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Processo psicoterapêutico
Você vai conhecer as etapas e os fundamentos do processo psicoterapêutico com crianças, incluindo
escuta inicial, vínculo terapêutico, manejo dos sintomas, papel do brincar, devolutiva aos responsáveis e
corresponsabilidade parental.
Lincoln Nunes Poubel
1. Itens iniciais
Propósito
Entender o processo psicoterapêutico com crianças é essencial para profissionais que atuam na área de
clínica infantil, ao promover uma escuta qualificada da infância e uma atuação ética diante do sofrimento
psíquico. Dessa forma, você poderá acolher crianças e famílias com sensibilidade técnica, realizar
intervenções seguras e construir alianças terapêuticas efetivas.
Preparação
Antes de iniciar o estudo, recomenda-se consultar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), disponível
no site do Senado Federal, e acessar o Dicionário de Psicologia da APA (versão on-line gratuita) para
familiarizar-se com os principais termos da prática clínica com crianças.
Objetivos
Identificar os elementos fundamentais da entrevista inicial e da anamnese no atendimento psicológico
infantil.
 
Reconhecer a função e utilidade do espaço e relação terapêutica no processo psicoterapêutico com
crianças e suas famílias. 
 
Identificar as funções da psicoterapia e o significado dos sintomas no desenvolvimento emocional
infantil.
 
Reconhecer a importância e as especificidades da entrevista de devolução na psicoterapia com
crianças.
Introdução
A psicoterapia com crianças é uma prática clínica que exige sensibilidade, técnica e compreensão do
desenvolvimento humano. Ao contrário dos adultos, as crianças não acessam a terapia por decisão própria,
nem expressam seus conflitos por meio de narrativas estruturadas. Elas falam com o corpo, com os
comportamentos, com os jogos simbólicos e com o silêncio. Por isso, o processo psicoterapêutico com
crianças precisa considerar a linguagem lúdica, os vínculos familiares, os contextos sociais e os aspectos
emocionais ainda em formação.
Neste conteúdo, vamos apresentar, de forma sistemática e aplicada, os principais elementos que compõem o
processo psicoterapêutico com crianças. Para isso, serão abordados temas centrais como a entrevista inicial e
a anamnese, o espaço terapêutico, a relação terapêutica, o papel da psicoterapia, a compreensão dos
sintomas e as entrevistas de devolução. Cada um desses tópicos contribui para que o terapeuta compreenda
o que fazer, como escutar, como intervir e, sobretudo, como sustentar o cuidado psicológico da infância de
forma ética, respeitosa e afetiva.
Nosso objetivo é evidenciar que o atendimento clínico infantil não é centrado na correção de
comportamentos, mas na criação de um espaço onde a criança possa se reconhecer, expressar-se e se
reorganizar de forma subjetiva. O terapeuta, nesse processo, atua como mediador, base segura e facilitador
do desenvolvimento emocional.
Mais do que um conjunto de técnicas, o processo psicoterapêutico com crianças é uma experiência relacional
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que transforma — e que, para ser de fato eficaz, precisa incluir a criança, os pais, o vínculo terapêutico e a
escuta profunda como alicerces da clínica contemporânea.
1. Entrevista inicial e anamnese
A entrevista inicial como espaço de acolhimento e escuta
parental
Acolhendo pais na psicoterapia infantil
Neste vídeo, a entrevista inicial com pais ou cuidadores é apresentada como um momento terapêutico
essencial — um espaço para acolher angústias, estabelecer vínculo e reunir informações fundamentais sobre
a criança, marcando o início do processo psicoterapêutico.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
A criança não chega ao
consultório de modo
espontâneo, como
costuma ocorrer com os
adultos. Em geral, ela é
levada por alguém que
se preocupa com seu
comportamento, suas
emoções ou seu
desempenho. Muitas
vezes, essa decisão é
mediada por escolas,
pediatras ou outros
familiares.
Essa característica já impõe ao terapeuta uma
postura diferenciada, pois é necessário
conquistar a confiança da criança e de sua
família, compreender o significado da queixa
sob diversos pontos de vista e perceber como
as diferentes figuras envolvidas na vida da
criança compreendem sua subjetividade. A
linguagem simbólica da infância se manifesta
por meio do brincar, do silêncio, das
expressões corporais e da fantasia — e é
nesse terreno que o profissional de psicologia
deve caminhar desde o início, com escuta
ativa e sensibilidade clínica.
A primeira entrevista
configura-se como o início do
processo terapêutico
propriamente dito. É o
momento em que o terapeuta
estabelece os primeiros
vínculos com os pais ou
cuidadores e começa a
compreender, por meio da
escuta empática e qualificada,
as demandas que motivaram a
busca por atendimento
psicológico. 
 A postura do
profissional nesse
momento é decisiva:
sua escuta deve ser
livre de julgamentos,
atenta tanto ao
conteúdo verbal quanto
ao não verbal, aberta à
subjetividade da família
e, ao mesmo tempo,
fundamentada por
critérios técnicos e
éticos.
 Os pais,
sobrecarregados
e culpabilizados,
sentem-se
aliviados ao
encontrar um
espaço neutro
de escuta. O
psicólogo, por
sua vez, tem a
oportunidade de
observar:
O discurso parental.
 
Os estilos de apego.
 
As crenças educativas.
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As expectativas depositadas no atendimento.
É comum que os pais se dirijam ao terapeuta com a esperança de “consertar” a criança, delegando ao
profissional a tarefa de produzir mudanças rápidas e visíveis. Parte do trabalho será ressignificar essa lógica,
trazendo os cuidadores como parceiros ativos no processo terapêutico.
Um dos principais erros do terapeuta iniciante é subestimar o momento de escuta com os pais e
tratá-lo apenas como uma coleta de informações. Na verdade, é nesse encontro que se iniciam os
movimentos terapêuticos mais importantes: o alívio inicial do sofrimento dos cuidadores ao se
sentirem ouvidos, o surgimento de insight sobre a complexidade da situação e o esboço de um
vínculo de confiança mútua.
A entrevista inicial costuma ocorrer apenas com os cuidadores. Essa separação da criança é recomendada
para permitir que os adultos falem com liberdade sobre comportamentos, dificuldades e emoções sem causar
constrangimento ou gerar insegurança na criança. Embora cada profissional possa adaptar a entrevista inicial
conforme sua abordagem, algumas áreas são fundamentais para uma compreensão completa da criança. 
A seguir, apresentamos um roteiro detalhado que pode ser adaptado conforme a abordagem clínica do
terapeuta. Confira!
Identificação e contexto da procura
Quem está buscando o atendimento?
O que motivou a busca neste momento específico?
Há quanto tempo os comportamentos da criança estão sendo percebidos como
problemáticos?
Algum profissional indicou o atendimento?
Essa introdução já oferece informações sobre a percepção dos pais quanto à gravidade da situação, o
nível de envolvimento afetivo e a expectativa depositada no processo terapêutico.
História da gravidez, parto e primeiros anos de vida
A gravidez foi planejada?
Houve intercorrências durante a gestação?
Como foi o parto (natural, cesárea, prematuro)?
A criança foi desejada?
Como foram os primeiros vínculos com os cuidadores?
A partir desse conjunto de perguntas, podemos iniciar a investigação sobre o tipo de apego
estabelecido nos primeiros anos de vida, importantes para a construção da segurança emocional da
criança.
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Desenvolvimento neuropsicomotor e linguagem
A criança apresentou atrasos motores?
Andou, falou e controlou esfíncteres dentro do esperado?
Como é sua coordenação motora grossa e fina?
Há dificuldades de compreensão ou expressão verbal?
Essas questões ajudam a levantar possíveis indícios de transtornos do neurodesenvolvimento, além
de subsidiar decisões sobre encaminhamentos para avaliação neuropsicológica, fonoaudiológica ou
psicopedagógica.
Histórico médico, psiquiátrico e uso de medicações
Há doenças crônicas, alergias, hospitalizações?abordamos a escuta dos sintomas como linguagem legítima do sofrimento
psíquico da criança. Por fim, a entrevista de devolução foi destacada como momento-chave de construção de
aliança e corresponsabilidade parental.
Assim, o processo psicoterapêutico com crianças exige do terapeuta, além de técnica, presença afetiva, ética
relacional e compromisso com a infância como tempo de formação e cuidado. Ao integrar escuta, vínculo e
orientação, a clínica infantil se posiciona como uma prática potente de transformação subjetiva, não apenas
da criança, mas também de sua família e de todo o sistema de relações que a constitui. É por meio dessa
escuta cuidadosa que a criança encontra espaço para ser, sentir, narrar e crescer com mais segurança, afeto
e autonomia.
Explore+
Não pare por aqui. Confira a seleção que separamos para você!
 
Leia o artigo Avaliação e treinamento de habilidades sociais de crianças em idade pré-escolar: um estudo
experimental, de Tânia do Vale e Karina Garnica. O texto apresenta um estudo experimental que avalia o
repertório de habilidades sociais de crianças em idade pré-escolar e implementa um treinamento, destacando
a importância da avaliação comportamental e da intervenção precoce no desenvolvimento de competências
sociais infantis.
 
Pesquise também o artigo Grupoterapia cognitivo-comportamental para meninas vítimas de abuso sexual :
descrição de um modelo de intervenção, de Luísa F. Habigzang e outros autores. Esse estudo avalia os efeitos
da grupoterapia cognitivo-comportamental em meninas vítimas de abuso sexual, mostrando como
intervenções específicas são importantes no processo psicoterapêutico infantil.
 
Confira o artigo Instrumento de apoio para a primeira entrevista em psicoterapia cognitivo-comportamental,
de Sheila Giardini Murta e Sheila Giovana Morais Rocha. Nesse estudo, é explorada a primeira entrevista em
psicoterapia, contendo aspectos a serem abordados no decorrer da sessão, além de questões abertas sobre
a vivência emocional e autoavaliação do desempenho na sessão.
 
Busque também o artigo Aplicação do Programa Cognitivo-Comportamental Superar para crianças e
adolescentes, de Jaluza A. Schneider e Luísa F. Habigzang, que descreve a aplicação do programa Superar,
voltado para o tratamento de crianças e adolescentes com sintomas de ansiedade e depressão, enfatizando a
eficácia da TCC nesse público.
 
Assista ao documentário O começo da vida, que explora a importância dos primeiros anos de vida no
desenvolvimento infantil, abordando aspectos emocionais e sociais que influenciam o bem-estar e a saúde
mental das crianças. Você pode encontrá-lo na internet.
Referências
AQUI e agora. Intérprete: Gilberto Gil. Composição: Gilberto Gil, 1977.
 
ASSIS, S. G. et al. Ansiedade em crianças: um olhar sobre transtornos de ansiedade e violências na infância .
Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007.
 
BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de
1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.
 
BUNGE. E.; GOMAR, M.; MANDIL, J. Terapia cognitiva com crianças e adolescentes: aportes teóricos. Belo
Horizonte: Artesã, 2025.
 
CAMINHA, R. M.; CAMINHA, M. G. A prática cognitiva na infância. São Paulo: Roca, 2011.
 
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. CFP. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.
 
FRIEDBERG, R. D. et al. Técnicas de terapia cognitiva para crianças e adolescentes: ferramentas para
aprimorar a prática. Porto Alegre: Artmed, 2011.
 
HUTZ, C. S. (org.). Avanços em Avaliação Psicológica e Neuropsicológica de Crianças e Adolescentes. São
Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.
 
LIPPI, J. R. S. (org.) Abuso e negligência na infância: prevenção e direitos. Rio de Janeiro: Científica Nacional,
1990.
 
MOTTA, A. B.; ENUMO, S. R. F. Intervenção psicológica lúdica para o enfrentamento da hospitalização em
crianças com câncer. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 26, n. 3. 2010.
 
PETERSEN, C. S.; WAINER, R. Terapias cognitivo-comportamentais para crianças e adolescentes: ciência e
arte. Porto Alegre: Artmed; 2011.
 
PINHEIRO, M. I. S. et al. Treinamento de habilidades sociais educativas para pais de crianças com problemas
de comportamento. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 19, n. 3, 2006.
 
PUREZA, J. R. et al. Fundamentos e aplicações da Terapia Cognitivo Comportamental com crianças e
adolescentes. Revista Brasileira de Psicoterapia, v. 16, n. 1, p. 85-103, 2014.
 
RANGÉ, B. et al. Psicoterapias cognitivo-comportamentais: um diálogo com a psiquiatria. Porto Alegre:
Artmed, 2001.
 
SOLIS-PONTON, L. (org.) Ser pai, ser mãe — parentalidade: um desafio para o terceiro milênio . São Paulo:
Casa do Psicólogo, 2004.
Recursos psicoterapêuticos
Você vai aprender sobre recursos terapêuticos que podem ser utilizados na psicoterapia infantil, as
características principais dos materiais que devem estar presentes na sala de terapia, bem como a
importância das sessões com os familiares e com terceiros para a condução adequada do processo de
psicoterapia da criança.
Profa. Ana Beatriz de Mota e Souza
1. Itens iniciais
Propósito
Compreender as características principais dos recursos terapêuticos que devem ser utilizados na psicoterapia
de crianças é bastante relevante para todos os profissionais psicólogos que dedicam a sua prática clínica ao
atendimento infantil.
Objetivos
Reconhecer a importância do recurso lúdico como ferramenta na psicoterapia de crianças.
Descrever os materiais estruturados e não estruturados que são utilizados na psicoterapia infantil.
Identificar as principais características das sessões com os familiares e com terceiros na psicoterapia 
infantil.
Introdução
A psicoterapia de crianças tem muitas peculiaridades. Uma delas, e talvez a mais importante, refere-se aos
recursos que serão utilizados no atendimento do psicólogo. Entre esses, destacam-se os recursos lúdicos,
pois o brincar é, para a criança, uma das formas privilegiadas de expressão de emoções e de comunicação de
seus conteúdos psíquicos.
Outro recurso bastante relevante na psicoterapia infantil diz respeito à participação dos familiares,
particularmente pais e responsáveis, no processo de psicoterapia, pois, na maior parte das vezes, são eles
que levam a criança ao psicólogo. 
Além dos pais, outros profissionais podem ser essenciais nesse processo, tais como: o professor, o
fonoaudiólogo e o pediatra, visto que esses especialistas são, por vezes, as pessoas que sinalizam para os
pais que o desenvolvimento da criança pode não estar ocorrendo da maneira mais adequada.
Neste conteúdo, vamos tratar de todos esses aspectos, de forma que você possa compreender que tipos de
recursos o psicólogo infantil deve utilizar para que o seu trabalho psicoterapêutico com a criança seja bem-
sucedido. 
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1. O lúdico
Brincadeira e desenvolvimento infantil
A definição da palavra “lúdico” está associada àquilo se refere a jogos ou a brinquedos, sendo as atividades
lúdicas relacionadas a tudo o que é usado para brincar ou divertir. Como você deve ter percebido, a
brincadeira é considerada a expressão máxima da atividade lúdica. Para ser capaz de utilizar a atividade
lúdica na psicoterapia com crianças, é muito importante que você entenda o significado da brincadeira no
mundo infantil e compreenda que brincar está relacionado ao desenvolvimento infantil na espécie humana.
Em nossa espécie, o ato de brincar é considerado um
fenômeno com várias dimensões, no qual estão presentes
fatores biológicos, cognitivos, sociais e emocionais. No
estudo da psicologia, a brincadeira tem sido associada e
investigada particularmente no tocante às dimensões
cognitiva, social e emocional (OLIVA et al., 2017).
Na história da evolução da espécie humana, a brincadeira
social e as brincadeiras de lutas estão associadas ao
desenvolvimento de habilidades de luta, à aprendizagem
dos aspectos da hierarquia social, à promoção da
cooperação e da coesão social e muitos outros pontos relacionados à interação social. Você já deve ter
percebido, aover crianças brincando, o quanto elas reproduzem aspectos de suas relações familiares,
especialmente da hierarquia familiar. Além disso, muitos jogos e brincadeiras estimulam a interação entre as
crianças e o desenvolvimento do espírito de equipe.
Como destacam Oliva et al. (2017), a
brincadeira favorece o desenvolvimento motor,
especialmente por meio do manejo, por parte
da criança, com os objetos presentes na
brincadeira. Outro aspecto refere-se à
coordenação motora fina, que é desenvolvida
durante a manipulação de pequenos objetos na
primeira infância e que, em momento posterior,
possibilitará à criança o manuseio de um lápis,
por exemplo. 
Os autores ressaltam ainda que a brincadeira é
um comportamento comum não só para a espécie humana, mas também é encontrada em muitos outros
animais, sendo uma necessidade natural entre os jovens mamíferos superiores.
Nós, seres humanos, necessitamos do contato com outras pessoas para que o nosso desenvolvimento ocorra
de forma adequada. Para as crianças, a maneira mais eficaz de estabelecer relações interpessoais é por meio
da brincadeira, com a qual ela aprende a construir a noção de limites e a diferenciar os seus diversos papéis
na sociedade (OLIVA et al., 2017).
A brincadeira tem um papel bastante relevante no cotidiano da criança, pois a atividade lúdica é a
sua forma própria de expressão, assim como é a linguagem verbal para o adulto. Para esse, o
brinquedo é sinônimo de distração e, por isso, nem sempre os adultos consideram a relevância do
brincar para o desenvolvimento sadio da criança.
Em relação à evolução do brinquedo infantil, Duarte, Bornholdt e Castro (1989) observam que, ao nascer, o
bebê necessita se adaptar a um novo mundo e, nas suas tentativas de explorar esse mundo, está a base de
sua futura atividade de jogo. Aos 4 meses de idade, o bebê já começa a controlar os seus movimentos,
coordenando-os com a visão, e já consegue iniciar a sua atividade lúdica.
Inicialmente, a criança brinca com ela mesma, com o seu próprio corpo. Essa forma de brincar favorece o seu
autoconhecimento e também o conhecimento do mundo ao redor, e permite a gradativa diferenciação entre o
eu e o não eu. 
Exemplo
A brincadeira de “esconde-enconde” é uma das primeiras que a criança faz, o que a auxilia a elaborar a
angústia da separação, pois vai percebendo que aquilo que se escondeu, ou desapareceu, pode
reaparecer. 
A atividade lúdica estimula a curiosidade, a autoconfiança e a autonomia, proporcionando o desenvolvimento
da linguagem, do pensamento, da concentração e da atenção. Além disso, a brincadeira é um recurso
bastante relevante para a organização do comportamento emocional da criança, uma vez que a atividade
lúdica desperta nela emoções. Essa é uma das primeiras formas de comportamento consciente que aparece
na vida emocional da criança (DUARTE; BORNHOLDT; CASTRO, 1989).
A essa altura, podemos nos perguntar: por que a criança brinca? Filósofos, pedagogos, médicos e psicólogos
tentaram, cada qual a seu modo, responder a essa pergunta. A atividade lúdica é um dos aspectos mais
autênticos do comportamento infantil. Vamos, agora, abordar as principais visões sobre as finalidades do
brincar para a criança.
Atividade lúdica infantil
A criança brinca por diversas razões, veja exemplos.
Lidar com a angústia Expressar as suas emoções
Experimentar situações novas Forma de aprendizagem social
Podemos dizer que o ato de brincar da criança é uma atividade de construção e de representação, na qual ela
aprende a dominar a angústia, a conhecer o seu corpo, a fazer representações do mundo exterior e, mais
tarde, a agir sobre ele. 
Provavelmente, você já deve ter visto uma
criança brincando de escola. Então, deve ter
percebido o quanto, nessa atividade, ela não
apenas reproduz os papéis que ela mesma
vivencia na escola, representando o seu mundo
externo, mas também constrói significados
próprios para essa brincadeira.
A atividade lúdica infantil tem ainda a função de
comunicação, pois, por meio dela, a criança
estabelece uma relação com outras crianças e
adultos com os quais interage. 
Observe também que a forma do brincar vai se modificando, conforme a criança cresce e se desenvolve. Com
a entrada na escola, especialmente no ensino fundamental, aparecem os jogos de equipe, com regras mais
definidas do que as primeiras brincadeiras. 
As regras dos jogos favorecem a compreensão e a aceitação das normas da família, da escola e da
sociedade em geral.
Winnicott (1896-1971), pediatra e psicanalista inglês, argumentava que as crianças brincam por razões bem
evidentes: para obter prazer, para expressar as suas emoções, para lidar com a angústia, para experimentar e
conhecer o mundo e, ainda, para estabelecer contatos sociais. Com isso, percebemos que o brinquedo
envolve os mais diversos aspectos da vida da criança.
O valor funcional do brinquedo foi ressaltado por vários autores de diversas linhas teóricas dentro da
psicologia. Henri Wallon (1879-1962) destacou quatro tipos de brinquedos, confira a seguir (RIBEIRO; CATRO;
LUSTOSA, 2018)!
Brinquedos funcionais
Aqueles nos quais a criança constrói através da atividade sensorial
elementar, podendo ser constituídos por movimentos simples, como
estender e encolher os braços, por exemplo.
Brinquedos de faz-de-conta
Aqueles nos quais a criança usa a sua imaginação para representar ou
simbolizar diversos papéis, situações e ações.
Brinquedos de aquisição
Aqueles nos quais a criança olha, escuta, esforça-se para perceber e
compreender coisas e seres, cenas, imagens, relatos e canções, que
captam toda a sua atenção.
Brinquedos de construção
Aqueles nos quais a criança se diverte juntando, combinando objetos
entre si, modificando-os e transformando-os em novos objetos.
Um dos aspectos mais evidentes da atividade lúdica da criança é o prazer que ela experimenta ao brincar.
Winnicott observa que o brincar é uma atividade que envolve diretamente o corpo da criança, particularmente
pela manipulação que ela faz dos objetos e pela associação do brincar a certos aspectos de excitação
corporal. Para esse autor, a brincadeira é o elo entre a relação do indivíduo com a sua realidade interior e entre
o indivíduo e a sua realidade exterior (DUARTE; BORNHOLDT; CASTRO, 1989).
Piaget relacionou o desenvolvimento da atividade lúdica da criança diretamente ao seu desenvolvimento
cognitivo. O desenvolvimento da criança ocorre por meio do lúdico, pois a criança realiza os seus desejos,
explora o mundo. Por isso, é importante proporcionar às crianças atividades lúdicas que promovam e
estimulem seu desenvolvimento global, considerando os domínios cognitivo, afetivo, social e motor. Desse
modo, o lúdico pode contribuir de forma significativa para o desenvolvimento global do ser humano, auxiliando
na aprendizagem e facilitando o processo de socialização, comunicação, expressão e construção do
pensamento (RIBEIRO; CASTRO; LUSTOSA, 2018).
Na brincadeira, a criança pode fazer o papel daquele personagem que faz as coisas boas,
agradáveis, e também daquele personagem que consegue expressar melhor os seus sentimentos.
Quando a criança é capaz de expressar as suas ansiedades e medos por meio da brincadeira, ela
consegue lidar melhor com tais emoções, tornando-as menos assustadoras.
O ato de brincar tem a função de aperfeiçoamento das capacidades física e cognitiva, proporcionando à
criança os meios necessários ao controle da impulsividade característica da primeira infância. 
Duarte, Bornholdt e Castro (1989) mencionam que a atividade lúdica favorece o desenvolvimento da 
imaginação, da autoconfiança, do autocontrole e a das habilidades sociais. Acerca desse último aspecto,
podemos dizer que uma das mais relevantes funções da atividade lúdica é a sua função social, que propicia à
criança oportunidades de interagir com outras crianças e até mesmo com adultos, permitindo o aprendizado
de importantes regras sociais.
O valor funcional do brinquedo e da brincadeira
Confira neste vídeo os quatro tipos de brinquedos – funcionais, de faz-de-conta,de aquisição e de construção
– e entenda a importância da brincadeira para o desenvolvimento infantil.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Atividade lúdica na psicoterapia infantil
Atividade lúdica é a forma de expressão própria da criança. Devemos entender que, na psicoterapia infantil,
será um poderoso recurso para acessar os conteúdos psíquicos da criança, além de ser um meio privilegiado
para expressão de suas emoções. 
A atividade lúdica exerce a função de promover a estabilidade emocional, oferecendo às crianças segurança e
confiança. A utilização dos recursos lúdicos estimula o interesse da criança para as atividades que serão
desenvolvidas no setting terapêutico.
Freud (1856-1939), ao observar uma criança de 18 meses brincando com um carretel, descobriu os
significados psicológicos da atividade lúdica infantil, e com isso sedimentou as bases para o uso do lúdico
como um recurso em psicoterapia infantil.
Embora o brincar já tivesse sido objeto de estudo de filósofos, psicólogos e pedagogos antes de
Freud, foi com ele que o lúdico passou a ser considerado uma importante via de acesso aos
conteúdos inconscientes da criança.
Freud (1920) descreve a situação lúdica de uma criança de 18 meses que gostava de brincar fazendo objetos
desaparecerem e aparecerem. Essa criança gostava de brincar com um carretel preso a um barbante. O seu
brinquedo consistia em lançar o carretel e depois puxá-lo de volta para si, demonstrando uma expressão de
alegria e prazer com essa brincadeira, expressão que, segundo sua mãe, era a mesma que a criança fazia
quando a mãe retornava de alguma situação em que ela se ausentava de casa.
Ao observar a atividade lúdica dessa criança, Freud pode
perceber que, ao fazer desaparecer e aparecer o carretel,
ela tentava dominar a sua angústia diante da ausência da
mãe. Com isso, Freud concluiu que, por meio do brincar, a
criança tinha possibilidade de elaborar situações que para
ela eram fontes de angústia. Freud compreendeu que a
criança não brincava somente com o que lhe dava prazer e
contentamento, mas também repetindo situações dolorosas
para ela. Dessa forma, elaborava aquilo que era excessivo
para o seu ego (ABERASTURY, 1986).
Melanie Klein (1882-1960), psicanalista austríaca, encarava
a brincadeira como uma forma de expressão do mundo
interno da criança, ou seja, por meio da atividade lúdica, a
criança expressava aspectos inconscientes de seu mundo psíquico. Com isso, Melanie Klein interpretava os
conteúdos inconscientes presentes na brincadeira da criança, observando que essa interpretação favorecia a
melhora de alguns sintomas apresentados, como ansiedade (FULGENCIO, 2008). Diversos autores atribuem a
Melanie Klein a criação da ludoterapia como uma técnica de tratamento psicoterapêutico em crianças.
Winnicott considerava o brincar como um aspecto universal da natureza humana, não considerando a
atividade lúdica da criança somente como uma forma de expressão de conteúdos inconscientes. Para
Winnicott, o ato de brincar já é, em si mesmo, psicoterapêutico, pois permite à criança a comunicação e a 
elaboração de situações para ela angustiantes.
A psicanalista argentina Arminda Aberastury (1910-1972), cuja técnica teve as suas raízes na teoria de Melanie
Klein, foi a pioneira da psicanálise infantil da América Latina. Ela considerava a atividade lúdica infantil a
melhor forma de expressão das emoções e do desenvolvimento psicológico da criança. Para ela, o brincar
oferece à criança uma série de experiências que correspondem a cada etapa de seu desenvolvimento. 
Segundo Arminda Aberastury, por meio da atividade lúdica, a criança expressa os seus conflitos e
dificuldades emocionais, dando oportunidade ao psicoterapeuta infantil de elaborá-los com a
criança.
Virginia Axline (1911-1988), psicóloga clínica norte-americana, é considerada uma das pioneiras no
desenvolvimento da psicoterapia infantil e da técnica de ludoterapia no tratamento de crianças com distúrbios
emocionais. A ludoterapia baseia-se no fato de que o lúdico é o meio natural de expressão da criança, pois
permite que, usando o brinquedo como mediador, a criança expresse os sentimentos.
Axline destacava que as sessões de ludoterapia facilitam o processo interno da criança por prover-lhe um
lugar de segurança para escapar de sua vida real. O ambiente terapêutico permite que a criança aprenda a
trazer para si mesma suas atitudes de forma autônoma, primeiro na terapia e, mais adiante, no mundo exterior.
A ludoterapia é, atualmente, entendida como a terapia por meio do brincar e é caracterizada como uma forma
de psicoterapia (BARBOSA; ANDRADE, 2022).
Atividade lúdica na psicoterapia de crianças: como tudo começou?
Neste vídeo, falaremos sobre atividade lúdica, sua relevância para a saúde mental das crianças e como ela
começou a ser vista como um instrumento importante na psicoterapia de crianças.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Ludoterapia como técnica na psicoterapia infantil
Ao longo de todo o desenvolvimento da psicoterapia de crianças, o brincar se mostrou um recurso de grande
valor, especialmente por permitir que o psicoterapeuta tenha acesso, por meio da atividade lúdica, ao
comportamento da criança, bem como ao seu contexto familiar e social. Os recursos lúdicos possibilitam a
construção de uma aliança terapêutica, e favorecem uma maior adesão da criança ao tratamento proposto
(SILVA, NAVES; LINS, 2018).
Como estratégia lúdica, o psicólogo pode desenvolver o brincar na criança, por meio de brincadeiras livres ou
por outras planejadas por ele. Para que fique mais claro para você, confira alguns exemplos de atividades
lúdicas que podem ser desenvolvidas na sessão com a criança. 
Bonecos e fantoches
Permite que a criança expresse suas emoções, enfrente problemas e
desenvolva habilidades sociais de forma lúdica e segura, através da
representação de personagens do cotidiano da criança.
Casinha
Permite que a criança expresse suas emoções e a ajuda a explorar suas
experiências, a desenvolver habilidades sociais, a resolver problemas e
também a fortalecer o vínculo com o psicólogo.
Livros infantis
Permite que a criança expresse suas emoções, lide com questões
difíceis, desenvolva habilidades sociais e emocionais, além de estimular a
imaginação e a compreensão.
Jogos terapêuticos
Permite que a criança explore e compreenda os seus sentimentos e
questões pessoais de uma forma simbólica, lúdica e segura, através de
diversas atividades desenvolvidas com essa finalidade.
Jogos comerciais
Permite trabalhar questões e habilidades de uma forma divertida e
envolvente, por serem jogos voltados o público em geral, como jogo da
memória, pega varetas, entre outros.
Todas essas atividades têm como objetivo acessar com maior facilidade aspectos do universo infantil, que
serão ferramentas importantes no atendimento clínico.
Como objetivos principais do uso dos recursos lúdicos na psicoterapia da criança, podemos pontuar:
Estabelecer uma associação positiva entre a psicoterapia e a figura do terapeuta a atividades
agradáveis, uma vez que o brincar para a criança é associado a algo prazeroso.
Identificar recursos potencialmente reforçadores para a criança.
Avaliar como está o desenvolvimento da criança, pois, por meio do brincar, o psicólogo pode avaliar
aspectos do desenvolvimento da linguagem da criança, do seu desenvolvimento emocional e até
mesmo de seu desenvolvimento psicomotor.
Identificar conceitos e a maneira pela qual a criança lida com o estabelecimento de regras.
Explorar a atividade lúdica da criança como uma forma de expressão da maneira como ela vivencia o
mundo.
Avaliar a relação psicoterapeuta-criança.
Por meio de algumas atividades, tais como os jogos de regras, mostrar à criança as consequências de
seus comportamentos, o que pode auxiliá-las não apenas na compreensão das situações que ocorrem
dentro do setting terapêutico, mas também no ambiente externo no qual ela está inserida.
Treinar comportamentos mais adaptativospara a criança.
Além de seu aperfeiçoamento teórico e técnico para o atendimento infantil, pode ser que o psicólogo goste de
crianças e esteja inclinado a compreender o mundo a partir de uma perspectiva infantil (SILVA, NAVES; LINS,
2018).
O psicólogo deve estar familiarizado com os brinquedos e as brincadeiras mais comumente
utilizadas pelas crianças, conhecendo também os personagens dos programas e livros infantis mais
atuais.
De maneira geral, as crianças revelam em suas brincadeiras o que elas vivenciam fora do ambiente
terapêutico, como: as suas relações familiares e escolares, os papéis com que elas se identificam na
sociedade em que vivem, tais como médicos, professores, bombeiros, entre outros. O psicólogo deve avaliar a
familiaridade da criança com os recursos lúdicos que vai apresentar, podendo utilizar, inicialmente, recursos
mais conhecidos pela criança, o que facilita o estabelecimento do vínculo com ela (SILVA, NAVES; LINS, 2018).
O psicólogo infantil deve selecionar a atividade lúdica que vai utilizar em função dos objetivos estabelecidos
por ele para a sessão. 
Para que você entenda melhor, imagine que o
psicólogo deseje trabalhar a tolerância da
criança a frustração. Para isso, pode escolher
um jogo de regras e investigar como a criança
reage quando tem que esperar a sua vez de
jogar e/ou quando perde o jogo. Essa é uma
oportunidade que o psicólogo tem para
conversar com a criança, em uma linguagem
acessível a ela, sobre aspectos disfuncionais de
seu comportamento, mostrando que pode
haver outras formas mais adaptativas de lidar
com as situações fora do ambiente terapêutico.
Nas sessões iniciais de psicoterapia, é
aconselhável que o psicólogo deixe a criança
livre para escolher o recurso lúdico que quer utilizar. Essa estratégia facilita o estabelecimento do vínculo com
a criança. Podemos chamar essa estratégia de “brincadeira livre”, ou seja, o brincar menos controlado pelo
terapeuta, sem muitas regras definidas, já que a criança estará livre para usufruir do espaço e dos recursos
que estão disponíveis na sala de terapia, sem muitas interferências por parte do psicólogo.
Objetivos da atividade lúdica infantil
Assista a este vídeo sobre os principais objetivos do uso dos recursos lúdicos na psicoterapia da criança e
entenda como o brincar é utilizado para alcançar metas terapêuticas significativas.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
A atividade lúdica é um recurso bastante importante no atendimento infantil. Uma de suas funções é estimular,
na criança,
A
a resolução de problemas.
B
a curiosidade.
C
a fonética.
D
a relação familiar.
E
a semântica.
A alternativa B está correta.
A atividade lúdica da criança é inerente ao seu desenvolvimento. Com ela, a criança é estimulada a
desenvolver a curiosidade, a autoconfiança e a sua autonomia, proporcionando o desenvolvimento da
linguagem, do pensamento, da concentração e da atenção.
Questão 2
Os recursos lúdicos são extremamente valiosos no atendimento psicoterapêutico da criança por diversos
motivos. Assinale a alternativa que corresponde a um desses motivos.
A
Estimular o desenvolvimento motor da criança.
B
Fortalecer as habilidades sociais da criança.
C
Estabelecer uma relação positiva do terapeuta e da psicoterapia com atividades prazerosas à criança.
D
Estimular a criança no desenvolvimento da linguagem.
E
Fortalecer o vínculo da criança com a escola.
A alternativa C está correta.
Para a criança, a atividade lúdica é uma atividade, em geral, prazerosa, associada a momentos positivos.
Dessa forma, quando o psicólogo a utiliza em seu atendimento clínico com crianças, por meio da
ludoterapia, a criança, entre outros aspectos, estabelece uma associação positiva da psicoterapia, bem
como da figura do terapeuta, a atividades prazerosas.
2. Materiais estruturados e não estruturados
Consultório de psicoterapia infantil
No processo psicoterapêutico da criança, os recursos podem ser usados de maneira estruturada ou não
estruturada. Veja o que isso significa!
Antes de falarmos mais especificamente sobre os materiais estruturados e não estruturados, é importante que
você tenha algumas noções sobre como deve ser, de maneira geral, o consultório de um psicólogo que atende
crianças.
A sala de psicoterapia deve ter algumas características que permitem a exposição da criança aos materiais
estruturados e não estruturados. Deve ser um ambiente não muito pequeno, com mobiliário reduzido – por
exemplo, uma mesa e duas ou três cadeiras –, para facilitar a liberdade de movimentos da criança. É
recomendável ainda que o piso e as paredes sejam laváveis, a fim de que não haja maiores preocupações com
a conservação do local. Os brinquedos e os demais materiais, como folhas, lápis coloridos, entre outros,
devem estar expostos e de fácil acesso para a criança (OCAMPO; ARZENO; PICCOLO, 1986).
Em relação aos brinquedos, é importante que o
psicólogo inclua elementos de diferentes
tamanhos, texturas e formas, e que sejam
adequados a diversas faixas de idade. É
essencial que estejam presentes materiais que
possam representar elementos que façam parte
do cotidiano infantil. Além disso, os materiais
devem ser de boa qualidade para evitar que
estraguem com facilidade, e não devem ser
incluídos materiais que possam oferecer risco à
integridade física da criança ou do psicólogo,
como objetos de vidro, tesouras com pontas,
fósforos, entre outros.
Outro aspecto importante é que os brinquedos
devem estar expostos de maneira razoavelmente organizada, podendo estar, por exemplo, em uma caixa ou
cesto. Os brinquedos a serem incluídos vão depender do referencial teórico adotado pelo psicoterapeuta. Os
psicanalistas dão preferência a materiais pouco estruturados e os psicoterapeutas com uma orientação da
abordagem cognitivo-comportamental utilizam com maior frequência materiais mais estruturados.
Silva, Naves e Lins (2018) sugerem algumas possibilidades de brinquedos a serem incluídos no consultório
terapêutico, acompanhe a seguir.
Recursos estruturados 
Referem-se aos recursos que são definidos
pelo psicólogo, com as regras de sua
utilização discriminadas por ele. Como
exemplo, podemos citar uma sessão que
tenha como objetivo trabalhar a tolerância à
frustração e a aceitação de regras na criança.
O psicólogo pode, então, escolher um
brinquedo que tenha exatamente esse
objetivo.
Recursos não estruturados 
Referem-se aos recursos que o psicólogo
utiliza sem um planejamento
totalmente delineado. Como exemplo,
podemos citar o uso de desenho livre,
no qual o psicólogo pede que a criança
faça um desenho da forma mais livre
possível. Essa é uma boa estratégia para
investigar aspectos mais gerais do
funcionamento emocional da criança.
Bonecos
Família de bonecos, bonecas e fantoches.
Animais
Famílias de animais selvagens (leão, tigre e outros) e família de animais
domésticos (cachorro, gato, entre outros).
Ambiente doméstico
Casa com mobília.
Peças de encaixe
Lego e brinquedos de madeira (formas geométricas).
Atividades domésticas
Kits de cozinha infantil, de limpeza infantil, kits infantis de médico
(seringa, estetoscópio etc.) e ferramentas infantis (martelo, alicate etc.).
Artes
Papéis (papel ofício, papel pardo, cartolina); lápis (lápis grafite, lápis de
cor, hidrocor), borracha, apontador, cola, fita adesiva, tesoura sem ponta,
massinha de modelar, argila, tinta guache, jornais e revistas.
Veículos
Carrinhos de tamanhos diferentes.
Uma boa dica é perguntar aos pais, na primeira entrevista, com que a criança costuma brincar em casa. Isso
permite que o psicólogo inclua na caixa de brinquedos algum material mais individualizado.
Aspectos gerais do consultório de psicoterapia infantil
Compreenda a infraestrutura necessária da sala e as possibilidades de brinquedos a serem incluídas no
consultório psicoterapêutico infantil.
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Criança: livrepara escolher
Vamos iniciar pelos materiais não estruturados, por esses se constituírem na maneira mais adequada para o
início do trabalho psicoterapêutico. Um dos motivos disso é o fato de que deixar a criança livre para escolher
como usar os recursos lúdicos presentes na sala de terapia é uma estratégia que favorece a criação e o
estabelecimento do vínculo entre o psicólogo e a criança. Esse vínculo será essencial para o bom andamento
do processo de terapia. A utilização de materiais não estruturados no início da psicoterapia permite que a
criança escolha, muito provavelmente, recursos reforçadores e que sejam familiares a ela, deixando-a menos
ansiosa e/ou temerosa em relação à psicoterapia (SILVA, NAVES; LINS, 2018).
O uso dos materiais não estruturados propicia a observação do comportamento da criança em uma situação
com pouca estruturação. O brincar livre diz respeito ao ato de brincar que é menos controlado pelo ambiente
social mais imediato, pois a criança é livre para explorar o espaço terapêutico e os recursos nele disponíveis
sem muitas intervenções por parte do psicólogo.
O “brincar livre” não significa ausência de objetivos na sessão. Durante a brincadeira livre, com o uso
dos brinquedos escolhidos pela criança, o psicólogo deve ter em mente qual é o seu objetivo com a
sessão e com a utilização de materiais não estruturados, que pode ser o fortalecimento do vínculo e/
ou a observação de aspectos do funcionamento da criança.
Os brinquedos não estruturados são aqueles que não têm, a priori, uma função determinada, não havendo
uma caracterização convencional sobre a sua utilização (SILVA, NAVES; LINS, 2018). A criança pode escolher,
por exemplo, brincar com uma folha em branco e alguns lápis coloridos, criando um desenho que represente a
sua família, ou usar essa folha em branco fazendo recortes que expressem como ela está se sentindo na
sessão.
O desenho livre é um recurso não estruturado bastante rico para o psicólogo, uma vez que a criança, por meio
dele, pode expressar inúmeros aspectos de seu funcionamento psíquico, bem como do seu mundo exterior,
como as representações que tem de sua família. É muito importante que o psicólogo esteja atento ao desenho
livre da criança, tentando captar o que ela está expressando por meio dele.
E como isso pode ser feito na prática? 
Se a criança escolheu desenhar a sua família, o
psicólogo deve observar a composição dessa
família, a ordem de aparecimento dos
personagens, o tamanho deles, os comentários
que a criança faz dos personagens, todos
esses são aspectos relevantes para a análise
do psicólogo. Como exemplo de pontos que
podem ser observados, podemos citar:
ausências de alguns membros da família, a
criança se colocar, no desenho, afastada dos
demais familiares ou isolar algum outro
membro. Todos esses são pontos que devem
ser considerados pelo psicólogo como material
para a compreensão da dinâmica psicológica da
criança.
O brincar e a observação do comportamento
Neste vídeo, falaremos sobre os materiais não estruturados mais comuns e que desempenham um papel
fundamental no processo psicoterapêutico com crianças. Assista!
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Materiais: padronização e vivência da criança
Como já mencionamos, os materiais estruturados são aqueles padronizados que reproduzem ou são bastante
próximos à realidade vivenciada pela maior parte das crianças. Como observam Silva, Naves e Lins (2018), são
os brinquedos que representam de maneira fiel e reconhecida uma miniatura da realidade, podendo ser
usados na reprodução de personagens, contextos e situações específicas. Pela sua estreita aproximação com
o contexto real, esse tipo de material facilita a identificação da criança. Como exemplo de um material
estruturado, podemos citar o carro de bombeiro. Vamos analisar agora alguns materiais estruturados mais
utilizados.
Os fantoches com personagens representando personagens familiares, como os avós, bebês, pais e irmãos,
figuram como materiais estruturados de grande valia no atendimento clínico, pois propiciam uma identificação
da criança com o seu contexto familiar. Esses materiais permitem a investigação da relação da criança com as
pessoas e com o seu ambiente familiar mais imediato, identificando os seus sentimentos em relação a si
mesma e aos seus familiares.
Outro tipo de material estruturado bastante
utilizado na psicoterapia com crianças se refere
aos livros infantis. As histórias contadas nos
livros para crianças têm, em geral, um paralelo
com a realidade infantil, e estimulam sua
imaginação e a expressão de suas emoções e
das dificuldades que a criança tem enfrentado
(SILVA; NAVES; LINS, 2018). 
Quando estamos nos referindo aos livros
infantis, falamos aqui dos livros impressos e
também dos materiais digitais, que podem ser
usados com a mesma finalidade.
Os livros infantis são materiais úteis para avaliar os comportamentos que têm sido problemáticos
para a criança, particularmente os relatados pelos pais. Portanto, o psicólogo deve enfatizar os
pontos da leitura que considere mais pertinentes à problemática apresentada pela criança.
Lembre-se de que o psicólogo deve adequar esse material à idade da criança, ou seja, se for uma criança que
ainda não sabe ler, o psicólogo deve apresentar e ler o livro para a criança, seja ele impresso ou digital, de
forma lúdica, usando diferentes entonações vocais e expressões faciais para caracterizar os personagens. Já
as crianças maiores, que tenham domínio da linguagem, podem participar mais do momento da leitura. 
Outro ponto importante é que a criança deve ter uma participação ativa na leitura e discussão do livro, e o
psicólogo pode sugerir, por exemplo, que ela avalie o comportamento dos personagens e apresente soluções
alternativas para os problemas apresentados por eles. Com isso, o psicólogo pode explorar temas, tais como
uma separação familiar, o nascimento de um irmão, entre outros.
Existem inúmeros exemplos de livros que podem ser usados como materiais estruturados no atendimento
infantil. Silva, Naves e Lins (2018) sugerem alguns que favorecem a investigação de determinadas temáticas.
Veja agora alguns exemplos indicados pelas autoras.
Para trabalhar com a temática das emoções
Ai! Que medo!, de Shirley Souza (2005), Ed. Escala Educacional.
Quando a tristeza aparece..., de Marina Gusmão (2015), Ed. Sinopsys.
Tenho monstros na barriga, de Tonia Casarin (2016), Ed. Tonia Casarin.
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Para trabalhar com a temática dos limites e da tolerância à
frustração
Lucas aprendendo a lidar com o NÃO, de Edyleine Bellini Peroni
Benczik (2017), Ed. Sinopsys.
Para trabalhar com a temática do luto
Morrendo de saudades, de Carmen Lucia Campos (2006), Ed. Escala
Educacional.
O vovô não vai voltar? Trabalhando o luto com crianças, de Carmem
Beatriz Neufeld e Aline Henrique Reis (2015), Ed. Sinopsys.
Os filmes infantis são outro tipo de material estruturado que pode ser utilizado como recurso terapêutico,
funcionando como um valioso recurso lúdico no processo de psicoterapia. Por meio desse recurso, o
psicólogo pode trabalhar temáticas específicas e associá-las às experiências vivenciadas pela criança,
relacionado as situações descritas nos filmes aos sentimentos dela diante de eventos semelhantes de sua
vida. 
O psicólogo pode sugerir os filmes à criança,
pedindo que ela os assista em casa – sempre
avaliando com os pais se essa é uma opção
viável – para, em momento posterior no
consultório, conversar com ela sobre os pontos
importantes abordados no filme, deixando que
a criança, inicialmente, traga os aspectos que
mais lhe chamaram atenção (SILVA; NAVES;
LINS, 2018).
Como exemplo de filmes infantis, podemos
citar: o filme Monstros S.A. (Pete Docter, 2001),
que aborda o sentimento de medo e o filme O Rei Leão (Rob Minkoff, Roger Allers, 1994), que aborda a morte
dos genitores e a amizade.
Resumindo
Os materiais, tanto os estruturados quando os não estruturados, são recursos fundamentais no processo
psicoterapêutico da criançae devem fazer parte da sala de atendimento do psicólogo infantil.
Lembramos a você que todos os materiais lúdicos que serão utilizados devem estar sempre em
conformidade com os objetivos que o psicólogo estabelece para a sessão e devem ser adequados à
faixa etária da criança. 
Reprodução de personagens, contextos e situações específicas
Confira este vídeo que aborda os materiais estruturados mais comuns e que desempenham um papel
fundamental no processo psicoterapêutico com crianças.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
A sala de atendimento clínico do psicólogo infantil deve ter algumas características especiais, que permitam à
criança explorar os mais diversos materiais lúdicos. Uma das características que favorecem essa exploração é
A
a presença dos pais na sala.
B
a presença de materiais não estruturados.
C
a presença de materiais estruturados.
D
o mobiliário reduzido.
E
a presença de jogos de regras.
A alternativa D está correta.
O atendimento psicológico de crianças tem algumas particularidades, quando comparado ao atendimento
de adultos. Uma delas refere-se ao consultório no qual serão realizadas as consultas, que, entre outros
aspectos, deve ter um mobiliário reduzido para facilitar a liberdade de movimentos da criança e a sua livre
exploração dos materiais lúdicos.
Questão 2
No atendimento em psicoterapia infantil, o psicólogo pode utilizar materiais estruturados e não estruturados.
Assinale a alternativa que indica um exemplo de material estruturado.
A
Folha em branco
B
Lápis de cor
C
Desenho livre
D
Pintura em guache
E
Livro infantil
A alternativa E está correta.
Os materiais lúdicos se constituem em um recurso poderoso no atendimento psicoterapêutico da criança.
Esses materiais podem ser estruturados ou não estruturados. Os materiais estruturados são aqueles
padronizados, podendo ser utilizados na reprodução de contextos e situações específicas. Um exemplo
deles é o livro infantil, com o qual o psicólogo pode trabalhar diversas temáticas com a criança.
3. Sessões com familiares e terceiros
Entrevista inicial com os pais
O trabalho psicoterapêutico com crianças tem muitas peculiaridades. Uma delas refere-se ao fato de que a
criança, por estar ainda em um momento de seu desenvolvimento no qual depende do adulto, necessita que
os seus pais/responsáveis participem também de forma ativa no processo de psicoterapia. Para isso, o
psicólogo deve definir com os pais a realização de algumas sessões ao longo do processo.
Dois momentos do processo psicoterapêutico infantil deverão contar com uma ou mais sessões com os pais/
responsáveis da criança. São eles:
O momento inicial do processo
O momento final da avaliação, quando o psicólogo dará as recomendações pertinentes ao caso.
Vamos ver agora de que forma essas entrevistas devem ser conduzidas.
A entrevista ou sessão com os pais/responsáveis é um recurso bastante relevante na psicoterapia
com crianças, pois, por meio desses informantes é que podemos conhecer todo o histórico de vida
da criança, incluindo os dados sobre o seu desenvolvimento e, especialmente, o motivo da busca
pela terapia.
Silva, Naves e Lins (2018) observam que no momento inicial a compreensão de quem é o paciente é muito
importante, e em geral são os pais os membros da família que convivem mais estreitamente com a criança e,
por isso, estão mais capacitados a falar sobre ela. É recomendável que ambos pais compareçam à sessão
inicial, mesmo que estejam separados matrimonialmente. Isso só não deve ocorrer caso um dos pais se
oponha.
No entanto, caso não seja possível realizar a entrevista de forma conjunta – muito comum em caso de relações
conflituosas entre os pais –, a ordem em que os pais serão ouvidos pode sofrer variações. 
Nas situações em que ambos vão à sessão inicial, alguns aspectos que devem ser observados, tais como:
como os pais chegaram? Eles estavam interagindo na sala de espera? A resposta a essas indagações já nos
dá algumas pistas sobre a dinâmica familiar da criança.
No que tange à presença ou não da criança nessa primeira sessão com os pais, a literatura não tem uma
recomendação única para essa questão.
Alguns autores defendem a participação da
criança, porém outros não a recomendam,
salientando que alguns temas podem ser
tratados de maneira mais aprofundada e menos
contida sem a presença da criança. Isso não
significa que ela permanecerá passiva e alheia
ao seu processo psicoterapêutico, mas que é
necessário preservá-la (SILVA; NAVES; LINS,
2018).
Na primeira sessão com os pais, o psicólogo
deve ter uma postura de acolhimento. Devemos
lembrar que atitudes de julgamento devem ser sempre evitadas, pois os pais, em geral, já chegam à sessão
sentindo-se culpados e ansiosos pelo que está ocorrendo com o seu filho, e, por isso, nós não devemos
reforçar esses sentimentos.
Para iniciar a sessão, recomenda-se que o psicólogo se apresente aos pais, esclarecendo todos os pontos
relativos ao atendimento da criança.
1. 
2. 
Exemplo
Dias e horários das sessões, procedimento diante de faltas, honorários, ou seja, as regras para que o
processo ocorra. 
Em seguida a esse momento, o psicólogo deve perguntar acerca das questões relacionadas à queixa ou ao
motivo da consulta. O psicólogo deve procurar investigar quais comportamentos da criança que são vistos
como problemáticos, tanto pelos familiares quanto pela escola ou por algum outro profissional que tenha
encaminhado a criança.
É recomendável que o psicólogo aborde com os pais a percepção que eles têm sobre as dificuldades
apresentadas pela criança, principalmente quando essas dificuldades foram trazidas por outras pessoas,
como os professores, por exemplo. Por que isso é um aspecto relevante a ser observado? Como destacam
Silva, Naves e Lins (2018), podem ocorrer situações em que os pais não reconhecem a existência do problema
na criança e, dessa forma, tendem a mais facilmente boicotar o processo psicoterapêutico, pois, para esses
pais, a criança não apresenta nenhuma dificuldade, e não há nada a ser mudado.
Informações relevantes e percepção dos pais
Entenda neste vídeo a importância de conhecer o histórico de vida da criança e os dados sobre o seu
desenvolvimento a partir da entrevista com os pais.
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Entrevista devolutiva com os pais
Após esse momento inicial, no qual foi abordado o motivo da consulta, devemos obter os dados relacionados
ao desenvolvimento da criança, de forma cronológica. Iniciamos com os aspectos referentes ao planejamento
ou não da concepção, como foi a gestação, nascimento e todas as outras informações relativas ao 
desenvolvimento físico, psicomotor, cognitivo e emocional da criança. Todas essas informações auxiliarão o
psicólogo a uma melhor compreensão do que está acontecendo com a criança.
Alguns aspectos também devem ser observados na sessão inicial, tais como:
Quem conduziu a maior parte da entrevista?
Houve muitas divergências entre os pais sobre o comportamento problemático apresentado pela
criança?
A consideração desses pontos será de grande valia para a compreensão do caso.
Após as sessões iniciais, outro momento fundamental se refere à sessão de devolução, na qual devemos
transmitir aos pais o que concluímos sobre a criança e quais são as recomendações e os encaminhamentos
pertinentes.
No início do processo de psicoterapia da criança, é usual que o psicólogo faça uma avaliação diagnóstica para
traçar os rumos do tratamento. Ao final dessa fase de avaliação, o psicólogo deve realizar uma ou mais
entrevistas com os pais/responsáveis, com o objetivo de abordar com eles todos os aspectos observados ao
longo dos atendimentos com a criança. Essas sessões podem ocorrer não só ao final do processo de
avaliação, mas durante alguns momentos pontuais da psicoterapia, definidos não apenas pelo psicólogo, mas
também pelos pais.
• 
• 
Para que o psicólogo elabore uma boa sessão dedevolução com os pais, é imprescindível que ele tenha uma
compreensão o mais completa possível do que está ocorrendo com a criança, ou seja, dos motivos que estão
levando a criança a apresentar a queixa inicialmente trazida pelos pais. Nesse panorama, está incluída
também uma avaliação da dinâmica familiar e quais aspectos dessa dinâmica têm relação com o
comportamento apresentado pela criança.
Atenção
A mesma postura de acolhimento e não julgamento que devemos observar nas sessões iniciais deve ser
mantida em todas as sessões com os pais. Acolher não significa que vamos deixar de pontuar aspectos
relevantes de sua conduta que podem e devem ser modificados em prol da saúde emocional da criança,
mas que devemos, por meio de uma atitude respeitosa, abordar com os pais tudo o que temos
observado nos atendimentos com a criança e que dizem respeito a sua dinâmica psicológica. 
Lembre-se também do sigilo, ou seja, o que devemos transmitir aos pais são dados referentes à dinâmica
psíquica da criança, tendo sempre em mente que a criança é a protagonista do processo.
Para a sessão de devolução com os pais, recomendamos que o psicólogo utilize a linguagem mais clara
possível, evitando a utilização de termos muito técnicos que seriam de difícil compreensão por parte dos
familiares. 
Agora vamos falar sobre os pontos principais que devem ser abordados nas entrevistas devolutivas. 
A sessão de devolução com os pais é o momento em que o psicólogo não apenas transmite a eles tudo o que
foi observado ao longo das sessões com a criança, mas também quais são as recomendações e os
encaminhamentos pertinentes. Como exemplo de uma recomendação de uma sessão de devolução, o
psicólogo pode indicar a continuação dos atendimentos com a criança e algumas outras sessões de
orientação aos pais.
É necessário observarmos também que a devolução com os pais pode ser realizada em mais de uma sessão.
Além disso, não deve ocorrer apenas ao final de um processo de avaliação psicológica, mas pode ser uma
prática presente no processo de psicoterapia, ocorrendo com periodicidade definida pelos envolvidos.
As sessões com os familiares são, para o psicólogo infantil, um dos recursos mais valiosos para o sucesso de
seu atendimento com a criança. Os pais, assim como outros familiares, constituem elementos importantes na
vida da criança e, por esse motivo, é essencial que façam parte do processo psicoterapêutico dela.
Recomendações e encaminhamentos pertinentes
Neste vídeo, falaremos sobre o que é realizado durante uma sessão de entrevista devolutiva, etapa-chave em
que as recomendações e encaminhamentos são compartilhados com os responsáveis. Confira!
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Comece 
Trazendo os aspectos mais sadios e
adaptativos da criança e de seu grupo
familiar.
Finalize 
Trazendo os aspectos menos
adaptativos, incluindo o motivo da
consulta inicial.
Contato com terceiros
Além dos pais/responsáveis, no processo de psicoterapia da criança pode ser necessário o contato com
terceiros, que incluem outros profissionais de saúde, professores, entre outros. Esse é um recurso bastante
comum quando outros profissionais solicitam a avaliação psicológica da criança, por exemplo, a coordenadora
da escola que a criança frequenta ou o fonoaudiólogo.
Devemos lembrar que, na maior parte das vezes, a criança chega ao atendimento em virtude de uma
demanda identificada por um adulto que faz parte de seu convívio. Em geral, as queixas mais comuns nesses
contextos são as relacionadas a problemas de comportamento, como agressividade, impulsividade,
desatenção, entre outras. Outro aspecto se refere ao fato de que alguns padrões de comportamento serão
mais fáceis de serem observados fora do ambiente familiar (ROCHA; EMERICH, 2018).
Atenção
Sobre as sessões com terceiros, Cardoso e Muniz (2018) destacam que elas devem ser pontuais e
sempre relacionadas às queixas levantadas. Não é recomendável que nessas sessões sejam abordados
aspectos mais profundos da dinâmica psíquica da criança, como dados de seu funcionamento cognitivo,
social e emocional. E também, para que ocorram as sessões com terceiros no processo de psicoterapia
da criança, é necessária a autorização dos pais/responsáveis, assim como a criança deve ser informada
da necessidade dessas sessões. 
As sessões com os pais auxiliam o psicólogo a uma melhor compreensão do sintoma apresentado pela
criança. Entretanto, além dos pais, os professores, orientadores educacionais ou outros profissionais de saúde
podem também contribuir com informações valiosas sobre a criança. 
Podemos dizer que a escola é um ambiente
privilegiado, no qual a criança evidencia
diversas habilidades esperadas para a sua faixa
de idade, em especial as habilidades sociais.
Nessa perspectiva, os professores têm a
possibilidade de observar a criança em suas
interações com outras crianças e adultos, que
não no ambiente familiar. Isso permite que eles
forneçam informações cruciais sobre o
comportamento da criança.
Nas sessões com outros informantes podem
ocorrer discrepâncias entre as informações obtidas, o que reflete diferenças entre as percepções que esses
informantes têm sobre a criança. E como devemos lidar com essa situação? É importante que o psicólogo
analise as concordâncias e as discordâncias entre os dados colhidos de diferentes informantes, para que
possa efetuar uma avaliação integrativa de tudo o que foi abordado. 
Através da analise das concordâncias e discordâncias, o psicólogo poderá verificar comportamentos
que são observados em todos os ambientes nos quais a criança interage e ponderar sobre as
diferenças de percepção entre os informantes. Como pontuam Rocha e Emerich (2018), essas
discrepâncias não implicam dizer que uma das partes está correta e a outra não, mas que há
distinções na forma de encarar as dificuldades apresentadas pela criança e que essas diferenças
podem ser essenciais na compreensão do caso.
Diante do exposto, acreditamos que você deve ter percebido o quanto as sessões com outras pessoas, para
além do contexto familiar, constituem-se um recurso relevante para o psicólogo infantil na busca por auxiliar a
criança nas suas dificuldades.
O que considerar no contato com terceiros?
Veja este vídeo que aborda os pontos a serem considerados no contato com terceiros, para além do contexto
familiar, durante o processo psicoterapêutico com crianças. 
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Verificando o aprendizado
Questão 1
As sessões com os familiares, em geral os pais, são pontos importantes do atendimento psicológico da
criança. Por meio dessas sessões o psicólogo pode
A
avaliar o desenvolvimento psicomotor da criança.
B
avaliar o histórico de vida da criança.
C
avaliar o desenvolvimento emocional da criança.
D
avaliar o desenvolvimento cognitivo da criança.
E
avaliar o desenvolvimento social da criança.
A alternativa B está correta.
As sessões com os familiares, em particular com os pais/responsáveis, são bastante relevantes no
processo de psicoterapia da criança, por serem, entre outros aspectos, oportunidades únicas para que o
psicólogo conheça o histórico de vida da criança.
Questão 2
Além das sessões com os pais/responsáveis, as sessões com terceiros são também relevantes para o
atendimento psicológico da criança. Essas sessões devem ter como princípio básico
A
serem amplas e constantes.
B
tratarem de aspectos mais profundos da dinâmica psicológica da criança.
C
serem pontuais e relacionadas à queixa.
D
tratarem de todo o histórico de vida da criança.
E
serem frequentes no processo de psicoterapia da criança.
A alternativa C está correta.
No processo psicoterapêutico da criança, podem ser necessárias a realização de sessões com terceiros,
tais como: professores, coordenadores ou profissionais de saúde. Essas sessões devem ser pontuais e
sempre tratar de assuntos relacionados à queixa apresentada pela criança, não sendo recomendável que
se abordem aspectos mais profundosda dinâmica psicológica da criança.
4. Conclusão
Considerações finais
A psicoterapia de crianças tem algumas particularidades que a diferem do tratamento psicológico com
adolescentes e adultos. Uma delas diz respeito aos recursos que o psicólogo pode utilizar em seus
atendimentos. O lúdico surge como um recurso psicoterapêutico essencial na psicoterapia infantil, por ser o
meio de expressão próprio da criança. Dessa forma, o ato de brincar assume na psicoterapia de crianças um
papel de grande relevância, devendo ser bem empregado pelo psicólogo. Os recursos terapêuticos incluem
ainda o uso de materiais estruturados e não estruturados voltados para esse brincar, que deverão fazer parte
do consultório do psicólogo infantil. 
As sessões realizadas com os pais/responsáveis ao longo de todo o processo de psicoterapia, e mais
particularmente no início e ao final do processo, também constituem recursos importantes. Nesses momentos,
o psicólogo deve primar por uma postura de acolhimento e empatia diante das dificuldades apresentadas pela
criança e pelos pais ao lidar com ela. As sessões com terceiros também são relevantes, pois, muitas vezes, o
atendimento infantil ocorre por solicitação de outros profissionais, tais como professores e fonoaudiólogos, e
por isso é importante que esses outros profissionais também participem do processo.
Com isso, esperamos que você tenha compreendido as principais características dos recursos
psicoterapêuticos que devem ser utilizados no tratamento psicológico da criança e, a partir de agora, esteja
mais preparado para empregá-los em sua prática profissional.
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Caso você tenha interesse em aprender um pouco mais sobre os recursos terapêuticos em psicoterapia
infantil, uma ótima dica de leitura é o livro Descobrindo crianças - A abordagem gestáltica com crianças e
adolescentes, de autoria da psicóloga Violet Oaklander (1980), da Summus Editora.
Referências
ABERASTURY, A. Psicanálise da criança: teoria e técnica. Porto Alegre: ArtMed, 1986.
 
BARBOSA, L.; ANDRADE, A. Utilização de técnicas cognitivo-comportamentais e recursos lúdicos por
psicólogos na psicoterapia infantil. Cadernos de Psicologia, v. 4, p. 666-689, 2022.
 
CARDOSO, L. M.; MUNIZ, M. Encerramento do processo avaliativo infantil: a entrevista devolutiva. In: LINS, M.;
MUNIZ, M.; CARDOSO, L. Avaliação psicológica infantil. São Paulo: Hogrefe, 2018. p. 265-279.
 
DUARTE, N.; BORNHOLDT, I.; CASTRO, M. G. K. A prática da psicoterapia infantil. Porto Alegre: ArtMed, 1989.
 
FREUD, S. (1920). Além do princípio do prazer. In: FREUD, S. Obras completas, v. 18. Ed. Standard Brasileira.
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FULGENCIO, L. O brincar como modelo do método de tratamento psicanalítico. Revista Brasileira de
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OCAMPO, M. L. S. D.; ARZENO, M. E. G.; PICCOLO, E. D. O processo psicodiagnóstico e as técnicas projetivas.
São Paulo: Martins Fontes, 1986.
 
OLIVA, A. D. et al. Aspectos biológicos e culturais sobre desenvolvimentos infantil e cuidados parentais. In:
VIEIRA, M. L.; OLIVA, A. D. (orgs.). Evolução, cultura e comportamento humano. Florianópolis: Edições do
Bosque, 2017. p. 159-219.
 
RIBEIRO, D. M.; CASTRO, J. L. M. de; LUSTOSA, F. G. Brincadeira e desenvolvimento infantil nas teorias
psicogenéticas de Wallon, Piaget e Vigotski. In: FÓRUM INTERNACIONAL DE PEDAGOGIA, 10., 2018, Pau dos
Ferros, RN. Anais... Pau dos Ferros, RN: UERN, 2018.
 
ROCHA, M. M.; EMERICH, D. R. A importância de múltiplos informantes na avaliação psicológica infantil. In:
LINS, M.; MUNIZ, M.; CARDOSO, L. Avaliação psicológica infantil. São Paulo: Hogrefe, 2018. p. 159-177.
 
SILVA, T. C.; NAVES, A. R. C. X.; LINS, M. R. C. Estratégias lúdicas na avaliação infantil. In: LINS, M.; MUNIZ, M.;
CARDOSO, L. Avaliação psicológica infantil. São Paulo: Hogrefe, 2018. p. 265-279.
Técnicas de avaliação e diagnóstico
diferencial na infância
Você vai entender os processos que constituem uma avaliação psicológica em crianças e a importância do
atendimento interdisciplinar para um diagnóstico diferencial.
Profa. Renata Casemiro Cavour
1. Itens iniciais
Propósito
Conhecer a avaliação psicológica na infância permite aos profissionais de psicologia conduzir processos
avaliativos de modo acolhedor aos preceitos técnicos e éticos, a fim de auxiliar a formulação de hipóteses
para o diagnóstico adequado.
Objetivos
Reconhecer a importância da avaliação de acordo com as especificidades do desenvolvimento infantil,
tendo em vista seus propósitos clínicos e éticos.
 
Identificar os principais instrumentos, as técnicas e as observações clínicas utilizados na avaliação
infantil.
 
Reconhecer a complexidade diagnóstica na infância, considerando as comorbidades, os sintomas
sobrepostos e a importância de um raciocínio clínico integrador.
 
Identificar hipóteses diagnósticas com base em múltiplas fontes, respeitando princípios éticos e
promovendo uma comunicação clara e acolhedora com a família e a rede de apoio.
Introdução
Avaliar uma criança no contexto clínico é um processo delicado, profundo e, acima de tudo, humano.
Diferentemente da avaliação psicológica com adultos, em que o discurso verbal costuma ser a principal via de
expressão, a infância nos convoca a escutar por outros caminhos: o brincar, os desenhos, o corpo, o silêncio e
os vínculos. O sofrimento psíquico infantil nem sempre aparece de forma clara — ele se manifesta, muitas
vezes, como agitação, retraimento, agressividade, dificuldades escolares ou somatizações. Por isso, o
trabalho do psicólogo que atua com crianças exige não apenas domínio técnico mas também:
 
Postura ética
Escuta sensível
 
Atenção ao contexto
 
Este conteúdo parte do pressuposto de que avaliar é cuidar. Não se trata apenas de identificar sintomas ou
aplicar instrumentos, mas de compreender a criança em sua totalidade, respeitando sua fase de
desenvolvimento, sua história de vida e as relações que a constituem. Para isso, é fundamental que
profissionais da área saibam articular conhecimentos sobre desenvolvimento infantil, psicopatologia, vínculos
familiares, contexto sociocultural e uso crítico das ferramentas de avaliação disponíveis.
 
Além disso, a avaliação infantil envolve uma dimensão relacional importante: o contato com a família, com a
escola e, muitas vezes, com outros profissionais da rede. Cada etapa — da anamnese à devolutiva — precisa
ser conduzida com clareza, empatia e responsabilidade. Afinal, um laudo psicológico pode impactar
profundamente a vida da criança e de seus cuidadores, e deve ser construído de forma ética e acolhedora.
 
Não se trata de rotular ou classificar. A avaliação psicológica na infância deve abrir caminhos para a escuta, a
intervenção e o fortalecimento de vínculos. Esperamos que este conteúdo possa ser um espaço de
aprendizado, reflexão e aprofundamento sobre esse importante instrumento de cuidado.
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1. Avaliação psicológica infantil no contexto psicoterápico
Desenvolvimento infantil e avaliação psicológica:
singularidades
Avaliar uma criança vai muito além de aplicar testes e preencher formulários. Envolve escutar com atenção,
observar com sensibilidade e compreender que ela está em construção — no corpo, nas emoções e nas
formas de se relacionar com o mundo. Em outras palavras, a avaliação psicológica infantil exige que o
profissional reconheça que está diante de um sujeito em pleno desenvolvimento.
Em toda avaliação psicológica, é
preciso compreender o ser
humano em sua totalidade e
inserção social. Na infância, essa
compreensão deve ser ainda
mais cuidadosa. Afinal, os
comportamentos, as emoções e
os pensamentos da criança estão
diretamente ligados ao seu
estágio de desenvolvimento e ao
ambiente em que vive.
 No aspecto cognitivo, Jean
Piaget (1964) nos mostra
que o pensamento infantil
passa por diferentes
estágios — desde o
sensório-motor ao
operacional formal. Uma
criança de cinco anos não
pensa da mesma forma que
uma de dez, e isso precisa
ser consideradona
avaliação.
 Na sequência,
entenda como
Piaget (1964)
compreendia as
fases do
desenvolvimento
infantil.
Estágio sensório-motor (0 a 2 anos)
Conhecimento por meio dos sentidos e movimentos. Surge a permanência do
objeto (saber que algo existe mesmo sem ver). Exemplo: o bebê procura um
brinquedo que foi escondido atrás de um pano.
Estágio pré-operatório (2 a 7 anos)
Pensamento simbólico, imaginação ativa, egocentrismo (dificuldade de ver o
ponto de vista do outro). Exemplo: a criança brinca com uma vassoura
fingindo que é um cavalo.
Estágio de operações concretas (7 a 11 anos)
Lógica concreta, noção de conservação (quantidade, massa, volume) e
reversibilidade. Exemplo: a criança entende que a quantidade de água é a
mesma ainda que seja colocada em copos de formatos diferentes.
Estágio de operações formais (a partir dos 12 anos)
Pensamento abstrato, hipotético e dedutivo. Exemplo: o indivíduo consegue
discutir ideias como justiça ou liberdade, mesmo sem as vivenciar
diretamente.
No contexto da avaliação psicológica, aplicar um instrumento que exige abstração para uma criança em
estágio pré-operatório é desconsiderar seu modo de compreender a realidade. A interpretação dos dados
precisa sempre considerar esse pano de fundo do desenvolvimento.
 
Na dimensão emocional, é relevante lembrar que a criança muitas vezes não tem repertório verbal suficiente
para nomear seus sentimentos. Assim, brincar é a principal forma de comunicar seu mundo interno, ou seja,
uma birra, um silêncio prolongado ou um jogo repetitivo podem conter mensagens emocionais importantes —
desde que saibamos escutá-las. A avaliação deve considerar que os sintomas emocionais se expressam
muitas vezes no corpo, na fala fragmentada ou na fantasia. É preciso delicadeza para decifrar esses sinais.
Reflexão
Você já parou para pensar em como uma criança expressa sua tristeza? Nem sempre ela chora. Às
vezes, ela se isola na escola, briga com os colegas ou adoece com frequência. Por isso, a avaliação
emocional não pode se limitar ao consultório. Ela deve dialogar com o cotidiano da criança: com seus
vínculos, suas perdas, conquistas e frustrações. Ainda que com a intervenção de adultos, as crianças
são as responsáveis pela construção da sua história. 
No campo social, o contexto familiar, escolar e comunitário precisa ser parte integrante da avaliação. Uma
criança que apresenta comportamento agressivo em casa, mas se mostra inibida na escola, está nos dizendo
algo importante sobre sua adaptação e relações afetivas. Entrevistas com pais e professores, visitas
domiciliares e questionários comportamentais são estratégias que ajudam a ampliar esse olhar. Habilidades
sociais infantis são aprendidas nas interações cotidianas e influenciam diretamente o comportamento e o
bem-estar.
A escuta da criança
precisa ser
ampliada. Não
basta ouvir o que
ela diz — é preciso
captar o que ela
não consegue dizer
com palavras. O
desenho, a
brincadeira, o
silêncio, o olhar...
Tudo comunica. E é
nesse espaço
simbólico que
profissionais de
psicologia devem
entrar, com respeito
e atenção.
 Outro ponto determinante
é a variabilidade
individual. Nenhuma
criança é igual à outra,
mesmo tendo a mesma
idade. O desenvolvimento
é influenciado por
inúmeros fatores —
genéticos, ambientais,
relacionais, culturais. É
por isso que modelos
rígidos ou padronizados
de avaliação raramente
dão conta da
complexidade do sujeito
infantil. Assim, a avaliação
precisa ser
contextualizada.
 Por isso, os
instrumentos de
avaliação devem ser
adaptados conforme a
idade, a linguagem e o
universo simbólico da
criança. Mas tão
importante quanto o
instrumento é a postura
do avaliador. Um
psicólogo que não
estabelece vínculo ou
não respeita o tempo da
criança arrisca colher
dados distorcidos. A
confiança é a chave para
acessar o mundo interno
infantil.
A avaliação infantil é um processo contínuo e dinâmico, não um evento pontual. A criança muda — e
muda rápido. Um mesmo comportamento pode ter significados diferentes ao longo do tempo.
Avaliar, nesse contexto, é acompanhar, escutar, refletir e, sobretudo, respeitar.
Mais do que identificar diagnósticos, a avaliação deve servir como ponte para a intervenção. Ela deve acolher
a criança em sua singularidade, respeitar sua trajetória e oferecer caminhos possíveis para seu
desenvolvimento saudável. E como profissionais da saúde mental, temos o compromisso ético de fazer dessa
escuta um espaço de cuidado, transformação e potência.
 
No vídeo a seguir apresentamos os aspectos que tornam esse processo cuidadoso e significativo. Confira!
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Objetivos da avaliação psicológica infantil
Quando responsáveis procuram
profissionais de psicologia para avaliar
uma criança, muitas vezes a expectativa
gira em torno de um diagnóstico. Mas
será que a avaliação psicológica infantil
se resume a dar um “nome” ao que está
acontecendo? Definitivamente, não. A
avaliação é um processo amplo e
cuidadoso, que vai muito além da
rotulagem. Seu papel principal é
compreender a criança em sua
totalidade, identificar suas necessidades
e orientar intervenções que promovam
seu bem-estar e desenvolvimento.
 A avaliação começa,
geralmente, com o rastreio de
sinais e sintomas que
despertam preocupação.
Pode ser uma mudança de
comportamento repentina,
dificuldades escolares,
agressividade, isolamento,
agitação ou sofrimento
emocional. Esses sinais, por
si só, não significam um
transtorno, mas funcionam
como um alerta que precisa
ser compreendido em
profundidade.
Avaliar uma criança não é buscar um diagnóstico apressado, mas interpretar o conjunto de
informações à luz de seu desenvolvimento e contexto.
O objetivo da avaliação é mapear as demandas apresentadas pela criança, pela família e por outros adultos
envolvidos, como docentes. Esse levantamento inicial serve para traçar hipóteses que serão investigadas ao
longo do processo. Por isso, a avaliação precisa ser multifocal, envolvendo diversas fontes: entrevistas,
observações, aplicação de instrumentos, análise de desenhos, jogos simbólicos e, sempre que possível,
escuta da própria criança.
 
Mas o que exatamente a avaliação pretende identificar? Pois bem, entre os principais objetivos da avaliação
psicológica infantil, podemos destacar o seguinte:
1
Identificar possíveis dificuldades ou transtornos do desenvolvimento
Podem ser transtornos de aprendizagem, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade
(TDAH), transtorno do espectro autista (TEA), ansiedade, depressão ou dificuldades de regulação
emocional.
2 Compreender os recursos e as potencialidades da criança
Podem ser sua capacidade de resiliência, empatia, criatividade, vínculos afetivos e estratégias de
enfrentamento.
3
Analisar o impacto das relações
Trata-se de como as relações familiares, escolares e sociais impactam o comportamento e o bem-
estar emocional da criança.
4
Oferecer subsídios para um plano de intervenção psicoterápica ou multidisciplinar
Elaborar um plano que respeite a singularidade da criança e suas necessidades específicas.
5
Orientar pais, responsáveis e escola
Fornecer informações quanto às melhores estratégias de manejo, cuidado e promoção da saúde
mental infantil.
A avaliação não é um fim em si. Seu valor está em gerar compreensão e orientar ações. Uma avaliação bem
conduzida deve resultar em um plano de intervenção personalizado, que considere tanto as dificuldades
quanto os recursos da criança. Os profissionais de psicologia devem ser capazes de traduzir as informações
técnicas em orientações práticas, acessíveis à família e à equipe escolar.
Nesse sentido, a avaliação
psicológica pode também ter um
caráter preventivo. Quando feita de
forma precoce, permite intervir antes
que uma dificuldade se agrave ou
gere prejuízos mais severos. Por
exemplo, detectar sinais iniciais de
dificuldades de leitura e escrita
permite que a criança receba
suporte antes de desenvolver
quadros de baixa autoestima,
desmotivação ou evasão escolar.
Assim, a avaliação funcionacomo
uma lente de aumento que revela o
que está latente e permite agir a
tempo.
 Outro ponto importante é
que a avaliação não precisa
(e muitas vezes não deve)
ser restrita ao momento da
queixa. Ela pode ser parte
do próprio processo
psicoterápico, funcionando
como uma ferramenta de
monitoramento contínuo.
Avaliar novamente ao longo
do acompanhamento
permite verificar avanços,
ajustar intervenções e
reforçar estratégias que
estão dando certo.
 A avaliação
também é
relevante
nos casos
em que há
conflito de
versões ou
de
percepções.
Exemplo
Quando pais e escola apresentam opiniões divergentes sobre o comportamento da criança. Nesse
contexto, profissionais de psicologia atuam como pessoas mediadoras, buscando compreender os
diferentes pontos de vista e integrá-los a partir de uma escuta técnica e acolhedora. 
A avaliação precisa ser ética e respeitosa. Isso significa não emitir pareceres conclusivos sem dados
suficientes, evitar interpretações precipitadas e sempre considerar o contexto sociocultural da criança.
 
Acompanhe, no vídeo a seguir, como o processo de avaliação da criança pode ser conduzido de forma ética,
preventiva e personalizada, promovendo compreensão e cuidado.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Durante a avaliação psicológica de um menino de 5 anos, o psicólogo aplica instrumentos de avaliação
padronizados para faixa etária superior e os resultados indicaram déficits cognitivos e sociais. Com base no
relato e nos pressupostos do desenvolvimento infantil, avalie as afirmativas a seguir.
 
I. As dificuldades de Pedro devem ser interpretadas como sinais claros de atraso cognitivo, exigindo
encaminhamento imediato para diagnóstico neuropsicológico.
 
II. A utilização de instrumentos não adaptados à faixa etária da criança pode comprometer a validade da
avaliação psicológica.
 
III. A observação do brincar e dos comportamentos em diferentes contextos pode oferecer dados mais
significativos do que testes padronizados isolados.
 
IV. Testes padronizados são mais eficientes do que a expressão por brincadeiras e jogos.
 
Está correto o que se afirma em:
A I, II e III.
B II e III.
C I e II.
D I, II e IV.
E I, II e III.
A alternativa B está correta.
A avaliação psicológica em crianças deve obedecer a diversos critérios, e um deles é considerar o estágio
de desenvolvimento do indivíduo avaliado. Testes padronizados para faixas etárias diferentes daquela do
avaliado não são adequados, pois comprometem a confiabilidade. Jogos e brincadeiras são ferramentas
potentes para a observação, pois a criança se expressa por meio deles.
Questão 2
Uma psicóloga está avaliando uma criança de 7 anos encaminhada pela escola. A mãe relatou que a menina
passou recentemente por um processo de separação dos pais e tem demonstrado medo de dormir sozinha.
No processo avaliativo foram utilizadas entrevistas com familiares e professores, observação do brincar,
aplicação de inventários emocionais adaptados à infância e escalas de comportamento. Ao final do processo,
as informações coletadas foram analisadas para um plano de intervenção psicoterápica. Com base no caso e
nos objetivos da avaliação psicológica infantil, assinale a alternativa correta.
AO uso de inventários emocionais e escalas de comportamento demonstra uma abordagem moderna e
suficiente, dispensando entrevistas com familiares, que podem interferir com visões subjetivas.
B Como a queixa era comportamental e partiu da escola, a ênfase da avaliação deveria ter sido centrada
no ambiente escolar, focando a observação direta em sala de aula.
C A utilização de múltiplas fontes de informação para compreender o contexto emocional e social da
criança é a conduta adequada.
D Aos 7 anos, a criança já possui capacidade cognitiva para relatar seus sentimentos com clareza, o que
torna desnecessário o uso de técnicas lúdicas no processo avaliativo.
E A elaboração de um plano de intervenção antes da emissão de um diagnóstico clínico definitivo
compromete a validade do processo avaliativo.
A alternativa C está correta.
Considerando que a psicóloga utilizou diferentes estratégias de avaliação, tais como entrevistas,
observações e instrumentos padronizados adequados à realidade de uma criança, foi possível elaborar um
plano terapêutico com base no contexto da criança, o que corresponde aos objetivos centrais da avaliação.
2. Instrumentos de avaliação psicológica na infância
Observação do comportamento
Quando pensamos em avaliação psicológica infantil, muitas vezes imaginamos testes e instrumentos formais.
No entanto, um dos recursos mais valiosos — e muitas vezes subestimado — é a observação do
comportamento da criança. Observar, nesse contexto, não significa apenas ver o que a criança faz, mas
captar significados, padrões, emoções e contextos que ajudam a compreender sua subjetividade.
A observação clínica é
aquela realizada no
ambiente do consultório,
durante as sessões de
avaliação. Esse espaço,
embora estruturado, permite
que profissionais de
psicologia acompanhem
como a criança reage ao
setting terapêutico, como
interage com essas ou
esses profissionais, como
lida com regras, limites,
frustrações, solicitações e
novas tarefas. As reações
podem dizer muito: uma
criança que evita o olhar,
que se mostra
excessivamente inquieta ou
que se recusa a brincar
pode estar expressando
desconforto emocional,
insegurança ou traços de
ansiedade.
 Observar vai
além do olhar
direto. A
observação é
ampliada
quando se dá,
por exemplo,
em situações
lúdicas,
especialmente
com crianças
pequenas. O
brincar
espontâneo
revela
aspectos que
dificilmente
apareceriam
em uma
entrevista
direta.
 Durante o
brincar
simbólico,
por
exemplo,
o
psicólogo
pode
observar:
 Temas
recorrentes
(abandono,
medo,
agressividade).
 
Personagens
que se
repetem
(vilões, heróis,
mães,
professores).
 
Modos de se
relacionar com
os brinquedos
e com o
próprio
terapeuta.
Essa é uma via
legítima e
riquíssima de
expressão
emocional e
cognitiva.
 Quando ocorre em
contextos
variados, como a
casa ou a escola, a
observação ganha
poder. Muitas
crianças
comportam-se de
forma muito
distinta
dependendo do
ambiente. Uma
criança que se
mostra desafiadora
em casa pode ser
retraída na escola
e vice-versa. Por
isso, a avaliação
em múltiplos
contextos é
relevante para a
compreensão da
complexidade do
comportamento
infantil.
A observação familiar, muitas vezes
feita por meio de entrevistas, filmagens
ou relatos espontâneos dos pais,
fornece informações sobre rotinas,
vínculos, estilos parentais, expectativas
e eventuais conflitos. O comportamento
infantil é moldado pelas interações
sociais e pelas contingências
reforçadoras ou punitivas do ambiente.
Entender esse ambiente é, portanto,
chave para interpretar adequadamente
o comportamento da criança.
 Na escola, a observação pode
ocorrer por meio de visitas de
profissionais de psicologia,
escuta de docentes, ou uso de
formulários padronizados. A
parceria com a equipe escolar
amplia o olhar e permite
verificar como a criança
responde a demandas
coletivas, convive com regras,
lida com frustrações e
estabelece vínculos com
pares. 
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Além disso, é
imprescindível
considerar
que a escola
é um espaço
de
convivência
e, ao mesmo
tempo, de
exigência de
desempenho,
o que pode
acionar
diferentes
aspectos
emocionais
da criança.
 Nesse processo,
escalas de
comportamento
são ferramentas
promissoras.
Envolvem
instrumentos
padronizados,
frequentemente
preenchidos por
pais e
professores, que
ajudam a
quantificar a
frequência e a
intensidade de
determinados
comportamentos.
 Exemplos
comuns
incluem:
 CBCL (Child
Behavior
Checklist)
 
TRF (Teacher
Report Form)
 
SDQ
(Strengths
and
Difficulties
Questionnaire)
 Essas escalas
ajudam a
identificar
padrões,
comparar
comportamentos
em diferentes
ambientes e
monitorar
mudanças ao
longo do tempo.
 No entanto, é
importante
lembrar que as
escalas não
substituem a
escuta clínica, ou
seja, um
comportamento
que aparece como
"problema"Já foi atendida por neurologista, psiquiatra ou outro profissional de saúde mental?
Usa ou já usou psicofármacos?
Muitas vezes, sintomas emocionais estão associados a condições orgânicas ou efeitos colaterais de
medicamentos, o que reforça a importância da análise integrada.
Estrutura e dinâmica familiar
Quem compõe o núcleo familiar?
Existe separação, guarda compartilhada ou conflitos entre os cuidadores?
Qual é a rotina da criança com cada cuidador?
Como são os momentos de lazer, os rituais familiares, os limites estabelecidos?
Compreender a dinâmica familiar é entender o contexto reforçador dos comportamentos infantis.
Muitas vezes, os sintomas da criança são expressões de tensões não nomeadas no ambiente familiar.
Estilo parental e estratégias educativas
Como os pais costumam lidar com birras, desobediência ou frustrações?
Há coerência entre os cuidadores nas regras?
Utilizam castigos físicos, gritos ou chantagem emocional?
Mais do que buscar culpados, essa parte da entrevista busca entender os modelos de regulação
emocional e resolução de conflitos presentes na casa, que influenciam o comportamento da criança.
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Escolaridade e socialização
Como é o desempenho escolar?
A criança tem amigos?
Já mudou de escola?
A escola reporta problemas de comportamento?
A escola representa um contexto de observação e comparação do comportamento infantil, sendo
importante colher percepções de professores sempre que possível (com autorização dos pais).
Eventos significativos
A criança passou por perdas, mudanças de casa ou de escola, nascimento de irmãos, doenças
na família?
Presenciou situações de violência ou negligência?
Eventos adversos podem funcionar como gatilhos ou agravantes de quadros emocionais e
comportamentais, inclusive sem que os adultos reconheçam seu impacto subjetivo.
Expectativas em relação à terapia
O que esperam que mude?
Estão dispostos a participar de sessões de orientação parental?
Já fizeram terapia antes?
Muitos cuidadores esperam que a criança "mude sozinha", sem refletirem sobre seu papel no
processo. Por isso, é fundamental trabalhar a corresponsabilização dos adultos desde o início.
A anamnese como organização clínica e instrumento
diagnóstico
Anamnese e diagnóstico na psicoterapia infantil
Neste vídeo, veja como a anamnese estrutura e aprofunda as informações da entrevista inicial, servindo como
instrumento diagnóstico fundamental para compreender a história da criança, formular hipóteses e planejar a
intervenção terapêutica.
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A entrevista inicial e a anamnese são o ponto de partida para o processo psicoterapêutico infantil. Vamos
entender cada um desses processos a seguir.
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Durante a entrevista e a anamnese, o psicólogo precisa adotar uma postura investigativa, mas não inquisitória.
As perguntas devem ser abertas, para que os pais narrem sua vivência com liberdade. O profissional deve
estar atento aos silêncios, às incoerências, ao discurso emocional que subjaz à narrativa. Por vezes, os pais
omitem informações por vergonha, culpa ou medo de julgamento. Deve-se também evitar uma abordagem
patologizante e entender os sintomas como formas adaptativas de expressão emocional.
Cabe ao terapeuta criar
um clima de segurança,
ética e acolhimento para
que o vínculo se
estabeleça e os relatos se
tornem mais verdadeiros
ao longo do tempo. 
 Também é papel do psicólogo
acolher os sentimentos dos pais,
como confusão, tristeza,
impotência e raiva, sem
minimizá-los, mas ajudando a
ressignificá-los em prol do
fortalecimento do papel
parental.
 A anamnese
precisa ser
interpretativa,
contextual e
dinâmica, e
deve conter:
Resumo da história evolutiva da criança.
 
Descrição das queixas principais e seus contextos de ocorrência.
 
Análise das contingências familiares e escolares.
 
Hipóteses diagnósticas preliminares (sem antecipação de rótulos).
 
Recursos disponíveis: fatores protetivos, redes de apoio, repertórios desenvolvidos.
A partir da anamnese, o terapeuta formula o plano terapêutico inicial, decide as intervenções prioritárias,
propõe a frequência das sessões e, se necessário, planeja encaminhamentos complementares.
 
Após a entrevista com os responsáveis, a partir do segundo ou terceiro encontro, inicia-se o contato direto
com a criança. Ao contrário da anamnese tradicional, aqui a coleta de dados é indireta e acontece por meio do
brincar, dos desenhos, das interações espontâneas e do diálogo informal. O terapeuta observa a forma como
a criança se relaciona, lida com limites, expressa emoções e responde a situações simbólicas. 
Entrevista 
Visa estabelecer o vínculo com os pais e
compreender a demanda geral.
Anamnese 
Organiza o relato dos pais em dados
clínicos sobre o desenvolvimento
infantil, auxiliando na formulação do
caso, identificação de riscos e
planejamento terapêutico.
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Muitas vezes,
conteúdos importantes
emergem em
metáforas,
personagens,
construções simbólicas
ou no uso do faz de
conta. O terapeuta
precisa estar disponível
emocionalmente e
treinado para
identificar nuances do
comportamento infantil
que escapam à
linguagem verbal, e, ao
mesmo tempo, saber
respeitar o tempo da
criança para se abrir e
confiar. Esse momento
requer do terapeuta
flexibilidade,
acolhimento e
sensibilidade lúdica.
A criança não vai à terapia
para “responder
perguntas”, mas para
expressar seu mundo por
meio de símbolos, jogos,
desenhos, conversas
espontâneas e, o mais
importante, pelo brincar.
Durante as primeiras
sessões com a criança, o
uso de técnicas lúdicas é
imprescindível. Os
brinquedos não
representam meros
passatempos, mas
instrumentos de
expressão e diagnóstico.
Bonecos, casinhas, blocos
de montar, massinha,
jogos de regras simples e
materiais de desenho e
pintura são recursos
básicos. 
 Podem ser
utilizados testes
projetivos lúdicos
ou técnicas como
a “casa-pessoa-
árvore”, a
construção da
linha do tempo da
vida da criança ou
o “desenho da
família”. O
importante é
construir sentido
com a criança e a
partir da sua
linguagem. Esses
instrumentos
devem ser
utilizados com
flexibilidade,
sempre
respeitando a
singularidade da
criança. 
 Durante
os
encontros,
o
terapeuta
observa:
Formas de vinculação (reserva, aproximação, agressividade).
 
Capacidade de nomear emoções.
 
Repertório simbólico e imaginativo.
 
Controle de impulsos e frustrações.
 
Capacidade de narrar sua própria história.
 
Estratégias espontâneas de enfrentamento e resolução de problemas.
Essas observações funcionam como complementos práticos da anamnese e costumam revelar elementos que
não foram relatados pelos pais, como episódios de bullying, medo de separação, conflitos internos, vivências
traumáticas ou sentimentos de inadequação.
 
Após a fase de entrevistas e encontros iniciais, o terapeuta realiza uma devolutiva clínica com os pais, em que
são compartilhadas hipóteses sobre o funcionamento emocional da criança. Observa-se o papel dos fatores
ambientais e familiares no surgimento ou manutenção da queixa e também propõe-se um plano terapêutico
inicial. Essa devolutiva deve ser clara, empática e não patologizante.
 
O objetivo é criar um pacto de corresponsabilidade com os pais, mostrando que o processo terapêutico
dependerá também do envolvimento deles, da criação de um ambiente mais favorável ao desenvolvimento da
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criança e, muitas vezes, de mudanças na forma de se relacionar com ela. Esse momento tem caráter
explicativo, acolhedor e orientador. 
 
É fundamental evitar rótulos diagnósticos definitivos sem o devido embasamento. Em vez disso, devem ser
apresentados os seguintes pontos:
Hipóteses de funcionamento psicológico da criança.
Influências contextuais e relacionais nos comportamentos observados.
Plano terapêutico proposto, com metas e frequência.
Papel ativo dos pais no processo, com possibilidade de sessões de
orientação parental.em
uma escala pode
ter função
adaptativa
dependendo da
realidade vivida
pela criança. Uma
criança que
apresenta
agressividade, por
exemplo, pode
estar reagindo a
uma situação de
violência
doméstica ou
bullying escolar.
 Portanto, a
integração entre
observação
direta, dados
contextuais e
instrumentos
padronizados é o
caminho mais
ético e eficaz na
avaliação infantil.
Profissionais de
psicologia
precisam olhar
para a criança
como um ser
situado — ela não
é só seu
comportamento,
mas ainda o meio
em que vive, os
vínculos que
estabelece e as
experiências que
carrega.
Reflexão
John Locke (1999) acreditava que o ser humano nasce como uma “tábula rasa” e que o conhecimento
adquirido viria da experiência e da interação com o mundo, isto é: o elemento externo. Você ainda tem
dúvidas sobre a importância de se considerar uma análise ampla e sociocultural? 
Observar é um ato clínico profundo. Exige escuta atenta, ausência de julgamento, abertura ao inesperado e,
sobretudo, sensibilidade. É pela observação que profissionais começam a construir hipóteses, formular
perguntas, identificar caminhos possíveis para a intervenção. Cada gesto, cada silêncio, cada brincadeira
apresenta pistas sobre o mundo interno da criança. Saber observar é, portanto, uma das habilidades centrais
na atuação de profissionais de psicologia infantil.
 
No vídeo a seguir exploramos como observar a criança em diferentes contextos — consultório, casa e escola
— contribui para uma avaliação psicológica mais sensível, ética e completa. Acompanhe!
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Testes e técnicas de avaliação: interpretando os resultados
Quando falamos em avaliação
psicológica infantil, muitos
profissionais pensam logo em
testes. De fato, os instrumentos
psicológicos são ferramentas
valiosas nesse processo — mas sua
utilização exige mais do que
conhecimento técnico: requer
criticidade, responsabilidade e
sensibilidade clínica.
 Um teste nunca fala por si
só. Ele precisa ser
interpretado em um
contexto maior, que inclui
o desenvolvimento
infantil, a história da
criança, seus vínculos
afetivos e escolares, sua
cultura e suas formas de
expressão.
 Acompanhe,
a seguir,
alguns dos
instrumentos
mais
utilizados
com
crianças.
Testes projetivos
Permitem acessar conteúdos simbólicos e emocionais. Devem ser interpretados por profissionais experientes
e nunca utilizados de forma isolada. Entre eles, podemos citar: 
1
Desenho da figura humana
Avalia aspectos do desenvolvimento cognitivo e emocional por meio do desenho de uma pessoa.
2
Desenho da família
Explora vínculos afetivos e percepções familiares a partir da imagem desenhada.
3
CAT-A (Children's Apperception Test – Animal)
Usa figuras de animais em situações sociais para acessar conteúdos afetivos e conflitos internos.
4
Zulliger
Avalia a personalidade por meio de pranchas com manchas de tinta. Essa técnica projetiva tem
aplicação individual ou coletiva.
Escalas de desenvolvimento
Ajudam a identificar marcos cognitivos e motores. Entre essas escalas, estão:
1
Bender
Avalia a maturidade perceptomotora e possíveis indicadores de dificuldades neurológicas.
2
Raven
Avalia o raciocínio abstrato e a inteligência fluida. É um teste não verbal.
3 Bayley
Mede o desenvolvimento cognitivo, motor e socioemocional em crianças pequenas.
Inventários de sintomas
Aplicados a pais e docentes, facilitam o rastreamento de sintomas emocionais e comportamentais. São
exemplos:
1
CBCL (Child Behavior Checklist)
Avalia comportamentos e competências emocionais relatadas por pais.
2
BASC-3 (Behavior Assessment System for Children)
Examina aspectos comportamentais, emocionais e adaptativos, com versões para pais e
professores.
3
SDQ (Strengths and Difficulties Questionnaire)
Rastreia dificuldades emocionais e comportamentais em crianças e adolescentes.
Nos últimos anos, surgiram também ferramentas computadorizadas e digitalmente assistidas. Softwares como
o TOVA (Test of Variables of Attention), o Neupsilin-Inf e plataformas com tarefas de controle inibitório e
tempo de resposta vêm sendo incorporados à prática para apoiar a investigação de transtornos como o TDAH,
com foco em atenção sustentada, impulsividade e variabilidade de resposta.
 
As vantagens dessas ferramentas são padronização, precisão temporal e relatórios automáticos — mas
exigem de profissionais de psicologia uma interpretação cautelosa.
Atenção
Nenhum teste digital substitui o raciocínio clínico, a escuta da criança e a análise do contexto. Dados
objetivos devem ser integrados à história do sujeito, não usados como verdades absolutas. 
O uso ético dos instrumentos de avaliação envolve duas grandes responsabilidades:
Adequação ao público infantil
Muitos testes foram criados para adultos e
devem ser adaptados e validados para a faixa
etária e a cultura da criança. Aplicar
instrumentos sem validade brasileira ou sem
atualização normativa é uma infração ética.
Contextualização dos resultados
Uma pontuação baixa pode refletir ansiedade
de desempenho, vivência de trauma ou baixa
estimulação ambiental. Profissionais psicólogos
devem evitar interpretações rígidas ou
descontextualizadas.
A atualização constante é indispensável. A testagem infantil está em evolução — surgem novos paradigmas,
avanços tecnológicos, mudanças éticas e desafios culturais. O compromisso da psicologia com a qualidade da
sua atuação exige abertura ao novo, sem perder o vínculo com a escuta clínica e o cuidado ético.
 
Entenda, no vídeo a seguir, a importância da interpretação contextualizada, da ética na escolha dos
instrumentos e do cuidado ao comunicar os resultados às famílias.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Durante a avaliação psicológica de Lucas, 6 anos, a psicóloga notou que ele evitava o contato visual,
demonstrava impaciência diante de regras e apresentava falas repetitivas durante o brincar simbólico. A mãe
relatou que ele é muito agitado em casa e costuma não seguir comandos. Na escola, segundo a professora,
Lucas é reservado, interage pouco com os colegas e apresenta bom desempenho acadêmico. A psicóloga
optou por utilizar a observação lúdica em sessão, escalas de comportamento preenchidas pela família e pela
escola, além de entrevistas com ambos os contextos.
 
Considerando os princípios da observação do comportamento infantil, avalie as afirmativas a seguir.
 
I. A utilização de múltiplos contextos de observação permite captar a complexidade do comportamento da
criança e evita interpretações equivocadas.
 
II. O comportamento observado no brincar simbólico deve ser descartado, pois não possui validade clínica
diante da subjetividade envolvida.
 
III. A diferença de comportamento entre casa e escola pode ser indicativa de fatores contextuais distintos e
deve ser investigada com profundidade.
 
IV. Escalas de comportamento são suficientes para conclusões diagnósticas, pois eliminam o viés subjetivo do
profissional de psicologia.
 
V. A observação lúdica é uma ferramenta legítima para acessar conteúdos emocionais e cognitivos da criança.
 
Está correto o que se afirma em:
A I, III e V.
B II, III e IV.
C I, II e V.
D III, IV e V.
E I, IV e V.
A alternativa A está correta.
Observar a criança em diferentes ambientes permite captar nuances importantes do comportamento e
evita interpretações restritas. Além disso, comportamentos distintos em casa e na escola apontam para a
influência do contexto, o que deve ser analisado com atenção. Por fim, a observação lúdica é reconhecida
como uma estratégia eficaz para acessar aspectos subjetivos na infância.
Questão 2
Um menino de 9 anos, com pais recentemente separados, foi encaminhado pela escola por dificuldades de
aprendizagem e isolamento social. Ele foi avaliado por testes projetivos, uma escala de desenvolvimento e
inventários de sintomas preenchidos pelos pais e pela professora. Ao analisar os dados, foram indicados
ansiedade, baixo repertóriode habilidades sociais e dificuldades cognitivas. Porém, ao redigir o laudo, o
psicólogo optou por enfatizar apenas os resultados dos testes padronizados e emitiu um parecer diagnóstico.
 
Com base nas boas práticas da avaliação psicológica infantil, assinale a alternativa correta.
A
A conduta foi adequada, pois focou a objetividade e os resultados técnicos obtidos por meio de
instrumentos validados.
B A conduta foi inadequada, pois testes projetivos não são recomendados para crianças menores de 12
anos.
C A conduta foi inadequada, pois o parecer diagnóstico baseado apenas nos testes padronizados é
insuficiente.
D A conduta foi inadequada, pois como o encaminhamento partiu da escola, investigar o contexto familiar
é fator de confusão.
E A conduta foi adequada, pois somente os instrumentos objetivos garantem a validade da avaliação.
A alternativa C está correta.
A avaliação ética e responsável deve integrar dados objetivos e subjetivos, considerando o contexto da
criança. Assim, munir-se de informações diversificadas é determinante para uma avaliação bem-sucedida.
3. Diagnóstico diferencial de transtornos na infância
Identificação dos principais quadros psicopatológicos
Avaliar crianças no contexto clínico é, em muitos aspectos, como montar um quebra-cabeça. Há múltiplas
peças — comportamentos, emoções, vínculos, contextos — e nem sempre elas se encaixam com facilidade.
Quando o objetivo é identificar e diferenciar quadros psicopatológicos, o desafio se intensifica, pois muitos
transtornos infantis compartilham sintomas semelhantes e se manifestam de formas variadas, conforme o
ambiente, a idade e a história da criança.
 
Com base no DSM-5-TR (APA, 2023) e em literatura atualizada, conheça os principais quadros clínicos na
infância, ressaltando a importância de uma escuta sensível e de um olhar integrado ao contexto sociocultural
da criança.
Transtornos do neurodesenvolvimento
Os dois principais transtornos do neurodesenvolvimento na infância são o transtorno de déficit de atenção e
hiperatividade (TDAH) e o transtorno do espectro autista (TEA). Vamos conhecê-los com mais detalhes.
TDAH
Segundo o DSM-5-TR (APA, 2023), o TDAH caracteriza-se por padrões
persistentes de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade, com
início antes dos 12 anos, presentes em dois ou mais contextos (escola,
casa etc.) e que prejudicam o funcionamento adaptativo. Hoje, há maior
reconhecimento de diferentes perfis do transtorno, como o tipo
predominantemente desatento, frequentemente negligenciado em
meninas. Também se alerta para a necessidade de diferenciar sintomas
de agitação próprios do desenvolvimento infantil de quadros clínicos,
evitando diagnósticos excessivos. A avaliação exige integração entre
relatos escolares e familiares, observação clínica e uso de escalas
validadas.
TEA
Inclui déficits persistentes na comunicação e na interação social, além
de padrões restritos e repetitivos de comportamento, variando em
intensidade e impacto funcional. O DSM-5-TR (APA, 2023) enfatiza a
avaliação dimensional do transtorno e a heterogeneidade das
manifestações — desde indivíduos não verbais até crianças com
linguagem fluente, mas dificuldades sutis de reciprocidade social. A
identificação precoce e o uso de protocolos interdisciplinares (como
ADOS-2, M-CHAT e CARS) são fundamentais para um diagnóstico
preciso.
Transtornos de ansiedade na infância
A ansiedade é uma resposta emocional esperada, mas quando intensa, persistente e desadaptativa, pode
configurar um transtorno. As manifestações mais comuns incluem:
Ansiedade de separação
Medo desproporcional de afastar-se de figuras
de apego, acompanhado de sintomas físicos.
Ansiedade generalizada
Preocupações excessivas com múltiplos
domínios da vida cotidiana, acompanhadas de
sintomas somáticos e irritabilidade.
Fobia social
Evitação de interações por medo de avaliação
negativa.
O DSM-5-TR (APA, 2023) reforça que o sofrimento subjetivo e a interferência no funcionamento são critérios
essenciais, e que crianças podem expressar ansiedade por meio de sintomas físicos, como dores, cansaço e
distúrbios do sono. O uso de entrevistas semiestruturadas (como K-SADS) auxilia na diferenciação clínica.
Transtornos depressivos na infância
A depressão infantil manifesta-se de maneira
diferente da adulta. Em vez de tristeza
declarada, observa-se irritabilidade crônica,
retraimento, desinteresse pelo brincar,
fadiga, alterações no sono e apetite e, em
casos mais graves, pensamentos de
inutilidade ou morte.
 Segundo o DSM-5-TR, é
imprescindível diferenciar
o transtorno depressivo
maior de reações
esperadas a eventos de
vida (como luto ou
mudança escolar).
Transtornos disruptivos e do controle de impulsos
O transtorno desafiador opositivo (TDO) e o transtorno de conduta (TC)
são marcados por comportamentos persistentes de desobediência,
hostilidade e violação de normas sociais. O DSM-5-TR (APA, 2023)
destaca que esses comportamentos devem ser frequentes, intensos e
duradouros para configurarem um transtorno. Deve-se diferenciar
esses quadros de reações situacionais, respostas a ambientes
negligentes ou violentos e expressões emocionais de sofrimento.
Importância do diagnóstico diferencial
Diferenciar transtornos é mais do que rotular: é compreender a função dos sintomas, o momento em que
surgem e o modo como se articulam à subjetividade da criança. Dois sintomas semelhantes — como agitação
ou isolamento — podem apontar para quadros muito diferentes, como TDAH, ansiedade, depressão ou
experiências traumáticas.
 
O diagnóstico não é ponto final, mas uma ferramenta para orientar o cuidado. Quando feito com escuta,
criticidade e envolvimento ético, ele permite não apenas nomear um sofrimento, mas abrir caminhos de
transformação.
 
No vídeo a seguir, apresentamos os principais transtornos mentais na infância segundo o DSM-5-TR,
destacando a importância do diagnóstico diferencial e do olhar sensível ao contexto, evitando rótulos e
favorecendo intervenções adequadas. Confira!
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Análise de comorbidades
Na clínica infantil, é comum que profissionais de psicologia encontrem crianças que apresentam mais de uma
queixa ou sintoma. Por exemplo, uma criança pode ser diagnosticada com TDAH e, ao mesmo tempo,
apresentar sintomas ansiosos, dificuldades de aprendizagem ou alterações na linguagem. Esse fenômeno,
chamado de comorbidade, refere-se à presença de dois ou mais transtornos mentais que ocorrem
simultaneamente em um mesmo indivíduo. Mas, ao contrário do que muitos imaginam, comorbidades não são
exceção — são regra na infância.
Segundo o DSM-5-TR (APA, 2023),
há uma alta taxa de coocorrência
entre os transtornos do
neurodesenvolvimento e os
transtornos internalizantes, como
ansiedade e depressão,
especialmente quando há fatores
de risco como adversidades
familiares ou contextos escolares
desafiadores. Estudos recentes
confirmam que, em crianças com
TDAH, mais de 50% delas
apresentam ao menos uma
comorbidade significativa (Antshel 
et al., 2016).
 A sobreposição não indica erro
diagnóstico, mas a
complexidade do
funcionamento infantil, moldado
por fatores genéticos,
neurobiológicos, emocionais e
contextuais. O desenvolvimento
da criança é dinâmico e
multifatorial. O cérebro ainda
está em formação, e os
sintomas comportamentais,
cognitivos e emocionais podem
se entrelaçar, assumindo
diferentes significados em
contextos distintos.
 Acompanhe
os
exemplos a
seguir.
Criança com TDAH
Pode desenvolver baixa autoestima devido às
dificuldades escolares e, ao ser alvo de críticas
ou bullying, evoluir para um quadro ansioso ou
depressivo.
Criança com ansiedade social
Pode se isolar dos colegas e, com o tempo,
apresentar apatia, desmotivação e tristeza,
compondo um quadro depressivo reativo.
Crianças com autismo leve
Podem surgir também sintomas ansiosos,
dificuldades adaptativas, traços obsessivos ou
indicadores de TDAH, o que exige um olhar
clínico atento e diferenciado.
A fronteira entre osquadros nem sempre é clara. Um mesmo sintoma — como inquietação — pode indicar
TDAH, ansiedade, trauma ou ser uma resposta adaptativa a um ambiente caótico. Por isso, profissionais de
psicologia não podem se prender à lista de critérios. O diagnóstico precisa ser construído com base em
hipóteses clínicas integradas, respeitando a singularidade de cada criança.
Diagnóstico: raciocínio clínico integrador
O papel de
profissionais
de
psicologia é
ir além dos
rótulos e
perguntar:
 O que esse
comportamento
está
comunicando?
 
Em quais
contextos ele
aparece?
 
Qual é o
impacto
funcional para a
criança?
 Diagnósticos não devem ser encarados como fim,
mas como instrumentos de escuta e orientação. O
diagnóstico deve ser uma construção clínica que
articule sintomas, contexto e história, e não apenas
um cruzamento de critérios técnicos. Essa postura é
ainda mais necessária quando os sintomas são
difusos, mascarados ou múltiplos — como costuma
acontecer na infância.
Ética, sensibilidade e responsabilidade
Lidar com comorbidades também envolve dilemas éticos. Nomear múltiplos transtornos pode gerar
estigmatização, rótulos duradouros e até medicalização excessiva. Profissionais de psicologia precisam agir
com cautela, explicando os achados de forma acessível e empática, sempre com foco no bem-estar da
criança.
Atenção
O DSM-5-TR e o CID-11 são guias importantes, mas devem ser usados como ferramentas, não como
lentes únicas. A escuta clínica, o vínculo com a criança e o contato com os adultos responsáveis são
insubstituíveis no processo. 
Força do trabalho interdisciplinar
Diante da complexidade diagnóstica, o
trabalho inter e transdisciplinar é
inegociável. Profissionais de psicologia,
psiquiatria, fonoaudiologia,
psicopedagogia, neurologia e docência
devem somar olhares para entender melhor
a criança. Esse processo colaborativo evita
a fragmentação e possibilita planos de
cuidado mais coerentes, potentes e
respeitosos.
 Incluir a família nesse
processo também é
indispensável. Explicar os
resultados de forma
cuidadosa, evitar termos
assustadores e reforçar a
possibilidade de
transformação ajuda a
construir uma relação de
confiança e adesão.
No vídeo, a seguir, abordamos a comorbidade na infância, destacando a importância de um diagnóstico clínico
integrador, ético e contextualizado. Vamos refletir sobre o uso responsável das classificações e o valor do
trabalho interdisciplinar no cuidado à criança. Não perca!
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Colaboração inter/transdisciplinar e diagnóstico diferencial
Avaliação multifatorial
Na prática clínica com crianças, uma das maiores
armadilhas é reduzir um comportamento a uma
única causa. A infância é um período de grande
plasticidade e vulnerabilidade, e os sintomas que
surgem quase nunca têm uma origem simples. É
por isso que o diagnóstico diferencial na infância
precisa ser construído a partir de uma avaliação
multifatorial e de um olhar colaborativo entre
diferentes áreas do conhecimento.
 A avaliação
multifatorial é
importante porque
considera que o
comportamento e o
sofrimento da
criança resultam da
interação de
diversos fatores.
Vejamos alguns
deles!
Biológicos
Genética, funcionamento neurológico e desenvolvimento motor e sensorial.
Psicológicos
Estrutura emocional, habilidades de autorregulação, vínculos afetivos e histórico de perdas ou
traumas.
Familiares
Dinâmica familiar, estilo parental, presença de conflitos ou negligência, separações e estrutura dos
cuidados.
Escolares
Exigências acadêmicas, relações com colegas, estilo de ensino, bullying e adaptação ao ambiente
escolar.
Socioculturais
Condições socioeconômicas, acesso a serviços de saúde e contextos de violência ou exclusão.
As dimensões não atuam isoladamente. Elas se inter-relacionam e criam um cenário único para cada criança.
O desenvolvimento humano é sempre o resultado da interação entre indivíduo e contexto. Assim, uma criança
com dificuldades de atenção pode ter uma condição neurobiológica (como TDAH) e ainda estar vivendo um
momento de estresse familiar ou sendo exposta a estímulos inadequados em sala de aula.
Perigo da análise linear
Reduzir a avaliação infantil a uma visão linear — um sintoma = um transtorno — pode levar a erros graves. Por
exemplo, uma criança com comportamentos agressivos pode estar expressando:
Transtorno
de
conduta.
 
Quadro
depressivo
mascarado.
 
Resposta à
violência
doméstica.
 
Dificuldade
na
linguagem
que gera
frustração.
 
Reação a
uma
sobrecarga
emocional
diante de
mudanças
escolares.
 Um olhar amplo, cuidadoso e contextualizado
permite diferenciar essas possibilidades e oferecer
um plano de cuidado adequado. Nesse contexto, é
necessária uma atuação com abordagem de
diversas disciplinas.
Colaboração inter/transdisciplinar
Nenhum profissional, por mais competente que seja, consegue dar conta sozinho das múltiplas dimensões do
desenvolvimento infantil. A colaboração entre diferentes áreas permite que se formem hipóteses mais ricas,
precisas e humanas. Vamos entender melhor!
Profissionais de psicologia
Oferecem a escuta subjetiva, a leitura emocional e o olhar relacional.
Profissionais de psiquiatra infantil
Contribuem com o raciocínio clínico voltado para o diagnóstico e o manejo medicamentoso quando
necessário.
Profissionais de fonoaudiologia
Podem identificar atrasos ou distúrbios de linguagem que impactam o comportamento.
Profissionais de psicopedagogia
Analisam o funcionamento escolar e os obstáculos à aprendizagem.
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Profissionais de neurologia
Investigam questões de maturação cerebral, epilepsias e alterações neurológicas sutis.
Profissionais de assistência social
Identificam vulnerabilidades sociais, riscos e possibilidades de suporte comunitário.
A atuação conjunta dos profissionais não é a soma de saberes isolados. Na transdisciplinaridade, há diálogo,
escuta mútua, construção de sentidos por todos. Cada profissional olha para a criança a partir de sua lente,
mas articula seu saber com os demais para coconstruir um plano de cuidado integral.
 
O profissional de psicologia é fundamental na mediação entre os diferentes saberes e, muitas vezes, é
responsável por coordenar esse diálogo. Cabe a ele integrar as informações, formular hipóteses a partir de
dados diversos e devolver à família uma compreensão acessível e respeitosa do que está sendo observado.
Isso exige, além de conhecimento técnico, escuta empática e clareza ética.
Atenção
Não se pode transformar o diagnóstico em estigma, nem o trabalho interdisciplinar em fragmentação. O
foco deve ser sempre a criança — sua história, suas dores e possibilidades de desenvolvimento. 
Compreenda, no vídeo a seguir, a importância da avaliação multifatorial e do trabalho interdisciplinar na clínica
infantil para serem evitadas visões reducionistas e reforçar o papel integrador e ético do profissional de
psicologia no cuidado à criança.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Uma menina de 10 anos foi encaminhada ao serviço de psicologia por apresentar comportamentos
desafiadores em sala de aula, além de queda no desempenho escolar e episódios de choro frequente em
casa. A professora relata impulsividade, dificuldade em seguir instruções e agressividade com os colegas. Em
casa, os pais relatam que a menina tem dormido mal, está mais retraída e evita atividades que antes lhe
davam prazer. Durante a avaliação, a psicóloga identificou sintomas compatíveis com transtorno do déficit de
atenção com hiperatividade (TDAH), além de sinais de ansiedade e humor deprimido.
 
Diante desse quadro e considerando os princípios da avaliação clínica infantil, assinale a alternativa correta.
A
A presença de sintomas múltiplos indica a impossibilidade de estabelecer qualquer hipótese diagnóstica,
por isso a psicóloga deve suspender a avaliação e aguardar a estabilização emocional da paciente.
B A prática clínica exige o fechamento diagnósticocom base em um único quadro predominante, portanto
a psicóloga deve elaborar um parecer que defina o diagnóstico maior.
CA psicóloga deve concentrar sua avaliação clínica e o diagnóstico que estabelecerá apenas nos
comportamentos escolares, pois o que ocorre em casa contamina informações de outros meios.
D A psicóloga deve considerar a possibilidade de comorbidades e orientar encaminhamento para equipe
multiprofissional para uma compreensão mais ampla.
EA psicóloga deve aplicar mais testes antes de qualquer hipótese clínica para apoiar-se em uma prática
baseada em evidências, evitando interpretação subjetiva baseada na escuta de pais e professores.
A alternativa D está correta.
O caso é complexo, uma vez que apresenta sintomas que remetem a transtornos de características
diferentes. Nesse caso, a psicóloga deve agir com base em princípios éticos e técnicos, reconhecendo a
possibilidade de múltiplos transtornos e a importância do trabalho em equipe.
Questão 2
Uma criança de 7 anos foi encaminhada à psicóloga por apresentar dificuldades na aprendizagem e
comportamento opositor na escola. Durante a entrevista com os pais, a psicóloga identificou histórico de
mudanças constantes de residência, conflitos familiares frequentes e ausência paterna. A escola relatou
problemas de concentração e desrespeito às regras. Após aplicação de testes, observação clínica e
entrevistas, a psicóloga levantou a hipótese de um quadro misto com dificuldades emocionais e pedagógicas.
 
Considerando a importância da avaliação multifatorial e da colaboração inter/transdisciplinar, assinale a
alternativa correta.
A A psicóloga deve esgotar todas as hipóteses clínicas de forma individual antes de recorrer a outros
profissionais.
B A atuação em equipe deve ser evitada para não gerar interpretações contraditórias que possam
confundir a família.
C Dificuldades de aprendizagem geralmente não têm causas emocionais relevantes, portanto a psicóloga
deve indicar reforço escolar.
D Diante dos múltiplos fatores no sofrimento infantil, a psicóloga deve buscar construir um plano de
cuidado ampliado com diferentes profissionais.
E A psicóloga deve basear-se em instrumentos quantitativos e relatórios objetivos para garantir validade
diagnóstica, repetindo esses processos para chegar ao diagnóstico.
A alternativa D está correta.
A psicóloga deve integrar aspectos contextuais, emocionais e educacionais e encaminhar a criança para
uma rede de apoio especializada, incluindo avaliação fonoaudiológica e acompanhamento
psicopedagógico, o que reflete um modelo ético e ampliado de cuidado.
4. Avaliação psicológica infantil no contexto psicoterápico
Formulação de hipóteses diagnósticas
A avaliação psicológica infantil não é uma linha reta que começa com uma queixa e termina com um
diagnóstico fechado. Ela é um processo investigativo, progressivo e relacional, em que o profissional de
psicologia atua como intérprete cuidadoso de sinais e sentidos, construindo hipóteses clínicas com base em
dados, observações e escuta atenta.
 
Vamos explorar como ocorre a formulação de hipóteses diagnósticas na prática com crianças, destacando a
importância da integração de múltiplas fontes de informação e da consideração dos fatores socioculturais.
Construção de hipóteses como um processo clínico
Ao contrário do que muitos imaginam,
formular hipóteses clínicas não é apontar
certezas imediatas, mas levantar
possibilidades fundamentadas, que guiem
a investigação e a intervenção. Cada
dado obtido ao longo da avaliação — seja
uma fala, um comportamento, uma
resposta a um teste ou uma informação
da família ou da escola — funciona como
uma peça do quebra-cabeça. Sozinha,
pode parecer vaga, mas, integrada às
demais, revela um quadro mais coerente
e complexo.
 A avaliação psicológica deve
ser concebida como um
processo de construção de
significados, que articula
teoria, escuta clínica e
contexto. Isso significa que
profissionais de psicologia
precisam sustentar suas
hipóteses em evidências
observáveis, mas devem
abrir-se à subjetividade da
criança e ao que ela
comunica de maneira não
verbal.
Integração de múltiplas fontes de informação
A elaboração de hipóteses diagnósticas em crianças exige o cruzamento de dados vindos de diferentes
fontes. Veja algumas delas!
Entrevistas com responsáveis
Fornecem dados sobre o desenvolvimento da criança, eventos significativos, estilo parental e
ambiente familiar.
Relatos escolares
Ajudam a entender como a criança responde às exigências cognitivas e sociais em grupo.
Observação clínica e lúdica
Permite captar aspectos emocionais, padrões de comportamento e formas de expressão simbólica.
Testes e escalas psicológicas
Trazem parâmetros comparativos e quantitativos, que devem ser sempre contextualizados.
Histórico médico e outras avaliações profissionais
Ampliam o olhar sobre aspectos neurobiológicos e pedagógicos.
O conjunto de informações sobre a criança não deve ser visto de modo fragmentado, mas sintetizado por
meio do raciocínio clínico. A consistência entre os dados e a coerência das hipóteses são sinais de cuidado e
ética.
Considerando o contexto sociocultural
Um ponto muitas vezes negligenciado na formulação diagnóstica é o contexto sociocultural da criança.
Crianças não existem fora do mundo: elas são atravessadas por sua cultura, sua classe social, seu gênero, sua
etnia e os discursos que circulam ao seu redor.
Uma criança que apresenta dificuldade de fala,
por exemplo, pode não ter um transtorno de
linguagem, mas viver em um ambiente com
pouca estimulação verbal. Um comportamento
interpretado como desrespeito pode, na
verdade, ser um modo de defesa diante de
experiências de exclusão ou preconceito. Não
existe sujeito psicológico fora das condições
concretas de sua existência. Assim, um
diagnóstico que não considera a realidade
sociocultural da criança corre o risco de
patologizar formas de ser e viver que
simplesmente diferem do padrão dominante.
 Além disso,
profissionais de
psicologia precisam
estar atentos aos
próprios filtros
culturais e evitar
julgamentos baseados
em valores pessoais.
A escuta clínica deve
ser atravessada por
empatia, curiosidade
e compromisso ético
com o respeito à
diversidade.
Evitando precipitações e rótulos
É comum que, diante da pressão por um laudo ou encaminhamento, o profissional de psicologia sinta-se
tentado a fechar um diagnóstico rapidamente. No entanto, essa pressa pode gerar consequências graves,
como:
 
Estigmatização
 
Intervenções inadequadas
 
Medicalização desnecessária
 
Perda da confiança da família
 
O tempo clínico deve ser respeitado. Hipóteses podem — e devem — ser revisadas ao longo do processo, à
medida que novas informações surgem. A humildade clínica é parte essencial da postura ética na atuação de
psicologia.
 
Formular hipóteses diagnósticas na avaliação infantil é um processo cuidadoso, que exige escuta apurada,
fundamentação teórica, integração de dados e sensibilidade ao contexto. Mais do que encaixar a criança em
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uma categoria, trata-se de compreender sua trajetória, suas dores e seus recursos — e, a partir disso, propor
caminhos possíveis de cuidado e desenvolvimento.
 
No vídeo a seguir, abordamos a formulação de hipóteses diagnósticas na avaliação psicológica infantil,
destacando o raciocínio clínico, a integração de múltiplas fontes e a importância do contexto sociocultural no
processo. Assista!
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Questões éticas na avaliação infantil
Trabalhar com avaliação psicológica infantil não é apenas uma tarefa técnica — é, antes de tudo, uma prática
ética. Isso porque a criança é um sujeito em desenvolvimento, dependente de indivíduos adultos para acessar
cuidados e está exposta a diferentes formas de poder. Nesse contexto, o profissional de psicologia precisa
exercer sua função com responsabilidade, sensibilidade e compromisso com a proteção dos direitos da
criança.
Consentimento livre e esclarecido
Toda avaliação psicológica exige consentimentolivre e esclarecido. No caso da infância, isso implica dois
níveis de atenção:
Consentimento dos responsáveis
Profissionais devem informar, de forma clara e
acessível, os objetivos da avaliação, os
procedimentos que serão utilizados, os limites e
as possibilidades da escuta, além dos direitos
da família e da criança. O documento de
consentimento deve ser formalizado e assinado
antes do início das atividades.
Assentimento da criança
A criança não pode assinar documentos legais,
mas deve ser informada, de maneira lúdica e
apropriada à sua idade, sobre o que acontecerá
durante a avaliação. Ela tem o direito de saber
que está sendo avaliada, que pode falar ou se
calar, que pode brincar, desenhar, expressar-se
— e que está sendo escutada com respeito.
Como destaca o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005), nenhuma avaliação pode ser realizada
sem o consentimento dos envolvidos, salvo em situações excepcionais previstas em lei (ex.: determinação
judicial ou situação de risco iminente).
Confidencialidade e seus limites
Um dos pilares da ética psicológica é a confidencialidade, mas, no caso da infância, ela exige equilíbrio e
discernimento. A criança tem direito à privacidade e à escuta protegida, mas profissionais de psicologia
também têm a responsabilidade de comunicar a responsáveis e profissionais da rede aquilo que for necessário
para garantir o cuidado e a proteção da criança.
 
O Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005) é claro: a quebra de sigilo só é permitida com
consentimento de responsáveis ou por “[…] justificativa técnica, legal ou ética”. Isso significa que o profissional
de psicologia deve avaliar, caso a caso, o que precisa ser compartilhado, com quem e de que forma.
 
Um bom critério norteador é o princípio do superior interesse da criança — conceito amplamente reconhecido
pela Constituição de 1988 e pela Convenção Internacional dos Direitos da Criança. Esse princípio estabelece
que qualquer decisão que envolva uma criança deve priorizar sua proteção, seu desenvolvimento e bem-estar
emocional, acima de interesses institucionais ou parentais.
Elaboração ética de laudos e relatórios
A produção de documentos psicológicos — como relatórios, pareceres ou laudos — exige rigor técnico,
linguagem clara e postura ética. No contexto infantil, alguns cuidados são ainda mais importantes, como:
 
Não reduzir a criança ao diagnóstico.
 
Explicitar os limites da avaliação e os critérios utilizados.
 
Evitar termos pejorativos, rotulagens ou juízos de valor.
 
Contextualizar os achados com base no desenvolvimento da criança.
 
Utilizar sempre linguagem acessível, respeitosa e fundamentada em dados.
 
Especificar o público-alvo do documento (pais, escola, justiça) e ajustar o conteúdo e a linguagem a
esse público.
 
É importantíssimo lembrar que laudos e relatórios impactam a vida da criança — influenciam decisões
escolares, judiciais, médicas e familiares. Por isso, devem ser construídos com base em evidências, mas ainda
com empatia e compromisso ético.
 
Como orienta a Resolução CFP nº 06, de 11 de setembro de 2019 (CFP, 2019), os documentos psicológicos
devem refletir a complexidade do sujeito, evitando conclusões reducionistas e respeitando os princípios da
dignidade humana.
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A ética na avaliação
psicológica infantil não está
apenas nos formulários
assinados ou na linguagem
técnica correta. Ela está,
sobretudo, na postura clínica
de profissionais de psicologia:
no cuidado com a escuta, no
respeito à singularidade da
criança, na proteção de seus
direitos e na transparência com
a família e com os demais
profissionais envolvidos.
 Exercer o ofício com ética, nesse
contexto, é saber usar o conhecimento
técnico para promover o bem-estar e a
integridade da criança, protegendo-a
de intervenções apressadas,
diagnósticos precipitados ou
exposições desnecessárias. É lembrar
que cada palavra escrita, cada hipótese
formulada e cada silêncio escutado têm
efeitos profundos — e cabe ao
profissional de psicologia zelar para que
esses efeitos sejam de cuidado e não
de violação.
Entenda, no vídeo a seguir, a ética na avaliação psicológica infantil, com destaque para a importância do
consentimento livre e esclarecido, a confidencialidade equilibrada e a elaboração cuidadosa de laudos.
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Comunicação dos resultados
Devolutiva
A avaliação psicológica infantil é um processo que se inicia com uma escuta atenta e se conclui com uma
devolutiva igualmente cuidadosa. A devolutiva não é apenas uma etapa final — é um momento clínico, ético e
profundamente humano, que pode marcar de modo significativo a trajetória da criança e de sua família.
O que é a devolutiva e por que ela é tão importante? 
É o momento em que profissionais de psicologia comunicam os resultados da avaliação. Mas ela vai muito
além da apresentação de um parecer técnico. Trata-se de traduzir os achados clínicos de modo acessível,
acolhedor e ético, devolvendo à família (e à criança) uma compreensão sobre o que está acontecendo e como
seguir adiante.
 
A devolutiva é uma intervenção em si, capaz de organizar sentimentos, reduzir angústias e abrir caminhos
para o cuidado; ou seja, mais do que informar, é preciso formar vínculos de confiança e corresponsabilidade.
 
A primeira responsabilidade é com a família — que, na maioria das vezes, chega ao consultório com dúvidas,
medos, sentimento de culpa ou expectativas irreais. Por isso, a devolutiva deve ser:
Clara
Usar linguagem acessível, evitando jargões técnicos.
Compreensiva
Apresentar os achados como hipóteses e não como verdades.
Cuidadosa
Evitar julgamentos, apontar recursos da criança e não apenas dificuldades.
Prática
Orientar quanto aos próximos passos possíveis, sejam terapêuticos, educacionais ou sociais.
A família precisa sair da devolutiva com mais entendimento, mais calma e, sobretudo, com a sensação de que
há caminhos possíveis de cuidado. É imprescindível que o profissional de psicologia respeite o tempo da
família, esteja disponível para responder a dúvidas e crie espaço para o diálogo.
E a devolutiva para a criança? Como é esse processo? 
A criança também tem direito à devolutiva, embora deva ser feita de forma lúdica, simbólica e ajustada à sua
faixa etária. Mesmo sem usar termos clínicos, é possível — e necessário — devolver algo à criança que foi
escutada, observada e expôs seus sentimentos.
Exemplo: “Você me mostrou que está muito preocupado com tudo o
que está acontecendo em casa, e isso tem deixado você
cansado e mais quieto na escola.”
 
“A gente percebeu que algumas tarefas estão muito difíceis
para você, e vamos pensar juntos em como facilitar isso.”
Como orienta o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005), o respeito à dignidade do sujeito
atendido deve ser garantido em todas as etapas — inclusive na devolutiva. Para a criança, ser incluída no
processo é sentir-se valorizada, respeitada e vista.
Encaminhamentos para psicoterapia e outros serviços
Muitas vezes, a avaliação revela a necessidade de continuidade do cuidado. Nesses casos, o profissional de
psicologia deve orientar sobre encaminhamentos terapêuticos e/ou interdisciplinares, como:
 
Psicoterapia infantil (individual ou familiar).
 
Acompanhamento psicopedagógico ou reforço escolar.
 
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Avaliação fonoaudiológica.
 
Atendimento psiquiátrico ou neurológico.
 
Apoio social, jurídico ou assistencial, quando necessário.
 
O encaminhamento deve ser justificado, contextualizado e com orientação clara sobre os objetivos do
cuidado. Sempre que possível, o profissional de psicologia deve auxiliar a família na articulação com esses
serviços, evitando que ela se sinta perdida ou desamparada.
 
A avaliação só cumpre seu propósito quando produz sentido e transforma a realidade da criança. Um relatório
entregue sem escuta, sem devolutiva e sem encaminhamento não é uma prática ética — é uma ação
fragmentada, que rompe com o compromissoclínico.
 
No vídeo, a seguir, destacamos a importância da devolutiva na avaliação psicológica infantil, ressaltando seu
papel ético, relacional e clínico ao comunicar resultados com clareza, acolhimento e orientação para a família e
a criança. Confira!
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Verificando o aprendizado
Questão 1
A psicóloga Carla iniciou uma avaliação psicológica infantil solicitada pela escola a respeito de uma criança de
9 anos. Durante a avaliação, foram realizadas entrevistas com os pais e testes padronizados, e observou-se
que a criança está passando por sofrimento emocional devido à separação dos pais e à mudança de cidade.
Ao redigir o relatório, Carla considerou incluir trechos detalhados das falas da criança sobre conflitos
familiares e sugestões sobre com quem ela se sente mais confortável em morar. Além disso, os pais pediram
uma cópia integral do laudo e querem que ele seja entregue também à escola. Carla está em dúvida sobre
como equilibrar a confidencialidade, o melhor interesse da criança e as exigências institucionais.
 
Com base nos princípios éticos da atuação psicológica com crianças, indique o procedimento mais adequado.
A Registrar fielmente tudo o que a criança relatou, inclusive as falas íntimas, pois a transparência total é
uma exigência legal na entrega de laudos aos pais.
B Omitir qualquer informação obtida durante a escuta da criança, pois a confidencialidade é absoluta,
mesmo diante dos responsáveis legais.
C Incluir informações relevantes ao contexto emocional da criança, mas com linguagem alinhada ao
superior interesse da criança, evitando exposição desnecessária.
D Direcionar o relatório psicológico apenas à escola, mesmo sem consentimento dos pais, caso a queixa
tenha partido do ambiente escolar.
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E
Explicitar no relatório as hipóteses e o diagnóstico de forma concisa e técnica, de modo a orientar
profissionais de outra área para o atendimento interdisciplinar.
A alternativa C está correta.
O Código de Ética (CFP, 2005) e a Resolução CFP nº 06/2019 orientam os profissionais de psicologia a
considerar o superior interesse da criança e utilizar linguagem cuidadosa, técnica e respeitosa na
elaboração de documentos. Eles devem evitar jargões técnicos para facilitar a compreensão.
Questão 2
Após queixas da escola sobre comportamentos agressivos, dificuldade de concentração e recusa em
participar de atividades coletivas, um menino de 6 anos foi levado à avaliação psicológica. Houve momentos
de retraimento, falas sobre medo de ficar sozinho e resistência em se separar da mãe. Os pais relataram que a
família passou recentemente por uma mudança de cidade e que a criança está tendo dificuldades de
adaptação. A psicóloga também aplicou testes padronizados, escalas de comportamento e realizou
entrevistas com os pais e a professora. Ao final, optou por não fechar um diagnóstico, mas formulou hipóteses
clínicas que articulam aspectos emocionais, ambientais e familiares, sugerindo o início de psicoterapia e
acompanhamento escolar.
 
Com base nos princípios da formulação de hipóteses diagnósticas na infância, assinale a alternativa correta.
A A psicóloga deveria fechar um diagnóstico formal, pois a presença de agressividade escolar indica um
transtorno disruptivo que exige classificação.
BO comportamento agressivo deve ser considerado um dado isolado e suficiente para indicar transtorno
do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), uma vez que também há queixa de desatenção.
C Profissionais de psicologia devem sempre evitar considerar aspectos emocionais subjetivos ao formular
hipóteses, priorizando evidências comportamentais observáveis.
D A escuta dos pais e da escola é válida para complementar os testes psicológicos, mas não para a
formulação diagnóstica.
E A decisão da psicóloga está alinhada com os princípios da avaliação psicológica, ao propor hipóteses
articuladas ao contexto sociocultural da criança.
A alternativa E está correta.
Os transtornos apresentam-se sob perspectiva multifatorial, seja nos sintomas, seja nas condições a que os
pacientes estejam submetidos. Assim, um raciocínio clínico cuidadoso, que integra múltiplas fontes e
considera o contexto de vida da criança, é essencial para uma avaliação ética e eficaz.
5. Conclusão
Considerações finais
Encerrar um processo de avaliação psicológica infantil é, na verdade, abrir novos caminhos. Ao longo deste
conteúdo, refletimos sobre a atuação do profissional de psicologia como alguém que escuta, observa,
interpreta e, acima de tudo, cuida. Avaliar uma criança é mergulhar em sua história, compreender suas dores e
potencialidades, e oferecer, por meio da escuta clínica, possibilidades de transformação.
 
Você estudou desde os fundamentos do desenvolvimento infantil até as ferramentas e estratégias específicas
da avaliação, compreendeu os desafios do diagnóstico diferencial e a importância da escuta interdisciplinar,
além de refletir sobre os aspectos éticos que sustentam uma prática respeitosa, humana e comprometida com
o superior interesse da criança.
 
Mais do que dominar técnicas, profissionais de psicologia que atuam com crianças precisam desenvolver
olhos que veem além do comportamento, ouvidos que escutam o que não é dito em palavras e presença que
acolhe sem julgar. A avaliação psicológica não é neutra: ela impacta a vida da criança, orienta famílias,
sustenta decisões e, muitas vezes, inaugura trajetórias de cuidado. Avaliar é, em essência, reconhecer a
singularidade de cada infância e transformar o saber psicológico em gesto de cuidado.
 
Na crônica A escutatória, da obra O amor que acende a lua (1999), o psicanalista e escritor Rubem Alves,
menciona que “[…] no silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós”, referindo-se à
importância de saber ouvir. Nessa obra, ele destaca que o silêncio é imprescindível para a compreensão, e a
escuta ativa abre espaço para o desconhecido. E, no fim das contas, acredita que “[…] nossa incapacidade de
ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade”.
 
E então, você já se preparou para se despir da vaidade e de quaisquer julgamentos preconcebidos para ouvir?
Lembre-se: há palavras belíssimas que não são ditas.
Explore +
Não pare por aqui. Confira as indicações que separamos para você!
 
Leia o artigo Incremental validity in the psychological assessment of children and adolescents, de Charlotte
Johnston e Candice Murray (2003), publicado na Psychological Assessment, e explore o processo de
avaliação psicológica de crianças e adolescentes. 
 
Assista à série The good doctor (2017), dirigida por um conjunto de diretores, em que se retrata um médico
com autismo e savantismo. A série gera discussões sobre estereótipos, diagnóstico e adaptações sociais.
 
Assista também ao filme Um olhar do paraíso, dirigido por Peter Jackson (2009), sobre a história de uma
criança vítima de abuso. A obra aborda temas como luto, dissociação e perspectiva subjetiva do sofrimento.
Referências
ALVES, R. A escutatória. In: O amor que acende a lua. 8. ed. São Paulo: Papirus, 1999.
 
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. APA. Referência rápida aos critérios diagnósticos do DSM-5-
TR. Porto Alegre: Artmed, 2023.
 
ANTSHEL, K. M. et al. An update on the comorbidity of ADHD and ASD: a focus on clinical management. Expert
Review of Neurotherapeutics, v. 16, n. 3, 2016.
 
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. CFP. Código de ética profissional do psicólogo. Brasília: CFP, 2005.
 
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. CFP. Resolução CFP nº 06/2019 – Elaboração de Documentos
Psicológicos. Brasília: CFP, 2019.
 
LOCKE, J. Ensaio sobre o entendimento humano. Tradução de J. M. Barbosa Neto. São Paulo: Nova Cultural,
1999. (Coleção Os Pensadores).
 
PIAGET, J. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. 3. ed. Rio de
Janeiro: LTC, 1964.
Intervenção em problemas
comportamentais e emocionais
Você vai aprender como ocorre o processopsicoterapêutico infantil, desde a entrevista inicial até a
devolutiva, por meio do lúdico e demais recursos terapêuticos e de abordagens teóricas e intervenções em
problemas emocionais e comportamentais.
Prof. Rodrigo Moco
1. Itens iniciais
Propósito
Este conteúdo se propõe a fazer conhecer as bases teóricas e práticas do universo infantil e a orientação para
a intervenção de forma ética e bem-sucedida diante das demandas emocionais e comportamentais
apresentadas pelo público-alvo. O aprofundamento nesse conhecimento permite ao profissional atuar com
sensibilidade no manejo clínico, estabelecendo uma relação terapêutica segura e de forma integrada com a
família e a escola.
Objetivos
Reconhecer as principais etapas do processo terapêutico.
 
Identificar o modo de inserir a família, a escola e terceiros no processo terapêutico.
 
Identificar como ocorre o monitoramento contínuo e a avaliação dos resultados do processo
terapêutico.
 
Reconhecer as principais questões éticas envolvidas no processo psicoterapêutico infantil.
Introdução
Atender crianças no contexto clínico é uma experiência rica e desafiadora. A infância é uma fase marcada por
muitas transformações, e é nesse período que muitos sinais de sofrimento emocional podem aparecer.
Ansiedade, medos, dificuldades escolares, problemas de comportamento ou situações familiares difíceis são
alguns dos temas que chegam ao consultório.
 
Invariavelmente, esse contexto representa uma grande demanda pelo serviço de psicologia; portanto, é
importante que o profissional em formação esteja atento à sua preparação para acolher essas demandas com
escuta sensível, conhecimento técnico e criatividade.
 
Neste conteúdo, você vai aprender a conduzir o processo psicoterapêutico com crianças desde os primeiros
encontros, passando pela construção do vínculo (com a família e com a criança), definição dos objetivos e
acompanhamento dos avanços. Também vamos tratar do lidar com a família e com outros atores importantes
no contexto da criança, como docentes e/ou cuidadores.
 
A psicoterapia infantil exige escuta ativa, respeito pelo tempo da criança e habilidade para traduzir emoções
que muitas vezes ainda não são colocadas em palavras. Vamos refletir também sobre os limites éticos da
atuação profissional e a importância de embasar as intervenções em evidências e no cuidado com o bem-
estar da criança. Esperamos que esse aprendizado enriqueça sua formação! Vamos lá!
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1. Planejamento e implementação de estratégias psicoterápicas
Primeiros passos do processo terapêutico
Entrevista inicial e anamnese
O processo psicoterapêutico infantil
começa a partir da entrevista inicial e da
anamnese. É nesse primeiro contato que o
profissional de psicologia começa a
compreender quem é a criança, o que pode
estar gerando sofrimento e quais são as
demandas dos responsáveis. Mais do que
uma coleta de dados, trata-se da
construção de um espaço de escuta atenta
e acolhedora, que já configura o início do
vínculo terapêutico.
 Diferentemente da
experiência do
atendimento a adultos, o
trabalho com crianças
exige uma adaptação na
forma de conduzir a
entrevista inicial. De modo
geral, ela é realizada em
duas partes: a primeira
com os responsáveis e a
segunda com a própria
criança.
A entrevista com os responsáveis permite ao terapeuta reunir informações sobre o desenvolvimento
da criança, o histórico familiar, escolar, médico e social, além dos principais sintomas e
comportamentos observados.
Segundo Neumann e Wagner (2015), a anamnese deve ser conduzida com abertura e atenção, pois é nesse
momento que os responsáveis costumam compartilhar suas percepções, expectativas e angústias em relação
à criança. É importante que o terapeuta mantenha uma postura acolhedora e sem julgamentos precipitados,
demonstrando interesse genuíno por aquilo que é apresentado. Ao mesmo tempo, é preciso saber direcionar a
conversa, buscando informações relevantes para o entendimento da queixa e para o planejamento
terapêutico.
 
A escuta do profissional deve considerar:
 
O conteúdo verbalizado pelos responsáveis.
 
A maneira como relatam os comportamentos da criança.
 
As emoções envolvidas.
 
Os padrões de interação familiar. 
 
O modo como eles narram os acontecimentos pode revelar crenças, dinâmicas afetivas e estilos parentais
importantes ao longo do processo terapêutico.
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Atenção
É preciso observar como os responsáveis compreendem os sintomas apresentados. Há casos em que a
criança é rotulada como portadora exclusiva de um problema, desconsiderando os aspectos relacionais
e contextuais que contribuem para sua manifestação. Nesses casos, é papel do terapeuta ampliar a
visão da família, propondo uma escuta que considere o ambiente em que a criança está inserida. Não é
raro, por exemplo, que, de maneira inconsciente, os pais tentem projetar na criança as responsabilidades
pelas próprias questões, em uma espécie de psicologização das próprias limitações. 
A entrevista com a criança deve ser realizada de forma lúdica, respeitando seu ritmo e sua linguagem.
Dependendo da idade, ela pode não compreender o motivo de estar ali ou não conseguir verbalizar o que
sente. Por isso, o profissional pode utilizar brinquedos, desenhos, jogos simbólicos e histórias como recursos
para facilitar a comunicação e a expressão emocional.
 
Ainda que o foco da entrevista inicial seja o levantamento de informações, é preciso lembrar que a criança já
está vivendo uma experiência terapêutica nesse momento. A maneira como o terapeuta se apresenta, interage
e acolhe suas manifestações pode influenciar o estabelecimento de um vínculo de confiança. Como afirma
Winnicott (1975), o terapeuta deve oferecer um “ambiente suficientemente bom”, que favoreça a
espontaneidade e o sentimento de segurança da criança.
 
A anamnese não se consolida apenas na primeira sessão, ela segue em construção ao longo dos
atendimentos. Muitas informações relevantes surgem nas sessões seguintes, à medida que a criança se sente
mais à vontade e que os vínculos vão se estabelecendo. Portanto, o terapeuta deve manter uma escuta atenta
e flexível, registrando e reavaliando hipóteses à medida que o processo avança.
Além das informações sobre a criança, é importante que o profissional observe a própria postura
durante a entrevista. A empatia, a escuta ativa e a linguagem acessível são aspectos relevantes.
Quando necessário, deve esclarecer o papel da psicoterapia, explicar os limites do sigilo e alinhar
expectativas com os responsáveis quanto ao acompanhamento.
Por fim, é recomendável que, ao final da entrevista inicial, o terapeuta compartilhe com os responsáveis uma
primeira hipótese diagnóstica (ainda que provisória) e a proposta de encaminhamento ou continuidade do
atendimento. Essa transparência contribui para a construção de uma relação de parceria com a família,
favorecendo o entendimento mútuo e, por consequência, o engajamento no processo psicoterapêutico.
 
Para complementar este tópico, assista ao vídeo a seguir, que apresenta os principais aspectos da entrevista
inicial e da anamnese no atendimento psicoterapêutico infantil, destacando a escuta acolhedora, o vínculo
terapêutico e a importância da interação com responsáveis e crianças no planejamento do cuidado.
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Espaço e relação terapêutica
Construção do ambiente de escuta
Ao trabalhar com crianças em psicoterapia, o espaço físico e relacional torna-se central. Mais do que um
ambiente funcional, o setting terapêutico é, para a criança, um lugar simbólico, que precisa transmitir
segurança, previsibilidade e acolhimento. Da mesma forma, a relação terapêutica é o principal instrumento do
profissional de psicologia para acessar o universo da criança e promover mudanças significativas.
 
A forma como o espaço terapêutico é organizado comunica mensagens importantes à criança. Cores,
iluminação, disposição dos móveis, variedade de brinquedos e materiais utilizadosdevem ser pensados com
cuidado. Um ambiente neutro, mas afetuoso, oferece à criança a liberdade para brincar, explorar e se
expressar com autenticidade. É importante que o consultório infantil não se pareça nem com uma sala de aula,
tampouco com um consultório médico; ele precisa ser convidativo, lúdico e adaptado ao universo infantil.
Exemplo ilustrativo de consultório infantil.
Segundo Axline (1972), o ambiente terapêutico deve ser estruturado para que a criança se sinta livre para se
expressar, mas dentro de limites claros e consistentes. Isso favorece tanto a espontaneidade quanto o senso
de segurança. A previsibilidade do espaço e do comportamento do terapeuta é essencial para que a criança
desenvolva a confiança no processo e se permita ser ela mesma.
 
Para além do espaço físico, é a relação que sustenta o processo psicoterapêutico. A criança não se envolve no
tratamento por uma decisão racional, como ocorre com os adultos. Ela entra no processo relacional com o
terapeuta a partir da experiência emocional que se constrói ali: sente-se acolhida, compreendida e respeitada,
e daí se engaja; caso contrário, ela tende a se fechar ou agir de forma defensiva.
 
A relação terapêutica com crianças é marcada pelo vínculo afetivo e pela experiência de aceitação
incondicional. A criança precisa sentir que o terapeuta está genuinamente interessado em quem ela é e não
apenas no seu problema ou sintoma. Isso demanda do profissional uma escuta empática, sensível e a
capacidade de entrar em seu universo simbólico com respeito e abertura.
Atenção
Muitas crianças chegam à psicoterapia por imposição de adultos e não compreendem o motivo de
estarem ali. Algumas podem estar desconfiadas, ansiosas ou até resistentes ao processo. Por isso, o
terapeuta deve investir tempo e energia na construção da aliança terapêutica, sem pressa de “resolver o
problema”. 
Como destaca Winnicott (1975), é na relação segura e confiável que a criança poderá se reorganizar
emocionalmente e encontrar caminhos de elaboração psíquica.
 
Vejamos dois aspectos fundamentais para fortalecer a aliança terapêutica:
Brincar
No espaço terapêutico, o brincar é muito importante. Por meio do jogo, do desenho, da contação de
histórias e de outras expressões lúdicas, a criança revela conteúdos internos, elabora conflitos e
estabelece comunicação com o terapeuta. O brincar não é apenas uma forma de passar o tempo, é
talvez a principal expressão da linguagem da criança, sua maneira de manifestar sentimentos e
pensamentos muitas vezes ainda não verbalizados.
A atitude do terapeuta frente ao brincar deve ser de acolhimento, participação respeitosa e escuta
ativa. O profissional não precisa interpretar tudo o que a criança faz ou diz, mas precisa estar
disponível para compreender o sentido subjetivo daquelas expressões. Muitas vezes, é no modo
como o terapeuta está presente (mais do que nas suas intervenções) que a criança se sente acolhida
e segura.
Manejo do vínculo 
A relação terapêutica não é estática; ela se transforma conforme o processo avança. É comum que a
criança teste o terapeuta, desafie limites, revele ciúmes, raiva ou idealizações. Essas manifestações
fazem parte da construção do vínculo e devem ser acolhidas com maturidade e ética. O terapeuta
funciona, em muitos momentos, como uma figura de apego substituta ou simbólica, alguém que
oferece uma nova experiência emocional reparadora.
O profissional também precisa manter uma postura ética e clara quanto aos limites da relação. Afeto e empatia
não significam permissividade ou ambiguidade. A criança precisa saber o que pode esperar do terapeuta, qual
é o papel de cada um, quais são os combinados e o que acontece em caso de faltas ou término do processo.
 
Por fim, em contextos de psicoterapia com crianças é necessário considerar a tríade relacional composta por:
 
Terapeuta
 
Criança
 
Família
 
O vínculo com a criança é central, mas a comunicação com os responsáveis precisa ser cultivada com
cuidado, sem que isso comprometa o espaço seguro da criança. O profissional de psicologia deve equilibrar
confidencialidade com responsabilidade ética, sempre em benefício do desenvolvimento infantil.
 
Assista ao vídeo, a seguir, que aborda a importância do setting terapêutico e da relação psicoterapêutica com
crianças, destacando o papel do espaço físico, do vínculo afetivo e do brincar como elementos centrais na
construção de um ambiente seguro e acolhedor.
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Papel da psicoterapia e sintomas
Escuta, vínculo e transformação
A infância é um período marcado por intensos processos
de desenvolvimento físico, emocional e social. Nesse
contexto, sintomas como birras constantes, medo
excessivo, dificuldades escolares, comportamentos
agressivos, exclusão ou isolamento podem surgir como
sinais de que algo na vida psíquica da criança precisa ser
compreendido. Esses sintomas não devem ser vistos
apenas como problemas a serem eliminados, mas como
formas de expressão de um sofrimento ou de uma
tentativa de adaptação a situações difíceis.
 Na
psicoterapia
infantil, o
sintoma é um
sinal de que
algo não está
bem na
organização
emocional ou
relacional da
criança. 
Os sintomas são manifestações indiretas de conflitos emocionais, dificuldades nas relações
familiares ou escolares, lutos, mudanças na rotina ou experiências traumáticas.
A psicoterapia fornece à criança um espaço seguro, acolhedor e especializado para que esses conteúdos
possam vir à tona, ser reconhecidos e elaborados. O foco do trabalho é eliminar o sintoma, compreender sua
função e ajudar a criança a encontrar formas saudáveis de lidar com os sentimentos.
 
O processo psicoterapêutico contribui para o fortalecimento da identidade da criança, o desenvolvimento da
autorregulação emocional, a melhora nas habilidades de comunicação e o aumento da autoestima. Ele
também pode gerar benefícios importantes para o ambiente familiar e escolar, uma vez que mudanças
internas da criança impactam de maneira positiva as relações que ela estabelece.
 
Muitas vezes, o sintoma da criança expressa desequilíbrios no sistema familiar e, por isso, é essencial que os
cuidadores participem do processo de forma colaborativa. Eles não são culpados pelos sintomas, mas podem
ser grandes aliados na transformação, visto que em um sistema, tudo depende de todos.
 
Ao longo das sessões, o terapeuta deve mapear alguns aspectos. Conheça-os a seguir.
 
Qual é o significado do sintoma na vida da criança?
 
O que ela está tentando comunicar por meio desse comportamento?
 
Como o sintoma se relaciona com o momento atual de seu desenvolvimento e com seu contexto
familiar, escolar e social?
 
O profissional de psicologia precisa articular teoria e sensibilidade clínica. Cada abordagem terá suas lentes
específicas para entender os sintomas e orientar o processo terapêutico. Vamos entender como cada
abordagem entende os sintomas.
1. 
2. 
3. 
Psicanálise
Pode ser visto como resultado de conflitos inconscientes não resolvidos. 
Terapia cognitivo-comportamental
Pode ser entendido como um comportamento aprendido ou uma resposta disfuncional a
determinados pensamentos.
Terapia sistêmica
Pode ser interpretado como uma forma de manter o equilíbrio familiar, mesmo que de maneira
desadaptativa. 
Terapia humanista
O foco será na vivência emocional da criança e na busca por um ambiente que favoreça sua
autorrealização.
Apesar das diferenças teóricas, há um consenso: a psicoterapia é um espaço de escuta, vínculo e
transformação, no qual o sofrimento infantil é validado, compreendido e trabalhado de forma cuidadosa.
O terapeuta infantil é um
tradutor da linguagem do
sintoma, é alguém que ajuda
a criança a compreender o
que está tentando dizer com
o que sente, faz ou evita. É
necessário também
desmistificar a ideia de que a
psicoterapia infantil infantiliza
ou superprotege a criança.
Pelo contrário: ela favorece o
crescimento emocional,
estimula a autonomia e
fortalece acapacidade de
lidar com frustrações e
desafios da vida.
 A busca por ajuda
profissional deve
acontecer o quanto
antes, quando sinais
persistentes de
sofrimento
aparecem. O
sofrimento psíquico
na infância não deve
ser naturalizado nem
tratado com
desprezo. Crianças
também sofrem e
têm o direito de
serem cuidadas com
respeito e
competência.
 Vamos continuar
essa discussão no
vídeo a seguir, que
explora o papel do
sintoma na infância
como expressão de
sofrimento psíquico
e destaca a
psicoterapia como
espaço de escuta,
compreensão e
transformação,
promovendo o
desenvolvimento
emocional e
relacional da
criança. Não perca!
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Entrevista de devolução
Conduzindo a devolutiva
A entrevista de devolução é o momento em que o profissional de psicologia compartilha com os responsáveis
e, quando pertinente, com a própria criança as impressões diagnósticas iniciais, hipóteses clínicas e propostas
de encaminhamento ou continuidade do atendimento. É, portanto, um espaço de escuta mútua,
esclarecimento e construção conjunta de estratégias de cuidado.
 
Diferentemente de um laudo técnico ou parecer frio, a devolutiva deve ser compreensível, sensível e
respeitosa, evitando termos muito técnicos ou julgamentos sobre a criança e a família. A devolução deve ser
entendida como um ato de acolhimento e responsabilização compartilhada.
 
De modo geral, a entrevista ocorre após a fase inicial de avaliação que pode incluir entrevistas com os
responsáveis, sessões de observação com a criança, aplicação de instrumentos e coleta de dados escolares.
 
O profissional de psicologia, então, organiza as informações de maneira integrada, buscando responder a
algumas perguntas, como:
 
• Quais dificuldades foram observadas no comportamento, nas emoções ou nas relações da criança?
• Como esses aspectos se conectam à fase de desenvolvimento em que ela está?
• O que os sintomas podem estar expressando?
• Como a família e o contexto podem influenciar (positiva ou negativamente) a dinâmica apresentada?
• Quais são as possíveis recomendações terapêuticas?
 
O objetivo não é fechar um diagnóstico precoce ou rotular a criança, mas apresentar uma compreensão
ampliada de sua realidade psíquica. Isso exige ética e cuidado, principalmente com a linguagem utilizada.
Segundo Bosa (2002), o terapeuta precisa ser capaz de traduzir o conhecimento técnico em falas acessíveis,
sem simplificar em excesso ou omitir questões importantes.
Outro ponto central da devolutiva é a validação dos sentimentos dos pais ou responsáveis legais
pela criança. Muitos chegam à psicoterapia carregando culpa, medo ou insegurança. Ao escutá-los
com empatia e oferecer informações claras sobre suas percepções, é estabelecida uma parceria no
processo terapêutico da criança, fundamental para o êxito do trabalho.
Em alguns casos, em especial com crianças maiores ou adolescentes, pode ser indicado realizar uma
devolutiva adaptada diretamente com o paciente, com linguagem apropriada para sua idade e compreensão.
Nesses momentos, é importante reforçar que a psicoterapia é um espaço seguro, no qual a criança ou o
adolescente pode ser quem é e expressar seus sentimentos sem medo.
 
A devolução também é um espaço de escuta ativa: o profissional não deve apenas apresentar informações,
mas acolher dúvidas, percepções e reações dos familiares. Muitas vezes, nesse momento, os responsáveis
sentem-se mais à vontade para revelar aspectos importantes da dinâmica familiar, que podem enriquecer
ainda mais a compreensão clínica.
 
Além disso, é nessa etapa que são discutidos os próximos passos. Dependendo do caso, as possibilidades
incluem:
 
• Início ou continuidade do processo psicoterapêutico com a criança.
• Encaminhamento para outros profissionais (fonoaudiólogo, psiquiatra, psicopedagogo etc.).
• Orientações específicas para a família e/ou a escola.
• Avaliação da necessidade de psicoterapia familiar ou orientação parental.
 
A clareza na proposta de intervenção evita expectativas irreais e fortalece o vínculo terapêutico. Como
pontuam Ocampo, Arzeno e Piccolo (2009), a devolutiva é o primeiro grande momento de parceria entre
terapeuta e família, e precisa ser conduzida com escuta, técnica e humanidade.
 
Por fim, não podemos nos esquecer do sigilo ético, que deve ser rigorosamente preservado. Informações
compartilhadas pela criança em confiança não devem ser expostas de forma direta ou desnecessária. O
profissional precisa mediar o conteúdo da devolução de forma a proteger o espaço subjetivo da criança, sem
comprometer a transparência com os responsáveis.
 
No vídeo a seguir, vamos entender um pouco mais sobre a entrevista de devolução na psicoterapia infantil
como espaço de escuta, esclarecimento e construção conjunta, destacando a importância da linguagem
acessível, da empatia com os responsáveis e da ética no manejo das informações da criança.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Durante o processo de acolhimento a uma criança encaminhada para psicoterapia, o profissional de psicologia
nota que os responsáveis demonstram grande ansiedade para “resolver logo o problema”. Em contrapartida, a
criança chega retraída, com comportamento evitativo e pouco contato visual. Com base nesse contexto, qual
deve ser a principal conduta do terapeuta nas entrevistas iniciais?
A Concentrar-se nas queixas dos responsáveis, garantindo que eles percebam autoridade técnica desde
o início.
B Investir em uma aliança com os cuidadores, ainda que precise adiar o contato com a criança por
algumas sessões.
C Priorizar a criação de vínculo com a criança, respeitando seu tempo e promovendo uma escuta
qualificada.
D Solicitar uma avaliação interdisciplinar antes de iniciar qualquer tipo de escuta com a criança.
E Orientar os cuidadores a reduzirem as expectativas e iniciarem paralelamente um acompanhamento
psiquiátrico.
A alternativa C está correta.
A construção da aliança terapêutica com a criança favorece o êxito da psicoterapia infantil. Quando há
resistência ou retraimento, é dever do profissional de psicologia respeitar o ritmo da criança e criar um
ambiente seguro para que ela se expresse. Embora o vínculo com os responsáveis também seja relevante,
o foco inicial deve ser a escuta acolhedora e o respeito ao tempo subjetivo da criança, conforme destacado
nos fundamentos do processo psicoterapêutico.
Questão 2
Em um processo terapêutico com uma criança, após três encontros com a família e quatro sessões com a
criança, o profissional de psicologia organiza uma entrevista para compartilhar impressões clínicas,
observações iniciais e perspectivas terapêuticas. Qual é o principal objetivo dessa etapa do processo
psicoterapêutico?
A Fornecer um diagnóstico definitivo para encaminhamento externo.
B Apontar os fatores de risco da dinâmica familiar, buscando explicações dos cuidadores.
C Apresentar os resultados formais da avaliação psicológica, mesmo que ainda preliminares.
D Compartilhar hipóteses clínicas e construir, com a família, uma compreensão das dificuldades da
criança.
E Verificar se os cuidadores concordam com os procedimentos adotados, antes de prosseguir com as
sessões.
A alternativa D está correta.
A entrevista de devolução tem como foco o compartilhamento das hipóteses clínicas iniciais, de forma
ética, clara e colaborativa. O profissional de psicologia propõe uma compreensão ampliada do sofrimento
da criança, sem fechar diagnósticos prematuros, visando criar uma aliança de cuidado entre a equipe
terapêutica e os cuidadores. Essa etapa é fundamental para promover a corresponsabilização e o
planejamento dos próximos passos.
2. Intervenções com a família e a escola
Sessões com familiares
Inserindo a família no processo terapêutico
Na psicoterapia com
crianças, as sessões com
familiares são mais que um
simples recurso
complementar. Elas fazem
parte do processo
terapêutico. A criança está
inserida em um contextorelacional que influencia seu
comportamento, suas
emoções e seu
desenvolvimento. A família,
em especial as figuras
parentais, constitui o
primeiro e mais significativo
ambiente de aprendizagem
e afeto. Assim, integrar a
família ao processo
terapêutico contribui para
uma intervenção mais
efetiva, contextualizada e
coerente com as
necessidades do paciente
infantil.
 As sessões com
familiares têm
múltiplos objetivos.
No início, elas
ajudam o terapeuta a
compreender o
contexto no qual a
criança está inserida,
incluindo fatores de
risco e de proteção,
padrões de
comunicação, estilos
parentais e dinâmica
emocional
predominante. Além
disso, é um espaço
no qual os familiares
podem ser
escutados, acolhidos
e orientados quanto
à melhor forma de
apoiar o processo da
criança.
 Incluir os familiares
no processo
psicoterapêutico da
criança não significa
transferir a
responsabilidade da
mudança
exclusivamente para
eles, mas
reconhecer que a
saúde emocional da
criança é
entrelaçada ao
sistema familiar.
Segundo Carter e
McGoldrick (1995), a
compreensão do
ciclo de vida da
família e das
transições que ela
enfrenta auxilia na
promoção de
intervenções
terapêuticas bem-
sucedidas.
Comentário
A frequência e o formato das sessões com familiares variam de acordo com o referencial teórico do
terapeuta, a demanda apresentada e o estágio do processo terapêutico. Em abordagens como a terapia
sistêmica, por exemplo, os familiares participam de modo ativo desde o início. Já em modelos mais
centrados na criança, como a terapia do brincar não diretiva, as sessões com os pais podem ocorrer de
forma quinzenal ou mensal, com foco na escuta, orientação e devolutiva do processo. 
Durante as sessões com os pais, o terapeuta pode:
 
Compartilhar impressões clínicas sobre o desenvolvimento da criança (sempre respeitando os limites
éticos e o sigilo).
 
Orientar práticas parentais mais eficazes, considerando o temperamento da criança e a fase do
desenvolvimento infantil em que ela está.
• 
• 
 
Trabalhar a escuta ativa e empática entre pais e filhos.
 
Ajudar na regulação emocional dos cuidadores.
 
Promover reflexões sobre o lugar que a criança ocupa na família.
 
Favorecer o fortalecimento de vínculos saudáveis.
 
Uma das funções mais delicadas dessas sessões é a devolutiva, quando o terapeuta deve ser capaz de
oferecer hipóteses clínicas que façam sentido para a família, sem reduzir a complexidade da criança a rótulos
diagnósticos. Também é preciso observar como os familiares recebem essas informações. Há pais que se
sentem culpados, outros se mostram aliviados por compreenderem melhor o que o filho está vivendo. O
terapeuta precisa acolher essas emoções e construir com os familiares um plano de ação possível e ético.
Famílias monoparentais, reconstituídas, adotivas ou com cuidadores alternativos (como avós ou tios)
exigem um olhar atento e não normativo por parte do terapeuta. O essencial é reconhecer quem
ocupa de fato a função parental no cotidiano da criança e trabalhar com essas figuras de forma
respeitosa e colaborativa.
As sessões com familiares também são uma oportunidade para acompanhar o impacto das intervenções fora
do setting terapêutico. Os responsáveis podem relatar mudanças no comportamento da criança, dificuldades
no seguimento de orientações ou novas demandas surgidas no processo. Isso ajuda o terapeuta a ajustar a
estratégia clínica, tornando o acompanhamento mais dinâmico e responsivo.
 
Por fim, precisamos lembrar que a escuta terapêutica dos pais, por si só, já é um elemento de transformação.
Quando os responsáveis são acolhidos em suas angústias e percebem que não estão sozinhos, eles se tornam
mais disponíveis para cuidar de seus filhos de maneira mais sensível e presente.
 
Vamos continuar o assunto no vídeo a seguir, que explora a importância das sessões com familiares na
psicoterapia infantil, destacando sua função na compreensão do contexto da criança, no apoio ao processo
terapêutico e na construção de estratégias que promovem vínculos saudáveis e intervenções mais eficazes.
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Intervenções envolvendo a família e a escola
Abordagem integrada
No processo psicoterapêutico com
crianças, devemos reconhecer que
os sintomas apresentados por elas
não se desenvolvem de maneira
isolada. Crianças vivem em
sistemas, em especial a família e a
escola, que influenciam de modo
direto seu comportamento,
desenvolvimento emocional e
capacidade de enfrentamento de
dificuldades. Por isso, o trabalho
clínico com o público infantil deve
considerar, sempre que possível,
uma abordagem integrativa, que
envolva os principais adultos
responsáveis por seu cuidado e
educação.
 Além da família, a
escola é outro espaço
importante na vida da
criança e deve ser vista
como parceira no
cuidado com sua saúde
mental. Docentes e
coordenação
pedagógica estão em
posição privilegiada
para observar
comportamentos que
podem não aparecer no
ambiente familiar, além
de estarem aptos a
aplicar estratégias de
apoio no cotidiano
escolar.
 A
comunicação
entre
terapeuta e
escola, com
autorização
dos
responsáveis,
permite
alinhar
intervenções
e criar um
ambiente
mais
acolhedor e
previsível
para a
criança. 
A intervenção com a escola não significa transferir o tratamento para o espaço educativo, mas
favorecer um olhar ampliado sobre o que acontece com a criança em diferentes contextos.
O terapeuta pode fornecer orientações sobre práticas pedagógicas adaptadas, promover encontros para
esclarecer o funcionamento do transtorno apresentado ou mesmo sugerir ajustes no ambiente escolar para
reduzir gatilhos de ansiedade, desatenção ou irritabilidade.
Atenção
Um ponto a ser considerado é que, muitas vezes, o comportamento da criança é uma resposta ao
ambiente. Intervenções eficazes, portanto, devem buscar transformar não apenas a criança, mas os
contextos em que ela está inserida. Dessa forma, o psicoterapeuta infantil assume também a função de
mediador entre os diversos ambientes da vida da criança, ajudando a construir pontes entre casa, escola
e atendimento clínico. 
Assista ao vídeo a seguir, que aborda a importância de integrar família e escola no processo psicoterapêutico
infantil, destacando o papel do terapeuta como mediador entre os contextos e a necessidade de intervenções
que considerem o ambiente como parte do cuidado à saúde mental da criança.
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Entrevistas com terceiros
Ampliando o olhar clínico
No processo psicoterapêutico com crianças, é comum que o profissional de psicologia precise realizar
entrevistas com pessoas que, embora não façam parte da família nuclear, exercem influência sobre a vida e o
comportamento da criança. Esses terceiros podem incluir profissionais da educação e profissionais de
medicina e assistência social, entre outros.
 
O objetivo principal das entrevistas com terceiros é ampliar o olhar clínico sobre o contexto de
desenvolvimento da criança, compreendendo como ela se relaciona em diferentes ambientes, em especial
fora de casa. Como a criança ainda está em processo de amadurecimento psíquico, é esperado que ela
manifeste seus conflitos emocionais por meio do comportamento. Por isso, a observação e os relatos de
terceiros podem ajudar no planejamento terapêutico.
Atenção
As escolas são contextos privilegiados para esse tipo de entrevista. Docentes observam os estudantes
por longos períodos e podem fornecer informações valiosas sobre rendimento acadêmico, relações
interpessoais, habilidades sociais, padrões de atenção, níveis de agressividade ou retraimento, além de
possíveis alterações comportamentais. A escuta atenta dos profissionais de educação permite ao
terapeuta conectar aspectos emocionais com expressões concretas do cotidiano escolar, enriquecendo
a compreensão do caso. 
Entrevistas com cuidadores ou outros profissionais de saúde (como neurologistas, pediatras e
fonoaudiólogos) também podem contribuir para a elaboraçãoA devolutiva é também o momento de alinhar expectativas e construir em conjunto o compromisso terapêutico
com a família. Todo o processo de entrevista e anamnese deve ser conduzido dentro dos princípios do Código
de Ética Profissional do Psicólogo. O sigilo profissional é garantido, inclusive para a criança, dentro dos limites
legais. Em casos de guarda compartilhada, é necessário ter a autorização de ambos os responsáveis legais.
 
O terapeuta deve estar atento a situações de risco, como abuso ou negligência, que exigem
encaminhamentos específicos. Deve-se evitar rótulos diagnósticos apressados, que possam prejudicar a
identidade da criança. Conheça alguns dos cuidados éticos mais usados!
Consentimento informado
Envolve a explicação clara sobre o processo
terapêutico.
Sigilo profissional
Abarca exceções legais.
Autorização legal 
É atestada em casos de separação.
Respeito ao ritmo
Envolve a forma de expressão da criança.
A entrevista inicial e a anamnese oferecem um panorama importante, mas são apenas o começo. A criança
revela sua história em camadas, ao longo do tempo. É comum que conteúdos profundos só apareçam após
meses de vínculo terapêutico. Por isso, o terapeuta deve manter uma postura de escuta contínua, disposição
para revisar hipóteses e flexibilidade para ajustar o plano terapêutico conforme a evolução do caso. A
anamnese, portanto, é uma ferramenta viva, que acompanha e se transforma junto com o processo
terapêutico.
 
Um início pautado pela escuta ativa, pela ética e pela sensibilidade desenvolvimental favorece tanto a adesão
ao processo quanto o sucesso da psicoterapia infantil. Mais do que mudar o comportamento da criança, o
objetivo do psicólogo é ajudar a criança a desenvolver recursos para lidar com o mundo, construindo vínculos
mais saudáveis e uma vida emocional mais estável — e isso começa, sem dúvida, desde a primeira escuta.
Cuidados éticos e legais no atendimento psicológico de
crianças 
Ética e lei na psicoterapia com crianças
Neste vídeo, confira os principais cuidados éticos e legais que o psicólogo deve assegurar desde o início do
atendimento a crianças, visando garantir a proteção, o bem-estar e os direitos dos pequenos pacientes.
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O atendimento psicológico a crianças no Brasil exige uma série de cuidados éticos e legais que devem ser
assegurados pelo psicólogo desde o início do processo psicoterapêutico. Esses cuidados visam proteger os
direitos e o bem-estar da criança, garantir a qualidade do serviço e resguardar o profissional. A seguir,
listamos os principais. Acompanhe!
Cuidados éticos: baseados no Código de Ética Profissional do Psicólogo e em
outras normativas
Consentimento informado dos responsáveis legais
Esclarecimento: o psicólogo deve informar aos pais ou responsáveis legais sobre a natureza do trabalho a ser
realizado (objetivos, métodos, técnicas, frequência, duração prevista, honorários, sigilo e seus limites).
 
Autorização formal: deve-se obter a autorização formal (de preferência por escrito) de pelo menos um dos
responsáveis legais para iniciar o atendimento. Em casos de pais separados com guarda compartilhada, o
ideal é o consentimento de ambos, ou pelo menos, a ciência e não oposição do outro genitor, sempre visando
ao melhor interesse da criança.
Considerar a opinião da criança (princípio da autonomia progressiva)
Embora o consentimento formal venha dos responsáveis, é ético e recomendado que o psicólogo, de forma
adequada à idade e maturidade da criança, explique o processo terapêutico para ela e busque seu
assentimento (concordância), respeitando sua vontade e seu direito de participar das decisões sobre sua
saúde.
Sigilo profissional
Proteção das informações: as informações obtidas no atendimento são confidenciais.
Devolutivas aos pais: o psicólogo deve manejar com cuidado as informações compartilhadas com os pais,
focando o bem-estar e desenvolvimento da criança, sem expor a intimidade revelada por ela nas sessões sem
necessidade. Aqui, é preciso pensar o que será compartilhado e como deve ser acordado e explicado.
 
Limites do sigilo: o sigilo pode ser quebrado em situações específicas previstas em lei e no Código de Ética,
como risco iminente à vida da criança ou de terceiros, situações de violência (abuso, negligência) ou por
determinação judicial. Nesses casos, a quebra deve ser restrita só ao necessário e comunicada às autoridades
competentes.
Competência técnica e teórica
O psicólogo deve possuir conhecimento e habilidade específicos para o atendimento infantil, utilizando
técnicas e abordagens adequadas à faixa etária e às necessidades da criança. Além disso, deve buscar
atualização constante e supervisão, se necessário.
Não induzir convicções e respeito à diversidade
Respeitar valores, crenças, orientação sexual (quando aplicável na adolescência) e diversidade cultural da
criança e de sua família, sem impor suas próprias convicções.
Relação profissional clara
Manter uma postura profissional, evitando relações duplas (ex.: ser terapeuta e amigo da família) que possam
comprometer a imparcialidade e a eficácia do tratamento.
Registros psicológicos
Manter registros adequados do atendimento (prontuários), resguardando o sigilo e a qualidade das
informações, conforme Resolução CFP nº 001/2009.
Interrupção ou encaminhamento
Se o psicólogo avaliar que não tem mais condições de ajudar a criança, ou se a criança/família desejar
interromper, o processo de encerramento deve ser conduzido de forma cuidadosa. Se necessário, realizar
encaminhamento para outro profissional ou serviço.
Cuidados legais: baseados no Estatuto da Criança e do Adolescente, Código
Civil, Código Penal, e outras leis
Primazia do melhor interesse da criança
Todas as decisões e ações devem priorizar o que é melhor para a criança, conforme preconiza o ECA.
Autorização dos responsáveis 
A ausência de consentimento dos responsáveis legais para o tratamento de um menor de idade pode gerar
implicações legais para o profissional.
Notificação compulsória em casos de violência
O ECA (arts. 13 e 245) e outras legislações estabelecem o dever de todo cidadão, e em especial, dos
profissionais de saúde e educação, de comunicar às autoridades competentes (Conselho Tutelar, Vara da
Infância e Juventude, polícia) qualquer suspeita ou confirmação de maus-tratos, abuso físico, psicológico,
sexual ou negligência contra criança ou adolescente. A omissão pode configurar crime.
Guarda e convivência familiar
Em casos de pais separados, o profissional da psicologia deve ter atenção às decisões judiciais sobre guarda
e direito de visita, buscando, sempre que possível, o envolvimento de ambos os genitores no processo
terapêutico, desde que isso seja benéfico para a criança.
Confidencialidade e provas judiciais
Embora o sigilo seja a regra, em processos judiciais, o juiz pode determinar a quebra do sigilo ou solicitar
relatórios psicológicos. O psicólogo deve agir conforme a lei e as orientações do CFP, buscando sempre
proteger o interesse da criança e fornecer apenas as informações, de fato, necessárias.
Responsabilidade civil
Assim como em qualquer profissão, o psicólogo pode ser responsabilizado civilmente por danos causados por
negligência, imprudência ou imperícia em sua atuação.
Primeiros contatos na psicoterapia infantil: cuidados éticos e práticos
Os cuidados devem ser observados desde o primeiro contato, o que inclui, na primeira ligação ou contato, já
esclarecer quem deve comparecer à primeira entrevista (em geral, os pais).
Na entrevista inicial com os responsáveis, deve-
se realizar o enquadre terapêutico detalhado,
incluindo a explicação sobre o sigilo e seus
limites, a necessidade de consentimento, o papel
dos pais, a forma de trabalho com a criança e a
importância da notificação em casos de violência.
Ao conhecer a criança, explique para ela, de
forma lúdica e acessível, o que é a terapia e que
ela terá um espaço seguro para se expressar.
 Agir com ética e em
conformidadede hipóteses diagnósticas mais completas, em
especial em casos de queixas relacionadas ao neurodesenvolvimento, como:
 
Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH)
 
Transtorno do Espectro Autista (TEA)
 
Atrasos cognitivos e motores
 
Esses profissionais podem fornecer dados sobre a adesão da criança a tratamentos, uso de medicação ou
dificuldades sensoriais.
 
O profissional de psicologia deve conduzir as entrevistas de modo ético e respeitoso, atendendo a alguns
critérios. Vejamos!
• 
• 
• 
Consentimento
O contato com terceiros deve ocorrer somente com o consentimento livre e informado dos pais ou
responsáveis legais da criança. 
Clareza
O terapeuta deve explicar de modo claro o propósito da entrevista, garantindo sigilo quanto às
informações clínicas compartilhadas e evitando a exposição desnecessária do paciente.
Escuta
Durante a entrevista, o profissional deve manter uma escuta empática e objetiva. 
Sem julgamentos
É comum que terceiros, em especial docentes ou cuidadores, tenham expectativas quanto ao
comportamento da criança, e muitas vezes se sintam frustrados ou culpados por não conseguirem
lidar com certas situações. O papel do terapeuta não é julgar, mas acolher esses relatos, reconhecer
os limites de cada contexto e colaborar para encontrar estratégias conjuntas de manejo. 
A construção de uma rede de apoio entre terapeuta, escola e família pode potencializar os resultados da
psicoterapia.
 
Apesar de valiosas, as informações obtidas com terceiros devem sempre ser integradas ao conjunto do
processo clínico. 
Nenhuma hipótese diagnóstica ou conduta deve ser adotada exclusivamente com base em relatos
externos. O terapeuta deve considerar a singularidade da criança, seu histórico, suas vivências
subjetivas e os dados colhidos ao longo das sessões individuais e familiares.
As entrevistas com terceiros também podem ser momentos de sensibilização e psicoeducação. Ao
entenderem melhor os aspectos emocionais que envolvem o comportamento da criança, docentes e outros
profissionais passam a agir com mais empatia e assertividade. Isso é importante em casos em que a criança
apresenta sintomas mais “problemáticos”, como agressividade ou hiperatividade, em geral interpretados de
forma punitiva por adultos não sensibilizados.
 
Por fim, devemos lembrar que o terapeuta não assume o papel de mediador de conflitos ou de avaliador
institucional. A entrevista com terceiros tem como foco a escuta clínica e o suporte à compreensão do
processo terapêutico. Caso surjam demandas específicas de mediação escolar, encaminhamentos formais ou
questões jurídicas, o terapeuta deverá avaliar a pertinência de se envolver ou encaminhar a situação para
outros profissionais competentes.
 
Vamos continuar a discussão no vídeo a seguir, que explora o papel das entrevistas com terceiros no
acompanhamento terapêutico infantil, destacando sua contribuição para a compreensão contextual da
criança, a importância do consentimento ético e a construção de uma rede de apoio entre terapeuta, escola e
demais profissionais.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Durante uma entrevista com um professor, o terapeuta que acompanha uma criança em psicoterapia é
informado sobre conflitos recorrentes entre a criança e colegas, além de queixas de pais de outros
estudantes. O educador solicita que o terapeuta intervenha diretamente na escola para mediar a situação.
Considerando os limites éticos e técnicos da atuação do profissional de psicologia clínico no trabalho com
crianças, qual deve ser a postura adequada diante dessa solicitação?
A Assumir o papel de mediador escolar, já que conhece o histórico emocional da criança e pode ajudar a
resolver o conflito.
B Encaminhar automaticamente o caso ao Conselho Tutelar, visto que envolve queixas de terceiros.
C Suspender temporariamente a psicoterapia até que a situação institucional seja solucionada.
DAvaliar de modo cuidadoso a pertinência de seu envolvimento direto ou, se necessário, encaminhar a
demanda para outro profissional capacitado para a mediação ou a atuação institucional.
E Comunicar à escola que não irá se envolver de forma alguma com qualquer questão que extrapole a
escuta clínica individual.
A alternativa D está correta.
O terapeuta não toma para si o papel de mediador ou avaliador institucional. Para o caso de demandas
escolares, jurídicas ou de mediação, o profissional deve avaliar a pertinência de seu envolvimento ou
considerar o encaminhamento a outro profissional.
Questão 2
Durante o processo psicoterapêutico com uma criança de 9 anos, o terapeuta decide convidar os
responsáveis para uma sessão conjunta. A criança apresenta dificuldades de socialização e episódios de
agressividade na escola. Qual é a principal contribuição esperada da inclusão da família nesse momento?
A Reforçar aos cuidadores como atuar no manejo dos comportamentos.
B Identificar qual responsável está contribuindo mais para a manutenção dos sintomas.
C Observar como a criança reage sob pressão diante das figuras parentais.
D Estimular os cuidadores a aplicarem as estratégias usadas pelo terapeuta em casa.
E Criar uma oportunidade de corresponsabilização no cuidado com a criança.
A alternativa E está correta.
As sessões com familiares ampliam a compreensão do contexto da criança e promovem a
corresponsabilização no processo terapêutico. Ao incluir a família, o terapeuta cria um espaço para escuta
mútua, fortalecimento do vínculo e alinhamento de estratégias, considerando que o cuidado infantil envolve
uma rede de relações significativas que influenciam de modo direto a saúde emocional da criança.
3. Monitoramento do processo terapêutico e avaliação de resultados
Monitoramento e avaliação
Importância do monitoramento contínuo
O acompanhamento contínuo do processo psicoterapêutico serve para que as intervenções com crianças
estejam de fato promovendo mudanças positivas no seu desenvolvimento emocional e comportamental.
Monitorar o progresso ao longo das sessões permite ao terapeuta avaliar se as estratégias aplicadas estão
sendo bem-sucedidas ou se é necessário realizar ajustes para as necessidades específicas da criança.
 
Monitorar o processo terapêutico envolve:
 
Observação cuidadosa das respostas da criança e da família.
 
Registro sistemático das evoluções e dificuldades.
 
Análise de indicadores objetivos e subjetivos de melhora.
 
Para realizar esse monitoramento, é fundamental: 
Avaliar regularmente os sintomas e os comportamentos-alvo
Isso pode ser feito por meio de escalas padronizadas, relatos dos responsáveis, docentes e da
própria criança, quando possível. O uso de instrumentos validados proporciona maior segurança para
o terapeuta em relação ao progresso e pode ser decisivo para a tomada de decisões clínicas,
principalmente em casos mais complexos.
Fortaler a aliança terapêutica
Ao compartilhar as observações e os resultados com a família, o terapeuta promove maior
engajamento e responsabilidade conjunta pelo processo. Essa transparência mantém a motivação e a
confiança no tratamento.
Refletir sobre os ganhos funcionai
Uma dimensão importante da avaliação é refletir sobre os ganhos funcionais da criança em seu
cotidiano, como a melhora na comunicação, no relacionamento social, no desempenho escolar e na
regulação emocional. Esses aspectos são indicadores importantes para compreender se as mudanças
alcançadas estão, de fato, promovendo qualidade de vida e bem-estar.
Por fim, o monitoramento não deve se limitar a um olhar técnico e quantitativo, mas considerar os aspectos
éticos envolvidos. O profissional de psicologia deve estar atento para não prolongar o tratamento sem
• 
• 
• 
necessidade, respeitando o tempo de cada criança e promovendo intervenções sempre benéficas. A avaliação
constante possibilita encerrar o processo terapêutico no momento adequado, ou mesmo encaminhar para
outros profissionais ou serviços complementares, quando indicado.Assista ao vídeo a seguir, que trata da importância do monitoramento contínuo na psicoterapia infantil,
destacando ferramentas, critérios e aspectos éticos que orientam a avaliação do progresso terapêutico e a
tomada de decisões clínicas.
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Profundidade da avaliação qualitativa
Principais ferramentas e indicadores de progresso
Se a avaliação quantitativa nos ajuda
a responder o que e o quanto mudou
no comportamento de uma criança, a
avaliação qualitativa é a ferramenta
que nos permite identificar como e 
porque essa mudança está ocorrendo.
Ela transcende a mera contagem de
sintomas para investigar a
transformação da estrutura psíquica e
da experiência subjetiva da criança.
Em psicoterapia infantil, em que a
comunicação verbal direta é limitada e
a linguagem principal é a do brincar, a
análise qualitativa não é um
complemento, mas o epicentro do
monitoramento do progresso
terapêutico.
 O profissional de psicologia,
nesse contexto, atua como um
instrumento sensível de
observação e interpretação,
buscando identificar a redução
de comportamentos-alvo e o
surgimento de novas
capacidades internas. A
premissa fundamental é que a
mudança duradoura não se
manifesta apenas na supressão
de um sintoma (exemplo: parar
de roer as unhas), mas no
desenvolvimento de recursos
para lidar com a angústia que o
gerava (exemplo: a capacidade
de nomear o medo e pedir
ajuda).
A avaliação qualitativa apoia-se em um conjunto de observações sistemáticas e na análise de
produções da criança. Os indicadores de progresso são sutis e processuais, exigindo do terapeuta
um olhar treinado para reconhecer padrões evolutivos.
Veja a seguir alguns sinais de grande valia que permitem avaliar o processo e seus resultados de forma
significativa.
A linguagem do brincar e a evolução temática
O brincar é o palco no qual a criança encena seus conflitos, medos e desejos. O monitoramento
qualitativo foca a evolução temática e estrutural da brincadeira. Dessa maneira, uma criança que
inicialmente repete de modo compulsivo uma cena de desastre (exemplo: um acidente de carro), com
o tempo, pode começar a introduzir novos elementos na brincadeira, como a chegada de uma
ambulância, o cuidado com os feridos e a reconstrução do cenário. Isso indica uma passagem da
vivência passiva do trauma para uma elaboração ativa e a construção de um senso de reparação e
esperança.
Também podemos observar, na brincadeira, uma evolução quando a criança demonstra a capacidade
de usar objetos de forma flexível (exemplo: um bloco que vira um telefone, depois um carro). Isso
demonstra um aumento da flexibilidade cognitiva e da capacidade de simbolização, essencial para o
pensamento e a regulação emocional.
Ainda no processo lúdico, é importante observar como a criança se relaciona com o terapeuta no
brincar, pois essa interação representa um microcosmo de suas relações externas. A mudança de um
brincar solitário e paralelo para um brincar colaborativo, com papéis compartilhados e negociação,
sinaliza um avanço significativo na competência social e na qualidade do vínculo.
Análise do material gráfico (desenhos)
Os desenhos infantis são radiografias do mundo interno. A análise não deve se fixar em
interpretações rígidas de símbolos, mas na evolução do processo gráfico ao longo do tempo. Por
exemplo, traços mais firmes e definidos podem indicar maior segurança. O uso mais amplo e
integrado da folha pode sugerir uma expansão do sentimento de si e de sua capacidade de ocupar o
mundo. No caso do desenho da figura humana ao longo do processo terapêutico, é possível observar
a adição de detalhes (exemplo: mãos, pés, expressões faciais), assim como melhorias na
proporcionalidade e na integração dos membros, as quais são associadas, de modo geral, a um maior
desenvolvimento da imagem corporal e da identidade.
Também é importante observar a passagem de desenhos com figuras isoladas, sombrias ou caóticas
para cenas com interação, cores variadas e narrativas de afeto e cuidado. Tudo isso se traduz em um
poderoso indicador de mudança emocional.
Análise das narrativas e do discurso verbal
Conforme a criança se desenvolve, sua capacidade de verbalizar experiências aumenta. O
monitoramento foca a qualidade do discurso. Um bom indicador de progresso é a passagem de um
discurso que localiza a causa dos problemas sempre no outro (exemplos: “Ele me bateu”, “A
professora não gosta de mim”) para um discurso que começa a reconhecer os próprios sentimentos e
participação nos eventos (“Eu fiquei com muita raiva quando ele pegou meu brinquedo”). Isso marca o
desenvolvimento do insight e da responsabilidade afetiva.
Outro indicador importante a ser observado é a capacidade de nomear e diferenciar emoções
(exemplo: ir além de triste e feliz, para frustrado, decepcionado, animado), é um sinal de
amadurecimento da inteligência emocional.
Desafios e rigor na análise qualitativa
O principal desafio da avaliação qualitativa é sua inerente subjetividade. Para garantir o rigor clínico e ético, o
terapeuta não pode se basear em impressões isoladas. Duas práticas são indispensáveis. Vamos conhecê-las!
Supervisão clínica
A discussão do material clínico (relatos de sessão, desenhos, observações do brincar) deve ser realizada com
um supervisor experiente. A supervisão funciona como um segundo olhar, ajudando o terapeuta a diferenciar
as próprias projeções (contratransferência) da real experiência da criança, a identificar padrões que passaram
despercebidos e a validar suas hipóteses interpretativas.
Triangulação com dados quantitativos e relatos externos
A análise qualitativa ganha robustez quando é confrontada e integrada com outras fontes de informação. Se a
análise qualitativa sugere que a criança está desenvolvendo maior capacidade de regulação, essa hipótese é
fortalecida se os pais relatam uma diminuição na frequência de birras (dado quantitativo) e a professora
observa uma melhora na sua capacidade de lidar com frustrações em sala de aula (relato externo). A
convergência de diferentes tipos de dados confere maior validade e confiabilidade ao monitoramento do
processo terapêutico.
 
Vamos continuar esse assunto no vídeo a seguir, que apresenta a avaliação qualitativa na psicoterapia infantil
como ferramenta central para compreender mudanças subjetivas. Vamos explorar indicadores no brincar,
desenhos e discurso verbal, e discutir estratégias para garantir rigor e confiabilidade na análise clínica.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Considerando as orientações éticas e clínicas presentes no acompanhamento do processo psicoterapêutico
com crianças, qual deve ser o principal critério para o encerramento do tratamento?
A O encerramento do tratamento deve ocorrer somente após a conclusão de todas as técnicas e
protocolos estabelecidos no início, independentemente da evolução da criança.
B O tratamento deve ser finalizado sempre que os pais ou responsáveis solicitarem, mesmo que ainda
haja demandas clínicas relevantes em curso.
C A decisão de finalizar a psicoterapia deve ser tomada exclusivamente pelo terapeuta, sem necessidade
de diálogo com a família ou avaliação conjunta.
D
O encerramento deve ser pautado em uma avaliação contínua e cuidadosa dos ganhos obtidos ao longo
do processo, considerando se a intervenção ainda está sendo benéfica, respeitando o tempo de cada
criança e, quando necessário, promovendo encaminhamentos para outros profissionais ou serviços.
E O tratamento só deve ser interrompido quando a criança atinge uma determinada idade, como a entrada
na adolescência, momento em que se torna mais capaz de refletir sobre si mesma.
A alternativa D está correta.
O profissional de psicologia deve conduzir o acompanhamento com responsabilidade ética, avaliando
constantemente a eficácia do tratamento. O encerramento deve ocorrer quando for percebido que as
intervenções já cumpriram seu papel, respeitando o tempo subjetivo dacriança e, se necessário, realizando
encaminhamentos adequados.
Questão 2
No contexto do acompanhamento psicoterapêutico com crianças, o profissional de psicologia deve utilizar
diferentes recursos para monitorar o progresso e avaliar a eficácia das intervenções ao longo do tempo. Uma
das estratégias é a aplicação de instrumentos padronizados, como escalas de avaliação. Com base nisso, qual
é a principal vantagem do uso dessas escalas durante o processo terapêutico?
A Eliminam a necessidade de observações clínicas ou entrevistas com os responsáveis e docentes.
B Oferecem maior segurança na análise dos sintomas e comportamentos, contribuindo para decisões
clínicas fundamentadas, por possuírem validação científica.
C São utilizadas apenas na fase inicial da psicoterapia para confirmar o diagnóstico da criança.
D Substituem com mais precisão os relatos subjetivos da criança, dispensando o acompanhamento
contínuo.
E Servem como recurso adicional na elaboração de relatórios, caso outras vias não estabeleçam
diagnóstico.
A alternativa B está correta.
O uso de instrumentos validados, como escalas padronizadas, oferece maior segurança ao terapeuta na
avaliação do progresso terapêutico, especialmente em casos complexos. Esses instrumentos permitem
uma análise mais fundamentada e apoiam a tomada de decisões clínicas.
4. Considerações éticas ao longo do processo
Ética na psicoterapia infantil
Aspectos da ética psicoterápica
A ética deve ser considerada em qualquer prática clínica, em especial quando trabalhamos com crianças em
psicoterapia. Ao longo do processo terapêutico, o profissional de psicologia deve estar atento a uma série de
princípios e normas que garantem a proteção, o respeito e o bem-estar do paciente e de sua família. Essas
considerações éticas norteiam decisões importantes e promovem a qualidade do atendimento, além de
fortalecer a confiança no vínculo terapêutico.
Um dos principais aspectos na ética envolvida na psicoterapia com crianças é a proteção da
confidencialidade. 
Segundo o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005), o sigilo deve ser rigorosamente mantido,
respeitando a privacidade do paciente, exceto nos casos em que há risco de danos a ele ou a terceiros.
Quando a quebra do sigilo é justificada, é dever comunicar à criança e à família de forma clara e cuidadosa.
Essa prática contribui para a construção de um ambiente seguro, em que a criança se sente protegida para
expressar seus sentimentos e vivências.
 
Além disso, a atuação ética exige do profissional de psicologia a responsabilidade de trabalhar nos seus
limites de competência. É preciso reconhecer quando o caso demanda encaminhamento para outros
profissionais ou serviços especializados, propiciando um cuidado integral para a criança. A supervisão
profissional é também um recurso ético indispensável, oferecendo apoio e reflexão para decisões clínicas
complexas.
Atenção
Um ponto importante envolve o respeito à autonomia da criança, que deve ser considerada conforme
seu nível de desenvolvimento. Isso significa que o terapeuta deve ouvir e valorizar o que a criança
expressa, demonstrando respeito ao seu tempo e às suas particularidades, enquanto estabelece um
diálogo transparente com os responsáveis. O equilíbrio entre esses aspectos requer sensibilidade e
ética, para que o tratamento respeite os direitos da criança sem comprometer sua segurança e bem-
estar. 
As considerações éticas também se estendem ao uso de técnicas e recursos terapêuticos. O profissional deve
optar por intervenções baseadas em evidências e atualizadas, evitando práticas que possam causar danos ou
constrangimentos. Além disso, a transparência quanto aos objetivos e ao andamento do tratamento ajuda a
manter a confiança e o compromisso da família.
 
A ética está presente em todo o percurso do processo terapêutico, guiando o profissional de psicologia na
promoção do melhor interesse da criança. Manter-se atualizado quanto às normas éticas e legais, refletir
sobre as próprias práticas e buscar continuamente o aprimoramento profissional são atitudes que fortalecem
o exercício da psicoterapia de forma responsável e humanizada.
 
Acompanhe, neste vídeo, a discussão sobre a ética na psicoterapia infantil. Vamos destacar a importância do
sigilo, limites de competência, respeito à autonomia da criança e uso responsável de técnicas. Além disso,
vamos entender a supervisão, transparência e compromisso com o bem-estar do paciente durante todo o
processo terapêutico.
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Dilemas éticos na prática
Contrato terapêutico triplo
A confidencialidade requer muito cuidado no atendimento de crianças e adolescentes, já que os pais e a
família fazem parte do processo terapêutico, de forma direta ou indireta. Enquanto o princípio do sigilo
profissional é claro, sua aplicação na psicoterapia infantil desdobra-se em um cenário complexo, denominado 
contrato terapêutico triplo. O profissional de psicologia estabelece uma relação com a criança (o paciente
identificado) e também com seus pais ou responsáveis legais, que detêm a autoridade para consentir o
tratamento e são, em geral, os financiadores do serviço. Esse arranjo cria uma tensão ética inerente: como
proteger a confidencialidade da criança e, ao mesmo tempo, manter os pais informados e engajados no
processo, conforme seu direito e responsabilidade?
A resolução do dilema não está em uma regra fixa, mas na
construção de um acordo de confidencialidade claro e explícito
desde o início do tratamento. Esse acordo deve ser discutido
abertamente com pais e, de forma adaptada à sua compreensão,
com a criança. Nele, o terapeuta deve delimitar o que será e o que
não será compartilhado. Uma prática ética comum é estabelecer
que o conteúdo específico das sessões (o que a criança diz,
desenha ou brinca) é confidencial, enquanto os temas gerais, o
progresso e as orientações para os pais ou responsáveis legais
serão discutidos em sessões de devolutiva.
 Vejamos
um
exemplo
de
dilema!
Exemplo
Uma criança de 10 anos revela em sessão que está sofrendo bullying na escola, mas pede ao terapeuta:
“Não conta para os meus pais, eles vão fazer um escândalo”. O terapeuta fica diante de um conflito ético.
A quebra do sigilo sem o consentimento da criança pode destruir a aliança terapêutica. No entanto, não
intervir pode perpetuar o sofrimento e o risco. A conduta ética mais apropriada é trabalhar com a criança
para que ela própria se sinta fortalecida para comunicar a situação aos pais, com o apoio do terapeuta.
Caso a criança se recuse e o risco seja significativo, o profissional, amparado pelo Código de Ética (que
prevê a quebra do sigilo em situações de risco), deve comunicar a necessidade de envolver os pais,
explicando previamente à criança por que e como isso será feito, minimizando a sensação de traição. 
Consentimento informado e assentimento
Os pais ou responsáveis são as pessoas que consentem legalmente o tratamento infantil. No entanto, a ética
contemporânea, alinhada à Convenção sobre os Direitos da Criança, enfatiza a importância do assentimento
da criança. Assentir não é o mesmo que consentir legalmente; é o ato de concordar e se engajar de modo
voluntário no processo terapêutico, após receber uma explicação sobre seus objetivos em uma linguagem
acessível à sua idade.
 
Ignorar o assentimento é reduzir a criança a um objeto de intervenção. O terapeuta tem a responsabilidade
ética de explicar dois aspectos: 
O que é a terapia?
Um lugar para brincar e conversar sobre
sentimentos.
Qual é o seu papel?
Alguém que ajuda a entender as coisas difíceis.
Além disso, o terapeuta deve proporcionar à criança sentir-se minimamente confortável e disposta a
participar.
 
Se uma criança demonstra resistência persistente e explícita à terapia, o terapeuta deve levar isso a sério. Em
vez de forçar a participação, sua função ética é investigar as razões dessa resistência (medo, fantasias sobre
o tratamento, lealdade a um sistema familiardisfuncional) e discuti-las com os pais ou responsáveis legais,
podendo, inclusive, questionar a viabilidade do processo terapêutico naquele momento.
Limites da intervenção
A natureza lúdica e afetiva da psicoterapia infantil pode borrar fronteiras que são mais claras na terapia com
adultos, exigindo do profissional uma vigilância ética constante. Vamos analisar alguns exemplos, a seguir.
1
Contato físico
As crianças buscam contato físico, como um abraço ou sentar-se no colo. Embora um gesto de
acolhimento possa ser terapêutico, o terapeuta deve ser criterioso. O contato deve ser sempre
iniciado pela criança, breve, não erotizado e ocorrer em um contexto de necessidade de conforto ou
segurança. O profissional deve refletir sobre o significado daquele ato: é uma busca genuína por
afeto ou uma forma de testar limites? A ética reside em manter o contato em uma moldura
estritamente profissional e terapêutica.
2
Receber e oferecer presentes
Crianças não raro oferecem presentes ao terapeuta (um desenho, um objeto feito na sessão). Aceitar
esses presentes simbólicos em geral fortalece a aliança. O problema ético surge com presentes de
alto valor material ou com a iniciativa do terapeuta em presentear a criança. Essa prática pode criar
uma confusão de papéis, transformando a relação terapêutica em uma relação social e gerando
expectativas inadequadas.
3
Relações duais
O risco de estabelecer relações duais (ser terapeuta e também amigo da família, vizinho etc.) é
particularmente alto em comunidades pequenas. O Código de Ética adverte contra relações que
possam interferir na objetividade do julgamento profissional ou gerar exploração. O profissional de
psicologia deve evitar ao máximo essas sobreposições. Quando inevitáveis, as fronteiras devem ser
discutidas e gerenciadas com clareza e, se necessário, o caso deve ser encaminhado para evitar
qualquer prejuízo ao processo terapêutico da criança.
Para encerrar, assista ao vídeo a seguir que aborda a complexidade ética da confidencialidade na psicoterapia
infantil, destacando o “contrato terapêutico triplo” entre criança, família e terapeuta. Trata do consentimento
dos pais, assentimento da criança, e dos limites éticos na relação terapêutica, como contato físico, presentes
e relações duais, visando garantir segurança e respeito no tratamento.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Durante uma sessão de psicoterapia com uma criança, ela relata uma situação de risco envolvendo violência
familiar. Considerando os princípios éticos, que conduta o terapeuta deve adotar nesse caso? Escolha a
alternativa que apresenta a ação ética correta a ser tomada pelo profissional de psicologia.
A Manter o sigilo absoluto, não revelando nada a terceiros para preservar a confiança da criança.
B Quebrar o sigilo imediatamente, comunicando às autoridades competentes.
C Quebrar o sigilo apenas se houver autorização da família, seja qual for a gravidade do risco.
D Informar a criança e a família sobre a necessidade de comunicar a situação a terceiros, para a
segurança da criança.
E Encerrar o atendimento imediatamente para evitar envolvimento em situações legais.
A alternativa D está correta.
A ética profissional exige que o terapeuta preserve o sigilo e também proteja o paciente em situações de
risco grave. Segundo o Código de Ética Profissional do Psicólogo, a quebra do sigilo é permitida quando há
risco à integridade do paciente ou terceiros, devendo ser comunicada de forma clara e cuidadosa à criança
e à família.
Questão 2
Um terapeuta que atende crianças percebe que um caso demanda conhecimentos e abordagens que
excedem sua especialização. De acordo com as considerações éticas da psicoterapia infantil, qual é a atitude
profissional correta? Assinale a alternativa que indica a postura ética adequada.
A Continuar o atendimento para não prejudicar a criança com a troca de profissional.
B Encaminhar a criança para outro profissional especializado, após diálogo com a família.
C Modificar o plano terapêutico, mesmo usando técnicas que não domina totalmente.
D Manter o caso em sigilo e evitar informar a família sobre as limitações do atendimento.
E Delegar o atendimento para um colega e manter-se afastado para não infringir a ética na relação
profissional.
A alternativa B está correta.
A atuação ética requer que o profissional de psicologia reconheça seus limites e encaminhe o paciente para
profissionais especializados quando necessário. A transparência com a família favorece um cuidado eficaz
e responsável, além de manter a integridade do processo terapêutico. A supervisão e o encaminhamento
são práticas recomendadas pelo Código de Ética Profissional do Psicólogo.
5. Conclusão
Considerações finais
Ao final deste conteúdo, fica claro como o trabalho com crianças em psicoterapia exige um olhar cuidadoso e
um conjunto diversificado de habilidades. Desde a primeira entrevista até a devolução, o profissional de
psicologia precisa criar um ambiente acolhedor, no qual a criança se sinta segura para se expressar.
 
Nesse sentido, o trabalho com a família e a escola também se mostra essencial, pois o cuidado compartilhado
amplia o suporte e potencializa os resultados. Monitorar como o processo evolui permite ao profissional de
psicologia ajustar o tratamento sempre que necessário, mantendo o foco no bem-estar da criança.
 
Também vimos que a ética é a base que orienta todo esse caminho. Saber reconhecer os próprios limites, agir
com transparência e proteger o direito à confidencialidade são atitudes que fortalecem a confiança no
trabalho do profissional de psicologia. Com esse conjunto de conhecimentos, você conseguirá se preparar
para atuar com responsabilidade e sensibilidade, fazendo a diferença na vida das crianças e das famílias que
serão atendidas.
Explore +
Não pare por aqui! Selecionamos indicações de leitura para você sobre a especificidade do tratamento da
ansiedade em crianças. Confira!
 
Psicoterapia e ansiedade infantil: uma revisão de literatura, de Sousa e Sousa, publicado na Revista FT, em
2023.
 
Protocolos psicoterapêuticos para tratamento de ansiedade e depressão na infância, de Antoniutti et al.,
publicado na Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, em 2019.
Referências
ANTONIUTTI, C. B. P. et al. Protocolos psicoterapêuticos para tratamento de ansiedade e depressão na
infância. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, v. 15, n. 1, jan./jun. 2019. Consultado na internet em: 17 jun.
2025.
 
AXLINE, V. M. Ludoterapia: a dinâmica interior da criança. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar,
1972.
 
BECK, A. T.; CLARK, D. A. Terapia cognitiva para os transtornos de ansiedade. Porto Alegre: Artmed, 2012.
 
BOSA, C. A. Autismo: atuais interpretações para antigas observações. In: BAPTISTA, C.; BOSA, C. (orgs.).
Autismo e educação: atuais desafios. Porto Alegre: Artmed, 2002. p. 22-39.
 
CARTER, B.; MCGOLDRICK, M. As mudanças no ciclo de vida familiar: uma estrutura para a terapia familiar. 2.
ed. Porto Alegre: Artmed, 1995.
 
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. CFP. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília, DF: CFP, 2005.
Consultado na internet em: 23 maio 2025.
 
NEUMANN, A. P.; WAGNER, A. Caracterização da clientela atendida em terapia de família em uma clínica-
escola. Psicologia Clínica, v. 27, n. 2, p. 63-81, 2015. Consultado na internet em: 3 jun. 2025.
 
OCAMPO, M. L. S. de; ARZENO, M. E. G.; PICCOLO, E. G. de. O processo psicodiagnóstico e as técnicas
projetivas. 11. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
 
SOUSA, M. L. N. de; SOUSA, M. T. L. de. Psicoterapia e ansiedade infantil: uma revisão de literatura. Revista
FT, v. 27, ed. 127, out. 2023. Consultado na internet em: 17 jun. 2025.
 
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
	Processo psicoterapêutico
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Preparação
	Objetivos
	Introdução
	1. Entrevista inicial e anamnese
	A entrevista inicial como espaçode acolhimento e escuta parental
	Acolhendo pais na psicoterapia infantil
	Conteúdo interativo
	Identificação e contexto da procura
	História da gravidez, parto e primeiros anos de vida
	Desenvolvimento neuropsicomotor e linguagem
	Histórico médico, psiquiátrico e uso de medicações
	Estrutura e dinâmica familiar
	Estilo parental e estratégias educativas
	Escolaridade e socialização
	Eventos significativos
	Expectativas em relação à terapia
	A anamnese como organização clínica e instrumento diagnóstico
	Anamnese e diagnóstico na psicoterapia infantil
	Conteúdo interativo
	Hipóteses de funcionamento psicológico da criança.
	Influências contextuais e relacionais nos comportamentos observados.
	Plano terapêutico proposto, com metas e frequência.
	Papel ativo dos pais no processo, com possibilidade de sessões de orientação parental.
	Consentimento informado
	Sigilo profissional
	Autorização legal
	Respeito ao ritmo
	Cuidados éticos e legais no atendimento psicológico de crianças
	Ética e lei na psicoterapia com crianças
	Conteúdo interativo
	Cuidados éticos: baseados no Código de Ética Profissional do Psicólogo e em outras normativas
	Consentimento informado dos responsáveis legais
	Considerar a opinião da criança (princípio da autonomia progressiva)
	Sigilo profissional
	Competência técnica e teórica
	Não induzir convicções e respeito à diversidade
	Relação profissional clara
	Registros psicológicos
	Interrupção ou encaminhamento
	Cuidados legais: baseados no Estatuto da Criança e do Adolescente, Código Civil, Código Penal, e outras leis
	Primazia do melhor interesse da criança
	Autorização dos responsáveis
	Notificação compulsória em casos de violência
	Guarda e convivência familiar
	Confidencialidade e provas judiciais
	Responsabilidade civil
	Primeiros contatos na psicoterapia infantil: cuidados éticos e práticos
	Verificando o aprendizado
	2. Espaço e relação terapêutica
	Espaço terapêutico
	Construindo o espaço terapêutico infantil
	Conteúdo interativo
	Dimensão física
	Dimensão relacional
	Dimensão simbólica
	Relação terapêutica
	Construindo vínculos com crianças
	Conteúdo interativo
	Atenção
	Verificando o aprendizado
	3. Papel da psicoterapia e sintomas
	O papel da psicoterapia
	O poder da terapia infantil
	Conteúdo interativo
	Compreensão e identificação dos sentimentos da criança
	Resgate ao protagonismo da criança
	Contenção psíquica
	Identificação de transtornos em formação
	Trabalho com o contexto da criança
	Reparos emocionais
	Desenvolvimento da criatividade, imaginação e linguagem simbólica
	Dificuldades de socialização, retraimento ou agressividade
	Papel educativo no sentido amplo
	Sintomas em psicoterapia
	O significado diverso dos sintomas na infância
	Conteúdo interativo
	Atenção
	Verificando o aprendizado
	4. Entrevista de devolução
	Aspectos técnicos e clínicos da entrevista devolutiva
	A devolutiva na psicoterapia infantil
	Conteúdo interativo
	A queixa e o que foi escutado
	Observações clínicas iniciais
	Hipóteses de funcionamento emocional
	A função dos sintomas ou comportamentos
	Fatores de proteção e de risco
	Proposta de plano terapêutico inicial
	Recomendação
	Devolução: aliança terapêutica e corresponsabilidade parental
	Pontes com a família na terapia infantil
	Conteúdo interativo
	Corresponsabilidade parental
	Validação dos esforços parentais
	Formulação conjunta das hipóteses
	Verificando o aprendizado
	5. Conclusão
	Considerações finais
	Explore+
	Referências
	Recursos psicoterapêuticos
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Objetivos
	Introdução
	1. O lúdico
	Brincadeira e desenvolvimento infantil
	Exemplo
	Atividade lúdica infantil
	Lidar com a angústia
	Expressar as suas emoções
	Experimentar situações novas
	Forma de aprendizagem social
	Brinquedos funcionais
	Brinquedos de faz-de-conta
	Brinquedos de aquisição
	Brinquedos de construção
	O valor funcional do brinquedo e da brincadeira
	Conteúdo interativo
	Atividade lúdica na psicoterapia infantil
	Atividade lúdica na psicoterapia de crianças: como tudo começou?
	Conteúdo interativo
	Ludoterapia como técnica na psicoterapia infantil
	Bonecos e fantoches
	Casinha
	Livros infantis
	Jogos terapêuticos
	Jogos comerciais
	Objetivos da atividade lúdica infantil
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	2. Materiais estruturados e não estruturados
	Consultório de psicoterapia infantil
	Bonecos
	Animais
	Ambiente doméstico
	Peças de encaixe
	Atividades domésticas
	Artes
	Veículos
	Aspectos gerais do consultório de psicoterapia infantil
	Conteúdo interativo
	Criança: livre para escolher
	O brincar e a observação do comportamento
	Conteúdo interativo
	Materiais: padronização e vivência da criança
	Para trabalhar com a temática das emoções
	Para trabalhar com a temática dos limites e da tolerância à frustração
	Para trabalhar com a temática do luto
	Resumindo
	Reprodução de personagens, contextos e situações específicas
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	3. Sessões com familiares e terceiros
	Entrevista inicial com os pais
	Exemplo
	Informações relevantes e percepção dos pais
	Conteúdo interativo
	Entrevista devolutiva com os pais
	Atenção
	Recomendações e encaminhamentos pertinentes
	Conteúdo interativo
	Contato com terceiros
	Atenção
	O que considerar no contato com terceiros?
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	4. Conclusão
	Considerações finais
	Explore +
	Referências
	Técnicas de avaliação e diagnóstico diferencial na infância
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Objetivos
	Introdução
	1. Avaliação psicológica infantil no contexto psicoterápico
	Desenvolvimento infantil e avaliação psicológica: singularidades
	Estágio sensório-motor (0 a 2 anos)
	Estágio pré-operatório (2 a 7 anos)
	Estágio de operações concretas (7 a 11 anos)
	Estágio de operações formais (a partir dos 12 anos)
	Reflexão
	Conteúdo interativo
	Objetivos da avaliação psicológica infantil
	Identificar possíveis dificuldades ou transtornos do desenvolvimento
	Compreender os recursos e as potencialidades da criança
	Analisar o impacto das relações
	Oferecer subsídios para um plano de intervenção psicoterápica ou multidisciplinar
	Orientar pais, responsáveis e escola
	Exemplo
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	2. Instrumentos de avaliação psicológica na infância
	Observação do comportamento
	Reflexão
	Conteúdo interativo
	Testes e técnicas de avaliação: interpretando os resultados
	Testes projetivos
	Desenho da figura humana
	Desenho da família
	CAT-A (Children's Apperception Test – Animal)
	Zulliger
	Escalas de desenvolvimento
	Bender
	Raven
	Bayley
	Inventários de sintomas
	CBCL (Child Behavior Checklist)
	BASC-3 (Behavior Assessment System for Children)
	SDQ (Strengths and Difficulties Questionnaire)
	Atenção
	Adequação ao público infantil
	Contextualização dos resultados
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	3. Diagnóstico diferencial de transtornos na infância
	Identificação dos principais quadros psicopatológicos
	Transtornos do neurodesenvolvimento
	TDAH
	TEA
	Transtornos de ansiedade na infância
	Ansiedade de separação
	Ansiedade generalizada
	Fobia social
	Transtornos depressivos na infância
	Transtornos disruptivos e do controle de impulsos
	Importância do diagnóstico diferencial
	Conteúdo interativo
	Análise de comorbidades
	Criança com TDAH
	Criança com ansiedade social
	Crianças com autismo leve
	Diagnóstico: raciocínio clínico integrador
	Ética, sensibilidade e responsabilidade
	Atenção
	Força do trabalho interdisciplinar
	Conteúdo interativo
	Colaboração inter/transdisciplinar e diagnóstico diferencial
	Avaliação multifatorial
	Biológicos
	Psicológicos
	Familiares
	Escolares
	Socioculturais
	Perigo da análise linear
	Colaboração inter/transdisciplinar
	Profissionais de psicologia
	Profissionais de psiquiatra infantil
	Profissionais de fonoaudiologia
	Profissionais de psicopedagogia
	Profissionais de neurologia
	Profissionais de assistência social
	Atenção
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	4. Avaliação psicológica infantil no contexto psicoterápicoFormulação de hipóteses diagnósticas
	Construção de hipóteses como um processo clínico
	Integração de múltiplas fontes de informação
	Entrevistas com responsáveis
	Relatos escolares
	Observação clínica e lúdica
	Testes e escalas psicológicas
	Histórico médico e outras avaliações profissionais
	Considerando o contexto sociocultural
	Evitando precipitações e rótulos
	Conteúdo interativo
	Questões éticas na avaliação infantil
	Consentimento livre e esclarecido
	Consentimento dos responsáveis
	Assentimento da criança
	Confidencialidade e seus limites
	Elaboração ética de laudos e relatórios
	Conteúdo interativo
	Comunicação dos resultados
	Devolutiva
	Clara
	Compreensiva
	Cuidadosa
	Prática
	Encaminhamentos para psicoterapia e outros serviços
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	5. Conclusão
	Considerações finais
	Explore +
	Referências
	Intervenção em problemas comportamentais e emocionais
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Objetivos
	Introdução
	1. Planejamento e implementação de estratégias psicoterápicas
	Primeiros passos do processo terapêutico
	Entrevista inicial e anamnese
	Atenção
	Conteúdo interativo
	Espaço e relação terapêutica
	Construção do ambiente de escuta
	Atenção
	Brincar
	Manejo do vínculo
	Conteúdo interativo
	Papel da psicoterapia e sintomas
	Escuta, vínculo e transformação
	Psicanálise
	Terapia cognitivo-comportamental
	Terapia sistêmica
	Terapia humanista
	Conteúdo interativo
	Entrevista de devolução
	Conduzindo a devolutiva
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	2. Intervenções com a família e a escola
	Sessões com familiares
	Inserindo a família no processo terapêutico
	Comentário
	Conteúdo interativo
	Intervenções envolvendo a família e a escola
	Abordagem integrada
	Atenção
	Conteúdo interativo
	Entrevistas com terceiros
	Ampliando o olhar clínico
	Atenção
	Consentimento
	Clareza
	Escuta
	Sem julgamentos
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	3. Monitoramento do processo terapêutico e avaliação de resultados
	Monitoramento e avaliação
	Importância do monitoramento contínuo
	Avaliar regularmente os sintomas e os comportamentos-alvo
	Fortaler a aliança terapêutica
	Refletir sobre os ganhos funcionai
	Conteúdo interativo
	Profundidade da avaliação qualitativa
	Principais ferramentas e indicadores de progresso
	A linguagem do brincar e a evolução temática
	Análise do material gráfico (desenhos)
	Análise das narrativas e do discurso verbal
	Desafios e rigor na análise qualitativa
	Supervisão clínica
	Triangulação com dados quantitativos e relatos externos
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	4. Considerações éticas ao longo do processo
	Ética na psicoterapia infantil
	Aspectos da ética psicoterápica
	Atenção
	Conteúdo interativo
	Dilemas éticos na prática
	Contrato terapêutico triplo
	Exemplo
	Consentimento informado e assentimento
	O que é a terapia?
	Qual é o seu papel?
	Limites da intervenção
	Contato físico
	Receber e oferecer presentes
	Relações duais
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	5. Conclusão
	Considerações finais
	Explore +
	Referênciascom a
lei, além de proteger
a criança e o
profissional,
fortalece a confiança
no trabalho
psicológico e
contribui para um
atendimento de
qualidade.
Verificando o aprendizado
Questão 1
Durante a entrevista inicial com os pais de uma criança de 6 anos, o psicólogo percebe que os responsáveis
estão ansiosos e desejam mudanças rápidas no comportamento da filha. Eles acreditam que o único
responsável pela mudança é o terapeuta. Qual conduta mais adequada o psicólogo deve adotar diante dessa
expectativa?
A Explicar que a terapia foca apenas a criança e que os resultados dependerão do vínculo entre os dois.
B Corrigir os pais, deixando claro que essa não é a função do psicólogo.
C Reforçar que mudanças exigem tempo e que os resultados não podem ser garantidos pela terapia.
D Acolher as expectativas e apresentar a terapia como um processo de corresponsabilidade entre
terapeuta, criança e cuidadores.
E Evitar entrar nesse tema para não comprometer o vínculo inicial com os pais.
A alternativa D está correta.
A melhor condução é acolher a angústia dos pais e redirecionar a expectativa, explicando que o sucesso
terapêutico depende também da participação dos cuidadores. Essa abordagem favorece o engajamento
familiar e evita a delegação passiva de responsabilidade ao terapeuta.
Questão 2
Em uma a entrevista inicial, os avós de uma criança relatam que têm a guarda legal, pois os pais estão
ausentes devido a um processo judicial. O terapeuta decide ampliar a escuta, investigar a rede de apoio da
criança e ficar atento a qualquer sinal de negligência ou risco. Essa postura está fundamentada em qual
princípio da atuação ética?
A O terapeuta deve atuar apenas com base na demanda relatada.
B A escuta dos cuidadores substitutos deve ser validada por laudo jurídico.
C O psicólogo deve investigar riscos com neutralidade, respeitando o sigilo e os direitos da criança.
D A criança deve ser logo encaminhada aos órgãos de proteção.
E O terapeuta não pode atuar com famílias em que os pais biológicos não estão presentes.
A alternativa C está correta.
O Código de Ética do Psicólogo prevê atenção contínua aos direitos da criança e o dever de escuta atenta a
sinais de vulnerabilidade. A atuação ética envolve compreender a realidade familiar, respeitar a estrutura de
guarda e estar preparado para agir diante de situações de risco, preservando o vínculo terapêutico e o
bem-estar da criança.
2. Espaço e relação terapêutica
Espaço terapêutico
Construindo o espaço terapêutico infantil
Compreenda neste vídeo a importância do espaço terapêutico na psicoterapia infantil, analisando suas
dimensões física, relacional e simbólica como elementos ativos que promovem segurança, expressão e
elaboração emocional para a criança.
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Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
A psicoterapia com crianças
requer conhecimento técnico,
sensibilidade clínica e um espaço
físico e simbólico que favoreça a
expressão emocional, a
construção de vínculo e a
segurança subjetiva da criança.
O espaço terapêutico vai muito
além da sala de atendimento
decorada com brinquedos. Trata-
se de um ambiente construído a
partir da escuta, do acolhimento,
da previsibilidade e da proteção
emocional. Na clínica infantil,
esse espaço funciona como o
“corpo ampliado” do terapeuta,
ou seja, um lugar no qual a
criança pode projetar afetos,
experimentar relações e
reorganizar suas vivências
psíquicas de forma simbólica.
 Desde o momento em que
entra na clínica, a criança
começa a sentir os efeitos do
ambiente sobre seu
comportamento e suas
emoções. A forma como é
recebida, o tom de voz do
profissional, a disposição dos
brinquedos e até o cheiro do
local podem contribuir para
que ela se sinta segura ou
ameaçada. Por isso, o
terapeuta infantil precisa
considerar todos esses
elementos como parte ativa
do processo clínico. O
espaço, nesse sentido, é
terapêutico não apenas
porque comporta a terapia,
mas porque sustenta e
organiza os processos
psíquicos que nela ocorrem.
 A construção
do espaço
terapêutico
com crianças
deve
respeitar três
dimensões
fundamentais.
Vamos
entender
cada uma
com mais
detalhes!
Dimensão física
Diz respeito à organização concreta da sala: mobiliário acessível,
brinquedos adequados à faixa etária, materiais artísticos, jogos
simbólicos e objetos que possibilitem diferentes modos de expressão
(verbal, corporal, plástica). A criança precisa se sentir convidada a
explorar, tocar, movimentar-se e construir experiências sensoriais que
estimulem sua criatividade e sua liberdade expressiva.
Dimensão relacional 
Refere-se à qualidade da presença do terapeuta no espaço: sua postura
corporal, seu olhar, a forma como escuta e responde, o manejo das
emoções que emergem e o modo como lida com comportamentos
desafiadores. O terapeuta é o mediador entre o mundo interno da criança
e a realidade externa, e seu modo de se relacionar comunica sempre
segurança, respeito e possibilidade de elaboração emocional. A criança,
ao perceber consistência e disponibilidade afetiva, começa a utilizar o
espaço de forma mais autêntica e menos defensiva.
Dimensão simbólica 
Está relacionada ao que o espaço representa subjetivamente para a
criança. A sala de terapia pode ser vivida como um refúgio, um campo de
jogo, um cenário de conflito ou um lugar de reinvenção de si. O terapeuta
precisa estar atento aos significados que a criança atribui ao ambiente e
à sua presença nesse espaço. Ao longo das sessões, é comum que
certos brinquedos sejam escolhidos com certa repetição, que
determinadas áreas da sala ganhem importância, ou que objetos
específicos sejam investidos de sentido afetivo. Essas escolhas são
pistas preciosas quanto aos conteúdos emocionais em jogo.
Outro aspecto importante do espaço terapêutico infantil é a sua previsibilidade. As crianças, em especial
aquelas que apresentam quadros de ansiedade, dificuldades de regulação emocional ou histórico de
negligência, sentem-se mais seguras em ambientes onde há constância e clareza. Isso inclui o horário fixo das
sessões, a permanência dos mesmos objetos na sala, a forma de início e encerramento dos encontros, e a
presença confiável do terapeuta. Pequenas rupturas podem ser sentidas como abandonos ou ameaças, e por
isso o manejo do setting deve ser feito com extremo cuidado e atenção.
É também no espaço
terapêutico que se dá a
transição entre o mundo
externo da criança e seu
mundo interno. As
crianças pequenas não
conseguem, muitas
vezes, falar sobre seus
sentimentos com
clareza. No entanto, ao
brincar de casinha, ao
montar uma história com
animais ou ao desenhar
uma cena, a princípio
simples, elas expressam
medos, desejos,
conflitos e dores. Cabe
ao terapeuta, por meio
da escuta simbólica,
captar essas
manifestações e
oferecer à criança um
espelho afetivo que a
ajude a elaborar o que
sente. O espaço,
portanto, torna-se
continente das emoções
que a criança ainda não
consegue conter
sozinha.
 O espaço terapêutico
funciona como um
lugar de
experimentação segura
de novas formas de se
relacionar. Muitas
crianças chegam à
terapia com histórias
de vínculos frágeis,
rupturas traumáticas
ou relações marcadas
por punição e rejeição.
Ao encontrar no
terapeuta uma figura
constante, que escuta
sem julgar e acolhe
sem invadir, a criança
pode, aos poucos,
reconstruir seu senso
de valor e de
pertencimento. A sala
de atendimento se
transforma, assim, em
um laboratório
emocional onde é
possível testar, repetir,
reparar e reintegrar
vivências psíquicas que
antes estavam
congeladas ou
fragmentadas.
 O terapeuta, por sua
vez, deve saber lidar
com a ambivalência da
criança em relação ao
espaço. Algumas
vezes, o ambiente será
testado como, por
exemplo, brinquedos
serão atirados, regras
serão desafiadas,
limites serão
questionados. Esses
comportamentos não
devem ser entendidos
como desrespeito,
mas como tentativas
inconscientes da
criança de verificar se
o espaço é seguro e se
o terapeuta é
confiável. Saber
sustentar esses testes
com firmeza afetuosa
é parte da tarefa
clínica. Não se trata depermitir tudo, mas de
manter a estrutura
enquanto se acolhe a
expressão da emoção.
Outro ponto importante é
a possibilidade de o
espaço terapêutico ser
usado para construção de
narrativas. Em muitas
sessões, a criança criará
histórias com
personagens, conflitos e
desfechos. Essas
narrativas são, em geral,
projeções simbólicas de
sua realidade interna. Por
meio delas, o terapeuta
pode acompanhar o
desenvolvimento
emocional da criança, suas
estratégias de
enfrentamento e suas
possibilidades de
mudança. O espaço torna-
se, então, palco e cenário
da subjetividade em
movimento.
 É preciso lembrar que o
espaço terapêutico
infantil também deve
respeitar a transparência
ética. Isso significa, por
exemplo, explicar à
criança que aquele é um
espaço só dela, onde
pode se expressar com
liberdade, mas que
também existem
combinados — como o
tempo da sessão, o
cuidado com os objetos, o
uso de palavras para
resolver conflitos.
Estabelecer esse contrato
simbólico com clareza é
indispensável para que o
espaço seja percebido
como confiável,
respeitoso e estruturante.
 Assim, o espaço
terapêutico na
psicoterapia com
crianças é uma
construção
contínua, feita de
matéria, presença
e afeto. Ele não é
neutro, nem
passivo. Pelo
contrário, é um
agente ativo no
processo de
mudança. Quando
bem manejado,
torna-se um
verdadeiro campo
de cura emocional
— um lugar onde
a criança pode
ser, sentir e
transformar.
Relação terapêutica
Construindo vínculos com crianças
Neste vídeo, veja a relação terapêutica como elemento central e determinante na psicoterapia infantil,
identificando os desafios e as estratégias para construir um vínculo seguro e afetivo com a criança e seus
responsáveis.
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A relação terapêutica é o coração do processo psicoterapêutico, ainda mais quando se trata do trabalho com
crianças. Ao contrário dos adultos, que costumam buscar a terapia por vontade própria e são capazes de
refletir e expor suas emoções, as crianças são, na maioria das vezes, levadas ao consultório por decisão dos
pais ou responsáveis, e muitas delas sequer compreendem o que significa “fazer terapia”. Por isso, mais do
que em qualquer outra modalidade de atendimento, a qualidade do vínculo entre terapeuta e criança é fator
determinante para o êxito da psicoterapia infantil.
Construir uma relação terapêutica com uma criança requer
sensibilidade, escuta ativa, paciência e uma postura afetiva e segura. A
criança precisa sentir que está em um lugar confiável, no qual pode se
expressar sem medo de julgamento, punição ou abandono. Esse
ambiente de segurança emocional é o que permite que ela baixe suas
defesas e inicie um processo genuíno de expressão, elaboração e
transformação psíquica. O terapeuta, nesse contexto, apresenta-se
como uma figura estável, interessada e respeitosa — alguém que se
importa com o que ela sente e pensa.
Um dos principais desafios da relação terapêutica com crianças é a assimetria entre terapeuta e paciente. Ao
contrário dos adultos, as crianças não têm clareza sobre o contrato terapêutico, os objetivos do processo ou
mesmo o papel que o psicólogo desempenha. 
A relação entre o terapeuta e a criança precisa ser construída a partir de elementos que ela
compreenda e valorize: o brincar, a atenção verdadeira, o respeito ao tempo subjetivo, a
manutenção de combinados e a previsibilidade nas interações. Quando a criança percebe que suas
manifestações são escutadas e validadas, tende a se engajar com mais autenticidade na relação.
O vínculo terapêutico na infância é mediado pela linguagem não verbal. A criança expressa suas emoções
através do corpo, do tom de voz, da escolha dos brinquedos, das brincadeiras e das metáforas que constrói.
O terapeuta deve estar atento a esses sinais, escutando com os olhos, com o corpo e com o afeto. É comum
que, nos primeiros encontros, a criança teste o profissional, ignorando, desobedecendo, escondendo-se ou
desafiando. Esses comportamentos não devem ser vistos como resistência, mas como formas de verificar se
o terapeuta é confiável, se mantém os limites com afeto e se é capaz de acolher inclusive os afetos mais
difíceis.
Outro ponto da relação
terapêutica é a
disponibilidade afetiva do
profissional, ou seja, estar
emocionalmente presente. A
criança percebe quando o
adulto está distraído,
impaciente ou
desconectado. Por isso, a
atenção plena no aqui-e-
agora da sessão é
indispensável. Como diria
Gilberto Gil, “O melhor lugar
do mundo é aqui / E agora
[…] Aqui de onde o olho mira
/ Agora que o ouvido
escuta”. Logo, concentre-se!
Esteja por inteiro. Guarde o
celular, silencie as
distrações. Não só olhe, mas
enxergue essa criança —
com presença, intenção e
acolhimento.
 Mais do que
qualquer
técnica ou
interpretação,
o que cura na
terapia infantil
é a
experiência
de ser visto,
compreendido
e acolhido por
alguém que
se importa de
forma
genuína. 
 O vínculo terapêutico também
permite que o terapeuta se torne
uma “base segura” para a
criança. A partir dessa
segurança relacional, ela pode
explorar seus conflitos internos,
elaborar memórias difíceis,
ensaiar novos comportamentos
e desenvolver maior capacidade
de regulação emocional. A
relação com o terapeuta oferece
um modelo relacional alternativo
àqueles vividos em casa ou na
escola. Isso é importante em
casos em que a criança sofreu
negligência, rejeição, abuso ou
perdas importantes. A relação
terapêutica, além de tratar o
trauma, é capaz de repará-lo,
oferecendo novas possibilidades
de vínculo e confiança.
Atenção
O vínculo se constrói tanto com a criança quanto com os responsáveis. A forma como o terapeuta lida
com os pais influencia a percepção que a criança tem sobre o processo. Quando os pais se sentem
acolhidos, compreendidos e respeitados, tendem a se engajar com mais responsabilidade na terapia,
facilitando a construção do vínculo com a criança. Por outro lado, posturas acusatórias ou distantes por
parte do terapeuta podem gerar desconfiança e sabotagem do processo terapêutico. 
O vínculo terapêutico é também um espaço de reparação emocional. Muitas crianças internalizam a ideia de
que não são boas, não são amadas ou que precisam ser perfeitas para merecer carinho. Quando o terapeuta
acolhe de forma incondicional, inclusive comportamentos difíceis, sem perder a firmeza, ele oferece uma
experiência corretiva poderosa. A criança descobre que pode errar, sentir raiva, expressar tristeza e, mesmo
assim, continuar sendo respeitada e cuidada. Essa vivência transforma o modo como ela se percebe e como
se relaciona com aqueles que estão ao seu redor.
 
Também é preciso considerar que o vínculo terapêutico passa por fases. De início, a criança pode estar
desconfiada ou pouco engajada. Com o tempo, tende a estabelecer uma relação de confiança, que pode
incluir apego e idealização. Mais adiante, podem surgir momentos de frustração, recuos ou até ruptura
temporária do vínculo. Cabe ao terapeuta sustentar esses movimentos com maturidade, compreendendo-os
como parte do processo de desenvolvimento emocional da criança. Saber manejar as crises da relação
terapêutica é tão importante quanto saber construí-la.
 
A consistência do terapeuta é uma variável fundamental para o vínculo. Isso significa manter os horários, não
faltar sem aviso, iniciar e encerrar as sessões no tempo combinado, manter os limites acordados e estar
emocionalmente disponível em cada encontro. A previsibilidade cria um ambiente de segurança que permite à
criança acessar conteúdos emocionais mais profundos. Quando o terapeuta é inconsistente, ausente ou
desorganizado, o vínculo fica fragilizado, e o processo terapêutico pode ser interrompido de modo prematuro.
A relação terapêutica deve ser vista como uma intervenção em si e não como um canal pelo qual as
técnicas são aplicadas: ela é, por si só, terapêutica. 
É na relação que a criança experimenta afeto seguro, respeito mútuo, reparação simbólica e oportunidade de
ressignificar experiências dolorosas. Quando esse vínculo é bem estabelecido emantido, a criança ganha
recursos internos para lidar com desafios, construir relações mais saudáveis e fortalecer sua autoestima.
Portanto, essa relação é um espaço de construção, reparação e transformação, pois exige do terapeuta
presença real, escuta afetiva, ética relacional e sensibilidade para sustentar, com firmeza e delicadeza, os
vínculos que curam.
Verificando o aprendizado
Questão 1
Uma terapeuta observa que uma criança repete sempre os mesmos brinquedos durante as sessões e se
mostra muito sensível a qualquer alteração no ambiente da sala. Em uma semana, a disposição dos móveis foi
alterada, e a criança passou a se mostrar retraída e evitativa. Com base nesse cenário, o que o terapeuta deve
considerar como mais relevante?
A As brincadeiras repetitivas indicam resistência e devem ser evitadas.
B A disposição dos móveis é irrelevante no processo terapêutico com crianças.
C A previsibilidade do ambiente contribui para a sensação de segurança emocional.
D A criança está apenas imitando comportamentos vistos em casa.
E As mudanças no ambiente devem ser constantes para promover estímulos cognitivos.
A alternativa C está correta.
A previsibilidade no espaço terapêutico cria um ambiente seguro. As alterações bruscas, mesmo físicas,
podem gerar insegurança em crianças com maior sensibilidade. A constância contribui para o vínculo e o
sentimento de proteção.
Questão 2
Durante as primeiras sessões, uma criança não responde às perguntas do terapeuta, ignora os brinquedos
oferecidos e permanece calada, mesmo sendo incentivada a brincar. Com base nisso, qual deve ser a postura
mais adequada do terapeuta nesse contexto?
A Aumentar o número de estímulos e brinquedos para chamar a atenção da criança.
B Informar os pais de que a criança não está apta a iniciar o processo terapêutico.
C Sustentar a presença afetiva e respeitar o tempo subjetivo da criança para se vincular.
D Fazer perguntas mais diretas para acelerar o vínculo com a criança.
E Corrigir a criança e explicar que ela precisa colaborar para continuar sendo atendida.
A alternativa C está correta.
O vínculo terapêutico se constrói com paciência, presença afetiva e respeito ao tempo da criança. A
tentativa de forçar o engajamento pode provocar retraimento ou resistência. A confiança nasce da
constância, não da exigência.
3. Papel da psicoterapia e sintomas
O papel da psicoterapia 
O poder da terapia infantil
Neste vídeo, você vai compreender o papel multifacetado da psicoterapia infantil — um espaço de escuta
sensível, elaboração emocional, desenvolvimento de recursos internos e fortalecimento de vínculos. A
proposta é promover a saúde mental e prevenir possíveis agravos na infância.
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Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
A infância é um período marcado por
intensas transformações físicas,
cognitivas, emocionais e sociais.
Nesse estágio da vida, são formadas
as bases do desenvolvimento
humano, como habilidades
linguísticas, controle emocional,
vinculação afetiva, identidade e
formas de lidar com frustrações. No
entanto, é também uma fase de
vulnerabilidade, sujeita a experiências
adversas, como conflitos familiares,
lutos, violência, negligência e
dificuldades escolares. Diante desse
contexto, a psicoterapia infantil ganha
relevância como instrumento de
cuidado, prevenção e fortalecimento
emocional.
 Mais do que tratar
sintomas ou corrigir
comportamentos, a
psicoterapia infantil
oferece à criança um
espaço seguro de escuta,
expressão simbólica e
elaboração emocional.
Nesse ambiente, ela pode
construir recursos
internos para enfrentar
desafios, elaborar
experiências e formar
narrativas mais saudáveis
sobre si mesma e sobre o
mundo. Assim, a terapia
atua como proteção e
formação subjetiva. 
 A seguir,
observe como a
psicoterapia
pode agregar no
processo de
desenvolvimento
global da
criança.
1
Compreensão e identificação dos sentimentos da criança
Você sabia que, muitas vezes, comportamentos desorganizados surgem da dificuldade em identificar
e expressar emoções? O terapeuta, como tradutor afetivo, guia a criança nesse processo, para que
ela seja capaz de conectar sensações, pensamentos e linguagem. Ao acolher emoções como raiva,
tristeza ou medo, contribui-se para o desenvolvimento da autorregulação emocional e da empatia.
2
Resgate ao protagonismo da criança
Mesmo que a criança viva em ambientes onde é silenciada ou tratada como um problema, no espaço
terapêutico, ela poderá reafirmar sua voz e seu valor. Essa experiência fortalece a autoestima e o
senso de identidade, ainda mais em casos de negligência ou violência emocional.
3Contenção psíquica
Situações como separações, mortes, hospitalizações ou adoção exigem um suporte emocional que
muitas crianças ainda não possuem. O terapeuta, ao acolher e organizar essas experiências de forma
simbólica, torna-se um continente emocional que favorece a resiliência e promove uma relação
segura e transformadora.
4
Identificação de transtornos em formação
Alguns dos exemplos envolvem: ansiedade, depressão, TDAH, TEA e transtornos do apego. Ao
detectar sinais iniciais, o tratamento pode ser mais eficiente, evitando o agravamento dos quadros e
ampliando a qualidade de vida da criança e de sua família. A prevenção, nesse contexto, traz
melhores resultados do que intervenções tardias.
5
Trabalho com o contexto da criança
A psicoterapia atua sobre o indivíduo, bem como sobre seu ambiente, o que inclui orientação aos
pais, contato com a escola e articulação com outros profissionais da rede de apoio. O sofrimento
infantil, na maioria das vezes, está vinculado ao meio em que a criança vive. Por isso, a intervenção
deve ser sistêmica e integrada.
6
Reparos emocionais
Crianças que passaram por rejeições, abusos ou humilhações criam crenças negativas sobre si
mesmas. O vínculo terapêutico pode ser uma experiência corretiva, mostrando que é possível ser
aceito, confiar e ser amado, mesmo com falhas. Você pode imaginar o tanto que isso impacta a
formação subjetiva?
7
Desenvolvimento da criatividade, imaginação e linguagem simbólica
O brincar, recurso clínico básico, leva a criança a elaborar conflitos internos e expressar sentimentos
inconscientes. Histórias, desenhos, dramatizações e jogos tornam-se caminhos de expressão e cura,
sendo o terapeuta um facilitador atento e respeitoso desse processo.
8
Dificuldades de socialização, retraimento ou agressividade
O vínculo terapêutico oferece um "ensaio relacional", no qual a criança aprende a se vincular, a
confiar e a lidar com erros e frustrações. O terapeuta torna-se, mesmo que de modo temporário,
uma figura de apego seguro, influenciando outros relacionamentos (para melhor, claro).
9Papel educativo no sentido amplo
Ajuda a criança a compreender sentimentos, respeitar limites, lidar com frustrações e desenvolver
uma ética relacional baseada no respeito e cooperação. Esses aprendizados são vividos no cotidiano
terapêutico, através da relação, e não impostos por fatores externos.
É importante reforçar que o papel da psicoterapia não é moralizar nem adestrar a criança. A intenção não é
apenas torná-la obediente ou menos sintomática, mas sim fortalecer sua identidade, ampliar seu repertório
emocional e ajudar na elaboração simbólica de conflitos. O terapeuta escuta, acolhe, sustenta e ajuda a
reorganizar, sem julgamentos ou punições.
 
Portanto, a psicoterapia infantil vai muito além da eliminação de sintomas. Trata-se de cuidar da subjetividade
em formação, proteger a infância, oferecer escuta verdadeira e criar oportunidades de crescimento mais livre
e saudável. O terapeuta atua como mediador, acompanhante e base segura. Por meio da terapia, a criança se
reconhece, fortalece e segue seu desenvolvimento com mais sentido, leveza e potência.
Sintomas em psicoterapia
O significado diverso dos sintomas na infância
Neste vídeo, conheça o sintoma na psicoterapia infantil não como algo a ser eliminado, mas como uma forma
de comunicação — uma expressão do sofrimento da criança. Vamos explorarsua função relacional e a
relevância de uma escuta qualificada para favorecer sua compreensão e elaboração.
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Qual o primeiro motivo que leva pais a procurarem ajuda psicológica na clínica infantil? Os sintomas, que
podem aparecer como birras, medos, dificuldades escolares, agressividade, retraimento, enurese, alterações
no sono ou alimentação — comportamentos que, do ponto de vista adulto, fogem do esperado para a idade.
No entanto, na psicoterapia infantil, o sintoma não é tratado como algo a ser eliminado, mas como uma
linguagem que expressa algo importante da vida emocional da criança e precisa ser compreendido, acolhido e
elaborado.
 
Uma das funções do terapeuta é auxiliar os cuidadores a mudarem o olhar sobre o sintoma, saindo de uma
visão corretiva e caminhando para uma escuta mais sensível e abrangente. É preciso trocar a pergunta de
“como eliminar o sintoma?” para “o que esse sintoma quer comunicar?”. Essa mudança é a principal
responsável para que o processo terapêutico seja ético e traga resultados.
Como sabemos, os adultos costumam
verbalizar seu sofrimento e, do outro lado,
a criança se expressa por meio do corpo,
do comportamento e do brincar. Assim,
sintomas como agressividade ou recusa
escolar podem ser formas desorganizadas
— porém legítimas — de lidar com
angústias internas ou pressões do
ambiente. Esses sinais devem ser
escutados como tentativas da criança de
se organizar diante de algo que não
consegue nomear.
O sintoma infantil é sempre
relacional, pois emerge em
determinado contexto:
familiar, escolar ou social. O
mesmo comportamento
pode ter significados
distintos em ambientes
diferentes. Por isso, a
abordagem clínica precisa
considerar o entorno da
criança e não apenas a
queixa em si.
Na prática, muitos pais
chegam ao consultório
com o desejo de “corrigir”
o comportamento-
problema o mais rápido
possível. Essa urgência,
embora compreensível,
pode atrapalhar a escuta
das funções que o
sintoma exerce. Muitas
vezes, o sintoma é a única
forma que a criança
encontrou para manter os
pais por perto, expressar
sofrimento ou protestar
contra situações difíceis.
Suprimir o sintoma sem
compreender suas raízes
pode até gerar alívio
imediato, mas não resolve
a dor que o originou — e
essa dor poderá se
manifestar de outras
formas no futuro.
 Na psicoterapia, o
sintoma se torna
uma porta de
entrada para o
vínculo e para o
autoconhecimento.
Ele é inserido na
relação
terapêutica como
uma linguagem
simbólica, não
combatido. A
criança é
convidada a
explorar o que
sente e a construir
novas formas de
expressão e
enfrentamento
emocional. Esse
processo é feito
de forma
cuidadosa,
respeitando o
tempo e o ritmo de
cada criança.
 Ao longo da terapia, é
comum que os sintomas
mudem: podem se
intensificar, desaparecer
ou dar lugar a outras
manifestações. Esses
movimentos não devem
ser interpretados, de
pronto, como melhoras ou
recaídas. É preciso vê-los
como parte do processo
de reorganização psíquica.
O terapeuta deve
sustentar essas fases com
escuta atenta e sem
julgamentos. Em alguns
casos, o desaparecimento
rápido de um sintoma
pode representar defesa,
não cura; e o surgimento
de novos comportamentos
pode sinalizar que
conteúdos mais
enraizados estão vindo à
tona.
Envolver os cuidadores no processo terapêutico, promovendo conversas sobre o significado dos
sintomas, é uma etapa crucial. Muitos pais se culpam ou culpam a criança, o que gera mais tensão
no ambiente familiar. Explicar que o sintoma pode ser uma tentativa de comunicação e não uma
“birra” ou “manipulação” favorece atitudes mais empáticas e mudanças no contexto da criança.
Em diversas situações, o sintoma expressa tanto o sofrimento individual da criança quanto os conflitos da
família como um todo. A criança pode funcionar como “porta-voz” do mal-estar coletivo. Nessas situações, o
trabalho terapêutico pode incluir orientações parentais, sessões com a família ou encaminhamentos para
outros profissionais. O objetivo é transformar o ambiente para que a criança não precise mais usar o sintoma
como única forma de se expressar.
 
O terapeuta também precisa manter uma postura ética diante da expectativa dos pais. Caso se alinhe apenas
à demanda adulta de “fazer o sintoma sumir”, corre o risco de instrumentalizar a criança, deixando de
reconhecê-la como sujeito. O compromisso ético da psicoterapia infantil é com o bem-estar e a subjetividade
da criança, mesmo que isso implique frustração temporária dos adultos.
Atenção
É essencial distinguir sintomas normais do desenvolvimento de sinais de sofrimento psíquico. Algumas
manifestações fazem parte de determinadas fases da infância, mas se tornam preocupantes quando são
muito intensas, frequentes ou causam prejuízo considerável. O terapeuta deve conhecer o
desenvolvimento infantil para fazer essa diferenciação com sensibilidade. 
A supressão imediata dos sintomas não deve ser o foco da terapia. Quando o significado do sintoma é
compreendido e elaborado, ele tende a perder sua função e desaparecer de forma mais consistente. A criança
desenvolve formas mais saudáveis de expressar suas dores, assim como seus desejos e suas necessidades.
O modo como o terapeuta acolhe o sintoma influencia o vínculo terapêutico. Quando a criança percebe que
pode brincar, chorar, expressar-se sem medo de punição ou correção, ela se sente segura para confiar. O
sintoma, assim, torna-se ponte entre o sofrimento e a transformação.
Na psicoterapia infantil, o sintoma é tratado como linguagem simbólica, não como erro a ser corrigido. Ele
revela aspectos do mundo interno da criança e, se acolhido com cuidado, pode se transformar em recurso de
escuta, crescimento e reorganização psíquica. O terapeuta, ao escutar esse sinal com sensibilidade e ética,
ajuda a criança a encontrar outras formas de existir e de se comunicar com o mundo.
Verificando o aprendizado
Questão 1
Uma criança de 7 anos, com histórico de mudanças frequentes de escola e conflitos familiares, apresenta
comportamento agressivo e dificuldade de vínculo. Na terapia, começa a brincar com histórias de abandono e
perda. O terapeuta acolhe esse conteúdo e sustenta o vínculo com afeto e constância. Com base nesse
contexto, qual papel da psicoterapia está sendo exercido?
A Treinamento comportamental baseado em reforço positivo.
B Controle dos sintomas por meio de punições e correções.
C Correção moral para adequação da criança ao ambiente escolar.
D Acolhimento simbólico e reparação emocional por meio do vínculo terapêutico.
E Autorregulação, ensinando a criança a se calar e obedecer aos adultos.
A alternativa D está correta.
A psicoterapia não busca corrigir a criança, mas oferecer vivências simbólicas de acolhimento e
reorganização emocional. O vínculo terapêutico, quando estável e afetivo, promove reparações
significativas de vivências passadas.
Questão 2
Uma criança de 6 anos inicia a terapia apresentando crises de raiva constantes. Os pais solicitam que o
terapeuta elimine logo esses comportamentos. Qual deve ser a postura clínica mais adequada?
A Trabalhar para suprimir os episódios de raiva o mais rápido possível.
B Reforçar para os pais que o comportamento da criança é apenas uma fase passageira.
C Acolher o sintoma como linguagem simbólica e investigar o que a raiva representa para a criança.
D Ignorar o sintoma e priorizar atividades lúdicas que distraiam a criança.
E Enviar a criança para avaliação psiquiátrica.
A alternativa C está correta.
O sintoma infantil não deve ser suprimido, pois ele tem uma função psíquica que expressa conflitos e
necessidades emocionais. Ao ser acolhido e compreendido, oferece à criança a possibilidade de elaborar
sentimentos, fortalecer seu desenvolvimento emocional e encontrar formas mais saudáveis de lidar com
suas dificuldades.
4. Entrevista de devolução
Aspectos técnicos e clínicos da entrevista devolutiva
A devolutiva na psicoterapia infantil
Neste vídeo, compreenda a entrevista de devolução como um momento-chavepara compartilhar com os pais
as observações clínicas sobre a criança, construir hipóteses compreensivas e definir, em conjunto, um plano
de ação. 
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
A devolutiva é um dos momentos
mais sensíveis e decisivos da
psicoterapia com crianças. Ao
contrário do que muitos
imaginam, a devolutiva não é o
momento de entregar um
“diagnóstico fechado” ou uma
lista de comportamentos
disfuncionais a serem corrigidos.
O foco não está em rotular a
criança, mas sim em traduzir, de
forma acessível, ética e com
sensibilidade, o que foi
observado na escuta clínica —
tanto com os pais quanto com a
própria criança — ao longo das
sessões iniciais. A devolução
deve ser construída com
cuidado, respeitando o ritmo da
família, suas possibilidades de
compreensão e os afetos
envolvidos no processo.
 Uma das principais dificuldades
do terapeuta é equilibrar o rigor
clínico com a linguagem acessível.
A entrevista devolutiva não é uma
aula teórica nem uma devolução
fria de dados. Trata-se de um
encontro terapêutico com os
adultos que cuidam da criança, no
qual as percepções são
compartilhadas, ansiedades
acolhidas e os próximos passos
são planejados em conjunto. Por
isso, é necessário que o
profissional saiba o que devolver,
como devolver e em que
momento. Cada família tem um
nível de compreensão e de
disponibilidade emocional. O
terapeuta precisa calibrar sua fala
para que informe sem invadir,
oriente sem culpabilizar, esclareça
sem rotular.
 De modo
geral, a
devolução
deve incluir
as seguintes
informações:
A queixa e o que foi escutado
Retomar, com palavras dos pais e da criança, os principais motivos que levaram à busca por
atendimento. Mostrar que houve escuta cuidadosa e validação das experiências relatadas.
Observações clínicas iniciais
Compartilhar aspectos observados no comportamento da criança durante as sessões, tanto verbal
quanto não verbalmente. Falar sobre o brincar, os temas simbólicos recorrentes, o vínculo
estabelecido, o manejo com limites e afetos.
Hipóteses de funcionamento emocional
De forma cuidadosa e hipotética, apresentar ideias sobre como a criança pode estar organizando sua
vida psíquica diante dos contextos vividos. Evitar rótulos diagnósticos fechados neste momento, em
especial, se o processo avaliativo ainda estiver em curso.
A função dos sintomas ou comportamentos
Ajudar os pais a compreenderem que os sintomas são formas de expressão emocional, não falhas ou
manipulações. Identificar a função que determinado comportamento pode ter no sistema familiar ou
relacional.
Fatores de proteção e de risco
Apontar recursos positivos que a criança e a família já possuem (afetividade, abertura para o diálogo,
rotina estruturada, apoio escolar etc.) e também aspectos que podem estar fragilizando o
desenvolvimento emocional da criança (excesso de cobrança, insegurança parental, histórico de
perdas ou traumas, ausência de escuta etc.).
Proposta de plano terapêutico inicial
Explicar os objetivos da continuidade da psicoterapia, a frequência recomendada, a necessidade (ou
não) de encaminhamentos complementares (como avaliação neuropsicológica, psicopedagógica ou
psiquiátrica) e a possibilidade de encontros paralelos com os pais (orientação parental).
Outro aspecto técnico importante é o tempo da devolução, momento que não deve, de modo algum, ser
precipitado. É preciso que o terapeuta tenha escutado os responsáveis o suficiente, conhecido a criança em
alguns encontros e reunido material clínico relevante para poder oferecer uma devolutiva útil e respeitosa. Em
geral, a devolutiva ocorre entre a quarta e a sexta sessão, mas esse tempo pode variar conforme a
complexidade do caso e o ritmo de vínculo com a criança.
É necessário ainda que o
terapeuta tenha atenção
às reações emocionais
dos pais durante a
devolutiva. Não é
incomum que surjam
sentimentos de culpa,
vergonha, negação ou
resistência diante das
observações do
profissional. Por isso, a
devolução precisa ser
uma conversa com
espaço para perguntas,
desabafos e elaboração
conjunta, não um
monólogo técnico. O
terapeuta precisa validar
esses afetos, oferecer
acolhimento e ajudar os
pais a se reconhecerem
como parte fundamental
do processo de
mudança.
 A devolutiva também
deve evitar posturas
prescritivas ou
moralizantes. Dizer
aos pais o que “devem
fazer” pode gerar
resistência e não
produz transformação.
O terapeuta deve, em
vez disso, oferecer
pistas, abrir
possibilidades e
favorecer a
autorreflexão dos
cuidadores sobre seu
papel, suas práticas
educativas e os
efeitos disso no
desenvolvimento
emocional da criança.
A linguagem deve ser
respeitosa, não
acusatória, evitando
termos que
culpabilizem ou
envergonhem.
 Outro cuidado técnico
importante é com a
especificidade da
escuta devolvida.
Devolver apenas
generalidades ("ela é
muito sensível", "ele
precisa de mais
atenção", "ela é
tímida") empobrece a
devolutiva e impede
que os pais saiam com
clareza sobre o que
observar e transformar.
O terapeuta deve
traduzir, com exemplos
do comportamento da
criança, os aspectos
que estão em jogo,
sempre mantendo o
sigilo do que foi dito
pela criança e
protegendo sua
confiança na relação
terapêutica.
Recomendação
Pense na devolutiva não como o encerramento da avaliação, mas o início de um pacto terapêutico. A
forma como esse momento é conduzido pode definir o engajamento dos responsáveis e a continuidade
do processo. Uma devolutiva empática, ética e clínica amplia a consciência dos pais, fortalece o vínculo
com o terapeuta e posiciona a criança como sujeito — e não como problema a ser corrigido. 
A devolução também é um momento de escuta ativa. Não basta dizer aos pais o que foi observado. É preciso
perguntar a eles o que pensam sobre isso, o que reconhecem em casa, como se sentem ao ouvir tais
informações. Dessa forma, o terapeuta pode acompanhar a elaboração parental, ajustar sua comunicação e
envolver a família de forma mais significativa no cuidado com a criança.
Na entrevista de devolução, é necessário devolver muito mais do que “dados técnicos”: precisamos incluir
escuta, confiança, elaboração conjunta e um caminho possível para o desenvolvimento emocional da criança.
O que se devolve é uma perspectiva clínica que convida os pais à corresponsabilidade — sem culpas, mas
com consciência, participação e afeto.
Devolução: aliança terapêutica e corresponsabilidade
parental
Pontes com a família na terapia infantil
Neste vídeo, entenda como a entrevista de devolução na psicoterapia infantil vai além de um simples relato
técnico, tornando-se um momento determinante para construir uma aliança terapêutica com os pais.
Conteúdo interativo
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A entrevista de devolução, no contexto da psicoterapia com crianças, representa muito mais do que uma
síntese técnica de informações clínicas. Ela é um ato de cuidado, escuta e construção de vínculos entre o
terapeuta, os responsáveis e, de forma indireta, a própria criança. Quando conduzida com sensibilidade,
clareza e ética, a devolução se torna um momento de grande potência terapêutica, pois ela inicia ou fortalece
uma aliança terapêutica sólida e estabelece a base para um compromisso compartilhado em torno do cuidado
emocional da criança — o que chamamos de corresponsabilidade parental.
Precisamos também
entender a atuação dos
pais ou responsáveis,
que transcende a mera
coleta de informações
no processo
terapêutico. Eles
configuram-se como 
agentes promotores da
transformação. Quando
se sentem respeitados,
escutados e
compreendidos,
tornam-se mais abertos
a refletir sobre suas
práticas, reconhecer
seus desafios e
colaborar com o
trabalho clínico. A
devolutiva, nesse
sentido, é o espaço em
que o terapeuta convida
os cuidadores a se
tornarem parceiros no
cuidado emocional da
criança, não apenas
espectadores que
esperam resultados
prontos e rápidos.
 Para que essa aliança
se estabeleça de
maneira ética e
funcional, o terapeuta
precisa ir além da
entrega de dados
clínicos. Ele deve
cultivar uma posturadialógica, que
considere os pais
como sujeitos com
histórias, emoções e
crenças. Em vez de
apenas “comunicar
resultados”, o
terapeuta constrói
junto com os
responsáveis um
entendimento comum
sobre o que foi
observado na
avaliação, quais
hipóteses estão sendo
levantadas e como o
processo pode se
desenvolver a partir
dali. É esse caráter
colaborativo da
devolução que a torna
fértil para o
engajamento.
 A construção da
aliança terapêutica
exige do profissional
competências
relacionais refinadas.
Muitos pais chegam
à devolutiva com
sentimentos
ambíguos, como
esperança de
melhora, medo de
julgamento,
insegurança quanto
à própria
parentalidade ou até
resistência
defensiva. O
terapeuta, por sua
vez, precisa acolher
essas emoções sem
reatividade,
legitimando o
esforço dos
responsáveis e
oferecendo um
espaço onde
possam pensar
sobre si mesmos e
sobre a criança com
menos culpa e mais
consciência.
 É nesse
cenário
que
surgem
alguns
conceitos.
Vamos
conferi-
los!
1
Corresponsabilidade parental
Ao envolver os cuidadores no processo, o terapeuta propõe uma nova lógica de funcionamento:
trata-se de compreender as dinâmicas relacionais que sustentam ou fragilizam o desenvolvimento
emocional infantil. A corresponsabilidade não é acusatória — ela é empoderadora. Os pais
descobrem que, ao mudarem suas posturas, rotinas ou formas de escuta, podem favorecer o bem-
estar da criança. Isso transforma a relação terapêutica em um espaço de reconstrução de vínculos
familiares.
2Validação dos esforços parentais
Mesmo quando há práticas inadequadas, é importante reconhecer que muitos cuidadores fazem o
melhor que podem com os recursos que possuem. Validar não significa concordar com tudo, mas
sim partir do reconhecimento da intenção positiva, criando abertura para o diálogo e a mudança.
3
Formulação conjunta das hipóteses
Em vez de apresentar conclusões prontas, o terapeuta pode usar expressões como: “Algo que tenho
observado é que...”, “Uma possibilidade que podemos considerar juntos é...”, ou ainda “O que vocês
acham sobre isso?”. Essas construções linguísticas comunicam humildade clínica, abrem espaço para
escuta e convidam os pais à coautoria da compreensão e da intervenção.
A devolução também pode ser o momento em que se define o pacto terapêutico: o que será feito, com que
frequência, com quais objetivos iniciais e qual será o papel de cada um. Esse acordo não precisa ser rígido,
mas serve como norte para que pais e terapeuta estejam alinhados quanto às expectativas e
responsabilidades. É importante incluir nesse pacto a possibilidade de revisões constantes, pois o processo
clínico é dinâmico e precisa acompanhar as transformações da criança e de sua rede.
 
Também é preciso considerar que a qualidade da aliança estabelecida com os responsáveis repercute na
adesão e no progresso da criança. Quando os adultos se sentem participantes e valorizados no processo,
tendem a validar mais o espaço terapêutico para a criança, respeitar os combinados e colaborar com os
encaminhamentos propostos. Por outro lado, quando os pais se sentem culpabilizados, excluídos ou
desrespeitados, a terapia perde força, e a criança pode ficar dividida entre o terapeuta e os cuidadores, o que
prejudica o vínculo com ambos.
 
Cabe ainda lembrar que, em muitos casos, a devolução pode ser o primeiro momento em que os pais escutam
alguém falando com conhecimento sobre o mundo emocional de seu filho. Isso pode despertar emoções
intensas, reações defensivas ou até choques de realidade. O terapeuta precisa manejar esses momentos com
firmeza afetuosa, reconhecendo o impacto das informações e oferecendo suporte para que os pais possam
digerir e processar o que foi dito. A aliança se fortalece quando o terapeuta é capaz de sustentar a verdade
clínica sem perder a empatia.
A construção de corresponsabilidade na devolução implica posicionar a criança como sujeito de
direitos, e não como objeto de avaliação. Os pais devem compreender que o espaço terapêutico é
da criança, e que suas produções simbólicas e afetivas ali expressas merecem respeito e sigilo. O
terapeuta pode, sim, compartilhar aspectos do processo, mas sempre com critério, ética e foco no
que é necessário para favorecer o cuidado. Essa postura ensina, por modelagem, que a escuta
respeitosa é um valor a ser cultivado dentro e fora da clínica.
A aliança e a corresponsabilidade se constroem ao longo de todo o processo terapêutico, mas a forma como
essa primeira conversa ocorre pode abrir — ou fechar — portas importantes. Quando bem conduzida, a
devolução transforma pais inseguros em parceiros ativos e terapeutas isolados em facilitadores de redes de
cuidado.
Verificando o aprendizado
Questão 1
O terapeuta relata aos pais que a criança apresenta comportamentos disfuncionais e cita termos como
“desafiador”, “inadequado” e “opositor” sem oferecer contexto ou reflexões clínicas durante a entrevista de
devolução. Os pais saem preocupados e sem entender o que devem fazer. Com base nisso, qual foi o principal
erro técnico cometido pelo terapeuta?
A Ter falado de maneira muito simples, sem linguagem técnica.
B Ter deixado os pais participarem demais da conversa.
C Ter utilizado termos estigmatizantes sem explicar suas funções ou contextos.
D Ter realizado a devolutiva com tempo insuficiente.
E Ter ignorado a possibilidade de encaminhamento medicamentoso.
A alternativa C está correta.
A devolução deve ser feita com sensibilidade e clareza, evitando termos que culpabilizem ou estigmatizem
a criança. O terapeuta precisa contextualizar as observações e abrir espaço para o entendimento e a
reflexão dos pais.
Questão 2
No processo de entrevista devolutiva, é esperado que o terapeuta apresente suas hipóteses diagnósticas de
maneira compreensível e estimule a participação ativa dos responsáveis. No entanto, ao empregar uma
comunicação mais técnica, sem explicações adequadas, o profissional observa que, ao término da sessão, os
pais aparentam desconforto e evitam questionamentos. 
 
Considerando os aspectos da construção de uma aliança terapêutica efetiva, qual elemento foi comprometido
nesse atendimento?
A O uso de relatórios escolares como base da devolução.
B A definição do diagnóstico formal da criança.
C A escuta ativa e o envolvimento dos pais na construção conjunta da devolução.
D A imposição de limites à participação parental.
E O envio da criança a sessões individuais após a devolução.
A alternativa C está correta.
A devolução deve ser um diálogo que envolva os pais como parceiros, fortalecendo a confiança, a
corresponsabilidade e a adesão ao tratamento. Ao compartilhar informações e valorizar suas experiências,
cria-se um espaço de escuta mútua que contribui para o bem-estar da criança.
5. Conclusão
Considerações finais
O processo psicoterapêutico com crianças é um caminho clínico e ético que se constrói com escuta, vínculo,
simbolização e corresponsabilidade. Mais do que tratar sintomas ou ajustar comportamentos, a psicoterapia
infantil visa sustentar a subjetividade da criança em desenvolvimento, oferecendo-lhe um espaço protegido
onde possa expressar sentimentos, elaborar vivências e construir novas formas de se relacionar com o
mundo. Ao longo deste conteúdo, percorremos os principais fundamentos dessa prática, desde os primeiros
contatos com a família até a devolução clínica e a continuidade do cuidado.
Vimos diversos conceitos que compõe o processo psicoterapêutico. Primeiro, analisamos a entrevista inicial e
a anamnese, que se mostraram como instrumentos importantes para compreender o contexto da criança e
formular hipóteses clínicas fundamentadas. O espaço terapêutico, por sua vez, revelou-se como cenário
simbólico, continente emocional e lugar de vínculo. Já a relação terapêutica foi compreendida como o próprio
eixo do processo, pois é a qualidade dessa relação que sustenta a possibilidade de transformação. O papel da
psicoterapia infantil foi ampliado para além da intervenção em crises, assumindo uma função preventiva,
educativa e reparadora. Também