A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
11 pág.
[Resumo] O corpo diante da medicina - Anne Marie Moulin

Pré-visualização | Página 1 de 5

O corpo diante da Medicina
Anne Marie Moulin
O século XIX havia reconhecido o direito à doença, já o século XX deu um novo direito do homem, o direito à saúde, que de fato foi compreendido, sobretudo, como o direito à assistência médica.
A medicina ocidental tornou-se não apenas o principal recurso em caso de doença, mas um guia de vida concorrente das direções de consciência. A sua justificação reside no progresso de seus conhecimentos sobre o funcionamento do organismo e a vitória sobre as enfermidades.
A história do corpo no século XX talvez chegue um dia a fazer de cada um o médico de si mesmo, tomando a iniciativa e as decisões com conhecimento de causa.
O corpo no século XX: nem doente nem são
O nosso século XX se gaba de muitas vitórias sobre as doenças. Antigamente, a doença se desenrolava em tempo real, e o corpo era nesse caso o teatro de um drama repleto de majestade. 
Os hospitais urbanos interromperam as representações de potenciais focos de infecção. O número de leitos hospitalares tende a diminuir. O hospital que antigamente se refugiava do mundo atrás dos muros, hoje se abre à cidade e se organiza em torno de uma rua comercial onde se acotovelam profissionais de saúde e pacientes.
Paralelamente, a preocupação com a saúde é superior à preocupação com a doença. Se a palavra chave do século XVIII era a felicidade, e a do século XIX a liberdade, pode-se dizer que a do século XX é a saúde. 
A medicalização, iniciada em meados do século XIX e apoiada pelos poderes públicos, fez dos médicos os intermediários obrigatórios da gestão dos corpos presos em uma rede de obrigações em concordância com os grandes acontecimentos da socialização: entrada na escola, serviço militar, viagens e escolha de uma profissão.
O desenvolvimento da medicina preventiva provocou um curto- circuito na experiência da doença. Agora a medicina procura não apenas enunciar um prognóstico para os próximos dias, mas dizer o futuro. 
Portanto, o triunfo do século XX sobre a doença, celebrado à disputa, é uma vitória.
A contabilidade dos corpos
A vitória em questão se deve ao recuo das epidemias do passado. O historiados William O’Neill, autor de uma famosa obra sobre a peste, em 1983 começava assim o seu estudo: “Um dos elementos que nos separam dos nossos ancestrais, e torna a experiência contemporânea profundamente diferente daquela de outras épocas, é o desaparecimento das epidemias que afetavam gravemente a vida humana.”
O’Neill exprimia assim a convicção generalizada de que, ao menos nos países industrializados, a epidemia se havia tornado impensável.
A partir de 1895, a mortalidade epidêmica havia começado a declinar regularmente nos países da Europa. Muitas vezes esse declínio numérico é atribuído ao que se denomina, nos países de língua francesa, à revolução pasteuriana.
O século XX terá sido o do grande salto demográfico, tanto na Europa como no conjunto do mundo. Esse salto pode ser sentido através de três grandes indicadores que concordam: a mortalidade global, a esperança de vida na hora do nascimento e a taxa de mortalidade infantil.
A mortalidade global não desistiu de declinar desde o começo do século. A curva assumiu progressivamente o mesmo contorno em toda a Europa, que hoje conhece uma taxa inferior a 10%, com exceção dos países do Leste.
Da mesma maneira, a esperança de vida europeia passou de 46 para 70 anos, para os homens, e de 49 para 77, para as mulheres. Esta mudança se deve à diminuição da mortalidade infantil e do fardo das doenças infecciosas.
O declínio da mortalidade infantil atingiu, sobretudo, as crianças com mais de um ano de idade. Deve-se esse declínio à eliminação das doenças infecciosas eruptivas, das diarreias e das afecções respiratórias.
Estamos passando, hoje, de um regime demográfico onde a probabilidade de morrer era quase igual para todas as classes de idade a um regime onde ela se concentra na etapa final da vida: 80% dos casos a morte atinge agora as pessoas depois dos setenta anos. Vive-se hoje a morte de uma criança ou de um adolescente, na maioria dos casos em consequência de um acidente, como um escândalo, como um fato inaceitável que só pode despertar a revolta dos parentes.
A mortalidade por morte violenta (excluindo as guerras) está, em compensação, aumentando e sofrendo uma mudança qualitativa. No começo do século, ela se repartia principalmente entre afogamentos e acidentes de trabalho. Está mais tarde ligada aos acidentes de trânsito e ao frenesi da velocidade.
A volta das doenças infecciosas?
Na década de 1970, diversas pessoas bem intencionadas tinham anunciado o final de um ciclo histórico, não somente o fim das epidemias, mas o das doenças infecciosas, nos países industrializados pelo menos. 
Mas não tardou que os primeiros fracassos sofridos a propósito do paludismo, lançaram uma sombra sobre o quadro. As esperanças depositadas na utilização de inseticidas em larga escala, mudaram bruscamente de direção diante da resistência dos mosquitos a esses produtos e com a percepção de seus perigos. Ao mesmo tempo aumentou a resistência dos parasitas aos tratamentos habituais.
A chegada da Aids (Sida) e a “emergência” de novos tipos de vírus puseram em duvida a nossa certeza da vitoria, ou quase, sobre as doenças infecciosas. 
É na África que teria aparecido o vírus Ebola, responsável por uma febre hemorrágica, que levava à morte em pouco tempo, provocando pequenas hecatombes. A difusão do vírus na Europa não parece muito provável, dada a sua fragilidade no meio ambiente. Mas os cenários de catástrofes que seu aparecimento acarretou, contribuíram para a sensação de fragilidade do ser humano do século XX em confronto com o luxuriante mundo dos vírus. Laboratórios para manter os vírus isolados, cercados de precauções draconianas de segurança, foram construídos na Europa a fim de protegê-la dos germes sem fronteiras.
Um “espectro” veio contribuir para o desencantamento. Doença urbana, favorecida pela moradia insalubre e pela falta de higiene, a tuberculose parecia ter cedido a um conjunto de medidas que associavam BCG e diagnostico por raios-X e teste de tuberculose.
Condenada antigamente como doença social, hoje imagem sincrética do risco que envolve os grupos desfavorecidos, a tuberculose traz de novo à vida um medo social ainda mais irracional, visto que o tuberculoso não se deixa adivinhar nos transportes coletivos ou nos lugares públicos.
Quanto à BCG, é ainda a mais controvertida das vacinas. Se conseguiu fazer desaparecer a meningite tuberculosa infantil, não conseguiu vencer a tuberculose dos adultos.
Duas historias do século XX, portanto, se opõem: a de um progresso que se exprime em números demográficos, com o alongamento da expectativa de vida e a eliminação das doenças infecciosas, e uma segunda história, onde o ser humano, com um aumento dos cânceres e a volta das doenças infecciosas, se debate no seio de um mundo em equilíbrio instável.
A Aids (Siga, em Francês)
A Aids ocupa um lugar à parte na história do corpo do século XX, embora só tenha marcado as suas duas últimas décadas. Projetou uma sombra sobre a liberdade sexual, abalou os usos e costumes dos homens e mostrou claramente a grandeza e os limites da ciência.
A Aids ocupa um lugar à parte na história do corpo. Provocando a morte de vários jovens, as barreiras tradicionais vieram ao chão, as associações pressionaram os médicos para que dissessem tudo,puseram as questões e exigiram respostas.
No final da década de 1970, o Centro de Controle das Doenças de Atlanta, nos EUA, foram alertados pela subida rápida do consumo de um tratamento diferente destinado a bebês prematuros que tinham dificuldade para se defender contra os micróbios ou a pessoas submetidas a quimioterapias agressivas. Para esses “imunodeficientes” sem razão conhecida, imaginaram a hipótese de uma imunodeficiência “essencial”, responsável pelos sintomas: febre, emagrecimento, diarreia. A afecção é denominada como Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (Sida, em francês e Aids em inglês

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.