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O conceito de responsabilidade de proteger e o direito internacional humanitário

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que cada vez mais encontra expressão na gradual expansão do Direito 
Internacional3.
O reconhecimento da legitimidade da preocupação internacional com 
violações maciças de direitos humanos retoma a tradição jusnaturalista, 
segundo a qual o homem tem direitos inatos, anteriores a qualquer 
positivação pelo Estado. A intervenção com propósitos humanitários 
estaria, assim, justificada. Se o critério da legitimidade parece mais fácil 
de ser resolvido, o critério da legalidade esbarra na proibição do uso da 
força pela Carta das Nações Unidas, admitidas apenas duas exceções: a 
legítima defesa e a ameaça à paz e à segurança internacionais. 
1.2 A questão da soberania
 
A soberania é a base do Estado moderno e tem sido, há centenas 
de anos, o princípio fundamental sobre o qual se estabelecem as 
relações interestatais. Sua afirmação teórica remonta ao século XVI. 
Na Antiguidade, não se encontra qualquer noção que se assemelhe à de 
soberania. No Livro I da Política, Aristóteles apresenta, como a principal 
característica da Cidade, a autarquia, no sentido de autossuficiência, 
ou capacidade de suprir as próprias necessidades. Aristóteles afirma a 
superioridade da Cidade em relação à forma de agrupamento representada 
pela sociedade familiar. Os conceitos de potestas, imperium e majestas 
eram conhecidos na Roma antiga e equivaliam a expressões de poder 
civil ou militar, à força do Império ou à autoridade de um magistrado. 
Conforme Jellinek, o fato de na Antiguidade não haver o conceito de 
3 BOUTROS-GHALI, B. Empowering the United Nations. Foreign Affairs. v. 89, pp. 98 e 99, 
1992/1993.
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considerações sobre os conceitos de soberania, legalidade e legitimidade
soberania indica a inexistência, no mundo antigo, da oposição do poder 
do Estado a outros poderes4.
O conceito de soberania surgiu na Idade Média, quando a existência 
simultânea de inúmeras ordens independentes gerava conflitos nas áreas 
de segurança e de tributação, entre outras. Não era fácil fazer a distinção 
entre as atribuições da autoridade superior, quando essa existia, e de 
outras entidades, como feudos e comunas. À multiplicidade dos centros 
de poder correspondia a pluralidade das fontes de direito. No século 
XIII, os monarcas começaram a ampliar suas esferas de competência, 
sobrepondo-se às demais instâncias. Os reis passaram a ter o poder 
supremo em assuntos legislativos, tributários, judiciais e policiais. Essa 
superioridade afirmava-se tanto em relação aos senhores feudais quanto 
em relação ao Império e às autoridades religiosas. É nesse processo que se 
afirmaram, entre outras, as cidades de Veneza e Florença, como civitates 
superiorem non recognoscentes. 
No século XVI, o conceito de soberania amadurece. O momento 
é de guerras civis na França e na Inglaterra. Os reis não conseguem 
exercer o monopólio da violência na sociedade medieval, na qual o 
poder era pulverizado. A obra mais importante e representativa desse 
desenvolvimento foi Les Six Livres de la République, escrito por Jean 
Bodin em 1576. O Capítulo VIII do Livro I é inteiramente dedicado 
ao conceito de soberania. Conforme Bodin, “é necessário formular 
a definição de soberania, porque não há qualquer jurisconsulto, nem 
filósofo político, que a tenha definido e, no entanto é o ponto principal e o 
mais necessário de ser entendido no trabalho da República”5. A soberania 
é, a partir de então, definida como o poder absoluto e perpétuo de uma 
República. Apenas as leis divinas e naturais limitam o seu exercício. É 
perpétua, pois não se limita no tempo. O titular da soberania encontra-se, 
assim, acima do direito interno e do Direito Internacional.
Em 1648, a chamada Paz de Westfalia pôs fim à Guerra dos Trinta 
Anos e marcou o estabelecimento do Estado-nação. O término dos 
conflitos religiosos que se espalharam pela Europa durante a primeira 
metade do século XVII representou definitivamente a separação entre 
as esferas temporal e espiritual, ao mesmo tempo em que concentrou 
4 Apud DALLARI. D. Elementos de Teoria Geral do Estado. 10ª ed. São Paulo: Saraiva, 1983. 
p. 66. 
5 Apud DALLARI. Op. cit. p. 68.
ana maria bierrenbach
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poderes na pessoa do monarca. A singularidade do poder estatal residia 
no atributo exclusivo do uso da força. O poder soberano é aquele que 
tem o direito de usar a força em um determinado território e sobre uma 
determinada população. Soberania, território e população passam a ser 
os atributos por excelência de um Estado. 
A ideia da soberania popular também esteve na base dos combates 
contra as monarquias absolutas. A partir da Revolução Francesa, a nação 
tornou-se o próprio povo. Em 1762, Rousseau publicou O Contrato Social 
e transferiu a titularidade da soberania do governante para o povo. No 
Livro I, Capítulo VI, Rousseau afirma que o contrato social gera o corpo 
político – chamado Estado, quando passivo; soberano, quando ativo; e 
poder, quando comparado aos seus semelhantes. Rousseau dedica-se à 
demonstração de que a soberania é inalienável, por tratar-se do exercício 
da vontade geral, e classifica-a como indivisível, uma vez que a vontade 
geral só se manifesta quando há a participação do todo. No Livro II, 
Capítulo IV, Rousseau dedica-se aos limites do poder soberano que, 
apesar de absoluto, sagrado e inviolável, não ultrapassa e nem transgride 
os limites das convenções gerais. O soberano não pode exigir do cidadão 
condutas inúteis à comunidade e deve fazer exigências iguais a todos 
os súditos. 
No século XIX, interessava às potências imperialistas sustentar 
sua imunidade jurídica. Conforme Peter Malanzuck, reputado autor de 
obras sobre Direito Internacional, “at the end of the nineteenth century, 
many international lawyers, particularly in Germany, developed the 
doctrine of sovereignty to the point where it threatened to destroy 
international law altogether. Since 1914 there has been a reaction”6. Com 
o aperfeiçoamento da teoria jurídica do Estado, a soberania tornou-se um 
dos temas mais relevantes do Direito Internacional Público. Os juristas 
do período dedicam-se a estudar a questão. Kelsen, em sua concepção 
normativista, entendia a soberania como expressão da unidade de uma 
ordem7. Jellineck classifica-a como atributo essencial do Estado e sustenta 
a teoria de sua autolimitação. Numa concepção puramente jurídica, 
6 MALANCZUK, Peter. Modern Introduction to International Law. Apud KITTRIE, Nicholas 
(org). International Crimes and Punishments: Documentary Sourcebook and Reporter on 
International Criminal Law and Procedure. Washington College of Law, American University, 
2009. p. 10. v.
7 KELSEN Hans. Apud DALLARI. Op. cit. p. 69.
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considerações sobre os conceitos de soberania, legalidade e legitimidade
o conceito tornou-se o poder de decidir, em última instância, sobre a 
atributividade das normas, ou a eficácia do Direito8.
Entre os juristas brasileiros, Miguel Reale define o conceito como 
o poder de organizar-se juridicamente e de fazer valer dentro de seu 
território a universalidade de suas decisões nos limites dos fins éticos 
de convivência9. Conforme Dalmo Dallari:
A soberania continua a ser concebida de duas maneiras distintas: como 
sinônimo de independência, e assim tem sido invocada pelos dirigentes 
dos Estados que desejam afirmar, sobretudo ao seu próprio povo, não 
serem submissos a qualquer potência estrangeira; ou como expressão 
do poder jurídico mais alto, significando que, dentro dos limites da 
jurisdição do Estado, este tem o poder de decisão, em última instância, 
sobre a eficácia de qualquer norma jurídica.10
Pode-se dizer, então, que a palavra soberania é utilizada não apenas 
para descrever o relacionamento entre um superior e seus subordinados 
em um Estado (soberania interna), mas também a relação entre o próprio 
Estado e os outros Estados (soberania externa). Para