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Casos práticos – TGDC 2016 I João, de 20 anos, é doente mental. Rosa pretende comprar um quadro de que João é proprietário. Rosa pretende assegurar-se de que o contrato a celebrar não seja inválido em consequência da deficiência de João. 1. Que informações deve Rosa obter acerca da situação de João? 2. Conforme o que se vier a apurar, quem deverá intervir no contrato por parte do vendedor? A doença mental (anomalia psíquica) pode constituir fundamento legal para que seja judicialmente decretada a interdição ou a inabilitação de um indivíduo – cf. respectivamente, arts. 138, (1), e 152, ambos do Cód. Civil. Assim, Rosa deverá certificar-se da existência (ou inexistência) de uma decisão judicial de interdição ou inabilitação. Caso João esteja efectivamente interdito, o acto de venda do quadro terá de ser praticado pelo respectivo tutor, nos termos conjugados dos arts. 139, e 123 do Cód. Civil. Devendo considerar-se o quadro como bem móvel de carácter duradouro, a prática do acto de alienação pelo tutor está, ainda, sujeita a autorização judicial (cf. art. 141 do Cód. da Família aplicável por força da remissão constate do art. 238 a) do mesmo Cód. da Família). Se algum destes pressupostos não estiver preenchido, uma eventual compra e venda será anulável, de acordo com os arts. 148 do Cód. Civil e 239 do Cód. da Família. Na hipótese de João se encontrar inabilitado, a sua capacidade para praticar actos de disposição encontra-se igualmente limitada. Efectivamente, estes actos estão sujeitos a autorização prévia do respectivo curador, de harmonia com o art. 153 do Cód. Civil. Será, pois, necessária a intervenção do curador. Caso o curador não autorize a celebração do contrato de compra e venda, esse negócio jurídico será anulável atento o disposto no art. 148 do Cód. Civil, aplicável por força do art. 156 do mesmo código. Caso o João não seja interdito ou inabilitado, o contrato só não será válido se, no momento da respectiva celebração, for notório ou conhecido por Rosa que João estava incapacitado de entender (ou de querer celebrar) o contrato, nos termos do regime da incapacidade acidental constante do art. 257 do Cód. Civil. II Petra casou-se com Miguel em 1990. Em 2000, Miguel, com 50 anos de idade, despareceu, sem dar notícias. Em 2011, foi requerida por Petra e judicialmente declarada a morte presumida de Miguel. Petra casou-se com Caio em 2013. Em Janeiro de 2016, Miguel regressou, dizendo que está casado com Petra. Tem razão? A questão em análise tem, em teoria, duas soluções possíveis. A primeira pressupõe a aplicação do art. 116 do Cód. Civil. Atento o facto de Miguel estar ausente e sem dar notícias há mais de 10 anos, a morte presumida foi correctamente decretada pelo tribunal – cf. art. 114 (1) do Cód. Civil. Declarada a morte presumida, o casamento não se dissolve automaticamente, podendo, no entanto, o cônjuge do ausente contrair novo casamento – cf. art 116 (1) do Cód. Civil, como, aliás, ocorreu no caso em análise. Regressando o ausente, ou havendo notícias de que está vivo, o matrimónio (com o ausente) considera-se dissolvido por divórcio à data da declaração da morte presumida. Não assiste pois razão a Miguel: Petra está casada com Caio, sendo o regresso de Miguel irrelevante para este efeito. A segunda solução consta dos arts. 76 e 77 do Cód. da Família. Nos termos do art. 76, o cônjuge pode requerer ao tribunal a declaração judicial da presunção de morte do outro cônjuge, desde que (i) tenham decorrido três anos sobre a data das últimas notícias e (ii) existam fortes indícios de que ocorreu a morte. Sendo declarada a morte presumida ao abrigo deste artigo, o casamento considera-se automaticamente dissolvido – cf. art. 77 (1) do Cód. da Família. Regressando Miguel depois de Petra ter contraído um novo casamento, é o novo casamento considerado válido nos termos e para os efeitos do art. 77 (3) do Cód. da Família 1 . III Luciano é embaixador de Angola na República Democrática do Congo. Num litígio em Kinshasa invocou a extraterritorialidade. Onde está, para efeitos desse litígio, domiciliado Luciano? De acordo com a norma especial sobre domicílio ínsita no art. 88 do Cód. Civil, Luciano, enquanto agente diplomático, será considerado domiciliado em Luanda sempre que invoque a prerrogativa da extraterritorialidade, como sucede no caso em apreço. Luciano considera-se para efeitos deste litígio domiciliado em Luanda. 1 O Prof. CARLOS ALBERTO B. BURUTY DA SILVA considera que o regime do Cód. da Família revogou tacitamente o art. 116 do Cód. Civil – Teoria Geral de Direito Civil, 2.ª ed., 2015, Luanda, UAN, p. 307. IV João é a cara de um anúncio num painel publicitário da cadeia de supermercados Descontinho. Como contrapartida pela utilização da imagem de João por 1 ano, os supermercados Descontinho pagaram-lhe 200.000 Kz. A meio do contrato, isto é seis meses após a sua celebração, João arrependeu-se. Pretende, agora, fazer cessar unilateralmente o contrato. Os supermercados Descontinho dizem que João não o pode fazer e que, caso se admita que possa, terá de pagar 10.000.000 Kz pelos prejuízos causados. Quid juris? João celebrou um contrato que pressupõe a limitação do seu direito de personalidade, no caso concreto o direito à imagem. Esta limitação voluntária é admissível desde que não seja contrária à ordem pública ou viole qualquer outra disposição legal, de acordo com o art. 81 (1) do Cód. Civil. Não se vislumbra qualquer questão de possível invalidade do contrato inicialmente celebrado, pelo que concluímos pela validade do contrato celebrado. Porém, o regime de cessação dos negócios jurídicos que impliquem a limitação voluntária de direitos de personalidade tem uma particularidade: essa limitação é sempre revogável (pelo titular do direito de personalidade, não pela outra parte) ainda que com obrigação de indemnizar os prejuízos causados às legítimas expectativas da outra parte – cf. art. 81 (2) do Cód. Civil2. Quer isto dizer que João pode revogar livremente este contrato. Não obstante terá de compensar os supermercados Descontinho pelos danos causados. A compensação de 10.000.000 Kz parece exagerada, quando comparada com o valor do contrato para João, i.e., 200.000 Kz, cerca de 50 vezes mais. Na fixação da indemnização, deve haver um particular cuidado. O valor não deve ser de tal modo 2 Estamos perante um caso de obrigação de indemnizar decorrente de um facto lícito. Trata-se de uma situação excepcional, conforme vimos nas primeiras aulas. elevado que na prática impeça exercício da livre revogação. Além disso, deve ser tido em conta que a parte que contrata a limitação de um direito de personalidade alheio sabe desde logo que a outra parte se pode a todo o tempo desvincular. A sua expectativa é sempre mais frágil, pelo que a necessidade de protecção da confiança é aqui menos intensa do que em outras situações.