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Disciplina 8 Psicopedagogia baseada na análise do comportamento aplicada Este material está protegido por leis de direitos autorais. Todos os direitos sobre ele estão reservados. Está proibida a venda, distribuição gratuita ou cópia e reprodução integral ou parcial desse conteúdo em sites, blogs, jornais ou quaisquer veículos de distribuição e mídia. Qualquer tipo de violação dos direitos autorais estará sujeito a ações legais. Sumário Ensino em Quadros de Dislexia: Avaliação em Quadros de Dislexia 7 Conceito 7 Origem 7 Diagnóstico 8 Mas por que classificar um transtorno mental? 10 Sintomas ou sinais para dislexia 11 Intervenções para trabalhar na dislexia 13 O papel na psicopedagogia comportamental 14 Mas existem boas e más notícias 15 A dislexia em relação a outros transtornos do neurodesenvolvimento 17 Algumas definições de dislexia 19 Vocês sabiam? 21 Teorias sobre o cérebro disléxico 22 Sumário Possíveis aptidões 26 Teoria e prática nas diferentes categorias de classificação 27 Questões fonológicas 28 Codificação e decodificação 28 Decodificação e codificação: dificuldades associadas 29 A relação entre as habilidades fonológicas e as habilidades de leitura 30 O que isso significa na prática? 30 Como as palavras são “armazenadas” 30 Dica para os professores, pais ou terapeutas 31 Dica de intervenção 32 Vamos entender a compreensão e expressão do disléxico 32 Ouvidos, audição e fonologia 33 Sumário Atividade reflexiva 34 Dificuldades de memória 34 O que é a memória de curto prazo? 34 O que é a memória de trabalho? 35 Problemas práticos com a memória de trabalho 37 Treinos de automaticidade 38 A prática pode levar à perfeição, sem causar exaustão? 39 Atividade reflexiva 39 Velocidade de processamento 40 Quando a dislexia pode ser identificada? 41 Evidência para a implementação de apoio precoce 42 Os princípios da identificação 42 Utilizando perfis de desempenho na identificação da dislexia 43 Sumário Programas de identificação 44 Checklist para Transtorno de Aprendizagem com prejuízo na leitura (dislexia) (Cruz-Rodrigues et al., 2014) 44 Dificuldades comuns no ambiente escolar 47 Possíveis problemas em interações sociais 48 Sugestões que possam ser aplicadas no âmbito escolar e clínico 50 Sobre as atividades avaliativas 51 Clínico 51 Não devemos esquecer dos fatores de proteção 52 Referências bibliográficas 53 7 Ensino em Quadros de Dislexia Ensino em Quadros de Dislexia: Avaliação em Quadros de Dislexia Clarissa Brito Conceito A dislexia é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta habilidades básicas de leitura e linguagem. Ela tem suas raízes em diferenças nos sistemas cerebrais responsáveis pelo processamento fonológico que resultam em dificuldade para processar os sons das palavras e associá-los com as letras ou sequências de letras que os representam. Outros fatores que podem vir associados são déficits nas funções executivas, dificuldades no processamento auditivo e/ou visual e desenvolvimento psicomotor. A palavra dislexia significa dificuldade (dis) com palavras (lexia) A dislexia é considerada um transtorno específico de aprendizagem porque seus sintomas geralmente afetam o desempenho acadêmico de estudantes sem que haja outra alteração (neurológica, sensorial ou motora) que justifique as dificuldades observadas. Embora seja interessante examinar essas várias definições (e há muitas outras), elas não explicam completamente o que é a dislexia. Elas, no entanto, demonstram que a dislexia é certamente mais complexa do que apenas uma dificuldade com a alfabetização. Origem A origem da dislexia é neurobiológica. Como acontece com todas as partes da nossa estrutura biológica, tudo começa com os nossos genes e como eles são herdados, não deve ser nenhuma surpresa que a dislexia também é hereditária e pode vir do lado materno, do lado paterno ou de ambos. 8 Ensino em Quadros de Dislexia Como a dislexia faz parte da constituição física de uma pessoa, isso significa, que você nasce com ela, vive com ela e morre com ela. A dislexia não tem cura, fazendo parte de quem você é como indivíduo. Deve-se notar que há outra condição chamada “dislexia adquirida”, decorrente de uma lesão cerebral. Diagnóstico O diagnóstico é feito por exclusão, geralmente por equipe multidisciplinar composta por psicólogo, psicopedagogo, fonoaudiólogo e neurologista. Antes de afirmar que uma pessoa é disléxica, é preciso descartar a ocorrência de deficiências visuais e auditivas, déficit de atenção, escolarização inadequada, problemas emocionais, psicológicos e socioeconômicos que possam interferir na aprendizagem. Para ser considerado dislexia não deve haver outros fatores que possam estar causando dificuldades na aprendizagem, nesse sentido é comum que seja solicitado pelo médico exames complementares, como: audiometria, processamento auditivo, processamento visual, avaliação neurológica, psicológica e psicopedagógica. Assim como em outros transtornos não é recomendado que apenas um profissional feche o diagnóstico de dislexia. Esse diagnóstico e essas avaliações são feitos também com base nos critérios diagnósticos de dois sistemas internacionais de classificação de transtornos mentais e de comportamento, a CID-10, que é a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, adotada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2007; e o DSM, o qual já se encontra na sua quinta versão em que ocorreram mudanças quanto à dislexia. A 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) da OMS, entrou em vigor no ano de 2022. A CID-11 fornece uma linguagem comum que permite aos profissionais de saúde compartilhar informações padronizadas em todo o mundo. É a base para identificar tendências e estatísticas de saúde em todo o mundo, contendo cerca de 17 mil códigos únicos para lesões, doenças e causas de morte, sustentados por mais de 120 mil termos codificáveis. Usando combinações de códigos, mais de 1,6 milhão de situações clínicas podem agora ser codificadas. 9 Ensino em Quadros de Dislexia Comparada com as versões anteriores, a CID-11 é totalmente digital, tem um novo formato e recursos multilíngues que reduzem a chance de erro. A Classificação foi compilada e atualizada com informações de mais de 90 países e envolvimento sem precedentes de prestadores de serviços de saúde, permitindo a evolução de um sistema imposto aos médicos para um banco de dados de classificação clínica e terminologia verdadeiramente capacitador, que atende a uma ampla gama de usos para registrar e relatar estatísticas na saúde e devemos estar atualizados dos sistemas de classificação e houve muitas mudanças, estejamos atentos! Código Presente nos Manuais Diagnósticos: DSM-V 315.00, CID 10 F8I.0, CID 11 6A03.0 315.2. O que é o DSM? É a sigla em inglês referente ao Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais. Esse manual é um sistema de classificação voltado aos problemas de saúde mental, desenvolvido pela Associação Americana de Psiquiatria, e muito utilizado em diversos países. Ele contém uma lista de critérios diagnósticos para cada transtorno psiquiátrico reconhecido pelo sistema de saúde dos EUA. É usado tanto em situações clínicas (ambulatórios, hospitais, clínicas e atenção básica), bem como em amostras populacionais (ou seja, utilizado nas pesquisas também). É um instrumento largamente utilizado por profissionais em uma ampla variedade de contextos incluindo psiquiatras, psicólogos, psicopedagogos, 10 Ensino em Quadros de Dislexia terapeutas ocupacionais e de reabilitação, bem como por outros médicos e pesquisadores de muitas orientações diferentes. A última revisão do Manual ocorreu em 2013 e culminou no DSM-5 que é a quinta versão e trouxe algumas atualizações, baseadas em estudos científicos publicados nos últimos anos. A primeira versão ocorreu por volta de 1940 e vem sofrendo atualizações deaparecer em interações sociais cotidianas e serem muito traumáticas para o indivíduo. Nessas dificuldades podemos citar algumas: • Lembrar nomes das pessoas; • Encontrando o nome/termo correto para algo; • Uso incorreto do tom de voz; • Levando tudo ao pé da letra, o que pode criar dificuldades para lidar com sarcasmo ou humor sutil (nas abstrações); 49 Ensino em Quadros de Dislexia • Confundindo palavras e frases. Isso pode levar à vergonha e ao medo de dizer algo errado ou inapropriado, gerando uma desvalia e a autoestima tende a estar abalada. Também pode fazer que um indivíduo pareça “lento” em suas interações com os outros, já que ele pode precisar de mais tempo para processar informações. Por exemplo, o indivíduo com dislexia pode não rir imediatamente de uma piada, ou simplesmente não entender piadas que envolvem brincadeiras de palavras ou trocadilhos. A dislexia é capaz de dramaticamente estreitar os horizontes de uma vida. Felizmente, muitos dos indivíduos disléxicos desenvolvem ótimas estratégias para lidar com essa condição. Entretanto, todos eles precisam de bastante assistência e apoio para conseguir desenvolver essas estratégias na bagagem de sua vida. Problemas com algumas das áreas identificadas anteriormente podem gerar problemas pessoais, como falta de autoconfiança e autoestima. Indivíduos disléxicos frequentemente acabam focando nas coisas que eles sentem que não fazem tão bem quanto os outros. Por causa disso, eles acham difícil identificar os seus talentos e aptidões – precisamos ajudá-los nessas pontuações. Consequentemente, podem sentir que não são muito bons em muitos comportamentos cotidianos e acadêmicos, afetam seu emocional. Em razão de experiências passadas, também podem sentir bastante raiva e frustração direcionadas àqueles que parecem adquirir facilmente essas habilidades e que para eles são consideradas tão difíceis. Até aqui vimos várias informações importantes sobre esse transtorno e são essas mesmas informações que vão subsidiar os processos de intervenção junto aos indivíduos com Transtorno Específico da Aprendizagem. Nós já sabemos o que é, quais os sinais de alerta e sintomas e conhecemos alguns instrumentos de avaliação. Nós vimos que não só a avaliação para o diagnóstico é multidisciplinar, mas também as intervenções, desse modo, existem várias abordagens que podem ser utilizadas para esse fim, dependendo do seu campo de atuação e da sua profissão. 50 Ensino em Quadros de Dislexia Uma vez que esse tema desperta um interesse muito abrangente, nós vamos abordar na medida do possível aquilo que pode ser utilizado sem restrições, que pode ser utilizado por todos, professores, psicopedagogos, neuropsicopedagogos e áreas afins. A essa altura nós já sabemos quais as principais dificuldades que esses indivíduos apresentam e com base nisso o que precisa ser estimulado, desenvolvido e alcançado. Essas informações servem para profissionais e familiares então você enquanto profissional pode orientar as famílias para que elas possam colaborar nesse processo, o que vai aumentar as chances desse indivíduo se desenvolver mais e melhor uma vez que a família é peça fundamental é preciso que ela esteja envolvida e ativa. Não ensinando os conteúdos, mas presente, apoiando. Sugestões que possam ser aplicadas no âmbito escolar e clínico Escolar • Ensinar a resumir; • Sintetizar os conteúdos; • Permitir que utilizem calculadoras, gravadores (uso da tecnologia como um aliado); • Evitar cópias de textos longos e também deveres de casa que envolvam leitura e escrita intensa; • Oferecer propostas multissensoriais (propostas que envolvam todos os sentidos, porque dessa forma a informação irá chegar por várias vias e sendo processada de várias formas); • No caso da alfabetização, o método fônico apresenta resultados muito positivos; 51 Ensino em Quadros de Dislexia • Com relação a matemática, utilizar exemplos concretos que conectam matemática à vida real, utilizando material concreto. Isso pode ajudar a fortalecer o sentido dos números para esse indivíduo; • Usar pistas visuais ao resolver problemas. A criança pode desenhar imagens ou mover objetos, por exemplo. Usar papel milimetrado para ajudar a manter os números alinhados (papel quadriculado). Cobrir uma parte da folha da atividade ou prova pode ajudar também para que no seu campo de visão apareça apenas uma coisa de cada vez; • Marcar as palavras-chave dos comandos com marca textos ou pintar com lápis de cor, fazendo a aproximação. Sobre as atividades avaliativas As avaliações devem preferencialmente ser realizadas na modalidade oral ou ter algum auxiliar ajudando a criança na leitura dos comandos. Evitar a utilização de testes de múltipla escolha, valorizar os trabalhos pelo seu conteúdo e não pelos erros de escrita, ou seja, não supervalorizar o erro. Colocar esse indivíduo em um local tranquilo na sala de aula, onde inclusive ele possa ser auxiliado com mais facilidade pela professora. A orientação é ver as políticas públicas de proteção que possam ser utilizadas no ambiente escolar, muitas escolas fazem esse acolhimento sem precisar de protocolos ou ajustes que a lei os protege. Clínico No contexto de clínica a intervenção também deve ser baseada nos princípios básicos da aprendizagem da leitura, no processo de transformação de grafema-fonema e para isso podemos utilizar as atividades grafomotoras por exemplo e no reconhecimento global da palavra, com incentivo a uma leitura afetiva. Programas devem ser bem elaborados, pois não existem receitas prontas ou fórmulas mágicas, existe conhecimento e aprendizagem. Vale salientar aqui que a ação terapêutica deve ajudar o indivíduo a desenvolver habilidades de organização verbal dos estímulos visuais e auditivos para que ele seja capaz de posteriormente fazer essa associação com significado. 52 Ensino em Quadros de Dislexia Se a criança ainda não se encontra no processo de alfabetização devem ser estimuladas as áreas sensório motoras, e isso deve ser feito de modo mais específico pela terapia ocupacional. Essa intervenção clínica, seja ela qual for sempre deve ter como objetivo auxiliar o indivíduo quanto ao estabelecimento de nexo entre a recepção do estímulo e sua incorporação ao léxico. Não devemos esquecer dos fatores de proteção • Mentalidade de crescimento. • Todo conhecimento é válido comprovado cientificamente. • Perseverança diante do fracasso. • Apoio de professores e pais. • Acolhimento. • Formação docente de qualidade. • Recursos suplementares. • Bom currículo de leitura. O melhor fator de prevenção é a intervenção precoce e de qualidade. Sabendo que todo conhecimento é válido, útil e funcional e isso transforma vidas!!! Referências bibliográficas • AMERICAN Psychiatric Association; DSM-IV: Diagnostic and statistical manual of mental disorders. 4th ed. Washington: American Psychiatric Association; 1995. • AMERICAN Psychiatric Association; DSM-V: Diagnostic and statistical manual of mental disorders. 4th ed. 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Acesso em: 11/03/2020. • DUARTE, A.N. , SOUZA, J.C. Intervenções pedagógicas em alunos com dislexia. Universidade do Estado do RJ – CAp – UERJ, 2014. • ETCHEPAREBORDA MC. Detecciónprecoz de La dislexia y enfoque terapéutico. Rev Neurol 34(Suppl1):13-23, 2002 • GALABURDA, A.M., MENARD, M.T. , ROSEN, G.D. Evidence for aberrant auditory anatomy in developmental dyslexia. Proc. Natl. Acad. Sci, vol. 91, 8010-8013, 1994. • NICOLSON, R. I. , FAWCETT, A. J. , Y DEAN, P. (1995). Time-estimation deficits in developmental dyslexia - evidence for cerebellar involvement. Proceedings of the Royal Society of London Series B-Biological Sciences, 259, 43-47. Referências bibliográficas • PAPALIA DE, FELDMAN RD. Desenvolvimento humano. 12a ed. Porto Alegre: AMGH Editora; 2013. • VYGOTSKY LS. Pensamento e linguagem. Versão para E-Book. [Edição eletrônica] Ridendo Castigat Mores, editor; 2001. Disponível em: http://www. ebooksbrasil.org/adobeebook/vigo.pdf Ensino em Quadros de Dislexia: Avaliação em Quadros de Dislexia Conceito Origem Diagnóstico Mas por que classificar um transtorno mental? Sintomas ou sinais para dislexia Intervenções para trabalhar na dislexia O papel na psicopedagogia comportamental Mas existem boas e más notícias A dislexia em relação a outros transtornos do neurodesenvolvimento Algumas definições de dislexia Vocês sabiam? Teorias sobre o cérebro disléxico Possíveis aptidões Teoria e prática nas diferentes categorias de classificação Questões fonológicas Codificação e decodificação Decodificação e codificação: dificuldades associadas A relação entre as habilidades fonológicas e as habilidades de leitura O que isso significa na prática? Como as palavras são “armazenadas” Dica para os professores, pais ou terapeutas Dica de intervenção Vamos entender a compreensão e expressão do disléxico Ouvidos, audição e fonologia Atividade reflexiva Dificuldades de memória O que é a memória de curto prazo? O que é a memória de trabalho? Problemas práticos com a memória de trabalho Treinos de automaticidade A prática pode levar à perfeição, sem causar exaustão? Atividade reflexiva Velocidade de processamento Quando a dislexia pode ser identificada? Evidência para a implementação de apoio precoce Os princípios da identificação Utilizando perfis de desempenho na identificação da dislexia Programas de identificação Checklist para Transtorno de Aprendizagem com prejuízo na leitura (dislexia) (Cruz-Rodrigues et al., 2014) Dificuldades comuns no ambiente escolar Possíveis problemas em interações sociais Sugestões que possam ser aplicadas no âmbito escolar e clínico Sobre as atividades avaliativas Clínico Não devemos esquecer dos fatores de proteção Referências bibliográficastempos em tempos, conforme surgem novas informações nas pesquisas sobre esses temas. Mas por que classificar um transtorno mental? Porque para compreender tudo o que um transtorno pode acarretar, nós precisamos de informações sobre como ele é e como afeta o funcionamento do indivíduo, para que dessa forma possamos entender todas as dimensões do transtorno e definir o diagnóstico, e isso deve ser feito com validade e reconhecimento em diversas culturas. Já imaginou a dislexia ser diferente em cada local, lugar, país? O TDAH? O autismo? Todos os transtornos precisam de uma padronização, de sintomas e comportamentos que possam ser avaliados assertivamente por uma equipe multidisciplinar. Essa unificação, padronização e ainda, essas informações são importantes para encontrar as possíveis causas genéticas ou epigenéticas, a heterogeneidade dos sintomas, os fatores de risco e as comorbidades. Podemos concebê-lo como um referencial. Como é feita essa classificação das características que o indivíduo deve apresentar para ser considerado de risco para a dislexia assim como também outros transtornos? Qual a definição? O que diz o DSM-5 sobre a dislexia e quais são os critérios? E a sigla DEA, o que significa? Enquanto para o CID-10, a dislexia é considerada um transtorno específico de leitura, o DSM-5 vai amplificar esses critérios e a dislexia dentro dessa perspectiva desse manual, está classificada na categoria de transtornos ou dificuldades específicas de aprendizagem o que inclui um conjunto de habilidades acadêmicas e não apenas a leitura, mas também a expressão escrita e a matemática, o que na versão anterior, no DSM-IV, era definido como dislexia, disgrafia e discalculia. 11 Ensino em Quadros de Dislexia Nessa última atualização, que culminou na versão 5 do DSM, tudo isso passa a ser definido como Dificuldade Específica da Aprendizagem, abarcando três domínios ou especificadores que são a leitura, a expressão escrita e a matemática. Isso significa basicamente que os sintomas e as características que esse indivíduo vai apresentar, se manifestarão em diferentes graus nessas três habilidades. Na literatura existente com essa nomenclatura sobre esse tema, também veremos referências a ele com a sigla DEA – Dificuldade Específica da Aprendizagem. São quatro os critérios e, conforme o DSM-5, todos devem ser observados no indivíduo: Figura 1. Quadro de critérios do DSM-5 para o diagnóstico da dislexia, sendo que ainda tem um quadro de especificadores de gravidade da dislexia propostos por ele para os graus de dislexia: leve, moderada e grave. Sintomas ou sinais para dislexia Sintomas que podem estar presentes: Na linguagem oral: • Atraso no desenvolvimento da fala; 12 Ensino em Quadros de Dislexia • Problemas para formar palavras de forma correta, como trocar a ordem dos sons (popica em vez de pipoca) e confundir palavras semelhantes (umidade/ humanidade); • Erros de pronúncia, incluindo trocas, omissões, substituições, adições e misturas de fonemas; • Dificuldade para nomear letras, números e cores; • Dificuldade em atividades de aliteração e rima; • Dificuldade para se expressar de forma clara. Na leitura: • Dificuldade para decodificar palavras; • Erros no reconhecimento de palavras, mesmo as mais frequentes; • Leitura oral devagar e incorreta. Pouca fluência, com inadequações de ritmo e entonação, em relação ao esperado para a idade e a escolaridade; • Compreensão de texto prejudicada como consequência da dificuldade de decodificação; • Vocabulário reduzido. Na escrita: • Erros de soletração e ortografia, mesmo nas palavras mais frequentes; • Omissões, substituições e inversões de letras e/ou sílabas; • Dificuldade na produção textual, com velocidade abaixo do esperado para a idade e a escolaridade. Recapitulando: Há diferentes graus de dislexia, normalmente descritos como leve, moderado e severo. O grau de dislexia baseia-se, em geral, na severidade das dificuldades apresentadas pelo indivíduo. Atenção aos fatores de risco Os fatores de risco incluem, mas não se limitam apenas a isso e tudo deve ser investigado com bastante cuidado: 13 Ensino em Quadros de Dislexia • Problemas no processamento fonológico. • Problemas na linguagem oral. • Problemas na atenção. • Problemas na visão. • Falta de experiências precoces com a linguagem oral e escrita. • Falta de recursos. • Professores pouco preparados. • Traumas ou outros fatores ambientais negativos. Atenção: pode haver interações entre todos esses fatores de risco. O melhor fator de prevenção é a intervenção precoce e de qualidade. Intervenções para trabalhar na dislexia Independentemente de quais forem as diversidades ou dificuldades nos processos de desenvolvimento e aprendizagem, a intervenção terapêutica sempre se faz necessária. Intervenções pontuais voltadas às particularidades de cada caso objetivam auxiliar na superação e adaptação A dislexia pode afetar. EDUCAÇÃO PALAVRAS LEITURA SAÚDEVIDA CARREIRA MATEMÁTICA ORTOGRAFIA 14 Ensino em Quadros de Dislexia de limitações e dificuldades, visando impulsionar o pleno desenvolvimento do indivíduo. Para crianças, adolescentes e adultos com desempenho atípico ou em atraso, a intervenção correta também ajudará no fortalecimento da autoestima e autoconfiança, por isso devemos tomar um cuidado maior nas intervenções porque existem muitos conceitos difundidos, o diagnóstico nem sempre é fácil de ser realizado, e as técnicas (intervenções) para ensinar indivíduos com dislexia são as mais variadas. O papel na psicopedagogia comportamental O papel do psicopedagogo é de extrema importância, para investigar os problemas existentes no processo do aprendizado. Nosso trabalho visa atender, tratar e orientar o aluno e sua família, assim como a escola e seus professores, esclarecendo sobre os obstáculos que podem interferir diariamente na vida do disléxico, sob perspectivas no neurodesenvolvimento, Atuamos com crianças, adolescentes, adultos, a família e a escola na compreensão do funcionamento cerebral e das suas respectivas alterações. Estudamos a relação entre a atividade nervosa superior e o comportamento, a cognição, as emoções, a motivação e a vida do indivíduo. A intervenção na psicopedagogia comportamental consiste em avaliar e reabilitar/estimular as funções cognitivas (memória, atenção, linguagem oral e escrita, cálculo, capacidades visuoespaciais, planejamento e ação, destreza manual, raciocínio, etc.). Vamos voltar ao nosso principal objetivo e faço uma pergunta: • Você provavelmente já ouviu falar sobre alguém com dislexia e suas dificuldades educacionais? • Já estudaram, se depararam com livros ou artigos de muitas abordagens diferentes sobre a dislexia, certo? Entendam que devemos ter sensibilidade em analisar todos os fatos, estudos científicos, pois muitos especialistas divergem sobre os termos corretos utilizados sobre o assunto, e aqui teremos a oportunidade de 15 Ensino em Quadros de Dislexia conhecer os mais utilizados e podermos fazer a seleção da aplicabilidade psicopedagógica comportamental mais adequada escolhida pelo profissional, professor, pai, estudante ou qualquer área de atuação. As informações disponíveis sobre dislexia podem, às vezes, parecer bem confusas. Os objetivos destes módulos específicos sobre a dislexia são de apresentar uma introdução clara sobre o assunto que levará a um maior nível de conhecimento, permitindo apoiar/ajudar indivíduos disléxicos de forma efetiva e afetiva. Mas existem boas e más notícias A boa notícia é que isso demonstra que a dislexia é um assunto bastante vivo na área da pesquisa, e isso, por sua vez, significa o aparecimento frequente de novas teorias e abordagens de apoio. A má notícia é que isso pode fazer que a dislexia pareça ser particularmente complicada e confusa, mas não devemos olhar no prisma da negatividade. Vamos a uma atividade reflexiva, depois de várias informaçõesaté aqui apresentadas e fazendo uma pergunta: • Se alguém lhe pedisse para definir a dislexia, como você a descreveria? Já saberia explicar e como analisar? Vamos retomar ao começo dessa aula: O que é a dislexia? A dislexia é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta habilidades básicas de leitura e linguagem. Saberiam me dizer por que a dislexia pode ser um transtorno? Na psicologia e na psiquiatria a palavra transtorno designa qualquer sofrimento, comprometimento ou anomalia que dificulte o desenvolvimento normal das capacidades intelectuais ou psíquicas do indivíduo. Entendam, é muito importante essa observação: Significa que a dislexia só afeta partes específicas das habilidades gerais de aprendizagem de um indivíduo. Muitas vezes, isso inclui a capacidade de adquirir habilidades de leitura. Essa informação é muito importante e 16 Ensino em Quadros de Dislexia não devemos esquecer nunca, pois a capacidade do indivíduo de aprender outras coisas provavelmente não será afetada. E a aprendizagem? Em termos simples, aprendizagem significa a capacidade de um indivíduo de entender algo. Isso não quer dizer que pessoas com dislexia não conseguem aprender a ler, mas que podem ter dificuldade no processo. Esta é uma boa notícia, pois, apesar das dificuldades enfrentadas, a aprendizagem não é impossível. Para descrever alguém que tem dislexia os termos adequados são: • Um indivíduo que é disléxico; • Um indivíduo que tem dislexia; • Um indivíduo disléxico. O ponto importante a ser notado aqui é a palavra “indivíduo” nessas definições, pois precisamos tratar cada indivíduo disléxico exatamente dessa forma: como um indivíduo. Se apenas tentamos apoiar a dislexia como uma condição, será muito menos eficaz do que ver cada pessoa como um indivíduo único e fornecer apoio individualizado. Não existem dois indivíduos disléxicos iguais e cada um será moldado pelo seu padrão único de habilidades, aptidões, experiências de vida, oportunidades, personalidade e, por último, pelas características únicas de sua dislexia (cada ser é único). Para apoiar a dislexia, seremos muito mais eficazes se enxergarmos cada pessoa com dislexia como um indivíduo único, fornecendo apoio individualizado e acolhimento. Há vários mitos associados à dislexia e vale a pena encará-los de frente, devemos ter essas informações e assim poder esclarecer de uma maneira assertiva. • “A dislexia não existe.” Sim, ela existe. Em uma seção mais adiante neste módulo, vamos ver algumas definições da dislexia baseada em pesquisas científicas. 17 Ensino em Quadros de Dislexia Os pesquisadores podem diferir em suas definições de dislexia, mas todos concluem que a dislexia existe. • “Todos os indivíduos disléxicos são muito inteligentes.” Isso também não é verdade. Não há nenhuma correlação entre a dislexia e a inteligência, nem de forma positiva, nem de forma negativa. • “A dislexia é simplesmente uma desculpa usada por pais quando seus filhos não estão indo bem na escola.” Totalmente falso. A dislexia nunca deve ser usada como uma desculpa ou um “rótulo” para aqueles que não estão indo bem na escola. • “Uma pessoa disléxica não pode ler (ou escrever).” Novamente, não é verdade. Muitos indivíduos que têm dislexia podem enfrentar dificuldades para desenvolver essas habilidades, mas com o apoio adequado eles podem aprender a ler e a escrever. • “A dislexia e os transtornos do neurodesenvolvimento são a mesma coisa.” A dislexia está incluída sob o título de transtorno do neurodesenvolvimento, mas existem outros tipos de transtornos do neurodesenvolvimento como a dispraxia, a discalculia, o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), etc. A dislexia pode ocorrer junto com outro transtorno do neurodesenvolvimento, então não é incomum que um indivíduo disléxico também tenha déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), por exemplo. A dislexia em relação a outros transtornos do neurodesenvolvimento As dislexias têm algumas características em comum com outros transtornos do neurodesenvolvimento. Porém, as dificuldades centrais e a natureza que causa cada uma dessas condições são diferentes. Cada transtorno do neurodesenvolvimento é classificado de acordo com as suas particularidades, aqui citarei de uma forma bem sucinta cada uma delas com poucas palavras. 18 Ensino em Quadros de Dislexia Dispraxia • Comprometimento da coordenação motora e equilíbrio; • Dificuldade de organizar os movimentos intencionalmente. TDAH • Dificuldade com concentração e atenção; • Impulsividade e hiperatividade. Discalculia • Dificuldade com o conceito de números; • Dificuldade com consciência espacial. Disgrafia • Dificuldade em escrever e desenhar. Autismo • Dificuldade com o uso social da linguagem, comunicação, etc. Os transtornos do neurodesenvolvimento acontecem em um continuum e as manifestações e intensidades de seus sintomas variam em cada pessoa. Portanto, o indivíduo com dislexia pode apresentar características de outras condições, como TDAH ou disgrafia e no qual conhecemos como as comorbidades. Como se o TDAH por si só já não fosse o bastante para uma criança e sua família, sabe-se que na maioria das vezes o portador apresenta pelo menos mais um transtorno associado. As pesquisas estimam que 70% das crianças com TDAH apresentam outra comorbidade e pelo menos 10% apresentam três ou mais comorbidades. As comorbidades coexistentes podem gerar forte influência em como os sintomas de TDAH irão se manifestar afetando o modo, o comportamento e o desempenho acadêmico. A maneira pela qual o indivíduo será tratado, portanto, dependerá das desordens secundárias. 19 Ensino em Quadros de Dislexia *Uma observação sobre essa imagem é que existe TDA/TDAH e não se usa mais TDA e, sim, TDAH com ou sem hiperatividade e outras também já houve mudanças – estejam atentos. Por isso, a importância de estarmos sempre atualizados com os estudos, pesquisas, as novas nomenclaturas e principalmente nos sistemas de classificação internacionais. Além de apresentar características de um ou mais de um transtorno do neurodesenvolvimento, um indivíduo pode ter dificuldades brandas ou severas decorrentes dessas características. É importante pensar que cada indivíduo é único e com necessidades específicas. A dislexia nunca deve ser usada como uma forma de definir um indivíduo. Algumas definições de dislexia Há muitas definições diferentes para a dislexia, algumas das quais devemos saber, pois são as mais usadas e estudadas atualmente. A imagem a seguir ilustra a natureza de sobreposição dos transtornos do neurodesenvolvimento e como um indivíduo pode apresentar dificuldades de um ou de qualquer número desses transtornos. TDA/TDAH Dispraxia DisgrafiaAutismo Dislexia Discalculia 20 Ensino em Quadros de Dislexia Embora seja interessante examinar essas várias definições (e há muitas outras), elas não explicam completamente o que é a dislexia. Elas, no entanto, demonstram que a dislexia é certamente mais complexa do que apenas uma dificuldade com a alfabetização, vejamos algumas delas. A informação ainda é nosso maior aliado para uma aprendizagem significativa e diferenciada. Em outubro de 2007, o BDA Management Board (Conselho de Gerenciamento do British Dyslexia Association, ou Associação Britânica de Dislexia) aprovou a seguinte definição: A dislexia é uma dificuldade específica de aprendizagem que afeta principalmente o desenvolvimento de habilidades ligadas à leitura e à linguagem. Ela provavelmente estará presente desde nascimento e terá efeitos ao longo de toda a vida. É caracterizada por dificuldades com o processamento fonológico, nomeação rápida, a memória de trabalho, a velocidade de processamento e com o desenvolvimento automático de habilidades que não correspondem com outras habilidades cognitivas de um indivíduo. Ela tende a ser resistente aos métodos convencionais de ensino, mas seu efeito pode ser atenuadopor meio da intervenção específica apropriada, incluindo a aplicação de tecnologias de informação e aconselhamento de apoio. A Associação Dislexia Action* (dyslexiaaction.org.uk) afirma que as principais características da dislexia são: “A dislexia é uma dificuldade específica de aprendizado, que afeta principalmente a leitura e a escrita. Cerca de 10% da população é afetada por algum grau de dislexia. A dislexia normalmente ocorre na mesma família; sabe-se que existem vários genes que contribuem para um risco genético de dislexia. Estudos de exames cerebrais sugerem que, em pessoas disléxicas, as conexões entre diferentes áreas de linguagem do cérebro não funcionam tão eficientemente como deveriam. Porém, essas diferenças não estão ligadas à inteligência, e há evidências de que muitas pessoas disléxicas têm aptidões e habilidades em tarefas que envolvem o pensamento criativo e visual. Pessoas disléxicas normalmente têm dificuldade em analisar e trabalhar com os sons de palavras faladas, e podem ter dificuldade com a memória de curto prazo, sequências e organização. É mais difícil para elas aprenderem como sons falados são representados por letras, e isso afeta a habilidade de soletrar, decodificar ou ‘dar sons’ às palavras. Embora muitas pessoas disléxicas possam desenvolver habilidades fonológicas e de decodificação, elas normalmente precisam de bastante instrução, e muitas vezes nunca chegam a um estágio onde essas habilidades estão completamente automáticas. A dislexia não é apenas um problema com a leitura. Muitas pessoas disléxicas aprendem a ler, mas continuam a ter dificuldade com ortografia, escrita, memória e organização. Também há pessoas cujas dificuldades de leitura não são causadas por dislexia. A dislexia frequentemente causa problemas com matemática: muitas pessoas disléxicas têm dificuldades com aritmética e com a aprendizagem e memorização de fatos numéricos. 21 Ensino em Quadros de Dislexia O grau em que a dislexia causa problemas, na aprendizagem e no dia a dia, depende de muitos fatores. Estes incluem a gravidade da dislexia, as habilidades e aptidões que a pessoa apresenta, além do tipo de ensino e apoio que ela recebe. A dislexia não precisa ser uma barreira para as conquistas e o sucesso se ela for devidamente reconhecida na sociedade, e medidas forem tomadas para oferecer ensino e treinamento adequado, além de estratégias e recursos de compensação.” *Dyslexia Action: instituição britânica que atua no apoio a crianças, jovens e adultos com dislexia. O documento intitulado The Rose Review sobre o ensino da leitura foi coordenado por Jim Rose e publicado em 2006. A dislexia é uma dificuldade de aprendizagem que afeta principalmente as habilidades envolvidas na leitura correta e fluente de palavras e na ortografia. As características particulares da dislexia são dificuldades em consciência fonológica, memória verbal e velocidade de processamento verbal. A dislexia ocorre em uma gama de habilidades intelectuais. É melhor pensarmos nela como um continuum, e não uma categoria distinta, pois não há pontos de corte claros. Dificuldades coexistentes à dislexia podem ser vistas nos aspectos da linguagem, coordenação motora, cálculo mental, concentração e organização pessoal, mas estes não são, em si, marcadores de dislexia. Vocês sabiam? Uma boa indicação da gravidade e da persistência das dificuldades da dislexia pode ser obtida ao examinar como o indivíduo responde a uma intervenção bem fundamentada, pois logicamente vai haver uma melhora no quadro dessas dificuldades. A BDA acrescentou o seguinte texto ao seu resumo do Rose Review**: Além dessas características, a BDA reconhece as dificuldades de processamento visual e auditiva que alguns indivíduos com dislexia podem experimentar, e assinala que leitores disléxicos podem mostrar uma combinação de habilidades e dificuldades que afetam o seu processo de aprendizagem. Alguns também têm aptidões em outras áreas, como design, resolução de problemas, habilidades criativas, habilidades interativas e habilidades orais. **Rose Review: relatório que apresenta recomendações sobre a adaptação de crianças com dislexia no ambiente escolar. 22 Ensino em Quadros de Dislexia Definição da Associação Internacional de Dislexia: A dislexia é um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica, caracterizada por dificuldade no reconhecimento preciso e/ou fluente das palavras e pela baixa habilidade de decodificação e soletração. Essas dificuldades geralmente derivam de um déficit no componente fonológico da linguagem, muitas vezes surpreendente, quando comparado a outras habilidades cognitivas e ao acesso à aprendizagem. Consequências secundárias podem incluir dificuldades na compreensão de texto e pouca experiência de leitura, podendo impedir o desenvolvimento do vocabulário e do conhecimento geral (2002). Existem também várias teorias e devemos entender cada uma delas, tendo em mente que todo conhecimento é válido, útil e funcional. Teorias sobre o cérebro disléxico A primeira coisa a ser compreendida é que um cérebro disléxico é diferente de um cérebro não disléxico, principalmente na forma com que ele lida ou processa certos tipos de informação, embora também existem algumas diferenças físicas. A palavra-chave aqui é “diferente”. Historicamente, pesquisadores costumavam expressar essas diferenças em termos de déficits ou mau funcionamento, mas cada vez mais esses termos estão sendo substituídos por palavras como “neurodiversidade”, já que essas diferenças não são necessariamente melhores ou piores, são simplesmente diferentes. Infelizmente, tais diferenças podem tornar o aprendizado de certas tarefas mais difíceis, especialmente quando o aprendizado é apresentado de uma maneira que não corresponde com a forma natural em que o indivíduo processa informações. Essas diferenças no cérebro também tornam algumas tarefas mais fáceis, como compreender situações complexas. Vejam a imagem a seguir que está bem explicativa sobre o funcionamento cerebral de um cérebro disléxico e não disléxico. 23 Ensino em Quadros de Dislexia Relacionados a isso estão: • A área de broca Envolvida na produção de palavras escritas, sendo encarregada de produzir a linguagem (processa toda essa informação). • A região temporoparietal Envolvida na análise de palavras escritas, significado das palavras. • A área temporo-occipital Utilizada para identificar palavras escritas, interpreta os grafemas e letras. Agora vamos as teorias mais pesquisadas: Teorias fonológicas e de linguagem Usando a ressonância magnética funcional (fMRI − do inglês Functional Magnetic Ressonance Imaging), pesquisadores conseguiram rastrear as atividades de cérebros de pessoas com dislexia enquanto realizavam atividades de linguagem oral, leitura e escrita. As áreas do cérebro que normalmente seriam utilizadas para tais tarefas aparentemente não estavam funcionando de forma tão eficaz ou estavam funcionando de forma diferente. Essas áreas incluíam a parte posterior do hemisfério esquerdo e os sistemas anteriores, especialmente as regiões em torno do giro frontal. Tais teorias apoiam a ideia de que essa diferença de funcionamento torna o cérebro incapaz de realizar boas ligações entre símbolos e sons. Em outras palavras, o cérebro tem dificuldade em conectar a letra escrita com o som que essa letra representa. Isso é conhecido como relação de som-símbolo (fonema-grafema). Esses achados sugerem que o cérebro disléxico tem dificuldade para executar atividades de linguagem e leitura de forma automática. A capacidade de realizar essas atividades automaticamente é muito importante para a aprendizagem, já que é somente quando esse processamento se torna automático, que o cérebro pode ficar livre para funções de ordem superior, como a compreensão da palavra escrita ou fluência da leitura, que levam à compreensão do que foi lido. 24 Ensino em Quadros de Dislexia Essa teoriasugere que, em vez de processar as palavras em um sistema baseado em um sistema de som, o cérebro tenta memorizar cada palavra como um bloco individual. A consequência disso, porém, é que o armazenamento da memória pode ficar “rapidamente cheio”, e com isso, novas palavras não conseguem ser lembradas. A boa notícia é que a maioria das pessoas desenvolvem estratégias compensatórias, que podem ser observadas em diferentes regiões do cérebro. Uma intervenção eficaz pode favorecer o desenvolvimento desse processo. Teorias magnocelulares Essas teorias buscam explicar algumas características associadas à dislexia que vão além das dificuldades de linguagem. Acredita-se que há falhas nas células que carregam informações grandes no cérebro chamadas de magnocélulas. Estas células são importantes para gerenciar o tempo de eventos visuais e auditivos. Quando não estão exercendo a sua função corretamente, essas células causam problemas de foco e processamento de informação em atividades visuais e auditivas. Isso, por sua vez, gera dificuldades para lembrar sequências de sons e símbolos e letras. A falta de atenção visual faz que símbolos pareçam instáveis, podendo fazer com que sons e letras sejam transpostos. Por exemplo, na linguagem oral é possível ouvir essa confusão ou transposição quando uma pessoa disléxica pronúncia palavras de forma incorreta, como, “manica” em vez de “máquina”. Isso também pode ser observado na leitura ou escrita, por exemplo, ler ou escrever a palavra, “perto” como “preto” ou “dedo” como “dado”. Alguns pesquisadores também acreditam na possibilidade de isso significar que outras células do cérebro, em especial as células parvocelulares, se desenvolvem de forma mais eficaz, possibilitando, por sua vez, aptidões em outras áreas. Teorias do cerebelo Originalmente essa teoria foi formulada como uma teoria de déficit de automatização. Ela foi apoiada pelas descobertas de um paradigma de 25 Ensino em Quadros de Dislexia dupla tarefa que envolvia manter o equilíbrio (definido como “manter o corpo em um estado de equilíbrio”) enquanto executava outra tarefa. Os resultados revelaram que, em condições ideais, indivíduos disléxicos poderiam se equilibrar tão bem quanto indivíduos do grupo de controle. Porém, em uma situação de tarefa dupla (em que os indivíduos tinham que se equilibrar enquanto realizavam outra tarefa), os indivíduos disléxicos tiveram um desempenho significativamente pior do que aqueles do grupo de controle (Nicolson & Fawcett, 1990). Mais recentemente, o déficit de automatização foi associado a um comprometimento da função do cerebelo. Um estudo histológico (Finch, Nicolson & Fawcett, 2002) reanalisou as amostras de cérebro de indivíduos com dislexia originalmente investigadas por Galaburda et al. (1994). Os resultados mostraram diferenças significativas no número de grandes e pequenos neurônios do cerebelo em amostras de indivíduos disléxicos e amostras do grupo de controle. Com base nas descobertas que apontam para o comprometimento cerebelar na dislexia, Nicolson et al. (2001) propuseram uma cadeia causal hipotética ligando o comprometimento cerebelar a déficits de processamento fonológico e problemas com a leitura e a ortografia. A automaticidade também é muito importante para a “destreza da linguagem”. Esta é a capacidade de aprender uma tarefa a ponto de não precisar mais focar no ato de executar a tarefa, o que deixa o cérebro livre para funções de ordem superior. Por exemplo, quando aprendemos a dirigir um carro, inicialmente o ato de dirigir toma toda a nossa atenção e pode ser exaustivo. Com o passar do tempo e com a prática, chegamos a um ponto em que não precisamos mais pensar sobre o ato de dirigir em si, mas, em vez disso, normalmente pensamos sobre muitas outras coisas, das quais somente algumas possivelmente terão a ver com dirigir. Isso acontece porque o ato de dirigir se tornou automático. A automaticidade é importante para a leitura. Ela permite que pensemos sobre o que estamos lendo, em vez de ficarmos apenas decodificando os símbolos. Na escrita, ela nos permite expressar os nossos pensamentos sem termos de pensar de forma consciente sobre a ortografia ou como formar as letras. 26 Ensino em Quadros de Dislexia Se o cerebelo não está funcionando de forma eficaz, como, de acordo com essa teoria, acontece com indivíduos disléxicos, ele precisa trabalhar muito na decodificação de sons e símbolos e não consegue adquirir as habilidades de linguagem simplesmente falando e ouvindo. Sendo assim, tarefas baseadas na linguagem se tornam árduas e cansativas. Exames do cérebro mostraram que o cerebelo não ativa tanto ou da mesma forma em cérebros de indivíduos disléxicos, em comparação com cérebro de indivíduos não disléxicos. Depois que vimos as diferentes teorias, estruturas cerebrais do cérebro disléxico, entendam que as aptidões desses indivíduos existem e muitas. Possíveis aptidões A palavra “dislexia” se refere a uma dificuldade com palavras, mas, frequentemente as diferenças na estrutura do cérebro que causam essas dificuldades também podem levar a um desempenho melhor em outras áreas. Indivíduos com dislexia, frequentemente demonstram habilidades que incluem: • Inteligência visual; • Habilidades práticas e de resolução de problemas; • Capacidade de ver o todo e resolver problemas; • Boa percepção visuoespacial; • Criatividade; • Boas habilidades de comunicação verbal; • Altos níveis de motivação e persistência. Frequentemente essas áreas de aptidões são negligenciadas e não utilizadas de forma eficaz. É muito importante lembrar que essas habilidades e potenciais podem existir e que, enquanto um indivíduo pode ter dificuldades em algumas áreas, as dificuldades que ele experiência não são a soma total do que o define como pessoa. É essencial, que o indivíduo seja apoiado de 27 Ensino em Quadros de Dislexia forma holística (isto é: que o foco seja distribuído da mesma forma entre o desenvolvimento de seus pontos fortes e o apoio às suas fraquezas). Há várias teorias em torno do que causa o padrão de habilidades e dificuldades vividas por indivíduos disléxicos. O consenso comum indica que provavelmente todas essas teorias têm mérito e que, de fato, o cérebro é um órgão complexo sobre o qual nós continuamos a aprender. Além das três teorias apresentadas aqui, há outras teorias que, apesar de serem menos populares, também tentam explicar a dislexia. O que sabemos é que, de acordo com evidências científicas, o cérebro disléxico trabalha de uma forma diferente de um cérebro não disléxico, especialmente quando exerce tarefas relacionadas à linguagem, leitura e escrita. Entretanto, nas últimas duas décadas, a teoria fonológica e da linguagem tem sido a explicação dominante sobre a causa da dislexia. Apesar dessa teoria ser muito popular entre os atuais pesquisadores da dislexia, há críticos que apontam que ela não explica alguns sintomas não relacionados às dificuldades fonológicas que também são comuns na dislexia, como as dificuldades na memória de trabalho e no processamento de informação. Tais críticos geralmente não descartam a teoria que a dislexia está enraizada nos sistemas cerebrais responsáveis pelo processamento fonológico, eles apenas argumentam que esta não é a única explicação para ela. Um ponto importante a ser lembrado aqui é que o que pode parecer fácil e simples para uma pessoa pode ser muito difícil para outra, simplesmente porque ela processa as informações de forma diferente. Isso pode levar a bastante frustração tanto para os indivíduos disléxicos quanto para aqueles que estão lhe dando apoio. O funcionamento do cérebro disléxico não é necessariamente melhor ou pior, é apenas diferente. Teoria e prática nas diferentes categorias de classificação As dificuldades enfrentadas por pessoas com dislexia podem, muitas vezes, ser classificadas em diversas categorias principais. Vamos examinar cada uma dessas categoriasao longo deste tópico. 28 Ensino em Quadros de Dislexia Questões fonológicas A consciência fonológica é a capacidade de detectar e manipular sons em palavras. O desenvolvimento da consciência fonológica está intimamente ligado ao desenvolvimento da linguagem. Os seres humanos são projetados para se comunicar por meio da linguagem oral e o processamento fonológico necessário para falar e ouvir ocorre de forma subconsciente. A linguagem escrita é a tradução de sons da fala (linguagem oral) para a representação concreta (escrita) deles. Essa é uma atividade consciente que deve ser aprendida. Codificação e decodificação A importância da consciência fonológica na alfabetização é frequentemente explicada pelo seu papel no processo de codificação e decodificação. Na leitura, a decodificação se refere ao processo de relacionar a representação das palavras escritas às suas representações verbais. Principalmente nas fases iniciais da leitura, a decodificação envolve transformar as letras de uma palavra escrita em seus sons correspondentes, e, em seguida, juntar esses sons para formar a palavra falada. Obs.: Quando alguém lê para um disléxico ele entende melhor, pois envolve decodificação, já está decodificado. Ele mesmo lendo, vai ter que haver essa decodificação. Palavra escrita Casa Letras escritas C-a-s-a Sons falados K-a-z-a Palavra falada Casa 29 Ensino em Quadros de Dislexia Codificação é um processo usado na escrita. É parecido com decodificação, mas, neste caso, o processo acontece em direção oposta. Dessa vez, você começa com a palavra falada e a traduz para sua forma escrita. Mais uma vez, especialmente nas fases iniciais da leitura, a codificação envolve determinar os sons em uma palavra e, em seguida, transformar esses sons em uma sequência de letras a fim de escrever a palavra. Palavra falada Casa Sons falados K-a-z-a Letras escritas C-a-s-a Palavra escrita Casa Importante! A consciência fonológica é necessária para a codificação e a decodificação porque o indivíduo precisa reconhecer os sons das palavras para poder relacioná-los aos sons das letras. Decodificação e codificação: dificuldades associadas No caso da dislexia, em razão das diferenças no cérebro identificadas como vocês viram aqui anteriormente, um indivíduo poderá ter muitas dificuldades ao desempenhar as seguintes atividades: • Identificar, segmentar e sequenciar os sons em uma palavra escrita (decodificação); 30 Ensino em Quadros de Dislexia • Discriminar os sons das palavras e então lembrar a quais símbolos (letras) eles correspondem (codificação). A relação entre as habilidades fonológicas e as habilidades de leitura A consciência fonológica é muitas vezes utilizada com crianças como um indicador das habilidades iniciais de leitura. Estudos como aqueles conduzidos por Bryant & Bradley (1980) indicam que aqueles alunos com fortes habilidades fonológicas adquirem habilidades de leitura de forma mais eficaz do que aqueles que têm habilidades fonológicas mais fracas. O que isso significa na prática? Pessoas com habilidades fonológicas mais fracas vão apresentar dificuldades para aprender a decodificar e codificar (ler e escrever). Não é surpreendente, portanto, que um indivíduo disléxico pode parecer bem articulado em um nível verbal (aprendido de forma subconsciente), porém pode não conseguir traduzir essa habilidade em forma de leitura ou escrita (aprendida de forma consciente). Ou seja, o aluno leva muito mais tempo para fazer conexões entre sons e símbolos e essas conexões são facilmente esquecidas, ou é necessário fazer muito esforço para lembrá-las. Ao direcionar grande esforço à mecânica do processo (decodificação e codificação) a compreensão se perde na leitura e a expressão se perde na escrita. Além disso, o indivíduo não percebe as semelhanças entre palavras ou a regularidade da língua, já que cada símbolo tem que ser decodificado como uma entidade única. Como as palavras são “armazenadas” Além das dificuldades de processamento, indivíduos disléxicos têm um “sistema diferente de arquivamento” para palavras em comparação com aqueles sem dislexia. 31 Ensino em Quadros de Dislexia Uma pessoa não disléxica arquiva as palavras usando um sistema baseado em sons (fonológico) que reconhece as semelhanças dos sons em palavras. Um indivíduo disléxico arquiva as palavras como coisas inteiras relacionadas ao seu significado ou à sua imagem. Exemplo Um indivíduo não disléxico pode ler ou soletrar a palavra “cão”, ele pode usar a analogia dos sons dessa palavra para ler ou soletrar as palavras “pão”, “chão”, etc. Essas conexões fonológicas podem ser aplicadas para ajudar a acelerar o aprendizado da leitura e da ortografia. Um indivíduo que usa um “sistema de arquivamento” diferente, que envolve significados e/ou imagens, vê pouca semelhança entre essas palavras. Por exemplo, “pão” é algo que você come e pode usar para fazer torrada para o café da manhã, enquanto “cão” é um animal que late. Como é possível fazer uma conexão entre a ortografia dessas duas palavras utilizando apenas as suas imagens e significados? Não é uma tarefa fácil, devemos achar subsídios para entendermos melhor esse assunto. Dica para os professores, pais ou terapeutas Para um indivíduo que tem dislexia, aprender a ler e escrever requer muito esforço, um esforço bem maior que os demais, pois cada nova palavra é vista como um novo item a ser aprendido, que não aparenta ter relação com 32 Ensino em Quadros de Dislexia outras palavras já aprendidas. Tal situação resulta em rápida exaustão e desânimo do aluno, já que aprender toda e qualquer palavra individualmente é uma tarefa praticamente impossível. Muitas vezes sua autoestima está abalada e tem frases prontas de desvalia, cabendo ao professor, pais ou terapeutas seu devido acolhimento e reforços adequados para seu desenvolvimento social, pedagógico e mental. Dica de intervenção Recomenda-se uma alfabetização estruturada, que foque em habilidades específicas que o aluno precisa adquirir e/ou fortalecer. Crianças com dislexia se beneficiam do ensino explícito, lúdico, concreto, direto, individualizado, multissensorial, sequencial e preventivo. Assim podemos inferir com maior assertividade sobre quais estímulos funcionam melhor em nossas propostas de intervenção. Vamos entender a compreensão e expressão do disléxico Para ler e escrever um indivíduo disléxico tem que se esforçar muito para decodificar e codificar sons e palavras. Ele precisa focar em traduzir palavras escritas para palavras faladas (ou vice-versa), em vez de focar no curso ou significado do texto. Tal situação pode, por sua vez, criar mais dificuldades, por exemplo: • Na leitura: Grande parte da compreensão é perdida, tornando a tarefa sem sentido já que não há nenhuma recompensa intrínseca, ou seja, descobrir algo, divertir-se com uma história, etc. • Na escrita: Grande parte da expressão do texto poderá ser perdida. Isso pode levar outra pessoa a ter dificuldade em entender o texto ou a uma má interpretação do que foi escrito. 33 Ensino em Quadros de Dislexia • Sutileza: Grande parte da sutileza da linguagem também poderá ser perdida, como humor, tom e entonação. • Linguagem: A linguagem pode ser compreendida apenas em seu nível literal. • Concentração: Ruído de fundo pode causar perda de concentração se distrair o cérebro das atividades de codificação e decodificação. Ouvidos, audição e fonologia Vale a pena notar a importância de investigar outras possíveis causas que podem fazer com que um indivíduo tenha dificuldade em ouvir e diferenciar sons. Quando possível, a audição deve ser avaliada antes de determinar um motivo para dificuldade de leitura, consultar um fonoaudiólogo e fazer exames complementares para descartar algum problema auditivo. Evidentemente, se um indivíduo não consegue ouvir adequadamente por causa de uma deficiência auditiva, é provável que ele terá problemasem discriminar sons de forma suficientemente precisa para desenvolver boas ligações entre sons/símbolos. Importante, muita atenção! É, portanto, provável que um indivíduo disléxico leve mais tempo para aprender a ler e a soletrar. Entender o contexto e prever o que vai acontecer na história pode ser uma ferramenta útil para leitores disléxicos. 34 Ensino em Quadros de Dislexia Atividade reflexiva Pense em uma ocasião em que você ouviu mal ou entendeu errado alguma coisa que foi dita para você. • Como foi o resultado desse mal-entendido? • Como ele faz você se sentir? Dificuldades de memória Dificuldades de memória também são uma característica comum da dislexia. Em termos simples, a nossa memória é feita de várias partes: • Memória de trabalho (ou operacional). • Memória de longo-prazo. • Memória de curto prazo. O que é a memória de curto prazo? A memória de curto prazo tem uma capacidade limitada. Alguns estudos parecem identificar que, a capacidade de memória de curto prazo de indivíduos disléxicos é menor que de indivíduos não disléxicos. Um indivíduo disléxico pode ter dificuldades em lembrar mais que “3 pedaços de informação”, enquanto uma pessoa não disléxica pode lembrar em média entre “5-9 pedaços de informação” (ver Figura ilustrando a situação operacional da memória). Por isso, a importância de comandos mais claros e enxutos para quem tem dificuldades na memória, principalmente para o disléxico. DISLÉXICO INFORMAÇÃO NÃO-DISLÉXICO INFORMAÇÃO 35 Ensino em Quadros de Dislexia O que é a memória de trabalho? O trabalho de Baddeley e Hitch (1974) identifica um modelo de memória um pouco diferente, denominado por eles de memória de trabalho. Eles sugerem que a memória de trabalho é um tipo de memória de curto prazo. Porém, em vez de todo o input de informação ir ao mesmo local, a informação de diferentes inputs sensoriais (visão, audição, etc.) é dividida em áreas diferentes da memória de curto prazo de acordo com o seu tipo. Baddeley e Hitch (1974) dizem que a memória de trabalho inclui 3 componentes: • Executivo central: Controla o funcionamento geral da memória de trabalho. Esta é a parte que filtra, prioriza e categoriza a informação recebida dos inputs sensoriais. • Área de armazenamento visuoespacial (olho interno): Sistema que processa e armazena imagens mentais. • Alça fonológica: É a parte da memória de trabalho que lida com o material falado. Ela tem duas partes: • Sistema de controle articulatório (voz interna). • Armazenamento fonológico (ouvido interno). A Figura a seguir fornece uma representação visual de como esses componentes estão relacionados para nos situarmos melhor nessa explicação: 36 Ensino em Quadros de Dislexia Se o executivo central não está funcionando de forma eficaz, isso pode significar que o indivíduo tem dificuldades com todos ou alguns dos itens a seguir: • Filtrar informação que não é necessária; • Descobrir o que precisa ser feito primeiro; • Dar ordem de importância à uma série de ilustrações (priorizar). Como consequência, o indivíduo pode armazenar informações em um local inadequado em sua memória, onde não é possível acessá-las com facilidade. Outra possibilidade é que a memória específica pode ser categorizada de uma forma diferente ao habitual, por exemplo, pela imagem, contexto, local, etc. Isso significa que a memória então só poderá ser recuperada quando o indivíduo estiver no mesmo local / ver mesma imagem / vivenciar um contexto similar. Isso pode explicar por que, às vezes, indivíduos que aprenderam algo em determinado contexto não conseguem transferir esse aprendizado para outro contexto. Basicamente, a memória foi associada ao contexto específico e só se torna acessível em determinadas circunstâncias. Um exemplo típico disso é o aluno que aprendeu a ortografia correta das palavras para um teste de ortografia, mas não consegue depois transferir essa ortografia para outro trabalho escrito. Executivo Central Interface Episódica Esboço Visuoespacial Alça Fonológica Armazenamento Fonológico Sistema de Controle Articulatório Memória de Longo-Prazo 37 Ensino em Quadros de Dislexia Problemas práticos com a memória de trabalho Em indivíduos com dislexia, as dificuldades de memória não estão apenas limitadas à alfabetização, mas também aparecem em outras áreas da vida, como: • Atividades de sequenciamento; • Lembrar de compromissos e do que precisa ser feito; • Lembrar e organizar pertences pessoais; • Lembrar o que foi pedido. Na prática, ser uma pessoa esquecida na escola, em casa ou no trabalho pode levar a muita frustração para o indivíduo e para aqueles ao seu redor. Em alguns casos, as consequências de se esquecer podem ser severas, levando a castigos e punições. É importante lembrar que o indivíduo não se esquece de propósito. Muitas vezes, a realidade é que a informação nunca foi processada. Ela nunca chegou a fazer parte da memória de curto prazo, porque a capacidade máxima da memória de curto prazo tinha sido atingida, então é como se a informação nunca tivesse existido ou chegado. Por sua vez, isso pode levar a possíveis disputas e discussões que normalmente começam com “Eu lhe disse para fazer...” seguido de uma resposta do tipo “Você nunca me disse para...”, “Tenho certeza que a professora não deu esse assunto...” e por aí existem tantas frases para defesa daquele esquecimento. Há um potencial infinito para essa situação se deteriorar e se tornar um círculo vicioso de acusações e negações. Mesmo quando a informação foi armazenada na memória ela pode não estar acessível e fácil de ser recuperada. O resultado é que um indivíduo disléxico pode precisar de ajuda para desenvolver apoios concretos para criar um sistema de backup para compensar sua memória mais fraca. 38 Ensino em Quadros de Dislexia Treinos de automaticidade Pense em todas as habilidades importantes que precisamos utilizar para aprender em um ambiente formal, por exemplo: • Ler; • Compreender; • Ouvir a professora; • Tomar nota, etc. Todas elas requerem um grande número de habilidades de processamento que precisam ocorrer simultaneamente. No caso de um indivíduo disléxico, essas habilidades não funcionam de forma automática, por isso exigem muita concentração, o que pode levar a uma sobrecarga e a memória de trabalho deve ser muito treinada por todos nós inevitavelmente, em razão de tantas informações que recebemos a todo instante. Isso é frequentemente visto, por exemplo, quando um aluno precisa produzir um texto criativo. Enquanto a parte criativa do trabalho pode ser extremamente boa, frequentemente isso pode vir às custas de outros aspectos, como ortografia, legibilidade, pontuação, etc. O oposto também pode acontecer – se um aluno está focado na estrutura do texto e na ortografia das palavras, o conteúdo escrito pode faltar criatividade. Atenção A memória é algo necessário na vida cotidiana. Devido a isso, fraquezas na memória de curto prazo e/ou na memória de trabalho impactam todas as tarefas do dia a dia, e não somente o aprendizado do indivíduo. 39 Ensino em Quadros de Dislexia A prática pode levar à perfeição, sem causar exaustão? Como consequência dessas dificuldades, o indivíduo disléxico frequentemente precisa de muito mais prática em atividades relacionadas à leitura para que elas se tornem automáticas. Até em tarefas mais básicas, como estabelecer relações entre sons e letras, alunos disléxicos podem precisar de muito mais prática e repetição do que alunos não disléxicos. Sabendo que a repetição gera exaustão e por isso deve ser avaliado de caso em caso. A abordagem chave aqui é ensinar em pequenos passos, um ensinamento após o outro, assegurando-se que cada passo seja cuidadosamente aprendido, praticado, sedimentado e facilmente recuperado antes de adicionar a próxima peça a ser aprendida. Quando um novo material é apresentado, ele deve ser vinculado ao conhecimento já adquiridopara que o “sistema de arquivamento” do indivíduo possa trabalhar de forma eficiente, em feedbacks necessários de avaliações para que se gerencie novas etapas. É comum que pessoas que dão apoio a indivíduos disléxicos se desanimem, pois, o progresso pode parecer muito lento. Como resultado, elas podem sentir que o apoio que estão dando não é eficaz, mas todos aqui precisam de acolhimento, muita perseverança e conhecimento nunca é demais. Mesmo com tarefas não relacionadas à leitura, um indivíduo pode levar mais tempo para se tornar proficiente, especialmente se a tarefa requer a realização de muitas atividades em sequência, ou seja, coisas que precisam ser feitas em determinada ordem. Mais uma vez, o caminho é a prática, repetição assistida e estudada. Isso explica por que muitos programas que buscam dar apoio a pessoas com dislexia são chamados de “estruturados e cumulativos”. Atividade reflexiva Pense em três atividades que requerem automaticidade (como dirigir um carro, etc.). 40 Ensino em Quadros de Dislexia Qual seria o efeito se uma pessoa não conseguisse chegar à automaticidade naquela área ou levasse muito tempo para isso? Velocidade de processamento O termo “velocidade lenta de processamento” pode dar a falsa impressão de que o cérebro de um indivíduo disléxico trabalha em um ritmo mais lento do que o cérebro de um indivíduo não disléxico. Isso pode trazer uma série de conotações negativas e por isso as desvalias entre os disléxicos são tão comuns. O que esse termo realmente significa é que o cérebro disléxico leva mais tempo para armazenar e recuperar informações porque ele não segue uma rota de processamento direta ou linear. Isso pode ser comparado a tomar a rota mais bonita para chegar a um destino, por exemplo, indo por uma estrada de terra em vez da autoestrada. A autoestrada é a rota mais direta, e leva o viajante de A para B em menos tempo. Isso é semelhante à forma como trabalha o cérebro não disléxico: ele usará a rota mais rápida para recuperar a informação necessária, mas cheia de altos e baixos. A rota mais bonita pode dar mais voltas, e o viajante poderá encontrar muitas coisas novas e inesperadas no caminho, então ela inevitavelmente levará mais tempo. Isso é semelhante a como um cérebro disléxico recupera informações, já que, em razão das diferenças de como a sua memória de trabalho funciona, ela poderá ter sido arquivada via uma rota menos óbvia. Em situações da vida real, isso pode significar que, quando indivíduos disléxicos têm de responder a uma pergunta, eles podem levar mais tempo para encontrar a informação e responder, apesar de saberem a resposta. Enquanto isso, quem fez a pergunta pode assumir, incorretamente, que o indivíduo não sabe a resposta ou que ele não está prestando atenção. Em exames ou testes, em que normalmente há um tempo limitado, isso pode ser um problema. É por isso que alguns indivíduos disléxicos devem receber tempo extra em avaliações, tarefas e trabalhos. Não só para que possam checar as suas respostas ao fim da prova, mas para que tenham o tempo necessário para processar e recuperar informações perdidas neste percurso. 41 Ensino em Quadros de Dislexia Dentro de um ambiente de aprendizagem, esse ritmo mais lento de processamento pode significar que o professor já avançou para o próximo assunto antes que o aluno disléxico tenha processado o primeiro assunto, por isso é preciso ter cuidado e entender as dificuldades de cada um. Nessa situação, o aluno acaba assimilando pedaços de informações, o que pode levar a ainda mais confusão e aumentar as dificuldades já presentes em sua memória de trabalho. Resumindo, todas as diferenças vividas por um indivíduo disléxico podem, na prática, levá-lo a trabalhar muito mais do que seus colegas não disléxicos. Isso pode levar à fadiga, ao estresse e à falta de confiança. Isso acontece especialmente em um ambiente que não acomoda seus sistemas diferentes de processamento. Prioriza a memória e o pensamento linear, e só avalia a aprendizagem por meio das atividades de leitura e escrita. Gerando alguns problemas com algumas das áreas identificadas descritas anteriormente e até problemas pessoais, como falta de autoconfiança e autoestima. Indivíduos disléxicos frequentemente acabam focando nas coisas que eles sentem que não fazem tão bem quanto os outros. Por causa disso, eles acham difícil identificar os seus talentos e aptidões. Consequentemente, podem sentir que não são muito bons em nada. Em razão de experiências passadas, também podem sentir bastante raiva e frustração direcionadas àqueles que parecem adquirir facilmente aquelas habilidades que consideram tão difíceis. Haverá momentos em que um indivíduo poderá se sentir muito ansioso, especialmente quando se encontra em uma situação nova ou desconhecida em que sente as suas fraquezas expostas a estranhos, sentindo-se ridicularizados ou a erros constantes. Quando a dislexia pode ser identificada? É improvável que um diagnóstico de dislexia seja dado a uma criança com menos de sete anos. Apesar de existirem muitas crianças disléxicas que apresentam sinais claros de dificuldades antes dessa idade – são os sinais 42 Ensino em Quadros de Dislexia de alerta para dislexia. Há muitas diferenças no seu desenvolvimento e falta de evidências fortes para que seja fechado um diagnóstico formal e confiável antes dessa idade. Isso não significa, porém, que uma criança com menos de sete ano não se beneficiaria de uma avaliação para identificar o seu perfil individual de aptidões e dificuldades. Ao fazer isso, um programa de intervenção e apoio pode ser implementado o quanto antes, a fim de evitar que a criança fique atrás dos seus colegas durante os primeiros anos da alfabetização (agindo na prevenção, ainda é o melhor remédio). Evidência para a implementação de apoio precoce Evidências a favor de intervenção a indivíduos disléxicos apontam que o quanto antes o apoio é implementado, mais eficaz ele provavelmente será. A importância da identificação, avaliação e intervenção precoce para qualquer criança que pode ter necessidades educacionais especiais precisa ser enfatizada. O quanto antes ações forem tomadas, melhor será a resposta da criança e mais facilmente a intervenção será feita sem causar tanta interrupção na escola. A avaliação não deve ser vista como um evento único, mas um processo contínuo. Os princípios da identificação O objetivo principal de qualquer processo de identificação é direcionar o processo de acompanhamento terapêutico e pedagógico para que esse possa ser o mais eficaz possível, baseado no perfil único do indivíduo e considerando as suas aptidões e dificuldades. O processo de identificação é somente o meio de chegar ao resultado e, portanto, nunca deve ser visto como o final em si. Em vez disso, deve ser usado como o início de uma intervenção personalizada e individualizada. A maioria dos métodos de identificação busca encontrar um padrão de dificuldades consistente com aqueles associados à dislexia. Estes métodos podem incluir testes ou tarefas associadas a questões, como: 43 Ensino em Quadros de Dislexia • Dificuldades de leitura; • Dificuldades de memória; • Dificuldades de processo fonológico, etc. Existem no mercado variados testes que podem rastrear essas dificuldades, vejam quais podem ser usados, os permitidos para cada área de atuação de cada terapeuta na sua especificidade de direito – psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos. O propósito desses testes é construir um perfil do padrão de desempenho do indivíduo baseado em uma série de tarefas. Uma vez desenvolvido, esse perfil é então examinado e interpretado e assim feito um programa para o desenvolvimento das habilidades que não tiveram bom desempenho (as dificuldades que serão trabalhadas). Utilizando perfis de desempenho na identificação da dislexia Na maioria dos casos, um indivíduo não disléxico apresenta um perfil de desempenho relativamenteconsistente ao longo de uma série de tarefas. No caso de um indivíduo disléxico, espera-se um perfil inconsistente. Em outras palavras, a expectativa é que, em tarefas relacionadas à leitura, ao processamento fonológico, à memória, entre outras, um indivíduo disléxico apresentaria um desempenho significativamente pior do que o esperado, quando comparado a indivíduos não disléxicos da mesma idade, que foram expostos a oportunidades de aprendizado semelhantes. Trata-se de um perfil inconsistente de desempenho que é inesperado quando se considera a inteligência geral do indivíduo e o seu desempenho em outras atividades. Qualquer processo de avaliação pode ser estressante para os indivíduos envolvidos, já que várias das tarefas que eles terão que completar serão muito desafiadoras caso eles realmente sejam disléxicos. Há, é claro, diferentes graus de dislexia, normalmente descritas como leve, moderada e severa. O grau da dislexia é normalmente categorizado 44 Ensino em Quadros de Dislexia baseado na severidade das dificuldades sentidas pelo indivíduo em cada uma das áreas testadas comparadas com o seu nível de habilidade inata. Programas de identificação Há vários modelos que podem ser utilizados para ajudar a identificar a dislexia, cada um tem suas vantagens e desvantagens, por isso o estudo se faz necessário, pensando nisso temos dedicamos esse estudo específico aqui para dislexia. Como mencionando anteriormente, o objetivo da identificação da dislexia é o direcionamento do processo de acompanhamento terapêutico e pedagógico (equipe multidisciplinar). O foco deve sempre ser os próximos passos para ajudar o indivíduo a aprender e avançar, e evitarmos julgamentos. A composição dessa equipe pode variar dependendo dos sintomas apresentados e do centro onde a avaliação acontece. Checklist para Transtorno de Aprendizagem com prejuízo na leitura (dislexia) (Cruz-Rodrigues et al., 2014) Critérios de diagnósticos para dislexia a) Persistência das dificuldades de aprendizagem, apesar da provisão de intervenções-alvo nas habilidades em déficit (pelo menos 6 meses); b) Mensuração das habilidades acadêmicas substancialmente abaixo do esperado para a idade cronológica e prejuízos decorrentes do déficit acadêmico; c) Início dos sintomas nos primeiros anos escolares, que podem se tornar manifestos conforme o aumento das demandas de aprendizagem excede as capacidades limitadas; d) Exclusão de outras desordens, como deficiência intelectual (DI). 45 Ensino em Quadros de Dislexia e) Desenvolver uma lista de perguntas para poder identificar um padrão de comportamentos ou dificuldades com base nas respostas fornecidas. Enquanto os checklists podem ser um tanto quanto subjetivos, eles fornecem um primeiro passo importante para a identificação da dislexia (contendo principalmente testes de leitura no nível acadêmico para a idade de cada indivíduo). f) Anamnese psicopedagógica minuciosa com toda a vida tanto do indivíduo em si que iremos investigar, como também a familiar, tendo um olhar investigativo no percurso acadêmico familiar (família toda envolvida nesse rastreamento). g) Não podemos esquecer de traçar um perfil de aptidões, pois a maioria das triagens ou testes, só se preocupam com as dificuldades e entreves, mas precisamos das aptidões para traçarmos um plano de trabalho prazeroso. Sendo que algumas dessas atividades avaliativas serão mais relacionadas às dificuldades esperadas, enquanto outras não serão relacionadas às dificuldades esperadas e agirão como “controle”. h) Como um todo nessa fase de entrevistas, testes e exames, o ambiente escolar, deverá ser incluído nesse rastreio. Incluir o professor é um dos pontos fundamentais nessa programação, entender que o acolhimento assertivo só favorecerá essas listagens para serem fidedignas nesse tipo de avaliação. Consideramos que as atividades praticadas e as dificuldades serão identificadas. A partir disso, são feitas recomendações de ajuda e adaptações. i) Uma avaliação levará no mínimo 2 horas (em cada encontro), dependendo do grau de severidade, pois esse rastreamento deverá ser feito cuidadosamente para que essa avaliação seja multidisciplinar. Onde devem ser marcadas sessões neuropsicológicas, fonoaudiológicas, psicopedagógicas oftalmológicas e onde serão solicitados exames Distinguir os quadros de dislexia do desenvolvimento das demais dificuldades de aprendizagem é fundamental durante o processo de avaliação diagnóstica e para a condução de tratamentos adequados, uma vez que os fatores etiológicos desses quadros são distintos. 46 Ensino em Quadros de Dislexia complementares para conter nesse conjunto avaliativo do indivíduo (vai depender da solicitação necessária em cada área aqui citada). Nestas sessões, aplicam-se protocolos de avaliações com testes específicos a cada área e idade do indivíduo avaliado. Após a fase de coleta de dados, inicia-se um período de estudos, quando cada profissional avalia os dados obtidos em sua área de atuação e assim a equipe multidisciplinar fará o relatório escrito com todas essas recomendações. Importante! A vantagem dos checklists é que eles podem ser usados como um passo informal e de baixo custo para a identificação da dislexia. Eles dependem, porém, de respostas honestas do indivíduo e da habilidade do indivíduo que está administrando o checklist para interpretar as respostas de forma precisa e justa. 47 Ensino em Quadros de Dislexia Uma avaliação com qualidade é o ponto de partida para garantir que a pessoa com dislexia tenha acesso aos acompanhamentos, ajudas e suportes adequados. Ela possibilita que o indivíduo e sua família tenham um entendimento mais preciso sobre a natureza de suas dificuldades e habilidades, podendo assim, buscar soluções apropriadas e inclusivas. Em módulos anteriores, explicamos o que é a dislexia e apresentamos algumas das teorias associadas a ela. Além disso, vimos as diferentes formas de identificar a dislexia. O aspecto mais importante da dislexia é o indivíduo disléxico, cada ser único e sendo extremamente acolhido por todos. Às vezes, há o perigo de estarmos tão envolvidos no diagnóstico ou no programa de apoio que queremos implementar mais atividades repetitivas no contexto acadêmico que podemos nos esquecer do indivíduo e de suas necessidades – um olhar nas habilidades é de extrema importância. Qualquer método de identificação, deve colocar o indivíduo no centro do processo e toda a comunidade do indivíduo estar envolvida. Para isso, precisamos ter uma boa compreensão de como é ser disléxico. Dificuldades comuns no ambiente escolar Como já temos estudado até aqui e não é uma surpresa que a dislexia pode ter um impacto significativo na vida de um indivíduo, desde muito cedo. As dificuldades mais comuns são nas habilidades de leitura e escrita. Geralmente, precisa-se de muito mais persistência e esforço para aprender a ler e escrever. Mesmo após essas habilidades terem sido adquiridas, ainda podem persistir problemas relacionados a: • Velocidade; • Compreensão textual (entendimento do que foi lido); • Fluência na leitura; • Ortografia; 48 Ensino em Quadros de Dislexia • Expressão escrita. Como consequência das dificuldades dos sistemas de memória, podem existir problemas relacionados a: • Habilidades organizacionais; • Completar tarefas complexas; • Priorizar informações ou tarefas; • Lembrar de mensagens ou lista de instruções, etc. Números também podem criar problemas para indivíduos disléxicos; não tanto com os conceitos, mas com os processos e procedimentos associados a eles. Dificuldades comuns podem incluir: • Fazer cálculos (especialmente cálculos complexos que envolvam uma sequência de passos); • Reconhecer símbolos e os seus conceitos; • Desenhar formas e/ou gráficos; • Lembrar das tabelas de multiplicação, etc. Possíveis problemas em interações sociais Para alguns, as dificuldades relacionadas à dislexia também podem