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DOI: https://www.doi.org/10.11606/issn.2176-8099.pcso.2026.246218 PLURAL, Revista do Programa de Pós -Graduação em Sociologia da USP, São Paulo, v.33.1, jan./jun., 2026, p.140-161 (Re)pensando a mestiçagem no Brasil e a xenofobia aos nordestinos (Re)thinking miscegenation in Brazil and xenophobia toward northeasterners Vilarin Barbosa Barrosaa Resumo Este texto investiga a memória social de uma migração de cearenses para São Paulo entre os anos de 1972-2009, estudando a racialização dos(as) nordestinos(as) em São Paulo. Comparando e contrastando as fontes como entrevistas, correspondências e manuais de cartas, procura-se acessar expressões de experiências de indivíduos vivenciadas coletivamente. Para tanto, é problematizado um passado que se fez presente através de um sistema de pensamento eugênico recomposto no cotidiano, e, potencializador das tensões vividas pelos cearenses deslocados(as). Ao partir de uma perspectiva cultural e de microanálise no tratamento das fontes, se busca recompor trajetórias de vida e relações sociais estabelecidas, (re)veladoras de subjetividades e afetividades acontecidas em uma migração. Assim, o objeto de estudo acessa identidades tensionadas e forjadas no dia a dia, expondo todo um trauma naquilo que foi chamado de “patologia social do branco brasileiro”. Aliás, quando a mestiçagem no Brasil é (re) pensada, ela traz consigo uma perturbação de memórias outrora comemoradas, usadas como tranquilizante, passando a ser rememoradas e rediscutidas, inclusive, quanto ao lugar da dita xenofobia sofrida pelos(as) nordestinos(as) em São Paulo. Palavras-Chave Mestiçagem. Xenofobia. Nordestinos. Deslocamentos. Memória. Abstract This paper investigates the social memory of a migration from Ceará to São Paulo between 1972 and 2009, examining the racialization of Northeasterners in that context. By comparing and contrasting sources such as interviews, correspondence, and letter-writing manuals, it seeks to uncover expressions of individual experiences lived collectively. The study problematizes a past that became present through a eugenic system of thought reconstituted in everyday life, which intensified the tensions experienced by displaced people from Ceará. Drawing on a cultural and micro- analytical perspective in the treatment of sources, the research aims to reconstruct life trajectories and social relations that reveal subjectivities and affective dimensions emerging within the migration process. In this way, the study addresses identities forged a Universidade Estadual do Ceará. E-mail: vilarin.barbosa@uece.br. ARTIGO https://www.doi.org/ https://orcid.org/0000-0003-4020-8298 mailto:vilarin.barbosa@uece.br 141 2026 (Re)pensando a mestiçagem no Brasil e a xenofobia aos nordestinos under tension and shaped in daily interactions, exposing the trauma once described as the “social pathology of the Brazilian white.” Moreover, when miscegenation in Brazil is (re)thought, it unsettles previously celebrated memories once used as a kind of sedative prompting their remembrance and critical discussion, including reflections on the xenophobia faced by Northeasterners in São Paulo. Keywords Miscegenation. Xenophobia. Northeasterners. Displacements. Memory. Este artigo traz como questão central o seguinte problema: como perceber, através do estudo da “memória social” (Fentress, Wickham, 1992), a racialização dos(as) migrantes sertanejos(as) do Ceará, que tiveram a experiência de viver parte de suas vidas em São Paulo?1 Diante do problema posto e ao utilizar fontes como: entrevistas, cartas, manuais epistolares, e mais, ao recorrer a dados quantitativos, focaliza-se as tensões cotidianas marcadas por experiências de racialização de (i)migrantes que, a propósito, muitas vezes sofrem hostilidades e rejeições manifestadas no dia a dia, propagadas por estereótipos em ações comumente identificadas como xenofóbicas. Contudo, vale destacar que um sentimento traduzido como antiimigrantista pode revelar, além de lugares de poder historicamente construídos, uma tentativa de “minimizar o problema, disfarçando o seu perverso conteúdo racista” (Stolcke, 1991, p.113). Por esse viés é que a memória manifesta por migrantes cearenses foi abor- dada, como expressão de experiência coletiva, ajudando a problematizar o tema da mestiçagem no Brasil, a partir do estudo sobre racialização desses sujeitos, e a própria concepção de xenofobia aos “nordestinos” em contexto de deslocamento. A abordagem deste texto que parte da memória social (Fentress, Wickham, 1992) e do estudo de uma migração de homens e mulheres do Sertão Central do Ceará, se posiciona para problematizar a racialização a partir de uma documen- 1 Considerando o “lugar social” (CERTEAU, 1998) e de pesquisa do autor é preciso informar ao leitor que a questão elaborada envolvendo a referida temática e protagonistas teve seus pri- meiros passos e inquietações ainda na graduação na Universidade Estadual do Ceará - UECE, localizada em Quixadá-CE. Na ocasião, enquanto bolsista de iniciação científica, fez parte do projeto intitulado: Emigrantes e imigrantes – trânsito de culturas entre o sertão central cea- rense e as grandes metrópoles brasileiras, desenvolvido entre os anos de 2004 e 2005, tendo como instituição financiadora a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP). Desde esse início já se passaram vinte anos até o doutoramento em História na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. No decorrer de duas décadas de pesquisa, cada sujeito investigado apontava um outro migrante retornado de São Paulo a ser escutado. Foram vinte pessoas entrevistadas. Em seus acervos pessoais ou de seus familiares, doados ao autor, foram encontradas centenas de cartas, sendo que 382 correspondências já foram digitalizadas e transcritas, e, outras fontes também foram localizadas a partir desses acervos que levaram aos manuais epistolares utilizados na pesquisa, de forma mais detida, na tese de doutorado do autor. 142 Plural 33.1 Vilarin Barbosa Barros tação que se estende dos anos 1970 a primeira década do século XXI2. Entretanto, as repostas potencializadas pela questão central deste artigo flexibilizam as dimensões de tempo e espaço, ampliando a variedade de fontes e sujeitos nessa história de uma migração. MEMÓRIA COMO TRANQUILIZANTE Quando se fala, desde o século XIX, em uma identidade de uma nação composta por três raças ou, na primeira metade do século XX, sobre uma pretensa harmonia racial, gestando o que ficaria conhecido como o “mito da democracia racial” (Costa, 2010) no Brasil, fala-se sobre uma “memória-monumento” (Portelli, 2016), uma memória como tranquilizante. E é sobre ela que se proferem discursos que pintam um cenário dizendo da beleza de ser brasileiro, sendo normatizada e propagada, primeiramente, pelas instituições, visando celebrar e comemorar as glórias do passado, do nascimento de uma nação, mas servindo também para naturalizar lugares de poder (Schwarcz, 2011). Todavia, muitos são os traumas gerados em torno de uma identidade nacional, uma vez que seu nascimento diz de uma nova ordem pleiteada, necessitando da reelaboração de consciências que ajudem a bem tratá-la, evitando falar sobre os ruídos, conflitos sociais, desarmonias, horrores e dores, devendo tais elementos ficarem “sepultadas no ‘sótão’ do esquecimento” (Portelli, 2016, p. 50). Entretanto, é possível também que se corra o risco da memória manifestar sua dimensão conflitante, latente, aflorada nas lembranças, como fantasmas e pesadelos de um outrora mal dito e mal tratado. A memória como tranquilizante, por sua vez, tenta monumentalizar e é incli- nada a silenciar as dores e contradições de seu povo, de sua nação, forjando uma unidade em sentimentos de pertença que podem testemunhar sobre as relações históricas de racialização da população. Eis onde mora uma contradição, pois uma nação constituída no espetáculo, na exotizaçãoe classificação de raças, acaba não criando uma unidade, mas uma divisão dentro de sua própria base identitária (Arendt, 1989). A memória usada para tranquilizar traz em sua versão uma “memória-monu- mento” (Portelli, 2016, p. 50), mas que ainda assim pode ser observada em nuances de perturbação. A título de exemplo, para tais observações é possível recorrer aos hinos do Estado do Ceará de 1903 e o hino do Estado de São Paulo, instituído em 2 O recorte temporal apresentado considera o período em que esses sujeitos se tornaram migrantes, ou seja, em que os(as) vinte entrevistados(as), 13 homens e 7 mulheres, foram para São Paulo e depois retornaram para o Ceará. 143 2026 (Re)pensando a mestiçagem no Brasil e a xenofobia aos nordestinos julho de 1974, onde as questões de raça e racialização podem ganhar centralidade. No primeiro, depois de exaltar o fim da escravidão no Ceará, encontra-se um verso que diz: “Há de florar nas rosas e nos cravos/ Rubros o sangue ardente dos escravos” (Fonseca, Venâncio, Moura, 2020. p. 67) e, no segundo, também conhecido por Hino dos Bandeirantes, traz uma ideia de futuro e progresso, em que a figura do bandeirante é exaltada, representado avançando e explorando o sertão, e, ainda: “Vai, segue a Entrada!/ Enfrenta, Avança, Investe!/ Norte, Sul, Leste, Oeste!/ Em Bandeira ou Monção,/ Doma os índios bravios,/ Rompe a selva, abre minas, vara rios!” (Fonseca, Venâncio, Moura, 2020. p. 67). Tais símbolos identitários, que exaltam um pertencimento e os supostos feitos gloriosos dos respectivos Estados compõe uma memória enquanto “tranquilizante”, através de uma “memória-monumento” (Portelli, 2016, p. 50), observados como “documentos-monumentos” (Le Goff, 2012, p. 496-497), mas, possibilitam também extrair um conjunto de dados sobre o passado, por vezes perturbadores, traumá- ticos, que envolvem teorias raciais. Esses documentos, em forma de memória, podem carregar valores de testemunho de relações de uma época, mostrando-se como um fio condutor capaz de rastrear e compreender sintomas de uma organi- zação mental, um sistema de pensamento e posições adotadas, atravessadas por ideais eugenistas. Nesse sentido, um documento enquanto monumento é percebido, primordial- mente, como o resultado da montagem “consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziram” (Le Goff, 2012, p. 496-497), inclusive, sendo também reelaborado, mesmo que em seus usos, nas épocas seguintes, conti- nuando a ser manipulado ainda que pelo silêncio, por gestos de contemplação e de naturalização de relações de poder. Assim, é sabido que, historicamente, o processo de racialização apresentou- -se como marca de práticas discriminatórias, sendo que a ideologia de raça foi potente em “naturalizar as diferenças sociais e encerrar as pessoas indesejadas em formatações” (Mbembe, 2017, p. 238), subjugando suas dores e existência e inscrevendo-as em territórios de conflitos, com marcas de recalques atravessados por “ressentimentos” (Bresciani, Naxara, 2004) cheios de contradição e propícios a conformar a exclusão. No exemplo do hino de 1903, uma rima é composta entre “cravos” e o sangue dos “escravos”, e já na outra referência, aparecem a figura do bandeirante que “doma os índios bravios”, rompendo selvas, abrindo minas e varando rios. Esses monu- mentos de cultura, apresentados através dos hinos enquanto símbolos identitários, parecem mesmo não ser isentos de barbárie (Benjamin, 1994, p. 225). O que eles 144 Plural 33.1 Vilarin Barbosa Barros trazem pode passar, sim, por uma tentativa de naturalizar percursos de sujeitos e relações históricas, ou mesmo, de florear com narrativas o que, muitas vezes, são traumas herdados de experiências da escravidão, pois apresentam um formato de sentidos ambivalentes, às vezes silenciando e dizendo de memória, identidade e de relações raciais no Brasil. Em outras situações, falando de lembrança, traumas e de pretensões de esquecê-los, afinal, ao que consta por essas representações é o desejo de inculcar que “nós nem cremos que escravos outrora/ Tenha havido em tão nobre país...” (Fonseca, Venâncio, Moura, 2020. p. 12), como é possível detectar no Hino da Proclamação da República brasileira de 1890; menos de dois anos depois de instituída a Lei Áurea que tornou extinta a escravidão no Brasil. Ao falar sobre racialização de sujeitos na sociedade brasileira, é pertinente voltar o olhar para os discursos oficiais e institucionais, que até antecedem, e muito, o recorte temporal desta pesquisa, uma vez que esses hinos trazem muito de testemunhos sobre o Ceará e São Paulo datados de 1903 e 1974, respectivamente. Semelhante ao que se encontra no terceiro exemplo, do Hino à República do Brasil, de 1890, trazem contradições na racialização de uma identidade nacional, princi- palmente, quando os sujeitos históricos são pintados em uma forma desumanizada ou suas dores são disfarçadas, mascaradas e dissimuladas. MEMÓRIAS COMO PERTURBAÇÃO Os caminhos percorridos por um(a) migrante podem evidenciar elementos sobre os indivíduos e suas subjetividades, bem como de estruturas objetivas e lugares de poder presentes no cotidiano, demonstrando, inclusive, como muitas vezes foram forjados os lugares de sujeitos como sendo “indesejáveis” (Menezes, 1996). Assim, é preciso tratar do passado-presente, das questões de racialização, restauradas pelo estudo da memória, com nuances de conflitos ou ao serem vistas como “perturbação” (Portelli, 2016, p. 48), através do objeto estudado que fala de deslocamento, da migração. Outro fator a ser destacado das trajetórias de vida dos(as) migrantes refere-se à disciplina pela qual se submeteram em seu dia a dia, observando-se até que ponto incorporaram novos códigos de postura, quais episódios narraram, como se acos- tumaram e acharam normal viver em São Paulo. Até porque, como alerta Frantz Fanon (2008), ao observar os comportamentos dos antilhanos e seus complexos de colonizados, ao retornarem da capital francesa para a terra natal, “todo povo no seio do qual nasceu um complexo de inferioridade devido ao sepultamento de sua originalidade cultural – toma posição diante da linguagem da nação civiliza- 145 2026 (Re)pensando a mestiçagem no Brasil e a xenofobia aos nordestinos dora, isto é, da cultura metropolitana” (Fanon, 2008, p. 34), sendo essa, por vezes, incorporada aos retornados como se tornassem culturalmente embranquecidos. Nesse sentido, entende-se que “quanto mais assimilar os valores culturais da metrópole, mais o colonizado escapará da sua selva. Quanto mais ele rejeitar sua negridão, seu mato, mais branco será” (Fanon, 2008, p. 34). Tais valores foram cultivados, no caso aqui estudado, quando se observa em um manual epistolar a seguinte referência às origens do cearense: Tudo aqui [em São Paulo] é diferente da nossa Quixadá [CE]. É tudo na correria enquanto aí é tudo no sossego. Mas eu tinha que vir, e estou feliz por ter vindo. [...] A vida nunca foi fácil (você aí na caatinga que o diga) e dá para a gente o que a gente merece. Ninguém mandou nós nascer aí. Se a gente quer mudar tem que sair. (Keizi, 1994, p. 56) Um manual epistolar utilizado também como modelo de comportamento, sobre como falar de um grande centro urbano, “aqui em São Paulo é tudo muito doido, mas é o progresso” (Keizi, 1994, p. 56), em contraste com o sertão cearense, “a vida nunca foi fácil [...] ninguém mandou nós nascer aí” (Keizi, 1994, p. 56), ainda mais quando enfatizado uma condição penosa de viver no meio da “caatinga”. Esses valores foram perpetuados por gerações, como observado em uma carta de um imigrante em São Paulo, ao avisar para os seus conterrâneos no Ceará, o seguinte: “em meu[,] o meu mundo é outro eu não estor né [nem] aí [...] an meu[,] diga pra éla que ela esta com a cabeça atrasada”3. Os valores de mundos postos em contraste, seja enquanto lugar represen- tado como do atraso ou do progresso, não aparecem de forma isolada,ou mesmo enquanto um simples relato, uma carta, ou ainda um modelo de correspondência por acaso encontrado em um manual epistolar, mas, dizem de expressões de expe- riências sociais vividas por indivíduos na coletividade, em processos históricos. Com o passar dos anos foram forjadas formas de dizer sobre “o sertanejo” e “o sertão”, que problematizadas em contexto de deslocamentos podem assim serem estudadas a partir da “memória social” (Fentress, Wickham, 1992), marcante, inclusive, na vida de mulheres e homens cearenses que viveram parte de suas histórias em São Paulo. Elas e eles foram afetadas(os) e se apropriaram de versões 3 Américo Soares. [Correspondência doada pela Sra. Oscarina Soares]. Destinatário: Iolanda (Irmã). 12 out. 1979. Arquivo pessoal do autor. 146 Plural 33.1 Vilarin Barbosa Barros sobre si como as encontradas em manuais epistolares, e, por vezes, reproduziram parcialmente as representações sobre suas origens. Aliás, sobre o “sertão” foi encontrado um outro modelo de carta no livro “Como escrever bem” (Barbosa, 1970, p. 80), de 1970, que disse o seguinte: O sertão é o que há de mais agreste dentro da Natureza. O silêncio tem o tama- nho da desolação. Êste é um dos quadros do interior do nordeste brasileiro. O sertanejo habita mísera choupana e sofre com a terra inóspita a impiedade da sêca. Mesmo assim, custa a abandonar o lugar em que nasceu. Para nós, que nos habituamos ao conforto da cidade, o sertão só pode provocar espanto. (Barbosa, 1970, p. 80) Assim, as tensões cotidianas reveladas em um contexto de cidade grande e nas condições vividas de migrante nordestino(a) e sertanejo(a), podem configurar um território de relações, muitas vezes, pouco amistosas, especialmente, quando performadas através de estigmatizações e estereótipos. Ao tratar sobre esse universo de relações sociais e seus territórios constituídos, este trabalho recorre a categoria cultura (Willians, 2015) entendida como sendo comum a todos, trazendo “sua própria forma, seus próprios propósitos, seus próprios significados”(Willians, 2015, p. 5), devidamente cultivados. O desafio de lidar com a memória social de uma migração e, especificamente neste estudo, discutindo tensões cotidianas, identidades, pertencimentos e racia- lização, conduz a um efeito de perturbação, que serve “para nos incomodar, para colocar em dúvida as certezas que nos tranquilizam” (Portelli, 2016, p.48), como as próprias identidades regionalizadas. A memória será comparada em duas de suas dimensões: como “tranquilizante” e como “perturbação” (Portelli, 2016, p.48). Nessa primeira manifestação ela pode configurar-se enquanto monumento, ou seja, uma “memória praticada e frequen- temente imposta pelas instituições, como comemoração e celebração das glórias do passado; narração da identidade nacional” (Portelli, 2016, p.48). Tal configuração identitária reflete sobre um pertencimento nacional multiét- nico e pluricultural (Brasil, 2004, p. 18), bem como, através da memória, traumas históricos, os afetos no cotidiano e os efeitos da mestiçagem (Munanga, 2024) no Brasil. Mediante ao exposto, Apesar de o processo de branqueamento físico da sociedade ter fracassado, seu ideal inculcado através de mecanismos psicológicos ficou intacto no incons- 147 2026 (Re)pensando a mestiçagem no Brasil e a xenofobia aos nordestinos ciente coletivo brasileiro, rodando sempre nas cabeças dos negros e mestiços. Esse ideal prejudica qualquer busca de identidade baseada na “negritude e na mestiçagem”, já que todos sonham ingressar um dia na identidade branca, por julgarem superior (Munanga, 2024, p. 21). É nesse sentido que a amostragem (Gráfico 1), tendo por base Censos do IBGE, envolvendo a migração de cearenses representa sintomas de relações racializadas com ideais de branqueamento. Gráfico 1. Perfil raça/cor do Ceará vs Sertão Central vs emigrantes. do Sertão Central para o estado de São Paulo (em %) – 1991. Fonte: IBGE/ Elaborado pelo Observatório das Migrações no Estado do Ceará (OMEC). Esta pesquisa, em parceria com o “Observatório das Migrações no Estado do Ceará (OMEC)”, da Universidade Regional do Cariri (URCA)4, elaborou gráficos configurando um perfil “raça-cor” (IBGE) acerca da migração de homens e mulheres do Sertão Central cearense para São Paulo. Tal estudo recorreu aos dados dos Censos de: 1991, 2000 e 2010. A elaboração dos gráficos objetiva alcançar dimensões do perfil racial da popu- lação cearense em três escalas de observação, considerando: o Estado do Ceará, o Sertão Central e os(as) migrantes do Sertão Central cearenses que foram para São Paulo. Outro elemento a ser destacado nos gráficos diz do termo “Emigrado”, que 4 O Grupo de Pesquisa (OMEC) cadastrado no CNPq é coordenado pela Profa. Dra. Silvana Nunes de Queiroz. Para a estruturação dos gráficos contou-se com o protagonismo do Ricardo Monteiro de Carvalho (Bolsista IC/CNPq), integrante do OMEC. 148 Plural 33.1 Vilarin Barbosa Barros foi usado considerando a condição do sujeito no momento de sua autodeclaração racial, ou seja, morador de São Paulo, emigrado de seu Estado de origem há pelo menos cinco anos. O Gráfico 1, Censo de 1991, apresenta uma semelhança estatística entre Estado do Ceará e Sertão Central, considerando raça e cor “branca”, respectivamente: 29,4% e 30,5%. Todavia, quando a condição é a de emigrante sertanejo em São Paulo, esse percentual sobe para 61,6%. Já a raça e a cor identificada por “parda” mantêm-se uma proximidade percentual entre esses grupos: 67,5% Estado do (Ceará), 65,4% (Sertão Central), mas nesse caso quando o percentual é sobre os(as) emigrantes cai para 35,1%. Aproximando as autodeclarações “branca” e “parda”, observa-se que elas oscilam dependendo da condição de emigrantes, e, que antes de ir para São Paulo tem-se um perfil racial, do Sertão Central, de maioria “parda” em 65,4% e depois, quando emigrantes, identifica-se uma mudança, em que uma maioria, 61,6%, passa a se autodeclarar “branca”. Da mesma forma, se a comparação se volta para esse grupo do Sertão Central, excluindo-se a questão da migração, o percentual da população “branca” é de 30,5%, e depois, em São Paulo, essas pessoas de origem do sertão aparecem nas estatísticas como 35,1% “parda”. Ou seja, é possível observar uma espécie de inversão em percentuais do perfil racial desses homens e mulheres do Sertão Central cearense, sendo antes uma maioria classificada como parda, mas que depois de emigrar passa a se considerar branca. Afinal, qual ideal de racialização foi “inculcado” (Munanga, 2024, p. 21) e adotado por esses sertanejos(as) e que aparece com a experiência do deslocamento de cearenses para São Paulo? No decorrer do texto, essa questão será perseguida. Contudo, para continuar a apreciação dos dados expostos é preciso lembrar que: “encontramo-nos no momento de trânsito em que espaço e tempo se cruzam para produzir figuras complexas de diferença e identidade, passado e presente, interior e exterior, inclusão e exclusão” (Bhabha, 2013, p.19). E, essa dinâmica tem marcado as memó- rias dos migrantes, bem como condicionado suas novas identificações raciais. No entanto, não é possível garantir que essas experiências de vida e de deslocamento não apresentem perturbações, mudanças na maneira de se ver, ser e pertencer desses sujeitos. No que diz respeito às oscilações do perfil racial elas se mantêm basicamente as mesmas, conforme Censo de 2000, Gráfico 2: 149 2026 (Re)pensando a mestiçagem no Brasil e a xenofobia aos nordestinos Gráfico 2. Perfil raça/cor do Ceará vs Sertão Central vs emigrantes do Sertão Central para o estado de São Paulo (em %) - 2000. Fonte: IBGE/ Elaborado pelo Observatório das Migra- ções no Estado do Ceará (OMEC) Porém, os emigrantes aparecem com um perfil racial ainda mais branco do que no Censo 1991. Agora, no Censo 2000, uma maioria dessa população sertaneja denominada “parda” em 54,1% no Ceará, em São Paulo atingiu um perfilracial majoritário de 68,7% “branca”. Esse percentual se assemelha mais aos que se declararam brancos da população de São Paulo, 70,7%5, no mesmo Censo, e bem distante da amostragem no Sertão Central cearense: 39,2%. Ao se operar com categorias raciais sobre um perfil populacional, permite-se refletir sobre raça e racismo, quando servem para “suscitar ou engendrar um duplo, um substituto, um equivalente, uma máscara, um simulacro” (Mbembe, 2014, p.66). Tais ideias despertam imagens envolvendo um empardecer ou embranquecer ou, quem sabe, lembrar ou esquecer, simulado na vida desses migrantes, criando uma necessidade de transformar sua imagem, mesmo que para isso tenham que usar uma “máscara branca” (Fanon, 2008). Tanto a memória como perturbação ou a racialização do migrante podem revelar desejos obscuros, tenebrosos e parado- xais, que flertam, inclusive, com a vontade de possuir e excluir, de tratar sujeitos e culturas como coisa, capsuladas e a-históricas (Fanon, 2018, p. 42). Outro fator a ser observado no Gráfico 2 é que, apesar de todo o empenho do Movimento Negro nos anos de 1970, 1980 e 1990, com campanhas de afirmação 5 IBGE. Relatório Técnico Preliminar. Agosto de 2007. Rio de Janeiro: IBGE, 2007. 150 Plural 33.1 Vilarin Barbosa Barros da identidade étnico-racial negra, inclusive, alertando com o lema: “Não deixe sua cor passar em branco” (Brasil, 2004, p. 16), no Censo dos anos 1990 a soma de pretos e pardos, considerando os(as) migrantes sertanejos(as) em São Paulo, apresentou-se em uma quantidade bem inferior aos dessas pessoas que se auto- declaravam como brancas, 68,7%, para 30,5%, somando-se as categorias “parda” e “preta”. Comparando os Censos de 1991 e 2000, a população do Sertão Central que se declarava “preta” aumentou de 4% para 6,2%. O fato é que as classificações raciais “branca” e “parda” tiveram maior destaque, quando comparados os Censos de 1991 e 2000, considerando os(as) sertanejos(as) cearenses e a questão da emigração para São Paulo. Um elemento histórico a ser observado nessa dinâmica, diz do chamado status racial do pardo, que enquanto criação do século XIX, teve como intuito barrar, em sua plenitude, os benefícios da brancura baseada em teorias eugênicas de pureza racial, negado àqueles indivíduos que viessem a afirmar sua ascendência europeia. De tal maneira, “como a negritude, a categoria ‘pardo’ foi assim claramente dife- renciada da brancura e impôs importantes desvantagens sociais a seus membros” (Andrews, 2014, p. 32). Nesse estudo, considerando um projeto estrutural de embranquecimento da América Afro-Latina, de acordo com o referido trabalho, destaca as preocupações coloniais em razão do avanço da mestiçagem na região, considerando-se: Ser pardo ou mulato, mais que ser negro, tornou-se o principal marcador de ascendência africana e status racial não-branco. E, como esclareceram as pesqui- sas realizadas no maior país da América Afro-Latina, os pardos sofrem barreiras sociais e discriminação muito similares, tanto em grau quanto em tipo, àquelas sofridas pelos pretos. (Andrews, 2014, p. 32) A pertinência de tais reflexões localiza-se aqui nesta pesquisa, primeiro, ao observar os sujeitos se declarando racialmente como pardos em seu lugar de origem, mas, depois enquanto migrante nordestino em São Paulo, passam a ter retratada sua maioria como branca. Ou seja, isso pode ser um sintoma de embranquecimento ou empardecimento e branqueamento (Cardoso, 2008, p.192) desse grupo vindo do Sertão Central cearense, sendo afetados por dispositivos de poder e da mesti- çagem (Tadei, 2002), que inculcam neles e nelas a necessidade de se afirmarem brancas, ainda que descendam de um lugar em que historicamente sua maioria não se declare como tal. 151 2026 (Re)pensando a mestiçagem no Brasil e a xenofobia aos nordestinos É necessário o debate para rediscutir a mestiçagem no Brasil, acessando e tratando de algo que paira o “inconsciente coletivo brasileiro” (Munanga, 2024, p. 21), tão cheio de simulacros raciais, categorias abstratas e estigmatizantes, que contribuem para a negação do “Eu” em detrimento do “Outro” idealizado como normal, em uma espécie de “esquizofrenia identitária” (Trinidad, 2018, p. 259). Em outras palavras, ao deparar-se com os resultados dos recenseamentos, tão oscilante quando comparados “Sertão Central” e “Emigrado”, a pesquisa detecta uma “patologia social do branco brasileiro”, sendo tal grifo justificado pelo autor por falar exatamente do “mestiço”, percebido em sua maior expressão no Norte e Nordeste do Brasil e ao verificar uma tendência dessa população “a disfarçar a sua condição étnica efetiva” (Ramos, 1957, p. 181). Até aqui foi observado o perfil racial do cearense considerando a temática deste artigo e os Censos de 1991 e 2000. Adiante serão observados os dados produzidos, tendo por base o Censo de 2010, conforme exposto no Gráfico 3. Gráfico 3. Perfil raça/cor do Ceará vs Sertão Central vs emigrantes do Sertão Central para o estado de São Paulo (em %) - 2010. Fonte: IBGE/ Elaborado pelo Observatório das Migra- ções no Estado do Ceará (OMEC) A primeira década do século XXI traz uma novidade quanto ao perfil racial desse migrante cearense vivendo em São Paulo, pois, diferentemente dos dois últimos, no Censo 2010 essa população não é representada como maioria “branca”. Enquanto essa diz de 47,6%, ao somar-se as categorias “parda” (49,2%) e “preta” (2%), o percentual chega a 51, 2% de autodeclarações de não-brancos(as). Embora o termo pardo ainda esconda a ancestralidade negra e indígena do(a) emigrante sertanejo(a) há uma mudança comparada a esse grupo que se declarava como 68,7% brancos no Censo 2000. 152 Plural 33.1 Vilarin Barbosa Barros O que permanece semelhante aos demais gráficos aqui apresentados é a tendência, de maneira geral, a um embranquecimento do grupo de origem do sertão cearense quando na condição de migrante, seja olhando para o Censo mais recente, de 2010, ou ainda ao voltar-se para os de 2000 e 1991. Um fator a ser destacado e que envolve também a história dessa migração nordestina, diz dos anos 1970. Nessa década chegavam a São Paulo milhões de pessoas, na maioria afro-brasileiras, sendo uma expressiva parte delas formada por nordestinos(as) (Andrews, 2014). Assim, será mesmo que é exatamente em cima desse movimento de milhões de pessoas, de “sua chegada ao Estado [que] provocou uma onda de sentimento antinordestino” (Andrews, 2014, p. 199)? Provavelmente não. Inclusive, entre os anos 1880 e 1930 entraram no Brasil 3,5 milhões de europeus, sendo que desses, 2 milhões foram para o Estado de São Paulo e, em virtude disso, não foi gerado um sentimento antieuropeu6. O que esses dois eventos têm em comum é que foram (i)migrações racializadas, sendo que aquela que envolveu os europeus teve uma afirmação de sua presença em São Paulo, tendo por base as “políticas imigrantistas” (Azevedo, 2014) eugenistas, deixando traumas históricos e estigmas, quando relacionada à migração nordes- tina, vista por muitos ainda no sentido antigo de “mau vindo do norte” (Azevedo, 2014, p. 117), sujeitados(as) a discriminações; pelos menos é o que se faz presente nas memórias das pessoas entrevistadas. Conforme alguns relatos dos(das) migrantes cearenses, alega-se que foram discriminados(as), tiveram sua “fisionomia” e seu jeito de andar observados, mas, talvez fosse a “cultura deles”. E mais: recordaram que em São Paulo eles “não confiam no nordestino”, “desconfiam de você”, “num tem aquela liberdade que nem no Ceará”. Alegaram que isso se devia por acharem os migrantes “preverso” (perverso), “eles têm esse preconceito lá”. Sofreram quando iam se pronunciar: “sofri, e era assim... ao falar”, mas, também receberam elogios: “engraçado menina, tu tá com pouco tempo e já se acostumou falar”. Então, jogavam com tudo isso, inclusive no trabalho “quando eu falava uma coisa diferente: pô, tu é cearense, tu é nortista”, mudava a maneira de falar.“Chamava a gente de baiano”, “Ceará”, um “puxa carroça!”, “caipira” e “terra seca”. Disseram ainda, sobre essa experiência de migração, que trabalho “em casa de família é tipo uma escravidão”. Noutros trabalhos desenvolvidos: “a identidade daqui num é todo canto que aceitava lá não”. Sobre os nascidos em São Paulo, os paulistas, ouviu-se que “se achava superior a qualquer outro cidadão brasileiro”. Obviamente, tudo isso relatado, em grande 6 Esses dados são expostos no próprio trabalho de George Andrews (2014, p. 171). 153 2026 (Re)pensando a mestiçagem no Brasil e a xenofobia aos nordestinos medida, quando se falava dos momentos de tensão em seus cotidianos em São Paulo7. Quanto a questão da racialização e dessa memória que pode incomodar, ocul- tando as diferenças, é pertinente revisitar a discussão sobre preconceito racial de marca e de origem, pois, “quando o preconceito de raça se exerce em relação à aparência, isto é, quando toma por pretexto para as suas manifestações os traços físicos do indivíduo, a fisionomia, os gestos, o sotaque” (Nogueira, 2007, p. 292), refere-se ao de “marca”. Nesse sentido, a discriminação pode ter se voltado para os sujeitos do sertão cearense quando em São Paulo, na medida em que julgavam-se como inadequada as formas de seus corpos, suas fisionomias, os jeitos de andar, ou quando necessitavam esconder seus sotaques, modificando suas maneiras de falar. No entanto, quando o preconceito racial é de origem, “basta a suposição de que o indivíduo descende de certo grupo étnico para que sofra as consequências do preconceito” (Nogueira, 2007, p. 292). Nesse caso, voltando-se para esta pesquisa sobre os(as) migrantes do sertão cearenses, não é tão necessário saber se era um grupo pardo, depois de maioria branca ao emigrar, como demonstrou os Censos de 1991 e 2000, pois tais categorias no cotidiano são tensionadas, sobrando suas origens raciais e históricas marcadas em seus corpos, em suas performances e formas de se expressar. Assim, é possível afirmar que raça e racismo estão entranhados em processos de constituição do inconsciente, relacionando-se aos desejos humanos, seus afetos, aptidões, paixões e medos. Tudo isso pode ser direcionado para o estabeleci- mento e a afirmação de força. “Para que possa operar enquanto afecto, instinto e speculum, a raça tem de transformar-se em imagem, forma, superfície, figura e, sobretudo, imaginário” (Mbembe, 2014, p. 65). Em torno do migrante nordestino esse sistema de racialização é mobilizado, muitas vezes maquiando o elemento raça, para não ser tratado como racismo, e trazendo à tona um discurso estilizado que fala de cultura nordestina, sertaneja e de sua autenticidade. Ou seja, mesmo os(as) migrantes sertanejos(as) cearenses se dizendo brancos(as), nada é garantido que em São Paulo essas pessoas assim sejam identificadas e classificadas racialmente. 7 A elaboração desse parágrafo tem por base as falas dos(as) migrantes entrevistados pelo autor. Serão aqui destacados os seus nomes seguidos do ano em que emigraram: Sebastião Félix da Silva (1962); Maria Lúcia da Silva (1972); Valquíria de Holanda Miranda (1973); José Francisco Silva (1973); Antônio José Jorge (1976); Margor-Marly (pseudônimo) (1976); José Américo Soa- res (1977); Pedro Dehon da Silva (1979); Alderiza Silva de Sousa (1983); Erivan Camusca Lopes (1983); Manuel (pseudônimo) (1984); Eliana Lima da Silva (1985); Antônio Teixeira da Silva (1986); Francisco Cláudio Laurentino de Lima (1987); Gilberto Nunes da Silva (1987); Maria Aurinete Oliveira Silva (1988); Marcelo (1988); Gilberto Teixeira da Silva (1989); Aurora (1993); Nazareno Firmino da Silva (1994). 154 Plural 33.1 Vilarin Barbosa Barros Então, é muito mais nesse sentido, no contexto de invenção dessas ideias de base eugênica e racista que foi fomentado o sentimento antinordestino em São Paulo. Dito isso, os(as) migrantes foram racializados(as) e discriminados(as), tendo sido construída uma percepção sobre esses sujeitos com base, por exemplo, no que seria um “preconceito de marca e de origem” (Nogueira, 2007, p. 292), dizendo de um outrora presente em seus cotidianos em São Paulo, condicionando-os a não se acomodarem como pardos, mas a se manifestassem em seu ideal de embran- quecimento. Um pouco dessa performance é possível perceber quando comparados dois tipos de fontes: entrevista e carta. Na primeira se fala em discriminação, já na segunda não, são outros tons, às vezes escritos com um excesso de “r” e de ditos sobre o trabalho, manifestando adaptação: “em meu[,] o meu mundo é outro”8, e embranquecimento, negação. Através desses ideais que envolvem o universo do simbólico, de categorias raciais, imbuídos de conflitos e negação, percebe-se que a busca por referências identitárias multiétnicas é prejudicada à medida que a invenção dessa sociedade miscigenada e “civilizada”, como norma, apresenta seu “Ideal de Ego”9 branco (Sousa, 2021, p. 64). À essa identidade racial classificada como branca é atribuído ao sujeito histó- rico um legado simbólico com referências positivas, como sendo esse, naturalmente, “inteligente, belo, culto, civilizado” (Cardoso, 2008, p. 176). Esse não é bem o lugar de classificação dos(as) migrantes sertanejos(as), nordestinos(as) em São Paulo, sendo ocultada suas origens raciais quando classificados em sua maioria como branca. Tal postura passa também por “uma complexa combinação de forças políticas, sociais e culturais” (Williams, 1979, p. 111), que atravessam esses sujeitos, afetando-os e ajudando-os a compor seus sentidos de pertencimento identitário em São Paulo. TORNAR-SE IMIGRANTE EM SÃO PAULO Convém acrescentar que foi exatamente o século XIX palco da instituciona- lização de ideologias racistas (Schwarcz, 2011) neste país, como perceptível nos desdobramentos manifestados em ideais de miscigenação (Munanga, 2024), posi- ções sobre migrantes e “políticas imigrantistas” (Azevedo, 1987), deixando rastros históricos possíveis de serem tramados, urdidos, tecidos e observados através 8 Américo Soares. [Correspondência doada pela Sra. Oscarina Soares]. Destinatário: Iolanda (Irmã). 12 out. 1979. Arquivo pessoal do autor. 9 “O Ideal do Ego é do domínio do simbólico. Simbólico quer dizer articulação e vínculo. Símbolo é o registro ao qual pertencem a Ordem simbólica e a Lei que fundamenta esta ordem. O Ideal do Ego é, portanto, a instância que estrutura o sujeito psíquico, vinculando-o à Lei e à Ordem.” Sousa, 2021, p. 64. 155 2026 (Re)pensando a mestiçagem no Brasil e a xenofobia aos nordestinos de um estudo da memória social de uma migração de cearenses para São Paulo. Ademais, falar de racialização de sujeitos neste artigo, requer atentar para o eco dessas antigas palavras que atravessam gerações e se fazem presente dizendo de uma “memória social” (Fentress, Wickham, 1992). De tal maneira, os olhares lançados sobre os(as) migrantes nordestinos(as), bem como as formas que se enxergam no processo e dizem de sua adaptação em São Paulo, estando distante da terra natal e de seus familiares, tem esse legado histórico. As tensões cotidianas e discriminações que os(as) têm como alvo não dizem só do presente, apesar de ter sua marca também. – “Neonazistas e racistas assustam São Paulo [...] pregam morte de judeus, negros e nordestinos”10. Pensando, por um instante, na manchete acima, de começo dos anos 1990, em um contexto de frustações sociais abismadas, havia um campo fértil para esse tipo de manifestação (Bauman, 2017). Na relação posta entre dois séculos, é possível pensar algo, como que antecipando o final do século XX: “o fim do século XIX introduziu a xenofobia de massa, da qual o racismo – a proteção da cepa local pura contra a contaminação, e até mesmo a submersão, pelas hordas invasoras subumanas – tornou-se a expressão comum” (Hobsbawm, 1995, p. 122). É esse sintoma de ódio semeado aos nordestinos em São Paulo, como o que foi estam- pado na manchete do jornal dosanos 1990, um exemplo de tensões sofrida pelos imigrantes cearenses nessa grande cidade no final do século XX. A cidade de São Paulo, com seu aglomerado populacional, foi ainda marcada pelo discurso do medo e da aversão a diferença, do eleito como “outro” (Bauman, 2017), produzindo imagens sobre a violência, estigmatizadas em grupos de pobres e trabalhadores como os(as) imigrantes nordestinos(as). – “O que tá prejudicando é isso aí, é a pobreza. O bairro piorou desde que começaram a chegar a turma do Norte... Faz uns 15 anos. Agora tem demais. Casas lindas, bonitas da Moóca foram subalugadas” (Caldeira, 2000, p. 29)11. Uma estrutura de um viver separado e individualizado em “forma de condo- mínio” (Durker, 2015, n.p.), foi erguida no decorrer das últimas três décadas do século XX, em meio ao aumento das desigualdades e dos ressentimentos, de crises econômicas e sociais, se concretizou enquanto uma espécie de “Cidade de Muros” (Caldeira, 2000, p. 211), por sua vez, colaborando com o individualismo, o desgaste 10 Manchete de telejornal extraída do documentário: TEM que ser baiano. Direção: Henri Arraes Gervaiseau. Alô Vídeo, 1994. 11 A referida narrativa, consultado na obra de Teresa Caldeira, foi transmitida em São Paulo no ano de 1989, a entrevistada era filha imigrantes italianos vindos para o Brasil em 1924. 156 Plural 33.1 Vilarin Barbosa Barros de velhos modelos de organização em grupo, de um sobreviver em comunidade, e, expressivamente, segregou sua população. Entre 1970 e os anos 1990, viveu-se a “mais grave crise econômica que afligiu o país até a primeira metade da década de 1990 do que qualquer guinada neoliberal” (Souza, 2018, p. 158), a desigualdade de renda aumentou por todo esse período, consolidando a posição do rico muito mais rico e o pobre mais empobrecido, ou seja, “as desigualdades tinham crescido ao invés de diminuir” (Carvalho, 2010, p. 168), com isso, o poder de compra exercido pelos mais pobres foi reduzido em meio a desvalorização do salário mínimo. A título de comparação: “em 1960, os 20% mais pobres da população economicamente ativa ganhavam 3,9% da renda nacional. Em 1980, sua participação caíra para 2,8%” (Carvalho, 2010, p. 169). Em contraste, no mesmo período os 10% mais ricos ganhavam 39,6% e passaram a 50,9% em 1980 (Carvalho, 2010, p. 169). Referente a primeira metade dos anos 1990, o quadro inflacionário no país foi exorbitante e “a crença no progresso deu lugar ao pessimismo e à frustração” (Caldeira, 2000, p. 45), tendo exposto um abismo social de desigualdade no país, principalmente em grandes polos financeiros como a capital paulista. Assim, “era visível que a inflação estava fora de controle” (Caldeira, 2000, p. 54): “todo dia é um preço diferente”12, e mais, “se não tivesse trabalhando, na época, virava vagabundo”13, pelo menos essa foi a leitura feita pelo Sr. Cláudio Laurentino ao recordar em 2006 os anos de 1987 a 1994, quando morou em São Paulo. Em meio a essa estrutura de relações, ressentimentos e frustrações, é que: A segregação que antes se fazia a distância e sem afetação direta, conforme a assepsia impessoal que vigora na violência silenciosa dos condomínios, agora perdeu a vergonha e proclama abertamente seu mal-estar contra essa proxi- midade indesejável dos pobres. A antiga tolerância benevolente, com ou sem democracia racial, tornou-se ódio explícito. [...] Desaprendemos a lidar com a diferença, maltratada por anos de identidade artificialmente produzida intra- muros (Durker, 2015, n.p). 12 Evaldo. [Correspondência doada à pesquisa pelo Sr. Jeovane Saraiva]. Destinatário: Rita. 26 maio. 1994. Embora não se tenha localizado o missivista, que assinou com o nome de Evaldo, sabe-se que essa carta foi remetida de São Paulo para o município do Choró - CE. Arquivo pessoal do autor. 13 Cláudio Laurentino. Entrevista concedida ao autor. set. 2006. Ele emigrou para Diadema - SP em 1987 e retornou para o distrito de Juatama, em Quixadá, no ano de 1994. 157 2026 (Re)pensando a mestiçagem no Brasil e a xenofobia aos nordestinos As experiências de vida dos imigrantes nordestinos aparecem tensionadas por diversas dimensões de opressão, inclusive de classe, atravessadas por múltiplas temporalidades, seja quando são atacados por atos racistas de neonazistas14 em São Paulo, como expressa a manchete de jornal dos anos 1990, ou mesmo através de um discurso eugenista de um político paulista em 1935: O nordestino é braquicéfalo [brachycephalus], de sangue preto, e tem uma con- formação osteológica diferente da nossa, transparecendo em seus crâneos chatos e largos, em seus zigmos [osso zigomático] salientes, em sua cor de charuto a grande influência do índio. O nordestino tem outro estoque racial, não se fixa, é volante. Felizmente o nosso sistema racial está longe de sofrer a influência dessa gente15. O discurso do deputado paulista, de 1935, diz das teses raciais instituídas do fim do século XIX, em vigor nos anos 30 no Brasil, tendo por base “investigações craniométricas” (Monteiro, 2001, p.173-174) e concepções eugênicas (Castañeda, 2003), observáveis na fala desse político, manifestando toda sua força ideológica. Ele procurava, em seu discurso, menosprezar as condições humanas não somente dos indígenas, como as dos mestiços, inferiorizando-os, incluindo os nordestinos, tidos como degenerados. Por degeneração, nesse contexto, compreenda-se “o desvio das qualidades de origem do indivíduo sob a ação de fatores e circuns- tâncias involuntárias, sobretudo de ordem congênita e hereditária” (Castañeda, 2003, p. 914), ainda descritos pelos eugenistas, como portando características de “assimetria ou deformação da cabeça, da face, dos membros e vício de confor- mação das orelhas como indícios de degeneração, assim como o retardo mental ou intelectual” (Castañeda, 2003, p. 914), acrescidos de cretinismo e imbecilidade, tendo entre outros fatores o “alcoolismo e a criminalidade” (Matos, 2000) como marcas incorporadas. Assim, ao flertar com a eugenia e as políticas imigrantistas de embranqueci- mento do país, visibilizando e classificando um sistema racial com ideal branco, puseram-se as demais classificações raciais como inferiores, tidas como não belas e incivilizadas, dizendo de um projeto de branqueamento do Brasil, deveras frus- 14 Manchete de telejornal extraída do documentário: TEM que ser baiano. Direção: Henri Arraes Gervaiseau. Alô Vídeo, 1994. 15 Discurso proferido pelo Deputado A. Elis, na Assembleia Legislativa de São Paulo, em 1935. Extraído do documentário: TEM que ser baiano. Direção: Henri Arraes Gervaiseau. Alô Vídeo, 1994. 158 Plural 33.1 Vilarin Barbosa Barros trado. Ao tempo em que, lançando um olhar para essas concepções, se faz perceber a sintonia de tais ideias com aquelas presentes no Hino dos Bandeirantes de 1974, que sugere que os “índios bravios” sejam domados. Dessa forma, retomando a questão de uma identidade cultural de Brasil miscigenado, formado por uma mistura de raças, cultivado em uma memória institucional, que evidencia não somente uma unidade e sentimento de nação, mas uma divisão histórica e a naturalização das desigualdades sociais, que o mito de origem, a partir das lições de como deveria ser escrita a história deste país, não conseguiu silenciar, esconder, pois, elucida-se em sua base uma fissura que classifica racialmente, subdividindo sua população em subgrupos, que é uma função primária do racismo e visa fragmentar e fazer cesuras no interior de sua população (Foucault, 2010, p. 214), inclusive, usando de uma linguagem que por vezes cria estereótipos e nega a condição humana dos(as) imigrantes eleitos(as) como indesejados(as). Entretanto, investigando a memória social de uma migração de cearenses para São Paulo e estudando a racialização dos(as) nordestinos(as) em contexto migratório, foi exposto, além de contradições sociais, os incômodos de sujeitos históricos, denunciando as tensões forjadas no cotidiano comoas que marcaram a discriminação racial sofrida por aqueles e aquelas que se tornaram imigrantes, no sentido de viverem fora de suas terras natais, como é o caso dos chamados “nordestinos(as)” que viveram em São Paulo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDREWS, George Reid. América Afro-Latina, 1800-2000. Tradução: Magda Lopes. São Carlos: EdUFSCar, 2014. ARENDT, Hannah. O pensamento racial antes do racismo. In: ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. AZEVEDO, Celia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco - O negro no imaginário das elites – século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. BARBOSA, Osmar. 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