Malatesta A lógica das provas em matéria criminal
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Malatesta A lógica das provas em matéria criminal


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A Lógica das Provas 
em Matéria Criminal 
 
 
LIVRARIA CLASSICA EDITORA 
 
 
 
\ufffdicola Framarino dei Malatesta 
ADVOGADO 
A Lógica das Provas 
em Matéria Criminal 
Com um prefácio do Prof. EMILIO BRUSA 
TRADUÇÃO DE J. ALVES DE SÁ 
2.ª EDICÃO 
 
LISBOA 
LIVRARIA CLÁSSICA EDITORA 
DE A. M. TEIXEIRA & C.ª (FILHOS) 
PRAÇA DOS RESTAURADORES, 17 
1927 
 
 
 
A SA\ufffdTA MEMÓRIA 
DE 
MI\ufffdHA MAE 
Angiola de \ufffdataristefani 
Junto de quem a minha vida lo doce, da 
uma doçura qna nunca mais se encontra e da 
qual tôda a recordação é para mim um exemplo 
a uma inspiração de bem. 
 
 
PREFÁCIO1 
Desde que as modernas legislações teem abandonado pouco 
a pouco as fórmulas do processo inquisitoria, a antiga teoria das 
provas avaliadas à priori pela lei, tem cedido sucessivamente o 
lugar a convicção íntima do juiz. Já ninguém duvida, hoje em dia, 
que êste facto constitui um grande progresso nos julgamentos 
penais. 
E fácil, porém, cair no exagêro ao determinar-lhe os benefícios. 
As fórmulas da acusação, da discussão oral, ou exame ime-
diato das provas, do julgamento contraditório entre partes juri-
dicamente iguais, e da publicidade, são as que permitem, no 
melhor modo e graus possíveis, a reprodução viva, directa e 
sincera do drama criminoso nas salas dos tribunais. O juiz, que 
no processo inquisitório, favorecido pela lei com uma confiança 
ilimitada, reunia em suas mãos as duas funções de acusador e 
defensor, parecia mais oprimido sob o pêso enorme das faculda-
des que tinha, do que verdadeiramente senhor da matéria, com 
que devia construir a sua sentença. Mesmo depois da abolição da 
tortura, que trouxe atrás de si uma profunda transformação da 
verdade judiciária em verdade substancial, de formal que era 
nos indícios necessários para a aplicação da tortura e na confissão 
que com ela se obtinha, mesmo depois, dizia, sem o expediente 
da confissão, raras vezes, e não sem trabalhos, teria o juiz sobe-
rano podido desembaraçar a sua consciência, comquanto afeita 
1 São postas aqui, como prefácio desta obra, as palavras que, em 1895, 
o ilustre Prof. Brusa proferiu perante a Accademia Reale delle Scienze di To-
rino, por ocasião da primeira publicação da Logica delle prove in criminale. 
 
 
8 Prefácio 
ao hábito formalístico, das numerosas contradições em que a todo 
0 instante mais se deixava enredar nas frias informações que 
colhia nos autos escritos: sobretudo para a prova específica do 
autor do facto imputado e da sua criminalidade, mantinha-se em 
todo o caso, como consequência necessária daquele sistema, uma 
luta entre inquirente e inquirido. Se a tudo isto se junta o vín-
culo imposto a esta mesma consciência do juiz pela obrigação de 
se subordinar ao valor genèricamente atribuído pelo legislador 
para todos os casos a cada elemento de prova, quer considerado 
em si mesmo isoladamente, quer combinado com outros elemen-
tos, e isto prescindindo absolutamente da convicção dêsse juiz, 
ver-se há fàcilmente êste descer não poucos degraus da altíssima 
cátedra em que o colocara, delegado da sua autocracia, o mo-
narca no antigo regime centralisador. 
Pois bem, não obstante as mais válidas e mais seguras 
garantias de longa duração, que às. liberdades civis oferecem as 
fórmulas acusatórias em confronto com as inquisitoriais, quem 
há que suspeitasse, precisamente nas primeiras, aninhada, antes 
guardada com os mais zelosos cuidados por um direito incompa-
ràvelmente precioso, aquela íntima, inverificável convicção, fruto 
indistinto, quer de um raciocínio sério e prudente, quer de uma 
irreflexão instintiva e indómita, a que hoje por tôda a parte os 
legisladores submetem o critério das sentenças criminais, não 
somente de absolvição, mas também de condenação dos 
homens? 
Talvez que a lei da compensação deva ser tão verdadeira 
na ordem dos factos morais e sociais, como na dos factos físicos 
e mecânicos, e que, quando a soberania absoluta do juiz tenha já 
completado o seu tempo por uma dada forma de manifestação, 
tenha ela que tornar inevitàvelmente em revindita uma outra? 
Estas considerações e outras semelhantes sugeriram na mente 
do criminalista e do historiador o espectáculo das alternativas, a 
que de há séculos tem sido sujeito o ordenar dos processos judi-
ciais para a investigação da verdade em tôrno dos crimes e de 
seus autores. Sem desenvolver a cadeia destas ideias de índole 
geral, convém no entanto notar o facto de que nos processos 
 
 
Prefácio 9 
hodiernos, conduzidos segundo um sistema mixto, ou intarsiati 
(como lhes chamava Carmignani que não tinha fé nêles), na 
Europa continental, juntamente com a íntima convicção foi-se 
difundindo pouco a pouco na doutrina e na prática a importância 
das regras probatórias. Não por que não tenham já aparecido obras 
de grande valor; pois que para demonstração consoladora do 
contrário bastaria, para nos limitarmos às mais afoutadas, recordar 
as de Glaser, o exímio autor do código do processo penal austríaco 
de 1873: em que decerto se deixou ao juiz togado, não menos que 
ao júri, a plena liberdade de sentenciar segundo a própria e íntima 
convicção e sem freios legais de avaliação das provas. Mas mais 
talvez do que os trabalhos desta natureza, no campo da doutrina, 
agrada aos estudiosos a investigação dos institutos probatórios sob 
o aspecto histórico e de erudição; e no da jurisprudência prática, já 
de há tempo introduziu e se vai cada vez mais alargando o hábito, 
especialmente perante os juízes populares, mas também perante os 
juízes jurisperitos, de excitar os sentimentos de uns e de outros, de 
comover os ânimos, descurando mais ou menos, ou antes pondo 
em segunda linha, os argumentos severos da razão lógica e da 
experiência. E que ó este, e não outro, o facto, pode fàcilmente 
deduzir-se mesmo da freqüente ligeireza e por vezes nulidade dos 
motivos, que na vaga e indeterminada origem da sua convicção os 
juízes permanentes, obrigados como são a enunciá-los, costumam 
tomar como suficientes para justificar as suas declarações sôbre a 
existência do corpo de delito da criminalidade do arguido. 
Estamos, em resumo, na época em que a paciência do inves-
tigador e do crítico parece exaurir-se tôda, ou em grande parte, na 
investigação de competência scientífica. Quanto aos outros 
cuidados em prega-se a rapidez adequada às condições e razões 
próprias das outras coisas de todos os dias. Permanecem bem 
assim, pelo menos na Itália, complicados e lentos os processos; 
mas quanto aos julgamentos finais, o espírito irrequieto teve um 
tal poder, que a sua instauração não só tem que ser imediata, mas 
costuma até ser rapidíssima, como uma inspiração espontânea, 
irresistível, de uma mente privilegiada. 
 
 
10 Prefácio 
Em um tal estado de coisas, escrever entre nós um tratado 
completo das regras da lógica judiciária em matéria de provas 
penais, torna-se já de per si um facto muito notável. E é esta 
a razão por que eu julguei chamar, com algumas ideias gerais, 
a atenção dos estudiosos sôbre a obra do snr. Framarino. No en 
tanto, atendendo à sua natureza de índole necessàriamente ana 
lítica, nada direi dela, a não ser que, comquanto restrita no seu 
conjunto talvez um pouco formal da lógica sómente, constitui 
uma obra rica de grande valor, e, sobretudo, sob o ponto de 
vista da constituição esquemática, do rigor e da fôrca do racio 
cínio, e mesmo da clareza da exposição (se bem que um pouco 
carregado por frequentes referências às demonstrações preceden 
tes). O autor, com uma agudeza rara sempre que ocorra penetrar 
em questões da natureza das que se suscitam desde o princípio 
de qualquer estudo sério sôbre a prova, conseguiu entrar, sob 
mais de um ponto de vista, talvez mais profundamente do que 
anteriormente se conseguira,