistente não são anulados por uma imagem sem alterações evidentes. A exceção que ajuda a entender o mecanismo Na criptococose, punções terapêuticas podem ser essenciais para controlar pressão elevada por comprometimento da reabsorção liquórica. Isso não contradiz a cautela com punção em efeito de massa: o risco depende do mecanismo e de gradientes de pressão, e não apenas da expressão “hipertensão intracraniana”. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 13 Objetivo 4 Exames e indicações Exame Quando e por quê Limitação importante Hemoculturas Suspeita bacteriana; idealmente antes do antibiótico Não atrasar terapia por dificuldade de coleta. Hemograma e plaquetas Avaliar inflamação, citopenias e gravidade Resultado normal não exclui meningite. Glicemia Próxima da punção para interpretar glicose liquórica Variações rápidas do sangue podem preceder as do líquor. Sódio, potássio, ureia e creatinina Distúrbios metabólicos e ajuste de medicamentos Repetir conforme evolução e fármacos utilizados. Função hepática e coagulação Gravidade, segurança da punção e terapia Interpretar junto de sangramento e medicamentos. Lactato sanguíneo Suspeita de hipoperfusão e sepse É diferente do lactato liquórico. Líquor básico Pressão, células, diferencial, glicose e proteínas Padrão orienta; raramente identifica sozinho a causa. Gram e cultura do líquor Suspeita bacteriana Antibiótico prévio reduz rendimento, sobretudo da cultura. Testes moleculares Pesquisa de agentes conforme síndrome Painéis cobrem apenas os agentes incluídos. TC de crânio Risco antes da punção ou suspeita de complicação Pode ser normal em meningite e encefalite precoces. RM de encéfalo Encefalite, abscesso, empiema, infarto ou evolução inadequada Disponibilidade e estabilidade do paciente podem limitar uso imediato. EEG Crises, suspeita de estado de mal não convulsivo e encefalite Alterações não identificam sozinhas um agente. Exames dirigidos Solicitar antígeno criptocócico e cultura fúngica na hipótese correspondente; pesquisa molecular e cultura para micobactérias quando houver suspeita de tuberculose; citologia e citometria de fluxo em possível infiltração neoplásica. Sorologias, investigação de HIV e exames de outros focos devem responder a uma hipótese clínica. [1-4] A ressonância não serve apenas para “confirmar meningite”. Seu maior valor pode ser localizar complicações, distinguir encefalite de lesão expansiva e orientar intervenção. A presença de foco sinusal ou otológico exige avaliar tambéma origem da infecção. Repetir punção? Não é rotina em todo paciente com meningite bacteriana que melhora. Considerar em resposta inadequada, suspeita persistente com exame inicial inconclusivo, situações neonatais específicas e determinadas etiologias. Na criptococose, a repetição pode ter objetivo terapêutico; na encefalite herpética, pode esclarecer teste precoce negativo. [1,2,9,11] TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 14 Objetivo 4 Diagnósticos diferenciais Hipótese Pistas a favor Como avançar Hemorragia subaracnoidea Cefaleia abrupta e muito intensa, possível perda de consciência Investigação urgente por imagem e protocolo neurovascular. Abscesso cerebral ou empiema Focalidade, crise, foco contíguo e efeito de massa Imagem com contraste; avaliar cirurgia, evitar punção insegura. Encefalite herpética Comportamento, memória e linguagem alterados, crises RM, líquor e pesquisa molecular; aciclovir enquanto indicado. Encefalopatia séptica ou metabólica Infecção sistêmica, distúrbio de glicose, sódio, rim ou fígado Corrigir causas e verificar se há evidência de infecção do SNC. Encefalite autoimune Evolução subaguda, psiquiatria, crises e movimentos anormais Investigação especializada no sangue e líquor; excluir infecção. Doença leptomeníngea neoplásica Neoplasia, múltiplos nervos cranianos e sintomas radiculares RM com contraste, citologia e citometria; amostras repetidas podem ser necessárias. Meningite medicamentosa Relação temporal com exposição, recorrência após uso Revisar medicamentos e excluir infecção antes de concluir. Trombose venosa cerebral Cefaleia, crise, déficit focal e contexto trombótico Venografia por TC ou RM conforme avaliação. Infecção cervical ou doença osteoarticular Dor localizada e limitação mecânica Exame dirigido e imagem quando indicada. Meningismo e meningite Meningismo é a presença de manifestações de irritação meníngea sem necessariamente haver inflamação meníngea comprovada. Uma infecção fora do sistema nervoso ou uma hemorragia pode produzir rigidez e cefaleia. A palavra descreve a apresentação; não esclarece a causa e não deve reduzir a urgência antes da investigação. [1,3] Hipótese provável não é certeza Febre e alteração comportamental sugerem encefalite, mas também ocorrem em sepse e intoxicação. Líquor linfocitário favorece alguns grupos, mas não exclui bactéria. Hipoglicorraquia não distingue isoladamente tuberculose de fungo ou neoplasia. A estratégia é construir uma hipótese inicial, identificar o que seria perigoso perder e escolher os testes capazes de mudar a conduta. Se a evolução divergir do esperado, reabrir o diagnóstico é parte do tratamento, e não sinal de que o raciocínio inicial foi inútil. Pergunta para discussão: um paciente piora apesar de ceftriaxona. Além de resistência, quais possibilidades investigar? Cobertura ausente para Listeria, diagnóstico não bacteriano, dose inadequada, foco não controlado, abscesso, hidrocefalia, infarto, crise não convulsiva e toxicidade medicamentosa. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 15 Objetivo 5 Líquor normal e coleta O que registrar na punção A pressão de abertura deve ser medida, quando indicada e tecnicamente possível, com o paciente em decúbito lateral e sem esforço excessivo. A posição sentada não permite interpretar a medida pelos mesmos referenciais. Registrar horário, antibióticos já administrados, aspecto da amostra e eventual punção traumática. [1,2] Parâmetro no adulto Referência aproximada Interpretação Aspecto Límpido e incolor Aspecto claro não exclui infecção. Leucócitos Até 5 células/µL Acima disso há pleocitose; referência depende da idade. Hemácias Habitualmente ausentes Podem decorrer de trauma, sangramento ou lesão hemorrágica. Proteína Aproximadamente 15 a 45 mg/dL Varia conforme laboratório, idade e local de coleta. Glicose Em torno de 60% da glicemia Interpretar também a relação líquor/sangue. Pressão de abertura Aproximadamente 10 a 20 cm de água Limites superiores variam com técnica e características do paciente. Os intervalos não são fronteiras universais entre saúde e doença. Recém-nascidos podem apresentar celularidade e proteínas superiores às do adulto. Obesidade, esforço e posicionamento influenciam pressão; não classificar hipertensão intracraniana apenas por um valor marginal, fora de contexto. Unidades que costumam confundir Uma célula por microlitro equivale a uma célula por milímetro cúbico. Dez milímetros de água equivalem a um centímetro de água. Já milímetros de mercúrio são outra unidade: não comparar diretamente um número em mmHg com outro em cm de água. Relação entre glicose liquórica e sanguínea Divida a glicose do líquor pela glicemia em unidades iguais. Se o líquor contém 30 mg/dL e o sangue 100 mg/dL, a relação é 0,30. Relações abaixo de aproximadamente 0,4 reforçam hipóteses como meningite bacteriana, tuberculosa, fúngica ou neoplásica. A relação não determina sozinha qual dessas causas está presente. Em hiperglicemia importante, uma glicose liquórica aparentemente “normal” pode estar baixa proporcionalmente. Também existe defasagem entre alterações do sangue e do líquor, especialmente se a glicemia muda rapidamente. Princípio de leitura: o líquor é uma fotografia de um processo que muda no tempo. Tempo de doença, tratamentos prévios e imunidade precisam acompanhar o laudo. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 16 Objetivo 5 Padrões liquóricos comparados Parâmetro Bacteriana piogênica Viral Tuberculosa Criptocócica Pressão Frequentemente alta Normal ou elevada Frequentemente alta Pode estar muito elevada Células Frequentemente centenas a milhares/µL Em geral dezenas a centenas/µL Frequentemente dezenas a centenas/µL Variável; pode ser baixa na imunossupressão Predomínio Neutrófilos Linfócitos Linfócitos e monócitos Linfócitos e monócitos Proteína Aumentada, por vezes acentuadamente Normal ou moderadamente alta Frequentemente bastante alta Variável ou alta Glicose Baixa com frequência Geralmente preservada Baixa Pode estar baixa Confirmação Gram, cultura, testes moleculares Pesquisa molecular dirigida Teste molecular e cultura específica Antígeno criptocócico e cultura Os valores se sobrepõem. Esta tabela descreve tendências, não critérios absolutos. Uma meningite bacteriana muito precoce, um paciente imunossuprimido e uma infecção parcialmente tratada podem escapar ao padrão clássico. [1-3] Por que a glicose cai O consumo por células e microrganismos e a alteração de transporte contribuem para a redução da glicose no líquor. Uma redução importante favorece processos bacterianos, granulomatosos e neoplásicos. A explicação “a bactéria come toda a glicose” é incompleta e não esclarece por que outras causas também produzem hipoglicorraquia. Por que a proteína sobe O aumento da permeabilidade das barreiras e a inflamação permitem maior presença de proteínas no compartimento liquórico. Bloqueios da circulação também podem elevar bastante a concentração. Proteína elevada é sensível ao processo patológico, mas pouco específica para a etiologia. Armadilhas frequentes Neutrófilos podem predominar no início de meningite viral e de algumas formas tuberculosas. Listeria e infecções parcialmente tratadas podem apresentar padrão menos típico. Líquor claro e poucas células não excluem doença grave, sobretudo na imunossupressão. Hemácias podem ocorrer na encefalite herpética, mas também na punção traumática; sua ausência não exclui herpes. Eosinófilos sugerem um conjunto de causas, incluindo parasitos, algumas micoses e reações, sem indicar automaticamente uma espécie. Antibiótico prévio pode negativar cultura rapidamente sem normalizar de imediato células, glicose e proteínas. Conclusão do raciocínio: “linfocitário” descreve uma população celular; “viral” é um diagnósticoetiológico. Não são palavras intercambiáveis. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 17 Objetivo 5 Testes específicos e limitações Gram e cultura O Gram pode fornecer uma pista rapidamente: diplococos Gram-positivos sugerem pneumococo; diplococos Gram-negativos sugerem meningococo. A morfologia ajuda, mas o resultado precisa ser confirmado e correlacionado com a clínica. A sensibilidade depende de carga de microrganismos, técnica e tratamento prévio. [1,2] A cultura identifica o agente e permite avaliar sensibilidade. Deve ser solicitada mesmo quando existe painel molecular, porque o painel não substitui o antibiograma. Um Gram ou cultura negativo não exclui bactéria se a suspeita é alta, particularmente após antibiótico. Pesquisa molecular Detecta material genético e pode continuar útil quando a cultura perde rendimento. Entretanto, falsos negativos podem ocorrer por baixa carga, coleta precoce ou agente não incluído. Resultado positivo também exige contexto, especialmente em painéis amplos e possibilidade de contaminação ou detecção sem causalidade clínica. Tuberculose Solicitar teste molecular validado para a amostra e cultura para micobactérias. A pesquisa direta de bacilos pode ter baixa sensibilidade. Volume de amostra e processamento influenciam o rendimento. Um teste molecular negativo não exclui meningite tuberculosa; a integração de epidemiologia, imagem e padrão liquórico pode justificar tratamento antes da cultura. [2,3,8] Criptococo O antígeno criptocócico no líquor é central, associado à cultura e à pressão de abertura. A tinta da China pode demonstrar leveduras, mas um resultado negativo tem menor poder de exclusão, especialmente em baixa carga fúngica. Antígeno no sangue sugere infecção e pode indicar necessidade de investigar acometimento do sistema nervoso. [2,9] Lactato e marcadores sanguíneos O lactato liquórico elevado pode apoiar meningite bacteriana, mas também sofre influência de crises, hipóxia e outras lesões. Valores em torno de 3,5 a 4 mmol/L são frequentemente estudados como referência de suspeição, sem substituir microbiologia e contexto. Não confundir com lactato sanguíneo usado na avaliação de hipoperfusão. [2] Punção traumática A presença de sangue pode elevar artificialmente células e proteínas. Fórmulas de “correção” pela quantidade de hemácias são aproximações e não devem ser usadas isoladamente para excluir meningite, sobretudo em lactentes. Comparar tubos, história, diferencial, microbiologia e necessidade de repetir a investigação é mais seguro que confiar apenas no número corrigido. Mensagem para a apresentação: um teste tem valor dentro de uma probabilidade clínica. Quanto mais perigoso for perder o diagnóstico e maior a suspeita, menor deve ser a confiança em um único resultado negativo. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 18 Objetivo 5 Casos para interpretar o líquor Os exemplos abaixo são didáticos e foram construídos para exercitar o raciocínio. Os números não definem uma prescrição individual. Caso A Início agudo e neutrófilos Adulto com febre, cefaleia e confusão. Líquor com 2.400 leucócitos/µL, 90% de neutrófilos, proteína de 220 mg/dL e glicose de 22 mg/dL. Glicemia de 110 mg/dL. Interpretação: a relação glicose líquor/sangue é 22 ÷ 110 = 0,20. Pleocitose neutrofílica, proteína elevada e glicose proporcionalmente baixa reforçam meningite bacteriana. Colher microbiologia e iniciar tratamento empírico apropriado sem esperar confirmação. Procurar sinais de gravidade e verificar necessidade de imagem se a punção ainda não tiver sido realizada. Caso B Linfócitos e glicose preservada Jovem alerta, com febre e fotofobia. Líquor com 180 leucócitos/µL, 80% de linfócitos, proteína de 65 mg/dL e glicose de 62 mg/dL. Glicemia de 100 mg/dL. Interpretação: relação de 0,62 e padrão linfocitário favorecem meningite viral no contexto descrito. Contudo, a decisão de interromper cobertura antibacteriana depende de estabilidade, microbiologia, tempo de doença e reavaliação. O líquor sozinho não autoriza alta imediata. Caso C Evolução subaguda e glicose baixa Paciente com três semanas de cefaleia, emagrecimento e diplopia. Líquor com 140 leucócitos/µL, predomínio linfocitário, proteína de 190 mg/dL e relação de glicose de 0,25. Interpretação: não corresponde ao padrão tranquilizador de “viral simples”. Tuberculose e fungos ganham importância; investigar imagem, micobactérias, criptococo e imunidade conforme o contexto. A diplopia pode refletir comprometimento de nervos cranianos ou pressão elevada. Caso D Poucas células e pressão alta Pessoa com imunossupressão avançada, cefaleia persistente e visão turva. Pressão de abertura de 35 cm de água, apenas 12 leucócitos/µL e antígeno criptocócico positivo no líquor. Interpretação: a pequena pleocitose não indica doença leve. O conjunto sugere meningite criptocócica com hipertensão intracraniana, exigindo antifúngicos e controle da pressão. Caso E Febre e afasia Paciente com mudança de comportamento, crise focal e afasia, com líquor linfocitário e glicose preservada. Interpretação: a síndrome encefalítica impõe investigação de herpes com ressonância, teste molecular e avaliação de crises. Não tratar como meningite viral benigna apenas pelo perfil do líquor. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 19 Objetivo 6 Tratamento inicial Medidas que ocorrem ao mesmo tempo Estabilizar via aérea, respiração e circulação; monitorar consciência e perfusão; corrigir hipoglicemia e crises; colher hemoculturas e líquor quando seguro; iniciar antimicrobianos prontamente. A suspeita de meningococo ou Hib também exige precauções de transmissão e comunicação à vigilância. [1-5] Escolha empírica por contexto Situação Esquema de referência e justificativa Meningite comunitária em criança maior ou adulto Ceftriaxona ou cefotaxima. Associar vancomicina conforme risco de pneumococo resistente e protocolo local. Risco de Listeria Acrescentar ampicilina ao esquema comunitário; cefalosporina não cobre Listeria. Recém-nascido ou lactente muito pequeno Regime neonatal, frequentemente ampicilina com cefotaxima; escolhas e doses dependem de idade gestacional, pós-natal e epidemiologia. Neurocirurgia ou dispositivo Vancomicina associada a cefepima, ceftazidima ou meropenem, conforme resistência e contexto. Possível encefalite herpética Acrescentar aciclovir intravenoso enquanto a hipótese for relevante. Alergia grave a antibióticos Individualizar com equipe especializada; não substituir empiricamente por um esquema sem cobertura equivalente. Por que as fontes apresentam esquemas diferentes O Harrison enviado inclui vancomicina em esquemas empíricos comunitários. O material de preparação para provas contrasta essa conduta com esquemas brasileiros baseados em ceftriaxona. Essa diferença reflete contexto de resistência e época da referência; não autoriza concluir que pneumococo resistente “não existe no Brasil”. [1,2] A OMS recomenda ceftriaxona ou cefotaxima e considera adicionar vancomicina em contextos de elevada resistência pneumocócica. Para Listeria, cita idade acima de 60 anos, gestação e imunossupressão; livros podem usar cortes etários diferentes. [6] O que significa descalonar É reduzir o espectro quando o agente e a sensibilidade permitem, mantendo eficácia no sistema nervoso. Não é reduzir a dose de meningite para a dose usual de uma infecção leve. Sensibilidade laboratorial, penetração no líquor e evolução clínica precisam ser consideradas juntas. Na meningite associada a dispositivo, a remoção ou troca do material infectado pode ser necessária. Antibiótico isolado pode falhar quando há biofilme ou foco não controlado. [1,2] TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 20 Objetivo 6 Doses antibacterianas para estudo Referências de tratamento intravenosopara adultos com função renal habitual. Não são esquemas intercambiáveis nem uma lista para uso simultâneo. Ajustes são particularmente importantes em disfunção renal, obesidade, gestação e terapia intensiva. [1,2] Fármaco Dose adulta usual no contexto meníngeo Papel e cuidado principal Ceftriaxona 2 g IV a cada 12 horas Base comunitária; total de 4 g/dia. Cefotaxima 2 g IV a cada 4 horas Alternativa à ceftriaxona; ajustar conforme função renal e protocolo. Ampicilina 2 g IV a cada 4 horas Cobertura de Listeria; total de 12 g/dia. Vancomicina Dose por peso e monitorização; regimes iniciais frequentemente usam 15 a 20 mg/kg/dose a cada 8 a 12 horas Intervalo e dose não são fixos; ajustar à função renal e exposição sérica. Cefepima 2 g IV a cada 8 horas Contextos com bacilos Gram-negativos, incluindo Pseudomonas. Ceftazidima 2 g IV a cada 8 horas Atividade antipseudomonas; não substitui isoladamente cobertura para Gram-positivos. Meropenem 2 g IV a cada 8 horas Cenários selecionados de resistência e infecção hospitalar. O capítulo enviado do Harrison apresenta vancomicina em dose diária total de 45 a 60 mg/kg, fracionada, e enfatiza monitorização. Na prática, a função renal e a concentração medida podem exigir doses menores ou maiores. Escolher um valor isolado sem monitorização pode resultar em subtratamento ou toxicidade. [1] Crianças e recém-nascidos Ceftriaxona em meningite pediátrica, fora das contraindicações neonatais, é frequentemente utilizada em 100 mg/kg/dia, divididos em duas doses, sem ultrapassar 4 g/dia. O regime deve ser conferido para a idade e o serviço. Doses neonatais não podem ser extrapoladas: idade gestacional e pós-natal modificam a eliminação e os intervalos. [2] Como calcular sem confundir unidades Uma criança de 20 kg com referência de 100 mg/kg/dia recebe um total calculado de 2.000 mg/dia. Se dividido a cada 12 horas, são 1.000 mg por administração. Esse exemplo ensina a conta; não substitui a verificação da indicação, dose máxima e contraindicações. Antes de cada prescrição: confirmar dose por administração ou por dia, intervalo, via, diluição, tempo de infusão, peso utilizado e necessidade de ajuste renal. Não usar a dose de quimioprofilaxia para tratar meningite instalada. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 21 Objetivo 6 Farmacologia e segurança Medicamento ou classe Como atua e alcança o alvo Efeitos adversos e precauções Ceftriaxona e cefotaxima Betalactâmicos; inibem síntese da parede. Uso IV e doses altas favorecem exposição liquórica adequada Alergia, diarreia e alterações hematológicas. Ceftriaxona pode causar precipitação biliar. Ampicilina Betalactâmico com atividade contra Listeria. Eliminação renal importante Reações de hipersensibilidade, diarreia e neurotoxicidade se houver acúmulo; ajustar na insuficiência renal. Vancomicina Liga-se a componentes precursores da parede bacteriana. Penetração liquórica variável Nefrotoxicidade e reação relacionada à infusão; monitorar função renal e exposição ao fármaco. Cefepima Cefalosporina com atividade contra determinados Gram-negativos hospitalares Acúmulo pode causar encefalopatia, mioclonias e crises, sobretudo na disfunção renal. Meropenem Carbapenêmico que inibe a parede; útil em agentes sensíveis e contextos selecionados Ajuste renal; pode reduzir concentrações de valproato e comprometer controle de crises. Aciclovir Após ativação intracelular, inibe a DNA- polimerase viral Cristalúria e lesão renal; neurotoxicidade por acúmulo. Infusão lenta, hidratação adequada e ajuste renal. Contraindicação e precaução são conceitos diferentes Hipersensibilidade grave ao próprio medicamento pode impedir o uso. Insuficiência renal frequentemente exige ajuste, não proibição absoluta. Uma história vaga de “alergia a antibiótico” deve ser esclarecida: anafilaxia, reação cutânea grave, intolerância gastrointestinal e reação infusional não têm o mesmo significado. [1,4] Na ceftriaxona, prematuridade, hiperbilirrubinemia neonatal e necessidade de soluções intravenosas contendo cálcio são situações de contraindicação ou restrição específicas da bula e da idade. Não aplicar regras de mistura e uso neonatal como se fossem idênticas às do adulto. Farmacocinética que muda a conduta A inflamação altera a permeabilidade das barreiras, mas “entrar no líquor” não basta: a concentração precisa ser adequada ao agente durante tempo suficiente. Doses usuais para infecção respiratória podem ser insuficientes para meningite. A melhora clínica e a redução da inflamação também podem modificar a penetração de determinados medicamentos. Diurese, creatinina e eletrólitos devem acompanhar medicamentos nefrotóxicos. Se surgir confusão após início da terapia, considerar progressão da doença e toxicidade; cefepima e aciclovir acumulados podem produzir sintomas que se parecem com complicação neurológica. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 22 Objetivo 6 Corticoide e duração Dexametasona na meningite bacteriana O objetivo é reduzir a lesão inflamatória, especialmente em cenários de benefício demonstrado, como meningite pneumocócica e por Hib. Deve ser administrada antes ou junto da primeira dose de antibiótico quando indicada. Não atrasar o antimicrobiano para aguardar sua disponibilidade. [1-3] Referência adulta: 10 mg IV de 6 em 6 horas por quatro dias. Em crianças, referência frequente: 0,15 mg/kg/dose IV de 6 em 6 horas, com limite por dose conforme protocolo e duração usual de dois a quatro dias. A indicação não é automaticamente extrapolável a recém-nascidos. [1-3] Reavaliar a continuação diante do líquor e da etiologia. O corticoide não é tratamento universal para qualquer meningite ou qualquer pressão intracraniana elevada. Monitorar glicemia e efeitos gastrointestinais; a duração curta para meningite bacteriana não corresponde ao regime prolongado da meningite tuberculosa. Terapia dirigida em doença não complicada Agente Direcionamento possível Duração habitual de referência Meningococo Ceftriaxona; penicilina ou ampicilina se sensibilidade comprovada Cerca de 5 a 7 dias; frequentemente 7 no adulto. Pneumococo Cefalosporina; manter ou retirar vancomicina conforme sensibilidade 10 a 14 dias. Hib Ceftriaxona ou cefotaxima; adequar ao antibiograma 7 a 10 dias. Listeria Ampicilina; associação adicional em casos selecionados Pelo menos 21 dias. Bacilos Gram-negativos Antibiótico ativo com exposição adequada no SNC Frequentemente 21 dias; complicações podem prolongar. Infecção associada a dispositivo Terapia conforme agente e controle do material infectado Individualizar com culturas, agente e evolução. As durações não se aplicam automaticamente a abscesso, ventriculite persistente, empiema ou imunossupressão complexa. Endocardite e outros focos associados também alteram o plano. [1,2] Listeria e gentamicina A associação de gentamicina à ampicilina aparece em referências e pode ser considerada em situações graves. Não é uma adição inofensiva nem universal: toxicidade renal, benefício esperado e contexto devem ser avaliados. A mensagem essencial é que a cobertura de Listeria exige um fármaco ativo; ceftriaxona não cumpre esse papel. Reavaliação diária: melhora da consciência, controle da febre, estabilidade hemodinâmica, microbiologia e aparecimento de complicações orientam o tratamento. Não usar apenas a persistência de alguma alteração liquórica como regra isolada de prolongamento. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 23 Objetivo 6 Meningite viral e encefalite herpética Meningite viral sem complicações O manejo frequentemente consiste em hidratação conforme necessidade, analgesia, controle de náuseas e observação. Antibioticoterapia pode ser interrompida quando a avaliação sustenta etiologia viral e o risco bacteriano foi adequadamente reduzido. Essa decisão incorpora microbiologia,estabilidade, idade, imunidade e evolução. [1-3] Não existe indicação rotineira de aciclovir para toda meningite viral. Enterovírus, por exemplo, não são tratados com aciclovir. Meningite por herpes simples ou varicela-zóster exige avaliação específica; gravidade e imunossupressão influenciam tratamento e via. Suspeita de encefalite por herpes Aciclovir intravenoso deve começar precocemente quando a hipótese é relevante, sem aguardar confirmação. Em adultos com função renal adequada, a referência é 10 mg/kg/dose IV a cada oito horas, geralmente por 14 a 21 dias em doença confirmada. A duração tende a ser maior em imunossuprimidos e casos complexos; reavaliação liquórica pode ser necessária. [2,10,11] O antiviral é eliminado pelos rins. Infundir lentamente, habitualmente em pelo menos uma hora, manter hidratação compatível com o estado clínico e ajustar pela função renal. Em obesidade, o peso para cálculo deve seguir o protocolo farmacêutico do serviço. Não extrapolar a dose adulta para recém-nascidos. Se o primeiro teste for negativo Um teste molecular precoce negativo não deve suspender automaticamente o aciclovir quando clínica e imagem continuam sugestivas. Considerar repetição em três a sete dias e investigar outros diagnósticos. A força da suspeita, o momento da amostra e a evolução determinam a decisão. [11] Cuidados associados Controlar crises e pesquisar estado de mal não convulsivo quando houver rebaixamento persistente. Corrigir distúrbios metabólicos, proteger a via aérea quando necessário e acompanhar função renal. Déficits de memória, comportamento e linguagem podem exigir reabilitação prolongada. Situação Raciocínio prático Febre e meningismo, sem disfunção cerebral importante Investigar meningite e etiologia; não presumir herpes encefálico. Febre, afasia, comportamento alterado ou crise focal Investigar encefalite; considerar aciclovir imediato. Bactéria e herpes ainda plausíveis Cobertura empírica para ambas pode ser necessária. Piora com aumento de creatinina durante aciclovir Avaliar doença, dose e possível neurotoxicidade por acúmulo. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 24 Objetivo 6 Meningite tuberculosa Tratar a infecção e a inflamação A meningite tuberculosa é uma emergência de evolução frequentemente subaguda. O atraso terapêutico aumenta risco de hidrocefalia, infarto, déficits de nervos cranianos e morte. Alta suspeita pode justificar início de tratamento antes da confirmação por cultura. [2,3] No manual brasileiro consultado, para adultos e adolescentes a partir de dez anos com doença sensível, o esquema é 2RHZE/10RH: dois meses de rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol, seguidos de dez meses de rifampicina e isoniazida, totalizando doze meses. [8] Doses fixas combinadas no esquema brasileiro Cada comprimido de RHZE contém 150 mg de rifampicina, 75 mg de isoniazida, 400 mg de pirazinamida e 275 mg de etambutol. [8] Peso RHZE diário na fase inicial RH diário na manutenção usando 150/75 mg 20 a 35 kg 2 comprimidos 2 comprimidos 36 a 50 kg 3 comprimidos 3 comprimidos 51 a 70 kg 4 comprimidos 4 comprimidos Acima de 70 kg 5 comprimidos 5 comprimidos Conferir apresentação dispensada: há comprimidos de RH com outra concentração. A tabela não cobre crianças menores, pesos abaixo de 20 kg nem doença resistente. O corticoide é adjuvante: o manual cita prednisona 1 a 2 mg/kg/dia por quatro semanas ou dexametasona nos quadros graves, com retirada gradual supervisionada. [8] Farmacologia para compreender o acompanhamento Rifampicina: inibe a RNA-polimerase bacteriana. A indução enzimática gera interações relevantes, inclusive com antirretrovirais e contraceptivos. Pode alterar a cor de secreções e causar toxicidade hepática. Isoniazida: interfere na síntese de ácidos micólicos. Hepatotoxicidade e neuropatia periférica são preocupações; piridoxina é indicada em situações de risco conforme protocolo. Pirazinamida: tem atividade especialmente em ambientes ácidos. Pode provocar hepatotoxicidade, hiperuricemia e artralgia. Etambutol: interfere na síntese da parede micobacteriana. Exige atenção a acuidade visual e discriminação de cores; a eliminação renal influencia dose. [4] O que monitorar: adesão, peso, visão, função hepática, função renal, interações e evolução neurológica. Hidrocefalia ou lesão expansiva pode exigir neurocirurgia. Na coinfecção pelo HIV, a introdução da terapia antirretroviral deve seguir orientação específica para acometimento meníngeo, considerando risco de inflamação por reconstituição imune. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 25 Objetivo 6 Meningite criptocócica A combinação de cefaleia persistente, imunossupressão e pressão de abertura elevada deve levar à investigação de criptococo. A intensidade da pleocitose pode ser pequena. Antifúngicos e manejo da pressão são componentes inseparáveis do tratamento. [2,4] Esquema do Ministério da Saúde para adultos com HIV Fase Regime do protocolo de 2024 Duração mínima indicada Indução Anfotericina B lipossomal 3 mg/kg/dia IV + flucitosina 100 mg/kg/dia VO, dividida a cada 6 horas Pelo menos 2 semanas Consolidação Fluconazol 400 a 800 mg/dia VO ou IV Pelo menos 8 semanas Manutenção Fluconazol 200 mg/dia VO Pelo menos 6 a 12 meses, com avaliação de recuperação imune A flucitosina corresponde a 25 mg/kg por administração em quatro doses diárias. As formulações de anfotericina não são equivalentes mg por mg. Doença em pessoas sem HIV, criptococomas e resposta insuficiente exigem individualização. [9] Controle da pressão Punções terapêuticas seriadas podem ser necessárias; casos persistentes podem exigir derivação. Manitol, acetazolamida e corticoides não são tratamento rotineiro da pressão elevada por criptococose. A terapia antirretroviral é geralmente iniciada após quatro a seis semanas, conforme resposta, controle da pressão e avaliação micológica. [9] Como os fármacos atuam Anfotericina B: liga-se ao ergosterol da membrana fúngica, alterando sua integridade. Nefrotoxicidade, hipocalemia, hipomagnesemia, anemia e reações infusionais justificam monitorização. Formulações lipossomais têm perfil diferente da forma desoxicolato. Flucitosina: seus metabólitos interferem na síntese de ácidos nucleicos do fungo. A eliminação renal exige ajuste; acúmulo aumenta risco de mielotoxicidade e hepatotoxicidade. Não utilizar como monoterapia por risco de resistência. Fluconazol: reduz a síntese de ergosterol, possui boa penetração liquórica e permite continuidade oral em fases apropriadas. Monitorar fígado, função renal, interações e risco de prolongamento do intervalo QT em pessoas predispostas. [2,4] Por que não começar tudo ao mesmo tempo A recuperação imune pode desencadear inflamação exuberante no sistema nervoso. Por isso, a estratégia de início de antirretroviral na criptococose difere da conduta imediata empregada em vários outros cenários. A melhora da carga fúngica, o controle da pressão e a condição neurológica orientam essa transição. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 26 Objetivo 6 Outras causas e suporte Parasitárias e amebianas Na angiostrongilíase neurológica, o manejo inclui analgesia e controle da inflamação, com corticoide em situações apropriadas. Antiparasitário não deve ser prescrito automaticamente para qualquer líquor eosinofílico: a indicação, o momento e a associação anti-inflamatória dependem do agente e da avaliação especializada. [12] Na meningoencefalite por Naegleria, a evolução é fulminante. O manejo exige diagnóstico e tratamento combinados urgentes em centro especializado; esquemas incluem anfotericina B e outros agentes, como miltefosina, conforme orientação específica. Não é uma doença tratada com um curso oral simples nem com o esquema usual de meningite bacteriana. [13] Na neurocisticercose subaracnoidea, controlar hidrocefaliae inflamação é prioritário. A terapia antiparasitária pode ser prolongada e exige diferenciação entre formas viáveis, calcificadas, ventriculares e subaracnoideas. Lesões calcificadas isoladas não contêm parasito viável a ser eliminado. [2] Não infecciosas Na meningite induzida por medicamento, suspender o possível causador e tratar sintomas, mantendo investigação de causas alternativas. Nas formas autoimunes, imunoterapia depende de avaliação especializada e exclusão adequada de infecção. Na doença leptomeníngea neoplásica, a estratégia depende do tumor, extensão e condição funcional, podendo envolver terapias sistêmicas, intratecais e controle de sintomas. [3,4] Suporte clínico com justificativa Medida Objetivo e cuidado Oxigenação e proteção de via aérea Evitar hipóxia e aspiração quando a consciência está comprometida. Reposição volêmica e suporte circulatório Corrigir hipoperfusão, com reavaliação frequente para evitar excesso. Cabeceira elevada e pescoço alinhado quando apropriado Favorecer drenagem venosa no manejo neurocrítico. Controle de crises Reduzir lesão secundária; investigar crises sem manifestação motora. Correção de sódio e glicose Evitar agravar disfunção cerebral e convulsões. Analgesia e antiemético Aliviar sintomas sem perder monitorização neurológica. Nutrição e mobilização Reduzir complicações e apoiar recuperação funcional. Terapia hiperosmolar pode ser medida de resgate em situações neurocríticas específicas, não tratamento de rotina para toda meningite. Hiperventilação prolongada também não é uma medida universal, pois pode reduzir o fluxo cerebral. A conduta depende da causa da hipertensão intracraniana e deve envolver equipe experiente. [1] TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 27 Objetivo 6 Contatos e vigilância Três medidas com objetivos distintos Tratar o caso elimina a infecção instalada. Quimioprofilaxia procura impedir doença secundária em pessoas elegíveis após exposição. Vacinação induz proteção imunológica contra agentes ou sorogrupos específicos. Uma medida não substitui automaticamente a outra. [1-5] O contato próximo deve ser definido pelo tipo, duração e momento da exposição. Moradores do mesmo domicílio e pessoas diretamente expostas a secreções têm risco diferente de alguém que apenas passou pelo corredor. Profissionais de saúde não recebem profilaxia somente por terem participado do atendimento: importa a exposição desprotegida, especialmente em procedimentos de via aérea. Atualização brasileira que deve orientar a avaliação A Nota Técnica 154/2024 considera os dez dias anteriores aos sintomas e o período até 24 horas de tratamento apropriado. Inclui convivência doméstica, troca salivar, exposição fechada por pelo menos quatro horas a até um metro, convivência próxima por cinco dias e procedimentos desprotegidos. A profilaxia deve ser imediata; após dez dias da exposição, o benefício é limitado, exceto Hib, que admite até trinta dias. [5] Exemplos de raciocínio epidemiológico Mora com o caso: a convivência repetida justifica investigação como contato próximo, mesmo que a pessoa esteja bem. Colega de aula ou trabalho: o nome do ambiente não define a conduta. É necessário perguntar distância, duração, ventilação, convívio e exposição a secreções. Não excluir nem incluir uma turma inteira sem avaliação epidemiológica. Intubação sem proteção adequada: a exposição a secreções pode indicar profilaxia. Atendimento com proteção e sem exposição relevante tem outra avaliação. Contato vacinado: a vacina não cobre todos os cenários e não substitui a profilaxia quando esta estiver indicada. Não aguardar cultura de orofaringe para decidir a intervenção em contato elegível. Vigilância no Brasil A suspeita de meningite exige notificação imediata, em até 24 horas, e articulação com a vigilância. A investigação identifica agente, exposições e necessidade de medidas coletivas. Não se deve aguardar a cultura para comunicar um caso suspeito grave. [15] Um contato que desenvolve febre, cefaleia importante, alteração mental ou lesões cutâneas deve ser avaliado como possível caso, e não receber apenas a dose preventiva. Quimioprofilaxia não é tratamento de doença instalada. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 28 Objetivo 6 Quimioprofilaxia Doença meningocócica Opção Esquema brasileiro de referência Rifampicina Menor de 1 mês: 5 mg/kg/dose; a partir de 1 mês: 10 mg/kg/dose, máximo 600 mg. VO, a cada 12 horas, por 2 dias. Ceftriaxona Menor de 12 anos: 125 mg IM; a partir de 12 anos: 250 mg IM. Dose única. Ciprofloxacino A partir de 18 anos: 500 mg VO, dose única. Rifampicina é preferencial; ceftriaxona é a primeira opção na gestação. Alternativas dependem de contraindicações, adesão e resistência. [5] Doença invasiva por Hib Hib inclui critérios domiciliares com imunocomprometido, criança menor de dois anos mesmo vacinada ou menor de quatro incompletamente vacinada. Demais contatos e creches exigem avaliação específica da nota. Rifampicina: menor de um mês, 10 mg/kg/dia; a partir de um mês, 20 mg/kg/dia, máximo 600 mg, por quatro dias. [5] Por que os esquemas não são iguais O regime de rifampicina para meningococo usa duas administrações por dia durante dois dias. Para Hib, a referência utiliza uma administração diária por quatro dias. A quantidade diária e a duração precisam ser lidas junto do agente, da idade e da dose máxima. Copiar apenas o nome do medicamento favorece erros. Rifampicina apresenta interações por indução enzimática e pode alterar a coloração de secreções. Antes de usá-la, revisar medicamentos concomitantes e contraindicações. A dose única de ceftriaxona para profilaxia meningocócica é muito menor que a dose de tratamento da meningite; não são situações equivalentes. [1,4] E o próprio paciente tratado Quando a terapia da doença não erradica adequadamente a colonização nasofaríngea, pode ser necessária intervenção específica antes da alta. Ceftriaxona e cefotaxima têm papel diferente de penicilina ou ampicilina nesse aspecto. A equipe deve avaliar o tratamento recebido e a orientação de vigilância, além de identificar os contatos. [1,3] Para quais causas não se aplica esta tabela Meningite pneumocócica, criptocócica ou viral não implica distribuir automaticamente esses antibióticos a familiares. Contatos de tuberculose seguem investigação e prevenção próprias, especialmente quando existe doença pulmonar transmissível associada. Nas demais etiologias, a prevenção depende da via de transmissão e do agente. Atenção para provas e prática: faixas etárias e critérios de contatos podem diferir entre CDC, livros e Ministério da Saúde. Para este quadro foi priorizada a norma brasileira identificada, sem misturar os cortes internacionais da versão anterior. TUTORIA DE MEDICINA | MENINGITES E ENCEFALITES Revisão ampliada • 02 out 2026 | 29 Objetivo 6 Precauções vacinação e reabilitação Etiologia ou contexto Precaução habitual e observação Meningococo ou Hib Padrão e gotículas até 24 horas de terapia eficaz. Pneumococo ou Listeria Precauções padrão na meningite isolada; outros focos podem exigir medidas adicionais. Criptococose Precauções padrão; não se indica gotículas pela meningite fúngica isolada. Tuberculose meníngea Investigar doença pulmonar ou laríngea associada; quando transmissível, adotar aerossóis. Enterovírus Precauções padrão; contato pode ser necessário em crianças com fraldas ou incontinência. Precauções padrão incluem higiene das mãos e proteção segundo risco de exposição. Gotículas envolvem proteção respiratória apropriada ao cuidado e transporte; procedimentos geradores de aerossóis exigem avaliação adicional conforme protocolo institucional. [1-4] Vacinação O calendário de 2026 consultado mantém meningocócica C aos três e cinco meses e reforço com ACWY aos doze meses. Adolescentes de onze a quatorze anos recebem ACWY conforme situação vacinal.