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HISTÓRIA DO BRASIL II12 UNIMES VIRTUAL Aula: 01 Temática: O contexto do século XVIII Primeiramente, devemos analisar o contexto europeu do fi- nal do século XVIII e todo o conjunto de ações que repercu- tiram diretamente na América Latina e, conseqüentemente, no Brasil. Entre as principais transformações ocorridas nesse período po- demos citar: a Independência dos Estados Unidos — antiga colônia ingle- sa — em 1776, e a Revolução Francesa em 1789. No campo econômico, começava a surgir a Revolução Industrial inglesa, a qual iria abalar todo o sistema mercantilista. Segundo Boris Fausto, a cria- ção de novas fontes de energia, o surgimento e aparelhamento industrial e um eficiente desenvolvimento agrícola, colaboraram para transformar a Inglaterra na maior potência mundial do período. Colaboraram para isso a ampliação do seu mercado consumidor, a utilização de tarifas protecio- nistas para seus produtos e os acordos comerciais feitos, principalmente, com as Américas espanhola e portuguesa. A independência norte-americana e a Revolução Francesa ressoaram por toda a Europa e também nas Américas, o que influenciou ideologica e poli- ticamente vários paises, entre eles o Brasil. Isso mudou as relações entre metrópole e colônia e abriu espaço para o surgimento de movimentos de independência nas colônias e de adaptação do sistema liberal, porém, não de modo homogêneo em todos os novos países.independentes. O Brasil colônia no final do século XVIII: início da administração pombalina Devemos analisar como esses fatos repercutiram em Portugal e no Brasil colônia. Nesse período, Portugal não caminhava igualmente como seus vizinhos europeus. Era um país com certo atraso no desenvolvimento econômico, pois vivia em constante conflito com a Espanha e dependia da Inglaterra, em vários sentidos, inclusive para a proteção militar. .Essa proteção era interessante para a Inglaterra, que via o Brasil como um importante mercado para exportação de produtos e aquisição de matérias- primas ou produtos tropicais. A ascensão de Dom José I ao trono português, em 1750, trouxe grandes mudanças para o Brasil, principalmente após a nomeação do ministro Se- bastião José de Carvalho e Melo — mais conhecido como Marquês de HISTÓRIA DO BRASIL II 13 UNIMES VIRTUAL Pombal. No período de 27 anos em que esteve no governo português, tentou tornar mais eficiente a administração e política portuguesa, além de melhorar o aproveitamento das colônias portuguesas. No Brasil, Pombal criou duas companhias de comércio: Grão Pará-Maranhão, em 1755, e a Pernambuco-Paraíba, em 1759. O objetivo da Companhia de Comércio do Grão Pará era transformar e desenvolver a região Norte, onde se poderia desen- volver e produzir produtos que eram consumidos e apreciados em vários locais da Europa. Entre eles, pode-se destacar o cacau e o algodão, que poderiam ser transportados pelos navios da companhia. A companhia de Pernambuco-Paraíba tinha a mesma proposta da primeira, só que na re- gião Nordeste — a idéia era aproveitar a posição geográfica da região mais próxima da Europa. A política implementada por Pombal prejudicou alguns setores e privile- giou outros. O seu programa econômico sofreu alguns reveses: O programa econômico de Pombal foi em grande me- dida frustrado porque, em meados do século XVIII, a Colônia entrou em um período de depressão econômi- ca que se prolongou até o fim da década de 1770. As principais causas da depressão foram a crise do açú- car e, a partir de 1760, a que da produção do ouro. Ao mesmo tempo que as rendas da Metrópole caíram, cresciam as despesas extraordinárias destinadas a reconstruir Lisboa, destruída por um terremoto em 1755, e a sustentar as guerras contra a Espanha, pelo controle da extensa região que ia do sul de São Paulo ao Rio da Prata (FAUSTO, 1995, p. 110) Um dos pontos fortes da política pombalina foi diminuir a de- pendência de Portugal em relação às importações e aos pro- dutos industrializados, principalmente os ingleses, o que pro- moveu um incentivo para instalar manufaturas na metrópole e até mesmo na colônia brasileira. Pombal promoveu várias mudanças político-administrati- vas no Brasil - algumas polêmicas que iremos tratar na aula seguinte. HISTÓRIA DO BRASIL II14 UNIMES VIRTUAL Aula: 02 Temática: Medidas controversas e o final da administração pombalina Uma das medidas implementadas por Pombal foi a transfe- rência da capital de Salvador para o Rio de Janeiro. Outra medida foi a organização e o apoio para a formação de cien- tistas e pesquisadores para estudar os vários recursos naturais das terras brasileiras, com o principal objetivo de levantar produtos interessantes e comercializáveis. O estímulo inicial foi dado para as ciências naturais. Um grande número de estudiosos formados, principalmente, na Universidade de Coimbra ou de Lisboa, tinham como tarefa estudar várias regiões brasi- leiras e analisar a possibilidade de produção e extração de matéria-prima para a metrópole, indo do potencial agrícola ao mineral. A importância dos roteiros produzidos, no final do século XVIII, e das informações neles contidas está analisada no texto abaixo: Esses relatórios de viagem devem ser estudados como mais de um aspecto da tomada de contato dos brasileiros com a realidade de sua terra, embora não se destinassem a serem divulgados, mas apenas a servir de instrução ao governo, dada a política de sigi- lo e a intenção de Portugal de manter o Brasil fechado para o mundo [...]. (DIAS, 2005, p. 71) Uma das mais polêmicas medidas da administração pom- balina foi a expulsão dos jesuítas de Portugal e suas terras, incluindo o Brasil. A expulsão foi feita pela lei de 3 de setem- bro de 1759, que rompeu com uma relação de mais de duzentos anos entre os religiosos e a coroa portuguesa. Podemos considerar a ação política portuguesa a partir do seguinte ponto de vista: o objetivo da medida era centralizar a administração e impedir ações livres, como a da Companhia de Jesus, cuja atuação nem sempre condizia com os interesses da coroa. É preciso lembrar que a expulsão dos jesuítas não foi um ato isolado da coroa portuguesa. Na mesma época, a Companhia de Jesus foi banida de vários países da Europa. Isso nos leva a outra questão importante que pode ter contribuído para a medida: a expulsão dos jesuítas foi acompanhada pelo confisco dos bens de uma das mais ricas ordens da Igreja. Portugal confiscou as extensas proprie- dades que eram pontos estratégicos de fronteira, e as propriedades urbanas foram leiloadas para grandes detentores de terras e ricos comerciantes. HISTÓRIA DO BRASIL II 15 UNIMES VIRTUAL Finalmente, devemos citar a extinção da escravidão indígena pelas leis de 1755 e 1758. A intenção de Portugal com isso era integrar os indígenas à civilização portuguesa, para um maior controle de áreas afastas, e im- pedir rebeliões dos cativos. Foi autorizado também o casamento entre os brancos e índios, algo que não visto com bons olhos pelos jesuítas. Desse modo, várias aldeias seriam transformadas em vilas e seriam administra- das pelo poder regional ligado a Portugal. O afastamento dos jesuítas acarretou um grande problema relacionado ao ensino na colônia, pois, diferentemente da coroa espanhola, a portuguesa não via com bons olhos o surgimento de uma elite letrada no Brasil. Desde meados do século XVI, a América Espanhola já possuía algumas universidades no Peru e no Mé- xico, enquanto, no Brasil, os grandes proprietários e comerciantes tinham de enviar seus filhos para estudar em Portugal ou em outros países da Europa, uma vez que em território brasileiro as primeiras faculdades surgi- ram somente no século XIX. Os poucos locais de ensino podiam ser encon- trados em seminários, como no caso de Olinda e nos chamadosclubes intelectuais no Rio de Janeiro e Bahia. (FAUSTO, 2003, p. 112) As medidas impostas pelo marquês de Pombal aos jesuítas estavam, de certo modo, ligadas a um movimento de con- trole sobre as instituições sociais que apresentavam uma certa dependência ou autonomia e algum poder. Tais medidas contaram com o apoio da Igreja e do Papa Clemente XIV, que extinguiu a Companhia de Jesus em 1773. A companhia de Jesus voltou à cena religiosa apenas em 7 de agosto de 1814. O marquês de Pombal foi destituído quando Dona Maria I assumiu o trono em 1777. Ele foi acusado por roubo e fraude, julgado culpado e desterrado em 1781. HISTÓRIA DO BRASIL II16 UNIMES VIRTUAL Aula: 03 Temática: Reinado de Dona Maria e os movimentos de rebeldia na colônia Com o reinado de Dona Maria I, iniciou-se um período de mu- danças no âmbito político e administrativo em Portugal e suas colônias: foram extintas as companhias de comércio, proibi- das fábricas ou manufaturas de tecidos na colônia — à exceção da tecela- gem rústica dos panos usados para o vestuário dos escravos africanos. Durante o reinado de Dona Maria I, tentou-se continuar ou aprofundar as reformas político-administrativas com o objetivo de lançar Portugal nos novos rumos da economia ocidental e proteger o colonialismo mercantil. Alguns setores da economia se salvaram, o que gerou um certo impulso nos anos posteriores, beneficiados principalmente por fatores ocorridos no panorama mundial e pelo pioneirismo português: O reinado de Dona Maria I e do Príncipe Regente Dom João, ao contrário do anterior, beneficiou-se de uma conjuntura favorável à reativação das atividades agrí- colas da Colônia: a produção de açúcar valorizou-se e se expandiu, favorecida pela insurreição dos escra- vos em São Domingos. Além disso, uma nova cultura ganhou força. O algodão, desenvolvido pela compa- nhia de comércio pombalina e incentivado pela guer- ra de independência dos Estados Unidos, transformou o Maranhão, por algum tempo, na mais próspera da América portuguesa (FAUSTO, op. cit, p. 113 ) Primeiros movimentos de independência e rebeldia Os acontecimentos ocorridos no mundo ocidental geraram e influenciaram vários movimentos de rebeldia em algumas regiões do Brasil, nas últimas décadas do período colonial. Não devemos confundi-los com revoltas que pretendiam a emancipação de Portugal ou com movimentos homogêneos e com uma linha ideológica definida. Em geral, foram contestações e rebe- liões de âmbito regional e de caráter distinto, principalmente, porque ainda não havia no Brasil a idéia de nação integrada e interligada. Entre essas re- voltas estão a Inconfidência Mineira, 1789; Conjuração de Alfaiates, 1798; a Revolução de Pernambuco, 1817 — já com a família real no Brasil. Os movimentos separatistas foram surgindo, principalmente, a partir do descontentamento dos setores da sociedade colonial, cujos interesses passaram a ser prejudicados pelos interesses da metrópole. As camadas HISTÓRIA DO BRASIL II 17 UNIMES VIRTUAL que mais contestaram a relação com a metrópole foram os grandes pro- prietários de terras e de escravos, comerciantes, artesãos, militares de baixa patente, além de órgãos político-administrativos. A influência ideológica vinha principalmente da França e do liberalismo, além da Revolução Americana. Porém, de- vemos tomar cuidado ao analisar as idéias impetradas por essas revoltas, pois elas eram apropriadas pelas elites locais e utilizadas segundo seus interesses. Esse arcabouço intelectual era usado muitas ve- zes como justificativa que camuflava os interesses da elite regional. Devemos nos lembrar: Esses movimentos não podem ser usados como exemplos do surgimento da consciência nacional. São revoltas com objetivos distintos e de regiões diferentes, desencadeados por mineiros, pernambucanos, baianos, aristo- cratas e a população humilde, com identidades e sentimentos de pertenci- mento regional, não existia a idéia de ser brasileiro no contexto de nação. Seriam etapas pelas quais a sociedade brasileira passou até a atingir a consciência de nação e sua identificação com ela. Nas próximas aulas iremos estudar e analisar as duas mais importantes revoltas acontecidas no final do século XVIII, que repercutiram em movimentos posteriores, durante o sé- culo XIX e, até mesmo, no início da República. HISTÓRIA DO BRASIL II18 UNIMES VIRTUAL Aula: 04 Temática: Inconfidência Mineira A Inconfidência Mineira, como foi dito anteriormente, foi uma revolta de caráter regional, isto é, movida pelos interesses da elite local em relação à administração portuguesa da região. A revolta envolveu personalidades da elite local e contou com o apoio da uma tropa regular que estava aquartelada na região. Entre os integrantes es- tavam alguns dos homens mais ricos e de grande reputação da capitania. Os problemas haviam começado durante o governo de Pombal, quando a sociedade mineira entrou em crise, principalmente, pela queda da produ- ção do ouro na região e pela política de arrocho fiscal da metrópole, que insistiu na cobrança do quinto, apesar da queda na produção do ouro, forçando cada habitante a contribuir como uma cota adicional. O alferes Joaquim José da Silva Xavier era uma exceção entre os inte- grantes abastados. Entrara na carreira militar, em 1775, com o posto in- ferior e inicial do regimento. Exercia o ofício de dentista, surgindo, assim, o apelido de Tiradentes. Dentro da conspiração, Tiradentes teve um papel fundamental. Por meio do seu secundário ofício comunicava-se com a elite mineira sem levantar suspeitas. Tinha também como função instigar a população a apoiar o levante. Todos os principais integrantes tinham motivos pessoais para o levante. Sentiam-se acuados e ameaçados de perder seus patrimônios por força das ordens de Martinho de Melo e Castro, ministro da rainha Dona Maria I e pela mudança de governador na província em 1782. Luís da Cunha Menezes, o novo governador, exigia a cobrança do pagamento das dívidas atrasadas e contraídas pela elite mineira. Tiradentes, por sua vez, sentiu-se prejudicado ao perder no período o comando de um importante destaca- mento de Dragões que patrulhava uma estrada na Serra da Mantiqueira. Com a nomeação de um novo governador, o Visconde de Barbacena, a situação ficou ainda mais complicada, pois recebeu ordens de garantir o recebimento do imposto anual de cem arrobas de ouro – cobrança que ficou conhecida como Derrama. Derrama: era um imposto que teria de ser pago, indivi- dualmente, pelos habitantes da capitania, caso não fosse alcançada a quota de ouro anual estipulada pelo governo HISTÓRIA DO BRASIL II 19 UNIMES VIRTUAL como tributo. Lembremos que neste período Minas Gerais passava por um declínio da extração do metal. As dívidas adquiridas pela elite originaram-se da seguinte maneira: du- rante o período colonial, era comum repassar a função de arrecadação de impostos para particulares que tinham relação com o poder público. Ao arrecadar o valor estipulado pela coroa, eles ficavam com a diferença, porém, muitas vezes, nem chegavam a completar o montante exigido, ori- ginando as dívidas com a coroa. Os conspiradores planejaram esperar o dia da derrama para agir — em fevereiro de 1789. Com a ajuda do regimento dos Dragões, o governador seria assassinado e proclamada a república. O papel de Tiradentes seria promover a agitação pública junto com outros companheiros. A declara- ção de independência seria lida juntamente com o anúncio da morte do governador. A capital da nova República deveria ser São João del Rei. O plano não chegou a ser posto em prática. Em março de 1789, o gover- nador decretou suspensa a derrama e os revoltosos foram denunciados por Joaquim Silvério dos Reis, que tinha motivos particularespara essa ação: era um devedor da coroa. Logo após, foram decretadas as prisões dos conspiradores. O processo ocorreu na então capital da colônia, Rio de Janeiro, e terminou em abril de 1792. A coroa portuguesa, na tentativa de demonstrar seu poder fazendo com essa punição servisse de exemplo, decretou a forca para todos os réus. Porém, mais tarde, Dona Maria I voltou atrás e enviou uma carta de clemência, através da qual transformou a pena em banimento, exceto no caso de Tiradentes. No dia 21 de abril de 1792, o réu Joaquim José da Silva Xavier foi enforcado numa grande demonstração de força da coroa. Seu corpo foi esquartejado e sua cabeça exposta em Ouro Preto. A Inconfidência Mineira foi acontecimento regional que, aparentemente limitado e com pouca possibilidade de êxi- to, adquiriu um grande impacto na história do país. Pode- mos pensar também que o movimento foi usado pela elite mineira como subterfúgio para que fosse possível alcançar seus interesses de um modo disfarçado de um movimento republicano e popular. Todo o espetáculo e demonstração de força impetrada pela coroa com o objetivo de minar quaisquer outras possibilidades de levante não se con- cretizaram. Na verdade o resultado foi o contrário, pois a memória do le- HISTÓRIA DO BRASIL II20 UNIMES VIRTUAL vante permaneceu viva e os conspiradores foram vistos com simpatia e como heróis. A força simbólica da Inconfidência foi usada principalmente pelos republi- canos como campanha contra a monarquia. A figura de Tiradentes seria alçada a mártir da república e mitificada — a imagem parecida com a de Jesus Cristo. Os principais integrantes do levante e seus interesses: • José de Alvarenga Peixoto: endividado com a coroa. • José da Silva de Oliveira Rolim: padre; tinha contra si uma ordem de banimento de Lisboa; traficante de escravos e diamantes. Tentou obter junto ao visconde de Barbacena uma ordem banimento contra ele, o que não conseguiu, e essa mágoa o teria levado a aderir à conspiração. • Carlos Correia de Toledo e Melo: vigário, rico proprietário de terras, com trabalhos na mineração e senhor de muitos escravos; teve muitos problemas com o governador Melo e Castro. • Francisco de Paula Freire de Andrade: comandante do regimento de Dragões; era perseguido e acusado por Melo e Castro. • Joaquim Silvério dos Reis: denunciou a conspiração em troca do per- dão das suas dívidas. • José Álvares Maciel: filho do capitão-mor de Vila Rica, tinha várias dividas em atraso. • Domingos de Abreu Vieira: negociante português, detinha dívidas junto à coroa. HISTÓRIA DO BRASIL II 21 UNIMES VIRTUAL Aula 05 Temática: A Conjuração dos Alfaiates A Conjuração dos Alfaiates foi um movimento baiano, acon- tecido em 1798, quase dez anos depois da Inconfidência Mi- neira. Entre seus integrantes havia pessoas de origem hu- milde: negros libertos, mulatos, artesãos, soldados, profissionais liberais etc. O movimento recebeu esse nome, porque dois de seus líderes eram alfaiates: João de Deus do Nascimento e Manuel Faustino dos Santos Lira. Outros dois líderes eram soldados: Lucas Dantas e Luís Gonzaga das Virgens. A revolta dos alfaiates também tem sido chamada de Conjuração ou Inconfidência Baiana. Outra liderança importante foi o médico Cipriano Barata que, diferentemente dos outros participantes, não tinha origem hu- milde. Voltaremos a falar sobre ele, uma vez que Barata tomou parte de outros movimentos sociais no Nordeste. A revolta teve motivações semelhantes aos outros movi- mentos e rebeliões ocorridos no Brasil, no século XVIII: des- contentamento com o poder central metropolitano e pelas condições de vida da população da capital baiana. A cidade de Salvador sofria com a falta e com o alto preço dos alimentos. A população saqueava açougues por falta de comida, como foi o caso do saque da carne destina- da ao general-comandante de Salvador. As propostas dos conspiradores eram o rompimento com a metrópole, a instalação da República na Bahia, o fim da escravidão e o aumento dos soldos dos militares de baixa patente, entre outras reivindicações. Um aspecto distinguia este levante em relação aos demais movimentos da época: a conjuração baiana foi a primeira revolta popular e com caráter republicano da história do Brasil. A revolta não chegou a ser concretizada. porque no dia 12 de agosto de 1798, os membros do movimento saíram às ruas distribuindo panfletos, pregando um levante geral e a instalação de um governo independente e republicano. A manifestação alertou as autoridades, que reagiram imedia- tamente e realizaram perseguições e prisões. Os quatro líderes de origem humilde foram julgados e condenados ao en- forcamento e esquartejamento. Outros receberam penas de prisão e bani- mento na costa da África. Cipriano Barata foi absolvido e solto. HISTÓRIA DO BRASIL II22 UNIMES VIRTUAL O suporte ideológico do movimento vinha de uma associação literária, formada em Salvador, que discutia as idéias iluministas e os problemas sociais que afetavam a população baiana. A associação teria sido criada pela loja maçônica Cavaleiros da Luz, da qual participavam diversas perso- nalidades da região, entre eles Cipriano Barata e outros intelectuais. Um dos temores das autoridades portuguesas era que acontecesse na Colônia sul-americana o que ocorreu em São Domingos no Caribe, onde uma revolta de escravos, iniciada em 1791, deu origem à independência do país sob um governo comandado pelos próprios negros. São Domingos, que era uma colônia francesa, transformou-se no Haiti. A Bahia tinha con- dições semelhantes ao Haiti: um grande contingente de negros e mulatos, aproximadamente 80% da população da capitania. Igualmente, a Inconfidência Mineira, a Conjuração dos Alfaiates nem che- gou perto do seu objetivo, mas permaneceu na lembrançca por seu valor simbólico e contestatório. Um movimento que tinha à frente a população humilde e de escravos, que lutaram por melhores condições de vida. Como vimos, os movimentos sociais do século XVIII tinham interesses distintos e regionais, somente se assemelham pelo descontentamento com o poder central, não existia uma idéia homogênea de nação a ser construída. O rompimento com a metrópo- le, como veremos, não ocorreu por meio de uma revolução, mas por meio de um processo, sobretudo político, iniciado com a chegada da família real ao Brasil e com a abertura dos portos às nações amigas. Esses eventos deram início a uma certa modernização na capital da colônia , o que, juntamente com outros fatores, acelerou o processo de independência. HISTÓRIA DO BRASIL II 23 UNIMES VIRTUAL Aula: 06 Temática: A chegada da Família Real ao Brasil Com parte da Europa dominada pela França, a Inglaterra era a única potência européia capaz de barrar a expansão francesa. Sabendo disso, Napoleão Bonaparte, imperador da França, impôs um bloqueio que visava barrar o comércio dos países europeus com a Inglaterra. Portugal foi intimado a aderir ao bloqueio sob pena de invasão. Diante da recusa portuguesa, em novembro de 1807, a França invadiu o território luso, seguindo em direção à capital, Lisboa. Nesse período, Portugal era governado por D. João — que assumira o co- mando desde que Dona Maria I, a rainha mãe, fora afastada do trono por demência, em 1792. O então príncipe regente, acordado com a Inglaterra, decidiu pela transferência de da corte para o Brasil. Durante muito tempo a história tratou a fuga da família real portuguesa para o Brasil como uma demonstração de co- vardia, temperada com uma certa dose de atrapalhação, dando à cena um certo tom de comédia. Porém, atualmente, a historiogra- fia tende a considerar o caso como exemplo de esperteza política do então príncipe regente. Primeiramente, o Brasil já vinha se destacando entre os domíniosportugueses; em segundo lugar, D.João escapou de ser deposto por Napoleão, como havia acontecido com o rei espanhol. Em meio ao clima revolucionário que se estendeu pela Europa após a Revolução Fran- cesa, o regente português foi um dos poucos a manter a coroa. D.João trouxe para o Brasil todo o aparato administrativo da coroa, o te- souro real, uma impressora e uma grande biblioteca (que daria origem à Biblioteca Nacional). Durante os dias de 25 e 27 de novembro de 1807, cente- nas de portugueses embarcaram em direção ao Brasil. Entre eles havia várias personalidades, funcionários reais, minis- tros, juízes, membros do exército, da marinha e da nobreza lusitana. Os navios portugueses contaram com a proteção de vários navios ingleses até a chegada ao Brasil. Alguns administradores e colonos de outras lo- cais do império português — como Angola ou Moçambique — também migraram para o Rio de Janeiro. HISTÓRIA DO BRASIL II24 UNIMES VIRTUAL A viagem da corte portuguesa, segundo consta, não teria sido nada fácil e confortável: Houve muita confusão no embarque, e a viagem não foi fácil. Uma tempestade dividiu a frota; os navios es- tavam superlotados, daí resultando falta de comida e água; a troca de roupa foi improvisada com cobertas e lençóis fornecidos pela marinha inglesa; para com- plementar, o ataque dos piolhos obrigou as mulheres a raspar o cabelo. Mas esses aspectos novelescos não podem ocultar o fato de que, a partir da vinda da família real para o Brasil, ocorreu uma reviravolta nas relações entre a Metrópole e a Colônia (FAUSTO, 1995, p. 121) Abertura dos portos às nações amigas Com a chegada da corte portuguesa, um dos primeiros atos de D. João foi a abertura dos portos brasileiros às nações amigas. Isso ocorreu em 28 de janeiro de 1808, o que beneficiou quase exclusivamente os interesses ingleses, facilitando assim a entrada de seus produtos em um novo merca- do consumidor. Outras concessões foram feitas à Inglaterra: em 1810, foi assinado um novo tratado que estipulava o imposto alfandegário de 15% aos produtos e 16% aos portugueses, gerando dessa maneira inúmeros protestos, já que os produtos portugueses não poderiam concorrer com os ingleses que eram de melhor qualidade; a Inglaterra recebeu autorização para extrair madeiras brasileiras para construção de navios; e os ingleses que moravam no Brasil receberam a garantia de serem julgados somente pelas leis e pelas autoridades inglesas. As vantagens concedidas à Inglaterra aumentaram ainda mais o descon- tentamento dos comerciantes locais. O Brasil foi abarrotado de produtos ingleses, já que esses eram impedidos de entrar na Europa pela França de Napoleão. A abertura dos portos teve conseqüências importantes para a história do Brasil, pois, a partir de então, iniciou-se a emancipação política brasileira, pois, com a capital do impé- rio português tomada pelos franceses, o Brasil passou a tratar diretamente com as outras nações. Esse período marcou também o começo da forte influência inglesa no Brasil e, mais do que isso, os negócios sendo feitos diretamente com outras nações pôs um fim no chamado pacto colonial por meio do qual a metrópole portuguesa detinha o monopólio de todas as ne- gociações feitas com o Brasil. Essa nova situação atendeu aos interesses de certos grupos de latifundiários e de comerciantes. HISTÓRIA DO BRASIL II 25 UNIMES VIRTUAL Para a Colônia, como já foi dito, a vinda da família real significou moder- nização. O príncipe regente revogou o Alvará de 1785 de D. Maria I, que proibia a produção manufatureira no Brasil. Tal medida ampliou a liberdade econômica da então colônia. Ofereceram-se incentivos e estímulos para importação de materiais para a indústria da lã, da seda e do ferro, além de motivar a entrada de máquinas mais modernas no Brasil. A influência inglesa cresceu a ponto de obrigar Portugal a firmar um tratado chamado Tratado de Navegação e Co- mércio, de 1810, pelo qual a coroa portuguesa se compro- metia a limitar o tráfico de escravos de suas colônias e até extingui-lo completamente. HISTÓRIA DO BRASIL II26 UNIMES VIRTUAL Aula: 07 Temática: A colônia vestida de metrópole A corte portuguesa chegou ao Brasil em 11 de março de 1808, o que desencadeaou um surto migratório em direção às terras brasileiras: A parcimônia de dados disponíveis não permite que se meça precisamente o fluxo migratório em direção à nova corte sul-americana. Mas é possível captar as mudanças comparando os dados dos censos efetu- ados na cidade em 1799 e 1821. Entre uma e outra data, a população urbana, excluídas portanto as fre- guesias rurais do município, subiu de 43 mil para 79 mil habitantes. Em particular, contingente de habitan- tes livres mais que dobrou, passando de 20 mil para 46 mil indivíduos. (ALENCASTRO, 1997, p. 13) Após estabelecer-se no Rio de Janeiro, iniciou-se a reorganização admi- nistrativa e o estabelecimento da burocracia do Estado, como a nomeação dos ministros. Foram sendo recriados paulatinamente todos os órgãos do Estado português: os ministérios do Reino, da Marinha e Ultramar, da Guerra, Assuntos Estrangeiros e o Real Erário, que, em 1821, mu¬dou o nome para Ministério da Fazenda. Todo o aparato administrativo da coroa portuguesa ressurgiu no Brasil. O com- plexo político-administrativo apareceu na colônia, principalmente, para empre- gar a corte portuguesa que veio junto com a família real e para respaldar o príncipe regente na administração do império português, longe de Lisboa. A transferência do aparato administrativo português trouxe algumas im- portantes conseqüências para o Brasil, principalmente a de deixar de ser administrado exteriormente pela metrópole. Com a transferência da corte, o Brasil se tornou o centro de decisões no mundo colonial português. Com a presença da corte no Rio de Janeiro, os latifundiários passaram a ter mais chances de participar e, se possível, influenciar as decisões do governo. Entre as instituições criadas durante o período de permanência da corte no Rio de Janeiro, podemos citar: O Banco do Brasil: foi fundado em 12 de outubro de 1808 para servir como instrumento financeiro do Tesouro Real. No entanto, sua criação se- HISTÓRIA DO BRASIL II 27 UNIMES VIRTUAL ria para atuar como instituição creditaria de setores do comércio, indústria e agricultura. Por meio dele o governo pôde emitir papel-moeda, suprindo assim suas necessidades, custeando as despesas da casa real, judiciário, exército, pensões e soldos. Biblioteca Nacional: quando deixou Lisboa com destino ao Brasil, a família real trouxe consigo todo o acervo da Livraria Real, com cerca de 60.000 peças, entre livros, manuscritos, estampas, mapas, moedas e medalhas. A partir de 29 de outubro de 1810, a Biblioteca Nacional foi estabelecida no Rio de Janeiro. Inicialmente, a consulta era permitida apenas aos estudiosos, mediante consentimento régio. Foi liberada ao público geral em 1814. Jardim Botânico: foi formado com o objetivo de aclimatar as especiarias vindas das Índias Orientais em 13 de junho de 1808. Primeiramente, foi cha- mado de Jardim de Aclimação. Encantado com a exuberância da natureza do lugar, D.João instalou o Jardim, que, em 11 de outubro do mesmo ano, passou a se chamar Real Horto. Foi aberto à visitação pública após 1822. No âmbito militar, o governo português realizou expedições à Guiana Francesa, numa clara provocação à França, logicamente influenciado pela Inglaterra. Fez algumas intervenções na área do Prata, na região fronteiri- ça, a partir de 1811, época em que foi anexada a Banda Oriental e criada a Província da Cisplatina, em 1821. Antes de prosseguir, vale a pena ler as considerações do historiador Luiz Felipe de Alencastro sobre a questão do na- cionalismo no Brasil, sentimento importanteem movimen- tos de independência e de formação do Estado Nacional. Desde a formação colonial até o século XIX, o Brasil era dividido em uni- dades distintas que não possuíam uma ligação entre si. Cada região obe- decia diretamente à metrópole. Com a transferência da corte para o Rio de Janeiro, criou-se uma noção de unidade territorial. Essa transmissão político-administrativa de poderes teve como conseqüência o surgimento do conceito de unidade de que se necessitava. Utilizei o termo brasileiro de forma destacada para lembrar, como já foi dito, que não existia ainda a idéia de pertencimento e de unidade nacional, mas sim, o de identificação regional. Porém a partir desse mo- mento, aquela diversidade regional que existia desde o século XVII, vai ser abalada pela constante presença estrangeira no Rio de Janeiro após 1808: “[...] o Rio de Janeiro como uma grande eclusa, recanalizando os fluxos externos e acomodando os regionalismos num quadro mais amplo, pela primeira vez verdadei- ramente nacional [...]”. (ALENCASTRO, 1997 p. 24) HISTÓRIA DO BRASIL II28 UNIMES VIRTUAL Aula: 08 Temática: A vida cultural na corte brasileira A vida cultural da capital da colônia, Rio de Janeiro, mudou muito depois da chegada da Família Real. Houve mudanças até mesmo em relação aos padrões estéticos. Duas das prin- cipais novidades foram o aparecimento da imprensa e o acesso aos livros. Tais inovações colaboraram com a proliferação de idéias e ideologias. Acostumados a certos requintes em Lisboa, a Família Real e a corte trou- xeram um vasto aparato cultural para a cidade: foram criados teatros, bi- bliotecas, academias literárias e científicas. A população do Rio de Janei- ro, durante o período da permanência de D. João, praticamente dobrou. Entre os habitantes estavam estrangeiros de várias nacionalidades, mas, sobretudo, portugueses, além de grandes proprietários que vieram se es- tabelecer na cidade. Entre as escolas científicas podemos citar: Escola de Comércio, Escola Real de Ciência, Artes e Ofícios, Academia Militar e da Marinha. No cam- po das artes foi organizada uma Academia Imperial de Belas Artes com a chegada da Missão Artística Francesa de 1816. A Missão Artística Francesa de 1816 A Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro foi criada por um de- creto, em 1816, por iniciativa de Antônio de Araújo Azevedo, o Conde de Barca, que teve a idéia de fundar uma academia ou escola de ciências e artes de acordo com o modelo francês. De acordo com esse modelo o objetivo era aprimorar e ampliar o gosto pelas artes e introduzir o ensinamento de alguns ofícios, tidos como fundamentais para o desenvolvimento material do país. Os principais nomes da missão eram: Nicolas-Antoine Antônio Taunay, pintor de paisagens e batalha; Jean Baptiste Debret, pintura histórica; Au- guste Marie Taunay, escultor; Auguste Henri Victor Grandjean Montigny, arquiteto; Simon Pradier; arquiteto; Francisco Ovide, músico compositor. Os artistas vieram precipitados pelos recentes acontecimentos políticos na Europa. Com a queda de Napoleão I, o exílio de David, pintor neoclás- sico francês, e a restauração bourbônica, em 1815, muitos artistas sofre- ram com as perseguições, por serem estes bonapartistas. Desgostosos na HISTÓRIA DO BRASIL II 29 UNIMES VIRTUAL França, procuraram novos horizontes profissionais. Havia a idéia de formar no Brasil uma colônia de artistas a fim de estimular o desenvolvimento industrial e cultural do país. Embora tenha sido criada por meio do decreto de 1816, a Academia Imperial de Belas Artes só passaria a funcionar com uma certa regula- ridade a partir 1826. Durante esses dez anos, as atividades se resumiram a algumas aulas de Debret. Durante a construção do palácio da Acade- mia, os artistas dedicaram-se, principalmente, a obras particulares e a trabalhos dedicados à pintura histórica para coroa portuguesa. A pintura histórica e o neoclacissismo desenvolvidos na Academia influenciaram a formação de inúmeros artistas nacionais. Os artistas estrangeiros foram responsáveis pela inserção do ensino ar- tístico no Brasil e influenciaram vários artistas brasileiros, durante todo o século XIX e início do XX. Foram responsáveis por projetos arquitetônicos e por ensino profissional. Os pintores retrataram as paisagens e cenas do cotidiano do Brasil, principalmente Debret, que foi o pintor mais impor- tante da primeira geração da Academia Imperial. Um de seus primeiros trabalhos no Brasil foi a organização dos festejos de aclamação de Dom João VI. No período em que esteve no Brasil se interessou por cenas do cotidiano, pela vida social e política brasileira, e, sobretudo, a vida cotidia- na dos escravos. A imprensa A imprensa, que fora proibida durante séculos no Brasil, foi difundida com a chegada da corte, com funcionamento das primeiras tipografias. Houve a fundação da Imprensa Régia, responsável pelas primeiras publicações no Brasil. Um dos primeiros periódicos publicados foi A Gazeta do Rio de janeiro que, fundada em 10 de setembro de 1808, contava com a proteção das autoridades e se limitava a publicar assuntos referentes à corte. O Correio Braziliense, editado em 1808, diferenciava-se dos outros perió- dicos por ser liberal e fazer oposição ao governo. Dirigido por Hipólito José da Costa, o jornal não era impresso no Brasil, mas em Londres. O “Correio Braziliense” entrava clandestinamente, nos porões dos navios que transportavam mercadorias e escravos. Todo o cerco da Coroa Portuguesa ao in- cipiente jornalismo brasileiro temia a propagação de ideais de liberdade, igualdade e fraternidade que fer- vilhavam na Europa, especialmente na França, com os quais Hipólito mantinha uma certa identidade. HISTÓRIA DO BRASIL II30 UNIMES VIRTUAL Os dois jornais tinham posições ideológicas antagô- nicas. Fugindo da Inquisição, Hipólito pregava a liber- tação do Brasil dos domínios de Portugal; enquanto a Gazeta, dirigida por Frei Tibúrcio José da Costa, funcionava como um diário oficial da Corte. Quando nasce, 308 anos após o “descobrimento”, a Imprensa tupiniquim já vem cerceada, fato que vai marcá-la em vários períodos históricos, culminando com a Lei da Mordaça, quase 200 anos depois. (ARAÚJO, 2004) HISTÓRIA DO BRASIL II 31 UNIMES VIRTUAL Aula: 09 Temática: O Brasil no caminho dos viajantes A vinda da corte portuguesa e a abertura dos portos bra- sileiros às nações amigas em 1808 possibilitaram a entra- da, na colônia, de diversos viajantes estrangeiros. Muitos deles participaram e foram responsáveis por expedições científicas com o objetivo de explorar e conhecer o país e suas especificidades, a partir de uma visão intelectual reflexiva que se anunciava desde o século XVI, com prolongamento no século XIX, engendrando uma cultura simultane- amente artística e científica. Desse modo, construíram visões de mundo, auto-imagens, estereótipos étnicos, sociais e geográficos, de ambientes alheios aos seus. O Brasil e a América Latina foram o destino de várias expe- dições de cunho científico, o que suscitou uma espécie de redescoberta do Brasil pelos viajantes. A aspiração cientí- fica levou viajantes europeus a diversas partes do mundo em busca do conhecimento natural. Tal postura fazia parte de certas tendências totali- zadoras que surgiram durante o século XVIII, embasadas em um discurso de “anticonquista” por meio do qual o naturalista europeu legitimava sua presença em várias regiões do mundo, isto é, pela importância do conhe- cimento e da pesquisa científica. Essa narrativa naturalista teve enorme força ideológica durante todo o século XIX e permaneceu até nossos dias. Entretanto, deve-se considerar que a visão de conhecimento era intrinse- camente eurocêntrica. Alguns viajantes partiram de uma antropologia crítica, adaptando o siste-ma classificatório das ciências naturais à análise etnográfica. Esses olha- res e estereótipos eram pautados na desqualificação e homogeneização de populações nativas, principalmente de sua história e cultura. As narrativas de viagem e as produções pictóricas podem ser um bom exemplo disso. A maior influência do pensamento científico e naturalista eu- ropeu foi o alemão Alexandre von Humboldt. Estudioso das ciências naturais, ele partiu do porto espanhol de La Coruña, em 1799, com proteção do governo espanhol, em direção ao continente americano. Seus escritos inspiraram novas visões da América, além de revelar a amplitude da rica natureza dos trópicos. Sua influência inspirou HISTÓRIA DO BRASIL II32 UNIMES VIRTUAL estudiosos e viajantes nos dois lados do Atlântico. Humboldt foi proibido de entrar em território brasileiro devido à política de proteção da coroa portu- guesa, preocupada em preservar seus territórios e suas riquezas naturais. Considerado uma pessoa de extraordinário vigor e habilidade na ilustra- ção, Humboldt estruturou suas jornadas e temas de estudo e despendeu a energia de uma vida inteira para sua realização. Devotou sua vida e fortuna em suas viagens e escritos, os quais assumiram proporções épicas. Os métodos de análise desses cientistas naturalistas servi- ram como fulcro ideológico para vários viajantes europeus que desembarcaram no Brasil, com o objetivo principal de fazer experimentos e pesquisas sobre os recursos naturais do país, pois esta seria uma das poucas regiões da América desconhecida por euro- peus. Os primeiros pesquisadores europeus a entrar em território nacional foram Thomas Lindley, em 1802, e John Mawe, em 1807. Alguns desses viajantes criaram referências de acordo com seu repertório cultural. Dessa maneira, construíram olhares muitas vezes preconceituo- sos e depreciativos em relação à sociedade e aos costumes brasileiros. Os viajantes procuraram revelar aos europeus os aspectos da nossa pai- sagem, da nossa fauna, flora e dos habitantes do novo mundo. Muitos desses viajantes consideravam as populações nativas atrasadas; interpretavam a resistência ao trabalho disciplinado como preguiça e seu modo de vida como barbárie. Desse modo, no pensamento de alguns eu- ropeus, sua presença na América se justificava, exatamente, pela neces- sidade de disciplinar e conduzir essas populações à civilização, conforme os padrões europeus. O tempo cíclico e irregular das culturas indígenas locais deveria ser substituído pelo tempo linear, abstrato e contabilizável da sociedade capitalista. A construção iconográfica e a narrativa produzida pelos via- jantes constituíram um novo campo de estudo para a histo- riografia como documento e para os professores de História como ferramenta de ensino. As imagens e a literatura dos viajantes são constantemente encontradas em livros didáticos e acadêmicos e podem ser analisados os códigos de vestimentas, da cultura material, do cotidia- no, da etnografia e paisagens de ambientes do período. Entre os cientistas estrangeiros que passaram por aqui e construíram re- ferenciais narrativos e pictóricos sobre o Brasil, podemos citar: o médico sueco Gustavo Beyer, em 1813; o botânico francês August de Saint-Hi- HISTÓRIA DO BRASIL II 33 UNIMES VIRTUAL laire, em 1817; os alemães Johann Baptist Spix e Karl Friedrich Philipp, 1817; o diplomata russo, Barão Georg Heirich von Langsdorff, 1822; entre muitos outros. Um exemplo de uma narrativa de um viajante europeu ex- traído do diário do Barão Langsdorff faz uma análise sobre o interior brasileiro: “Aqui há sempre muitas coisas que ensejam a refle- xão de pensadores, filósofos e não eruditos, patrões e empregados. Estamos às voltas com muitas dificul- dades e despesas, prestes a iniciar uma viagem de pesquisa de grande parte perigosa. Vamos percorrer um caminho nunca antes percorrido. É como se esti- véssemos diante de um véu escuro: vamos abando- nar o mundo civilizado para viver no meio de índios, tigres, onças, tapires, macacos e outros animais”. HISTÓRIA DO BRASIL II38 UNIMES VIRTUAL Aula: 10 Temática: Da categoria de Reino Unido a Portugal ao liberalismo brasileiro Em uma jogada tipicamente política, Dom João elevou o Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves. As- sim, o Brasil deixava de ser uma simples colônia e ganhava status de reino ligado a Portugal. Um dos fatores que influenciaram essa decisão foi a onda de movimentos de emancipação que assolava a Amé- rica Espanhola. A elevação do Brasil a Reino Unido criou as bases de uma certa autonomia administrativa da colônia. Após a derrota de Napoleão, foi realizado o Congresso de Viena. Em 1815, os países vitoriosos, em sua maioria mo- narquias absolutistas, tinham receio de que os movimentos iluministas e liberais se propagassem por seus domínios. Para evitar essa disseminação e manter o controle sobre as fronteiras foi estabelecido um pacto militar entre Rússia, Prússia e Áustria, chamado Santa Aliança. Hou- ve uma vasta reação antinapoleônica em toda a Europa. O Congresso de Viena tinha como objetivo reorganizar o mapa político e territorial europeu, segundo os interesses do absolutismo. Pelo princípio da legitimidade, o poder retornaria aos monarcas depostos pelos revolucionários franceses. Os movimentos liberais propunham a descentralização do poder dos mo- narcas e maior liberdade econômica: Segundo a historiadora Emilia Viotti da Costa, o liberalismo europeu foi originalmente uma ideologia burguesa, vincula- da ao desenvolvimento do capitalismo e à crise do mun- do senhorial. As noções liberais iriam surgir devido às lutas da burguesia contra os abusos da autoridade real, os privilégios do clero e da nobreza, os monopólios que inibiam a produção, a circulação, o comércio e o tra- balho livre. Na luta contra o absolutismo, os liberais defenderam a teoria do contrato social, afirmando a soberania do povo e a supremacia da lei, e propuseram a divisão de poderes, defendendo formas representativas de governo. Para destruir os privilégios corporativos, converteram em direitos universais a liberdade, a igualdade perante a lei e o direito de propriedade. Aos regulamentos que inibiam o comércio e a produção opuseram a liber- dade de comércio e de trabalho. HISTÓRIA DO BRASIL II 39 UNIMES VIRTUAL Segundo o Congresso de Viena, o princípio da legitimidade da coroa por- tuguesa não seria legal, pois o congresso reconheceria apenas Portugal como sede do reino português e não o Brasil. O Brasil era reconhecido apenas como colônia, e, por esse motivo, o congresso legitimaria a monar- quia portuguesa somente diante do retorno do príncipe regente a Lisboa. O impasse foi solucionado após a elevação do Brasil a reino, o que permitia à corte permanecer no Brasil. Essa decisão acarretou conseqüências contro- versas para Dom João, pois, dessa maneira, inibia qualquer emancipação política do país em relação a Portugal, mas, por outro lado, promoveu uma grande insatisfação em Portugal e nos portugueses que viviam no Brasil. Com relação ao liberalismo brasileiro, devemos tomar certo cuidado ao analisar, pois somente pode ser compreendido dentro da lógica e realida- de brasileira. O movimento liberal brasileiro importou os princípios e as fórmulas políticas européias, mas as adaptou às suas realidades. Segundo Emília Viotti, as mesmas palavras podem ter significados diferentes em contextos distintos, ou seja, devemos ir além de uma análise formal do discurso liberal e, dessa maneira, relacionar a retórica à prática liberal, po- dendo, assim, definir a especificidade do liberalismo brasileiro, seria então preciso desconstruir o discurso liberal (COSTA, 1999, p. 132). Os principais adeptos do liberalismo no Brasil foram as pessoas que tinham interessesligados à economia de ex- portação e importação e os grandes proprietários de terras. Por outro lado, esses homens desejavam libertar-se de Portugal para que pudessem realizar o livre comércio com outras nações, mas queriam man- ter certas tradições inabaladas, como a estrutura de produção, sistema escravista, o sistema de clientela etc. Tais valores eram contrários ao libe- ralismo europeu, surgindo então um “liberalismo conservador brasileiro”. HISTÓRIA DO BRASIL II34 UNIMES VIRTUAL Resumo - Unidade I Na primeira unidade procuramos ampliar o debate a respeito do final do período colonial e as transformações e conseqü- ências para o Brasil com relação à chegada da família real. Foram abordadas as temáticas que relacionam a transferência da admi- nistração portuguesa, a política implementada e as revoltas que surgiram na colônia no final do século XVIII e início do XIX. Tivemos como proposta combinar fatores externos que foram decisivos e, muitas vezes, responsá- veis pelos fatos ocorridos no Brasil. Nessa primeira unidade, portanto, você pôde estudar alguns aspectos da transformação da sociedade brasileira, do final do século XVIII. Referências Bibliográficas ALENCASTRO, Luiz Felipe de. História da vida privada no Brasil: Impé- rio. São Paulo: Cia. das Letras, 1997, Vol. II. COSTA, Emilia Viotti da. Da monarquia à república: momentos decisi- vos. São Paulo: Editora Unesp, 1999. FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. Rio de Janeiro: Globo, 1987. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 1995. FRAGOSO, João L. R.; FLORENTINO, Manolo. O arcadismo como projeto: mercado atlântico, sociedade agrária e elite mercantil do Rio de Ja- neiro 1790-1840. Rio de Janeiro: Diadorim, 1993. Link ARAÚJO, Ed Wilson. 200 anos da imprensa no Brasil, 50 anos do Jornal Pequeno. Disponível em: http://www.piratininga.org.br/artigos/2004/01/ araujo-jornalpequeno.html - último acesso em 15/01/2007. HISTÓRIA DO BRASIL II40 UNIMES VIRTUAL Aula: 11 Temática: A Revolução Pernambucana de 1817 A presença da corte no Brasil não assegurou o fim dos atritos entre a colônia e o poder central, pelo contrário, surgiram no- vos acontecimentos que geraram insatisfação, principalmen- te, no Nordeste. O país já não era mais comandado por um príncipe regente, mas por um monarca. Com o falecimento de Dona Maria I, em 1816, o reino de Portugal passou a ser comandado pelo proclamado rei D. João VI. Havia no Brasil um consenso de que a corte portuguesa fa- vorecia os interesses dos portugueses residentes no Brasil, o que gerou muito descontentamento e críticas. Um outro grupo descontente era formado pelos militare,s porque, para compor os exércitos, D. João VI reservou os melhores cargos e patentes para portugueses. Como razão para o descontentamento na colônia, existia também a alta carga tributária que deveria cobrir todos os gastos da corte e as missões militares promovidas pelo monarca na região do Prata. Entre março e maio de 1817 eclodiu no Nordeste uma grande insurreição, com foco principal em Pernambuco, mas com focos também no Ceará, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. Esse movimento, também cha- mado de revolução, durante 74 dias, proclamou o fim do domínio portu- guês naquelas regiões. Entre os integrantes estavam várias camadas da sociedade: militares, proprietários rurais, juízes, artesãos, comerciantes e padres. A população humilde viu no movimento a oportunidade de me- lhorar sua condição de vida. Já os grandes proprietários de terras viam a possibilidade de se libertarem do controle imposto pela coroa portuguesa. Resumidamente, o grande impulsionador do movimento no Nordeste foi o antilusitanismo e o desfavorecimento regional. A região atravessava um momento economicamente difícil com a queda do preço do açúcar e do algodão, além da alta da mão-de-obra escrava. Em Pernambuco, o governador Caetano Pinto de Miranda havia sido de- posto e organizado um governo provisório no Recife. O embasamento in- telectual do movimento veio das idéias liberais, do modelo republicano e dos ideais da Revolução Francesa, porém não tocaram no problema da es- cravidão. Os revoltosos tentaram ganhar apoio junto aos Estados Unidos, Inglaterra e Argentina com o envio de mensageiros. HISTÓRIA DO BRASIL II 41 UNIMES VIRTUAL O monarca Dom João VI agiu rapidamente, organizou um exército e uma esquadra que bloqueou os revoltosos no Recife e em Alagoas. As lutas se desenrolaram mostrando o despreparo e a inferioridade numérica dos insurgentes que resistiram bravamente, ainda que não tenham conseguido vencer as tropas portuguesas. Prontamente, foram feitas prisões e execu- tados os esquartejamentos dos líderes do movimento, que durou pouco mais de dois meses no total. A adesão de várias províncias do Nordeste não foi o suficiente para o sucesso do movimento, houve falta de apoio e participação popular. Além disso, os rebeldes não tinham um preparo militar para enfrentar as tro- pas portuguesas. Muitos dos insurgentes das camadas mais abastadas nordestinas, na verdade queriam manter seus privilégios na região e não montar um governo embasado em um modelo republicano com participa- ção popular. Eles pretendiam continuar usufruindo os direitos e o controle que haviam conquistado ao longo dos anos. D. João VI teve de enfrentar problemas também em Portu- gal, onde vinha crescendo a cada dia o movimento liberal, como veremos na próxima aula. HISTÓRIA DO BRASIL II42 UNIMES VIRTUAL Aula: 12 Temática: Problemas para o novo monarca e o início do movimento de independência Com a decisão de permanecer no Brasil, Dom João VI en- frentou forte pressão de Portugal e dos portugueses que es- tavam por aqui, principalmente, dos adeptos das idéias libe- rais que tinham se espalhado por toda a Europa, a despeito das tentativas de conter essa expansão, por parte das monarquias absolutistas. Devido ao descontentamento com o monarca, em agosto de 1820, estourou em Portugal uma revolução liberal inspirada no iluminismo. O movimento libe- ral vinha ganhando simpatizantes e destaque na metrópole. Da revolução de 1820, participaram vários setores da sociedade, incluindo os militares, que se revoltaram devido à crise política desencadeada pela ausência da corte e dos setores administrativos; os militares não aceita- vam a presença de oficiais ingleses no alto escalão militar. No final de 1820, de posse do poder, os revoltosos tomaram diversas me- didas de cunho liberal. Convocaram uma junta provisória para governar e votaram uma Constituição baseada em princípios liberais. Foi estabelecido um novo critério de representação conforme o número de habitantes, ten- do o Brasil o direito a 70 deputados, num total de 200. Além disso, foram criadas as juntas governamentais que seriam leais à revolução, abrangen- do assim todas as capitanias, chamadas províncias a partir de então. Esse movimento provocou repercussão no Brasil, segundo Boris Fausto: Foram os militares descontentes que iniciaram o mo- vimento de 1820 em Portugal. Foi também entre os militares que ocorreram as primeiras repercussões do movimento no Brasil. As tropas se rebelaram em Be- lém e em Salvador, instituindo aí suas juntas governa- mentais. No Rio de Janeiro, manifestações populares e das tropas portuguesas forçaram o rei a reformular o ministério, a criar juntas onde elas não existiam e a preparar as eleições indiretas para as Cortes. Naquela altura, a principal questão que dividia as opi- niões era o retorno ou não de Dom João VI a Portu- gal. O retorno era defendido no Rio de Janeiro pela “facção portuguesa”, formada por altas patentes mi- litares, burocratas e comerciantes interessados em subordinar o Brasil à Metrópole, se possível de acor-do com os padrões do sistema colonial. Opunha-se a HISTÓRIA DO BRASIL II 43 UNIMES VIRTUAL isso e ao retorno do monarca o “partido brasileiro”, constituído por grandes proprietários rurais das capi- tanias próximas à capital, burocratas e membros do Judiciário nascidos no Brasil. Acrescentem-se a eles portugueses cujos interesses tinham passado a vin- cular-se aos da Colônia: comerciantes ajustados às novas circunstâncias do livre comércio e investido- res em terras e propriedades urbanas, muitas vezes ligados por laços de casamento à gente da Colônia. (FAUSTO, 1995, p. 130, 131) Essa revolução, que acabou gerando o fim do absolutismo português, foi chamada Revolução Liberal do Porto — cidade portuguesa onde teve iní- cio o processo revolucionário. Com o trono ameaçado, Dom João VI retornou a Portugal em abril de 1821, com quatro mil portugueses e com o ouro do Banco do Brasil. No Brasil, em seu lugar deixou seu filho e príncipe regente Dom Pedro. Nas eleições para os representantes do Brasil nas Cortes foram eleitos alguns nomes que figuraram como personagens importantes na história política do país, entre eles : Cipriano Barata, Muniz Tavarez, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e Padre Feijó. Um fato interessante que devemos observar é que Dom João VI retornou para Portugal do mesmo modo que partira em 1807, ou seja, pressionado e obrigado. HISTÓRIA DO BRASIL II44 UNIMES VIRTUAL Aula: 13 Temática: Os fatores que levaram à independência brasileira No decorrer de 1820, vários acontecimentos fortaleceram no Brasil o desejo de rompimento com o domínio português, mas o principal talvez tenha sido a determinação portugue- sa para o retorno imediato do príncipe regente, D. Pedro. A exigência portuguesa desencadeou um movimento políti- co que tinha como objetivo impedir que o príncipe retornas- se para Portugal. A decisão de Dom Pedro de ficar no Brasil foi anunciada no dia nove de janeiro de 1822 — episódio que ficou conhecido como “Dia do Fico”— e representou um caminho sem volta. Os procedimentos e atos após tal atitude selaram definitivamente uma ruptura com os portugueses. Portugal não aceitou passivamente a recusa do príncipe. Tropas portuguesas tenta- ram forçar seu embarque, mas foram detidas. As tropas portuguesas infiéis ao príncipe foram prontamente obrigadas a deixar o Brasil. Esse fato deflagrou a preocupação de formação de um exército brasileiro. Após “o Fico” foi criado um ministério composto por portugueses, mas sob o comando de um brasileiro, o ilustre José Bonifácio de Andrada e Sil- va que, juntamente com seus irmãos, tornou-se personalidade importante no período e no estabelecimento da independência brasileira. José Bonifácio era um defensor de idéias progressistas, com muitos planos no campo social; defendia a gradativa extinção da escravidão, uma reforma agrária moderada e a entrada de imigrantes no Brasil. No âmbito político destacou-se como libe- ral conservador e monarquista convicto, contando com o apoio de parcela da elite dominante brasileira. Em abril de 1822, o príncipe regente decidiu que as ordens que vinham de Portugal só teriam valor se fossem aprovadas por ele — essa decidão ficou conhecida como “cumpra-se”. Em junho do mesmo ano, Dom Pedro HISTÓRIA DO BRASIL II 45 UNIMES VIRTUAL convocou uma Assembléia Nacional Constituinte que teria como finalida- de fazer novas leis para o Brasil. Essa medida provocou um grande abalo nas Cortes, uma vez que representava o rompimento institucional do Brasil com Portugal. Conservadores e radicais Para os conservadores, o Brasil deveria procurar maior autonomia em rela- ção à Portugal, partindo apenas em última instância para um rompimento definitivo ou independência. A forma de governo proposta era a monar- quia constitucional, com representação limitada, para que fosse possível manter a ordem social. Para a ala radical, que incluía os monarquistas e os chamados “extrema- dos”, haveria caminhos diferentes para contornar a crise. Os monarquistas se preocupavam com maiores liberdades, como a liberdade de imprensa, e com maior participação popular. Os extremados partiam do princípio de que a independência se associava à República. Enfim a independência Com a convocação da Constituinte, deu-se o primeiro passo para o processo de rompimento com Portugal. Os governos provinciais foram aconselhados a não mais empregar no serviço público funcionários que viessem de Portugal. A atitude de maior vulto, no entanto, foi a declara- ção de Dom Pedro de que as tropas vindas de Portugal seriam declaradas inimigas no Brasil. O governo português, como última tentativa de pressionar o príncipe re- gente, deu-lhe um ultimato. Em agosto de 1822, enviou uma carta na qual exigia o retorno imediato a Portugal e a anulação da convocação da As- sembléia Nacional Constituinte. Nos mesmos despachos que haviam che- gado de Portugal, acusavam de traição os ministros. Quando esses documentos chegaram, D. Pedro estava em São Paulo — onde tinha ido apaziguar um clima de revolta. Dona Leopoldina e José Bonifácio enviaram, prontamente, mensageiros para alcançá-lo e colocá-lo a par das notícias e imposições portuguesas. No dia 7 de setembro de 1822, D. Pedro foi alcançado em São Paulo às margens do riacho do Ipiranga, onde lhe foram entregues as cartas. Conta- se que o “grito de independência” foi dado logo após a leitura das cartas. HISTÓRIA DO BRASIL II46 UNIMES VIRTUAL Em primeiro de dezembro de 1822, então com vinte e quatro anos, D. Pe- dro foi coroado imperador do Brasil e recebeu o título de D. Pedro I. O Brasil se tornara independente em relação a Portugal, mantendo o regime monárquico, diferentemente dos vizi- nhos sul-americanos que haviam se tornado independentes e optado pelo regime republicano. As diferenças não ficaram apenas na opção do regime de governo. O que causava maior espécie era a manu- tenção de um herdeiro do trono português no comando da nova nação independente. A independência não alterou significativamente a vida da população humil- de, ao menos no primeiro momento. A independência não trouxe a moder- nização que se esperava, especialmente porque foi mantida a instituição responsável, em grande parte, pelo atraso do Brasil e pela dificuldade de construir uma nação moderna. HISTÓRIA DO BRASIL II 47 UNIMES VIRTUAL Aula: 14 Temática: A consolidação da Independência e o início do Primeiro Reinado O primeiro grande problema do novo governo foi constituir um exército nacional. O número do efetivo existente era muito baixo e o exército desorganizado, portanto, desprepa- rado para enfrentar as tropas portuguesas. Uma das soluções encontradas foi a contratação de mercenários na Europa com o objetivo de organizar um novo exército brasileiro capaz de enfrentar as guerras de independên- cia. O oficial francês, Pedro Labatut, foi nomeado por Dom Pedro I para organizar as tropas brasileiras. Antes mesmo da Independência, Labatut exercera um papel na organização das tropas e nos combates às tropas portuguesas que estavam no país desde 1808. As regiões em que aconteceram os principais combates fo- ram o Sul e o Nordeste. No Sul, na região da Província da Cisplatina, houve confrontos com tropas portuguesas, que acabaram sendo expulsas em novembro de 1823. Na Bahia, ocorreram os maiores combates e, conseqüentemente, o maior número de mortos. A vitória das tropas nacionais contou com a ajuda de milícias formadas por grandes proprietários de terras. Os portugueses fo- ram expulsos em 2 de julho de 1823. Os pesquisadores acreditam que a maior proximidade, inclusive cultural, do Nordeste com Portugal, poderia explicar a concentração da resistência nessa região. Entretanto,devemos nos lembrar de que houve combates também no Maranhão e no Pará, na região Norte. O reconhecimento no plano internacional Os Estados Unidos foram a primeira nação a reconhecer a independência brasileira, em maio de 1824. A Inglaterra adotou o reconhecimento logo de- pois, obviamente, por ter vários interesses econômicos no Brasil, já que o novo país era o seu terceiro mercado externo. Segundo alguns historiadores, a Inglaterra demorou a reconhecer a independência brasileira, porque tenta- va pressionar o governo brasileiro quanto à extinção do tráfico negreiro. HISTÓRIA DO BRASIL II48 UNIMES VIRTUAL O reconhecimento português ocorreu em agosto de 1825 com o intermédio da Inglaterra, que propôs um acordo segundo o qual, em troca do reconhe- cimento, o Brasil pagaria a Portugal uma indenização, ou seja, ressarciria a antiga Metrópole em dois milhões de libras. Esse acordo é considerado a primeira dívida externa brasileira, já que o montante da indenização foi financiado junto a bancários ingleses. A Inglaterra faria também as suas exigências, entre elas, a da renovação de tratados assinados por Dom João VI em 1810. Tais tratados, como vimos, beneficiavam os produtos ingleses. Com o consentimento brasileiro a Inglaterra continuou a se be- neficiar de vários privilégios comerciais. No plano internacional, o Brasil superou a subordinação política de Portugal, mas continuou subordinado economicamente aos ingleses. Com o reconhecimento internacional resolvido, era a hora de resolver os problemas internos, ou seja, colocar em or- dem o plano de organizar um novo país. Era preciso criar instrumentos constitucionais para dar legitimidade para o novo governo. Em maio de 1823, a Assembléia Constituinte se reuniu no Rio de Janeiro — capital do Império — com a proposta de redigir a primeira Constituição brasileira. O sistema eleitoral e a elaboração da Constituição serão o tema das aulas seguintes. HISTÓRIA DO BRASIL II 49 UNIMES VIRTUAL Aula: 15 Temática: A nova Constituinte As eleições para a Assembléia Constituinte estavam sendo preparadas antes mesmo da proclamação da independên- cia. Em maio de 1823, Dom Pedro abriu a sessão da câmara usando uma frase do monarca francês Luís XVIII: a constituição deveria ser digna dele e do Brasil. Com essa frase D. Pedro revelaria suas predis- posições autoritárias. Os deputados eram de diferentes regiões do Brasil e repre- sentavam diferentes grupos da sociedade brasileira, com interesses também distintos. A assembléia foi formada por fazendeiros, ricos comerciantes e membros da classe média. Os debates giravam em torno de três tendências ou correntes: Liberais moderados: ligada aos grandes proprietários de terras e aos ricos comerciantes, não viam com bons olhos a participação popular, mas defen- diam uma certa modernização e a manutenção da monarquia centralizada. Liberais radicais: também chamados “liberais exaltados” ligados princi- palmente às classes médias urbanas — pequenos comerciantes, jornalis- tas, funcionários públicos e profissionais liberais — pregavam uma maior participação da população, e, sobretudo, defendiam a federação, chegan- do a cogitar o regime republicano. Partido português: esse grupo representava os interesses dos ricos co- merciantes portugueses que tinham negócios no Brasil. Muitos deles se sentiram prejudicados com a independência, principalmente com a con- corrência com os produtos ingleses que, cada vez mais, ganhavam espa- ço. Entre seus interesses estava a recolonização do Brasil. As relações entre o imperador e a Assembléia foram tumultuadas. Os li- berais concordavam em pelo menos um ponto: na diminuição do poder do imperador. A oposição concentrava-se no Partido Brasileiro e, para dimi- nuí-la, D. Pedro costumava adotar a política de oferecimento de cargos no governo. Entretanto, essa estratégia não conseguiu amenizar as críticas da oposição e os conflitos se acirraram. HISTÓRIA DO BRASIL II50 UNIMES VIRTUAL Juntos, os moderados e os radicais tinham um maior número de votos contra o imperador e esse número representava uma limitação para suas tendências absolutistas. Então, no dia 12 de novembro de 1823, o impera- dor mandou os militares cercarem a Assembléia e prender vários deputa- dos — inlcuindo os três Andradas. Por ordem de D. Pedro I, a Assembléia Constituinte foi dissolvida de maneira arbitrária. Leia a seguir uma análise de Raimundo Faoro sobre as rela- ções de poder nessa fase do Império: A assembléia constituinte não conseguiu estruturar a ordem política, de modo a conciliar, organicamente, o imperador ao país. O soberano, segundo o modelo tradicional de Avis e Bragança, queria ser o Estado, defensor de seus interesses e sentimentos, sem a intermediação de órgãos representativos. Os povos fazem o rei, mas não podem limitar-lhe o poder ou cassá-lo, porque, segundo a doutrina que sustentou a ascensão de D. João IV, “a lei da verdadeira jus- tiça ensina que os pactos legítimos devem guardar e que as doações absolutas valiosas não se podem revogar”. A teoria liberal, de outro lado, fundada no mesmo dogma, não admite a irrevogabilidade do pac- to, nem o incondicionalismo da outorga de poder. Os constituintes, consciente ou inconscientemente, reza- vam todos por iguais letras: entre o rei e a nação não havia duas peças pertencentes ao mesmo corpo, que cumpria ajustar, soldar, fundir. O soberano e o país eram realidades diversas e separadas, cujo encontro se daria pela adesão ou pelo contrato, desconfiadas as partes da conduta de uma e outra, tendente o im- perador ao despotismo e os representantes da nação à anarquia. (FAORO, 2000, p. 326) HISTÓRIA DO BRASIL II 51 UNIMES VIRTUAL Aula: 16 Temática: Constituição de 1824 Após a dissolução da Assembléia Constituinte, o imperador promulgou uma Constituição em 25 de março de 1824. A sua proposta apresentava semelhanças em relação ao pro- jeto apresentado pelos deputados. A Constituição foi imposta pelo monar- ca em uma clara demonstração de força: Antes de entrar no exame da Constituição, dois pon- tos devem ser ressaltados. Um contingente ponde- rável da população – os escravos – estava excluído de seus dispositivos. Deles não se cogita, a não ser obliquamente, quando se fala de libertos. O outro pon- to se refere à distância entre os princípios e a prática. A Constituição representava um avanço, ao organizar os poderes, definir atribuições, garantir direitos indi- viduais. O problema é que, sobretudo no campo dos direitos, sua aplicação seria muito relativa. Aos direi- tos se sobrepunha a realidade de um país onde mes- mo a massa da população livre dependia dos grandes proprietários rurais, onde só um pequeno grupo tinha instrução e onde existia uma tradição autoritária. (FAUSTO, 1995 p. 149) Pela Constituição de 1824, o governo foi definido como monárquico, here- ditário e constitucional e afirmava que “o Império é a associação política a todos os cidadãos brasileiros”. A religião católica foi definida como a religião oficial do Império. Entretanto, a marca mais característica da Constituição de 1824 foi a insti- tuição do Poder moderador, um quarto poder, ao lado do Executivo, Legislati- vo e Judiciário. Este quarto poder era exclusivo do monarca e, por seu inter- médio, o imperador controlava a organização política do Império do Brasil. Diferentemente das constituições liberais que tendiam a diminuir o poder dos monarcas, a primeira Constituição brasileira fez o contrário. A divisão dos três poderes foi criada justamente para descentralizar o poder. Relações de poder na nova Constituição O poder legislativo foi separado em Câmara e Senado. A eleição para as duas casas ocorria de forma diferenciada. Na Câmara a eleição dos repre- HISTÓRIA DO BRASIL II52UNIMES VIRTUAL sentantes era para um mandato temporário; no caso do Senado o man- dato era vitalício. A escolha dos senadores era feita da seguinte forma: confeccionava-se uma lista com os três nomes mais votados da província para que o imperador escolhesse um deles para o cargo. Desse modo, o imperador tinha o poder de moldar o Senado, minimizando a atuação dos rivais políticos. O poder Judiciário pela Constituição de 1824 permitia que houvesse inter- ferência direta do imperador, pois cabia a ele a escolha dos magistrados mais importantes. Com relação ao voto, era censitário e indireto. Indireto porque os eleitores escolhiam um corpo eleitoral em eleições primá- rias; o corpo eleitoral elegia os deputados. Era censitário, por- que o direito de voto estava vinculado a algumas exigências legais: A eleição para a Câmara de Deputados se processava da seguinte forma. Nas eleições primárias, votavam os cidadãos brasileiros, inclusive os escravos liber- tos, mas não podia votar, entre outros, os menores de 25 anos, os criados de servir, os que não tivessem renda anual de pelo menos de 100mil-réis provenien- tes de bens de raiz (imóveis), indústria, comércio ou emprego. Os votantes, tivessem renda de, no mínimo, 200 mil-réis anuais e não fossem escravos libertos. Os escolhidos nessas eleições primárias formavam o corpo eleitoral que elegeria os deputados. Os esco- lhidos nessas eleições primárias formavam o corpo eleitoral que elegeria os deputados. Para ser candida- to nessa segunda etapa, as exigências aumentavam: além dos requisitos anteriores era necessário ser católico e ter uma renda mínima anual de 400 mil- réis. Não havia referência expressa às mulheres, mas elas estavam excluídas desses direitos políticos pelas normas sociais. Curiosamente, até 1882 era praxe ad- mitir o voto de grande número de analfabetos, tendo em vista o silêncio da Constituição a esse respeito. (FAUSTO, 1995, p. 151) Os presidentes das províncias e os ministros também eram escolhidos por D. Pedro I. Foi instituído um Conselho de Estado, que era composto por conselheiros vitalícios nomeados pelo imperador, com idade mínima de quarenta anos e uma renda mensal de no mínimo 800 mil-réis. A idéia de Poder Moderador teria sido baseada numa pro- posta do filósofo liberal Benjamin Constant, que pregava a criação de um quarto poder do Estado. O “poder modera- HISTÓRIA DO BRASIL II 53 UNIMES VIRTUAL dor”, segundo o filósofo, garantiria estabilidade aos outros três (Executivo, Legislativo e Judiciário). No caso da monarquia, haveria a separação com o Poder Executivo, que seria exercido por um conjunto de ministros. O mo- narca agiria apenas em disputas mais sérias entre os poderes, nesse caso, em nome do interesse nacional. Como vimos, não foi isso que ocorreu no império brasileiro. D. Pedro I assegurou a ele todos os poderes administra- tivos, agindo de forma deliberada e centralizadora. HISTÓRIA DO BRASIL II54 UNIMES VIRTUAL Aula: 17 Temática: A Confederação do Equador A primeira reação de grande vulto após as atitudes autoritá- rias do imperador veio, mais uma vez, da região Nordeste. Nos primeiros séculos da colonização brasileira, Pernambu- co era a mais rica das capitanias, com uma grande produção açucareira que fez a fortuna de muitos senhores de engenho. O declínio se deu, a partir do século XVIII, com o aumento da concorrência internacional. O problema trouxe perdas consideráveis a vários produtores que esperavam o apoio do governo central. A falta desse apoio deu origem a grandes res- sentimentos dos pernambucanos em relação ao governo imperial. A província de Pernambuco ainda não se recuperara dos acontecimentos que seguiram a rebelião de 1817, quando o imperador decretou a dissolução da Assembléia Constituin- te. As atitudes do imperador fomentaram um novo levante contra as idéias centralizadoras do novo monarca. As idéias republicanas permaneciam no ar, assim como antilusitanismo. Essas idéias tinham o apoio de Cipriano Barata — que retornara da Europa. O imperador, por sua vez, ganhara muitos desafetos, como os irmãos An- drada, que haviam sido companheiros do imperador e, a partir das medi- das intempestivas do monarca, passaram a fazer-lhe dura oposição. Nessa época, a imprensa já adquirira certa importância e tornou-se palco de toda essa disputa política. Um dos principais opositores ao império, e com grande aceitação popular, foi o frei Joaquim da Silva Rabelo, tam- bém conhecido como frei Joaquim do Amor Divino e mais tarde como frei Caneca. Ele havia tido um papel de destaque na revolta pernambucana de 1817. Frei Caneca teve uma infância humilde. Rece- beu educação no Seminário de Olinda, onde teve contato com as idéias iluministas e liberais. Tornou-se um homem de grande respeito na região. O jornal dirigido por ele — Tifis Pernambucano — era um dos principais veículos de oposição ao governo. O estopim da crise em Pernambuco aconteceu com a no- meação de um novo presidente da província fiel a D. Pedro I. Diante dessa medida arbitrária do imperador, Olinda e Re- cife se rebelaram. A Confederação do Equador foi proclamada em dois de HISTÓRIA DO BRASIL II 55 UNIMES VIRTUAL junho de 1824, por Manuel de Carvalho. Carvalho chegou a buscar a ajuda norte-americana, pedindo que fosse mandada uma frota ao porto do Recife contra a presença de navios ingleses e franceses. A Confederação do Equador tinha como proposta transformar em repúbli- cas federativas Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Pará. A revolta teve o apoio da população. D. Pedro I organizou a reação contra os revoltosos. Os com- bates duraram cerca de três meses, com violentos comba- tes em várias cidades. Mais uma vez as tropas do governo foram mais eficientes militarmente do que a dos revoltosos. A Confedera- ção foi derrotada em todas as províncias do Nordeste, mas foi derrotada, definitivamente, no mês de novembro de 1824. Os revoltosos foram punidos severamente. Um tribunal escolhido pelo imperador condenou várias pessoas à morte, entre elas, Frei Caneca que, apesar de inúmeros apelos, não obteve a clemência do imperador. Frei Ca- neca não foi enforcado porque o carrasco se recusou. Foi, então, fuzilado por um pelotão, logo depois de ser excomungado. Essa Confederação foi um movimento importante, que marcou profundamente o Primeiro Império, e trouxe conseqüências e descontentamentos que levaram à abdicação do imperador. HISTÓRIA DO BRASIL II56 UNIMES VIRTUAL Aula: 18 Temática: A derrocada de D. Pedro I Como se justifica a relação de amor e ódio existente entre D. Pedro I e as diferentes camadas da população brasileira no século XIX? Em 1824 ele foi aclamado herói nacional. Após sete anos, em 1831, saiu de cena pressionado e com a figura abalada, forçado a renunciar, em favor do filho, e retornar a Portugal. Analisaremos os vários motivos que levaram à ascensão e queda do imperador. Como vimos, o absolutismo do imperador angariou muitos inimigos e levou ao descontentamento várias camadas da so- ciedade. Além dos problemas internos, sua política externa foi questionada e tornou-se alvo de severas críticas, no campo político-social. O problema teve início com sua atuação na rebelião da Cisplatina — hoje território uruguaio — anexada ao Império em 1821 por Dom João VI. A rebelião tinha como objetivo a independência da região que pretendia ligar- se às Províncias Unidas do Rio da Prata, hoje território argentino. O imperador declarou guerra à Cisplatina em 1825. O conflito durou dois anos e foi um desastre militar para os brasileiros, o que acarretou numa catástrofe financeira para o país. A paz chegou com a intermediação da Inglaterra, que tinha interesses econômicos nas duas regiões. Com o fim do confronto e a separaçãoda região do Brasil, surgiu o Uruguai. A guerra foi um desastre para a reputação do imperador e aumentou o descontentamento da população como o modo de arregimentar soldados. Desde antes da emancipação, as tropas eram formadas arregimentando-se pessoas à força, especialmente os humildes e os escravos. Foram contratadas tropas estrangeiras tam- bém formadas, em sua maioria, por europeus pobres que buscavam, des- se modo, um meio de melhorar de vida (FAUSTO, 1995, p. 155). Economia Como se não bastassem a guerra e as rebeliões internas, a economia bra- sileira seguia de mal a pior. Desde 1820 não vinha passando por uma boa HISTÓRIA DO BRASIL II 57 UNIMES VIRTUAL fase. O Brasil foi obrigado a fazer ainda mais empréstimos, junto à Inglater- ra, a juros muito altos. Pressionado pelos britânicos, o governo brasileiro se comprometeu, em 1827, a acabar com o tráfico negreiro em um prazo de três anos. Esse fato gerou descontentamento geral, principalmente en- tre os fazendeiros, que não viam possibilidades de se manterem sem o sistema escravocrata. Um segundo problema surgiu em relação ao Banco do Brasil, que passava por grandes dificuldades desde 1821 e abriu falência em 1829, acarretan- do grande desvalorização da moeda brasileira. Em conseqüência disso, os preços dos produtos e alimentos dispararam, o que aumentou o des- contentamento da população em relação ao imperador. A crise aumentou também o atrito entre portugueses e brasileiros. Isto ocasionou vários choques entre eles, já que grande parte do comércio era controlado por comerciantes portugueses que apoiavam o imperador. No exército havia a suspeita de que o imperador poderia tentar reconstruir o antigo Reino Unido, o que colocaria o Brasil sob o domínio português. Estimulava essas suspeitas o fato de D. Pedro I ter se tornado herdeiro do trono português, após a morte de D. João VI, ainda que ele tivesse renun- ciado a esse direito em favor de sua filha Maria. Além disso, as sucessivas campanhas desastrosas faziam com que os militares se afastassem, cada vez mais, do imperador. No ano de 1830, a queda do monarca francês Carlos X, considerado abso- lutista e anticonstitucionalista, provocou comemorações em várias regi- ões do Brasil. Em São Paulo, os estudantes do curso jurídico organizaram manifestações com luminárias e bandas de música. Os estudantes foram processados. O jornal Observador Constitucional, dirigido pelo jornalista italiano Libero Badaró, deflagrou uma campanha em defesa dos estudan- tes. Em 20 de novembro, o jornalista foi assassinado. As suspeitas recaí- ram sobre D. Pedro, que já estava com a imagem desgastada. No dia 11 de março, de 1831, D. Pedro I retornou ao Rio de Janeiro e en- frentou a oposição nas ruas. O conflito culminou, no dia 13, com o ataque de um grupo mais exaltado contra casas de portugueses. Estes responde- ram jogando garrafas, num episódio que ficou conhecido como a “Noite das Garrafadas”. Após um manifesto redigido por vinte e três deputados e pelo senador Vergueiro, o imperador pressionado nomeou, em 19 de março, um novo ministério formado por políticos mais sim- páticos aos seus opositores. Entretanto, a oposição não cessou. No dia 25 de março, comparecendo à cerimônia de comemoração do sétimo aniversá- rio da Constituição Imperial, D. Pedro I ouviu gritos de “Viva D. Pedro II”. HISTÓRIA DO BRASIL II58 UNIMES VIRTUAL Após novas manifestações de protesto, sem apoio e pressionado pelos comandantes militares que aderiram às manifestações de descontenta- mento, D. Pedro foi forçado a abdicar ao trono, em 7 de abril de 1831, em favor de seu filho Pedro, com apenas cinco anos de idade. José Bonifácio foi nomeado seu tutor. Após a abdicação, D. Pedro I partiu primeiramente para a In- glaterra e, posteriormente, para Portugal a fim de recuperar o trono português usurpado de sua filha, Maria II, pelo seu irmão D. Miguel. HISTÓRIA DO BRASIL II64 UNIMES VIRTUAL Aula: 19 Temática: Sistema Escravocrata No modo como foi organizada a expansão cafeeira do sé- culo XIX, o sistema escravocrata continuou tendo um papel essencial. Nas lavouras que se formaram no Vale do Paraíba e no Oeste de São Paulo os escravos continuaram sendo a principal força de trabalho. Além do trabalho árduo nas lavouras, a vida dos escravos nas fazendas de café era envolvida em uma série de res- trições: eram proibidos de realizar ritos religiosos — que, segundo a Igreja, eram considerados pagãos — eram proibidos de falar as línguas africanas e não podiam expressar sua cultura. As maiores pressões para o fim da escravidão no país vieram de fora do país, principalmente da Inglaterra. Vejamos o porquê dessa atitude: É comum ligar-se essa tendência ao interesse britâ- nico em ampliar mercados consumidores, a partir da vantagem obtida sobre os concorrentes com a Revo- lução Industrial. Entretanto, essa afirmação contém apenas uma parte da verdade. A ofensiva antiescra- vista decorre também dos novos movimentos nasci- dos nos países mais avançados da Europa, sob a in- fluência do pensamento ilustrado e mesmo religioso, como é o caso da Inglaterra. Acrescente-se a isso, no caso francês, a insurreição de negros libertos e escravos nas Antilhas. Em fevereiro de 1794, a Fran- ça revolucionária decretou o fim da escravidão em suas colônias: a Inglaterra faria o mesmo em 1807. Lembremos, porém, quanto à França, que Napoleão revogou a medida em 1802. (FAUSTO, 1995, p. 109) A pressão inglesa Em 1827, o Brasil e a Inglaterra assinaram um tratado, segundo o qual, após três anos de sua ratificação, seria declarado ilegal o tráfico de negros para o Brasil. Por esse tratado, a Inglaterra adquiria o direito de abordar e revistar navios suspeitos em pleno mar. Em 1831, uma lei previa aplicação de penas severas aos traficantes e de- clarava livres os escravos que entrassem no Brasil a partir daquela data. HISTÓRIA DO BRASIL II 65 UNIMES VIRTUAL Essa lei foi aceita em um momento em que havia uma certa queda no fluxo de cativos, porém, assim que o fluxo começou a aumentar, ela deixou de ser aplicada. Para isso, colaboravam as relações existentes entre os pro- prietários de terras e de escravos e os juízes locais. Naquele momento, os proprietários não enxergavam uma alternativa vi- ável para substituir a mão-de-obra escrava. O aumento dos preços dos escravos já não fazia da escravidão uma alternativa vantajosa. Entretan- to, a relativa ausência de rebeliões massivas e generalizadas de escravos mantinha a acomodação do sistema. Todavia, não se deve entender que não houve rebeliões de escravos durante o período colonial ou durante o império. Além dos quilombos, dos quais o mais conhecido é o Palmares, podemos ver alguns outros movimentos organizados. Revolta dos Malês A província da Bahia foi marcada por uma série de movimentos de escra- vos. Em 1835, houve uma revolta de centenas de escravos libertos que eram adeptos da religião muçulmana, conhecidos como malês. A rebelião foi marcada pela violência, acarretando a morte de pelo menos setenta participantes. Quinhentos africanos foram vítimas de repressão por parte do governo, incluindo pena de morte para alguns, prisão e chibatadas. A rebelião teria acontecido devido à imposição da religião católica e por causa da escravidão. O conceito de “jihad” é igualmente fundamental nesta discussão. Ao contrário de Arthur Ramos, João José dos Reis não compartilha das teorias “jihadistas” que afirmam que os malês organizaram sua rebelião com o propósito de repetir uma “guerra santa” na Bahia, lu- tando indiscriminadamente contra africanos, brancos e crioulos “pagãos”. Como afirma João José dos Reis, a presença de escravos não-islamizados na luta demons- tra que esta intenção não existia e que o objetivo maior era a luta pelaliberdade. (MOREIRA, 2007) Após 1835 não ocorreram mais revoltas desse tipo. Por exemplo, no Rio de Janeiro, onde os escravos eram 40% da população, não houve conflito desse tipo. Os conflitos entre escravos e proprietários no Brasil tinham uma outra natureza. Seria interessante realizar uma pesquisa sobre isso. HISTÓRIA DO BRASIL II 59 UNIMES VIRTUAL Resumo - Unidade II Nessa unidade você estudou os principais fatos envolvidos no processo da nossa independência política, alguns confli- tos que revelaram a face autoritária de D.Pedro I e, poste- riormente, os conflitos que levaram à abdicação do imperador em favor do seu filho. Os episódios que envolveram D. Pedro I revelam os movimentos contra- ditórios de um monarca dividido entre a tradição absolutista e as idéias liberais. Revelam também o processo não linear de constituição de um Estado-nação. Referências Bibliográficas ABREU, Martha Campos. O império do divino. São Paulo: Nova Fronteira, 1999. ALENCASTRO, Luiz Felipe de. História da vida privada no Brasil: Impé- rio. São Paulo: Cia das Letras, 1997, Vol. II. COSTA, Emilia Viotti da. Da monarquia à república: momentos decisi- vos. São Paulo: Editora Unesp, 1999. COSTA, Emilia Viotti da. Da senzala à colônia. São Paulo: Ciências Hu- manas, 1982. FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. Rio de Janeiro: Globo, 1987. FRAGOSO, João L. R.; FLORENTINO, Manolo. O arcadismo como proje- to: mercado atlântico, sociedade agrária e elite mercantil do Rio de Janeiro 1790-1840. Rio de Janeiro: Diadorim, 1993. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 1995. LINHARES, Maria Y. (org.). História geral do Brasil. Rio de Janeiro: Cam- pus, 1990. HISTÓRIA DO BRASIL II60 UNIMES VIRTUAL MACHADO, Maria H. O plano e o pânico: os movimentos sociais na década da abolição. Rio de Janeiro/São Paulo: UFRJ/EDUSP, 1994. MATTOS, Ilmar R. O tempo saquarema. São Paulo/Brasília: HUCITEC/INL, 1987. HISTÓRIA DO BRASIL II66 UNIMES VIRTUAL Aula: 20 Temática: Os escravos na corte Em 1850, 38% da população do Rio de Janeiro era negra. Era a maior população escrava urbana das Américas. Em uma data em que o tráfico estava legalmente proibido, 1849, um censo demonstrava que a cada três habitantes do Rio de Janeiro um havia nascido na África. Viveriam na corte, aproximadamente, 74 mil africanos. Nos portos do Rio de Janeiro no período de vinte e cinco anos, entre 1825 e 1850, chegaram cerca de 250 mil escravos no Brasil. Outros municípios e cidades brasileiras e americanas tinham proporções maiores de cativos. Uma das mais fortes deve ter sido a registrada defronte à corte, em Niterói, onde, em 1833, quatro quintos da população eram escravos. Ou em Campos, ainda na província flu- minense, povoada em 1840 por 58 mil habitantes, dos quais 59% eram escravos. Salvador também possuía uma importante população africana livre ou cativa. No entanto, a capital baiana tinha menor porte, cerca de 81 mil habitantes em 1855, reunia menos europeus e não concentrava – como a corte – os atributos po- líticos e culturais que acentuavam os contrastes da escravidão urbana no Rio de Janeiro. (ALENCASTRO, 1997, p. 27) Em 1850, O Brasil se tornou o único país a praticar o tráfico negreiro por meio da pirataria, já que o tráfico estava proibido pelas leis internacionais e pelas próprias leis brasileiras. O escravo no cotidiano da cidade O escravo era presença constante nas grandes cidades, pois exerciam diversos trabalhos na vida da cidade. Cumpriam diversas funções: vende- dores ambulantes, amas de leite, trabalhavam no comércio, nos serviços e nas casas. As mulheres brancas saíam pouco às ruas, portanto, os es- cravos eram enviados para todos os tipos de atividades: fazer compras no mercado, enviar recados etc. Existiam os escravos chamados pejorativa- mente de “tigres”, que eram obrigados a carregar os dejetos domésticos para serem lançados ao mar. Havia também os vendedores de ervas que, HISTÓRIA DO BRASIL II 67 UNIMES VIRTUAL com sua experiência e conhecimento natural, tinham remédios para diver- sos males. O escravo não era peça exclusiva dos grandes senhores e ricos comercian- tes. Havia casos de cidadãos apenas remediados — pequenos proprietá- rios ou comerciantes — que compravam um escravo exclusivamente para que pudesse trabalhar em seu lugar ou ajudá-lo em seu ofício. Em algumas casos, o cativo era alugado para ser utilizado por uma outra pessoa em troca de dinheiro. Sem falar do escravos de ganho, que ganhavam dinheiro com o exercício de alguma profissão ou habilidade e pagavam os seus donos. Desse modo, muitos escravos conseguiram economizar e comprar a sua carta de alforria. Nas ruas do Rio de Janeiro, muitos negros livres usavam calçados para não serem confundidos com os escravos, cuja distinção se dava por meio dos pés descalços. Por mais bem vestidos que estivessem, os escravos eram obrigados a andar descalços para demonstrar sua posição. Em muitos casos, os escravos fugidos, nas cidades usavam calçados para enganar as autoridades, fazen- do-se passar por libertos. Os registros de viajantes constituem excelente fonte de es- tudos da vida cotidiana nas cidades do Império, incluindo a presença negra. Entre os viajantes podemos citar Debret, Spix e Martius e Rugendas. . Por meio das imagens, podemos observar a situação social dos negros, os trabalhos para os quais eram empregados, os castigos corporais, as expressões culturais etc. O fascínio dos viajantes se justificava, era uma forma de retratar o novo e o exótico para o olhar europeu. Imagens como essas eram muito apreciadas na Europa. http://www.studium.iar.unicamp.br/nove/6.html?studium=index.html A situação dos cativos ou libertos, a partir da segunda metade do século, pode ser analisada também por meio das fotografias. Na maioria das ve- zes, os escravos eram retratados bem vestidos e em poses distintas, tudo direcionado pelo olhar do profissional. Isso pode se explicar da seguinte HISTÓRIA DO BRASIL II68 UNIMES VIRTUAL maneira: muitos senhores de gostavam de se fotografar, com seus cativos, para presentear amigos e familiares, fazendo uma demonstração de status e poder. Eram produzidos também cartões postais com as fotografias. Tais cartões eram bem consumidos na Europa. Expressões culturais Como vimos, os cativos eram proibidos de expressar sua cultura nas fa- zendas. Não era diferente nos centros urbanos. Todavia, apesar das proi- bições, os escravos conseguiram ludibriar a vigilância constante e manter viva sua cultura, religião e tradição. Na religiosidade encontramos um bom exemplo. Muitos cativos não aceitaram a imposição da religião católica de forma passiva, utilizavam outros recursos para manter suas crenças. Algumas religiões de origem africana faziam ligações com a religião cris- tã, passando a adorar os santos cristãos com outros nomes. Os negros faziam, assim, uma espécie de adaptação para que pudessem continuar com sua crença e religiosidade, uma espécie de resistência à opressão. A resistência, ou a simples permanência dos valores culturais africanos na cultura católica dominante, resultou num sincretismo religioso que pode ser visto, principalmente, na Bahia nos dias de hoje. As manifestações culturais dos negros eram vistas como algo pernicioso e selvagem pelas elites locais e, por isso, eram combatidas e proibidas. Nas cidades, principalmente no Rio de Janeiro, havia reclamações constantes acerca dos cânticos e danças dos escravos no dia-a-dia da cidade. Alen- castro fez observações interessantes sobre isso: Não se tratava de um problema rítmico, ou mesmo instrumental: a músi- ca e as danças afro-brasileiras apresentam-se como resultantes de uma prática social, de uma cadênciasonora que compassava os trabalhos, os serões, o transporte de gente e de carga, o refluxo do choro, a sublima- ção da dor, o tédio da espera ao abrigo da chuva, o embalo dos bebês, a viagem para o Além. A onipresença dos ritmos afro-brasileiros deriva da onipresença da escravidão afro-brasileira (ALENCASTRO, op. cit. p. 45). Apesar disso, traços da fala negra — incluindo palavras, superstições e expressões — foram incorporados à fala branca e se mantiveram vivos. Se pensarmos um pouco, poderemos perceber que, apesar de toda a repressão, a cultura negra so- breviveu e sobrevive nos dias de hoje, influenciando na construção da cul- tura brasileira. Seus ritmos, instrumentos, músicas, expressões, estética etc. estão incorporados na “alma nacional”. HISTÓRIA DO BRASIL II 69 UNIMES VIRTUAL Aula: 21 Temática: Entre a opressão e a violência A libertação dos escravos foi a mais ampla e profunda trans- formação social do continente americano no século XIX. Apesar de tardia, a Lei Áurea no Brasil significou o fim de um período de opressão e violência de um ser humano em relação a outro. Entretanto, a abolição da escravidão conduziu os negros a uma espécie de ostracismo social. Vamos estudar as relações de domínio impostas aos cativos brasileiros e suas formas de resistência. Segundo Hebe Matos de Castro, a relação de poder privado do senhor sobre seus escravos definia, essencialmente, a ordem escravista brasileira. Por meio de dispositivos práti- cos e legais, a sociedade imperial procurou acondicionar o seguimento da escravidão, usando para isso a existência legal do domínio privado de um ser humano sobre outro. A continuidade da escravidão durante o período imperial foi justificada pelo direito positivo, ou seja, o direito de proprieda- de dos proprietários sobre seus escravos, descritos juridicamente como simples mercadoria. Para os escravos, viver na América representava uma experiência dolorosa de ressocialização em condições muito adversas. Contudo, tais condições permitiram a aproximação e a construção de uma identidade africana que seria improvável na África, pois exigia a união de tribos totalmente distintas. Observe como funcionava o mecanismo de controle dos senhores sobre os seus escravos: O segredo do código paternalista de domínio escravista estava no poder senhorial de transformar em conces- são qualquer ampliação do espaço de autonomia no cativeiro. A violência era ainda parte integrante desse sistema, mas passava a responder a certas regras ou expectativas, que acabavam por legitimá-la perante os próprios escravos. Até mesmo a compra da alforria pelo cativo podia ser lida como concessão senhorial – desde a doação do tempo e das condições para for- mar o pecúlio e a concessão do reconhecimento da- quela propriedade até a concordância com a alforria mediante indenização. A família escrava também era concessão senhorial (CASTRO, 1997, p. 354) HISTÓRIA DO BRASIL II70 UNIMES VIRTUAL A forma mais utilizada para o controle social dos escravos foi o uso da violência de modo recorrente, a fim de que os negros aceitassem sua condição de vida e incorporassem a obediência servil ao senhor e não confabulassem revoltas. Porém, existiam outras formas de condicionar o cativo. A classe senhorial não utilizava ape- nas a prepotência e as ações arbitrárias na lida com os escravos; usavam também a artimanha e o favor como instrumentos para atar os escravos na armadilha de seus anseios. Muitos senhores estimulavam a formação de laços de parentescos entre os cativos ou instituíam um sistema diferenciado de incentivos – com o objetivo de tornar os cativos dependentes e reféns de suas próprias soli- dariedades e projetos domésticos. (SLENES, 1997, p. 237) Os documentos da época, bem como alguns estudiosos falam em “senhores bons” ou em “cativeiro justo”, mas, segundo Slenes, o emprego desses termos representa o re- conhecimento e a legitimidade da sociedade escravocrata. Ou seja, essa visão leva em conta as condições do funcionamento e não o direito de propriedade de seres humanos para seres humanos. Após a abolição, alguns senhores procuraram incentivar a permanência dos antigos cativos em suas propriedades, apelando para a gratidão e contando com a força dos laços de família e vizinhança construídos pelos cativos nos tempos de escravidão. Mas foram poucas as fazendas que continuaram com o mesmo grupo de ex-escravos. A maior parte dos liber- tos preferiu tentar novas atividades e grande parte dos senhores, especial- mente em São Paulo, preferiu o trabalho dos imigrantes. No Brasil, diferentemente de outras regiões da América, o governo imperial não utilizou um discurso científico que pre- gava as diferenças raciais para legitimar a escravidão. Ao invés disso, produziu uma plataforma jurídica. HISTÓRIA DO BRASIL II 71 UNIMES VIRTUAL Aula: 22 Temática: A Inglaterra fechou o cerco Diante do descumprimento das leis de extinção do tráfico de escravos no Brasil, a Inglaterra partiu para atitudes mais drásticas. O Parlamento inglês assinou a lei Bill Aberdeen, por meio da qual a Inglaterra poderia abordar qualquer navio suspeito de tráfico de escravos, aprisionando-o, em caso positivo. A ação inglesa ge- rou muita polêmica, e, principalmente por não respeitar a soberania brasi- leira, dezenas de navios foram aprisionados. Devido à pressão inglesa, o Brasil aprovou, em 1850, a lei de Eusébio de Queirós, pela qual o tráfico negreiro passou a ser considerado pirataria e os infratores seriam julgados por tribunais especiais. Após a lei Eusébio de Queirós, a entrada de escravos no Brasil caiu, drasticamente, de 54 mil em 1849 para 3.300 em 1851. A pressão inglesa não diminuiu. A Inglaterra enviu seus navios para águas brasileiras e ameaçou bloquear os principais portos. Alguns incidentes ocorreram, como no Paraná, onde um navio inglês trocou tiros com supos- tos traficantes no forte de Paranaguá. Todavia, a escravidão estava com os dias contados desde a extinção do tráfico, pois o sistema era dependente das importações. O número de es- cravos era insuficiente para abastecer o mercado interno. O texto a seguir faz uma avaliação do abolicionismo no Brasil: O pensamento abolicionista, como toda doutrina re- formadora no Brasil, nasceu do liberalismo europeu do século XIX, que na Europa contava com o suporte da revolução industrial, a urbanização acelerada e o crescimento econômico, mudanças que foram possí- veis pela aplicação da ciência e da tecnologia. Entre- tanto, o liberalismo, no Brasil, surgiu como resultado de tendências desprovidas do respaldo de qualquer mudança econômica profunda. Mesmo assim as idéias abolicionistas vão crescendo pouco a pouco, embora levem longo tempo para tor- narem-se uma força política decisiva. HISTÓRIA DO BRASIL II72 UNIMES VIRTUAL Aqui e ali, de vez em quando, umas poucas vozes isola- das tinham clamado pela abolição geral desde o começo do século XIX. Dentre as vozes isoladas, a mais famosa foi a de José Bonifácio em 1825, logo após a indepen- dência do Brasil. Sua proposta, porém, não foi levada em conta e o tráfico de africanos continuava em grande escala, pois ninguém ousava a ele se opor, até que a pressão britânica forçasse o seu término em 1850. Com o suprimento de escravos cortado, e com as alfor- rias, embora o tráfico clandestino permaneça por algum tempo, é natural que a população servil aos poucos vá decrescendo. Dessa forma, há uma certa reorganiza- ção interna e a escravatura deixa de ser uma questão política por algum tempo. A calmaria, entretanto, foi quebrada em 1866, e novamente por pressão externa, neste caso, a pressão veio da França, no mesmo ano, quando um grupo de abolicionistas franceses apelou ao imperador D. Pedro II solicitando-lhe que exerces-se sua autoridade para acabar com a escravidão. Em resposta ao grupo, o imperador compromete-se e esta passa a ser a primeira promessa formal de abolição de um sistema que vai entrando em falência, cuja derroca- da será apenas uma questão de tempo. O certo é que os abolicionistas, desde o começo, de- veram muito à opinião estrangeira, e quando muito, ao menos pelos princípios cristãos que deveriam nor- tear um país oficializado católico pela Constituição de 1824, D. Pedro II era obrigado a responder às pres- sões estrangeiras. (DEUS, 1997) HISTÓRIA DO BRASIL II78 UNIMES VIRTUAL Aula: 23 Temática: Regência Após a abdicação de D. Pedro I, criou-se no Brasil um pro- blema político a respeito da sucessão. Segundo a Constitui- ção, o sucessor seria o filho primogênito do imperador, que contava com apenas cinco anos de idade. A solução foi escolher uma junta provisória, com três regentes, para governar em nome do imperador até que ele completasse dezoito anos de idade. Em junho de 1831 foi eleita a regência trina permanente. O período denominado regencial foi um dos mais conturba- dos da história brasileira. Uma das principais tarefas dos regentes era promover a descentralização política do gover- no, dando maior autonomia às províncias e reformulando os quadros do exército. Em 1831, foi criada a Guarda Nacional, com a função diminuir o poder das milícias locais no país. A lei que criou a Guarda Nacional tinha como propos- ta organizar um grupo armado de cidadãos “confiáveis”. Essa nova institui- ção deveria dar estabilidade aos municípios. O grande problema é que a lei poderia encarregar os fazendeiros de organizar os destacamentos em suas regiões. Com essa medida, o governo se protegia de uma eventual revolta e dava aos fazendeiros meios de disporem legalmente das armas. O alista- mento era obrigatório, desfalcando, dessa maneira, os quadros do exército. A partir de 1832, com o Código de Processo Criminal, os juízes de paz ga- nharam novas atribuições, passando também a comandar a polícia local. Eles seguiam o modelo inglês com a instauração do júri e deferimento de habeas corpus para pessoas presas ilegalmente. Eram eleitos pela popu- lação local, muitas vezes com a intervenção da elite dominante local, que exercia a pressão sobre a população local para a escolha de determinado candidato. Os juízes eleitos, por sua vez, reconheciam o cargo e favore- ciam a elite local. Política Após a abdicação de D. PedroI, o grupo político vencedor foi o dos liberais moderados, organizados pela tradição da maçonaria que se reuniam na Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional. Entre os li- HISTÓRIA DO BRASIL II 79 UNIMES VIRTUAL berais estavam figuras de destaque da política de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. No grupo oposicionista estavam os “exaltados” que de- fendiam um governo federativo e liberdades individuais, entre eles alguns republicanos. Os absolutistas — também na oposição — eram em sua maioria portugueses, com altos postos na burocracia pública e no exérci- to, sem contar com os ricos comerciantes que compunham suas fileiras. Queriam o retorno do imperador D. Pedro I ao poder. Em 1834, a Câmara dos Deputados aprovou o Ato Adicional à Constituição, por meio do qual se impôs limites ao Poder Moderador. Pelo Ato, as províncias adquiriram maior poder e liberdade, embora os os presidentes continuassem sendo nomeados pelo poder central. Foram criadas as Assembléias Provinciais com a função de agir sobre assuntos ligados a impostos, educação, religião, nomeação de funcionários públicos etc. O Ato Adicional de 1834 também determinava que a Regência Trina seria substituída pela Regência Una. Foram realizadas eleições para a escolha do regente em 1835. O vencedor foi político e padre paulista Diogo Antô- nio Feijó. A nova estrutura administrativa desagradou alguns grupos regionais que se viam ameaçados com a nomeação dos presidentes provinciais. Alguns grupos políticos discordavam da maneira pela qual o governo central re- colhia e distribuía os impostos. Segundo alguns políticos de províncias economicamente mais fortes, os impostos saíam de suas províncias para beneficiar outras. No período a seguir, de 1835 a 1840, houve cinco rebeli- ões internas de grandes proporções em regiões distintas do país. Cada revolta teve como motivo as desavenças entre o poder central da Regência e os poderes dos chefes regionais. HISTÓRIA DO BRASIL II 73 UNIMES VIRTUAL Resumo - Unidade III Nesta unidade você estudou o funcionamento do sistema escravocrata e os fatores que o legitimavam. É essencial destacar que a abolição foi resultado de transformações in- ternas e pressões externas. A luta política interna se explica por meio da desigual modernização da nossa economia. É importante ressaltar os fatores econômicos e ideológicos que legitima- vam a escravidão e, posteriormente, levaram à abolição da escravatura. Referências Bibliográficas ABREU, Martha Campos. O império do divino. São Paulo: Nova Fronteira, 1999. ALENCASTRO, Luiz Felipe de. História da vida privada no Brasil: Impé- rio. São Paulo: Cia das Letras, 1997, Vol. II. BOSI, Alfredo. A escravidão entre dois liberalismos. In: Dialética da colo- nização. São Paulo: Cia. das Letras, 1992. CARDOSO, Ciro F.S. Escravidão e abolição no Brasil: Rio de Janeiro: Zahar, 1988. CASTRO, Hebe M. Matos de. Laços de família e direitos no final da escra- vidão. IN: História da vida privada no Brasil: Império. São Paulo: Cia das Letras, 1997, Vol. II. CASTRO, Hebe M. Mattos. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998. CHALHOUBE, Sideney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo: Cia. das Letras, 1990. COSTA, Emilia Viotti da. Da monarquia à república: momentos decisi- vos. São Paulo: Editora Unesp, 1999. HISTÓRIA DO BRASIL II74 UNIMES VIRTUAL COSTA, Emilia Viotti da. Da senzala à colônia. São Paulo: Ciências Huma- nas, 1982. FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. Rio de Janeiro: Globo, 1987. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 1995. GORENDER, Jacob. A escravidão reabilitada. São Paulo: Ática, 1990. HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História geral da civilização brasi- leira: o Brasil monárquico: São Paulo: Difel, 1976. LINHARES, Maria Y. (org.). História geral do Brasil. Rio de Janeiro: Cam- pus, 1990. MACHADO, Maria H. O plano e o pânico: os movimentos sociais na década da abolição. Rio de Janeiro/São Paulo: UFRJ/EDUSP, 1994. SLENES, Robert W. Senhores e subalternos no Oeste Paulista.IN: História da vida privada no Brasil: Império. São Paulo: Cia das Letras, 1997, Vol. II. Links MOREIRA, Maria Christina da S. O Levante dos Malês: uma discussão dos conceitos religiosos. Disponível em: http://www.klepsidra.net/klepsidra21/males.htm. Acessa- do 12/12/2007. DEUS, Zélia Amador de. A questão racial no Brasil. Disponível em: http:// www.lpp-uerj.net/olped/documentos/ppcor/0090.pdf. Acessado em 12/12/2007. HISTÓRIA DO BRASIL II80 UNIMES VIRTUAL Aula: 24 Temática: Revoltas provinciais As revoltas provinciais apresentaram peculiaridades regio- nais, mas, de um modo geral, todas elas apresentavam um descontentamento em relação ao poder central. No Rio de Janeiro também houve levantes — no total de cinco — que causaram grande preocupação em relação à segurança do pequeno impe- rador “caso a anarquia se instalasse na cidade e as províncias do Norte se separassem do Sul” (FAUSTO, 1995, 165). As revoltas de maior impacto foram as que ocorreram no Nordeste e no Rio Grande do Sul. Cabanagem Tratou-se de uma rebelião acontecida na província do Grão-Pará— que reu- nia o Pará e o Amazonas — entre 1835 e 1840. Esse movimento teve forte caráter popular, mas, apesar disso, não tem sido considerado um movimen- to revolucionário por não ter contado com uma base ideológica definida. O principal objetivo dos revoltosos era dominar as assembléias provinciais, forçando-as a tomar uma posição em relação às camadas mais pobres da população. Os combates duraram cerca de cinco anos, envolvendo indíge- nas, mestiços e homens do povo. Alguns estudiosos classificam a Cabana- gem como uma revolta da maioria de índios, mestiços e escravos contra a minoria branca formada, sobretudo, por comerciantes portugueses. A Cabanagem não dever confundida com a Revolta dos Cabanos ou Cabanada, que ocorreu em Pernam- buco, entre 1832 e 1835, se alastrando até a provín- cia de Alagoas, cujas origens estão relacionadas à abdicação de D. Pedro I. A revolta dos cabanos tem sido caracterizada como um movimento restaurador: Esse movimento abrangeu, de uma parte, o nordeste e, de outra, o sul do país, a começar pelo Rio de Ja- neiro, onde seus partidários ficaram conhecidos pelo nomes de caramurus, tirado do jornal O Caramuru, onde suas idéias eram expostas. No plano ideológi- co, o movimento atingiu as cidades e o campo. Nas primeiras, fruto da ação do grupo mercantil português e, no segundo, pela adesão da população campesina, influenciada inicialmente pelas idéias restauradoras. Assim, lavradores, escravos fugidos (“papa méis”) e indígenas abraçaram a causa restauradora que reunia HISTÓRIA DO BRASIL II 81 UNIMES VIRTUAL comerciantes, religiosos e militares ao lado daqueles que sempre haviam estado em campo francamente antagônico. Deturpada, sem qualquer projeto que atendesse às reivindicações da massa rural, a re- belião restauradora desenvolveu-se sob a forma de guerrilhas (...). Após três anos de luta encarniçada, a morte do imperador e o insucesso do movimento res- taurador no Ceará apresentaram o esvaziamento e a extinção da Cabanada. O preço da luta foi alto: cerca de 15.000 mortos, mais de 140 engenhos destruídos, a produção açucareira reduzida em 5% (...) (AZEVE- DO, 1990, p. 66) Sabinada Essa revolta teve seu principal foco na cidade de Salvador na Bahia, em 1837. Seus componentes eram provenientes da classe média liberal, de- fendiam idéias federalistas de maior autonomia para as províncias. O nome da revolta surgiu em função de um de seus líderes, o médico e jornalista Francisco Sabino Barroso. Um aspecto peculiar nessa revolta era o comprometimento com a liberdade para os escravos que lutassem na re- volta e fossem nascidos no Brasil. Os rebeldes expulsaram o presidente da província e se recusaram a obedecer às ordens do governo. Planejavam instaurar uma República independente até a maioridade do imperador. A Sabinada durou quatro meses e deixou 3000 feridos e 1.500 mortos. Balaiada O Maranhão, que em outros tempos era uma região rica e próspera prin- cipalmente devido à exportação do algodão, enfrentava duros problemas na sua economia, afetando a população pobre. As várias disputas e rivali- dades entre as elites locais, além dos abusos sofridos pelos camponeses, geraram uma revolta popular. Os sertanejos invadiram e saquearam várias fazendas e libertavam os escravos para que se unissem à revolta. Num primeiro momento, um grupo da elite local tentou aproveitar-se da situa- ção e usá-la contra o governo, mas a revolta fugiu ao controle, o que gerou grande pânico entre os fazendeiros. O nome “balaiada” veio do ofício de um dos líderes, Raimundo Gomes, que era vendedor de balaios. Entre os líderes do movimento também havia um negro, chamado Cosme, que haveria tido sob o seu comando três mil escravos fugidos. Os insurgentes ganharam força e com isso a revolta se espalhou pelo interior, chegando a conquistar a segunda mais importante cidade da província. HISTÓRIA DO BRASIL II82 UNIMES VIRTUAL As tropas do governo agiram rápido. Os rebeldes foram derrotados em 1840. As tropas oficiais foram comandas por Luís Álvares de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias. Os rebeldes foram anistiados e os negros rees- cravisados. O líder negro Cosme foi enforcado. Na próxima aula examinaremos as rebeliões ocorridas no Sul do país. HISTÓRIA DO BRASIL II 83 UNIMES VIRTUAL Aula: 25 Temática: Guerra no sul do país O Rio Grande do Sul, desde os tempos coloniais, havia se especializado na criação de gado. Os principais produtos de venda eram o charque e o couro, e disso dependia, es- sencialmente, a sua economia. Tais produtos eram apreciados em vários locais do Brasil. Porém, com a importação de charque da Argentina e do Uruguai e com o aumento dos impostos, ficou difícil para os gaúchos con- correrem com a carne estrangeira. Toda a produção da província estava ligada ao consumo in- terno, nas diferentes regiões do país. A criação de gado se localizava principalmente no sul da província, em terras pró- ximas à fronteira uruguaia onde se encontravam os grandes criadores de gado. Os chamados charqueadores tinham as suas indústrias instaladas no litoral do Rio Grande do Sul, nas chamadas áreas das lagoas. O aumento dos impostos e a importação da carne Argentina geraram gran- de descontentamento na região, especificamente em 1835, quando os ricos estancieiros, liderados por Bento Gonçalves, revoltaram-se, dando início a um dos maiores conflitos militares do Brasil, a Guerra dos Farrapos ou Farroupilhas. Durante muito tempo, foi ensinado nas escolas que o ter- mo “farroupilhas” era assemelhado à “maltrapilhos”, derivando do apelido dado pelos adversários aos rebeldes que, segundo eles, vestiam-se com farrapos. Mas, pelo contrário, o apelido foi dado com o intuito de despre- zar as tropas gaúchas, cujos líderes representavam a elite dos estancieiros que detinham muito dinheiro e poder na província. O início do conflito Em vinte de novembro de 1835, os estancieiros, com Bento Gonçalves à frente, depuseram o presidente da província, fiel ao poder central, expul- sando as tropas imperiais da região. Porém, Bento Gonçalves foi preso por tropas imperiais e enviado para uma prisão em Salvador. Em novembro de 1836, os revoltosos proclamaram, na cidade de Piratini, a República rio- grandense e a sua separação do Brasil. Ainda preso, Bento Gonçalves foi escolhido presidente e assumiu o cargo após fugir da prisão, em 1837. HISTÓRIA DO BRASIL II84 UNIMES VIRTUAL A luta federalista prosseguiu. Entre os rebeldes houve um grupo de estran- geiros, no qual se destacou Giuseppe Garibaldi, revolucionário italiano que havia sido exilado de seu país. As tropas gaúchas eram formadas por peões de fazendas, escravos e homens livres. Os rebeldes atacaram Santa Catarina, em 1839, e proclamada a República Juliana — por ter sido pro- clamada no mês de julho. O governo regencial enviou tropas para acabar com a insurreição, mas as tropas imperiais tiveram insucessos perante os rebeldes. De 1835 a 1840, as tropas revoltosas garantiram vários sucessos. A partir de 1840, as tropas legalistas, com um contingente maior, colocaram os farrapos na defensiva. A posição do governo foi abrir negociação e fazer concessões. Os líderes revoltosos tinham elevada posição social e era importante para o império retomar o controle da região. Entre as concessões, podemos citar o decre- to que cobrava 25% sobre a carne vinda do Prata. No ano de 1840, com a maioridade do imperador, foi oferecida uma anistia que, entretanto, foi prontamente recusada pelos líderes da revolução. A nomeação de Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, como pre- sidente e comandante de armas da província em 1842, foi fator decisivo para que se chegasse a um acordo de paz pela via diplomática. Após dez anos de combates, foi posto um fim ao confronto com o chama-do tratado de Ponche Verde, que tinha como principais condições: anistia aos revoltosos; os soldados “farroupilhas” seriam incorporados ao exército imperial com suas mesmas patentes; O governo imperial assumiria as dívidas contraídas pela então Repú- blica de Piratini; a escolha do presidente da província caberia aos “farrapos”; manter a taxa de 25% sobre o charque importado. A atuação de Lima e Silva foi extremamente importante para os gaúchos e para o governo. O império reconheceu seu trabalho e esforço pelos quais outorgou ao general o título nobiliárquico de Conde Caxias (1845). Há controvérsia entre os historiadores sobre se os farrapos desejavam ou não se separar do Brasil, formando um novo país juntamente com o Uruguai e as províncias do Prata. • • • • • HISTÓRIA DO BRASIL II 85 UNIMES VIRTUAL Seja como for, um ponto comum entre os rebeldes era o de fazer o Rio Grande do Sul pelo menos uma província autônoma, com rendas próprias, livre da centralização do poder imposta pelo Rio de Janeiro. A revolução farroupilha forçou o Brasil a realizar uma polí- tica externa na região platina, bem diferente da tradicional. Durante anos, o Brasil seria forçado a não ter uma política agressiva no Prata e a buscar acordos com Buenos Aires para ocupar-se de uma revolução no interior de suas fronteiras. (FAUSTO, 1995, p. 170) HISTÓRIA DO BRASIL II86 UNIMES VIRTUAL Aula: 26 Temática: A política regencial As revoltas do período trouxeram muita preocupação e te- mores para os grupos que dominavam a cena política bra- sileira. Os políticos culpavam a ideologia liberal do período pelas constantes revoltas. Para os conservadores, o fato de o governo regencial ter dado maior liberdade às províncias estimulou as lutas pelo poder. A solução, segundo eles, seria a volta da centralização política nos moldes do Primeiro Império. No campo político, a separação acontecia da seguinte forma: os conser- vadores eram em sua maioria magistrados, altos funcionários públicos, proprietários rurais, sobretudo, do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, além dos ricos comerciantes portugueses. Os liberais eram, principalmen- te, da classe média urbana, clérigos e proprietários rurais das regiões de São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul. Desse modo, se desenhava uma separação político-regional que fez com que, posteriormente, São Paulo e Minas Gerais ganhassem destaque no cenário político nacional. No ano de 1838, foram realizadas as eleições para o parla- mento e para a escolha de um novo regente. A vitória ficou com os conservadores, que agiram para desfazer as refor- mas liberais. Esse período ficou conhecido como “regresso” e marcou a volta da centralização política. Os juízes de paz, que eram eleitos nos municípios, perderam as funções de chefes de polícia, que passaram a ser indicados pelo poder central. Os conservadores acreditavam que essas medidas eram necessárias para cessar as revoltas que vinham acontecendo. Os liberais, derrotados nas eleições, iniciaram uma campanha para que o imperador pudesse assumir o trono antes da maioridade. Eles acreditavam que essa era única maneira de barrar a política conservadora, colocando um ponto final no governo regencial. A coroação de D. Pedro II A campanha conquistou simpatia popular, principalmente, por tratar-se de um monarca nascido no Brasil. Segundo os liberais, a figura do imperador era necessária para trazer tranqüilidade e paz. HISTÓRIA DO BRASIL II 87 UNIMES VIRTUAL No dia vinte e três de julho de 1840, o jovem Pedro de Al- cântara, então com 14 anos, foi coroado imperador do Brasil sob o título de D. Pedro II. Uma vitória da ala liberal que conseguiu, depois disso, compor seus ministérios. Com o início do Segundo Reinado, entramos em um período de muitas transformações nas áreas sociais, econômicas, na política e cultural bra- sileira. Essas mudanças acompanharam o processo de desenvolvimento europeu do período. Idéias socialistas chegam ao Brasil Em tudo, o Brasil se espelhava na Europa: arquitetura, artes e espetáculos, objetos, códigos de vestimentas etc. No campo político não era diferente. Na economia, havia uma grande defasagem: na Europa, o capitalismo e a revo- lução industrial estavam indo a pleno vapor, enquanto aqui predominava um sistema agro-exportador baseado no latifúndio e na mão-de-obra-escrava. As idéias socialistas surgiram com grande força em toda a Europa no sé- culo XIX, atravessaram o oceano, desembarcando por aqui. A diferença é que no Brasil houve uma apropriação dessas idéias fora do contexto industrial, ao qual se referiam. Ainda assim, em 1848, influenciaram um movimento social em Pernambuco, conhecido como Revolução Praieira. Revolução Praieira A província de Pernambuco era, ainda, dependente da economia do açú- car, apesar da crise do produto surgida com a concorrência internacional; a propriedade das terras era concentrada nas mãos de uma pequena aris- tocracia rural; e o comércio comandado por uma burguesia portuguesa. Nesse contexto, a maioria da população se sentiu prejudicada pelos altos preços e por não terem a posse de terras. Com as eleições provinciais de 1844, o partido liberal, que se agrupava no chamado “Partido da Praia”, conseguiu levar a melhor sobre os conservadores. Diante disso, na Corte, os conservadores que haviam conseguido retomar o poder e a influência junto ao Imperador nomearam um dos seus como presidente da província. Essa atitude levou os liberais a protestarem, dan- do, assim, o início à revolta. No dia 7 de novembro de 1848 explodiu a rebelião em Olinda, Igaraçu e outras cidades. Os praieiros divul- garam o “manifesto ao mundo” no qual expunham o seu programa: voto livre e universal, liberdade de ex- pressão e de imprensa, direito ao trabalho, comércio HISTÓRIA DO BRASIL II88 UNIMES VIRTUAL a varejo só para brasileiros, extinção do Poder Mode- rador. Essas reivindicações levaram os jornais con- servadores a classificar o manifesto de “vermelho”, denunciando influências das teorias de Proudhon e Banbeuf. (AZEVEDO, 1990, p.346) A ação repressora do governo imperial foi rápida. Várias pessoas foram presas, torturadas e assassinadas. A Revo- lução Praieira encerrou um ciclo de revoltas — de 1830 a 1850 — e, também, o ciclo de insurreições pernambucanas que vinha desde a guerra contra os holandeses. Seria a última vez que liberais e conservadores iriam se enfrentar, as duas partes fariam concessões para, a partir de então, conviverem pacificamente. HISTÓRIA DO BRASIL II 89 UNIMES VIRTUAL Aula: 27 Temática: O reinado do café A partir de 1840, a economia agro-exportadora do Brasil ga- nhou um novo fôlego com o desenvolvimento de uma nova cultura: o café. Na segunda metade do século XIX, tal pro- duto representava mais de 50% das exportações brasileiras. O café teria chegado ao Brasil, por volta de 1727, com Francis- co de Melo Palheta. As primeiras plantações teriam ocorrido no Pará e, a partir daí, disseminaram-se por outras regiões do Brasil, porém, de forma bem modesta durante muito tempo. Nesse período, o café era um produto pouco conhecido e pouco apreciado na Europa, mas, nas primeiras décadas do século XIX, houve um crescimento substancial da procura pelo café em países europeus e nos Estados Unidos. Foi no Vale do Paraíba, uma região localizada entre Rio de Janeiro e São Paulo, com condições favoráveis, que se iniciou a primeira grande expan- são do cultivo do café. O início do cultivo exigia gastos com a limpeza do terreno para o plantio, as instalações básicas e mão-de-obra escrava. A primeira colheita era obtida quatro anos após o plantio; em compensação, com o tratamento adequado, um pé de café poderia durar até trinta anos. Durante todo o período imperial, ocultivo do café era feito de modo sim- ples, até mesmo rudimentar. A falta de cuidado com o solo e sua depreda- ção extensiva geraram problemas a longo prazo. O descanso do solo nem sempre era respeitado e o não tratamento do solo afetava a qualidade do grão produzido., Algumas fazendas do Vale do Paraíba sofreram com esse problema e tiveram prejuízos. A escravidão e o café Já em 1836, a população escrava aglomerava-se, ni- tidamente, em duas áreas produtoras de café: no Vale do Paraíba (fluminense, mineiro e paulista) e na zona Centro-Oeste de São Paulo. O interior desta provín- cia, futuramente a região de maior produção de café, apresentava, naquele momento, números ínfimos de população. Somente a partir de meados do século é que a população cativa, pode-se perceber, começou a HISTÓRIA DO BRASIL II90 UNIMES VIRTUAL concentrar-se nos municípios desta região. Da mesma forma, na área representada tanto pelas antigas zonas do Vale do Paraíba quanto do Centro-Oeste, pioneiras da penetração e expansão do café, chegou-se a uma concentração da população escrava muitas vezes su- perior a cinqüenta por cento da população existente no âmbito de seus municípios. Ressalte-se que tal situa- ção ocorreu exatamente no momento em que se atin- giu o apogeu das culturas de café no Vale do Paraíba, o que demonstra a importância desta lavoura como fator determinante do crescimento da população escrava na província de São Paulo. (MACHADO, 1998) Um personagem de grande destaque e de fundamental importância no sistema econômico gerado pelo café é o comissário. Sua função era fazer a intermediação entre os produtores e os compradores estrangeiros, estabelecidos nos principais portos. Ele também fornecia produtos que o fazendeiro, eventualmente, necessitasse e conseguia financiamentos. Os comissários cobravam dos fazendeiros comissão pela venda, despesas de armazenamento e juros pelo financiamento da plantação. Houve um momento em que foi muito estreita a relação de dependência pes- soal do produtor para com o comissário, tomando-se este uma espécie de conselheiro daquele. “Daí persis- tir em 1890 o costume de grandes casas comerciais hospedarem, nos seus andares superiores, senhores rurais ou pessoas de suas famílias. Quando em visi- ta ás cidades, era aí ou nas próprias residências dos seus comissários (...) que se instalava essa gente do interior”. (Gilberto Freyre.) Entre as mais importantes Casas Comissárias esta- vam a Prado Chaves, que era também exportadora - chegando a exportar, em 1910, 1,5 milhão de sacas de café - a Whitalter & Brotero, a Companhia Interme- diária de Café de Santos e a Companhia Paulista de Armazéns de Santos, controlada por ingleses.1 A expansão da economia cafeeira dependia da oferta de terra, capital e mão-de-obra escrava. Terra havia em abundância, mas concentrada nas mãos de grandes proprietários. O dinheiro vinha dos grandes investidores ingleses que não tinham receio de fazer empréstimos para os cafeicultores e exportadores de café. A expansão cafeeira promoveu o aparelhamento e modernização dos por- tos, construção de estradas, criação de novos empregos e a criação de 1 Enciclopédia Nosso Século: 1910/1930. São Paulo: Abril Cultural, 1985. HISTÓRIA DO BRASIL II 91 UNIMES VIRTUAL um novo sistema de transporte para escoamento do produto do interior de São Paulo para o porto de Santos. Num primeiro momento, esse trajeto era feito em lombo de burro e, posteriormente, por uma malha férrea. Os grandes produtores receberam vários benefícios do po- der central, mas também prestaram vários favores para a monarquia em troca dos quais receberam títulos de nobreza A expansão cafeeira gerou enriquecimento para transportadores, trafican- tes de escravos e, sobretudo, para os bancos financiadores ingleses. HISTÓRIA DO BRASIL II92 UNIMES VIRTUAL Aula: 28 Temática: A chegada da modernização O início da década de 1850 foi o momento de grandes mu- danças para o Brasil, impulsionado pela expansão cafeeira. Foi o período em que ocorreram muitos fatos importantes, entre os quais podemos destacar: a extinção do tráfico negreiro; a reestru- turação da Guarda Nacional; a promulgação do Código Comercial e da Lei de Terras (1850); criação da província do Amazonas (1850); reorganização bancária e do ensino; inauguração do telégrafo elétrico (1852); construção da primeira estrada de ferro (1854). Devemos dar um especial destaque para Código Comercial: Este trazia inovações e ao mesmo tempo integrava os textos dispersos que vinham do período colonial. Entre outros pontos, definiu os tipos de companhias que poderiam ser organizadas no país e regulou suas operações. Assim como ocorreu com a Lei de Terras, tinha como ponto de referência a extinção do tráfico. (FAUSTO, 1995, p. 197) Para estimular o fim do tráfico no Brasil, o governo inglês lançou mão da li- beração de capitais. Com esse impulso surgiram novos bancos, empresas de navegação, indústrias, ferrovias etc. As rendas derivadas dos impostos de importação cresceram consideravelmente, em um período de dez anos, entre 1843 e 1853, as tarifas com os produtos importados dobraram, devi- do principalmente ao decreto de 1844, a chamada tarifa Alves Branco. tUm conjunto de fatores possibilitou um certo desenvolvimento do país, dentro da lógica de modernização capitalista. Começou a se esboçar a tentativa de criar um mercado de trabalho, de terras e o surgimento de investidores e especuladores. Um pioneiro na industrialização do Brasil foi Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá. Entre os anos de 1850 e 1860 surgiram várias fábricas no país, sobretudo no Rio de Janeiro, muitas delas devido ao empreendimento de Mauá. Ele começou como mensageiro de uma empresa de importação inglesa na capital do império, tornando-se, ainda jovem, sócio da empresa. Com isso, partiu para outros investimen- HISTÓRIA DO BRASIL II 93 UNIMES VIRTUAL tos, fundições de ferro, ferrovias, navios, serviços de gás e bancos. Mauá era um especulador, investia seu capital em indústrias de acordo com a tendência do momento. Foi por iniciativa de Mauá a fundação de mais de dezesse- te empresas instaladas em seis países. No Brasil, seus ne- gócios se espalhavam do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Mauá apostou diversificação. Montou um banco no Uruguai, cujo maior cliente era o governo uruguaio. Era financista, empresário de sucesso e sócio de milionários ingleses na Europa. Em um país escravocrata, latifundiário e com a economia voltada para a agricultura, o Barão despertou inveja e não era visto com bons olhos, diziam que sua fortuna era maior que a do próprio imperador. Amealhou vários inimigos, especialmente no governo. Segundo relatos, o próprio D. Pedro II via com preocupação o seu crescimento. A perda de apoio do governo e alguns investimentos arriscados levaram Mauá a uma derroca- da. O golpe final veio com as crises financeiras de 1860 e 1870, além da concorrência com as indústrias inglesas que receberam incentivo fiscal do governo brasileiro para se instalarem no país. O Visconde de Mauá, depois de muita perseguição, faliu e pediu moratória por três anos; vendeu tudo o que possuía para pagar as dívidas que havia contraído. Conseguiu limpar seu nome. Expansão no Oeste Paulista O novo núcleo de expansão cafeeiro se transferiu do Vale do Paraíba para o Oeste paulista, o que gerou grande desenvolvimento econômico para a província de São Paulo. A região se favoreceu por diversos fatores: grande disponibilidade de terras; a tecnologia empregada no plantio e na colheita; as condições de solo e o clima. A decadência do café no Vale do Paraíba poder ser considerado um dos fatores para o desenvolvimento do cultivo em terras paulistas. Dessa maneira, entre os cafeicultoresformaram-se dois grupos regionais com objetivos distintos. O grupo de fa- zendeiros do Vale do Paraíba que sustentou a monarquia e dela se beneficiou foi se afastando gradativamente em conseqüência das medidas que tendiam a abolir a escravidão. O grupo paulista, por outro lado, percebia a necessidade de buscar alternativas para a substituição da mão-de-obra escrava, uma vez que compreendiam a eminência do fim da escravidão. HISTÓRIA DO BRASIL II94 UNIMES VIRTUAL A expansão cafeeira no Oeste paulista fez surgir um novo grupo social, a chamada burguesia do café. As últimas décadas do século XIX foram im- portantes para a consolidação de São Paulo no cenário nacional. A região deu início a um processo de constituição de uma economia capitalista (acumulação de capital, economia diversificada e formação de mercados de consumo e produção). A expansão cafeeira paulista gerou uma rede de núcleos urbanos, como: Jaú (1858); Ribeirão Preto (1870); Barretos (1874); São José do Rio Preto (1879); Bauru (1880). Essas cidades se tornaram centros de produção industrial e de consumo. HISTÓRIA DO BRASIL II 95 UNIMES VIRTUAL Aula: 29 Temática: A imigração Na aula passada foi dito que fazendeiros paulistas busca- vam opções para resolver o problema de mão-de-obra nas lavouras de café. A solução escolhida foi a contratação de trabalhadores europeus. A imigração contou com italianos, alemães, espa- nhóis, suíços etc. Primeiramente, vamos procurar os motivos que fizeram com que essas pessoas atravessassem o Atlântico para se aventurar em um país que pouco conheciam. Por volta de 1850, havia uma crise em alguns países da Eu- ropa, onde o capitalismo vinha se implantando lentamente. Nesses paises, os camponeses foram obrigados a abando- nar suas terras e a se mudar para as cidades. Na Itália e Alemanha, por exemplo, eles foram expulsos do campo. Os camponeses se tornaram uma população flutuante, sem uma profissão definida. Sem opção, transferiram-se para os grandes centros urbanos, tornando-se operários, porém, na maior parte das vezes, a demanda era maior que a procura e acabavam não conseguindo trabalho. Uma outra alternativa era tentar melhores condições de vida em outras terras, bus- cando a oportunidade de conseguir um pedaço de terra. Assim, na segunda metade do século XIX, centenas de europeus embar- caram em direção às novas terras das Américas e da Austrália em busca de oportunidades. Alguns deles vieram para o Brasil. A chegada dos imigrantes no Brasil A mão-de-obra estrangeira foi a solução encontrada para suprir a falta de trabalhadores nas fazendas de café após a abolição. Os cafeicultores contavam com a experiência dos agriculto- res europeus. Além disso, acalentavam uma antiga idéia de clareamento da população brasileira. Essa idéia foi reforça- da por algumas concepções vigentes à época de que os negros e, em es- pecial, os mestiços eram pessoas inferiores. O desejo de branqueamento da população brasileira fazia parte, portanto, de um projeto de modernizar HISTÓRIA DO BRASIL II96 UNIMES VIRTUAL e civilizar o país e era respaldado pelas teorias eugenistas — que busca- vam as condições que melhor pudessem favorecer a reprodução humana e o aperfeiçoamento da raça. Os imigrantes chegaram ao Brasil entre 1840 e 1860. Eram atraídos por meio de companhias particulares que arregimentavam famílias na Europa. As despesas eram pagas pelo Estado, desde a viagem até o transporte para as fazendas. Chegando ao país, eram encaminhados à Hospedaria de Imigrantes em São Paulo, que foi feita para acomodar as famílias assim que chegassem após a longa viagem. Alguns imigrantes não se ajustaram às condições de vida existentes aqui, pois muitos eram explorados pelos fazendeiros. Muitos acabavam retornan- do aos seus países. As reclamações contra o tratamento que recebiam nas fazendas eram tantas que, em 1885, o governo italiano passou a desaconse- lhar a imigração para o Brasil. O mesmo foi feito pelo governo alemão. A chegada de trabalhadores livres impulsionou outras ativi- dades econômicas. Essa nova massa assalariada formava um propício mercado consumidor, estimulando o comércio, atividades manufatureiras e as profissões liberais. São Paulo começou a crescer e a despontar como uma das regiões mais ricas do Brasil. HISTÓRIA DO BRASIL II 97 UNIMES VIRTUAL Aula: 30 Temática: A guerra do Paraguai Um grande acontecimento militar, em âmbito internacional, marcou a história do Segundo Império. Uma guerra travada contra o Paraguai, com duração de seis anos, de 1864 a 1870. O conflito ficou conhecido como Guerra da Tríplice Aliança. Vamos, primeiramente, saber um pouco da história desse pequeno país e as ra- zões que levaram à guerra. A então província do Paraguai, formada em sua maioria por descendentes dos índios guaranis, não aceitou ser dominada pela burguesia portenha de Buenos Aires e passou a agir de forma independente, desde o início do século XIX. Como forma de represália, os portenhos barraram o comércio paraguaio em 1813, bloqueando a única via de acesso do país ao mar, utilizando os rios Paraguai e Paraná. Tal bloqueio teve como conseqüência o isolamento do Paraguai. Enquanto isso, o líder paraguaio José Gaspar de Francia tornava-se ditador. Seu primei- ro ato como governante foi expropriar as terras da Igreja e de parte da elite que era a favor do entendimento com Buenos Aires. O Paraguai se proclamou formalmente independente em 1842, sob a liderança de Carlos Antonio Lo- pez, pai do futuro ditador Solano Lopez que assumiria o poder em 1862. A relações entre brasileiros e paraguaios, segundo Boris Fausto, eram as seguintes: As relações do Brasil com o Paraguai, na primeira metade do século XIX, dependeram do estado das relações entre o Brasil e a Argentina. Quando as riva- lidades entre os dois paises aumentavam, o governo imperial tendia a aproximar-se do Paraguai. Quando as coisas se acomodavam, vinham à tona as dife- renças entre o Brasil e o Paraguai. As divergências diziam respeito a questões de fronteira e à insistência brasileira na garantia da livre navegação pelo Rio Pa- raguai, principal via de acesso a Mato Grosso. Durante o século XIX, o Paraguai era um país que divergia da política la- tino-americana, principalmente, por ter conseguido um certo progresso econômico de forma autônoma. Com um relativo sucesso socioeconômico e autonomia internacional, Solano López iniciou uma política militar-expan- HISTÓRIA DO BRASIL II98 UNIMES VIRTUAL sionista. Ele pretendia anexar regiões da Argentina, do Uruguai e do Brasil que, segundo ele, eram paraguaias de direito. Com essas anexações con- seguiria acesso direto ao oceano Atlântico, um caminho importante para os planos econômicos do país. O conflito teve início com a prisão do navio brasileiro Marquês de Olinda, o que gerou o rompimento de relações diplomáticas entre os dois países. Os combates começaram em 23 de dezembro de 1864 com uma ofensiva militar contra o Mato Grosso. Lopez pediu autorização para a Argentina para transportar suas tropas pela província de Corrientes, a fim de atacar as tropas brasileiras que estavam no Rio Grande do Sul e no Uruguai. O pedido não foi aceito pelo governo argentino. Em março de 1865, Lopez declarou guerra contra a Argenti- na. Para conter o Paraguai, os governos do Brasil, Argentina e Uruguai criaram a Tríplice Aliança em 1 de maio do mes- mo ano. Os aliados desconheciam a preparação militar dos paraguaios e apostaram na brevidade do conflito. No início, as tropas aliadas contavam com dezoito mil homens do lado brasileiro, oito mil argentinos e mil uru- guaios. As tropas paraguaias contavam com sessenta e quatro mil, mais a reserva de veteranos com vinte e oito mil homens. No decorrer dos anos, as tropasaliadas aumentaram consideravelmente. No Brasil houve manifestações de apoio da população e grande movimen- to de voluntários. Em 1865, o próprio imperador surpreendeu e se apresen- tou como voluntário número um para Guerra do Paraguai — uma atitude claramente populista. O Brasil, para aumentar seu efetivo, prometeu várias compensações para aqueles que fossem lutar na guerra, como soldo, ter- ras e liberdade para os escravos (1866). Tais promessas demoraram a se cumprir no final do conflito. Vários senhores de escravos cederam seus cativos para lutar no conflito. Uma forma de arregimentar soldados foi a utilização da força, uma velha prática herdada do período colonial. No decorrer do conflito, as forças da Tríplice Aliança aumentaram, princi- palmente, do lado brasileiro. A marinha brasileira conquistou uma impor- tante vitória na na famosa batalha do Riachuelo. Aos poucos, os aliados bloquearam os caminhos e impediram qualquer avanço do Paraguai. Apesar das vitórias iniciais, os paraguaios não puderam resistir a uma guerra prolongada. A população paraguaia era menor que a dos países da Tríplice Aliança e, apesar do preparo do seu exército, a ocupação militar dos territórios dos países aliados era praticamente impossível, enquanto o Paraguai poderia ser facilmente ocupado pelas tropas da Aliança. Não po- demos esquecer que Brasil, Argentina e Uruguai contavam com o apoio in- glês, proporcionando empréstimos para equipar e manter seus exércitos. HISTÓRIA DO BRASIL II 99 UNIMES VIRTUAL Um fator importante para o rumo da guerra foi a nomeação de Caxias para o comando das forças brasileiras, em 1866. Sua indicação se deu por pressão do partido conservador. Após preparar o exército aliado com o mínimo de infra-estrutura, Caxias atacou a temida fortaleza de Humaitá, que foi derrotada em 1868, o que possibilitou a entrada das tropas em Assunção em 1869. Com o exército paraguaio praticamente dizimado, Solano Lopez foi cerca- do e morto pelos brasileiros em março de 1870. O Paraguai saiu arrasado do conflito e teve de ceder parte do território para o Brasil e para a Argen- tina. Segundo alguns cálculos, metade da população paraguaia morreu no conflito, acabando com sua economia e infra-estrutura, conseqüências vistas até hoje. Para o Brasil, com a morte de aproximadamente quarenta mil homens, a guerra foi um desastre. Para o governo brasi- leiro o desastre não foi menor, pois não possuía o apoio da população e foi duramente criticado por grupos políticos e pela imprensa. A guerra trouxe, ainda, um aumento do endividamento em relação à Ingla- terra. A única beneficiária do conflito foi a Inglaterra, que forneceu armas e empréstimos, ampliou seus negócios na região e acabou com a experiên- cia econômica paraguaia. O conflito atingiu profundamente a popularidade do imperador, que começou a sofrer duras críticas de setores do governo e do próprio exército. A Guerra do Paraguai marcou o início da derrocada do Segundo Império. HISTÓRIA DO BRASIL II100 UNIMES VIRTUAL Aula: 31 Temática: Finalmente a liberdade dos escravos Com a proibição do tráfico, a partir de 1850, devido à pres- são inglesa, o número de escravos que entrava no Brasil foi diminuindo gradativamente. A economia brasileira, baseada na agricultura e no latifúndio, dependia da mão-de-obra escrava, porém, devemos lembrar que existiam também trabalhadores livres. Alguns des- ses trabalhadores tinham funções de confiança para os senhores em suas propriedades, como capatazes, feitores e capitães do mato. Em meados de 1870, o movimento abolicionista começou a se fortalecer no Brasil, especialmente entre a população ur- bana. Os principais agitadores eram advogados, jornalistas, intelectuais, comerciantes, professores e estudantes. Em seus discursos, procuravam combater a retórica escravagista; lembravam que o trabalho assalariado era mais rentável, pois a produtividade era maior; apelavam para o censo humanitário, dizendo que todos eram iguais perante a Deus; denunciavam a corrupção moral que a escravidão produzia na sociedade. No final do século XIX, os únicos países que ainda contavam com a mão- de-obra escrava eram Brasil e Cuba. Essa situação proporcionava um forte argumento para os abolicionistas, os quais diziam que tal fato poderia pre- judicar a imagem do país no exterior. O movimento abolicionista, antes retórico, passou a apoiar ações concre- ta, como a compra de cartas de alforria e fugas. Devido à pressão abolicionista, no ano de 1871, o Parlamento aprovou a Lei do Ventre Livre, segundo a qual todo filho de escravo nascido a partir daquela data seria livre. Todavia, a lei propunha algumas obrigações e in- denizações nos seguintes termos: §1o: Os ditos filhos menores ficarão em poder e sob a autoridade dos senhores de suas mães, os quais te- rão obrigação de criá-los e tratá-los até a idade de oito anos completos. Chegando o filho da escrava a esta idade, o senhor da mãe terá a opção, ou de receber do Estado a indenização de 600$000, ou de utilizar-se dos serviços do menor até a idade de 21 anos completos. No primeiro caso o governo receberá o menor, e lhe HISTÓRIA DO BRASIL II 101 UNIMES VIRTUAL dará destino, em conformidade da presente lei. A inde- nização pecuniária acima fixada será paga em títulos de renda com o juro anual de 6%, os quais se conside- rarão extintos no fim de trinta anos. A declaração do senhor deverá ser feita dentro de trinta dias, a contar daquele em que o menor chegar à idade de oito anos e, se a não fizer então, ficará entendido que opta pelo arbítrio de utilizar-se dos serviços do mesmo menor. Como se pode ver, a Lei do Ventre Livre representou um passo muito tími- do em relação ao fim da escravidão. Na década de 1880, o movimento abolicionista ganhou for- ça e apoio. Em várias localidades surgiram associações, jor- nais e panfletos de propaganda em defesa da liberdade dos escravos. Membros da elite dominante aderiram à causa, como Joaquim Nabuco. Alguns filhos de escravas ou ex-escravas tornaram-se abolicio- nistas famosos, tais como: José do Patrocínio, farmacêutico, jornalista e ativista político; André Rebouças, engenheiro e escritor; Luís Gama, poeta, advogado, fundador e redator do periódico paulistano Diabo Coxo. Com a constante pressão e agitação nas cidades, os cafeicultores pau- listas se manifestaram favoravelmente pelo fim da escravidão. O exército recusava-se a perseguir escravos fugidos. Os jornais se recusavam a im- primir qualquer coisa contrária ao fim da escravidão. Em 1884, presidentes provinciais do Ceará e Amazonas decretaram o fim da escravidão. Em 1885, o Parlamento aprovou a Lei Sexagenária. A lei determinava a liberdade de todo escravo com sessenta anos ou mais. Trata-se de uma lei absurda que favorecia somente os proprietários, que ficavam livres da obri- gação de cuidar dos escravos idosos. Era também uma lei inócua, pois os casos de escravos sexagenários eram raros. Além de tudo isso, o escravo deveria trabalhar mais três anos para ressarcir o prejuízo do fazendeiro. Durante os anos de 1885 a 1888, o movimento abolicionista ganhou volu- me e começou a pressionar cada vez mais o governo. Diante da pressão dos liberais, o presidente do conselho, o conservador João Alfredo, deci- diu pela abolição irrestrita. Aprovada pela maioria parlamentar, foi sancio- nada pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888. Na ocasião o imperador encontrava-se em viagem pela Europa. No Nordeste, transformaram-se, em regra, em depen- dentes dos grandes proprietários. O Maranhão repre- sentou uma exceção, pois aí os libertos abandonaram as fazendas e se instalaram nas terras desocupadas como posseiros. HISTÓRIA DO BRASIL II102 UNIMES VIRTUAL No Vale do Paraíba, os antigos escravos viraram par- ceiros nas fazendas de café em decadênciae, mais tarde, pequenos sitiantes ou peões para cuidar do gado. (FAUSTO, 1995, 220) Durante muito tempo, a historiografia legou à Princesa Isabel um papel secundário na abolição da escravatura, afirmando que ela apenas agiu bu- rocraticamente diante da ausência do imperador. Porém, estudos recen- tes demonstram que seu papel foi mais significativo e importante do que se imaginava. Em correspondências da princesa, ela demonstra planos mais contundentes para o fim da escravidão. Ela apoiava idéias como in- denização dos escravos e o alojamento dessas pessoas em áreas doadas pelo governo. Aparentemente, portanto, ela possuía uma visão social mais abrangente. Apesar do fim da escravidão, os escravos não adquiriram di- reitos constitucionais, não foram considerados cidadãos. A maioria era analfabeta, com poucas possibilidades de conse- guir empregos, sobretudo com a concorrência representada pela mão-de- obra dos imigrantes. Os negros foram marginalizados e alçados à própria sorte, vítimas do preconceito social e do passado escravagista do país. HISTÓRIA DO BRASIL II 103 UNIMES VIRTUAL Aula: 32 Temática: Enfim, a República O ideal republicano surgiu no Brasil relacionado à independên- cia a partir do final do século XVIII, com a idéia de revolução e reforma social. O movimento republicano que surgiu no Rio de Janeiro, em 1870, sofreu um pouco de influência desse conceito. Um manifesto cuja autoria é atribuída a Quintino Bocaiúva, Salvador Mendonça e Saldanha Marinho, lançou as bases do Partido Republicano no Rio de Janeiro. Os principais ob- jetivos eram implantação do federalismo, separação da Igreja e do Estado e eleições livres e diretas. O corpo social do republicanismo no país era formado por profissionais liberais, jornalistas, grupo que emergiu do de- senvolvimento urbano. Na década de 1870, surgiu nas províncias um movimento republicano conservador. Em São Paulo, o Partido Republicano Paulista, foi fundado em 1873 numa reunião de fazendeiros conhecida como Convenção de Itu. Segundo os pesquisadores, o PRP fazia uma reinterpretação do velho fe- deralismo liberal. O objetivo era fortalecer as províncias e, principalmente, defender São Paulo que progredia com os investimentos feitos pelos pró- prios cafeicultores (estradas de ferro, ferrovias, bancos etc). Os republica- nos paulistas achavam que a província pagava impostos demais e, pelos quais, não recebia em troca nenhum benefício. Além disso, queixavam-se da representação da província no governo central. Segundo eles, São Pau- lo deveria ter um número maior de parlamentares em comparação com outras províncias do país. Cada deputado paulista representava 145 mil habitantes, enquanto o parlamentar pernambucano representava, aproxi- madamente, 85 mil habitantes e o amazonense cerca de 40 mil. Comparando os partidos republicanos paulista e carioca po- demos perceber que não havia unidade no movimento repu- blicano brasileiro: O Partido Republicano fundado no Rio de Janeiro em 1870 tinha características bem diversas das de seu congênere paulista. Formado sobretudo por funcio- nários públicos, profissionais liberais e intelectuais, defendia a idéia de se proclamar a República a partir HISTÓRIA DO BRASIL II104 UNIMES VIRTUAL de uma revolução popular. E, uma vez implantada, de- veria garantir as liberdades civis, acabar com a escra- vidão, impor o respeito aos direitos dos cidadãos.1 Estado e Igreja Os padres e bispos eram mantidos pelo Estado, porém, todas as suas ações deveriam passar pela aprovação do imperador, ainda que as ordens tivessem vindo de Roma. Em 1870, o Concílio Vaticano proclamou o dog- ma da infalibilidade, segundo o qual o papa passou a ser considerado infa- lível quando se pronuncia a respeito de temas concernentes à fé. Embora o dogma não se referisse às questões científicas ou políticas, ele gerou alguns atritos entre a Igreja e o Estado no Brasil. Em Pernambuco, o atrito se originou quando o bispo de Olinda, Dom Vital, acatando as ordens papais, proibiu a participação de maçons em irmanda- des religiosas. Entretanto, muitas pessoas do poder central eram maçons. Por essa atitude, Dom Vital e outro bispo foram presos e condenados a quatros anos de prisão. O problema se resolveu com a anistia dos bis- pos concedida pela Princesa Isabel e com a suspensão das restrições aos maçons concedida pelo papa. Todavia, o episódio fez com que a Igreja se tornasse defensora do regime republicano, o que aumentou o desprestígio do imperador. O problema militar Os principais problemas dos militares estavam relacionados à baixa remu- neração, lentidão nas promoções e ao tratamento disciplinar rígido dentro da corporação. Em 1883, o Tenente-coronel Sena Madureira foi transferido do Rio de Janeiro para o Rio Grande do Sul, como forma de punição. Como retaliação, Madureira publicou um artigo no jornal republicano A Federação. O ministro de Guerra, que era um civil, proibiu que os militares se expres- sassem na imprensa sobre política ou sobre as forças armadas. Oficiais do Rio Grande do Sul se reuniram contra a proibição do ministro. O minis- tro mandou prender Madureira, ordem que foi recusada pelo comandante da guarnição, o marechal Deodoro da Fonseca. O problema só foi resolvido com a revogação da lei e com a repreensão do gabinete. O partido republicano, percebendo a situação, aumentou a propaganda republicana em todo país. O problema aumentou quando Silveira Martins foi nomeado para a presidência do Rio Grande do Sul. Silveira era inimigo pessoal de Deodoro. 1 http://www.politicavoz.com.br/partidospoliticos/artigo_01a.asp HISTÓRIA DO BRASIL II 105 UNIMES VIRTUAL Em 11 de novembro de 1889, houve uma reunião de políticos e militares com Deodoro. Entre eles estavam Rui Barbosa, Benjamin Constant, Aristides Lobo e Quintino Bocaiúva. O grupo tinha como objetivo convencer Deodoro a organizar e comandar um movimento para derrubar a monarquia. Porém, Deodoro, em um primeiro momento, declarou-se amigo de D. Pedro II. No dia 15 de novembro de 1889, Deodoro dirigiu-se ao Mi- nistério da Guerra, acompanhado por seiscentos homens, e demitiu os ministros que estavam lá reunidos. No dia seguin- te, em plena madrugada, D. Pedro II recebeu o comunicado de banimento. Foi obrigado a abandonar o palácio imperial e a embarcar imediatamente para o exílio. Os republicanos esperavam, desse modo, evitar eventuais reações de simpatizantes da monarquia. Dessa maneira, foi proclamada a República no Brasil. HISTÓRIA DO BRASIL II106 UNIMES VIRTUAL Resumo - Unidade IV Nessa unidade você estudou alguns conflitos ocorridos na fase de transição entre o primeiro e o segundo Reinado, co- nhecido como período das regências. Estudou também as transformações ocorridas no Brasil, na segunda metade do século XIX, relacionadas à expansão cafeeira e à modernização do país, incluindo a abolição da escravidão. Estudou, finalmente, o início do processo que levou à proclamação da República. Referências Bibliográficas ABREU, Martha Campos. O Império do Divino. São Paulo: Nova Fronteira, 1999. AZEVEDO, Antônio Carlos do A. Dicionário de nomes, termos e concei- tos históricos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. 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