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Apendicite Definição: a apendicite aguda é a inflamação do apêndice vermiforme, geralmente desencadeada pela obstrução de sua luz e seguida por distensão, proliferação bacteriana e comprometimento progressivo da parede. É uma das causas mais frequentes de abdome agudo cirúrgico e uma das principais indicações de cirurgia abdominal de urgência. Pode ocorrer em qualquer idade, mas é mais comum em crianças maiores, adolescentes e adultos jovens. A apresentação varia conforme o tempo de evolução e a posição anatômica do apêndice. Por isso, nem todo paciente apresenta imediatamente a dor clássica na fossa ilíaca direita. Anatomia do Apêndice: o apêndice é uma estrutura tubular, estreita e de fundo cego que se origina no ceco, próximo à junção entre o intestino delgado e o intestino grosso. Sua base nasce na parede posteromedial do ceco, aproximadamente 2 a 3 centímetros abaixo da válvula ileocecal. Um marco anatômico importante é a confluência das três tênias do cólon: ● Tênia livre. ● tênia mesocólica. ● Tênia omental. As três tênias convergem na base do apêndice. Durante a cirurgia, quando o apêndice não é facilmente visualizado, o cirurgião pode acompanhar as tênias sobre o ceco até encontrar sua implantação. As principais posições são: ● Retrocecal. ● Pélvica. ● Subcecal. ● Pré-ileal. ● Pós-ileal. A posição retrocecal é a mais frequente, seguida pela posição pélvica. Essa variação anatômica interfere diretamente na apresentação clínica. Um apêndice anterior e próximo ao peritônio parietal pode provocar dor bem localizada na fossa ilíaca direita. Já um apêndice retrocecal pode produzir dor menos evidente na parede anterior, com desconforto no flanco, região lombar ou durante extensão do quadril direito. O apêndice pélvico pode irritar estruturas próximas, como bexiga, ureter, reto, útero e anexos. Nessa situação, podem aparecer: ● Disúria. ● Polaciúria. ● Dor pélvica ● Sinais semelhantes aos encontrados em doenças ginecológicas. Assim, a posição do apêndice não altera apenas o local da dor: ela também modifica o exame físico e os diagnósticos diferenciais. Estrutura do Apêndice: a parede apendicular possui as mesmas camadas básicas do restante do intestino: ● Mucosa. ● Submucosa. ● Camada muscular. ● Serosa. A submucosa contém grande quantidade de tecido linfoide, particularmente desenvolvido em crianças e adultos jovens. A hiperplasia desse tecido pode estreitar ou obstruir a luz apendicular, explicando por que ela é uma etiologia importante de apendicite nesta faixa etária. O apêndice está ligado ao íleo terminal e ao ceco pelo mesoapêndice, uma prega peritoneal que transporta seus vasos, nervos e linfáticos. Durante a apendicectomia, é necessário controlar os vasos presentes no mesoapêndice antes da retirada do órgão. Irrigação Arterial: a principal irrigação vem da artéria apendicular, geralmente originada da artéria ileocólica. O trajeto arterial é: Aorta abdominal → artéria mesentérica superior → artéria ileocólica → artéria apendicular. A artéria apendicular percorre o mesoapêndice até alcançar a parede do órgão. Ela possui comportamento de artéria terminal, com pouca circulação colateral significativa. Isso tem grande importância na fisiopatologia: quando o aumento da pressão e o edema comprometem o fluxo sanguíneo, não existe suprimento colateral suficiente para manter a parede viável. Logo: Obstrução da luz → aumento da pressão → comprometimento venoso → redução da perfusão arterial → isquemia → necrose e perfuração. Portanto, a característica terminal da artéria apendicular ajuda a explicar por que uma apendicite não tratada pode evoluir para gangrena e perfuração. Drenagem Venosa: acompanha aproximadamente o trajeto arterial: Veias apendiculares → veia ileocólica → veia mesentérica superior → veia porta → fígado. Essa ligação com o sistema porta explica uma complicação rara, porém grave: a pileflebite, uma tromboflebite séptica do sistema portal. Em uma apendicite supurativa, bactérias podem alcançar as veias apendiculares e progredir pelo sistema mesentérico até a veia porta. A infecção pode então atingir o fígado e produzir abscessos hepáticos. Drenagem Linfática: a linfa do apêndice segue pelos linfonodos do mesoapêndice e pelos linfonodos ileocólicos, acompanhando os vasos em direção à cadeia mesentérica superior. Essa drenagem participa da resposta inflamatória regional e ajuda a explicar a presença de linfonodos aumentados próximos ao ceco nos exames de imagem. Entretanto, linfonodos mesentéricos também podem aumentar em infecções sem apendicite, especialmente em crianças, constituindo o diagnóstico diferencial de adenite mesentérica. Etiologia: a apendicite aguda geralmente começa com a obstrução da luz do apêndice. Como o órgão possui luz estreita e termina em fundo cego, qualquer obstrução dificulta a saída das secreções produzidas pela mucosa. As principais causas são: ● Fecalito. ● Hiperplasia do tecido linfoide. Fecalito: é uma massa endurecida formada por fezes, sais minerais e detritos orgânicos. Quando impacta a luz apendicular, impede a drenagem das secreções. Sua presença está associada a maior possibilidade de obstrução persistente e pode aumentar o risco de evolução complicada, como gangrena, perfuração ou abscesso. Hiperplasia linfoide: a parede do apêndice possui grande quantidade de tecido linfoide, especialmente em crianças, adolescentes e jovens adultos. Após infecções gastrointestinais ou sistêmicas, esse tecido pode aumentar de volume e obstruir a luz apendicular. A hiperplasia linfoide é, portanto, uma causa particularmente importante nas faixas etárias mais jovens. Causa menores incluem; ● Parasitas. ● Corpos estranhos. ● Tumores do apêndice ou ceco. ● Doença de Crohn. Fisiopatologia: após a obstrução, a mucosa continua produzindo muco. Como o conteúdo não consegue sair, ocorre acúmulo de secreção e aumento progressivo da pressão dentro do apêndice. Distensão e dor visceral: no início, a distensão estimula fibras nervosas viscerais que acompanham o sistema simpático até segmentos medulares relacionados ao intestino médio. Como a inervação visceral possui baixa capacidade de localizar precisamente a origem do estímulo, a dor inicial costuma ser: ● Difusa. ● Mal delimitada. ● Localizada na região periumbilical. Esse é o motivo fisiopatológico para a dor começar ao redor do umbigo, mesmo que o apêndice esteja situado na fossa ilíaca direita. Proliferação bacteriana e inflamação: a estase do conteúdo favorece a multiplicação das bactérias normalmente presentes no intestino. A pressão crescente e a invasão bacteriana provocam inflamação da mucosa e, posteriormente, das demais camadas da parede. A microbiota envolvida costuma ser polimicrobiana, incluindo entéricas gram-negativas e anaeróbias, especialmente: ● Escherichia coli. ● Bacteroides fragilis. ● Outras enterobactérias e anaeróbios intestinais. A inflamação produz edema e exsudato, aumentando ainda mais a pressão dentro de uma estrutura que não consegue expandir-se nem drenar adequadamente. Forma-se, assim, um ciclo de piora progressiva. Comprometimento vascular: o aumento da pressão comprime inicialmente os vasos linfáticos e as veias, que possuem paredes mais finas e baixa resistência à compressão. A drenagem fica prejudicada, agravando o edema. Com a progressão, o fluxo arterial também é comprometido. Como a artéria apendicular possui pouca circulação colateral, a redução da perfusão pode provocar rapidamente: ● Isquemia. ● Necrose. ● Gangrena. ● Perfuração. Migração da Dor: quando a inflamação ultrapassa a parede do apêndice e alcança o peritônio parietal da fossa ilíaca direita, a natureza da dor muda. O peritônio parietal possui inervação somática econsegue localizar melhor o estímulo. Por isso, a dor migra: região periumbilical → fossa ilíaca direita. Essa migração representa a passagem de uma dor visceral, mal localizada, para uma dor somática, mais intensa e bem delimitada. A localização final pode variar conforme a posição do apêndice. Um apêndice retrocecal pode produzir dor no flanco ou região lombar, enquanto um apêndice pélvico pode causar dor hipogástrica, sintomas urinários ou tenesmo. Evolução Anatomopatológica: a evolução pode ser dividida em fases: 1. Fase edematosa ou catarral: a obstrução provoca acúmulo de secreção, distensão e edema inicial da parede. Nesse momento, predomina a dor visceral periumbilical, podendo já existir anorexia, náuseas e mal-estar. 2. Fase supurativa ou flegmonosa: a proliferação bacteriana e a inflamação atinge progressivamente toda a parede. Surgem exsudato, edema mais intenso e irritação dos tecidos adjacentes. Quando o peritônio parietal é atingido, a dor torna-se mais localizada na fossa ilíaca direita. Também podem aparecer febre, defesa abdominal e elevação dos marcadores inflamatórios. 3. Fase gangrenosa: o comprometimento da irrigação provoca isquemia e necrose da parede. O risco de perfuração aumenta e o paciente pode apresentar maior repercussão sistêmica. 4. Fase perfurativa: a parede necrosada se rompe e libera bactérias e conteúdo contaminado para a cavidade abdominal. A evolução dependerá da capacidade do organismo de conter o processo: ● Se o omento e as alças bloquearem a região, pode formar-se abcessos. ● Se a contaminação se espalhar pela cavidade, pode ocorrer peritonite generalizada. ● Se as bactérias atingirem a circulação, pode ocorrer sepse. A perfuração não acontece obrigatoriamente após um número fixo de horas. O risco aumenta com a progressão e com o atraso no tratamento, mas a velocidade varia conforme idade, etiologia, resposta imunológica e características anatômicas. Apresentação Clínica: é uma dor abdominal inicialmente mal localizada na região periumbilical, que posteriormente migra para a fossa ilíaca direita. Geralmente vem acompanhada de anorexia, náuseas, vômitos e febre baixa. Dor abdominal: inicialmente, a distensão do apêndice estimula fibras viscerais, produzindo dor: ● Difusa. ● Mal delimitada. ● Periumbilical. Com a progressão da inflamação até o peritônio parietal, a dor torna-se mais intensa e localizada na fossa ilíaca direita. A dor costuma piorar com movimentos que deslocam o peritônio inflamado, como: ● Caminhar. ● Tossir. ● Espirrar. ● Mudar de posição na cama. Por isso, o paciente frequentemente permanece imóvel, caminha curvado ou protege a fossa ilíaca direita com as mãos. Anorexia: a redução do apetite é muito frequente e costuma ocorrer precocemente. Embora não seja específica, sua presença associada à dor migratória fortalece a hipótese. Náuseas e vômitos: podem ocorrer devido à estimulação visceral e ao processo inflamatório. Na apresentação clássica, a dor costuma surgir antes dos vômitos: primeiro a dor, depois os vômitos. Quando vômitos intensos e repetidos começam antes da dor, devem ser considerados outros diagnósticos, especialmente gastroenterite, intoxicação alimentar ou obstrução intestinal. Febre: costuma ser baixa no início. A associação entre febre e dor localizada reforça a presença de um processo inflamatório. Alterações Intestinais e Urinárias: o hábito intestinal pode permanecer normal, mas alguns pacientes apresentam constipação ou diarreia. A diarréia é mais provável quando o apêndice está em posição pélvica e irrita o reto. Quando o apêndice inflamado está próximo da bexiga ou do ureter, podem aparecer disúria e polaciúria. Influência da Posição do Apêndice: Apêndice retrocecal: por estar posterior ao ceco, pode permanecer afastado do peritônio anterior. A dor na fossa ilíaca direita pode ser menos evidente, surgindo: ● Dor no flanco direito. ● Dor lombar. ● Dor com a extensão do quadril direito. ● Sinal de psoas positivo. Apêndice pélvico: pode irritar a bexiga, ureter, reto e órgãos ginecológicos, produzindo: ● Dor hipogástrica ou pélvica. ● Disúria e polaciúria. ● Diarreia. ● Sinal do obturador positivo. Apêndices pré-ileal e pós-ileal: podem provocar dor menos típica, distensão, náuseas e vômitos mais intensos devido à proximidade com alças do intestino delgado. Exame Físico: avaliação geral: Inspeção e ausculta: na inspeção pode haver movimentação da parede abdominal durante a respiração, sobretudo nos quadros com irritação peritoneal. Os ruídos hidroaéreos podem estar: ● Preservados no início. ● Diminuídos em inflamação mais intensa. ● Ausentes quando existe íleo paralítico associado à peritonite. A ausculta isolada possui baixa capacidade diagnóstica e deve ser integrada aos demais achados. Palpação abdominal: a palpação deve começar longe da região mais dolorosa e avançar progressivamente em direção à fossa ilíaca direita. Começar diretamente no ponto de maior dor pode causar defesa voluntária e dificultar o restante do exame. Podem ser encontrados: ● Dor localizada. ● Defesa abdominal. ● Rigidez. Ponto de McBurney: está localizado na linha imaginária traçada entre o umbigo e a espinha ilíaca anterossuperior direito, na junção do terço lateral com os dois terços mediais. Dor máxima nessa região é um achado clássico, pois corresponde aproximadamente à localização da base do apêndice. Entretanto, sua ausência não exclui a apendicite, especialmente quando o apêndice ocupa posição retrocecal ou pélvica. Sinal de Blumberg: corresponde à dor provocada pela descompressão brusca do abdome, geralmente pesquisada na fossa ilíaca direita. A compressão desloca lentamente o peritônio; ao retirar a mão, o movimento súbito provoca dor quando existe irritação peritoneal. Sinal de Rovsing: ocorre quando a palpação profunda do quadrante inferior esquerdo provoca dor na fossa ilíaca direita. Esse achado ocorre pelo deslocamento de pressão e tensão até a região do ceco e do peritônio inflamado. Sinal de Psoas: é pesquisado provocando extensão do quadril direito, geralmente com o paciente em decúbito lateral esquerdo, ou solicitado que ele flexione o quadril contra a resistência. Sinal do Obturador: pesquisado com o paciente em decúbito dorsal. Flexionam-se o quadril e o joelho direitos e realiza-se rotação interna do quadril. A manobra tensiona o músculo obturador interno. Dor hipogástrica ou na fossa ilíaca direita sugere irritação desse músculo por um apêndice em posição pélvica. Sinal de Dunphy: corresponde ao aparecimento ou agravamento da dor na fossa ilíaca direita quando o paciente tosse. A tosse aumenta a pressão intra-abdominal e movimenta o peritônio inflamado. É uma maneira simples de pesquisar irritação peritoneal antes de realizar manobras mais dolorosas. Construção do Diagnóstico e Laboratório: o diagnóstico da apendicite começa pela história clínica e pelo exame físico. Os exames laboratoriais e de imagem não substituem esse raciocínio; eles aumentam ou reduzem a probabilidade, ajudam a identificar complicações e permitem avaliar diagnósticos diferenciais. A suspeita é particularmente forte diante da combinação: ● Dor inicialmente periumbilical. ● Migração para fossa ilíaca direita. ● Anorexia. ● náuseas ou vômitos após o início da dor. Hemograma: o hemograma pode demostrar: ● Leucocitose. ● Neutrofilia. ● Desvio à esquerda. O desvio à esquerda representa aumento de forma jovens de neutrófilos, principalmente bastonetes, liberadas pela medula diante da maior demanda inflamatória. Essas alterações reforçam a existência de inflamação aguda, mas não são específicas. Leucocitose muito acentuada, principalmente associada a febre alta, taquicardia e sinais peritoneaisdifusos, aumenta a preocupação com: ● Perfuração. ● Abscesso. ● Peritonite. ● Sepse. Proteína C reativa: a PCR aumenta em resposta à inflamação, mas sua elevação depende do tempo de evolução. Como demora algumas horas para subir, pode estar normal no início da apendicite. A PCR também é inespecífica. Função renal e eletrólitos: ureia, creatinina, sódio e potássio não diagnosticam apendicite, mas ajudam avaliar: ● Desidratação. ● repercussão dos vômitos. ● Lesão renal. ● Segurança de administração de contraste. Exame de urina: o EAS é útil para avaliar diagnósticos urinários, como infecção ou cálculo uretral. Achados como nitrito positivo, bacteriúria importante e urocultura positiva favorecem infecção urinária, embora seja necessário interpretar todo o quadro. Beta-hCG: em toda paciente em idade fértil com possibilidade de gestação, deve-se solicitar beta-hCG. Esse exame é fundamental porque: ● Gravidez ectópica pode simular apendicite. ● Gestação modifica a escolha de exames de imagem. ● O planejamento cirúrgico e anestésico precisam considerar a gestação. Escore de Alvarado: o escore de alvarado reúne sintomas físicos e alterações laboratoriais para estimar a probabilidade de apendicite. Ele é lembrado pelo mnemônico MANTRELS. M - Migração da dor: migração da dor para fossa ilíaca direita → 1 ponto. A - Anorexia: presença de anorexia → 1 ponto. N - Náuseas e vômitos: náuseas ou vômitos → 1 ponto. T - Tenderness: dor à palpação da fossa ilíaca direita → 2 pontos. R - Rebound: descompressão dolorosa ou sinal de irritação peritoneal → 1 ponto. E - Elevated temperature: temperatura elevada → 1 ponto. L - Leucocitose: leucocitose → 2 pontos. S - Shift to the left: desvio à esquerda ou neutrofilia → 1 ponto. A pontuação máxima é de 10 pontos. A interpretação pode variar discretamente entre protocols, mas uma divisão prática é: ● 0 a 4 pontos: apendicite pouco provável. ● 5 a 6 pontos: probabilidade intermediária. ● 7 a 8 pontos: apendicite provável. ● 9 a 10 pontos: apendicite muito provável. Nos escores baixos, deve-se procurar outra explicação e orientar reavaliação se os sintomas persistirem ou piorarem. Nos escores intermediários, a observação clínica, a repetição do exame e os métodos de imagem ganham importância. Nos escores altos, deve-se solicitar avaliação cirúrgica e conduzir rapidamente a investigação, sem deixar que exames desnecessários atrasem o tratamento de um paciente com sinais de complicação. Exames de Imagem: ajudam a confirmar a inflamação do apêndice, para avaliar complicações e identificar diagnósticos alternativos. Sua necessidade depende da probabilidade clínica, da idade, do sexo, da gestação e da disponibilidade. Radiografia simples: a radiografia do abdome apresenta utilidade limitada na investigação da apendicite. Ela não visualiza adequadamente o apêndice e não deve ser utilizada como principal exame confirmatório. Seu uso pode ser considerado quando existem outras hipóteses, como obstrução intestinal ou perfuração de víscera oca, mas uma radiografia normal não exclui a apendicite. Ultrassonografia abdominal: é um exame não invasivo, não utiliza radiação e pode visualizar diretamente o apêndice inflamado. É especialmente útil como método inicial em: ● Crianças. ● Adolescentes. ● Gestantes. O exame utiliza técnica de compressão graduada. O transdutor exerce pressão progressiva na fossa ilíaca direita para afastar gás e alças intestinais e tentar identificar o apêndice. Os principais achados são: ● Diâmetro externo aumentado, acima de 6 cm. ● Líquido ao redor do apêndice. ● Coleções ou abscessos. ● Espessamento da parede. No corte axial, o apêndice inflamado pode apresentar camadas concêntricas, formando a chamada imagem em alvo. A ultrassonografia depende da experiência do examinador e pode ser prejudicada por: ● Obesidade. ● Grande quantidade de gás intestinal. ● Apêndice retrocecal. ● Localização profunda ou pélvica. Não visualizar o apêndice não significa visualizar um apêndice normal. Quando o apêndice não é encontrado, o exame deve ser considerado inconclusivo, principalmente se não houver sinais secundários. Por outro lado, quando o apêndice é claramente visualizado com características normais, a apendicite torna-se muito menos provável. Tomografia computadorizada: a tomografia de abdome e pelve apresenta elevada precisão e é frequentemente o principal exame em adultos não gestantes quando existe dúvida diagnóstica. Além de avaliar o apêndice, a TC examina toda a cavidade e pode identificar: ● Cálculo ureteral. ● Diverticulite. ● Doença de Crohn. ● Neoplasia. ● Outras causas de dor abdominal. Os principais achados de apendicite são: ● Apêndice dilatado. ● Espessamento da parede. ● Apendicolito. ● Linfonodos regionais. ● Coleção ou abscesso. O diâmetro aumentado isoladamente não fecha o diagnóstico. Um apêndice discretamente calibroso pode existir sem inflamação. A interpretação precisa considerar simultaneamente a parede, a gordura adjacente, a clínica e os marcadores inflamatórios. Uso de contraste: quando não existem contraindicações, a TC com contraste intravenoso costuma oferecer boa avaliação da parede, da inflamação e das possíveis complicações. Antes do contraste, devem ser considerados: ● Função renal. ● Alergia prévia relevante. ● Estado de hidratação. ● Benefício esperado. Contrastes oral e retal não são necessários para diagnosticar apendicite na tomografia atual. Ressonância magnética: não utiliza ionizante e é especialmente útil durante a gestação quando a ultrassonografia é inconclusiva. Pode demonstrar: ● Aumento do calibre do apêndice. ● Espessamento da parede. ● Edema. ● Inflamação da gordura adjacente. Suas limitações incluem: ● Menor disponibilidade. ● maior tempo de realização. ● Custo. Em uma gestante estável, a sequência habitual é: avaliação clínica → ultrassonografia → ressonância se o ultrassom for inconclusivo e a suspeita persistir. Escolha Prática do Exame: Crianças e adolescentes: a ultrassonografia costuma ser o primeiro exame. Se for inconclusiva e a suspeita permanecer, podem ser considerados: ● Repetição do exame. ● Observação clínica. ● Ressonância. ● Tomografia, conforme disponibilidade e risco clínico. O objetivo é evitar radiação desnecessária sem atrasar o diagnóstico de uma doença em progressão. Adultos não gestantes: a tomografia costuma apresentar maior precisão, especialmente em apresentações atípicas ou de probabilidade intermediária. Gestantes: a ultrassonografia é o método inicial. Se não esclarecer o quadro, a ressonância é o próximo exame preferencial quando disponível. Diagnóstico Diferencial: diante de dor na fossa ilíaca direita, os principais grupos a serem considerados são: ● Doenças gastrointestinais. ● Doenças urinárias. ● Doenças ginecológicas nas mulheres. A diferenciação depende principalmente da evolução da dor, dos sintomas associados, do exame físico, do EAS, do beta-hCG e dos exames de imagem. Principais Diferenciais Gastrointestinais: Gastroenterite aguda: geralmente produz vômitos, diarreia e dor abdominal difusa. Pode existir febre e leucocitose, mas não ocorre a migração característica da dor para a fossa ilíaca direita. A sequência dos sintomas ajuda: ● Na apendicite, a dor geralmente aparece antes dos vômitos. ● Na gastroenterite, vômitos e diarreia frequentemente aparecem antes ou junho da dor. A presença de diarreia não exclui completamente a apendicite, pois um apêndice pélvico pode irritar o reto. Adenite mesentérica: é mais comum em crianças e pode surgir após infecção viral ou bacteriana. A inflamação dos linfonodos mesentéricos produz febre e dor na fossa ilíaca direita, simulando apendicite.A imagem demonstra linfonodos aumentados, mas um apêndice com aspecto normal. História recente de infecção respiratória ou gastrointestinal também favorece esse diagnóstico. Doença de Crohn: a inflamação do íleo terminal pode causar dor na fossa ilíaca direita, febre e elevação dos marcadores inflamatórios. A presença de diarreia crônica, emagrecimento, anemia, manifestações perianais ou episódios anteriores favorece doença de Crohn em vez de apendicite aguda isolada. Diverticulite cecal: pode causar dor, febre e inflamação na fossa ilíaca direita, sendo muito semelhante à apendicite. A tomografia é importante para demonstrar se o processo inflamatório está centrado no apêndice ou em um divertículo do cólon direito. Principais Diferenciais Urinários: Cálculo uretral: pode causar dor no flanco ou região lombar com irradiação para o abdome inferior, virilha ou genitália. O paciente com cólica renal costuma ficar inquieto e mudar constantemente de posição. Na apendicite com irritação peritoneal, tende a ficar imóvel porque o movimento piora a dor. Hematúria favorece o cálculo, embora pequena quantidade de hemácias na urina também possa ocorrer se o apêndice estiver próximo do ureter. Infecção urinária e pielonefrite: a infecção urinária costuma provocar: ● Disúria. ● Polaciúria. ● Dor suprapúbica. ● Bacteriúria ou nitrito positivo. Na pielonefrite, predominam febre alta, calafrios, dor lombar e sinal de Giordano positivo. Um apêndice pélvico pode causar sintomas urinários e leucocitúria discreta por irradiação da bexiga ou ureter. Principais Diferenciais Ginecológicos: Doença inflamatória pélvica: a DIP é um dos principais diagnósticos diferenciais da apendicite em mulheres. Pode apresentar: ● Dor pélvica geralmente bilateral. ● Febre. ● Corrimento vaginal. A presença de corrimento e dor à mobilização cervical favorece a DIP. Entretanto, um apêndice pélvico também pode provocar dor durante o exame ginecológico. Gravidez ectópica: deve ser considerada em toda mulher fértil com dor abdominal, atraso menstrual ou sangramento vaginal. A investigação inclui beta-hCG e ultrassonografia transvaginal. Uma gravidez ectópica rota representa emergência cirúrgica. Torção ovariana: a torção geralmente provoca dor pélvica súbita e intensa, acompanhada de náuseas e vômitos. O início mais abrupto e a identificação de alteração anexial na ultrassonografia favorecem a torção. O tratamento não deve ser atrasado porque a interrupção do fluxo sanguíneo pode causar necrose ovariana. Ruptura do cisto ovariano: pode causar dor pélvica súbita, frequentemente relacionada ao ciclo menstrual. Dependendo do sangramento, pode haver líquido livre e irritação peritoneal. Conduta do Tratamento: todo paciente com apendicite confirmada ou altamente provável deve permanecer em jejum e receber avaliação cirúrgica. As medidas incluem: ● Acesso venoso. ● Hidratação. ● Analgesia. ● Antiemético, se necessário. ● Antibioticoterapia pré-operatória. Antibioticoterapia pré-operatória: antes da apendicectomia, administra-se antibiótico com cobertura para bactérias entéricas gram-negativas e anaeróbios. Entre os esquemas possíveis estão: ● Ceftriaxona associada ao metronidazol. ● Amoxicilina com clavulanato. ● Outros esquemas conforme alergias. Apendicectomia: o tratamento definitivo habitual é a retirada do apêndice. Sempre que possível, prefere-se a apendicectomia videolaparoscópica, porque permite: ● Visualizar toda a cavidade abdominal. ● Confirmar diagnóstico. ● Identificar perfuração ou coleção. ● Retirar o apêndice. ● Favorece recuperação mais rápido. ● Reduz infecção da ferida operatória. A cirurgia aberta continua sendo uma alternativa quando a videolaparoscopia não está disponível, existe contraindicação ou as condições técnicas exigem conversão. Antibiótico depois da cirurgia: na apendicite não complicada, após a retirada do apêndice e o controle adequado do foco, não há indicação de manter antibióticos no pós-operatório. Na apendicite complicada, com perfuração, abscesso ou peritonite, o antibiótico deve continuar por um curso curto após o controle do foco. A duração é individualizada conforme: ● Extensão da contaminação. ● Febre. ● Leucócitos. Perfuração e peritonite: quando existe perfuração com peritonite difusa, a prioridade é: ● Estabilizar o paciente. ● Iniciar antibiótico intravenoso de amplo espectro. ● Remover apêndice. ● Aspirar o conteúdo contaminado. ● Tratar sepse e disfunção orgânica. O paciente pode necessitar de monitorização intensiva conforme a gravidade. Abscesso e plastrão apendicular: quando a perfuração é contida pelo omento e pelas alças, pode forma-se plastrão ou abscesso localizado. No paciente estável e sem peritonite generalizada, o tratamento pode incluir: ● Antibiótico intravenoso. ● Cirurgia conforme evolução e experiência da equipe. ● Drenagem percutânea quando existe abscesso acessível. A drenagem percutânea permite retirar o conteúdo purulento sem realizar imediatamente uma operação em um campo intensamente inflamado. Cirurgia urgente torna-se necessária se houver: ● Instabilidade. ● Peritonite generalizada. ● Piora clínica. ● Sepse sem controle. Após resolução clínica, a necessidade de apendicectomia de intervalo é individualizada. Resumo do Tratamento: pode ser organizado desta forma: Apendicectomia não complicada: apendicectomia videolaparoscópica; antibiótico antes da cirurgia e sem manutenção pós-operatória. Apendicite complicada com perfuração ou peritonite: apendicectomia videolaparoscópica, controle do foco e antibiótico pós-operatório por período curto. Abscesso ou plastrão estável: antibiótico, possível drenagem percutânea e avaliação individualizada da cirurgia.