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Fundamentos da Língua Latina São Cristóvão/SE 2007 José Raimundo Galvão Projeto Gráfi co e Capa Hermeson Alves de Menezes Diagramação Nycolas Menezes Melo Ilustração Alysson Prado dos Santos Edgar Pereira Santos Neto Manuel Messias de Albuquerque Neto Revisão Lara Angélica Vieira de Aguiar Elaboração de Conteúdo José Raimundo Galvão S237I Galvão, José Raimundo. Fundamentos da Língua Latina / José Raimundo Galvão -- São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2007. 1. Língua latina. 2. Latim. 3. Gramática latina I. Título. CDU 81=124(091) Copyright © 2007, Universidade Federal de Sergipe / CESAD. Nenhuma parte deste material poderá ser reproduzida, transmitida e gravada por qualquer meio eletrônico, mecânico, por fotocópia e outros, sem a prévia autorização por escrito da UFS. FICHA CATALOGRÁFICA PRODUZIDA PELA BIBLIOTECA CENTRAL UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE Funadmentos da Língua Latina Presidente da República Dilma Vana Rousseff Ministro da Educação Fernando Haddad Secretário de Educação a Distância Carlos Eduardo Bielschowsky Reitor Josué Modesto dos Passos Subrinho Vice-Reitor Angelo Roberto Antoniolli Chefe de Gabinete Ednalva Freire Caetano Coordenador Geral da UAB/UFS Diretor do CESAD Antônio Ponciano Bezerra Vice-coordenador da UAB/UFS Vice-diretor do CESAD Fábio Alves dos Santos Diretoria Pedagógica Clotildes Farias de Sousa (Diretora) Diretoria Administrativa e Financeira Edélzio Alves Costa Júnior (Diretor) Sylvia Helena de Almeida Soares Valter Siqueira Alves Coordenação de Cursos Djalma Andrade (Coordenadora) Núcleo de Formação Continuada Rosemeire Marcedo Costa (Coordenadora) Núcleo de Avaliação Hérica dos Santos Matos (Coordenadora) Carlos Alberto Vasconcelos Núcleo de Serviços Gráfi cos e Audiovisuais Giselda Barros Núcleo de Tecnologia da Informação João Eduardo Batista de Deus Anselmo Marcel da Conceição Souza Raimundo Araujo de Almeida Júnior Assessoria de Comunicação Edvar Freire Caetano Guilherme Borba Gouy Coordenadores de Curso Denis Menezes (Letras Português) Eduardo Farias (Administração) Haroldo Dorea (Química) Hassan Sherafat (Matemática) Hélio Mario Araújo (Geografi a) Lourival Santana (História) Marcelo Macedo (Física) Silmara Pantaleão (Ciências Biológicas) Coordenadores de Tutoria Edvan dos Santos Sousa (Física) Raquel Rosário Matos (Matemática) Ayslan Jorge Santos da Araujo (Administração) Carolina Nunes Goes (História) Rafael de Jesus Santana (Química) Gleise Campos Pinto Santana (Geografi a) Trícia C. P. de Sant’ana (Ciências Biológicas) Vanessa Santos Góes (Letras Português) Lívia Carvalho Santos (Presencial) UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE Cidade Universitária Prof. “José Aloísio de Campos” Av. Marechal Rondon, s/n - Jardim Rosa Elze CEP 49100-000 - São Cristóvão - SE Fone(79) 2105 - 6600 - Fax(79) 2105- 6474 NÚCLEO DE MATERIAL DIDÁTICO Hermeson Menezes (Coordenador) Marcio Roberto de Oliveira Mendonça Neverton Correia da Silva Nycolas Menezes Melo AULA 1 Importânica e atualidade do latim...................................................... 07 AULA 2 Origem e expansão do latim.............................................................. 21 AULA 3 Alfabeto e fonologia do latim ............................................................. 33 AULA 4 Análise sintática e articulação das palavras em latim ....................... 41 AULA 5 As declinações latinas ....................................................................... 53 AULA 6 Estudo dos nomes da 2ª declinação ................................................. 65 AULA 7 Estudo do verbo esse (ser) ............................................................... 75 AULA 8 Adjetivos de 1ª classe ....................................................................... 83 AULA 9 Morfologia dos verbos de 1ª conjugação .......................................... 95 AULA 10 Terceira declinação - nomes masculinos e femininos ..................... 107 AULA 11 Nomes neutros da 3ª declinação ......................................................117 AULA 12 Morfologia dos verbos de 2ª conjugação ........................................ 129 AULA 13 Adjetivos de 2ª classe ..................................................................... 141 AULA 14 Estudo dos nomes de 4ª e 5ª declinação ........................................ 153 AULA 15 Morfologia dos verbos de 3ª conjugação ........................................ 265 Sumário AULA 16 Morfologia dos advérbios e das preposições .................................. 181 AULA 17 Morofologia dos verbos de 4ª conjugação ...................................... 195 AULA 18 Morofologia dos pronomes .............................................................. 205 AULA 19 Conjunções e interjeições ............................................................... 223 AULA 20 Formação de palavras ..................................................................... 233 IMPORTÂNCIA E ATUALIDADE DO LATIM META Mostrar a importância do latim e a sua atualidade no âmbito da língua portuguesa; Demonstrar a profunda relação entre o latim e o português; Explorar elementos conhecidos no léxico e nas expressões inseridas na prática da língua portuguesa. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula o aluno deverá ser capaz de: reconhecer a importância do latim a partir da sua atualidade na prática da língua portuguesa; identifi car elementos comuns às línguas latina e portuguesa; reavaliar o conceito de “língua morta” com que se classifi ca o latim; e analisar a maneira pela qual as formas latinas são recuperadas nos termos derivados e expressões que compõem o discurso de certas áreas do saber. Aula 1 8 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO Caro aluno, seja bem vindo aos primeiros contatos formais com a língua latina. Você, certamente, terá gran- des surpresas com esta disciplina. Primeiro, porque você vai perceber que o estudo do latim não é tão complicado como se fala que é. Depois, porque você já conhece muita coisa de latim. Este conhecimento, acredite, vai contribuir para melhor aprofundamento da língua portuguesa. Tomara que você aprenda a gostar do latim e deseje seguir novos rumos na área de Letras, motivado pelo fascínio que o estudo de latim pode despertar em você. O estudo da língua latina é de suma importância para o curso de Letras, desde que não se adote uma didática em que se prioriza a memorização de regras e fórmulas para as quais não se evidencia um sentido lógico. Infeliz- mente, os próprios professores de latim e os métodos por eles empregados no trato com essa língua são os maiores responsáveis pela antipatia e rejeição que marcou a disciplina ao longo dos tempos. É claro que o pleno domínio da língua latina exige aprofundamento constante, o que, às vezes, requer esforço e dedicação de longos períodos de concentração nos estudos. No entanto, as informações aqui propostas que devem compor o estudo das Letras são de ordem prática e visam à percepção das bases latinas que entram na constituição da língua portuguesa, como também de outras línguas românicas. Fique tranqüilo: aqui não se pretende formar especialistas. O espaço lim- itado de tão poucas aulas também não seria sufi ciente para realizar tal intento. A razão de ser destas aulas é, principalmente, suscitar o interesse pela própria língua portuguesa abrindo os horizontes para a compreensão mais ampla de suas bases que se fi xam na língua latina. Além disso, elas lhe trarão grandes benefícios para os estudos no curso de Letras. Muita coisa dependerá de você. Sucesso! Línguas românicas Termo com que são identifi cadas todas as línguas prove- nientes do latim: português, francês, espanhol, italianoetc. Outras des- ignações também possíveis: línguas neolatinas ou novi- latinas, romances e romanços. 9 Importância e atualidade do latim Aula 1IMPORTÂNCIA DO LATIM Costuma-se caracterizar o latim como “língua morta”. Você já se perguntou o que isto signifi ca? Difi cilmente encontramos alguém que busca assimilar o signifi cado de tal expressão. O latim é realmente uma língua morta, mas no sentido em que ela não é mais usada por nenhuma comunidade como meio de comunicação escrita ou oral. Ninguém, por exemplo, será forçado a estudar o latim para poder comunicar-se em qualquer lugar do mundo para onde se dirija. Nenhum aeroporto do mundo será obrigado a expor letreiros em latim para orientar os transeuntes. O mesmo não acontece com o inglês, o francês, que possuem localização defi nida; nem mesmo com o grego e o hebraico, línguas antigas como o latim, mas ainda usadas por comunidades específi cas de falantes. Além do Estado do Vaticano, o qual ainda tem o latim como língua ofi cial, em nenhum outro lugar do mundo esta língua será necessária como tal. Até se pode dizer que o latim não é mais sufi cientemente estudado na formação dos religiosos católicos, sendo cada vez mais raros os membros do clero que o dominam e o empregam com fi rmeza. Tem-se a impressão, portanto, de que o estudo do latim, por causa das próprias circunstâncias nas quais se encontra, jamais será recuperado em sua totalidade, a não ser pelas universidades que mantêm os cursos de letras clássicas ou por especialistas que necessitem fazê-lo para a plena compreensão de documentos escritos nessa língua. Não há razão, pois, para alimentar saudosismos e imaginar a volta tri- unfal do latim, mas é igualmente lamentável que se queira excluir comple- tamente as abordagens de língua latina dos cursos de Letras como já se fez em todo o ensino brasileiro. 10 Fundamentos da Língua Latina AS LÍNGUAS NEOLATINAS Entre as fi lhas do latim, as chamadas línguas neolatinas, no- vilatinas ou românicas, o português é aquela que guarda maior afi nidade com a língua mãe. Mesmo que tenham existido grandes transformações na passagem do latim ao português, as marcas la- tinas continuam vigentes no léxico da atualidade e – o que é mais interessante – os falantes conseguem circular entre as formas sem qualquer tipo de embaraço. Para citar alguns exemplos, eis a seguir um demonstrativo de como as formas latinas de onde o português se originou são recu- peradas em muitos termos derivados: Latim Português Latim nos derivados Vitrum, i Taurus, i Capra, ae Probabilis, e Hodie Pluvia, ae Aqua, ae Pectus, pectoris Cor, cordis Vidro Touro Cabra Provável Hoje Chuva Água Peito Coração Vitral, vitrifi car, vitrine Taurino Caprino, capricórnio Probabilidade, probabilístico Hodierno Pluvial, pluviômetro Aquário, aquarela, aquoso Expectorar, expectorante Cordial, concordar, recordar Até os falantes mais simples costumam circular com desenvoltura en- tre as palavras derivadas acima e outras tantas e variar as suas incidências, escolhendo, na situação concreta de uso, aquela que melhor se adapta ao contexto. Nessas circunstâncias e aplicado ao ensino das letras, o ensino do latim faz compreender a razão de ser da diferenciação das formas, sendo constatada a presença latina em grande parte do léxico português. Existem alguns meios de demonstrar tal presença, sobretudo no uso constante pelos falantes, atestando muito maior utilização do latim do que se pode imaginar. Para você, que já é um estudante de Letras, porém, este conhecimento deve ser ativado a fi m de torná-lo capaz de identifi car e explicar as marcas latinas, o que terá, como conseqüência, o domínio cada vez maior do léxico. Aos poucos, vai-se percebendo a lógica que permeia a constituição das palavras e as possíveis variações das formas, também conhecidas, nos estudos morfológicos, como alomorfi a. O conhecimento e a aplicação progressiva dos metaplasmos con- duzem à maior liberdade no trato com as palavras, segundo os princípios pelos quais, em circunstâncias idênticas, os efeitos esperados serão sempre os mesmos. Tal processo de análise, uma vez iniciado, não tem previsões de chegar a um ponto fi nal, até porque as palavras de origem latina constituem a maior quantidade em língua portuguesa. Alomorfi a Expressão grega que signifi ca outra forma, numa alusão à possibilidade que tem uma palavra de apresentar mais de uma forma para expressar o mesmo conceito, sem sair, porém, da família a que pertence. Ex- emplo: provável / probabilidade. Este fenômeno lingüísti- co retoma, quase sempre, as bases latinas da língua. 11 Importância e atualidade do latim Aula 1Pode-se dizer que, de certa forma, se fala latim, um latim modifi cado cuja versão atual se chama língua portuguesa. Em nosso léxico, inclusive, percebem-se as bases latinas, uma das razões para reconhecer que o latim representa importante contribuição no conhecimento de nossa língua. Recentemente, um fenômeno curioso se destacou nas instâncias políti- cas superiores: o esquema tão badalado de corrupção que recebeu o nome de mensalão. Claro que não vamos aqui tecer comentários a esse respeito, mas você já se perguntou por que todos os brasileiros entenderam esta expressão criada a partir desse acontecimento sem que suscitasse qualquer problema de compreensão? O termo foi construído sobre as bases latinas mens, mensis, que se tornou mês na língua portuguesa. Para evitar a infl uên- cia e a retomada do latim, o melhor termo seria mesalão, assim como se tem mesada, ambos referindo-se a mês. Percebe-se, no entanto, que, nesse caso, se pôs em prática algo internalizado assim como se tem a forma latina de mês na palavra menstruação. Daí a construção mensalão ser incorporada naturalmente em nosso léxico. Outros meios de reconhecer as marcas latinas podem ser explorados e não representam qualquer estranhamento para os rios do português. Observe quantas palavras você já conhece que têm bases latinas: Metaplasmos Expressão grega que se refere ao mecanis- mo pelo qual as pala- vras são plasmadas, ou seja, trabalhadas, seguindo determi- nados princípios ou leis que se aplicam diante das mesmas circunstâncias. Por exemplo: a relação entre p/b é um meta- plasmo, daí cabra/ca- prino; abelha/apiário. Metaplasmo e alo- morfi a são conceitos que se completam. I - Os signos do zodíaco e seus respectivos adjetivos: 1- Aquário / aquariano (aqua, ae = água). 2 - Peixes / pisciano (piscis, piscis = peixe). 3 - Áries / ariano (aries, arietis = carneiro). 4 - Touro / taurino ( taurus, tauri = touro). 5 - Gêmeos / geminiano ( geminus, i = gêmeo). 6 - Câncer/ canceriano ( cancer, canceris = caranguejo). 7 - Leão / leonino ( leo, leonis = leão). 8 - Virgem / virginiano ( virgo, virginis = virgem). 9 - Libra / libriano ( libra, librae = balança). 10 - Escorpião / escorpiano (scorpion, scorpionis = escorpião). 11- Sagitário / sagitariano (sagitta, sagittae = seta). 12 - Capricórnio / capricorniano (capra, caprae = cabra). 12 Fundamentos da Língua Latina II – As formas superlativas dos adjetivos: 1- Amável / amabilíssimo (amabilis, amabile = amável). 2- Amargo / amaríssimo (amarus, amari = amargo). 3- Agudo / acutíssimo (aucutus, acuti = agudo). 4- Azedo / acérrimo (acer, acris, acre = azedo). 5- Cruel / crudelíssimo (crudelis, crudele = cruel). 6- Doce / dulcíssimo (dulcis, dulce = doce). 7- Fiel / fi delíssimo (fi delis, fi dele = fi el). 8- Frio / frigidíssimo (frigidus, frigidi = frio). 9- Nobre / nobilíssimo (nobilis, nobile = nobre). 10- Pobre / paupérrimo (pauper, pauperis = pobre). ATIVIDADES Pesquise em gramáticas e dicionários da língua portuguesa e apresente outras formas dos superlativos dos adjetivosque comprovam a retomada perfeita do latim no léxico português. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Você encontrará, provavelmente, palavras como negro, cujo superlativo é nigérrimo; magro que tanto pode ser macérrimo (marca latina) quanto você poderá encontrar a forma magríssimo. Mas não se esqueça de que aqui o seu trabalho é buscar a recuperação das formas latinas. III – Os elementos químicos da tabela periódica: 1 - Au / ouro (aurus, auri = ouro). 2 - Ag / prata (argentum, argenti = prata). 3 - Cu / cobre (cuprum, cupri = cobre). 4 - Pb / chumbo (plumbum, plumbi = chumbo). 5 - Na / sódio (natrium, natrii = sódio). 13 Importância e atualidade do latim Aula 1IV – Termos do direito 1 - Habeas corpus. (Que tu tenhas corpo livre). 2 - Sub lege. (Sob a lei). 3 - Causa mortis. (A causa da morte). 4 - In dubio, pro reo. (Em caso de dúvida, seja-se a favor do réu). Sendo o Direito Romano o grande inspirador de leis e princípios no ocidente, muitas expressões jurídicas estão recheadas de latim e estão em constante uso no cotidiano: V – A igreja católica imprimiu marcas latinas em expressões reli- giosas de uso corrente: 1 - Corpus Christi (Corpo de Cristo) 2 - Agnus Dei (Cordeiro de Deus) 3 - Requiem (Descanso). 4 - Mater Christi (Mãe de Cristo) 5 - Via Sacra (Caminho sagrado). 6 - Ora pro nobis (Ora por nós). 7 - Sedes sapientiae (Sede, assento de sabedoria). VI – Outras expressões latinas já se encontram consagradas e aparecem naturalmente implicadas no contexto das frases de língua portuguesa: 1 - Et coetera (etc.) (e as coisas restantes). 2 - Honoris causa (por causa da honra). 3 - Grosso modo (de modo grosseiro, superfi cial). 4 - A priori (a princípio) 5 - In loco (no local). 6 - Ipsis litteris (com as mesmas letras). 7 - Sine die (sem dia). 8 - Vide Bula (vê, observa na bula) 9 - Alibi (outro lugar). 14 Fundamentos da Língua Latina VII – Certos produtos são colocados no comércio com rótulos em língua latina: 1- Plus Vita (mais vida) 2- Natu Nobilis (nascido nobre) 3- Carpe Diem (aproveita o dia!) 4- Lacrima Christi (lágrima de Cristo). 5- Primus (primeiro). 6- Domus (casa). VIII – Objetos, lugares, estabelecimentos, organizações costumam popularizar-se pela marca latina com que são identifi cados: 1- Vade Mecum (vai comigo). 2- Stella maris (estrela do mar). 3- Pueri Pax (paz da criança). 4- Opus Dei (obra de Deus). 5- Agenda, Merenda, Reprimenda, Legenda. 6- Apud (junto de) 7- Ibidem (aí mesmo). Esses exemplos são apenas algumas demonstrações de quanto o latim está presente nas construções do português e de outras línguas, não só românicas. É fácil perceber como muitas expressões latinas passaram a integrar o discurso de certas áreas do conhecimento humano. O estudo do latim vai além da necessidade de compreensão dos me- canismos do português. O latim possui um grande poder de exercitar o desenvolvimento do raciocínio, razão pela qual muitos países, cujos idiomas não pertencem às origens latinas, incluem, por um período razoável de tempo, o ensino do latim entre as disciplinas do currículo de seus alunos. Na verdade, o latim é rico em suas formas fl exionais, na diversidade da ordem dos termos da oração, na variedade de constru ções de um período, aspectos que exigem concentração e oferecem novas possibilidades ao pensamento e ao discurso, prevenindo-os contra a aridez intelectual tão freqüente até mesmo nas universidades. Tenha certeza de uma coisa: você estará descobrindo a grande riqueza da língua portuguesa, seu vocabulário, a variação de formas dos vocábulos de uma mesma família, as noções básicas de etimologia, a compreensão de muitos elementos de ortografi a e acentuação, as fl exões de ordem sintática, 15 Importância e atualidade do latim Aula 1a confi guração semântica de certos termos, enfi m, tenha a certeza de que a sua visão da própria língua nunca mais será a mesma. ATIVIDADES 1. Faça um breve resumo sobre a importância do latim na atualidade. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES A leitura atenta das considerações acima vai dar a você, caro aluno, uma visão da importância e atualidade do latim e, com certeza, você começará a ter interesse por esta disciplina no currículo de Letras desde o momento em que perceber a profunda relação entre o português e o latim. O estudo do latim terá resultados surpreendentes no desenvolvimento do raciocínio, da argumentação, da lógica, elementos básicos para o trato efi ciente com outras áreas do saber. 2. Associe às seguintes palavras latinas os termos conhecidos e em pleno uso na atualidade, como no modelo a seguir: a) Digitus = dedo: digital, digitação, digitador etc. b) Populus = povo: __________________________________________ c) Signum = sinal: ____________________________________________ d) Manus = mão: ____________________________________________ e) Periculum = perigo: ________________________________________ f) Littera = letra: ____________________________________________ COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES É importante você ir percebendo, pouco a pouco, as marcas latinas no léxico português. Elas aparecem em muitíssimas palavras. Com o tempo, você vai observando, mediante pequenas modifi cações, este trânsito entre o latim e o português e o que se pode esperar quando as mesmas circunstâncias se repetem. Nisto também se encontra um excelente exercício de ortografi a, mas esse assunto estará presente em muitos momentos do curso. 16 Fundamentos da Língua Latina 3. Escreva frases em português em cujo contexto se enquadrem perfeita- mente as seguintes expressões latinas: a) Pro labore. ______________________________________________ b) Per capita._______________________________________________ c) Sine qua non.____________________________________________ d) Ad referendum. __________________________________________ e) Curriculum Vitae. ________________________________________ f) Vide verso. ______________________________________________ g) Fac simile. ______________________________________________ COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Muitas expressões latinas encontram-se perfeitamente incorporadas ao exercício da língua portuguesa. Aqui você deve enquadrar as expressões acima em contextos específi cos como: As experiências in vitro (em vidro, no laboratório) estão facilitando a cura de várias doenças. Os produtos in natura (na natureza, naturais) garantem outra qualidade de vida. Como você pode observar, essas expressões latinas aparecem nas frases e não são traduzidas, mas não difi cultam a sua compreensão. Além de construir frases segundo os modelos acima, procure também colocar, entre parênteses, o signifi cado das expressões empregadas. 4. O sentido de muitas palavras do português recupera maior vita- lidade quando é percebido o signifi cado profundo de suas bases latinas. Assim, após tomar conhecimento do signifi cado de certas palavras, interprete o que elas imprimem às frases do português: a) Os corpos estão todos carbonizados (Carbo, carbonis = carvão). ____ _________________________________________________________ b) Este texto certamente não passou pelo crivo de minha avaliação (Cribrum, i = peneira). ________________________________________________ c) A polícia localizou um corpo crivado de balas (Cribrare= peneirar). ___ _________________________________________________________ d) Eu realmente te considero muito (sidus, sideris = astro, planeta, es- trela)._____________________________________________________ e) Você não consegue discernir o certo do errado. (Cernere = peneirar). ________________________________________________________ 17 Importância e atualidade do latim Aula 1 COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES É muito pouco compreender que os corpos carbonizados estão queimados. Ora, se carbonizados vem do latim carbo, carbonis, os corpos, na realidade,viraram carvão, o que é muito mais forte e mais real. Assim pode acontecer com muitas palavras, como as sugeridas nesse exercício. CONCLUSÃO Esta aula deve ser o ponto de partida de uma série de apreciações sobre o latim. É indispensável que você deseje realmente enveredar-se pelo caminho do reconhecimento do papel do latim na formação do estudante de Letras. Estes passos vão exigir de você total empenho para realizar as tarefas propostas e motivar, daqui por diante, a máxima curiosidade para reconhecer a presença do latim em lugares nos quais você nunca imaginou que ele estivesse, sobretudo na confi guração do léxico português e na facilidade com que das formas evoluídas se faz, em- bora inconscientemente, um retorno necessário e enriquecedor ao próprio vocabulário vernáculo. Na próxima aula, será realizado um percurso histórico e geográfi co mostrando como o latim, antes uma simples língua falada no Lácio, na Península Itálica, vai tornar-se uma grande potência lingüística e dar origem a outros tantos falares, entre os quais o português. 18 Fundamentos da Língua Latina RESUMO Embora identifi cado como “língua morta”, o latim jamais perderá a sua importância, cabendo ao profi ssional de Letras reconhecer a sua atualidade nos inúmeros traços lingüísticos que o identifi cam em outras línguas e na grande contribuição cultural que o faz presente em muitas áreas do saber humano. Atualmente, por exemplo, testemunha-se uma grande retomada da música gregoriana. Sua maior característica consiste na perfeita combi- nação entre a melodia de cunho popular, o canto chão como é conhecido, e a língua latina que lhe serve de base. Outro ponto de revitalização do latim pode ser percebido na quantidade considerável de obras recentes tratando da língua latina em si mesma e de propostas didáticas que venham facilitar e tornar agradável o seu ensino. Por muitas razões, portanto, pode-se dizer que o latim jamais desa- parecerá. A designação de língua morta que a ele se atribui deve ser em- pregada com reservas, pois trata-se de um morto que não se acostumou com a sepultura. Música gregoriana Essa é a música adotada pela igreja católica há sécu- los. Recebe este nome em alusão ao papa Gregório, que a estru-turou e lhe deu grande impulso. Também é conhecida como can to -chão , ou canto-plano, por ser especialmente concebida para a execução popular, isto é, sem notas muito agudas, nem notas muito graves. Atualmente o canto gregoriano, cujos textos são todos em latim, estão ampla- mente divulgados. Você pode encon- t ra r exce len tes gravações moder- nas em maravilho- sos CDs. Praemonitus est Praemunitus “Ecce! Illud accidit eis qui semper ungues mordent!!” 19 Importância e atualidade do latim Aula 1REFERÊNCIAS ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. São Paulo: Saraiva, 1995. CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. GONZAGA, Maria Cristina de Brito. Frases de latim forense. São Paulo: Livraria de Direito, 1994. LUIZ, Antônio Filardi. Dicionário de expressões latinas. São Paulo: Atlas, 2002. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do Cérebro, 1999. VIARO, Mário Eduardo. Por trás das palavras. São Paulo: Globo, 2004. _______. Importância do latim na atualidade. Revista de ciências hu- manas e sociais. São Paulo: Unisa, v. 1, n. 1, p. 7-12, 1999. ORIGEM E EXPANSÃO DO LATIM META Situar o espaço histórico-geográfi co onde o latim se originou; Apresentar as razões que explicam a extensão do latim e das línguas neolatinas entre as quais se encontra o português. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula, o aluno deverá: reconhecer o processo histórico, político e cultural por cujo meio o latim se expandiu e se diversifi cou; conceituar substrato, superstrato e adstrato; identifi car as variedades do latim nas regiões por onde se propagou e a sua pertinência na atualidade; e distinguir os fatores externos e internos das variações do latim. PRÉ-REQUISITOS Ter em mãos um atlas geográfi co e um livro de História Geral que trate sobre a expansão romana. Aula 2 Legionários romanos (Fonte: http://www.vroma.org). 22 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO Na aula 1, você viu a importância e a atualidade do latim, que, apesar de ser considerado língua mor- ta, continua presente na atualidade sob diversas formas. Esta aula vai expor o processo de expansão do latim e as circunstâncias que favoreceram a sua aquisição como a língua mais importante em várias partes do globo. De uma simples língua primitivamente falada na região do Lácio – Itália central – em meados do século VIII a.C., vão ter origem outras tantas atu- almente conhecidas como neolatinas, novilatinas ou românicas. O surgimento de tais variações que se afi rmam como novos idiomas não ocorreria sem o caráter dinâmico da comunicação. Nesta perspec- tiva, o ambiente lingüístico e o meio sócio-cultural criaram as condições para que aparecessem falares diversos. Cada comunidade adotava o latim, somando-o ao seu falar já existente. Daí a diversidade dos falares, na qual se acha o português. Para o estudioso de Letras, o conhecimento do processo de transfor- mação do latim e o conseqüente surgimento dos diferentes romances pode ajudar a melhor compreender a dinâmica das variações que, ainda hoje, ocorrem no seio da própria língua portuguesa. Pode-se dizer, então, que, de certa maneira, o nosso português hoje vigente é o próprio latim trans- formado. Aliás, até o português do Brasil apresenta diferenças signifi cativas do português de Portugal. Romances Aprenda a distin- guir romance de romântico e ro- mance de români- co. Ao primeiro termo corresponde à concepção da maioria das pes- soas: são as obras literárias de fundo sentimental, amo- roso, passional etc. O segundo termo, também conheci- do como ro-maço ou romance cor- responde as lin- guas provenientes do latim, a língua de Roma. Assim, o português é um romance, o francês é um romance etc. 23 Origem e expansão do latim Aula 2LATIM O nome latim associa-se ao lácio, ou seja, o latim é, na sua origem, a língua do Lácio, região que hoje corresponde à cidade de Roma e suas cercanias. Os fi lólogos relacionam uma língua a uma determinada família. O reconhecimento de algumas semelhanças entre as línguas leva-nos a crer na existência de um falar mais antigo do qual se originaram. No contexto de uma ampla rede de línguas assemelhadas, o latim pertence à família das indo-européias, assim como o osco e o umbro, língua da Úmbria. As semelhanças entre esses três idiomas (o latim, o osco e o umbro) fazem supor a existência de uma língua única, que se convencionou chamar de Itálica, à qual pertencem outros idiomas falados na mesma época. Mapa do Lácio. Filólogos São aqueles que estudam rigorosa- mente os documen- tos escritos antigos e sua transmissão, para estabelecer, interpretar e edi- tar textos. Também estudam cientifi- camente o desen- volvimento de uma língua ou de família de línguas, em es- pecial a pesquisa de sua his tór ia m o r f o l ó g i c a e fonológica baseada em documentos es- critos e na crítica dos textos redigidos nessas línguas. Osco Língua do Sâmnio (Samnium) e da Cam-pânia (Cam- pania). 24 Fundamentos da Língua Latina Em perspectiva mais ampla, o grupo das Itálicas pertenceria a uma família bem maior à qual se relacionariam todas as línguas oriundas do hipotético indo-europeu. É esta uma tentativa de buscar uma língua comum que teria dado origem a uma grande parte dos falares da humanidade. Em resumo: o latim é uma língua do grupo Itálico da família indo-européia à qual também pertencem outros grupos: o índio,o irânio, o armênio, o frígio, o hitita, o tocário, o grego, o albanês, o ilírio, o celta, o germânico, o báltico e o eslavo. O conceito de línguas indo-européias refere-se, pois, aos grandes gru- pos de línguas acima destacados, que são faladas hoje na Europa e em parte da Ásia. Tais idiomas, incluindo, pois, os do grupo itálico a que pertence o latim, encontram-se aparentados entre si como se fossem todos derivados de uma fala antiqüíssima e mãe comum de todos eles. Esta língua ancestral e hipotética não se conserva na atualidade, e ninguém sabe como ela era exatamente. Entretanto, é possível afi rmar que a língua indo-européia existiu, num determinado momento da nossa história, pois os fi lólogos, através de comparações de textos antigos, a reconstituíram observando os pontos em comum entre todos esses dialetos. Eles supuseram que o indo-europeu foi falado por um grupo que se dispersou, alguns milênios antes da era cristã, por motivos até hoje descon- hecidos, espalhando-se pela Europa e pela Ásia onde o primitivo idioma se disseminou e se diversifi cou. Resumindo: o termo língua indo-européia, ou proto-língua, refere-se à língua primitiva ou fundamental. Todas as outras que dela se originam são identi- fi cadas como dialetos ou línguas indo-européias. Tais línguas aparentadas entre si formam o que se chama Tronco Lingüístico Indo-europeu e a cada grupo daí proveniente se pode particularizar mediante expressões, como: indo-germânicas, indo- celtas, indo-irânico etc. O latim é, portanto, língua indo-européia, do grupo indo-itálico. A história do latim também não foi diferente. Durante o longo período em que foi utilizado como língua viva, sofreu profundas transformações, o que se deve ao próprio caráter dinâmico e evolu- tivo das línguas. O latim foi levado a todos os territórios conquistados pelos romanos e, dessa maneira, a Ancestral Aquilo que per- tence aos antepas- sados, tudo quanto se refere à cultura e costumes antigos. Hipotética Algo que está sob hipótese, ou seja, carente de provas e demonstrações que garantam a veracid- ade dos fatos. 25 Origem e expansão do latim Aula 2língua originariamente falada no Lácio e em outras regiões da Itália nunca mais foi a mesma. Roma e todo o seu império não tinham preocupações com sua própria língua em relação às políticas de imposição aos novos povos dominados por eles. As tropas romanas não se deslocavam para divulgar a língua latina. Eles estavam interessados, na maioria das vezes, em conquistar mais terras para aumentar seu poder econômico e político. O latim vai, por assim dizer, na bagagem dos conquistadores e coloniza- dores. Essa língua que saía de Roma junto com seus soldados, funcionários da administração, comerciantes, artesãos era a língua popular, o sermo vulgaris em oposição ao sermo urbanus, ou seja, o falar das classes eruditas, dos escri- tores e oradores, conhecido e utilizado por um número limitado de habitantes. Como se percebe, já existiam variações dentro do próprio latim e foi esse latim das classes populares que se espalhou pelos domínios de Roma. Da mesma forma, percebemos essas variações em nossa língua atual. Tanto você pode dizer “nós vamos”, como “a gente vai”. As duas formas estão corretas sob o ponto de vista do uso padrão da língua portuguesa. Mas sabemos que a forma “a gente vai” é mais popular, é mais coloquial do que a forma “nós vamos”. Sermo vulgaris Também chama- do de latim pop- ular, rústico e vulgar, era uti- lizado pelo povo s e m g r a n d e s preocupações quanto ao uso erudito. Sermo urbanus Também conhe- cido como latim clássico, literário ou erudito, era a língua dos es- critores e ora- dores, a exemplo de César, Cícero, Virgílio, Horácio, Tito Lívio etc. Expansão do latim no Mundo Ocidental (Fonte: www.geocities.com). 26 Fundamentos da Língua Latina Para melhor entendermos a transformação progressiva do latim, é necessário conhecermos as diversas fases ou momentos classifi cados de acordo com os períodos históricos de sua evolução. A primeira delas é o período pré-histórico. Essa denominação foi dada ao momento em que a língua latina fora usada nos primeiros tempos, ou seja, por volta do séc. VIII a.C. Depois, ele foi suplantando os outros falares da região e estendeu-se por toda a península itálica. Nos fi ns do III século a. C., começam as conquistas romanas em ter- ritórios que comportam praticamente toda a Europa Ocidental e parte da Europa Oriental, o Norte da África e as regiões da Ásia Menor. ATIVIDADES Destaque as razões que levaram o latim a tornar-se a língua da Península Itálica, de grande parte da Europa e de algumas faixas da África do Norte. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES O latim, por se tratar de uma língua, não foi sozinho a nenhum lugar. Os soldados romanos, que falavam o latim vulgar, ao conquistarem as terras da Península Itálica, de grande parte da Europa e de algumas faixas da África do Norte, levavam consigo sua língua. Daí o latim ser falado nessas regiões. Em outras palavras, as causas da expansão do latim no mundo estão diretamente ligadas à expansão do Império Romano. O latim, inicialmente, sofreu infl uência do etrusco (língua não indo- européia), do gaulês e, sobretudo, do grego cuja cultura os romanos pro- curavam imitar e assimilar. Nos períodos da República e do Império, a língua latina já apresentava dois níveis fundamentais: o sermo urbanus e o sermo vulgaris. Foi o latim vulgar que saiu de Roma para representar a língua do invasor, do dominador e para ser prestigiado e imitado pelos povos dominados. Períodos do Império Romano Monarquia: séculos VIII a V a.C.; República: séculos V a II a.C.; Império: séculos I a.C. a século V d.C; No século V. d.C., precisamente em 476, acontece a queda do Império Romano do Ocidente. 27 Origem e expansão do latim Aula 2ATIVIDADES Caracterize os níveis fundamentais da língua latina. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Da mesma forma que temos uma língua culta e uma outra menos formal, o latim também apresentava esses dois níveis: o erudito que se empregava na literatura dos grandes oradores, pois obedecia às normas gramaticais da escrita; e o popular que não possuía uma forma escrita e, dessa maneira, era menos rígido e muito mais variado do que o latim clássico. Assim, qualquer dialeto que já era falado pelas comunidades invadidas pelos romanos era denominada de substrato, quer dizer, a língua de base de uma população, pois, em nenhum dos territórios conquistados, os romanos teriam encontrado um povo mudo, sem qualquer expressão lingüística de suas comunicações. O latim, por sua vez, aparece como superstrato, a língua que vem de fora, de cima, falada por um menor número de pessoas, mas com grande poder político e econômico, o que leva a superar paulatinamente os idiomas nativos. Do contato da língua do invasor romano com cada substrato, vão surgir os romanços ou romances, as novas línguas fi lhas do latim, dentre elas, o português. Muitas vezes, observa-se uma convivência natural e sem atritos entre idiomas, situação em que perduram contribuições paralelas com elementos que vêm de ambos os lados. A isso denomina-se de adstrato, persistindo, num mesmo ambiente lingüístico, características diferenciadas nas quais se percebem origens distintas como tantas vezes aconteceu no contato do latim com o grego. 28 Fundamentos da Língua Latina CONCLUSÃO A expansão do latim em grande parte do mundo, ainda que tenha transformado em falares diversos, é, com certeza, bem mais signifi cativa do que o seria se estivesse permanecido no território de origem. Sem o movimento dos romanos para o exterior, provavelmente não aconteceriam as grandes transformações do latim e nem o extraordinárioefeito multiplicador, hoje confi rmado por grande parte das línguas modernas. RESUMO Esta aula forneceu bases para bem situar o latim, suas origens e sua expansão. O reconhecimento dos espaços geográfi cos e da periodização histórica contribui para uma visualização mais ampla, não somente do fator lingüístico, mas de todo o contexto cultural, político, econômico e social que fez a língua de Roma tornar-se um idioma importante pela grande herança que deixou para a humanidade. O latim foi levado a pontos distantes do seu território de origem e teve grande efeito na formação de outras línguas, dada a aproximação com outras culturas para as quais serviu de superstrato lingüístico. O conhecimento dessa realidade leva a perceber como o dina- mismo das línguas vivas proporciona grandes variações num processo que até hoje se verifi ca com o desenvolvimento das línguas modernas. O nosso português é o próprio latim transformado. 29 Origem e expansão do latim Aula 2 Gratias ante Cenam Viator quidam, dum iter per siluam facit, leoni occurrit uitam petens geni- bus nixus est. Nihil tamen factum est, sed ubi aperuit leonem quoque genibus nixum uidit. Viator, “Tunc quoque,” inquit, “uitam petis?” Leo, “Minime uero”, inquit, “Gratias ante cenam ago.” ATIVIDADES A leitura atenta das considerações expostas e a visualização dos mapas e gráfi cos vão permitir a você, caro aluno, atingir a meta aqui proposta. Observe com atenção esses recursos didáticos, procurando compreender os dados que eles querem transmitir. É de suma importância situar histórica e geografi camente as origens e a expansão do latim e compreender a con- ceituação básica que envolve a questão de sua diversifi cação em outros idiomas, até para melhor captar a confi guração da língua portuguesa e toda a dinâmica da variação, assunto em grande pauta na atualidade. 1. Agora marque com um x as afi rmações corretas: a) Na Península Ibérica dominada pelos romanos, o latim se classifi ca como língua de substrato ( ). b) O basco é uma língua indo-européia. ( ). c) O grego moderno pertence ao grupo helênico das línguas indo-européias. d) Grande parte da valorização do latim se deve à importância que a Igreja Católica lhe conferiu. ( ) e) As línguas românicas derivam do latim pelos bons escritos dos autores clássicos. ( ). f ) Mesmo com todo o poderio de Roma, o latim jamais conseguiu desbancar defi nitivamente o grego. ( ) g) Os romanos tinham sérias preocupações lingüísticas entre as suas am- bições de domínio sobre o mundo. ( ) 30 Fundamentos da Língua Latina COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Você deve, com certeza, ter marcado os itens c,d e f. Isto porque, ao que se sabe, entre famílias linguísticas do indo-europeu, o grego pertence ao grupo helênico. O latim deve muito ao grego e os romanos têm na civilização Helênica muitas bases para defi nir a sua própria cultura . Muitas vezes aparece a expressão greo-romana como destaque para as fortes semelhanças entre as duas culturas, sendo, porém, muito grande a dívida do latim em relação ao grego. Helênico Esta palavra e out- ras como helenis- mo, hele-nístico, helenização etc., dizem respeito às considerações so- bre a infl uência da Grécia para a cul- tura do mundo. 2. Sem qualquer recurso de dicionário, tente decifrar o que querem dizer as frases latinas a seguir: a) Roma est in Italia. b) Italia poeninsula longa est. c) Sicilia insula magna et agradabilis est. d) Rosa esta alba est rubra. e) Aquila non captat muscas. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Você conseguiu traduzir as frases da questão 2? Veja que elas não são difíceis porque se parecem muito com o nosso português. A primeira frase, por exemplo, signifi ca Roma está na Itália. Observe como se assemelha ao português. A curiosidade é o verbo “ser” (est) também aparecer com o sentido de “estar”, o que não é novidade, pois no português isso também acontece: “O senhor é (está) convosco”. “Deus seja (esteja) contigo” etc. Cabe a você buscar nas outras frases a compreensão do latim a partir das semelhanças com o português. 3. Nas palavras destacadas das frases da questão 2, reconheça semelhanças entre o latim e o português: INSULA / MAGNA / AGRADABILIS / ALBA / RUBRA / AQUILA / CAPTAT. 4. Estabeleça correlação entre as palavras latinas e os termos que aparecem destacados nas frases portuguesas: a) Ele é obrigado a tomar INSULINA todos os a dias. b) Algum estado brasileiro tem capital INSULAR? c) Você possui um espírito MAGNÂNIMO. 31 Origem e expansão do latim Aula 2d) A raça ALBINA sofre com a luminosidade. e) Aquele rapaz tem nariz AQUILINO. f) CAPTASTE o que eu te disse? COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Viu que foi o latim a língua base da nossa língua? A insulina, por exemplo, é uma palavra que vem do latim insùla,ae que signifi ca ilha, porque essa substância (a insulina) é secretada numa área do pâncreas chamada ilhotas de Langerhans. Insular também é uma palavra que tem a mesma origem de insulina, ou seja, uma capital insular signifi ca uma capital que é uma ilha. Alguém que tem um espírito magnânimo é alguém bondoso, generoso, grandioso. Essa palavra tem a sua base no latim magnus, a, um que signifi ca grande, nobre e generoso. Daí, Carlos Magno, quer dizer, Carlos o Grande. O mesmo se diga de Leão Magno, Gregório Magno e de tantos termos que possuem a mesma raiz: magnânimo, magnífi co, magnitude, magnifi cência etc. Tente fazer o mesmo com as outras palavras. REFERÊNCIAS CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. SOARES, João S.. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. TARALLO, Fernando. Tempos lingüísticos. São Paulo: Ática, 1994. ALFABETO E FONOLOGIA DO LATIM META Apresentar os sons da língua latina e as suas possíveis pronúncias; Demonstrar a posição do acento tônico pela quantidade de tempo que a pronúncia de cada sílaba requer. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula, o aluno deverá: identifi car os elementos fonéticos que compõem a língua latina; reonhecer o alfabeto latino e a sua relação com o alfabeto português; relacionar as pronúncias latinas entre si, reconhecendo particularidades na articulação das sílabas; e identifi car as posições do acento latino, em conformidade com as noções da quantidade de tempo que se deve demorar em cada sílaba. PRÉ-REQUISITOS Leitura das aulas 1 e 2. Aula 3 34 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO Caro aluno, o reconhecimento dos sons é o primeiro momento de contato com uma nova língua. Se você estuda uma língua moderna, este trabalho torna-se mais fácil porque hoje são muitos os recursos para captar, na mais perfeita sutileza, os dife- rentes sons ou fonemas que compõem uma língua. Quando se trata de línguas antigas, mortas ou desaparecidas, essa tarefa se mostra bem mais complexa, devido à inexistência ou total carência de registros de toda ordem, sendo os registros sonoros inteiramente impossíveis de se obter. Parece complexa a tarefa de identifi car os sons de uma língua antiga, uma vez que não se dispõe de provas registradas da modalidade oral da língua antiga que se deseja conhecer. O ensino das línguas contemporâneas desconhece esse problema, so- bretudo depois dos grandes avanços na arte de registrar os sons. No caso específi co do latim, porém, a tarefa é, de certa forma, simplifi cada, haja vista as considerações de gramáticos romanos que se ocuparam do assunto fornecendo descrições dos fonemas da língua em certas épocas. As três pronúncias latinas aqui apresentadas são hipóteses, sendo permitida qualquer uma delas à escolha de quem pratica o latim. Ainda assim, recomenda-se, para facilitar ao máximo os estudos,que o estudante se atenha a uma delas. Convém, no entanto, dizer que a pronúncia tradi- cional é aquela à qual os ouvidos já estão habituados, não causando muita estranheza ao principiante. 35 Alfabeto e fonologia do latim Aula 3ALFABETO E FONOLOGIA O alfabeto latino foi adaptado do alfabeto grego por ter sido este levado a Roma pelos etruscos, os quais o utilizaram relativamente muito cedo, como atestam as primeiras inscrições do século VII ou VI a.C. Por muito tempo, o alfabeto latino constou de 21 letras: a/b/c/d/e/f/g/h/i/k/l/m/n/o/p/q/r/ s/t/u/x. No século I a. C., a fi m de transcrever certas palavras gregas, as letras /y/ e /z/ foram acrescentadas ao alfabeto, que passou a conter 23 letras. Como se percebe, as letras /j/ e /v/ não existiam no alfabeto original. A função dessas letras até hoje associadas, respectivamente, ao /i/ e ao /u/ pode ser notada em palavras nas quais constituem exemplos de alomorfi as. Por exemplo, a inscrição posta sobre a cabeça do Cristo crucifi cado “INRI” traduz Jesus Nazareno Rei dos Judeus e aí se tem o /i/ substituindo o /j/, assim como se tem no léxico atual a variação das formas /maior/ e /major/ para dizer exatamente o mesmo conceito. No que diz respeito à relação /u/ e /v/, tem-se: riuus > rivus > rival neurologia > nevralgia Observem-se também as possibilidades de pronúncia da letra w, ora relacionando-a ao /u/, como é o caso de Wellington, ora relacionando-a ao /v/, como em Walter. As consoantes /x/ e /z/ são duplas e têm o som /ks/ e /dz/, respec- tivamente. A fi m de evitar confusão no uso do latim, aqui será apresentada a pronúncia tradicional, cabendo a você, estudante, realizar pesquisas e estabelecer paralelismos, a fi m de perceber as diferentes possibilidades de pronúncia. Entenda, porém, que esse é um elemento secundário para quem quer conhecer o latim. E tenha certeza de que, aos poucos, você estará habitu- ado com a maneira de pronunciar as palavras, reconhecendo que você já dominava grande parte do conhecimento nesta área. A Pronúncia Tradicional difere da pronúncia do português nestes casos: 1. Os ditongos ae e oe soam e: Exemplo: Regina Coeli (céli), Curriculum vitae (vite) e et coetera (et cétera). O uso do trema (¨) serve para desfazer o ditongo nos casos acima. Ex: Pöeta. 2. Os grupos ch, ph e th soam respectivamente k, f, t: Ex.: brachium (brákium), philosophus (fi lósofus) e thesaurus (tesáurus). 3. A sílaba ti, quando seguida de vogal, soa ci : laetitia (Letícia). Esta sílaba, porém, embora seguida de vogal, soa igual ao português, quando está no início da palavra ou quando é precedida por s, x ou t: tiara, ostium, mixtio, Alomorfi as Termos que dizem o mesmo conceito, na mesma família, apenas tendo alter- nados os metaplas- mos. 36 Fundamentos da Língua Latina Bruttium. 4. A vogal u soa sempre: quintus (qüintus). 5. O x soa ks e o y soa i: exemplum (eksemplum), Lyra (lira). Observações gerais: a) Evite-se o som mudo do e e do o, e todo som nasal, ou seja, e é sempre e, o é sempre o e não como em português (menino = mininu). Assim mare (mare e não mari), dono (dóno e não dônu), amamus (amámus e não amâmus). b) Pronunciem-se todas as consoantes, também as geminadas, mas não se acrescente nenhum outro som.: Stella (sté-la e não Estela). c) O m fi nal soa como na palavra inglesa him e não como em jardim. ACENTUAÇÃO DAS PALAVRAS Em latim, como em outras línguas, a sílaba é formada por um conjunto de fonemas pronunciados em uma só emissão de voz. Assim, a sílaba pode ser representada por uma só vogal (a-mo), por um ditongo (ae-ter-nus, au-rum, Eu-ro-pa) ou por conjuntos de uma ou duas sílabas consoantes mais vogal ou ditongo (ro-sas, pra-tum, coe-lum, proe-li-um) ou conjun- tos terminados por consoantes (for-tis). Se terminar em vogal, a sílaba é chamada aberta e, terminando em consoante, a sílaba é chamada fechada. Para defi nir a posição da sílaba tônica nas palavras, o latim trabalha com a noção de quantidade. A língua desconhece os acentos à semelhança do português. Apenas duas marcas indicam se a tônica deve estar no mesmo lugar do indicativo da quantidade ou se deve recuar para a sílaba anterior. Também desconhece a posição da tônica na última sílaba. Assim, o latim não pos- sui palavras oxítonas e, tal como em português, a sílaba tônica jamais virá antes da proparoxítona. Em que consiste a quantidade? Esse elemento de prosódia que se perdeu nas línguas românicas representa a duração de vogais ou sílabas, que po- dem ser longas ( __ ) ou breves . Uma vogal ou sílaba longa leva o dobro do tempo de uma vogal ou sílaba breve para ser articulada. Portanto, uma longa equivale a duas breves: __ =. Você pode pensar na teo- ria musical e fazer a mesma relação de valores: uma semibreve equivale a duas mínimas; uma mínima equivale a duas colcheias e assim sucessivamente. Geminadas Geminadas são as consoantes gêmeas, ou seja, que apa- recem duplicadas numa sílaba. Ex.: illuminatio. Oxítonas São aquelas em que a sílaba tônica re- cai sobre a última, como em café, caju, abacaxi etc. 37 Alfabeto e fonologia do latim Aula 3Você vai notar, ao logo do curso, que o latim tem pronúncias diferen- tes, mas que não perturbam a compreensão do texto oral. Na escrita, essas marcas já vêm impressas e basta um pouco de atenção para situar a tônica no seu devido lugar, conforme a orientação seguinte: Onde estiver a marca da longa, aí também estará a tônica: docere = docére. E onde estiver a marca da breve, a tônica virá para a sílaba anterior: discere = díscere. Esses exemplos são de fácil associação, pois, no primeiro, trata-se do verbo ensinar e, no segundo, do verbo aprender. A QUANTIDADE E SUAS REGRAS Aqui você terá uma breve noção de como as sílabas são consideradas em latim. Este é um dos assuntos mais difíceis no trato com a língua, pois comporta uma centena de regras, todas bastante complicadas. Em muitos textos, tentando facilitar a compreensão do acento latino, costuma-se recorrer ao mesmo sinal do português, o acento agudo ( ´). Você vai ver muito este procedimento em textos que servem de base para os ofícios, celebrações e documentos da Igreja Católica: Dóminus, pópulus, árborem etc. Esta postura, no entanto, não é recomendável, visto que o latim não possui este tipo de acento. A difi culdade, contudo, só existe para as palavras com três ou mais sílabas. Os outros casos são de fácil solução. Como foi dito, o acento não vai jamais para a última sílaba. Nesse caso, se a palavra só tem duas sílabas, ela será sempre paroxítona. O problema está nas palavras com três ou mais sílabas, as quais podem ter a tônica na penúltima ou na antepenúltima. Neste caso, a atenção deve ser maior, sobretudo se a marca da quantidade não estiver grafada. Para tanto, algumas orientações se fazem necessárias: a - Em princípio, uma vogal é breve quando é seguida de outra vogal: cus- todiam, pueros, Amulius. b - Uma sílaba pode ser longa por natureza ou por posição. É longa por natureza se contém uma vogal longa ou um ditongo: Roma, Rex, Rheam, misit, amoena. É longa por posição se a vogal é seguida por duas consoantes (exceto oclusiva seguida de líquida) ou de uma consoante dupla ou geminada: custodiam, infan- tes, postea, mitto, examen. Ao contrário do que veio a acontecer nas línguas neolatinas em que o acento é 38 Fundamentos da Língua Latina de intensidade, o acento em latim era de altura ou melódico e só, secundari- amente, de intensidade. A tendência, porém, já predominava, desde o século V d.C., não só para o acento de intensidade como também para tornar-se norma tanto no latim culto quanto no latim vulgar. Assim, as marcas de altura e de quantidade foram desaparecendo e hoje se pronunciao latim como se pronuncia o português, imprimindo maior força à sílaba tônica. Você vai reconhecer como é difícil distinguir na pronúncia as sílabas breves das longas, mas uma breve noção pode elucidar parte do problema. eram (eram = breve) por oposição a Felix ( felix = longa). opera ( ópera = breve) por oposição a Roma (Roma = longa). A quantidade da penúltima sílaba, porém, é fundamental para a orto- fonia do latim em palavras com 3 ou mais sílabas. Assim: a) O acento recai sobre a penúltima sílaba, se esta for longa: infantes, Palatino. b) O acento recai sobre a antepenúltima, se a penúltima for breve: Amulis, custodiam, pueros, Romulus, condidit. c) Nas palavras de duas sílabas, o acento sempre recai sobre a penúltima: Rheam, dedit. Eis a razão pela qual, em português, a maioria das palavras tem o acento na penúltima sílaba. ATIVIDADES 1. Pesquise as três pronúncias possíveis do latim e estabeleça um quadro de comparações: Ortofonia orto= correto; fo- nia= som. Daí, or- tofonia significa pronúncia correta. CONCLUSÃO A incomparável clareza do alfabeto latino não impõe muitas difi cul- dades para um leitor contemporâneo, em- bora não seja possível determinar a pronúncia exata da língua latina no tempo dos romanos. 39 Alfabeto e fonologia do latim Aula 3RESUMO Num primeiro contato com uma língua, um dos aspectos mais impor- tantes é o reconhecimento dos sons que a compõem. Assim, no latim, o alfabeto foi adaptado do Grego, e somente depois de algum tempo é que teremos as 23 letras que já conhecemos hoje. O maior problema está na pronúncia, uma vez que não temos registros orais, mas as descrições feitas pelos romanos acerca dos fonemas da língua contribuíram signifi cantemente para os estudos posteriores do latim. A pronúncia tradicional prevê deter- minadas regras, às vezes, diferindo das regras do português, como é o caso dos ditongos /ae/ que se pronunciam /oe/ em latim; às vezes, respeitando, imitando-as, como é o caso da acentuação de algumas palavras paroxítonas. ATIVIDADES 2. Colecione palavras com acentos em posições variadas e relacione-as entre si. REFERÊNCIAS CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana D. Bosco, 1981. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do Cérebro, 1999. SOARES, João S. Latim 1 - Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almadina, 1999. ANÁLISE SINTÁTICA E ARTICULAÇÃO DAS PALAVRAS EM LATIM META Revisar os conhecimentos de análise sintática para os estudos da língua latina; Demonstrar a associação de funções e casos no contexto das frases latinas. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula, o aluno deverá: avaliar o funcionamento de uma língua fl exional; reconhecer a ligação entre análise sintática e língua latina; e descrever os casos latinos e sua distribuição nas diferentes funções da sintaxe. PRÉ-REQUISITOS Leitura das aulas anteriores e conhecimentos básicos de análise sintática, segundo as normas gramaticais. Aula 4 Sintaxe espacial (Fonte: http://urbanidades.arq.br). 42 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO Caro aluno(a), na língua latina, as palavras variáveis não possuem apenas duas formas – uma do singular, outra do plural – como acontece com as línguas modernas. Certas línguas antigas, como o latim e o grego, são consideradas fl exionais, pois as ter- minações das palavras devem variar de acordo com a função sintática que elas exerçam na frase. Assim, jamais você vai ter certeza da terminação de uma palavra se não conhecer a sua posição sintática na frase e, para isso, você precisa ter um conhecimento seguro de análise sintática. Essa exigência não vai parecer tão árdua se você estiver disposto a re- visar um assunto que, certamente, já foi estudado diversas vezes na escola. Por outro lado, aproveite a ocasião e tente assimilar o conhecimento desse assunto para nunca mais esquecer. Começamos, pois, com um trabalho de revisão de análise sintática de acordo com as normas da gramática tradicional. Não procure decorar re- gras, tente apenas entender os conceitos e exercitar a sua aplicação prática em qualquer circunstância. Se você, por exemplo, assimilou o que seja um objeto direto, um adjunto adnominal etc., não há como não reconhecê-los no contexto das frases. O domínio deste conhecimento é indispensável para trabalhar o latim. (Fonte: http://img362.imageshack.us). 43 Análise sintática e articulação das palavras em latim Aula 4ANÁLISE SINTÁTICA E ARTICULAÇÃO Os estudos de gramática apresentam duas possibilidades de análise das palavras. Uma delas é a morfológica, tradicionalmente chamada de análise léxica, em cuja prática são detectadas e explicadas as classes a que as palavras pertencem, bem como as suas diferentes partes – prefi xos, radicais, sufi xos, vogais de ligação, desinências - que, somadas, formam um conjunto harmonioso, ou seja, a confi guração fi nal com que as palavras são usadas pelos falantes. Esse tipo de análise será visto na aula 19, quando trataremos do processo de formação das palavras. No entanto, durante o desenvolvimento do curso, você irá tomando conhecimento desse processo, haja vista a necessidade de conhecer os componentes imediatos da palavra para exercitar a aplicação de desinências ao radical. Nesta aula, porém, o seu interesse deve concentrar-se na identifi cação das funções sintáticas que as palavras assumem nas frases para relacioná- las entre si e imprimir sentido à sentença. Para trabalhar as palavras latinas, você precisa ter um bom conhecimento de análise sintática. Observe como a função sintática interfere na forma das palavras. Você já deve ter visto as expressões latinas que são apresentadas a seguir. Nelas a palavra DEUS vai aparecer em formas variadas a depender da função sintática exercida na frase. Em português, não haveria qualquer alteração, seria a forma DEUS para qualquer função. No latim, é diferente. Observe: a) DEUSdet ou DEUSdedit (nomes de pessoas – signifi cando (que) Deus dê ou (foi) Deus (que) deu. Como sujeito das duas frases, a forma é DEUS. b) Agnus DEI (signifi ca Cordeiro DE DEUS (divino). Na função de ad- junto adnominal restritivo, a forma DEUS que serviu para o sujeito nas frases anteriores, já não serve mais para esta frase. A forma correta é DEI. c) DEO gratias ( quer dizer graças A DEUS ). A palavra Deus agora é um objeto indireto e deve ser escrita DEO. d) Te DEUM laudamos (parte de um canto de ação de graças (louvamos-te Deus). Agora, como objeto direto, a forma da palavra já deve ser DEUM. O exemplo acima é apenas um demonstrativo de como o latim trabalha suas palavras. Imagine que esse processo deve ser feito com todas as palavras variáveis, de modo especial, substantivos e adjetivos. Não adianta, portanto, decorar uma única forma de cada palavra e nem se desesperar imaginando uma loucura de formas para assimilar. Fique tranqüilo! Você não vai precisar memorizar nada. Você Morfológica Diz respeito às for- mas que as palavras apresentam na lin- guagem. Nesse es- tudo são analisadas as configurações de gênero, número, classes e os proces- sos de formação a que obedecem as palavras. Léxica Repertório de pala- vras de uma língua, o inventário de to- dos os termos usa- dos para a efetiva- ção de uma língua. Sintática Combinação entre funções devidam- ente reconhecidas para, fi nalmente, ser possível a comuni- cação além da sim- ples palavra isolada e no contexto mais amplo da frase. Criação de Adão (detalhe), de Michelangelo (Fonte: http://studentorgani- zations.missouristate.edu). 44 Fundamentos da Língua Latina receberá um quadro em que todas as formas estarão contidas.Se você souber análise sintática e estiver bem certo da função das palavras nas frases, irá buscar no lugar certo do quadro aquela forma que lhe interessa, naquele momento, para aquela frase específi ca. Certamente não é um trabalho muito fácil, sobretudo pela falta de segurança em análise sintática, assunto já tantas vezes estudado. Tenha certeza de uma coisa: será bem mais difícil a questão da sintaxe do que do próprio latim em si mesmo. O terror do latim sempre foi a obrigação de saber de cor as declina- ções, os verbos. Esse método está superado, embora muitos mestres ainda o adotem – até por certo prazer doentio de mostrar que os alunos nada sabem. Fazendo isso, estão desestimulando os alunos e negando ao latim as boas chances de ser uma disciplina agradável, leve, cuja necessidade, pelo menos nos cursos de Letras, é inquestionável. Portanto, nada de decoreba! Importante é saber consultar, é saber buscar no lugar certo, depois de ter plena consciência da função de cada palavra na frase em apreço. REVISANDO A ANÁLISE SINTÁTICA Para o estudo do latim, é indispensável conhecer os termos da oração, ou seja, de uma palavra ou conjunto de palavras com que se exprime o pensamento. As gramáticas são unânimes em referir-se aos termos da oração por ordem de importância: Essenciais > Integrantes >Acessórios. Aqui se faz uma proposta em que alguns dados podem ajudar a mel- hor compreender o assunto. Por ordem de importância, observe sinais e números e a própria designação usada para cada termo: 1. + (mais) Essenciais: signifi ca dizer que não se pode expressar um pensam- ento sem estes termos. Eles demonstram o que é a essência da comunicação. São eles o sujeito e o predicado. 2. + ou – (mais ou menos) Integrantes ou Complementares: signifi ca dizer que eles ajudam, completam o pensamento, mas não são totalmente ne- cessários. Sem eles, a frase fi ca sem complemento, mas não sem a essência. São eles: o objeto direto, o objeto indireto, o complemento nominal e o agente da passiva. 3. – (menos) Acessórios: signifi ca dizer que eles não têm grande importância na compreensão da frase; funcionam como enfeites. São eles: o adjunto adnominal, o adjunto adverbial e o aposto (o vocativo é analisado como um caso à parte, mas muitos o concebem como termo acessório). O estudo do latim vai exigir de você um completo senso de identifi - cação de cada termo. Aqui não é conveniente fazer uma revisão completa 45 Análise sintática e articulação das palavras em latim Aula 4do assunto, mas procure entender o verda deiro signifi cado de cada termo e muitas difi culdades desaparecerão. Por exemplo: TERMOS ESSENCIAIS Sujeito – para o latim, não importa se é o que sofre ou pratica a ação. Importa que ele é sub-jectus, ou seja, o que está lançado por baixo da ação verbal. Assim, em frases como “Pedro caiu”, “Pedro morreu”, “Pedro comprou”, “Pedro gosta”, “Pedro concede”, por baixo da ação verbal está o sujeito “Pedro”. Predicado – é o que diz, é o que se prega. Praedicare é dizer, falar. Nas frases acima, os verbos são os predicados. O que se pregou, se falou de Pedro é que ele caiu, morreu, comprou etc. Certamente não faz parte da essência do predicado informar se ele caiu agora, ontem, de fraqueza, da escada etc. Esses elementos são termos acessórios e não têm importância para a essência da compreensão da mensagem. TERMOS INTEGRANTES Quando os verbos ou os nomes querem complementos, os termos integrantes vão aparecer. Nas frases que ilustram o sujeito, ninguém vai perguntar: “morreu o quê?”. Mas alguém pode querer saber “comprou o quê?”. É que os verbos são diferentes. O verbo transitivo quer um comple- mento: o verbo intransitivo, porém, não o requer. Os termos que completam o sentido das frases são: o objeto direto, o objeto indireto, o complemento nominal e o agente da passiva. Ob-jectus, diferentemente do sub-jectus, é lançado diante de, depois de. Isso pode acontecer diretamente (sem preposição, como no caso do objeto direto) e indiretamente (com preposição, como no caso do objeto indireto). Esse mesmo complemento, se for pedido por um nome, será um complemento nominal. Alguém que diz: “acho que ainda não estou apto...”, certamente vai ouvir a pergunta: “apto para quê?” Isso ocorre porque o nome apto exige um complemento que esclareça o sentido da frase. O agente da passiva supõe alguém que age (agente) para que o outro sofra a ação. Importante é saber distinguir a voz do verbo, se é ativa, pas- siva ou refl exiva. Na frase: “A criança foi atacada pelo cão”, o verbo está na voz passiva, logo o termo em destaque é o AGENTE DA PASSIVA. O cão agiu para a criança sofrer a ação. 46 Fundamentos da Língua Latina TERMOS ACESSÓRIOS Os termos acessórios têm um sentido semelhante ao que conhecemos, por exemplo, sobre acessórios de um carro (adesivos, antena, som etc.). Na oração, existem elementos que apenas enfeitam, não tendo peso sobre a signifi cação essencial da mensagem. Pedro (sujeito) caiu (predicado) ontem da escada por causa da fraqueza (acessórios). Outro exemplo: O governador (sujeito) concedeu (predicado) audiência (integrante) a grevistas (integrante) ontem à tarde no gabinete (acessórios). Como você percebe, essas noções básicas servem para situar a im- portância do conhecimento de análise sintática para o estudo do latim. Para melhor domínio do assunto, é recomendável fazer uma revisão completa com apoio de uma boa gramática. (Fonte: http://modaparausar.fi les.wordpress.com). OS CASOS LATINOS Para bem trabalhar o latim, é necessário identifi car com segurança os termos da oração na frase e a função exata de cada termo. O latim exige que as palavras sejam distribuídas de acordo com os casos apropriados a cada função. São seis os casos latinos que assim se distribuem pelas diferentes funções sintáticas: 1. Nominativo – É o caso do sujeito e do predicativo do sujeito. É tam- bém o caso em que se enuncia simplesmente um nome e, por vezes, o da exclamação. 2. Genitivo – É o caso do adjunto adnominal restritivo ( possessivo ou qualifi cativo, representado por um substantivo e precedido da preposição de) e alguns complementos nominais de substantivos e do partitivo. Para não confundir-se: a ocorrência do genitivo exige a preposição DE cercada 47 Análise sintática e articulação das palavras em latim Aula 4de substantivo: Imperador (substantivo) DE Roma (substantivo), logo o segundo termo (Roma) é um genitivo. O mesmo não acontece com Cheguei (verbo) DE Roma (substantivo) em que o segundo termo (Roma) é um adjunto adverbial de lugar – ablativo. 3. Vocativo – É o caso do chamado, da interpelação e, por vezes, da ex- clamação. 4. Dativo – É o caso do objeto indireto e alguns complementos adnominais. 5. Ablativo – É o caso dos adjuntos adverbiais não preposicionados ou regidos por preposições especiais, do agente da passiva, do complemento de comparação, do sujeito de particípio em orações reduzidas (ablativo absoluto) a depender da preposição. 6. Acusativo - É o caso do objeto direto, da exclamação, e do sujeito e do predicativo em orações infi nitivas, predicativo do objeto direto e adjuntos adverbiais a depender da preposição. ATIVIDADES Agora você construirá um quadro relacionando os casos latinos às fun- ções sintáticas específi cas. Neste quadro, além de cada caso relacionado à função sintática específi ca (e nenhuma função sintática deve ser esquecida), é necessário eleborar frases em português que ilustrem cada situação. Esta atividade vai permitir uma assimilação completa da relação dos casos latinos com as funções sintáticas. Sem esta segurança, fi ca impraticável a compreensão do latim e o prosseguimento dos estudos nesta área. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Como você percebe, cada palavra declinável latina possui12 formas, sendo 6 para o singular e 6 para o plural. A escolha de uma dessas formas vai depender, primeiramente, do número e aí já se eliminam 6 formas, caso esteja a palavra no singular ou no plural. Daí, a escolha das seis formas em questão vai ser orientada pela função sintática da palavra na frase. Há também que se reconhecer o Adjunto Adnominal Restritivo. Este vem sempre precedido em português pela preposição de e leva a palavra regida por esta para o caso genitivo. Ex.: Imperador de Roma – de Roma – é restritivo – vai para o genitivo. Imperador Romano – romano. Vai acompanhar Imperador em gênero, número e caso. Não sendo, portanto, restritivo, o adjunto é um simples adjetivo, 48 Fundamentos da Língua Latina concordando em gênero, número e caso com o substantivo que ele determina. Por isso, você pôde ver que, na relação entre casos e funções, não aparece o adjunto adnominal, nem aparece o aposto. Essas funções sintáticas podem ir para qualquer caso, a depender do elemento principal a que estejam ligadas. Assim, você pode encontrar aposto e adjunto adnominal em qualquer dos casos latinos a depender da posição sintática do termo fundamental (sujeito, vocativo, objeto direto etc.) Aí eles terão o mesmo caso das funções principais a que eles servem. Observe os seguintes exemplos e veja como aposto e adjunto adnominal podem estar relacionados a qualquer caso: Aposto e adjunto adnominal do sujeito: José, meu fi lho, esteve aqui. Objeto direto: Encontrei José, meu fi lho, na porta de casa. Adjunto adnominal restritivo: Os livros de José, meu fi lho, foram roubados. Agente da passiva: Todo este trabalho foi realizado por José, meu fi lho. Objeto indireto: Dei os melhores livros a José, meu fi lho. Vocativo: José, meu fi lho, tem paciência! Adjunto adverbial: Resolvi sair com José, meu fi lho. Na distribuição das funções entre os casos, você notou que, apesar de exercer função bem secundária, o vocativo tem um caso só para ele. ATIVIDADES Reconheça as funções sintáticas das palavras em destaque e identifi que os casos latinos a que elas se destinam. Justifi que, de forma breve, sua resposta. a) Encontrei Maria saindo de casa. b) A mãe de Pedro plantou rosas brancas no jardim adubado. c) Pedro, meu fi lho, olha com quem andas! d) Dei presentes valiosos ao fi lho de minha tia. e) As crianças desaparecidas foram localizadas por aquele policial. 49 Análise sintática e articulação das palavras em latim Aula 4 COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Aos poucos você vai aprendendo a associar os casos latinos às funções sintáticas, e esta compreensão é fundamental para trabalhar as frases e dominar o mecanismo da língua. Aceite, portanto, a sugestão de fazer uma séria revisão de análise sintática de acordo com a gramática tradicional. Isso deve ser realizado imediatamente, porque é impossível progredir no conhecimento do latim sem este domínio de análise sintática. CONCLUSÃO Em latim, não existe uma forma única para as palavras variáveis, mas elas devem variar de confi guração de acor- do com a função sintática exercida nas frases. Um exemplo, em português, pode ilustrar o processo das declinações: a forma do pronome pessoal eu é própria do sujeito, enquanto as formas me ou mim são específi cas para a função de complemento. Assim, você pode dizer: Eu vou chegar atrasado hoje / Traga um livro para eu ler. Mas deverá dizer: Traga um livro para mim. Você poderia ajudar-me. Também em português, em alguns casos, existem formas específi cas para funções sintáticas específi cas. Não é preciso precipitar-se! As funções sintáticas relacionadas aos casos latinos serão sempre revistas e explicadas, facilitando, assim, a mais completa assimilação do tema. De início você certamente terá difi culdade, mas tenha plena convicção de que o domínio da análise sintática pode ser maior problema do que o latim em si mesmo. 50 Fundamentos da Língua Latina RESUMO Esta aula mostrou os procedimentos de uma língua fl exional. Em latim as palavras se declinam, isto é, elas variam a forma de acordo com a função sintática das palavras nas frases. As palavras vão ganhando a forma apro- priada e isto faz com que uma determinada forma sirva para uma frase, mas não sirva em outra frase se a função sintática não for a mesma. Existem, para cada palavra declinável, seis formas do singular e seis do plural. Você não precisa decorar as declinações, pois encontrará, no quadro, todas as formas que a palavra tem para serem usadas de acordo com a função sintática. Conhecendo o número da palavra na frase, você já elimina seis formas. Dentre as outras seis formas do número específi co, a escolha vai ser de- terminada pela função sintática, ou seja, o caso será aquele que contempla exatamente a função sintática em pauta. ATIVIDADES As atividades propostas visam ao pleno conhecimento das funções sintáticas e à distribuição correta dos casos latinos: I – Responda: 1. O que signifi ca dizer que o latim é uma língua fl exional? 2. O que é declinar uma palavra? 3. O que você entendeu por caso? 4. Quais são os casos latinos? 5. Por que na distribuição das funções sintáticas pelos casos latinos não há referência ao caso do aposto e do adjunto adnominal? Explique. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Quanto ao item 1, sabemos que, diferentemente das línguas modernas, o latim possui desinências próprias para cada função sintática, mas as formas estão apresentadas no quadro das declinações, você não precisa decorar nada, basta saber consultar. Já no item 2, lembre-se que declinar signifi ca descer, cair (o sol declina no horizonte) e é este o processo das palavras em latim: você deve ir descendo na lista de cada declinação, de forma vertical, até achar a forma apropriada a cada frase que está sendo trabalhada. Referente ao item 3, esclarecemos que o nome ocaso; signifi ca queda (o sol está no seu ocaso; Maria esta de caso com o porteiro) ou seja, quedado, pendido em direção a. O processo de declinação é, pois, um processo de queda, de cima para baixo, você vai descendo até achar a forma que convém à frase em questão. 51 Análise sintática e articulação das palavras em latim Aula 4 No tocante ao item 4, lembramos que os casos latinos são seis e eles já foram apresentados nesta lição, é só recordá-los. Referente ao item 5, relembramos que aposto e adjunto adnominal podem direcionar-se a qualquer caso a depender do termo fundamental a que eles se ligam. II – Identifi que com F ou V o Falso ou o Verdadeiro: 1. O ablativo é o caso do adjunto adnominal restritivo ( ). 2. O nominativo é o único caso do sujeito ( ). 3. O objeto indireto destina-se ao caso dativo ( ). 4. O predicativo do sujeito pode ir para o acusativo ( ). COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES As respostas a esta questaõa já foram comentadas durante a aula. Tente comparar as suas respostas com o conteúdo expresso na aula. III- . Na frase: Quando saí de Roma, senti saudades, a expressão sublinhada é um adjunto adnominal restritivo por causa da preposição de? COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES A resposta é não. A preposição DE, que caracteriza o adjunto adnominal restritivo, deve estar cercada de substantivos, o que não se verifi ca na frase em questão. REFERÊNCIAS CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. FURLAN, Oswaldo Antônio. Latim para o português. Florianópolis: EDUFSC, 2006. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do Cérebro, 1999. SOARES, João S. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. TARALLO. Fernando. Tempos lingüísticos. São Paulo: Ática, 1994. AS DECLINAÇÕES LATINAS. ESTUDOS DA PALAVRA DE 1ª DECLINAÇÃO META Explicaro mecanismo das declinações latinas. Exercitar o trato com palavras da 1ª declinação. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula, o aluno deverá: reconhecer o funcionamento das declinações latinas; estabelecer a relação dos casos latinos com as funções sintáticas; representar, em quadro sinótico, a relação entre as diferentes declinações; e identifi car os nomes da primeira declinação no contexto das frases. PRÉ-REQUISITOS Conhecimentos básicos de análise sintática segundo as normas gramaticais. Aula 5 54 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO Olá, nesta aula você vai observar uma grande diferença do latim para o português e outras línguas moder- nas. Em latim, as palavras variáveis são declinadas, isto é, elas mudam de forma de acordo com a função sintática. Na verdade, ao radical das palavras, que geralmente não se altera, são acrescentadas terminações que caracterizam cada caso especifi camente. Em latim se diz que as palavras têm casos, têm quedas, como se cos- tuma dizer que a pessoa tem um caso, está de caso, está caída para o lado de outra. Os casos são, pois, quedas, fl exões, deslocamentos, que as palavras apresentam, obedecendo ao que pedem as funções sintáticas desempenhadas por elas nas frases. Esta aula introduz as declinações latinas, elemento de fundamental importância para o domínio da língua, ponto de partida para o desenvolvi- mento dos estudos nesta área. Declinações Declinar significa descer, cair, ou seja, as palavras deslo- cam-se a partir da forma do nomina- tivo, que é, geral- mente, o primeiro caso pela ordem em que se apresentam. No latim não existem artigos. 55 As declinações latinas: estudo das palavras de 1ª declinação Aula 51A DECLINAÇÃO Em latim, há palavras invariáveis: elas terão sempre a mes ma forma em qualquer circunstância nas frases. Assim, tal como em português, os advérbios, preposições, conjunções, interjeições e numerais cardinais (exceto 1, 2 e 3) são palavras invariáveis. Para as outras classes de palavras, usa-se a declinação. Substantivos, adjetivos, pronomes, numerais ordinais (os que funcionam como adjetivos) são palavras declináveis, isto é, fl exionam de acordo com os casos que correspondem às funções sintáticas por elas desempenhadas nas frases. O verbo também pertence à categoria das palavras variáveis e são também declinados nas suas formas nominais. Para as outras fl exões dos verbos, o termo usado é conjugação. Os verbos, portanto, se conjugam. Quando se diz que, em latim, os nomes se fl exionam, estamos dizendo que eles assumem formas diferentes em gênero, número e caso. Os substantivos apresentam raízes signifi cativas e elementos que a eles se juntam, tais como prefi xos, sufi xos, vogais temáticas e de ligação e desinências. As raízes são os elementos que garantem o signifi cado da pa- lavra. Tais raízes nem sempre são de fácil identifi cação, pois, muitas vezes, representam o produto de longa evolução. Observe o exemplo da palavra latina AMOR (amor). A raiz desta palavra é AM, a partir da qual várias combinações são possíveis: � are = amar icus = amigo ica = amiga icitia = amizade or = amor AM A palavra AMOR ainda traz outras possibilidades de variação se ela for declinada, ou seja, se for usada em suas diversas associações de formas, segundo a confi guração da palavra pelas suas funções sintáticas nas frases. Exemplo: Genitivo Dativo Ablativo Acusativo Vocativo Singular Amoris Amori Amore Amorem do amor ao amor pelo amor o amor Plural Amorum Amoribus Moribus Amores Amores Dos amores Aos amores Pelos amores Os amores Ó amores 56 Fundamentos da Língua Latina Como se vê, de uma mesma raiz se constituem outras formas que cor- respondem a outras signifi cações que os acréscimos ou as permutas vão permitindo realizar. Desde cedo, para estudar o latim, você vai ter necessidade de isolar a raiz das palavras, pois é a elas que as desinências se somam, bem como outros elementos que vão conferindo maior riqueza às palavras. Esse trabalho é de grande utilidade também para o estudo do português. Em suma: você vai perceber que as bases de signifi cado são numericamente bem menores do que os desdobramentos que podem ser realizados a partir das mesmas. Esse processo pode ser aplicado a todas as palavras da língua. Veja, por exemplo, a associação de Amor às palavras latinas Pavor (pavor), Horror (horror), Timor (temor) etc. Assim se pode dizer que Amor, Amare, Am- abam, Amavi, Amicus, Amica, Amicitia etc. têm a mesma raiz, enquanto Amor, Pavor, Horror, Timor possuem o mesmo sufi xo. Outras associações são igualmente possíveis e você as verá durante o curso, desvendando, pouco a pouco, o mistério das palavras, seu encanto, sua riqueza. Conhecer o radical de cada palavra, saber isolá-lo é a base para declinar corretamente, ou seja, juntar ao radical a desinência que faz corresponder às necessidades reais da linguagem. AS DECLINAÇÕES LATINAS Em latim, existem 5 declinações. Na realidade, trata-se de 5 listas que apresentam as formas que as palavras devem ter de acordo com a declinação a que pertencem. Não existe uma só palavra variável que não encontre lugar na sua lista específi ca. Assim, as palavras que pertencem à determinada declinação terão todas as mesmas formas, as mesmas desinências. Nesta aula, você vai con- hecer a 1ª declinação. É a declinação mais fácil e nela geralmente se enquadram as palavras femininas terminadas em A, como em português: chuva, mesa, vida, veia, coroa, rainha etc. Em latim, além dos gêner- os masculino e feminino, existe também o gênero neutro. Era de se esperar que, ao gênero neutro, pertencessem os nomes de seres inanimados, sem movi- Uma palavra não pode pertencer a mais de uma declinação. 57 As declinações latinas: estudo das palavras de 1ª declinação Aula 5mento próprio, mas o critério de classifi cação de gênero não obedece, neces- sariamente, a essa lógica. Importante é saber o gênero de uma palavra antes de realizar qualquer trabalho com ela, e um bom dicionário sempre fornece esse dado. Aos poucos, você vai se habituando à classifi cação das palavras por gênero e vai compreendendo como acontece o gênero neutro, pois são muitas as palavras a ele pertencentes. A 1ª declinação não possui palavras do gênero neutro; possui pouquíssimas palavras masculinas e tem a quase totalidade de palavras do gênero feminino. De modo geral, a confi guração de gênero é a mesma do português, mas não se pode ter total segurança por esse caminho, pois, muitas vezes, as surpresas acontecem, até mesmo porque, na passagem do latim para o português, as palavras do gênero neutro foram direcionadas para o mas- culino ou para o feminino. Exemplo: Cor, cordis (coração) em latim é neutro; em português é masculino. Bellum, I (guerra) em latim é neutro; em português é feminino. Observe, nestas formas pronominais do português, a confi guração dos três gêneros: Masculino Feminino Neutro este esta isto esse essa isso aquele aquela aquilo algum alguma algo todo toda tudo Há resquícios no português que fazem perceber o que era a confi gu- ração de gênero em latim. Como já foi dito, de modo geral, você pode tomar como referência a mesma classifi cação de gênero usada no português, pois a maioria das palavras conserva a mesma distribuição atual do português. Surpresas, porém, acontecem: Pons, pontis (ponte) – em latim é do gênero masculino. O mesmo acon- tece com fons, fontis (fonte), dolor, doloris (dor), color, coloris (cor) etc. Abyssus, abyssi (abismo) é feminina, enquanto malus, mali (macieira) é do gênero masculino. Você poderá achar estranho quando encontrar a combinação dessas palavras com algum adjetivode dupla forma: in fonte vivo (na fonte viva); dolor meus (minha dor) etc. Daí que, para total segurança, é aconselhável trabalhar antes o substantivo e, em seguida, o adjetivo a ele ligado, obedecendo ao gênero expresso pelo substantivo, pois, seguindo a lógica do português, a tendência seria dizer: in fonte viva ou dolor mea, o que seria um erro. 58 Fundamentos da Língua Latina AS PALAVRAS NO DICIONÁRIO Os substantivos latinos são sempre apresentados no singular (a não ser que a palavra só seja usada no plural) na forma do nominativo, tendo, em seguida, a forma do genitivo. Essa é a maneira pela qual está sendo informada a declinação a que a palavra pertence. Na apresentação do genitivo, estão contidas duas informações importantes sobre a palavra em questão: sua declinação e o radical para trabalhar os demais casos. Logo, ao buscar uma palavra no di- cionário, o genitivo sempre virá logo após a forma do nominativo. Assim, se alguém perguntar: como se diz vida, chuva, mesa em latim, a resposta não pode ser apenas: vita, pluvia, mensa, respectivamente. Esta resposta foi incompleta, pois apenas for- neceu o nominativo da palavra e, como existem nominativos iguais de declinação para declinação, não se sabe exatamente a que lista recorrer para fl exionar a palavra. A resposta ideal, portanto, será fornecer o nominativo e o genitivo de cada palavra. Logo, completando a informação, se dirá: vida, chuva, mesa em latim são, respec- tivamente: vita, vitae / pluvia, pluviae / mensa, mensae ou simplesmente vita, ae/ pluvia, ae/ mensa, ae, não havendo neces- sidade de repetir o radical quando for o mesmo para os dois casos. O segundo elemento de informação (o genitivo) é indicativo seguro de que essas palavras fazem parte da primeira declinação. Não há como direcioná-las para nenhuma das outras quatro. Observe o que pode acontecer ao serem dadas as palavras somente com a forma do nominativo: Dominus (senhor); Venus (Vênus); Manus (mão). Essas três palavras não parecem pertencer à mesma declinação? Mas a terminação do nominativo em US pode ocorrer na 2ª, 3ª e 4ª declinações. E aí? Para onde direcioná-las? Só será possível fazê-lo com segurança depois de conhecida a forma do genitivo: Dominus, Domini (Genitivo terminado em I – 2ª declinação). Venus, Veneris (Genitivo terminado em IS – 3ª declinação). 59 As declinações latinas: estudo das palavras de 1ª declinação Aula 5Manus, manus (Genitivo terminado em US – 4ª declinação). É somente através do genitivo que poderemos diferenciar as declinações a que pertencem as palavras, como nesse caso acima. Considere ainda este exemplo: Regina (rainha) e clima (clima) pertencem à mesma declinação? Apar- entemente, sim. Mas antes de dar uma resposta defi nitiva, vamos verifi car o genitivo: Regina, reginae = nome feminino de 1ª declinação. Clima, climatis = nome masculino de 3ª declinação. Em resumo: conhecer o genitivo das palavras é condição indispen- sável para ter certeza de sua declinação e também para conhecer o radical quando este for diferente do nominativo. O genitivo é, pois, o pai (genitor) da palavra. É dele que os outros casos se formam. Observe: do genitivo climatis (raiz climat) obtêm-se os derivados: Climático / climatério / aclimatar / aclimatado etc. As declinações, como já se disse, são cinco e elas se identifi cam pelo genitivo, que não é igual em nenhuma delas: 1ª Declinação: Genitivo – AE 2ª Declinação: Genitivo – I 3ª Declinação: Genitivo – IS 4ª Declinação: Genitivo – US 5ª Declinação: Genitivo – EI PRIMEIRA DECLINAÇÃO Você agora vai estudar a 1ª declinação. Não esqueça: você vai apre- nder a fl exionar todas as palavras que se enquadram nesse modelo, neste esquema denominado de 1ª declinação. Somente podem ser declinadas por esse paradigma as palavras que tenham o nominativo singular em A e o genitivo singular em AE. Situada a palavra nessa lista, esqueça as outras. Todas as palavras dessa lista vão apresentar as mesmas formas para os respectivos casos. Os casos latinos, como já se disse, são seis. Isto é: cada palavra declinada tem seis formas para o singular e seis formas para o plural. São eles: nominativo (N); genitivo (G); dativo (D); ablativo (AB); vocativo (V); acusativo (AC). A ordem dos casos aqui adotada é livre. Você pode encontrar outras distribuições e isso em nada inviabiliza o trabalho com o latim. Você só não vai encontrar distribuição que não comece pelo nominativo. Aqui optou-se por incluir o genitivo logo após o nominativo, obedecendo à apresentação das palavras no dicionário. Mas ainda uma vez se diga: a ordem na dis- tribuição dos casos é inteiramente arbitrária e em nada altera o emprego correto das formas. 60 Fundamentos da Língua Latina Os dicionários sempre registram os substantivos, dando por extenso o nominativo, vindo, logo após, a terminação do genitivo. Não é preciso repetir o radical a não ser que ele varie de um caso para outro. Exemplo: Pluvia, ae (chuva) / fl ama, ae (chama) / populus, i (povo). Mas, havendo alteração na forma do radical, a apresentação será: Magister, magistri (mestre) / pectus, pectoris (peito) / semen, seminis (semente). Conheça agora como se fl exionam as palavras de 1ª declinação. Lembre-se, mais uma vez, que nesta declinação se enquadra a grande maioria de palavras femininas terminadas em A. Todos os substantivos da 1ª declinação se declinam como rosa, ae: Singular Exemplos Plural Exemplos Nominativo Ros-a Rosa, a rosa, Ros-ae Rosas, as rosas, uma rosa umas rosas Genitivo Ros-ae De rosa, da, Ros-arum De rosas, das, de uma rosa de umas rosas Dativo Ros-ae Para a rosa, Ros-is Para as rosas, à rosa às rosas Acusativo Ros-am Rosa, a rosa, Ros-as Rosas, as rosas, uma rosa umas rosas Vocativo Ros-a Rosa, ó rosa Ros-ae Rosas, ó rosas Ablativo Ros-a Com, em, sem, Ros-is Com, em, sem, pela ...rosa pelas...rosas Esse é o modelo, o paradigma para de clinar qualquer palavra que se enquadre na 1ª declinação. As desinências serão sempre as mesmas, pois elas são próprias da 1ª declinação; o que muda é o radical, pois este elemento é diferente de palavra para palavra. Assim, para declinar qualquer outra palavra pertencente a esta declinação, basta isolar o seu radical e substituí- lo na lista acima pelo radical ros (próprio da palavra rosa) e conservar as mesmas desinências específi cas de cada caso. Faça um teste com a palavra fl ama, ae (chama). O radical é fl am e ele vai na lista ocupar o lugar de ros. As desinências permanecem as mesmas. 61 As declinações latinas: estudo das palavras de 1ª declinação Aula 5Assim, se você quiser o acusativo singular, a forma será fl amam, substitu- indo rosam. Usando ainda a palavra fl ama, ae, quem vai dizer a forma de que você vai precisar é a frase com a qual você está trabalhando. Exemplo: Eu dominei a chama que ameaçava destruir meus livros. Nessa frase, a expressão a chama exerce a função sintática de objeto direto, logo você só pode usar a forma do acusativo singular (fl amam), pois este é o caso do objeto direto. Se a expressão estivesse no plural (Eu dominei as chamas...), sem alte- ração, portanto, da função sintática, a forma seria fl amas, que corresponde ao plural do mesmo acusativo. Viu como é fácil? É preciso, porém, muita atenção na identifi cação do radical e fazer corretamente a análise sintática para ter certeza de onde ir buscar a forma exata que a frase requer. ATIVIDADES Agora é com você. Coloque em latim as palavras destacadas nas frases e justifi que o uso das formas: a) As crianças oferecem rosas, com carinho, às mestras. b) As riquezas da vida são as alegrias do coração. c) Contemplo a lua e as estrelas.COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Observe, caro aluno, que a primeira atitude será a de reconhecer a que função sintática pertencem os termos grifados. No item a), por exemplo, rosas exerce a função sintática de objeto direto porque quem oferece, oferece alguma coisa, certo? O termo às mestras, por sua vez, está exercendo a função de objeto indireto, porque as crianças oferecem rosas (objeto direto), a alguém (objeto indireto). No quadro da Aula 4, vimos que o objeto direto corresponde ao acusativo, e o objeto indireto, ao dativo. Sabendo-se também que rosas e mestras, em latim, pertencem à primeira declinação e, observando os modelos desta aula, vamos obter as seguintes formas: rosas, magistris. Assim, no item b), temos da vida exercendo a função de genitivo, portanto fi cará vitae, e as alegrias, a função de predicativo = nominativo, que, em latim, fi cará laetitiae. No item c), tanto a lua, quanto as estrelas exercem a mesma função, de objeto direto = acusativo. Assim, em latim, teremos lunam e stellas. VOCABULÁRIO Rosa, ae = Rosa Magistra, ae = Mestra Vita, ae = Vida Laetitia, ae = Alegria Luna, ae = Lua Stella, ae = Estrela. 62 Fundamentos da Língua Latina Outra difi culdade constante está em não saber identifi car com segurança o radical. Por exemplo: a palavra pluvia, ae (chuva) tem como radical a forma pluvi. Esta palavra se enquadra perfeitamente no modelo acima, mas é preciso ter cuidado nos casos dativo e ablativo plural, que terão a confi guração pluviis (com dois I, sendo um do radical e outro da desinência dos casos). Compreendidos esses primeiros passos, importa agora realizar muitos exercícios para fi xar bem a aprendizagem das formas latinas, dos casos e sua relação com a sintaxe, da separação do radical e acréscimo de cada forma no momento do uso etc. CONCLUSÃO Você percebeu que, sem ter o domínio da análise sintática, fi ca impos- sível saber escolher a forma da palavra que cada frase requer. Você vai ver que a difi culdade não está tanto no latim, mas está na análise sintática. Daí ser necessária uma revisão constante desste assunto em frases que apresentem uma mesma palavra ocupando funções sintáticas diversas. Tendo esse domínio, você vai ver como o estudo do latim se torna agradável e bastante útil para o pleno conhecimento da língua portuguesa. 63 As declinações latinas: estudo das palavras de 1ª declinação Aula 5RESUMO Essa aula permitiu conhecer como o latim trabalha suas palavras pelo sistema das declinações. Você aprendeu também como citar as palavras latinas e como situá-las no dicionário, sempre esperando conhecer a forma do genitivo para enquadrá-la no paradigma específi co e conseguir todas as formas possíveis a partir do radical também fornecido pelo genitivo. A 1ª declinação é o contato inicial com o processo das declinações latinas. A lista em que aparecem as variadas formas de uma palavra, cuja escolha vai depender do conhecimento de sintaxe, é muito simples e já pode dar impulso ao trabalho com um número signifi cativo de palavras. Conhecendo esta declinação, a grande maioria das palavras femininas em A já pode ser trab- alhada, o que corresponde a uma quantidade signifi cativa do léxico latino. ATIVIDADES As atividades propostas visam ao pleno conhecimento das palavras da 1ª declinação. A partir de agora, os conhecimentos de análise sintática serão cada vez mais exigidos, desde as frases simples com que se introduz o assunto, até as frases mais complicadas que o desenvolvimento dos es- tudos vai exigindo. 1. Responda: a) Como se dá a distribuição de gênero na primeira declinação? b) Quais os casos que apresentam formas iguais no singular e no plural da 1ª declinação? c) A quantas declinações pode pertencer uma mesma palavra? d) Por que o genitivo deve ser dado logo após o nominativo de cada palavra? d) Qual a terminação do genitivo singular de cada declinação? COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Este exercício faz revisão do conteúdo desta aula. Para responder corretamente às questões, importa retornar atentamente a todos os itens abordados a fi m de que os assuntos sejam facilmente assimilados. 64 Fundamentos da Língua Latina 2. Construa frases em português que esgotem todas as possibilidades de tradução das formas latinas: a) Litteris (littera, ae = letra) b) Plumae (pluma, ae = pena) c) Mensa (mensa, ae = mesa). 3. De que forma a palavra chuva (pluvia, ae) será escrita em latim nas seguintes frases? Justifi que: a) Chove, chuva, chove sem parar! b) A chuva destruiu os meus planos para o feriado! c) Sem a chuva, a natureza morre. 4. Assinale como traduzir e o que diferencia as frases a seguir: a) Maria vidit Martam. b) Martam vidit Maria. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Na questão 2, deve-se criar frases em português encaixando o termo latino, com isso você perceberá a pertinência das formas. Mas, isso só é possível se for bem feita a análise sintática. O mesmo acontece na questão 3, em que é dada a frase em português para qual se pede a forma latina. Quanto à questão 4, é um alerta para a posição das palavras nas frases latinas. Em que interfere a ordem na tradução? REFERÊNCIAS CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. FURLAN, Oswaldo Antônio. Latim para o português. Florianópolis: EDUFSC, 2006. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do Cérebro, 1999. SOARES, João S. Latim I - Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. TARALLO. Fernando. Tempos lingüísticos. São Paulo: Ática, 1994. VOCABULÁRIO Maria, ae = Maria Marta, ae = Marta Vidit = Viu. ESTUDO DOS NOMES DA 2ª DECLINAÇÃO META Demonstrar o mecanismo da 2ª declinação e apresentar as diferenciações de gênero em latim a partir do conhecimento das declinações estudadas. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula, o aluno deverá: reconhecer o funcionamento da 2ª declinação latina; distinguir a diversidade de gênero contida na 2ª declinação; identifi car em quadro sinótico a relação entre as diferentes declinações estudadas; e exercitar frases que contemplem, ao mesmo tempo, palavras de 1ª e 2ª declinação. PRÉ-REQUISITOS Conhecimentos de análise sintática segundo as normas gramaticais. Aula 6 66 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO Esta aula compreende as palavras da 2ª declinação. Ao contrário da 1ª declinação, que acabou de ser estudada, esta declinação é mais complexa porque possui certas particularidades que é preciso considerar, bem como contém palavras pertencentes aos três gêneros. Predomina, porém, o gênero masculino e, ao contrário da 1ª declinação, são bem poucas as palavras do gênero feminino nela contidas. Por outro lado, importa lembrar que as palavras do gênero neutro também aqui existem em número razoável. Não há nada, porém, que espante. É mais um passo que você vai dar no conhecimento da língua latina, mas o processo é o mesmo que foi usado para trabalhar as palavras da aula anterior. Muita atenção, segurança na análise sintática dos termos a serem tra- balhados e tudo vai sendo processado satisfatoriamente. 67 Estudo dos nomes da 2ª declinação Aula 62ª DECLINAÇÃO Cada declinação latina tem suas particularidades. Da 1ª declinação, foi dito que era o terreno das palavras femi- ninas terminadas em A, que as palavras masculinas eram pouquíssimas e que não comportava palavras do gênero neutro. A segunda declinação, contrariamente, é composta de grande número de palavras masculinas. As palavras femininas podem ser contadas a dedo. No entanto, são muitas também as palavras do gênero neutro, e elas pos- suem algumas confi gurações específi cas. Com o estudo desta declinação, você irá percebendo a diferenciação degênero em latim, e esse estudo, associado aos conhecimentos da declinação anterior, já introduz o tema dos adjetivos de 1ª classe, os quais nada mais são do que uma retomada das formas de 1ª e 2ª declinações. Você já pode perceber que o estudo do latim é um todo articulado, e os assuntos se encadeiam, de sorte que qualquer conhecimento abordado vai servindo de lastro para os temas subseqüentes. Como se deu na declinação anterior, é imprescindível o conhecimento do genitivo singular para situar a palavra e reconhecer-lhe a forma do radical. Um dado novo é que você vai encontrar mais de uma forma do nomi- nativo singular, algo inexistente na declinação anterior. Assim serão as pos- sibilidades de terminação do nominativo singular: Us - Dominus, i (senhor). Er– Magister, magistri (mestre). Ir - Vir, i (varão). Um – Signum, 1 (sinal). Observação: a terminação de nominativo singular em um é exclusiva das palavras do gênero neutro. Este pequeno detalhe de mais de uma terminação do nominativo sin- gular não difi culta em nada o processo de fl exão das palavras. Em todas elas você pode perceber que a forma do genitivo é sempre I, que é a marca da segunda declinação. Logo, excetuando essas pequenas particularidades, as palavras se enquadram perfeitamente no seu paradigma. 68 Fundamentos da Língua Latina Quadro 1 - Palavras em us. Casos Modelo Tradução Nominativo Popul-us Povo, o povo, um povo Genitivo Popul-i De povo, do/ de um povo Singular Dativo Popul-o Para/ ao povo Acusativo Popul-um Povo, o/ um povo Vocativo Popul-e Povo, ó povo Ablativo Popul-o Com, no, pelo...povo Nominativo Popul-i Povos, os/ uns povos Genitivo Popul-orum De/ dos/ de uns povos Plural Dativo Popul-is Para/ aos povos Acusativo Popul-os Povos, os/ uns povos Vocativo Popul-i Povos, ó povos Ablativo Popul-is Com, nos, pelos...povos Esse é o paradigma para declinar a maior parte das palavras de 2ª declinação. Como foi sugerido na aula anterior, o radical acima pode ser substituído por qualquer outro desde que a palavra se enquadre nesta lista para ser declinada. Por exemplo: Angelus, i (anjo)/ Dominus, i (senhor)/ mundus, i (mundo)/ lupus, i (lobo). São palavras que podem ser declinadas pelo modelo acima. Observação: quando se apresenta a possível tradução de cada caso latino, há que se levar em conta que, em latim, não existe artigo. Por esta razão, onde o latim comporta uma simples preposição ou mesmo um sub- stantivo sem o artigo, em português podem ser acrescentados os artigos, ampliando as chances de detalhes na tradução das sentenças. Exemplo: a expressão Mapa Mundi pode ser entendida como Mapa de Mundo, Mapa do Mundo, Mapa de um Mundo. Isto é, apenas um simples detalhe que o momento da tradução vai dizer que expressão escolher. Quadro 2 - Palavras em er. � Casos Modelo Tradução Nominativo Magist-er Mestre, o mestre, um mestre Genitivo Magistr-i De mestre, do/ de um mestre Singular Dativo Magistr-o Para, a/ ao mestre Acusativo Magistr-um Mestre, o/ um mestre Vocativo Magist-er Mestre, ó mestre Ablativo Magistr-o Com, no, pelo...mestre Nominativo Magistr-i Mestres, os/ uns mestres Genitivo Magistr-orum De/ dos/ de uns mestres Plural Dativo Magistr-is Para, a/ aos mestres Acusativo Magistr-os Mestres, os/ uns mestres Vocativo Magistr-i Mestres, ó mestres Ablativo Magistr-is Com, nos, pelos...mestres 69 Estudo dos nomes da 2ª declinação Aula 6Por esse paradigma, podem ser declinadas as palavras puer, i (criança), arbiter, arbitri (juiz), liber, libri (livro) e outras da mesma confi guração. Você pode perceber que as diferenças são pequenas em relação ao paradigma das palavras em US: a) Pequena divergência no radical do nominativo e do genitivo, daí ser o genitivo que serve de modelo para os outros casos. b) As formas do nominativo e do vocativo são iguais no singular e no plural. Esse detalhe é constante em todas as declinações, exceto nas palavras de 2ª declinação em us, assim mesmo nem todas. Observados esses pequenos detalhes, você vai ver que todos os outros casos têm formas iguais às do primeiro modelo (Quadro 1). As palavras em ir são tão poucas e de uso tão raro que não se faz necessário apresentar um quadro só para elas. Pode-se muito bem seguir o modelo acima, guardando apenas o detalhe referente ao singular do nominativo e do vocativo. Tenha certeza de que, aos poucos, você vai se acostumando com o sistema das declinações, sobretudo quando for trabalhando as palavras no contexto das frases e for percebendo as formas que as palavras assumem em razão da função sintática que desempenham. Quadro 3 - Palavras do gênero neutro Casos Modelo Tradução Nominativo Sign-um Sinal, o sinal, um sinal Genitivo Sign-i De sinal, do/ de um sinal Singular Dativo Sign-o Para/ ao sinal Acusativo Sign-um Sinal, o/ um sinal Vocativo Sign-um Sinal, ó sinal Ablativo Sign-o Com, no, pelo...sinal Nominativo Sign-a Sinais, os/ uns sinais Genitivo Sign-orum De/ dos/ de uns sinais Plural Dativo Sign-i s Para/ aos sinais Acusativo Sign-a Sinais, os/ uns sinais Vocativo Sign-um Sinais, ó sinais Ablativo Sign-i s Com, nos, pelos...sinais Pelo paradigma acima, são declinadas todas as palavras do gênero neu- tro desta declinação: bellum, i (guerra), miraculum, i (milagre), exemplum, i (exemplo), periculum, i (perigo) etc. É muito fácil identifi car as palavras do gênero neutro de 2ª declinação: toda palavra que apresentar a terminação do nominativo em um e do genitivo em I não deixa qualquer dúvida, pois pertence à relação dos nomes neutros. 70 Fundamentos da Língua Latina É muito importante conhecer o gênero da palavra antes de qualquer trabalho com ela. Não se pode direcionar a palavra para outra lista que não seja aquela à qual realmente pertence. Mesmo que a palavra seja da mesma declinação, a questão do gênero é de grande importância, pois os gêneros têm listas específi cas. OUTRAS OBSERVAÇÕES SOBRE A 2ª DECLINAÇÃO As palavras do gênero neutro têm iguais as formas do nominativo, vocativo e acusativo no singular (um) e no plural (a). As formas do dativo e do ablativo são iguais em qualquer gênero e número. Seu maior trabalho consiste em ter todo o cuidado na identifi cação da lista certa na qual declinar a palavra. Em seguida, realizar corretamente a análise sintática e buscar a forma exata que a palavra deve ter na frase em questão. Outra observação importante, como já foi dito na primeira declinação, é conhecer o radical de cada palavra, saber isolá-lo para juntar a ele cada desinência que faz corresponder às necessidades reais daquela frase com a qual se está trabalhando. 71 Estudo dos nomes da 2ª declinação Aula 6CONCLUSÃO Esta aula mostrou como fl exionar as palavras da 2ª decli nação. O procedimento é sempre o mesmo: a palavra é apresentada com o seu genitivo, o que fornece duas informações importantes: a declinação a que pertence e a forma do radical com a qual todos os demais casos serão fl exionados. Você não vai precisar decorar nada, pois os paradigmas apresentados contêm todas as desinências. O mais difícil, certamente, será escolher a forma adequada, o que só será possível mediante um bom conhecimento de análise sintática. Apesar de mais complexa por comportar palavras dos três gêneros, a 2ª declinação não vai criar maiores difi culdades, pois as listas com as varia- ções são anexadas para serem utilizadas, e não memorizadas. Você até vai ver que, com o tempo, muita coisa será assimilada pelo hábito de repetir e criar analogias. Conhecidas as duas primeiras declinações, você já está preparando as bases para construir frases mais amplas e fi car mais à vontade com um vocabulário mais extenso. Observe várias vezes os paradigmas das duas declinações estudadas. Tente substituiros radicais dos paradigmas pelos de outras palavras. Toda a efi ciência do aprendizado vai depender, daqui por diante, da freqüência dos exercícios. RESUMO As palavras que se declinam em latim obedecem a paradigmas e mudam as suas formas sempre de acordo com eles. Este trabalho, quando feito em pleno conhecimento da análise sintática, vai dando maior segurança ao estudante e tornando mais agradável o contato com a língua latina. O latim é uma língua cheia de exceções, mas não se preocupe: quando isso ocorrer, um bom dicionário sempre alertará a respeito. Esta disciplina, pelo pouco espaço de tempo que lhe é destinado, apenas alertará para as questões básicas do conhecimento da língua. 72 Fundamentos da Língua Latina ATIVIDADES As atividades aqui propostas visam ao maior domínio das formas la- tinas e sua relação com as funções sintáticas e à distribuição correta entre os casos latinos: 1. Responda: a) Quais as principais características da 2ª declinação? b) Em qual paradigma deve enquadrar-se a palavra lignum, i (lenho). Por quê? c) Pelo mesmo paradigma de Dominus, i (senhor) pode ser declinada a palavra donum, i (dom, presente)? Justifi que. d) Entre as palavras regina, ae (rainha) e regnum, i (reino) reconheça formas com terminações iguais. O que, porém, as diferencia? Explique. 2. A expressão regina coeli (rainha do céu) é uma mistura de palavras da 1ª (regina, ae) e 2ª (coelum, i) declinações. Transpostada para o plural, a expressão seria ______ 3. As expressões Agnus Dei, Corpus Christi, Mapa mundi, Vox populi, Anno Domini apresentam em comum a segunda palavra terminada em I. Responda, portanto, a) A que declinação pertencem estas palavras? b) Em que caso estão colocadas? Por quê? c) Qual o elemento comum que aparece na tradução para o português. Explique. 4. Existe diferença de tradução nas frases abaixo? Por quê? a) Petrus vidit Paulum. b) Paulum vidit Petrus. 5. Construa frases em português que esgotem todas as possibilidades de tradução dos termos latinos: Pericula (periculum, i= perigo). Pueri (Puer, i = criança) Digitis (digitus, i = dedo) Bello (bellum, i = guerra). 6. Preencha as lacunas com as palavras latinas correspondentes de acordo com a função sintática exercida por elas nas frases. Justifi que. a)O povo (_____________) reconhece os sinais (_____________) dos perigos. b) As mestras e os mestres (________________________) fi zeram grandes elogios aos alunos (_____________________). c) Os pais de Antônio e de Cláudio (______________) elogiaram as vitórias (_______) dos fi lhos (_______________). 7. Pesquise no dicionário e relacione palavras latinas das declinações estu- dadas e seu signifi cado. Reconheça as marcas deixadas por essas palavras no léxico português. 8. Observando as formas latinas que aparecem nesta aula, reconheça as marcas deixadas por elas em palavras da língua portuguesa. VOCABULÁRIO Petrus, i = Pedro Vidit = viu Paulus, i = Paulo 73 Estudo dos nomes da 2ª declinação Aula 6 COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES O exercício 1 leva ao contato inicial com as formas das palavras assoicadas às funções sintáticas. Desinências iguais nem sempre remetem às mesmas funções ou confi gurações de genêro. Seu trabalho é visualizar bem essas formas e caracterizá-las. No item b, lembre-se que a terminação da palavra lignum, i é um,i, portanto, ela pertence ao paradigma da 2ª declinação. Desta declinação fazem parte as palavras latinas terminadas em us, er, ir e um. No item c, observe que, apesar de serem da 2ª declinação, essas palavras diferem quanto ao gênero. Dominus, i será declinada conforme o Quadro 1, por onde é declinada a maior parte das palavras da segunda conjugação. A palavra lignum, i, ao contrário, não usará o mesmo paradigma, pois faz parte do gênero neutro, usando, assim, o mesmo modelo da palavra signum, i, apresentada no Quadro 3. No item d, caro aluno, perceba que a diferença está na declinação de que fazem parte. Regina, ae pertence à 1ª declinação, enquanto regnum, i pertence à 2ª declinação. Para o exercício 2, basta que você utilize os paradigmas da 1ª e da 2ª declinações, respectivamente. Antes, porém, é necessário que você identifi que a que casos pertencem. Veja que, pelas terminações, regina é nominativo ou vocativo e coeli é genitivo. Daí, teremos Reginae coelorum. No exercício 5, a forma pericula é plural e do nominativo, vocativo e acusativo, palavra que pertence ao gênero neutro da 2ª declinação (cf. Quadro 3). Para construir frases em português que contemplem a forma latina em pauta, é preciso ter atenção às funções sintáticas exercidas pelo nominativo, vocativo e acusativo no plural. Assim, estarão corretas frases como: Os grandes perigos não me amedrontam (sujeito). Ó perigos, hei de dominar-vos (vocativo). Encontrei muitos perigos ao longo da vida (acusativo). Nos três casos, a palavra perigos terá, no latim, a forma pericula. Realize o mesmo com as outras palavras. No exercício 6, as lacunas vão ser preenchidas com os termos que aparecem no vocabulário, mas a identifi cação da forma correta só acontecerá se a função sintática estiver perfeitamente identifi cada. Compare, mais uma vez, o que já se disse: o latim parece ser mais fácil do que a análise sintática, pois as desinências, que sempre são dadas, só serão bem escolhidas se a função sintática estiver corretamente identifi cada. 74 Fundamentos da Língua Latina O hábito de consultar o dicionário é imprescindível para bem trabalhar o latim. O exercício 7 pede que você encontre palavras da 1ª e 2 ª declinação. A base da pesquisa é sempre o segundo elemento que vem junto à palavra encontrada, ou seja, o seu genitivo. Assim, toda palavra de 1ª declinação terá nominativo em a e genitivo em ae. Exemplo: fl ama, ae. Não se encaixa, portanto, nesta declinação a palavra clima, climatis. Esta palavra, apesar de ter o nominativo em a, como na 1ª declinação, apresenta o genitivo em is, marca das palavras de 3ª declinação. O mesmo acontece com digitus, i (dedo) - 2ª; spiritus, us (espírito) - 4ª declinação. Lembre-se: não é o nominativo, mas sim o genitivo, o elemento que remete a palavra para a sua verdadeira declinação. Exercício 8: as marcas latinas dedo (em latim digitus, i) estão presentes em digito, digital, digitador, digitação etc. REFERÊNCIAS CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. FURLAN, Oswaldo Antônio. Latim para o português. Florianópolis: EDUFSC, 2006. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do Cérebro, 1999. SOARES, João S. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. TARALLO. Fernando. Tempos lingüísticos. São Paulo: Ática, 1994. ESTUDO DO VERBO ESSE (SER) META Apresentar o emprego do verbo esse (ser) na estruturação de frases latinas. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula, o aluno deverá: distinguir as noções básicas dos elementos que compõem a morfologia verbal latina; exercitar a derivação verbal a partir do conhecimento das formas primitivas; estabelecer o mecanismo de conjugação do verbo esse e seu funcionamento na sintaxe latina; trabalhar frases que contemplem o verbo esse e seus derivados; reconhecer a apresentação dos verbos nos dicionários; e realizar exercícios de tradução contemplando algumas especifi cidades verbais. PRÉ-REQUISITOS Todas as aulas anteriores, priorizando os conhecimentos de análise sintática. Jamais esqueça: o latim é um todo organizado e muito bem articulado em todas as suas partes, daí nada do que já foi visto pode ser dispensado. Aula 7 76 Literatura Brasileira II INTRODUÇÃO A morfologia dos verbos latinos é muito complexa. Os verbos repre- sentam grande parte do estudo da língua latina euma riqueza de possibilidades bem maior do que nas línguas modernas. O latim, mediante a conjugação dos seus verbos, consegue expressar, com grande sutileza de detalhes, aspectos da ação verbal já não mais exis- tentes nas línguas românicas. O conhecimento do verbo esse (ser) constitui uma grande base para o estudo dos outros verbos, porquanto vem ampliar as variedades de expressão da linguagem quando ele é empregado como auxiliar. As difi culdades iniciais não devem servir de bloqueio pra a continuidade dos estudos até porque, como tem ocorrido no estudo das declinações, nada será exigido pelo caminho da memorização. Tudo, portanto, só depende de sua boa vontade e do desejo de prosseguir. 77 Literatura e teatro naturalista do Brasil: Aluísio Azevedo e Artur Azevedo Aula 7VERBO ESSE (SER) A morfologia dos verbos latinos, apesar de ser bem mais complexa do que em português, possui elementos co- muns de conjugação que vale a pena recordar: são bastante próximas as confi gurações de tempo, modo, pessoa, número, voz e conjugação. As formas nominais também se assemelham: gerúndios e particípios. O verbo esse é irregular, ou melhor, como em português, é de uma irregularidade especial, cabendo-lhe a denominação de anômalo, por apre- sentar signifi cativas mudanças nos radicais, fugindo, portanto, a uma certa padronização. Em latim, o verbo esse pode ser traduzido por ser, estar, existir, a de- pender da exigência de cada contexto. Aliás, também o português conhece o uso do verbo ser no sentido de estar e existir em expressões como: O Senhor é convosco (Dominus (est) tecum); No princípio era o Verbo (In principio erat Verbum). Tal acepção acontece muitas vezes em textos religiosos. O latim, como sempre se vai observar, apresenta os seus verbos me- diante as formas dos tempos primitivos. Isso acontece porque, desta ma- neira, é possível visualizar as diferenças de radicais quando elas existirem. Assim, qualquer dicionário jamais apresentará apenas a forma no infi nitivo para identifi car um verbo latino. Nos dicionários, portanto, assim será apresentado o verbo ser: sum, es, fui, esse. É muito comum também que se apresente um verbo mediante a forma do presente do indicativo: verbo sum, verbo amo, verbo habeo etc. As formas primitivas são: 1ª e 2ª pessoas do singular do presente do indicativo; 1ª pessoa do singular do pretérito perfeito; supino (tempo in- existente em português) e infi nitivo. Assim, são estes os tempos primitivos do verbo ser: Sum, Es (eu sou, tu és) – Os tempos daqui derivados são denominados de INFECTUM. Fui (eu fui) – Os tempos daqui derivados são denominados de Per- fectum. O VERBO ESSE (SER) NÃO POSSUI O SUPINO Raramente os verbos latinos vão aparecer com os pronomes pessoais (Cogito, ergo sum). A presença do pronome pessoal não faz parte da con- jugação dos tempos; quando ele aparecer, é por questão de ênfase de uma ação: Ergo sum pastor bonus. A língua portuguesa, por sua vez, viu-se obrigada a usar o recurso do pronome pessoal, haja vista a incidência de formas iguais para pessoas diferentes num mesmo tempo verbal. Embora seja um verbo irregular, o verbo esse é estudado antes dos 78 Literatura Brasileira II outros das diferentes conjugações, dada a grande importância deste verbo para a composição das frases e como elemento auxiliar na confi guração de outros verbos. Observe agora o quadro de conjugação do verbo esse: � Presente Imperfeito Futuro imperfeito Perfeito Futuro anterior Indicativo Subjuntivo sum = sou sim =seja es sis est sit sumus simus estis sitis sunt sint eram = era essem = fosse eras esses erat esset eramus essemus eratis essetis erant essent ero = serei eris erit erimus eritis erunt fui = fui, tenho sido fuerim = tenha sido fuist fueris fuit fuerit fuimus fuerimus fuistis fueritis fuerunt fuerint fueram = fora, tinha sido fuissem = tivesse sido fueras fuisses fuerat fuisset fueramus fuissemus fueratis fuissetis fuerant fuissent fuero = terei sido fueris fuerit fuerimus fueritis fuerint Mais-que-perfeito 79 Literatura e teatro naturalista do Brasil: Aluísio Azevedo e Artur Azevedo Aula 7Imperativo Infinitivo Participio es = sê esse = ser Presente este = sede esto fore (invariável), ou fu- futurus, a , um turum, amum esse = que vai ser, Futuro = ir ser, dever ser que deve ser, para ser estote sunto Passado fuisse = ter sido Pelo mesmo modelo são conjugados os seus deriva- dos. Na verdade, tais verbos nada mais são do que as formas do verbo esse, do quadro acima, acrescidas de preposições em forma de prefi xos, que vêm acrescentar um sentido novo conforme as preposições costumam fazer, sobretudo direcionando para diferentes pontos o aspecto verbal: ab = afastamento, ad = proximidade etc. Eis, pois os compostos de sum Absum, abes, abfui, abesse = estar ausente. Adsum, ades, adfui, adesse = estar presente. Desum, dees, defui, deesse = faltar. Insum, ines, infui, inesse = estar em. Intersum, interes, inerfui, interesse = estar entre. Obsum, obes, obfui, obesse = prejudicar. Praesum, praees, praefui, preaesse = estar à frente. Subsum, subes, subfui, subesse = estar debaixo. Supersum, superes, superfui, superesse = sobreviver Outras derivações: Prosum, prodes, profui, prodesse = ser a favor de (exige o acréscimo do d ao prefi xo antes das formas começadas por vogal). Possum, potes, potui, posse = poder. Este verbo tem a raiz pot (potente, em português) e o infi nitivo posse (possível, em português). O verbo esse carece de particípio presente, supino e de gerúndio. Como se disse anteriormente, o verbo esse pode ter os seguintes sig- nifi cados: a) Ser – verbo de ligação. Assim, vem seguido de predicativo, concordando com o sujeito em caso. Puer est bonus – Marta discipula est. b) Estar – Si essetis nobiscum... c) Existir ou haver - Neste caso vem sem predicativo e irá para o plural se no plural estiver o sujeito. Deus est - Quid est? d) Morar – Esse in his locis. 80 Literatura Brasileira II e) Ser próprio de, ser dever de (constrói-se com genitivo) – Est magistri docere. f) Ser para, servir de, trazer, causar – (constrói-se com dativo, chamado de interesse) – Esse detrimento. g) Ficar, estar situado – Urbs qui est inter... Tais particularidades vão aparecendo à proporção que as frases forem sendo elaboradas e aos poucos se vai percebendo a sutileza de signifi cado que o verbo pode imprimir à sentença. É uma questão de prática, de exercício. ATIVIDADES 1. Responda: a) Por que os verbos latinos devem ser apresentados com os seus tempos primitivos? b) Quais são os tempos primitivos do verbo esse? c) Quais as possíveis traduções do verbo esse no contexto das frases? d) Alguma vez em português o verbo ser pode ser empregado com outro sentido? Exemplo. e) Como se constroem os derivados do verbo esse? Exemplo. f) Os derivados de esse que caso regem? Explique. g) Considerando a relação dos verbos derivados de esse, reconheça termos da língua portuguesa que deles provenham. Explique. 2. Traduza do latim: a) Bona consilia senum juvenibus saepe profuerunt et semper proderunt. b) Agri sine cultura nunquam fructuosi esse poterunnt. c) Deus semper fuit, sed non fuit autem semper homo mortalis. VOCABULÁRIO Bonus, a, um – bom, boa / Consilium, I – conselho / Senex, senis = velho / Juvenis, juvenis = jovem /Saepe = muitas vezes / semper = sempre / Prodesse (ver lição acima). Ager, agri – campo / sine = sem (+ablativo) / unquam = nunca / Esse e posse (ver lição acima) / Fructuosus, a, um = frutuoso, proveitoso. Deus, i – Deus / Sed = mas / non = não / Homo, hominis =homem / mortalis, e = mortal. 81 Literatura e teatro naturalista do Brasil: Aluísio Azevedo e Artur Azevedo Aula 73. Transponha para o latim: a) Não havia trigo no acampamento dos soldados. b) Os verdadeiros amigos não desampararão os amigos nas desventuras. c) Os homens bons e sábios nunca poderão ser desgraçados. VOCABULÁRIO Não = non / Trigo = fromentum, i / No = in + ablativo / Soldado = Miles, militis / Acampamento = Crastra, orum / Verdadeiro = Verus, a, um / Amigo = Amicus, i / Desamparar = desum (consultar lição acima) / Nas = In + ablativo / Desventura = Res, rei + Aaversus, a, um / Homem = Homo, hominis / Bons = Bonus, a, um / Sábio = Sapiens, sapientis / Nunca = Nunquam / Poder = Posse (consultar lição acima) / Ser = Esse (consultar lição acima) / Desgraçado = Miser, misera, um. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES A Atividade 1 retoma as informações básicas sobre o verbo esse, seus derivados e suas modalidades de uso. É importante ir percebendo a questão da regência e as pequenas diferenças de signifi cado que o uso dos prefi xos pode ir acrescentando à base, ou seja, ao verbo esse, e até constatar como, muitas vezes, a língua portuguesa os assume. A Atividade 2 retoma o mecanismo da tradução dando maior ênfase ao reconhecimento dos verbos estudados nesta aula. Observe que o reconhecimento da função sintática é a base para desenvolver corretamente o exercício, por isso este assunto deve ser dominado com total segurança. A exemplo do exercício 2, o exercício 3 trabalha as frases partindo do português. O processo é semelhante, sendo sempre necessário usar o recurso da análise sintática para trabalhar corretamente os casos. 82 Literatura Brasileira II CONCLUSÃO Esta aula introduz o conhecimento das conjugações verbais latinas tendo por base o verbo ser, que é um verbo de liga- ção, mas que possui os seus derivados para os quais se deve prestar atenção quando a regência exigir algum caso específi co. O estudo do verbo esse abre caminho para o conhecimento das conju- gações latinas nas quais se vai perceber o recurso do verbo ser no momento de trabalhar certas formas, sobretudo a voz passiva. RESUMO O latim trabalha seus verbos a partir dos tempos primitivos, os quais fornecem a confi guração dos tempos derivados. É preciso habituar-se a ver a apresentação dos verbos como faz o dicionário fornecendo os tem- pos primitivos para todo e qualquer verbo. Existe também a necessidade de ir assimilando as formas próprias de cada pessoa, número, tempo ou modo e ir também familiarizando-se com a prática de isolar os radicais e acrscentar-lhes as desinências devidas. Tudo isso você vai adquirindo com o tempo, sempre recorrendo aos quadros para realizar um trabalho seguro e consciente. REFERÊNCIAS CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. FURLAN, Oswaldo Antônio. Latim para o português. Florianópolis: EDUFSC, 2006. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do Cérebro, 1999. SOARES, João S. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. TARALLO. Fernando. Tempos lingüísticos. São Paulo: Ática, 1994. ADJETIVOS DE 1ª CLASSE META Apresentar o mecanismo dos adjetivos de 1ª classe e associá-los à fl exão dos substantivos. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula, o aluno deverá: revisar os conhecimentos das declinações estudadas (1ª e 2ª declinações); revisar a confi guração de gênero em língua latina; identifi car o emprego dos adjetivos na função sintática de adjunto adnominal; distinguir, com base nos conhecimentos de língua portuguesa, os adjetivos de 1ª e 2ª classe; e exercitar frases latinas contendo adjetivos em diferentes posições sintáticas. PRÉ-REQUISITOS Domínio de análise sintática e das palavras de 1ª e 2ª declinações. Aula 8 84 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO As palavras reconhecidas como adjetivos servem para fortalecer a compreensão dos nomes, imprimindo-lhes detalhes que ampliam e facilitam o processo de identifi cação mediante a apresentação de qualidades. Desta forma, eles devem combinar com os nomes em tudo. Em latim, se diz que devem ter a mesma confi guração que os substantivos tiverem: gênero, número, caso e função sintática. Eles se dividem em adjetivos de 1ª e 2ª classe e possuem declinação específi ca para cada classifi cação. Os de 1ª classe, objeto de estudo desta aula, seguem a mesma forma dos nomes de 1ª e 2ª declinações. Nada que cause espanto. Basta que você esteja atento ao assunto estudado, o qual vai ser agora ampliado, permitindo trabalhar frases mais complexas e mais ricas de detalhes. 85 Adjetivos de 1ª classe Aula 8ADJETIVOS DE 1ª CLASSE Para você compreender a diferença entre primeira e segunda classe, use o raciocínio seguinte: os adjetivos cha- mados de primeira classe possuem formas que se tornam diferentes a depender do gênero do substantivo. Pertencem à primeira classe adjeti- vos como: bom/boa, negro/negra, sadio/sadia, preguiçoso/preguiçosa, sagrado/sagrada etc. Assim, você pode dizer que “O menino é bom” e “A menina é boa”; “O rio é negro” e “A cultura é negra”; “O livro é sagrado”, “A Bíblia é sagrada” e “O templo (do gênero neutro em latim) é sagrado”. Como em português, o adjetivo há de ter o mesmo gênero do substantivo e, em latim, o cuidado deve ser redobrado por causa da existência do gênero neutro. Nada é complicado; essa é apenas uma novidade com a qual você rapida- mente se acostumará. Os adjetivos aqui estudados, ditos de 1ª classe, são declinados exata- mente como as palavras de 1ª e 2ª declinações, como será explicado mais adiante. Os adjetivos de 1ª classe são sempre apresentados no nominativo singular, numa ordem que contempla os gêneros masculino, feminino e neutro. Não é preciso mostrar a forma do genitivo porque eles estarão sempre assim distribuídos: masculino (segue a 2ª declinação), feminino (segue a 1ª declinação), e neutro (segue a 2ª declinação no quadro específi co dos nomes neutros). No dicionário, portanto, você, ao procurar um adjetivo latino de 1ª classe, vai encontrar uma informação como esta: Sanus, sana, sanum = sadio. Ou vai encontrar o que é mais comum: Sanus, a, um. Esta informação está mostrando a feição de cada palavra a depender do seu gênero. Como o radical san é igual para todos os gêneros, não se costuma repeti-lo nas formas do feminino e do neutro. A combinação com os substantivos na mesma função sintática leva as terminações a serem idênticas porque se está lidando com palavras do mesmo gênero e da mesma declinação. Populus, i = povo. Populus sanus (povo sadio). Vita, ae = vida. Vita sana (vida sadia). Exemplum, i = exemplo. Exemplum sanum (exemplo sadio). Se, como se disse, a ordem apresentada pelo dicionário é sempre esta: masculino, feminino e neutro da forma do nominativo singular, você deve prestar muita atenção para seguir o gênero do substantivo em pauta e es- colher o adjetivo que a ele se relacione pelo gênero correspondente. Não é demais insistir nesta informação: para os adjetivos, não é necessário apresentar o genitivo correspondente como se fez com os substantivos. Os adjetivos 1ª classe serão sempre declinados pela segunda 86 Fundamentos da Língua Latina declinação (masculinos), pela primeira declinação (femininos) e pela segunda declinação (nomes neutros). Eis outros exemplos: Bonus, bona, bonum = bom, boa. Ou melhor: Bonus, a, um. Quase não é preciso repetir o radical para as formas do feminino e do neutro, a não ser que haja qualquer modifi cação entre as formas de cada gênero. Muitos adjetivos, como também ocorreu com os substantivos, pos- suem o nominativo singular em ER. Aí uma pequena alteraçãose verifi ca: Niger, nigra, um = negro, negra. Sem apresentar o radical da forma feminina, você poderia ter a impressão de que o correto seria niger, nigera, nigerum. Um erro, portanto, nas formas do feminino e do neutro. Por outro lado, são de 2ª classe adjetivos que em português só apre- sentam uma forma que vai servir tanto para os nomes masculinos quanto para os femininos, tais como dócil, forte, pobre, agradável etc. Assim, “O menino é dócil” e “A menina é dócil”; “O vento é forte” e “A casa é forte”; “O dia é agradável”, “A noite é agradável”, e assim por diante. Tais adjetivos serão estudados após o conhecimento da 3ª declinação, pois são fl exionados de acordo com esse paradigma. Nesta aula, você vai aprender a combinar os substantivos de 1ª e 2ª declinações com os adjetivos de primeira classe. O nome é o elemento principal de sua atenção, por isso aconselha-se sempre trabalhar primeiro o substantivo, pois ele é que é considerado o núcleo daquilo que se quer expressar. O adjetivo vem em seguida e deve combinar com ele em gênero, número e caso. Mesmo que em português você faça frases colocando in- distintamente o adjetivo antes ou depois do substantivo e em latim isso também seja possível, aqui é melhor você sempre imaginar primeiro o sub- stantivo. O adjetivo virá depois e lhe obedecerá em tudo, repetindo: tendo o mesmo gênero, número e caso que o substantivo tiver. É exatamente como em português: não é pos- sível dizer: “Menino bonita”. Esta recomendação vai evi- tar, certamente, o que é muito freqüente em alguns falantes do português, ou seja, construção de frases como: “Foi marcado, para a próxima semana, a reunião com os formandos”. O que está em destaque mostra a falta de concordância de gênero, ocorrida simplesmente porque o substan- tivo aparece depois da forma nominal do verbo, que funciona 87 Adjetivos de 1ª classe Aula 8como adjetivo. Por outro lado, você nunca vai ouvir de nenhum falante a frase: A reunião com os formandos foi marcado para a próxima semana. Quem também costuma dizer assim são os falantes de língua estrangeira que ainda não dominam a questão de gênero em português. O mesmo pode ocorrer com você ao tentar raciocinar os gêneros latinos com base no português. Nem sempre, porém, as palavras latinas possuem exata- mente o mesmo gênero que em português. Portanto, confi ra o gênero de cada palavra antes de realizar qualquer frase com ela e, para facilitar o seu trabalho, imagine sempre o substantivo colocado antes do adjetivo e este combinando com ele em gênero número e caso. Este cuidado com o latim deve ser mais intenso por causa da existên- cia do gênero neutro, o qual deverá levar o adjetivo também para a forma neutra. Desta maneira, mais uma vez se recomenda, antes de qualquer exercício, procurar saber o gênero a que pertence o substanti vo com que se vai trabalhar. Por exemplo: a palavra sinal (signum, i) em latim pertence ao gênero neutro. Se você raciocinar com base no português, certamente colocará o adjetivo no gênero masculino, descaracterizando completamente a estruturação do latim. O erro ainda será mais fácil de acontecer se você colocar o adjetivo antes do substantivo numa frase como: Eternos sinais de Deus são as maravilhas da natureza. O melhor raciocínio para chegar à tradução em latim é: Sinais eternos de Deus são as maravilhas da natureza. Assim, trabal- hando em primeiro lugar o substantivo, você vai receber a informação sobre o seu gênero e imediatamente fi cará atento para também colocar o adjetivo na forma do gênero neutro. A frase em latim fi cará: Signa aeterna Dei mirabilia naturae sunt. Exercite um pouco mais esta frase. Dadas as palavras do latim, procure analisar sintaticamente cada termo e justifi car a confi guração das formas. Substantivos de 1ª e 2ª declinações combinados com adjetivos de 1ª classe apresentarão sempre terminações iguais em qualquer circunstância ou função sintática desempenhada na frase. Isso é lógico, pois tais adjetivos são declinados segundo o paradigma dessas declinações. Assim, fi ca muito fácil exercitar frases combinando substantivos e adjetivos nas condições acima. Neste aspecto, nem é preciso buscar muito as formas dos adjetivos, basta dar a eles a mesma terminação dos substantivos que estão qualifi cando. Observe os seguintes exemplos: Puer piger nunquam discipulus bonus erit. (Menino preguiçoso nunca será bom aluno). Colocada no feminino, a frase seria: Puella pigra nunquam discípula bona erit. (Menina preguiçosa nunca será boa aluna). As palavras têm função de sujeito e predicativo do sujeito, fi cando, por VOCABULÁRIO Signum, i = sinal Aeternus, a, um = eterno, a Deus, i = Deus Mirabilia, ae = maravilha Natura, ae = natureza Sunt = são (verbo). 88 Fundamentos da Língua Latina isso, no caso nominativo. Observe como as terminações dos adjetivos são as mesmas dos substantivos e assim sempre ocorrerá, pois estamos lidando com palavras das mesmas declinações. Isso, porém, não vai ser sempre as- sim. Haverá uma diferença quando forem combinados adjetivos de 1ª classe com palavras de outras declinações ou adjetivos de 2ª classe (que seguem a terceira declinação) com palavras de outras declinações. Veja a mesma diferença em português: Menino sadio/ Menina sadia... Menino pobre/ Menina pobra... Você já pode observar algumas divergências entre palavras de 1ª e 2ª declinações e adjetivos de 1ª classe. Na verdade, isso acontece porque, nesta categoria, existem substantivos e adjeti- vos cujo nominativo singular termina em us e er. Com isso, a depender da combinação, podem ocorrer divergên- cias de desinências. Observe as formas seguintes, que são divergentes, mas todas completamente corretas: Magister bonus/Discipulus piger (Mestre bom/Discípulo preguiçoso). A compreensão desse fenômeno vai ocorrendo aos poucos. Não se afl ija por isso. Os exercícios irão facilitar o domínio das formas e as suas possíveis combinações. Esta pequena diferença somente acontece com os nomes mas- culinos. No que se refere aos nomes femininos e neutros, a igualdade de formas sempre acontece quando se trata de combinar 1ª e 2ª declinações com adjetivos de 1ª classe. Pluvia magna; Pluviae magnae; Pluviarum magnarum; Pluviis magnis = grande(s) chuva(s). Miraculum magnum; Miracula magna; Miraculo magno; Miraculis Magnis etc = grande(s) milagre(s)... No que tange à função sintática, os adjetivos funcionam como adjun- tos adnominais e, assim sendo, não possuem caso defi nido como acontece com as outras funções sintáticas. Isso porque, servindo ao substantivo, vão estar sempre ligados a ele em gênero, número e caso. Desta maneira, você encontrará o adjunto adnominal em todos os casos latinos a depender da posição ocupada pelo substantivo. Outra tendência errada em relação aos adjetivos é esperar terminações idênticas aos substantivos aos quais se juntam. Coisas do tipo: puer boner 89 Adjetivos de 1ª classe Aula 8 ATIVIDADES Comece a observar a função de adjunto adnominal exercida pelos adjetivos em diferentes posições sintáticas. Analise-os e identifi que o caso latino correspondente: a) A menina bonita é também estudiosa. b) Ó menino preguiçoso, valoriza a tua vida. c) A dedicação dos bons mestres foi elogiada pelo conselho diretor. d) Encontrei no belo jardim da nossa escola animais raros. e) As grandes guerras deixam eternos sinais na nossa vida. f) Nos templos sagrados dos povos antigos, as crianças eram sacrifi cadas aos poderosos deuses. g) Marta, minha querida fi lha, ganhou novos prêmios. h) Marta, minha querida fi lha, ouve os bons exemplos do teu mestre! (em lugar de puer bonus), disciulus nigrus (em lugar de discipulus niger) etc. Para não cometer tais faltas, é preciso ter muita certeza da forma própria do adjetivoantes de decliná-lo. CONCLUSÃO O estudo dos adjetivos é parte importante do conhecimento do latim. Com isso, você pode realizar frases mais elaboradas e dominar o livre trânsito entre as palavras. É também, no caso dos adjetivos de 1ª classe, um ótimo exercício com as palavras de 1ª e 2ª declinações, pois eles são fl exionados tendo essas declinações por modelo. É, portanto, o mesmo quadro que serve de base para os referidos substantivos que vai ser a base de onde os adjetivos aqui referidos encontram as desinências de cada caso latino. Daí em diante, o processo é sempre o mesmo, basta somente ter atenção e analisar corretamente as palavras em cada frase, identifi cando as funções sintáticas a cada momento de uso. 90 Fundamentos da Língua Latina RESUMO Nesta aula você estudou os adjetivos de 1ª classe. Você deve assimilar que o latim possui adjetivos de 1ª e 2ª classe e, pela própria confi guração do português, é possível compreender tal classifi cação, sobretudo buscando a tradução exata de cada termo a fi m de desfazer alguns equívocos. Se você, no processo de tradução, recorrer a palavras sinônimas, deverá ter muita aten- ção para não enganar-se na identifi cação das classes. Por exemplo: em latim Magnus, a, um e Calidus, a, um, dizem, respectivamente, magno e cálido, mas usando os sinônimos grande e quente, o que é perfeitamente normal, você poderá, erradamente, associar as formas latinas aos adjetivos de 2ª classe. Os adjetivos funcionam como adjuntos adnominais e, assim sendo, não possuem caso latino defi nido. Eles concordam sempre em gênero, número e caso com os substantivos aos quais se juntam, por isso você vai encontrar adjetivos em todas as funções sintáticas. O paradigma para declinar os adjetivos de 1ª classe será sempre baseado nas palavras de 1ª e 2ª declinações, daí recomendar-se refl etir as frases sempre a partir dos substantivos; são eles que vão receber as qualidades de alto, baixo, pequeno, novo, sadio, bom etc. A classifi cação de adjunto adnominal também se aplica aos numerais ordinais, a alguns pronomes e a certas formas nominais dos verbos, como se verá mais adiante. O latim possui três gêneros: masculino, feminino e neutro. Os adjetivos são apresentados nos dicionários com a forma do nominativo singular con- tendo a confi guração de cada gênero. Não é preciso dar a forma do genitivo, como se faz com os substantivos, porque já se sabe que o paradigma para decliná-los é o mesmo da 1ª e 2ª declinação. ATIVIDADES Uma série de questões vai cobrar os seus conhecimentos sobre os adjetivos de 1ª classe e a articulação com que se fl exionam em latim. Estas questões gerais fazem parte da compreensão desta classe de palavras e servem de base para as atividades posteriores. 1. Responda: a) Que função sintática exercem os adjetivos nas frases latinas? b) Por que motivo no quadro das declinações não se encontra um caso específi co para o adjunto adnominal? c) O que você compreendeu pela distinção de 1ª e 2ª classe atribuída aos adjetivos latinos? Explique essa diferença com base no próprio português. d) Como são apresentados os adjetivos de 1ª classe nos dicionários latinos? e) Como se declinam os adjetivos de 1ª classe? 91 Adjetivos de 1ª classe Aula 8f) Costuma-se repetir ou não o radical dos adjetivos ao apresentá-los. Ex- plique. g) Os gêneros das palavras latinas são os mesmos em por- tuguês? Explique. 2. Análise e tradução: a) Preencha as lacunas com as palavras destacadas no texto colocadas em latim. Justifi que o emprego das formas: (Não se esqueça de sempre trabalhar o substantivo em primeiro lugar). a.1. As crianças amam a boa mestra. a.2. Pedro, meu mestre, viajou para a Itália. a.3. Confi ei aos bons anjos a minha sorte. a.4. O futuro de nossos fi lhos depende de nós. a.5. As crianças são motivadas pelos grandes exemplos dos pais. a.6. Apareceram negros sinais no céu. b) Construa frases em português nas quais se enquadrem perfeitamente as expressões latinas a seguir: b.1. Reginae nostrae. b.2. Populi antiqui. b.3. Templa sacra. b.4. Puero pigro. b.5. Vita sana. b.6. Discipulorum bonorum. Obs.: Não é preciso repetir as palavras que já foram dadas em exercícios da mesma lição. Se alguma palavra de um novo exercício, portanto, não constar no vocabulário cor- respondente, basta procurá-la em listas anteriores. c) Apesar das desinências iguais, as expressões latinas abaixo são diferentes em gênero, número, caso e signifi - cado. Explique tais diferenças recorrendo às listas das declinações. Terra nostra Bella nostra Terra, ae = terra Bellum, i = guerra Noster, nostra, um = nosso, a. d) Reconheça em superlativos da língua portuguesa a base de derivação dos seguintes adjetivos latinos: Pius, a, um = piedoso, a ________________________________ Frigidus, a, um = frio __________________________________ Calidus, a, um = quente ________________________________ Acutus, a, um = agudo _________________________________ Sacer, sacra, um= sagrado, a _____________________________ Amarus, a, um = amargo, a ______________________________ Macer, macra, um = magro, a ____________________________ VOCABULÁRIO Bonus, a, um = bom, boa Magistra, ae = mestra Petrus, i = Pedro Magister, magistri = mestre Meus, a, um = meu, minha Angelus, i = anjo Noster, nostra, um = nosso, a Filius, i = fi lho Magnus, a um = magno, a (grande) Exemplum, i = exemplo Signum, i = sinal Niger, nigra, um = negro, a VOCABULÁRIO Regina, ae = rainha Populus, i = povo Antiquus, a, um = antigo, a Templum, i = templo Sacer, sacra, um = sagrado, a Puer, pueri = menino Piger, pigra, um = preguiço- so, a Vita, ae = vida Sanus, a, um = sadio, a Discipulus, i = discípulo 92 Fundamentos da Língua Latina COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Questão 2 a) Aqui você exercita os conhecimentos de análise sintática e reconhece a persistência das formas de acordo com a identifi cação da cada função. Sem este trabalho não é impossível trabalhar corretamente o latim. Neste exercício, ainda não se trata de efeturar a tradução completa dos termos da oração; apenas se pede que você transponha para o latim os termos em destaque a fi m de acentuar o pleno domínio de cada função sintática em questão. Por exemplo, no item “a.1”, a expressão em destaque boa mestra exerce na frase a função de objeto direto pedida como complemento do verbo amar, que é transitivo direto. Como no latim esta fração sintática pede o acusativo, a resposta correta é magistram bonam, pois ambas as palavras pertencem à primeira declinação, cuja desinência do acusativo singular é am. Os demais itens do quesito seguem a mesma lógica e você deve apenas estar bem atento às funções sintáticas a fi m de escolher corretamente as formas latinas. Após efetuar o exercício, tente retrabalhar todos os itens, variando, desta vez, o número (singular e plural) da expressão em destaque. Assim, no item”a.1”, a expressão a boa mestra, irá para o plural as boas mestras, que em latim, observadas a função sintática e apertinencia do caso, terá a forma magistras bonas (objeto direto - acusativo plural - 1ª declinação). b. Neste item, você vai aprender que determinadas formas latinas podem servir a mais de uma função sintática, haja vista a própria confi guração dos casos que, muitas vezes, apresenta equivalência, o que pode confundir o estudante no início do contato com a língua latina. Assim, considerando o item “b.1”, você pode notar que a expressão reginae nostrae pode contemplar os seguintes casos latinos: - Genitivo singular - Dativo singular - Nominativo plural - Vocativo plural Isso acontece porque a desinência AE corresponde aos casos acima destacados. Assim, para realizar o exercício, você tem quatro possibilidades de frases em português a depender do caso que você queira contemplar:Genitivo singular: As palavras da nossa rainha são sábias (adjunto adnominal resttitivo). Dativo singular: As crianças ofereciam fl ores a nossa rainha (objeto indireto). 93 Adjetivos de 1ª classe Aula 8 Nominativo plural: As nossas rainhas desprezam o povo (sujeito). Vocativo plural: Nossas rainhas, escutai os clamores do povo! (vocativo). Estas frases são simples sugestões, mas você pode criar uma infi nidade de exemplos com base nos modelos acima apresentados. c. Algumas expressões latinas, pela semelhança de formas, podem confundir o iniciante, pensando tratar-se da mesma declinação, do mesmo caso, do mesmo gênero etc. Procure esclarecer este equívoco nas expressões dadas, identifi cando declinação, caso, função, gênero e número a que pertencem as palavras. d. As marcas latinas no português podem ser vistas na formação dos superlativos dos adjetivos, os quais retomam com exatidão a confi guração do latim. É assim, por exemplo, no superlativo de pobre = paupérrimo (pauper é pobre em latim). Faça o mesmo com as palavras sugeridas no exercício. REFERÊNCIAS CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. FURLAN, Oswaldo Antônio. Latim para o português. Florianópolis: EDUFSC, 2006. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do Cérebro, 1999. SOARES, João S. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. TARALLO, Fernando. Tempos lingüísticos. São Paulo: Ática, 1994. MORFOLOGIA DOS VERBOS DE 1ª CONJUGAÇÃO META Mostrar como se conjuga, segundo o modelo, qualquer verbo de 1ª conjugação nas vozes ativa e passiva. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula, o aluno deverá: identifi car a morfologia dos verbos latinos; revisar o processo de conjugação a partir das formas primitivas dos verbos; exercitar o mecanismo de tradução das frases latinas; e conjugar, segundo o modelo, qualquer verbo de 1ª conjugação sempre na contextualização das frases. PRÉ-REQUISITOS Leitura das aulas anteriores. Aula 9 96 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO Já foi dito que a morfologia dos verbos latinos é bastante complexa e não é no espaço mínimo destas poucas aulas que se vai conseguir abordar ou esgotar todo o assunto. Até as pessoas que avançaram consideravelmente nos estudos do latim sentem difi culdades de assimilar toda a estrutura verbal. De vez em quando, as surpresas aparecem e é preciso estar atento a elas, mas nada que não se possa enfrentar. Infelizmente, nestas poucas aulas, o assunto vai ser ligeiramente tratado em comparação à vastidão do conteúdo, mas o essencial será visto, per- mitindo o exercício de boas frases e pequenos textos. O objetivo, porém, terá sido alcançado se você conseguir compreender o mecanismo das conjugações latinas e, como sempre se disse ao longo deste curso, nada será exigido no plano da memorização. Importante é saber buscar, no lugar certo, as informações necessárias e, para tanto, será de muita valia o domínio da própria língua portuguesa. Você verá que muitas difi cul- dades não existiriam se o conhecimento do português fosse mais seguro. Se você tiver plena convicção das noções de conjugação, tempo, modo, pessoa, número, voz, e formas nominais, isto já será um bom caminho percorrido. Para o latim, é ainda necessário dominar a compreensão de tempos primitivos e derivados, informação que será bastante útil para a fl exão mesmo dos verbos em português. Você vai ter acesso a quadros de cada conjugação nas vozes ativa e passiva. O seu trabalho será familiarizar-se com elas e saber consultá-las no momento conveniente. Importa também rever as informações referentes ao verbo esse (ser), pois muitas delas são pertinentes aos verbos em geral, sobretudo na con- stituição da voz passiva. 97 Morfologia dos verbos de 1ª conjugação Aula 91ª CONJUGAÇÃO Conjugar um verbo é fl exioná-lo, ou seja, esgotar todos os recursos que determinam as variações de tempo, modo, pessoa, número e voz. Pessoa - As pessoas verbais não costumam fi gurar na conjugação das formas, e nem é necessário, pois em latim não existe a confusão causada pela igualdade de certas formas. Em português, porém, como saber se as formas amava, ame, amaria etc. referem-se à 1ª ou 3ª pessoa sem que as pessoas eu ou ele - ela sejam colocadas antes dessas formas? A conjugação latina, portanto, dispensa os pronomes pessoais correspondentes, que seriam: � ego 1ª pessoa Am-o Singular tu 2ª pessoa Am-as ille 3ª pessoa Am-at nos 1ª pessoa Am-amus Plural vos 2ª pessoa Am-atis illi 3ª pessoa Am-ant Raramente, os pronomes pessoais aparecem ligados a alguma forma verbal: Ego sum pastor bonus. Filius meus es tu etc. O normal, porém, é que não sejam empregados. Acostume-se, pois, a ouvir os verbos latinos dispensando os pronomes pessoais, habituando-se, antes, às formas que caracterizam, de modo quase invariável, cada pessoa. Número – Como em português, os verbos apresentam singular e plural, de acordo com o que exigir o número do sujeito. Assim: Amo fi lium meum / Amamus fi lios nostros. Amas fi liam tuam? / Amatis fi lias vestras? Disciplus amat / Discipuli amant. Pelo exemplo acima, percebem-se as terminações de número, que apresentam pequenas variações na estrutura temporal e modal. Modo – A maneira como se realiza a ação expressa pelo verbo em latim tem as seguintes denominações: a) Indicativo – indica a ação expressa pelo verbo de maneira real, categórica, defi nida, quer o juízo seja afi rmativo, quer seja negativo, quer seja inter- rogativo: amo, sofram, disseras, não fareis etc. b) Subjuntivo – indica que o verbo não tem sentido caso não venha sub- ordinado a outro verbo. Ninguém entenderá se dissermos digas, mas se dissermos quero que digas. c) Imperativo – é o modo da ordem, da exortação, da súplica: Dizei-me a verdade. 98 Fundamentos da Língua Latina d) Infi nitivo – é o modo impessoal e relata a ação do verbo sem fl exionar- se de acordo com as pessoas gramaticais. O português possui o infi nitivo pessoal, o qual é inexistente em latim, mas o verbo latino dispõe de três modalidades de infi nitivo: presente, passado e futuro. Formas nominais – As variantes impessoais conhecidas como for- mas nominais são o particípio (presente, passado e futuro), o gerúndio (gerundivo) e o supino. Este último, que não existe em português, é uma forma especial do infi nitivo, invariável, indicando fi nalidade. Tempo – Flexões especiais indicam nos verbos as variações de tempo: presente, passado e futuro. O presente não se divide. O passado, também conhecido como pretérito, possui três modalidades: imperfeito, perfeito e mais-que-perfeito. O futuro se apresenta como imperfeito, futuro do presente simples (como do português) e perfeito ou anterior, correspondente ao nosso futuro do presente composto. Não existem em latim o futuro do pretérito nem o futuro do subjuntivo. Mais tarde você saberá como substituí-los no contexto das frases latinas. Voz – importa saber distinguir as vozes ativa e passiva. Importa tam- bém conhecer as modalidades sintética e analítica. O ponto de referência é o conhecimento desses itens no português, daí a necessidade de fazer uma boa revisão desses assuntos. A voz passiva em latim tem a forma analítica nos tempos derivados do perfectum; nos demais tempos, utiliza a forma sintética. Em português, ambas as modalidades são possíveis em todas as for- mas do verbo, havendo, muitas vezes, a incidência do uso alternado de ambas as formas sem distinção ou alteração de sentido: Faça-se a tua vontade! (sintética) Seja feita a tua vontade! (analítica) O emprego, porém, da forma sintética, além de restringir-se à terceira pessoa, é meio complicado,haja vista a possibilidade de raciocínio em torno da inde- terminação do sujeito, construção semelhante pelo uso da partícula se. Ainda que os gramáticos insistam em dizer que a voz passiva só pode acontecer com verbos transitivos diretos, é muito difícil forçar o raciocínio em certas frases contra a indeterminação do sujeito: As crianças são mortas ainda no ventre das mães. (analítica) Matam-se as crianças ainda no ventre das mães. (sintética) 99 Morfologia dos verbos de 1ª conjugação Aula 9A forma sintética, no raciocínio geral, tem a conotação de um ato suicida ou assassino das crianças. No latim, as formas sintéticas são desinenciais e não precisam da partícula se. Elas são imediatamente visíveis no contexto das frases. No português, o processo mental para assimilar as modalidades da passiva é bem mais complicado. Observe este outro exemplo: As pontes serão construídas no próximo ano. As pontes se construirão no próximo ano. Outra observação a ser feita é que o latim, ao usar o verbo esse nas formas analíticas, não o faz corresponder aos tempos que ele ajuda a formar. Assim, amatus sum não traduz o presente sou amado, como se poderia imaginar, mas fui amado, correspondendo, portanto, ao pretérito perfeito. ATIVIDADES Para atestar essa informação, observe no quadro da voz passiva os outros tempos em que tal procedimento ocorre. Faça a correlação entre as formas do verbo esse e o sentido que eles expressam nos tempos que ajudam a formar. Agora vai ser apresentado um quadro contendo o verbo de 1ª conjuga- ção Amare fl exionado na íntegra. Poderia ser dado qualquer outro do mesmo grupo, não importa. Basta tão somente aplicar o modelo, substituindo o radical pelo do verbo desejado e acrescentar-lhe as desinências devidas. Exemplo: Amare / Cantare / Ambulare / Volare (voz ativa) Amari / Cantari / Ambulari / Volari (voz passiva) Nos verbos regulares, o processo é muito tranqüilo. Basta ter atenção e saber separar o radical e aplicar-lhe as desinências devidas de acordo com o que a frase o exigir. 100 Fundamentos da Língua Latina 1ª Conjugação regular - Voz ativa. Amo, as, avi, atum, are. � Presente Imperfeito Futuro imperfeito Perfeito Futuro anterior Indicativo Subjuntivo amo = amo amem =ame amas ames amat amet amamus amemus amatis ametis amant ament amabam = amava amarem = amasse amabas amares amabat amaret amabamus amaremus amabatis amaretis amabant amarent amabo = amarei amabis amabit amabimus amabitis amabunt amavi = amei, tenho amado amaverim = tenha amado amavisti amaveris amavit amaverit amavimus amaverimus amavistis amaveritis amaverunt amaverint amaveram = amara, tinha amado amavissem = tivesse amado amaveras amavisses amaverat amavisset amaveramus amavissemus amaveratis amavissetis amaverant amavissent amavero = terei amado amaveris amaverit amaverimus amaveritis amaverint Mais-que-perfeito 101 Morfologia dos verbos de 1ª conjugação Aula 9 Imperativo Infinitivo Participio ama = ama amare = amar amans, amantis Presente = que ama amate = amai amato amaturum, am, um esse amaturus, a , um = ir amar, dever amar = que vai amar, que deve amar, Futuro para amar amatote amanto Passado amavisse = ter amado Gerúndio Supino Gen. amandi = de amar amatum = para amar Dat. amando amatu = de amar, por amar Abl. amando = amando Ac. (ad) amandum = (para) amar 102 Fundamentos da Língua Latina � Indicativo Subjuntivo amor = Sou amado amer = seja amado amaris ameris ou amere amatur ametur amamur amemur amamini amemini amantur amentur amabar = era amado amarer = fosse amado amabaris ou amabare amareris ou amarere amabatur amaretur amabamur amaremur amabamini amaremini amabantur amarentur amabor = serei amado amaberis ou amabere amabitur amabimur amabimini amabuntur amatus, a, um sum =fui amado amatus, a um sim = tenha sido amado amatus, a, um es amatus, a um sis amatus, a, um est amatus, a um sit amati, ae, a sumus amati, ae, a simus amati, ae, a estis amati, ae, a sitis amati, ae, a sunt amati, ae, a sint amatus, a, um eram = amatus, a, um essem = fora ou tinha sido amado tivesse sido amado amatus amatus, a um esses amatus, a, um erat amatus, a um esset amati, ae, a eramus amati, ae, a essemus amati, ae, a aratis amati, ae, a essetis amati, ae, a erant amati, ae, a essent amatus, a, um ero = terei sido amado amatus, a, um eris amatus, a, um erit amati, ae, a erimus amati, ae, a eritis amati, ae, a erunt Presente Imperfeito Futuro imperfeito Perfeito Mais-que-perfeito Futuro anterior 1ª Conjugação regular - Voz passiva. Amor, amari. Imperativo Infinitivo Particípio (amare) = sê amado amari = ser amado Presente (amamini) = sede amados amatum, iri = seve ser Futuro amado, ir ser amado (invariável) Passado amatum, am, um esse amatus, a, um =ter sido amado = amado 103 Morfologia dos verbos de 1ª conjugação Aula 9CONCLUSÃO As difi culdades naturais apresentadas pelos verbos latinos podem ser afastadas pela aplicação correta da téc- nica de separar radicais e acrescentar-lhes as desinências devidas. O paradigma apresentado em cada tabela deve ser consultado a todo instante, sendo possível, assim, trabalhar todos os verbos da referida conjugação. A 1ª conjugação é a mais fácil, mas o seu domínio já permite trabalhar frases contemplando todas as possíveis fl exões que o verbo comporta. RESUMO Os verbos latinos apresentam grande complexidade devido às riquezas de sutileza com que são caracterizadas as possibilidades de uso. A difi cul- dade, porém, acentua-se quando se exige a memorização de listas inteiras de conjugações das quais muitas formas nunca serão usadas. Não usamos esta metodologia em nossas aulas. A única coisa indispensável é saber buscar no lugar certo as formas apropriadas a cada contexto de uso no exercício das frases. Importa, para isso, saber associar as formas lati- nas às confi gurações da língua portuguesa, num perfeito domínio das noções de tempo, modo, pessoa, número, voz e conjugação. O quadro está aí, sempre à sua disposição, mas a consulta a ela fi cará inviabilizada se você não dominar a mesma confi guração em língua portuguesa. Esta aula e as demais tratando dos verbos devem ser, portanto, uma ótima ocasião para atualizar os seus conhecimentos de verbo no português. O latim costuma sempre apresentar os seus verbos com a informação de seus tempos primi- tivos. Esse método também se mostra perfeito para o pleno domínio dos verbos em português. No caso dos verbos irregulares, por exemplo, os tempos primitivos fazem ver imediatamente onde estarão as irregularidades no momento da conjugação. Outro elemento de suma importân- cia reside no conhecimento seguro dos radicais e no isolamento desses em relação aos afi xos e desinências. 104 Fundamentos da Língua Latina ATIVIDADES 1. Responda: a) Que é conjugar um verbo? b) O que signifi ca dizer que os verbos se fl exionam em pessoa? Exempli- fi que. c) O que signifi ca dizer que os verbos se fl exionam em número? Exem- plifi que. d) Qual a diferença de aspecto entre os modos indicativo e subjuntivo? Exemplifi que. e) Quais as possibilidades de aspecto do modo imperativo? Exemplifi que. f) Qual a diferença de tradução entre as formas (amabant, amabunt, ament)? Explique. g) Reconheça as mesmas formasacima nos seguintes verbos: Ambulare (andar) Volare (voar) Vocare (chamar) Adjuvare (ajudar) h) Apresente derivados dos verbos do exercício anterior em palavras do léxico português. i) Quais são as formas primitivas de um verbo? j) Com base nos tempos primitivos amo, amas, amavi, amatum, amare, apresente as formas correspondentes de: Comparare (comparar)__________________________________ Nare (nadar) __________________________________________ Plorare (chorar) _______________________________________ Appropinquare (aproximar) _____________________________ Osculare (beijar) _______________________________________ 2. Preencha as lacunas com as formas do verbo Amare pedidas nos parên- teses. Apresente, em seguida, a tradução das frases, justifi cando as formas latinas pela função sintática: a) Pueri nostri ___________________ magnam naturam Brasiliae (Presente do indicativo - 3ª plural). b) Filios nostros semper __________________. (Presente do subjuntivo - 1ª plural). c) Discipuli boni ___________________ magistris. (Futuro imperfeito - 3ª plural – Voz passiva). 105 Morfologia dos verbos de 1ª conjugação Aula 9 COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Questão 1. Este questionário (a-f) revisa os conceitos ligados aos verbos e exercita o trato com a 1ª conjugação. Embora esses verbos sejam mais fáceis, é necessário ter muita atenção na articulação e na substituição das formas. As sutilezas no emprego dos tempos, modos, pessoas, números, vozes e conjugações só é possível dominar com segurança pela realização de inúmeros exercícios, tendo sempre por recurso a consulta aos quadros correspondentes. Importa conhecer os tempos primitivos de cada verbo a ser trabalhado, informação fornecida sempre pelos dicionários. Importa também saber isolar os radicais e acrescentar-lhes as desinências exigidas pelas frases. A pertinência do ensino do latim na atualidade associa-se à sua ligação com a língua portuguesa. Assim como ocorreu na declinação das palavras, os verbos latinos (sobretudo os irregulares) mostram esta relação, suscitando a realização de pesquisas em torno da formação do léxico português. O item “h” cobra este trabalho de conhecimento das marcas latinas no nosso léxico, caminho aberto para grandes investigações. Questão 2. Visa ao preenchimento de lacunas com as formas verbais pedidas nos parênteses. O recurso aos quadros não pode ser dispensado. REFERÊNCIAS CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. FURLAN, Oswaldo Antônio. Latim para o português. Florianópolis: EDUFSC, 2006. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do Cérebro, 1999. SOARES, João S.. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. TARALLO, Fernando. Tempos lingüísticos. São Paulo: Ática, 1994. TERCEIRA DECLINAÇÃO – NOMES MASCULINOS E FEMININOS META Apresentar as palavras da terceira declinação. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula, o aluno deverá: ser capaz de: identifi car o mecanismo de declinar as palavras latinas; reconhecer a declinação mais complexa e como trabalhar as palavras nela contidas; associar a 3ª declinação às declinações anteriormente estudadas e aos adjetivos de 1ª classe, em frases latinas; e trabalhar o verbo esse e os de 1ª conjugação combinando-os com palavras masculinas e femininas da 3ª declinação. PRÉ-REQUISITOS Leitura das aulas anteriores. Aula 10 108 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO O estudo da 3ª declinação permite ampliar o horizonte das palavras latinas. Essa declinação, além de conter palavras dos três gêneros, representa a maior concentração das pala- vras da língua. Possui também grande variedade de formas no nominativo singular, inviabilizando a manutenção de um paradigma generalizado na apresentação das palavras. Por outro lado, revela a grande riqueza do latim, a vastidão do seu vo- cabulário e as profundas marcas deixadas no léxico da língua portuguesa. É um dos itens mais complexos do estudo do latim, mas nada existe que não possa ser completamente dominado. O mecanismo de declinação é exatamente o mesmo já conhecido das declinações anteriores e o conhecimento dos casos obedece às mesmas normas da análise sintática por demais conhecidas e exercitadas. Nada de memorização inconseqüente. A consulta ao quadro continua sendo, agora mais do que nunca, o elemento de apoio para a concretização de um trabalho refl etido, consciente e efi caz. 109 Terceira declinação – nomes masculinos e femininos Aula 103ª DECLINAÇÃO A 3ª declinação sempre foi vista como uma das grandes difi culdades do estudo do latim. Realmente, você vai estranhar alguns aspectos que caracterizam a fl exão das palavras nela contidas, haja vista a quantidade de exceções com que as palavras se podem apresentar. Tudo isso, porém, é observado nas gramáticas e são difi culdades que vão aparecendo à proporção em que cresce a complexidade das frases. Portanto, progressivamente, os problemas vão sendo sanados. Esta aula trata das palavras dos gêneros masculino e feminino. O gênero neutro será objeto de uma aula à parte. Estudando as palavras da 3ª declinação, você está colocando as bases para trabalhar os adjetivos de 2ª classe, pois estes são fl exionados pelos paradigmas desta declinação. A surpresa, à primeira vista, é perceber a diversidade de terminações existentes no nominativo singular. Esta particularidade, conquanto existente na 2ª declinação, era de tão pequena proporção que dava para guardá-las imediatamente. Recordando: 2ª declinação – Terminações possíveis do nominativo singular: �� Masculino US (dominus, i) e Feminino ER (puer, i) IR (vir, i) Neutro UM (bellum, i) Observação: mesmo apresentando diversidade de formas no nomi- nativo singular, o genitivo é sempre o mesmo para todas as formas, para todos os gêneros. Este dado permite situar com segurança cada palavra na sua devida declinação. Com a 3ª declinação acontece o mesmo: podem ser várias as termina- ções do nominativo singular, mas a terminação do genitivo será a mesma para todas as palavras independentemente do seu gênero (terminação is). Eis algumas possíveis terminações do nominativo singular dos nomes de 3ª declinação – Gêneros masculino e feminino: Pax, pacis = paz. Rex, regis = rei. Nix, nivis = neve. Vox, vocis = voz. Dux, ducis = chefe. 110 Fundamentos da Língua Latina Exemplar, exemplaris = exemplar. Pater, patris = pai. Labor, laboris = trabalho. Societas, societatis = sociedade Homo, hominis = homem. Urbs, urbis = cidade. Natio, nationis = nação. Ars, artis = arte. Virtus, virtutis = virtude. Sal, salis = sal. Sol, solis = sol. Dolor, doloris (M) = dor. Clima, climatis = clima. Fons, fontis (M) = fonte. Bonitas, bonitatis = bondade. Dos, dotis = dote. Infans, infantis = infante. Mens, mensis = mês. Avis, avis = ave. Miles, militis = soldado. Por esses exemplos, você percebe a variedade de formas que podem apresentar o nominativo singular da 3ª declinação. Cada forma diferenciada acima comporta uma série de palavras da mesma confi guração. Existe, porém, o genitivo singular que vem logo após a forma do nominativo e ele é o ponto de igualdade entre todas as palavras. Não importa, pois, se as formas do nominativo são divergentes; o genitivo is é comum a todas as palavras da relação acima e isso assegura que todas elas só podem ser declinadas pelo quadro da terceira declinação. Não sendo possível e nem necessário apresentar todas as divergências no quadro da declinação, o nominativo singular (e o vocativo, que é sempre igual a ele) vai aparecer com o indicativo várias. No momento de declinar qualquer palavra desta declinação, basta substituir o indicativo várias pela forma donominativo que é dada junto com a palavra a ser trabalhada. 111 Terceira declinação – nomes masculinos e femininos Aula 10 �� Nominativo várias Genitivo is Dativo i Singular Acusativo em Vocativo várias (igual ao nominativo) Ablativo e (i) Nominativo es Genitivo um (ium) Plural Dativo ibus Acusativo es Vocativo es Ablativo ibus Eis o quadro para declinar masculinos e femininos da 3ª declinação. Declinação Rex, regis = Rei. Agora, observe a palavra Rex declinada: Rex, regis = Rei: Nominativo Rex Rei, o, um rei. Genitivo Reg-is De, do, de um rei. Dativo Reg-i Ao, para o rei. Singular Acusativo Reg-em Rei, o, um rei. Vocativo Rex (igual ao nominativo) Rei, ó rei Ablativo Reg-e Com, por, sem...reis. Nominativo Reg-es Reis, os, uns reis. Genitivo Reg-um De, dos, de uns reis. Plural Dativo Reg-ibus Aos, para os reis. Acusativo Reg-es Reis, os, uns reis. Vocativo Reg-es Reis, ó reis. Ablativo Reg-ibus Com, por, sem...reis Esta palavra tomada por modelo pode ser substituída por qualquer outra da mesma natureza. Basta observar como a palavra foi apresentada. O indicativo várias, contido no quadro geral, vai ceder lugar à forma do nominativo que vem com a palavra que se quer trabalhar. Conseqüente- mente, faz-se o mesmo com o vocativo, o qual tem sempre a mesma forma do nominativo. Assim, a forma Rex vai aparecer por duas vezes, ocupando o lugar de várias. Para os outros casos, toma-se o radical do genitivo, no caso reg, o qual se obtém isolando a terminação is. Este radical é a base para todos os casos 112 Fundamentos da Língua Latina do singular e do plural. Basta acrescentar a ele as terminações comuns a todas as palavras masculinas e femininas da 3ª declinação. Por outro lado, o radical também serve para formar os termos da língua portuguesa relativos ao conceito de Rei. Exemplo: Régio / Regalia/ Reger/ Regência/ Regime/ Regimento/ Registro etc. ATIVIDADES Tente declinar as seguintes palavras: Lex, legis = lei/ Leo, leonis = leão/ Miles, militis = soldado/ Arbor, arboris = árvore. Tente também, a partir do radical dessas palavras, identifi car palavras derivadas na língua portuguesa. A indicação de gênero deve vir sempre ao lado da palavra dada, mas, quando isso não acontece, a palavra em questão conservou o mesmo gênero na passagem para o português. As palavras latinas, em sua grande maioria, vieram para o português mediante a forma do genitivo singular. Daí ser necessário apresentar o geni- tivo logo após o nominativo das palavras que se pretende declinar. Genitivo signifi ca genitor, elemento de origem, como se fosse o pai da palavra. E é curioso observar, sobretudo conhecendo as palavras da terceira declinação, como o português conserva as formas latinas em suas alomorfi as. Assim, fala-se de lei (lex em latim), mas o que se refere a este conceito é também expresso pela forma latina oriunda do genitivo singular legis, de cujo radical se obtém: legal, legítimo, legislar, legislador, legalista etc. Uma pequena observação ajuda a declinar convenientemente as palavras desta declinação. É importante saber distinguir entre palavras parissílabas e imparissílabas, conforme tenham ou não o mesmo número de sílabas no nominativo e no genitivo. São, portanto, parissílabas: avis, avis = ave; nubes, nubis = nuvem; senex, senis = velho. Importa não confundir os conceitos e não imaginar que parissílabas sejam palavras que possuem número par de sílabas. Uma palavra de três sílabas pode muito bem ser parissílaba desde que tenha o mesmo número de sílabas no nominativo e no genitivo. As palavras ditas imparissílabas, por sua vez, são aquelas que têm no genitivo singular uma ou mais sílabas a mais no nominativo. Assim, uma palavra de duas sílabas no nominativo pode ser imparissílabas: Dux, ducis (chefe) / Urbus, urbis (cidade) / Labor, laboris (trabalho) / Homo, hominis (homem) etc. Alomorfi as ou alomorfe Termo usado em morfologia para referir-se a outras formas que a pala- vra pode apresentar sem sair da família a que elas pertencem. Do grego, alomorfe quer dizer “outra forma”. Não se deve confundir este dado com a sinonímia. Usando os sinôni- mos, estamos bus- cando outras formas para dizer os mes- mos conceitos, mas recorrendo a outras famílias de pala- vras. Na alomor- fi a, pelo contrário, permanecendo na mesma família, ou seja, conservando as mesmas carac- terísticas gráficas e fonéticas (escrita e som), os concei- tos são ditos com pequenas variações. 113 Terceira declinação – nomes masculinos e femininos Aula 10O grande problema consiste em saber com exatidão a forma do genitivo plural dessas palavras (se em UM ou em IUM). Sabendo, porém, distinguir palavras parissílabas e imparissílabas, e sabendo também isolar o radical de uma palavra (retirando-se a terminação própria do genitivo singular, que, na terceira declinação é IS, fi ca mais fácil compreender a regra geral: a) Os nomes imparissílabos, cujo radical termina em uma só consoante, têm o genitivo plural em UM. Exemplo: Libertas, libertis (liberdade) / Homo, hominis (homem) / Natio, nationis (nação) etc. b) Os nomes parissílabos, bem como os imparissílabos cujo radical termina em duas ou mais consoantes, têm o genitivo plural em IUM. Exemplo: Nox, noctis (noite) / Civis, civis (cidadão) / Ars, artis (arte). Não se assuste, porém, se você encontrar exceções. O latim possui incontáveis exceções, mas a melhor saída, em caso de dúvida, é recorrer a um bom dicionário. Observe esta exceção: Pater, patris (pai) / Mater, matris (mãe) / Frater, fratis (irmão) etc. fazem o genitivo plural em UM, fugindo, portanto, à regra. ATIVIDADES 1. Responda: a) O que signifi ca a referência várias que aparece no quadro dos nomes de 3ª declinação? b) Quantas vezes o indicativo várias aparece na declinação dos nomes masculinos e femininos? Em quais casos? Dê Exemplo. c) O que diferencia um nome parissílabo de um imparissílabo? Exemplo. d) Que importância tem tal diferenciação na hora de declinar as palavras de terceira declinação? Explique. e) Decline em todos os casos as palavras Frater, fratis (irmão) e Soror, sororis (irmã) juntamente com o adjetivo bonus, a, um (bom, boa). f) As palavras de terceira declinação apresentam bem mais visivelmente a importância do genitivo singular. Explique. g) Consultando um dicionário, reconheça casos de alomorfi as em palavras da língua portuguesa. h) Apresente casos que possuem terminações iguais nas palavras de terceira declinação. 2. Construa frases em português que contemplem todas as possibilidades de tradução das expressões latinas: Mens sana (Mens, mentis = mente / Sanus, a, um = são, sã, sadio, a). Leges nostras (Lex, legis = lei / Noster, nostra, um = nosso, a) Partribus magnis (Pater, patris = Pai / Magno, a = grande). 3. a) Às formas das palavras de 3ª declinação: urbi / rationibus / dolores 114 Fundamentos da Língua Latina (m) acrescente, respectivamente, os adjetivos Pulcher, pulchra, um = bonito, a / Plenus, a, um = pleno, a / Multus, a, um = muito, a / realizado a exata combinação dos casos. Justifi que. b) Recorrendo à forma do genitivo singular, identifi que termos da língua portuguesa derivados das palavras do vo- cabulário. 4. Após realizar a análise sintática de todos os termos, transponha para o latim. a) Os pais elogiam os bons costumes dos fi lhos. b) Os perfumes e as cores das nossas fl ores são vários. c) Muitos imperadores romanos eram amigos dos bons oradores. VOCABULÁRIO Urbus, urbis = cidade Ratio, rationis = razão Dolor, doloris = dor(M). VOCABULÁRIO Pater, patris = pai / Laudo, as, avi, atum, are = louvar / Mos, moris = costume / Filius, i = fi lho / Odor, odoris = perfume / Color, coloris (M) = cor / Flos, floris (M) = fl or / Varius, a, um = variado, a / Multus, a, um = muito, a / Imperator, oris = imperador / Romanus, a, um = romano, a / Sum, es, fui, esse = ser / Amicus, i = antigo / Orator, oratoris = orador. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES O questionário procura sintonizar o aluno com os assuntos estudados nesta aula na medida em que realiza uma revisão dos conteúdos, sobretudo recordando a terminologia específica que o assunto comporta. Busca-se também recordar o processo de declinação das palavras e a sua correlação com as funções sintáticas em cada texto das frases. Ainda se visa ao processo das declinações estudadas e à associação entre elas. Isso permite reconhecer as diferenças ou semelhanças de formas e o que há de comum entre declinações diversas. Recomenda-se também criar o hábito de consultar constantemente os bons diconários. Muitas coisas se esclarecem com o recurso do dicionário, além do enriquecimento que se adquire com a busca de palavras e seus signifi cados. A atividade 2 retoma uma técnica já apresentada que consiste em dar expressões latinas e perceber as possibilidades de tradução que elas comportam. Você vai ver como formas iguais podem remeter a funções sintáticas diferentes. 115 Terceira declinação – nomes masculinos e femininos Aula 10No item b, buscam-se correspondentes das palavras dadas dentro do léxico português. A questão 4 é um exercício de transposição para o latim, o que só será possível mediante o domínio seguro da análise sintática. CONCLUSÃO A terceira declinação aumenta o campo de conhecimento do latim. É a declinação mais difícil e que possui maior número de palavras. É também a mais rica, sobretudo porque muitas palavras apresentam formas diferentes para o radical de uma mesma palavra. Isso, porém, só vem enriquecer o conhecimento da língua e trazer a feliz constatação de que a língua portuguesa e outras línguas românicas também assimilaram no seu léxico todas essas formas diferencia- das. Basta recordar o que já se disse sobre as alomorfi as. É neste momento que se percebe grande variedade de formas já existentes no próprio latim. 116 Fundamentos da Língua Latina RESUMO Os nomes masculinos e femininos de 3ª declinação possuem confi gu- ração própria, diferenciada, portanto dos nomes neutros, apesar de algumas semelhanças de determinados casos. Para tudo, porém, a consulta ao quadro é uma obrigação constante, a não ser que você prefi ra repetir de cor tudo o que essa e outras declinações comportam. Importante é saber isolar o radical a partir do genitivo singular, que sempre é dado juntamente com cada palavra, como é de praxe no latim, e acrescentar-lhe as desinências próprias de cada caso. Importa repetir exercícios, realizar pequenas frases tendo as palavras em todas as posições sintáticas para que você possa bem reconhecer as diferenças associadas às funções sintáticas. Com isso, certamente, você mesmo perceberá a estranheza das formas quando as funções sintáticas não estiverem perfeitamente associadas. Com o tempo, você irá associando declinações diversas, adjetivos de ambas as classes, palavras de gêneros diferentes. Trata-se de um trabalho inteligente para o qual se necessita de muita atenção e raciocínio. O estudo do latim é progressivo e muita coisa é assimilada por força de exercícios que o próprio aluno vai aprendendo a construir a partir da modifi cação das frases que lhe são propostas. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. São Paulo: Saraiva, 1995. FARIA, Ernesto. Dicionário latino-português. Rio de Janeiro: 2003. _____________. Vocabulário latino. Rio de Janeiro: Garnier, 2001. REZENDE, Antônio Martinez de. Latina Essertia. Belo Horizonte: UFMG, 2000. REZENDE E SILVA, Arthur. Frases e curiosidades latinas. Rio de Janeiro: Garnier, 2001. SARAIVA, F. R. dos Santos. Dicionário latino-português. Rio de Janeiro: Ganier, 2000. NOMES NEUTROS DA 3ª DECLINAÇÃO META Mostrar a fl exão dos nomes neutros da 3ª declinação e trabalhar essas palavras no contexto das frases latinas. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula, o aluno deverá: reconhecer a distinção de gênero da 3ª declinação; assimilar o mecanismo de fl exão dos nomes neutros da 3ª declinação; exercitar frases latinas empregando palavras dos três gêneros das declinações estudadas em articulação com os adjetivos de 1ª classe; e realizar pequenos exercícios de tradução do portugu PRÉ-REQUISITOS Como se disse no início deste curso, os conhecimentos do latim são acumulativos, daí ser necessário sempre revisar o conteúdo das aulas anteriores a fi m de conseguir maior domínio da disciplina estudada. Aula 11 118 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO Você já ouviu falar que, das declinações latinas, a 3ª é a mais complexa, mas é também a que apresenta maior riqueza de vocabulário. Pelo conhecimento desta declinação, as pos- sibilidades de desenvolvimento das frases latinas vão sendo ampliadas, exigindo, porém, muito mais cuidado e concentração nos estudos. Nunca é demais repetir que o espaço reduzido deste curso é apenas uma introdução ao estudo do latim, mas os elementos de base são aqui colocados, visando a uma perspectiva de conjunto para que o aluno com- preenda o funcionamento da língua latina. Não é preciso ter preocupação com memorizar fórmulas. As tabelas são dadas para serem usadas e consultadas a qualquer momento, até du- rante as avaliações. Importante é que você tenha assimilado o mecanismo com que o latim articula suas palavras e saiba aplicá-lo com segurança em qualquer circunstância. Esta aula é mais um passo no domínio do latim. Esteja, portanto, atento às particularidades que caracterizam os nomes neutros da 3ª declinação. 119 Nomes neutros da 3ª declinação Aula 11NOMES NEUTROS As palavras do gênero neutro da 3ª declinação, assim como ocorreu na 2ª, possuem algumas característi- cas que merecem atenção especial. Inicialmente, é importante frisar que a distribuição por gênero deve estar bastante clara antes de trabalhar qualquer palavra. Como em português não existe o gênero neutro, o estudante de latim deve estar sempre muito atento às palavras que devem ser trabalhadas. Geralmente a indicação de gênero é dada imediatamente após a forma do genitivo singular como é de praxe apresentar as palavras latinas. Você não tem nenhuma obrigação de saber o gênero de cor ou raciocinar como se estivesse lidando com termos da língua portuguesa, e fi car transferindo para o latim o gênero a que pertencem as palavras do português. É verdade que, a ausência do indicativo de gênero ao lado de uma palavra pode, muitas vezes, deixar implícito que seu gênero é o mesmo em português; por esta razão, muitos julgam ser redundante fornecer tal informação. Isso pode até ocorrer, mas em se tratando dos nomes neutros, a ausência da informação sobre o gênero impede que se decline a palavra de 3ª declinação justamente por não se saber, para tanto, a que lista se deva recorrer. Os nomes neutros, repetimos, devem ser declinados mediante tabela específi ca. Na 2ª declinação (e na 4ª, como você verá mais tarde) o gênero é logo percebido na forma de apresentar a palavra, pois os nomes neutros pos- suem sempre a mesma confi guração: Nominativo = UM e genitivo= I. Exemplo: SignUM, signI = sinal. (Na 4ª declinação, como será visto mais adiante, a terminação dos neu- tros é sempre esta: nominativo U e genitivo US. Exemplo: GenU, genUS = joelho). Quando se tratar de palavras das declinações 1ª e 5ª, tal problema não existirá, pois elas não possuem palavras do gênero neutro. Com a 3ª declinação, porém, torna-se necessário fornecer o indicativo de gênero, pois são muito variadas as formas do nominativo singular, o que difi culta a realização de uma listagem completa. Por outro lado, a fl exão dosnomes neutros de 3ª declinação, aliada às declinações dos nomes masculinos e femininos desta mesma declinação, anteriormente apresentadas, vem completar as informações necessárias para realizar a fl exão dos adjetivos de 2ª classe, conforme se verá adiante. Agora observe a tabela para a fl exão dos nomes neutros da declinação que está sendo estudada nesta aula: 120 Fundamentos da Língua Latina Nominativo Várias Genitivo is Singular Dativo i Acusativo Várias (igual ao nominativo) Vocativo Várias (igual ao nominativo) Ablativo e (ou i) Nominativo a (ou ia) Genitivo um (ou ium) Plural Dativo ibus Acusativo a ou ia (igual ao nominativo) Vocativo a ou ia (igual ao nominativo) Ablativo ibus Como você percebe, as terminações dos nomes neutros apresentam muitas semelhanças em relação às dos nomes masculinos e femininos; alguns casos, porém, possuem características próprias. Preste muita atenção para os casos Nominativo, Vocativo e Acusativo, que, assim como foi mostrado na 2ª e vai ser mostrado na 4ª declinação, possuem formas iguais no singular e no plural. Tal informação já facilita consideravelmente a assimilação das desinências. Basta tão somente ter consciência de que, mesmo apresentando desinências iguais, os casos não são os mesmos e, sintaticamente, trata-se de funções diversas como convém a cada caso. Não se preocupe agora com as exceções, ou seja, quando houver pos- sibilidade de mais de uma desinência para um mesmo caso. Esse detalhe será assimilado com o tempo, mas preste atenção, desde já, à diferença de casos nas frases abaixo, embora as formas permaneçam iguais: Tomemos, por exemplo, a palavra coração, em latim COR, CORDIS (N), pertencente, como se pode ver, à 3ª declinação, gênero neutro: 1. Cor tuum bonum est = O teu coração é bom. 2. Deus amat cor bonum = Deus ama o coração bom. 3. Canta, Cor meum!... = Canta, meu coração!... Nas três frases, a palavra coração tem a mesma forma em latim (cor), no entanto elas não são iguais em termos de caso, pois, em cada frase, ocupam posições sintáticas diferentes. Na primeira, trata-se de um sujeito- nominativo; na segunda, ela exerce função de objeto direto-acusativo; na terceira frase, a palavra é um vocativo-vocativo. É preciso, pois, ter ciência de que a igualdade das formas pode estar remetendo a funções sintáticas diferentes. Isso é possível porque, no gênero neutro, os casos nominativo, 121 Nomes neutros da 3ª declinação Aula 11acusativo e vocativo apresentam formas exatamente iguais. Você deve estar muito atento para perceber esta sutileza de detalhes que conduz, no entanto, a funções sintáticas diversas, implicando, portanto, a obrigação de traduções diferentes para uma mesma forma da palavra. Você percebe que as variações nas desinências não são assim tão numerosas. Mais difícil mesmo é dominar a sintaxe e compreender a função específi ca de cada caso e a sua possível tradução para o português. Observe também que, no plural, os casos Dativo e Ablativo possuem formas iguais (terminação IBUS) e isto exige a mesma atenção para ver claramente que função sintática cada caso contempla e, assim, efetuar corretamente a tradução quando tal forma aparecer no contexto das frases. Segundo o modelo da tabela acima, podem ser decli- nadas todas as palavras pertencentes ao gênero neutro da 3ª declinação. Como se deu na fl exão dos masculinos e femininos, o termo VÁRIAS é apenas um indicativo das possibilidades de terminações com que se apresenta o caso nominativo. Na hora de declinar a palavra, basta apenas substituir tal termo pela forma que foi dada juntamente com a palavra com a qual se deseja trabalhar. Observe, por exemplo, a fl exão da palavra CORPUS, CORPORIS (N) = corpo. Trata-se de uma palavra do gênero neutro da 3ª declinação. CORPUS é a forma do nominativo singular e ela vai substituir a expressão VÁRIAS. O genitivo singular é CORPOR IS, que tem o radical CORPOR para a formação de todos os outros casos no singular e no plural, com exceção do singular dos casos vocativo e acusativo, que devem ser iguais ao nominativo CORPUS. Veja agora a palavra CORPUS, CORPORIS declinada segundo a tabela que lhe é própria: Nominativo corpus Corpo, o, um corpo Genitivo corpor- is De, do, de um corpo Singular Dativo corpor - i A, para, ao, a um corpo Acusativo corpus Corpo, o, um corpo Vocativo corpus Corpo, ó corpo Ablativo corpor - e Em, no, sem, pelo corpo Nominativo corpor - a Corpos, os, uns corpos Genitivo corpor - um De, dos, de uns corpos Plural Dativo corpor - ibus A, para, aos, a uns corpos Acusativo corpor - a Corpos, os, uns corpos Vocativo corpor - a Corpos, ó corpos Ablativo corpor - ibus Em, nos, sem, pelos corpos 122 Fundamentos da Língua Latina Observe bem os casos que, no singular e no plural, são iguais ao nominativo. Observe ainda a substituição do termo VÁRIAS pela forma do nominativo que é dada com a palavra que se quer trabalhar ou que se busca no dicionário. Depois, a partir do genitivo singular, você terá o radical para trabalhar os demais casos no singular e no plural. A técnica é sempre a mesma e todas as palavras do gênero neutro devem enquadrar-se no esquema das tabelas acima. OBSERVAÇÃO importante deve ser feita sobre algumas palavras neutras da 3ª declinação cujo nominativo singular termina em uma das três possibilidades: AR, E, AL (fácil de gravar AREAL). Essas palavras têm a seguintes particularidades: a) O ablativo singular em I. b) Os três casos iguais do plural em IA. c) O genitivo plural em IUM. Nesta série enquadram-se palavras como Mare, maris = mar; Animal, is = animal; Exemplar, is = exemplar, cópia. Excetuando as observações acima, as palavras seguem, nos outros casos, a mesma declinação dos outros nomes neutros de 3ª declinação. Tente declinar essas três palavras, buscando na tabela todas as formas que elas comportam. ATIVIDADES 1. Com base nas informações acima, tente declinar, no singular e no plural, as palavras neutras de 3ª declinação: Flumen, fl uminis = rio; Caput, capitis = cabeça; Vulnus, vulneris = ferida; Semen, seminis = semente. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES Este exercício permite visualizar as diferentes possibilidades de fl exão das palavras neutras de 3ª declinação. É necessário sempre fazer a associação entre casos e funções sintatícas e imaginar frases que justifi quem as possibilidades que as palavras comportam. 2. Depois de perceber todas as formas que essas palavras podem apresentar, procure agora, tomando por base o radical do genitivo, reconhecer palavras que delas foram derivadas na língua portuguesa. Você vai observar como o radical latino permanece o mesmo nas palavras do português. Este fenô- meno torna-se bem mais visível nos nomes pertencentes à 3ª declinação e tal percepção já é um grande passo para visualizar o processo de formação das palavras desde o latim, em cujo modelo a língua portuguesa plantou as 123 Nomes neutros da 3ª declinação Aula 11bases de seu vocabulário. Com este exercício, você também compreenderá a razão de ser do caso genitivo, o qual, além de indicar a que declinação pertence a palavra, fornece também o radical, a partir do qual se encontram as bases para a criação de novos termos e conseqüente ampliação do léxico. Exemplo: do radical do genitivo SEMIN, nasceram em português: SEMIN ário/ disSEMINar / SEMIN al / inSEMINação etc. Realize o mesmo processo com as outras palavras da relação acima. Exercendo grande fascínio sobre o aluno de latim, este trabalho pode ser realizado com inúmeras palavras da 3ª declinação (e das outras também, mas, nesta declinação, a relação entre o latim e o português mostra-se bem mais interessante). Conhecendo as fl exões da 3ª declinação, o estudo do latim vai-se tor- nando mais complexo e as possibilidades de realização de frasestornam-se mais amplas. Agora você já pode combinar palavras das três declinações estudadas e associá-las aos adjetivos de 1ª classe. Este exercício permitirá ver a igualdade ou a diversidade de formas, conforme as combinações efet- uadas. É claro que palavras de 1ª e 2ª declinações associadas aos adjetivos de 1ª classe terão quase sempre as mesmas desinências. Isto é óbvio, pois tais adjetivos são declinados pelas duas primeiras declinações, observadas as devidas confi gurações de gênero. Algumas divergências de forma, no entanto, podem ocorrer em se tratando de combinar os adjetivos de 1ª classe com as palavras da 3ª declinação em qualquer um dos três gêneros. A mesma divergência você vai perceber quando combinar esses mesmos adjetivos com palavras da 4ª e 5ª. Aí o cuidado deve ser redobrado na 4ª declinação porque formas iguais nem sempre remetem aos mesmos casos dos adjetivos de 1ª classe. Na hora certa, porém, isto será explicado e comprovado. Agora, a título de exercício, identifi que, buscando o apoio de um di- cionário de latim, a declinação, o(s) caso(s), o gênero, o número e as traduções dos substantivos abaixo em sua combinação com os adjetivos de 1ª classe. Justifi que as diferenças de desinências ocorridas e as possibilidades de tradução de acordo com as funções sintáticas possíveis. Este exercício permite associar declinações e gêneros diferentes. Com o vocabulário a seguir, você deve situar as palavras em suas respectivas listas para decliná-las. Quando o gênero não aparecer ao lado das palavras, é que elas pertencem ao mesmo gênero em português. O vocabulário ajuda, mas não dispensa o uso do dicionário. Habitue-se a consultá-lo sempre. Populus amicus/ Populos amicos/ Puer niger/ Regina nostra/ Exemplum bonum/ Miraculis multis/ Dominus noster/ Homo sanctus/ Ratio magna/ Le- 124 Fundamentos da Língua Latina ges justae/ Cordibus nostris/ Magistri boni/ Lectioni pulchrae/ Personas gratas/ Nationes multae/ Corporum frigidorum/ Tempora antiqua/ Ludi sacri/ Templo romano/ Plumae albae/ Populus, i = povo/ Amicus, a, um = amigo, a/ Puer, i = menino/ Niger, nigra, um = negro, a/ Regina, ae/ Noster, nostra, um = nosso, a/ Exemplum, i = exemplo/ Bonus, a, um = bom, boa/ Miraculum, i = milagre/ Multus, a, um = muito, a/ Dominus, i = senhor/ Homo, hominis = homem/ Sanctus, a, um = santo, a/ Ratio, rationis = razão/ Magnus, a, um = magno, grande/ Lex, Legis = lei/ Justus, a, um = justo, a/ Cor, cordis (N) = coração/ Magister, magistri = mestre/ Lectio, lectionis = lição/ Pulchrer, pulchra, um = belo, a/ Persona, ae = pessoa/ Gratus, a, um =grato, a/ Natio, nationis = nação/ Corpus, corporis (N) = corpo/ Frigidus, a, um = frio, a/ Tempus, temporis (N) = tempo/ Antiquus, a, um = antigo, a/ Ludus, i = jogo/ Sacer, sacra, um = sagrado, a/ Templum, i = templo/ Romanus, a, um = romano, a/ Pluma, ae = pena/ Albus, a, um = alvo, branco, a. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES A mesma divergência você vai perceber quando combinar esses mesmo adjetivos com palavras da 4ª e 5ª. Aí o cuidado deve ser redobrado na 4ª declinação porque formas iguais nem sempre remetem aos mesmos casos dos adjetivos de 1ª classe. Na hora certa, porém, isto será explicado e comprovado. ATIVIDADES I – Responda: 1. O que signifi ca a referência VÁRIAS que aparece na tabela dos nomes de 3ª declinação? 2. A que casos tal referência se aplica na declinação dos nomes neutros? 3. A 3ª declinação apresenta ainda mais visível a importância do genitivo singular. Explique. 4. Uma palavra de 3ª declinação pode estar associada aos adjetivos de 1ª classe. Explique como fi cam as desinências dos nomes masculinos, femi- ninos e neutros nessa situação. 5. Existe alguma terminação igual entre os nomes neutros de 3ª e de 2ª declinação? Em que casos isso acontece? II – Na expressão: MENS SANA IN CORPORE SANO (Mente sadia em corpo sadio), o adjetivo de 1ª classe Sanus, a, um = são, sadio, aparece ligado às palavras MENS, MENTIS (F) = mente e CORPUS, CORPORIS 125 Nomes neutros da 3ª declinação Aula 11(N) = corpo, ambas de 3ª declinação. Analise sintaticamente a sentença latina, explicando, pela função sintática, a variedade de formas do adjetivo. III – Construa frases em português que contemplem todas as possibilidades de tradução das expressões latinas: TEMPUS NOVUM (Tempus, temporis (N) = tempo/ Novus, a, um = novo, a. CORDA NOSTRA (Cor, cordis (N) = coração/ Noster, nostra, um = nosso, a. NOMINUM MAGNORUM (Nomen, nominis (N) = nome/ Magnus, a, um = magno, a; grande. IV a – Às formas neutras de 3ª declinação: LUNINI, ONERIS, FLUMI- NUM acrescente, respectivamente, os adjetivos Plenus, a, um = pleno, a/ Altus, a, um = alto, a/ Pulcher, pulchra, um = belo, a/ realizando a exata combinação dos casos. Justifi que. IV b – Recorrendo à forma do genitivo singular, identifi que termos da língua portuguesa derivados das palavras do vocabulário desta aula. V – Após realizar a análise sintática de todos os termos, transponha para o latim. 1. O tempo curará as grandes feridas dos homens. 2. As boas obras revelam os corações dos homens justos. 3. Os mares profundos são perigosos para os nossos marinheiros. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIDADES Não costumamos repetir as palavras que já apareceram no vocabulário. Se elas aparecerem no contexto de outros exercícios, fi que, portanto, muito atento para encontrá-las quando se fi zer necessário. Vocabulário Sano, as, avi, atum, are = curar, sanar/ Vulnus, vulneris (N) = ferida/ Opus, operis (N) = obra/ Revelo, as, avi, atum, are = revelar/ Mare, maris (N) = mar/ Profundus, a, um = profundo, a/ Periculosus, a, um = perigoso, a/ Nauta, ae = marinheiro. 126 Fundamentos da Língua Latina CONCLUSÃO Com o estudo dos nomes neutros da 3ª declinação ampliam-se as pos- sibilidades para a realização de frases, pois a maioria das palavras latinas está localizada nesta declinação. Por outro lado, a articulação entre nomes das três principais declinações estudadas, adjetivos de 1ª classe e verbos até aqui conhecidos possibilita maior quantidade de elementos mediante os quais o mecanismo do latim vai fi cando mais visível. Um exemplo de erro desta natureza: a expressão correta é LATO SENSU (quando estudar a 4ª declinação, você entenderá a razão disso), mas certamente você já deve ter visto em vários lugares: LATO SENSO ou LATU SENSU, erros motivados pela tendência a acreditar que o adje- tivo, para estar no mesmo caso do substantivo, deve apresentar a mesma desinência que este tem. Tal falha lembra certas combinações em língua portuguesa feitas por pessoas que acham, por exemplo, que substantivos, artigos e adjetivos, uma vez juntos, devem obrigatoriamente terminar de formas iguais, tal como se ouve por aí: A radia, Maria Ribeira, aparelhagem médica-cirúrgica etc. Prepare-se para cometer erros semelhantes: isso faz parte do processo de aprendizagem do latim, o qual, assim como o português ou qualquer outra língua, pode suscitar conclusões precipitadas a qualquer pessoa inex- periente. Você pode até encarar tudo isso com um certo senso de humor e, com o tempo, você vai se divertir com suas próprias falhas ao compará-las com outras de igual natureza que todos cometem. RESUMO Os nomes neutros da 3ª declinação possuem confi guração própria; nada, porém, que cause maiores difi culdades. Cada aula de latim aqui apresentada aborda um tema específi co e os assuntos vão se acumulando de tal maneira que os conhecimentos das aulas anteriores vão-se tornando indispensáveis na compreensão do todo. As tabelas contendo as desinências próprias das palavras do gênero neutro e mostrando o exemplo de uma palavra declinada são modelos para serem consultados, exercitados e aplicados em situações concretas de frases que explorem todas as possibilidades sintáticas dos nomes.Quanto mais exercícios você fi zer, tanto maiores serão as chances de fi xação e domínio dos conteúdos. Você pode enriquecer os exemplos tomando uma série de novas pa- lavras no dicionário e tentando aplicar-lhes o modelo próprio ao gênero neutro até mesmo com o intuito de conhecer as palavras neutras em latim e familiarizar-se com esta característica latina que o português não conhece. Importante é saber isolar o radical a partir do genitivo singular, que 127 Nomes neutros da 3ª declinação Aula 11sempre é dado juntamente com cada palavra, como é de praxe no latim, e acrescentar-lhe as desinências próprias de cada caso. Repetindo esse exercício com muitas palavras isoladamente e/ou no contexto das frases, você terminará por memorizar as formas sem ser ob- rigado jamais a isso, mas por força do hábito e da prática em construções de frases inteligentes, que contemplem todas as funções da sintaxe. Trabalhar os substantivos associados aos adjetivos de 1ª e, mais tarde, de 2ª classe, força a correção de certas falhas tão comuns aos iniciantes no latim. Você não será o primeiro a cometer as falhas tão conhecidas aos professores desta língua: isolamento mal feito do radical, confusão na junção das desinências, associação incorreta das formas dos substantivos e adjetivos, confusão na tradução de casos que possuem formas iguais etc. PRÓXIMA AULA Na próxima aula, você conhecerá a fl exão dos verbos de segunda con- jugação nas vozes ativa e passiva. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. São Paulo: Saraiva, 1995. CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. GALVÃO, José Raimundo. Alomorfi as do léxico português. Aracaju: EDUFS, 2008. GONZAGA, Maria Cristina de Brito. Frases de latim forense. São Paulo: Livraria de Direito, 1994. LUIZ, Antônio Filardi. Dicionário de expressões latinas. São Paulo: Atlas, 2002. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do cérebro, 1999. SOARES, João S.. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. VIARO, Mário Eduardo. Por trás das palavras. São Paulo: Globo, 2004. ______ Importância do latim na atualidade. Revista de Ciências Hu- manas e Sociais. São Paulo: Unisa, v. 1, n. 1, p. 7-12, 1999. MORFOLOGIA DOS VERBOS DE 2ª CONJUGAÇÃO META Apresentar a fl exão dos verbos de segunda conjugação nas vozes ativa e passiva. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula, o aluno deverá: distinguir os verbos latinos pela conjugação a que pertencem; aplicar as formas verbais em todas as suas confi gurações no contexto de pequenas frases latinas; exercitar a derivação verbal a partir do conhecimento das formas primitivas; reconhecer as características das conjugações estudadas mediante a comparação das formas; e realizar exercícios de tradução, reconhecendo as marcas de tempo, modo, pessoa, número e voz. PRÉ-REQUISITOS O verbo esse (ser) e os verbos de 1ª conjugação, que foram estudados anteriormente, devem ser pré-requisitos para o desenvolvimento desta aula. As formas devem ser comparadas a fi m de que se evidenciem as características de cada conjugação e os mecanismos de construção de parte da voz passiva com o auxílio do verbo esse (ser). Os demais assuntos referentes às declinações tornam-se também indispensáveis para o prosseguimento dos estudos. Jamais esqueça: o latim é um todo organizado e muito bem articulado em todas as suas partes, daí nada do que já foi visto pode ser dispensado. Aula 12 130 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO Retome o texto introdutório das lições 7 e 9, referentes aos verbos esse (ser) e aos de 1ª conjugação. As mes- mas observações valem para os de 2ª conjugação, abordados nesta aula. Importa sempre conhecer, antes de qualquer trabalho com os verbos, os seus tempos primitivos. Neles estão contidas as particularidades que devem ser observadas para obter a totalidade das formas. Trata-se de um processo inteligente segundo o qual, conhecendo apenas um verbo da conjugação em apreço, é possível trabalhar qualquer outro da mesma espécie. Você não está obrigado a decorar fórmulas ou listas inteiras de tempos, modos etc. Isso pode até acontecer por força do hábito, mas, em princípio, você apenas precisa saber consultar as tabelas, isolar os radicais e aplicar as desinências. Vamos, então, conhecer os verbos de 2ª conjugação, ou melhor, vamos nos familiarizar com as tabelas que mostram todas as possibilidades de articulação verbal nas vozes ativa e passiva. 131 Morfologia dos verbos de 2ª conjugação Aula 12MORFOLOGIA O latim, como já se disse, possui quatro conjugações verbais que se identifi cam pelo infi nitivo de acordo com a ordem das vogais: 1ª conjugação – terminação em ARE (longo) – CANT – ARE = cantar. (pronúncia: cantáre). 2ª conjugação - terminação em ERE (longo) DEL – ERE = destruir, apagar. (pronúncia: delére) 3ª conjugação – terminação em ERE (breve) LEG – ERE = ler (pronúncia: légere). 4ª conjugação – terminação em IRE (longo) AUD – IRE = ouvir (pronúncia: audíre). Você pode perceber a semelhança de formas existente entre a 2ª e a 3ª conjugações, pois ambas possuem o infi nitivo caracterizado pela vogal E. A diferença, no entanto, está na quantidade de tempo com que se pronun- cia a sílaba, o que faz a 2ª conjugação ser longa e a 3ª ser breve. Observe acima a diferença marcada pelo acento no infi nitivo das duas conjugações. O acento aqui colocado não existe em latim; ele está apenas indicando o lugar da sílaba tônica a fi m de que a diferença entre as duas conjugações em apreço seja bem visualizada. A marca latina, característica da quantidade, é ( ) colocada sobre a longa e ( ) colocada sobre a breve. Essas duas conjugações se assemelham, portanto, na forma do infi ni- tivo, mas é impossível conjugar qualquer verbo de uma conjugação usando a tabela da outra. Com o tempo você vai-se adaptando a esta particularidade, mas, de início, é preciso ter muito cuidado para não conduzir o verbo à tabela errada e, assim, inviabilizar todo o trabalho. Um exemplo bem prático para assimilar a diferença está nos verbos DOCÉRE = ensinar (2ª conjugação) e DÍSCERE = aprender (3ª conjugação). Outra informação prática é obtida na própria apresentação dos tempos primitivos: se a primeira pessoa do presente do indicativo termina em EO (deleo = eu destruo), o infi nitivo é longo e se trata da 2ª conjugação = delére; se este mesmo tempo primitivo termina em O (lego = eu leio) ou em IO (capio = eu tomo), é sinal de que o infi nitivo é breve e se trata da 3ª conjugação légere e cápere. Na passagem do latim para o português, as duas conjugações se fun- diram, de tal maneira que possuímos a 2ª conjugação em ER, na qual nem sempre se encontram necessariamente os verbos latinos destas conjugações: STUDÉRE, de 2ª conjugação latina, tornou-se ESTUDAR em português, indo, portanto, para a 1ª conjugação. Apresentamos agora as tabelas contendo os paradigmas para fl exionar todos os verbos de 2ª conjugação nas vozes ativa e passiva. O verbo dado por modelo é DELERE = destruir, apagar, cujos tempos primitivos são os 132 Fundamentos da Língua Latina seguintes: Deleo, deles, delevi, deletum, delere, ou seja, deleo, es, evi, etum, ere, pois não se costuma repetir o radical quando ele é o mesmo para todos os tempos primitivos. Pelo mesmo modelo são conjugados os verbos: Habere = Ter/ Monere = admoestar/ Docere = aprender/ Videre = ver/ Debere = dever etc. 133 Morfologia dos verbos de 2ª conjugação Aula 12 �� Indicativo Subjuntivo deleo = destruo deleam = destrua deles deleas delet deleat delemus deleamus deletis deleatis delent deleant delebam = destuía delerem = destruíssedelebas deleres delebat deleret delebamus deleremus delebatis deleretis delebant delerent delebo = destruirei delebis delebit delebimus delebitis delebunt delevi = destuí, tenho destruído deleverim = tenha destruído delevisti deleveris delevit deleverit delevimus deleverimus delevistis deleveritis deleverunt deleverint deleveram = destruíra, delevissem = tivesse tinha destruído destruído deleveras delevisses deleverat delevisset deleveramus delevissemus deleveratis delevissetis deleverant delevissent delevero = terei destruído deleveris deleverit deleverimus deleveritis deleverint Presente Imperfeito Futuro Imperfeito Perfeito Mais que Perfeito Futuro Anterior 2ª CONJUGAÇÃO VOZ ATIVA DELEO, ES, EVI, ETUM, ERE 134 Fundamentos da Língua Latina 2ª CONJUNGAÇÃO ATIVA Imperativo Infinitivo Participio dele = destrói delere = destruir delens, delentis Presente = que destrói delete = destruí deleto deleturum, am, um esse =deleturus, a, um Futuro deletote ir desruir, dever destruir = que vai delento destruir, que deve destruir, para destruir Passado delevisse = ter destruído Gerúndio Supino Gen. delendi = de destruir deletum = para destruir Dat. delendo deletu = de destruir, por destruir Abl. delendo = destruindo Ac. (ad) deledum = (para) destruir J Ç "Qui multum habet, plus cupit". Quem muito tem, mais deseja. "Non mortem timemus, sed cogitationem mortis". Não tememos a morte, mas o pensamento da morte. Seneca Seneca (Fonte: http://pt.wikibooks.org) 135 Morfologia dos verbos de 2ª conjugação Aula 122ª CONJUGAÇÃO VOZ PASSIVA DELEOR, DELERI �� Indicativo Subjuntivo deleor = sou destruído delear = seja destruído deleris delearis ou deleare deletur deleatur delemur deleamur delemini deleamini delentur deleantur delebar = era destuído delerer = fosse destruído delebaris ou delebare delereris ou delerere delebatur deleretur delebamur deleremur delebamini deleremini delebantur delerentur delebor = serei destruído deleberis ou delebere delebitur delebimur delebimini delebuntur deletus, a, um sum= fui destruído deletus, a, um sim= tenha sido destruído deletus, a, um es deletus, a, um sis deletus, a, um es deletus, a um sit deleti, ae, a sumus deleti, ae, a simus deleti, ae, a estis deleti, ae, a sitis deleti, ae, a sunt deleti, ae, a sint deletus, a, um eram = deletus, a, um essem = fora ou tinha destruído tenha sido destruído deletus, a, um eras deletus, a, um esses deletus, a, um erat deletus, a, um esset deleti, ae, eramus deleti, ae, a essemus deleti, ae, a eratis deleti, ae, a essetis deleti, ae, a erant deleti, ae, a erunt deleti, ae, a essent deletus, a, um, ero = terei sido destruído deletus, a, um eris deletus, a, um erit deleti, ae, a erimus deleti, ae, a eritis Presente Fututo Imperfeito Imperfeito Perfeito Mais-que- Perfeito Futuro Anterior 136 Fundamentos da Língua Latina Imperativo Infinitivo Participio (delere) = sê destruído deleri = ser destruído Presente (delemini) = sede destruídos deletum iri = deve Futuro ser destruído, ir ser destruído(invariável) deletum, am, um essedeletus, a, um = Passado = ter sido destruído destruído Gerundivo delendus, a, um = deve ser destruído 137 Morfologia dos verbos de 2ª conjugação Aula 12CONCLUSÃO A morfologia verbal latina, como foi possível visualizar nesta aula, é muito complexa, sendo impossível, no curto espaço deste curso, compreender e assimilar os seus mínimos detalhes. O que aqui se deseja transmitir é a confi guração das vozes ativa e pas- siva dos verbos regulares das quatro conjugações latinas e, assim mesmo, de forma bastante elementar. Sempre estaremos insistindo na necessidade de o aluno familiarizar- se com a consulta às tabelas, buscando observar atentamente o modelo e tentando aplicar o mesmo processo a qualquer outro verbo da mesma conjugação. O trabalho não é muito fácil, mas se você tiver pleno domínio do re- conhecimento do radical no verbo que foi tomado por modelo e souber substituí-lo pelo de qualquer outro da mesma espécie, verá que as desinên- cias se encaixam perfeitamente, facilitando a técnica da conjugação. Com o tempo, a prática vai-se tornando mais tranqüila, sobretudo se você tiver bom conhecimento das fl exões verbais do próprio português. Jamais se esqueça de uma coisa: as tabelas estão aí para serem manusea- das, consultadas até mesmo no instante das avaliações, pois muito mais que exercitar a memorização, importa aguçar o raciocínio, trabalhar a lógica e tornar-se capaz de fl exionar, em todas as modalidades possíveis, qualquer verbo da mesma conjugação. RESUMO As conjugações 2ª e 3ª muito se assemelham, pois ambas fazem o infi nitivo em ERE. A diferença está na localização da sílaba tônica, a qual, na 2ª conjugação, é longa. Os verbos desse grupo seguem modelo próprio aqui apresentado em tabelas mostrando todas as fl exões possíveis. Para tanto, serviu de modelo o verbo delere, como poderia ter sido qualquer outro do grupo. Importante é saber realizar as substituições e circular seguramente por todos os tempos, modos, pessoas e números. As frases é que vão dizer a forma a ser buscada e nisto você perceberá a riqueza de detalhes que os verbos latinos comportam. Os dicionários vão sempre fornecer os tempos primitivos de qualquer verbo, mediante os quais será possível obter todas as formas derivadas. É preciso treinar muito, substituindo o verbo tomado como modelo por qualquer outro da mesma conjugação. 138 Fundamentos da Língua Latina ATIVIDADES 1. Responda: a) Quais as características do infi nitivo dos verbos latinos para cada con- jugação? b) O que assemelha e diferencia as formas do infi nitivo nas 2ª e 3ª conju- gações? c) Comparando tabelas dos verbos latinos com as de língua portuguesa apresentadas por qualquer gramática, quais as semelhanças e diferenças em todos os aspectos da fl exão verbal (tempo, modo, pessoa, número, voz)? d) Segundo o paradigma apresentado, conjugue o verbo HABERE (ter) nas formas do presente do subjuntivo, pretérito perfeito do indicativo e pretérito mais-que-perfeito do subjuntivo. 2. Pesquise em um dicionário latino outros verbos que pertençam às con- jugações até aqui conhecidas (1ª e 2ª) e procure conjugá-los, segundo a orientação que foi dada nas abordagens sobre os verbos latinos. 3. Traduza do latim e realize a análise sintática dos termos de cada oração: a) Scriptores clarorum vitam virorum narrabunt. b) Columbae mínimo strepitu terrentur. c) Ciceronis libri valde placent et semper placebunt. d) A magistris bonis docemur et docebimur. e) Hostium adventum non timebimus. 4. a) A conhecida expressão jurídica HABEAS CORPUS contém um verbo de 2ª conjugação (Habeo, es, habui, habitum, habere = ter) e um nome neu- tro de 3ª declinação (Corpus, corporis = corpo). Procure localizar na tabela a forma verbal, identifi cando todas as suas características (tempo, modo, pessoa, número, voz) e realize a tradução da expressão latina, justifi cando também a função sintática do substantivo. b) Como fi cará esta expressão ao ser colocada no plural? COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES As questões do item 1, reforçam a assimilação dos conteúdos. Comparando tabelas, é possível identifi car semelhanças e diferenças entre conjugações. Já no item 2, a pesquisa ao dicionário acrescenta novos dados ao conteúdo estudado. A análise sintática assegura o bom direcionamento da tradução, no item 3. É preciso ter consciência de cada forma a partir da função sintática que as palavras exercem nas frases. Observe, primeiramentea forma verbal em que número se encontra. Sendo plural, por exemplo, você 139 Morfologia dos verbos de 2ª conjugação Aula 12deverá achar o sujeito igualmente na forma do plural. Em seguida, observe se o verbo requer complementos e, assim, aparecerão os objetos. Finalmente vêm os adjuntos adverbiais, termos acessórios da oração. Vocabulário: Scriptor, scriptoris = escritor/ Clarus, a, um = ilustre/ Vita, ae = vita/ Vir, viri = varão, homem/ narro, as, avi, atum, are = narrar. Columba, ae = pomba/ minimus, a, um = mínimo/ Strepitus, us = ruído/ Térreo, es, terrui, territum, ere = amedrontar/ Cicero, Ciceronis = Cícero/ Líber, libri = livro/ Valde (advérbio) = muito/ Placeo, es, placui, placitim, ere = agradar/ et (conj. ) = e/ semper (adv.) sempre/ A (preposição que rege ablativo) = por, pelo, pela, pelos, pelas / Magoster, magistri = mestre/ Bonus, a, um = bom, boa/ Doceo, es, docui, doctum, ere = ensinar/ Hostes, hostis = inimigo/ Non (advérbio ) = não/ Timeo, es, timui, ere = temer/ Adventus, us = chegada, vinda. No item 4, uma expressão latina de uso consagrado deve ser compreendida na pertinência das formas e nas suas possíveis comutações. Este trabalho pode aplicar-se a outras expressões latinas de uso frequente. A língua latina prima pela ordem indireta dos termos da oração. Em latim nunca se surpreenda de ver as palavras completamente misturadas no contexto das frases, algo que faz a beleza da língua, mas causa grande difi culdade para o iniciante, o qual redobrará o raciocínio para aproximar os termos uns dos outros, tentando colocá-los em ordem direta a fi m de facilitar a tradução. Este processo recebe o nome de HIPERBATO, fi gura muito estimada pelos escritores mais antigos da própria língua portuguesa, mas de difícil assimilação pelos atuais falantes da língua. Ademais, o latim pode, com muita facilidade, utilizar este recurso estilístico por se tratar de uma língua em que as palavras possuem desinência própria para cada caso. Assim, esteja onde estiver, cada termo da oração será imediatamente percebido no latim, devido à forma pela qual se confi gura. Em português isso se torna mais complicado, podendo, inclusive gerar ambigüidade. Na verdade, na medida em que os casos latinos foram desaparecendo e as línguas modernas optaram por formas únicas para as palavras, impôs-se a necessidade de defi nir as posições das funções sintáticas no contexto das frases. É preciso, portanto, ter muita atenção na hora de traduzir do latim. A melhor maneira está em reconhecer palavras de desinências iguais e tentar aproximá-las para tecer o sentido do todo. O verbo, em geral, 140 Fundamentos da Língua Latina vem no fi m da frase, mas o seu reconhecimento é de suma importância para localizar o sujeito (singular ou plural) e buscar os complementos exigidos pela transitividade do verbo. Este também é um processo de assimilação lenta, mas que se fi rma depois de uma série de exercícios para os quais é imprescindível dominar a morfologia e a sintaxe dos verbos em português. PRÓXIMA AULA Na próxima aula, você aprenderá a empregar os adjetivos de 2ª classe e relacioná-los no contexto das frases. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. São Paulo: Saraiva, 1995. CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. FARIA, Ernesto. Dicionário latino português. Belo Horizonte: Garnier, 2003. __________. vocabulário latino. Belo Horizonte: Garnier, 2001. FERREIRA, Antonio Gomes. Dicionário de Português - Latim. Porto: Porto, 1997. GONZAGA, Maria Cristina de Brito. Frases de latim forense. São Paulo: Livraria de Direito, 1994. LUIZ, Antônio Filardi. Dicionário de expressões latinas. São Paulo: Atlas, 2002. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do cérebro, 1999. SARAIVA, F. R. dos Santos. Dicionálrio Latino-português. Belo Hori- zonte: Garnier, 2000. SOARES, João S. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. VIARO, Mário Eduardo. Por trás das palavras. São Paulo: Globo, 2004. ________. Importância do latim na atualidade. Revista de Ciências Humanas e Sociais. São Paulo: Unisa, v. 1, n. 1, p. 7-12, 1999. ADJETIVOS DE 2ª CLASSE META Apresentar os adjetivos de 2ª classe em qualquer circunstância das frases latinas. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula, o aluno deverá: distinguir adjetivos de 1ª e 2ª classe e relacioná-los no contexto das frases; associar a fl exão dos adjetivos de 2ª classe às palavras da 3ª declinação; e exercitar frases latinas em que os adjetivos de 2ª classe apareçam associados a palavras das declinações estudadas. PRÉ-REQUISITOS O maior pré-requisito para os adjetivos de 2ª classe é o pleno domínio da 3ª declinação e das confi gurações de gênero. No entanto, nenhum dos assuntos conhecidos pode ser dispensado, porquanto o exercício das frases será tanto mais rico quanto mais aproveitados forem os temas abordados, sempre na perspectiva de um todo homogêneo e articulado. Aula 13 142 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO Se você compreendeu bem o mecanismo de fl exão das palavras de 3ª declinação, se você assimilou inteligentemente as confi gurações de gênero, não terá grandes difi culdades para declinar os adjetivos de 2ª classe. Este tema, na verdade, nada mais é do que um prolongamento dos estudos da 3ª declinação, observadas algumas particu- laridades mínimas concernentes ao trato com alguns nomes e a perfeita combinação entre substantivos e adjetivos, visto exercerem estes a função sintática de adjuntos adnominais, exigindo, pois, concordância em gênero, número e caso com os substantivos aos quais se ligam. Esteja, porém, preparado para ver exemplos de concordâncias perfeitas em gênero, número e caso - como deve, obrigatoriamente, acontecer - sem que, necessariamente, apresentem as mesmas desinências. Tal fato vai acon- tecer, muitas vezes, na articulação entre palavras de diferentes declinações, entre adjetivos de 1ª e 2ª classe, entre palavras de 1ª e 2ª declinação e adje- tivos de 2ª classe e entre palavras de 3ª declinação e adjetivos de 1ª classe. Mais tarde, com as palavras de 4ª e a 5ª declinação, o problema se amplia. Esta parece ser uma difi culdade muito grande a transpor, mas não se preo- cupe: a maioria dos alunos de latim a experimenta e vence: faz parte do processo. Esta aula é mais um avanço no conhecimento do latim, permitindo maiores realizações no âmbito das frases e, por isso mesmo, exigindo maiores cuidados a fi m de que se possa trabalhar sem embaraços palavras de várias declinações, em cuja articulação, como se disse, a mesma função sintática pode apresentar desinências diferentes. Mais uma vez, recomendamos total segurança em relação à sintaxe, pois muitos problemas do latim se esclarecem no domínio da análise sintática, que, por sua vez, remete aos casos corretos e às desinências apropriadas. Vamos em frente! Qualquer difi culdade deve remeter à ta- bela para uma consulta tranqüila e esclarecedora. O estudo do latim não pode ser uma arma, um foco de medo e de trau- mas. Deve, sim, ser agradável, inteligente e prático, causando, inclusive, maiores benefícios ao exercício da própria língua portuguesa. (Fonte: http://pt.wikipedia.org). 143 Adjetivos de 2ª classe Aula 13ADJETIVOS Os adjetivos ditos de 2ª classe podem ser percebidos pela própria confi guração do português. Nesta clas- sifi cação, podem ser incluídos aqueles adjetivos que aparecem no por- tuguês com uma única forma servindo aos gêneros masculino e feminino, tais como: fácil, doce, pobre, amável, silvestre, terrestre, prudente, veloz, feliz etc. (Exemplo: o homem é pobre; a mulher é pobre e, assim, suces- sivamente).Para facilitar o estudo, costuma-se dividir os adjetivos de 2ª classe em parissílabos e imparissílabos, conforme apresentem ou não o mesmo número de sílabas entre as formas do nominativo e genitivo no singular. 1. Os adjetivos parissílabos dividem-se em dois grupos: a) BIFORMES – são aqueles que possuem duas terminações no nominativo singular, sendo uma para o masculino e feminino e outra para o neutro. Nos dicionários, estes adjetivos são sempre apresentados como a palavra seguinte: Brevis (M e F), breve (N) = breve. Isso quer dizer que tal adjetivo tem a mesma forma para os gêneros masculino e feminino (brevis) e outra forma para o gênero neutro (breve). Os ad- jetivos biformes e triformes de 2ªclasse, assim como os de 1ª, não são apresentados com o seu genitivo. Cuidado, pois, para não pensar que a segunda forma (breve) seja equivalente ao genitivo singular tal como acontece na apresentação dos substantivos. Tais adjetivos possuem as seguintes particu- laridades: a) Ablativo singular terminado em I. (brevi) b) Como nos nomes parissílabos, fazem o geni- tivo plural em IUM. (brevium) c) Possuem os casos nominativo, vocativo e acusativo iguais: no singular (breve) e no plural em IA (brevia)(N). (No plural são iguais também nos mesmos casos: (Breves)(M-F) 144 Fundamentos da Língua Latina�� Nominativo Brev is Brev e Genitivo Brev is Brev is Dativo Brev i Brev i Acusativo Brev em Brev e Vocativo Brev is Brev e Ablativo Brev i Brev i Nominativo Brev es Brev ia Genitivo Brev ium Brev ium Dativo Brev ibus Brev ibus Acusativo Brev es Brev ia Vocativo Brev es Brev ia Ablativo Brev ibus Brev ibus Singular Plural Masculino e feminino Neutro Conforme este modelo, declinam-se os adjetivos omnis, e = todo/ fortis, e = forte/ utilis, e = útil/ dulcis, e = doce/ amabilis, e = amável/ fi delis, e = fi el/ humilis, e = humilde etc. Agora você vai declinar em todos os casos as seguintes combinações: Homo, hominis = homem + fortis, e = forte – Homem forte. Mulier, mulieris = mulher + dignus, a, um = digno, a - mulher digna. (Atenção: o adjetivodignus, a, um é de 1ª Classe) Cor, cordis (N) = coração + humilis, e = humilde - Coração humilde. Observação: os adjetivos biformes são a confi guração de maior quan- tidade em latim. Este exercício permite observar desinências iguais ou diferentes para os mesmos casos a depender ou não da correspondência de formas. Mais exercícios virão com o mesmo propósito. b) TRIFORMES – esses adjetivos possuem três formas distintas no nominativo singular, sendo uma para cada gênero. A ordem de apresenta- ção é sempre a mesma: masculino, feminino e neutro. Exemplo: acer, acris, acre = azedo. Neste aspecto se parecem com os de 1ª classe, pois estes são todos triformes e também apresentados na forma distinta para cada gênero no nominativo singular. A única diferença de declinação entre biformes e triformes é que estes possuem uma forma em ER para o masculino, no nominativo e vocativo do singular; no mais, a declinação é exatamente igual aos biformes. Eis o modelo para declinar os parissílabos biformes: 145 Adjetivos de 2ª classe Aula 13Eis um modelo de como são declinados os triformes: Nominativo Ac er Acr is Acr e Genitivo Acr is Acr is Acr is Dativo Acr i Acr i Acr i Acusativo Acr em Acr em Acr e Vocativo Ac er Acr is Acr e Ablativo Acr i Acr i Acr i Nominativo Acr es Acr es Acr ia Genitivo Acr ium Acr ium Acr ium Dativo Acr ibus Acr ibus Acr ibus Acusativo Acr es Acr es Acr ia Vocativo Acr es Acr es Acr ia Ablativo Acr ibus Acr ibus Acr ibus Masculino Feminino Neutro Singular Plural Por este mesmo modelo, podem ser declinados os adjetivos: campester, campestris, campestre = campestre/ celeber, celebris, celebre = célebre/ puter, putris, putre = podre etc. Agora continue a fazer exercícios. Tente declinar em todos os casos as seguintes combinações, contemplado adjetivos de 1ª e 2ª classes: Homo, hominis = homem + Celeber, celebris, e = célebre + pius, a, um = piedoso, a. (Homem célebre e piedoso) Vita, ae = vida + Silvester, silvestris, e = silvestre + Sanus, a, um = sadio, a. (Vida silvestre e sadia) Tempus, temporis (N) = tempo + Celer, celeris, e = rápido + Frigidus, a, um = frio, a. (Tempo rápido e frio) 2. Os adjetivos imparissílabos de 2ª classe não possuem, como o nome indica, o mesmo número de sílabas nas formas com que são apresentados. Eles só possuem uma única forma para o nominativo singular dos três gêneros, por isso são chamados de UNIFORMES. A segunda forma que aparece após o nominativo é o genitivo singular, tal como acontece na apresentação dos substantivos. Subdividem-se em dois grupos: ao primeiro pertencem os que possuem o genitivo plural em IUM e ao segundo os que têm o genitivo plural em UM. Fazem o genitivo plural em IUM os imparissílabos cujo radical termina em duas consoantes (Prudens, prudentis = prudente) ou em c (Velox, velocis = veloz). 146 Fundamentos da Língua Latina (Fonte: http://www.aigialos.departament.googlepages.com) Curiosidade: o latim e o grego se assemelham? Pesquise! Observe agora esses nomes declinados, os quais vão servir de modelo para a declinação de todos os outros da mesma espécie: Nominativo Prudens Prudens Genitivo Prudent is Prudent is Dativo Prudent i Prudent i Acusativo Prudent em Prudens Vocativo Prudens Prudens Ablativo Prudent i Prudent i Nominativo Prudent es Prudent ia Genitivo Prudent ium Prudent ium Dativo Prudent ibus Prudent ibus Acusativo Prudent es Prudent ia Vocativo Prudent es Prudent ia Ablativo Prudent ibus Prudent ibus Singular Plural Masculino e feminino Neutro 147 Adjetivos de 2ª classe Aula 13 Observe que as desinências são muito parecidas de um gênero a outro. Outra palavra modelo: Velox, velocis = veloz. �� Nominativo Velox Velox Genitivo Veloc is Veloc is Dativo Veloc i Veloc i Acusativo Veloc em Velox Vocativo Velox Velox Ablativo Veloc i Veloc i Nominativo Veloc es Veloc ia Genitivo Veloc ium Veloc ium Dativo Veloc ibus Veloc ibus Acusativo Veloc es Veloc ia Vocativo Veloc es Veloc ia Ablativo Veloc ibus Veloc ibus Masculino e feminino Neutro Singular Plural Dada a forte semelhança entre muitas desinências, nem seria necessária a apresentação das tabelas acima. Isso, porém, está sendo feito para que você visualize muito bem a declinação das palavras que serviram de modelo. Com este paradigma, você poderá exercitar um sem-número de palavras, desde 148 Fundamentos da Língua Latina que elas sejam da mesma espécie das que foram escolhidas por modelo. É preciso ter bastante cuidado com o acusativo singular, que no mas- culino e feminino possui a terminação EM e no neutro possui, assim como o vocativo, a mesma forma do nominativo. Os particípios presentes dos verbos latinos terminam em NS e se decli- nam como prudens, prudentis. Assim como em português, podem funcionar como verbos ou substantivos. Sendo substantivos, fazem o ablativo singular em E: fervente aqua (enquanto a água fervia), a sapiente (por um sábio). Por outro lado, se funcionam como adjetivos, fazem o ablativo singular em I: ferventi aqua (com a água que ferve, fervente), a sapienti viro (por um homem sábio). Tais sutilezas de análise, porém, o estudante vai adquirindo com o tempo e mediante contínuos exercícios. CONCLUSÃO Os adjetivos de 2ª classe vêm acrescentar novas possibilidades ao conhecimento do latim, con- tribuindo para o exercício de frases mais elaboradas, nas quais se bus- cam associações inteligentes para as mesmas funções sintáticas, fruto da aplicação criteriosa de todo o conteúdo até então estudado. Primeiro livro em latim impresso em Paris, em 1470, com cartas de Gasparino Barizzi, de Bergamo (Fonte: http://www.novomilenio.inf.br).149 Adjetivos de 2ª classe Aula 13RESUMO A distinção entre as duas classes dos adjetivos pode ser percebida pela confi guração da própria língua portuguesa. Em latim, os de 1ª classe seguem para o masculino a 2ª declinação; para o feminino a 1ª declinação; e para o neutro a 2ª declinação no gênero neutro. Assim, eles sempre são apresentados em três formas do nominativo singular (triformes) a exemplo de Sanus, a, um = sadio, a ou Piger, pigra, um = preguiçoso, a. É útil fazer uma revisão deste assunto. Os adjetivos que se declinam segundo o paradigma dos substantivos da 3ª declinação são chamados de 2ª classe. Eles podem ser triformes, biformes ou uniformes, conforme apresentem, respectivamente, três, duas ou apenas uma forma no nominativo singular dos gêneros. A esta confi guração correspondem, na mesma ordem, as palavras acer, acris, acre; fortis, forte e velox, velocis. Como acontece com os adjetivos de 1ª classe, não se usa apresentá-los com a forma correspondente do genitivo singular. Nos de 2ª classe os geni- tivos aparecem somente na apresentação dos uniformes, isso quer dizer que esta modalidade de adjetivos possui a mesma confi guração dos substantivos. Aos poucos você vai-se acostumando com a terminologia com que são trabalhadas as palavras latinas. O mais importante, no entanto, é exercitar o mecanismo de fl exão das palavras, sempre obedecendo à função sintática desempenhada nas frases. Exercendo a função de adjuntos adnominais, devem os adjetivos combinar em gênero, número e caso com os substan- tivos aos quais se juntam sem que, no entanto, tal combinação implique, necessariamente, a mesma desinência. Enfi m, as tabelas são apresentadas para constante consulta, visando a uma assimilação criteriosa e à realização de exercícios inteligentes e proveitosos. ATIVIDADES I - Responda: 1. Como distinguir adjetivos de 1ª e de 2ª classe? 2. A que declinação obedecem os adjetivos de 2ª classe? 3. O que signifi ca os termos triformes, biformes e uniformes aplicados aos adjetivos de 2ª classe? 4. Quais as características da declinação de cada modalidade? Exemplo. 5. O que acontece com as desinências dos adjetivos de 2ª classe quando associados às palavras de 3ª declinação? Exemplo. 6. Qual a relação entre os adjetivos de 2ª classe e os particípios presentes dos verbos? 7. Decline celer, celeris, celere= célere, rápido, a. 8. Qual o acusativo singular de clemens, clementis = clemente (para os três gêneros)? 150 Fundamentos da Língua Latina II – Construa uma tabela contendo a declinação das palavras populus, i = povo, natura, ae = natureza e vinum, i = vinho, associadas aos adjetivos silvester, silvestris, silvestre = silvestre e bonus, a, um = bom, boa. Neste exercício, você bem pode visualizar a semelhança e a diversidade de desinências mesmo que se trate de casos idênticos, pois, na verdade, você está combinando palavras da mesma ou de declinações diferentes. III – No exercício seguinte, a palavra Homo, hominis = homem aparece associada a adjetivos das duas classes. Justifi que as formas das desinências, identifi cando também os possíveis casos em que as expressões se encontram. Em seguida, escreva frases em português que esgotem as possibilidades de tradução das expressões, justifi cando-as pela função sintática exercida. HOMINES BONOS/ HOMINES BONI/ HOMINIBUS BONIS/ HO- MINI BONO/ HOMINI SAPIENTI/ HOMINIBUS SAPIENTIBUS/ HOMO SAPIENS/ HOMINUM SAPIENTIUM/ Vocabulário: Homo, hominis = homem/ Bonus, a, um = bom, boa/ Sapiens, sapientis = sábio. IV - Transponha para o latim após realizar a análise sintática: 1. Todos os povos da terra desejam reis sábios e justos. 2. A caridade abranda todas as tristezas dos homens infelizes. 3. As almas inocentes das crianças encantam os corações dos pais e das mães. Vocabulário: Todo, toda = Omnis, e / Povo = Populus, i/ Terra = Terra, ae/ Rei = Rex, regis/ Sábio = Sapiens, sapientis / Justo = Justus, a, um/ Desejar = Desidero, as, avi, atum, are. Caridade = Caritas, caritatis/ Tristeza = Tristitia, ae/ Homem = Homo, hominis/ Miser, misera, um = infeliz/ Abrandar = Mitigo, as, avi, atum, are. Alma = Anima, ae/ Inocente = Inocens, inocentis/ Criança = Puer, pueri (M)/ Coração = Cor, cordis (N)/ Pai = Pater, patris/ Mãe = Mater, matris. V – Traduza do latim para o português após fazer a análise sintática dos termos: 1. Exempla clarorum et sapientium virorum omnibus hominibus utilia sunt. 2. Divitum vita hominum voluptates magnas ministrat. 3. Celebria erant Jovis oracula populis antiquis. Vocabulário: Exemplum, i = exemplo/ Clarus, a, um = ilustre/ et = e/ Sapiens, sapientis = sábio/ Vir, viri = varão/ Omnis, e = todo, a/ Homo, hominis = homem / Utilis, e = útil/ Sum, es, fui, esse = ser. Dives, divitis = rico/ Vita, ae = vida/ Voluptas, voluptatis = prazer, volú- pia/ Magnus, a, um = grande/ Ministro, as, avi, atum, are = proporcionar. Celeber, celebris, celebre = célebre/ Juppiter, Jovis = Júpiter/ Oraculum, i = oráculo/ Populus, i = povo/ Antiquus, a, um = antigo, a. 151 Adjetivos de 2ª classe Aula 13 COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES No item I, as questões querem reforçar a compreensão dos conteúdos. Quanto ao item II, usamos substantivos e adjetivos associados. Por que formas iguais e diferentes? A execução do item II, leva a aprender a fl exão de palavras associadas de declinações diferentes. Nos itens IV e V, o bom exercício da análise sintática vai garantir a pertinência da tradução do latim ao português e vice-versa. PRÓXIMA AULA Depois de conhecer os adjetivos de 2ª classe, mais adiante você estudará os nomes de 4ª e 5ª declinações. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. São Paulo: Saraiva, 1995. CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. FARIA, Ernesto. Dicionário latino português. Belo Horizonte: Garnier, 2003. FERREIRA, Antonio Gomes. Dicionário de Português - Latim. Porto: Porto, 1997. GONZAGA, Maria Cristina de Brito. Frases de latim forense. São Paulo: Livraria de Direito, 1994. LUIZ, Antônio Filardi. Dicionário de expressões latinas. São Paulo: Atlas, 2002. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do cérebro, 1999. SARAIVA, F. R. dos Santos. Dicionálrio Latino-português. Belo Hori- zonte: Garnier, 2000. SOARES, João S. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. VIARO, Mário Eduardo. Por trás das palavras. São Paulo: Globo, 2004. __________. Importância do latim na atualidade. Revista de ciências humanas e sociais. São Paulo: Unisa, v. 1, n. 1, p. 7-12, 1999. ESTUDO DOS NOMES DE 4ª E 5ª DECLINAÇÕES META Mostrar o mecanismo de fl exão das palavras de 4ª e 5ª declinações e empregá-las corretamente no contexto das frases. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula o aluno deverá: identifi car as desinências de 4ª e 5ª declinações; associar as palavras dessas declinações aos conteúdos já estudados; reconhecer as semelhanças e diferenças de formas no desempenho das funções sintáticas; e realizar pequenos exercícios de tradução do português para o latim e vice-versa, tendo agora o conhecimento de todas as declinações e dos adjetivos de 1ª e 2ª classes. PRÉ-REQUISITOS Domínio das declinações dos substantivos, adjetivos e verbos até aqui estudados. Aula 14 154 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO O estudo das duas declinações aqui abordado completa o conhecimento sobre os substantivos latinos e seus mecanismos de fl exão. É claro que as informações até aqui fornecidas têm caráter bastante elementar, mas o sufi ciente para dar prosseguimento aos estudos. Se você consultar uma gramática, vai tomar conhecimento de muitas particularidades, características e exceções envolvendo a declinaçãodos nomes latinos. Tais detalhes, no entanto, pertencem a conhecimentos mais aprofundados. A depender de seu interesse em aprofundar os estudos do latim, eles poderão ser objeto de estudos posteriores para os quais qualquer gramática oferece subsídios sufi cientes. As declinações aqui em apreço, embora consideradas as mais simples até porque comportam um número reduzido de palavras, possuem também certas particularidades a serem observadas. A prática até agora desenvolvida com as outras declinações conduz, igualmente, à maior segurança e tranqüilidade na abordagem das palavras de 4ª e de 5ª declinação. Com esta aula completam-se as informações sobre as fl exões dos nomes latinos e você estará apto para trabalhar qualquer palavra da língua em frases mais amplas e em maior quantidade mesmo sabendo que irá utilizar muito pouco as duas declinações aqui abordadas, sobretudo a 5ª declinação. 155 Terceira declinação – nomes masculinos e femininos Aula 144ª E 5ª DECLINAÇÕES Você agora vai estudar as duas declinações mais simples do latim. O fato de as duas serem abordadas numa só aula não signifi ca que elas possuem afi nidades de formas entre si. Pelo contrário, são declinações de desinências bastante diversifi cadas entre si. Apresentamos as duas numa só aula porque ambas possuem um número reduzido de palavras – a 5ª, sobretudo – tornando o assunto bastante sucinto e sendo elas usadas poucas vezes. Você vai perceber maior semelhança da 4ª com a 2ª e da 5ª com a 3ª, sendo necessário, por causa disso, redobrar os cuidados para não confundir as listas na hora de fl exionar as palavras. Importa ainda observar que, antes da passagem do latim para o português, algumas palavras de 5ª declinação já migravam para a 1ª. Assim, Materies, ei / Luxuries, ei / Barbaries, ei tornaram-se, respectivamente, Materia, ae/ Luxuria, ae/ Barbaria, ae, re- duzindo ainda mais o número de palavras da 5ª declinação. O genitivo singular, sempre apresentado logo após o nominativo, será o elemento seguro na hora de distribuir as palavras em suas respectivas declinações. 1 4 Nominativo us ua Genitivo uum uum Dativo ibus (ubus) ibus Acusativo us ua Vocativo us ua Ablativo ibus (ubus) ibus Nominativo us u Genitivo us us (u) Dativo ui u Acusativo um u Vocativo us u Ablativo u u Singular Plural Masculino e feminino Neutro 156 Fundamentos da Língua Latina Agora observe as desinências dos nomes de 4ª declinação: Agora veja palavras declinadas segundo o modelo. Inicialmente, apresentamos a fl exão dos masculinos e femininos. Tomemos a palavra FRUCTUS, US (M) = Fruto. Poderia também ser uma palavra feminina como MANUS, US e as desinências seriam as mesmas. Singular Plural Nominativo Fruct us – o, um fruto Fruct us – os, uns frutos Genitivo Fruct us – de, do, de um fruto Fruct um – dos, de uns frutos Dativo Fruct ui – ao, para o fruto Fruct ibus – aos, para frutos Acusativo Fruct um - o, um fruto Fruct us - os, uns frutos Vocativo Fruct us – ó fruto Fruct us - ó frutos Ablativo Fruct u – em, sem, por fruto Fruct ibus - em, sem, frutos Singular Plural Nominativo Gen u – o, um joelho Gen ua – os, uns joelhos Genitivo Gen us - (ou genu) de, do... Gen uum – de, dos joelhos Dativo Gen u - a, para o joelho Gen ibus – a, para os joelhos Acusativo Gen u – o, um joelho Gen ua – os, uns joelhos Vocativo Gen u – ó joelho Gen ua – ó joelhos Ablativo Gen u – em, no, sem joelho Gen ibus – em, no, sem... Por este mesmo paradigma, declinam-se Spiritus, us = espírito/ Exer- citus, us = exército/ Sensus, us = sentido/ Currus, us = carro/ Nurus, us (F) = nora/ Socrus, us (F) = sogra/ Anus, us (F) = velha etc. Agora observe a declinação de um nome neutro. Tomemos a palavra GENU, US = Joelho. No singular as palavras neutras de 4ª declinação praticamente possuem a mesma desinência para todos os casos. O único caso diferente é o genitivo, o qual possui, contudo, duas formas. A igualdade de desinências para todos os casos já refl ete, dentro do próprio latim, uma tendência das línguas românicas de reduzir todas as palavras declináveis a apenas duas formas, uma para o singular e outra para o plural. No latim, porém, essa uniformidade de desinências difi culta a identifi cação de cada caso em contextos isolados ou de menor amplitude. Nesta hora, é de suma importância o papel dos adjetivos, uma vez que eles podem ajudar a precisar a ocorrência de alguns casos aos quais se ligam. Assim, isoladamente, a forma GENU pode traduzir qualquer caso do singular. No entanto, a expressão GENU LASSO, isto é, o substantivo re- 157 Terceira declinação – nomes masculinos e femininos Aula 14forçado por um adjetivo (Lassus, a, um = cansado) indica necessariamente a incidência de um dativo ou de um ablativo. Por sua vez, a forma GENU(S) LASSI remete ao genitivo; GENU LASSUM traduz o nominativo, o voca- tivo e o acusativo. Você viu como a presença do adjetivo, com suas formas mais precisas, ajuda na defi nição dos casos? Tudo isso força o raciocínio e vem mais uma vez confi rmar que o latim se opera por lógica para a qual a simples memorização termina complicando, ou melhor, reduzindo as chances de um estudo criterioso e efi caz. Como forma de exercício continue a combinação acima, mostrando como fi cam todos os casos do plural. A 4ª declinação também ajuda a compreender certas palavras da língua portuguesa que possuem apenas uma forma para o singular e o plural: vírus, bônus, ônus, ânus, húmus etc. CUIDADO! Muito cuidado mesmo, para não confundir a 4ª declina- ção com a 2ª, pois, como se pôde ver, algumas desinências se assemelham. Por outro lado, o hábito de ver a desinência US (populus = povo) sempre associada aos nomes masculinos de 2ª declinação pode causar difi culdade em perceber formas do gênero femi- nino da 4ª declinação terminadas em US (manus = mão). Por causa disso, você mesmo conhecerá a tentação de escrever MANUS SANUS em lugar de MANUS SANA (mão sadia). Tal confusão vai desaparecendo na medida em que forem associadas palavras de 4ª declinação aos adjetivos de 1ª e de 2ª classes. Para tanto, realize o exercício agora proposto declinando as seguintes palavras: a) SPIRITUS BONUS ET NOBILIS b) MANUS SANA ET VELOX c) GENU MORBIDUM ET FRAGILE Vocabulário: Spiritus, us = espírito/ Bonus, a, um = bom, boa/ No- bilis, e = nobre. Manus, us (F) = mão/ Sanus, a, um = sadio, a/ Velox, velocis = veloz. Genu, us (N) = joelho/ Morbidus, a, um = doente/ Fragilis, e = frágil. Certos nomes da 4ª declinação fazem o dativo e o ablativo plural em UBUS em vez de IBUS. Exemplo: Lacus, us = lago/ Acus, us (F) = agulha/ Tribus, us (F) = tribo/ Pecu, us (N) = rebanho. Isso acontece por questões fonéticas ou, em outros casos, para evitar confusão de formas entre declinações, a exemplo de Partus, us = parto (Partubus) e Pars, partis = parte (Partibus). 158 Fundamentos da Língua Latina 5ª DECLINAÇÃO Agora passamos a conhecer a 5ª declinação, a última e a mais simples de todas. Possui um número ínfi mo de palavras e até se pode dizer que apenas dois nomes (RES, REI = coisa e DIES, DIEI = dia) constituem verdadeiramente esta declinação. Os outros poucos nomes não são declinados em todos os casos. Esta declinação não possui nomes neu- tros e, praticamente, todas as suas palavras são femininas com exceção de Dies, diei = dia, que, a depender do signifi cado, pode ser do gênero masculino ou feminino: o dia incerto é feminino. Exemplo: Dies irae, dies illa = Dia de ira, aquele dia (illa = feminino); o dia conhecido, certo, é masculino. Exemplo: Dignare, Domine, die isto sine peccato nos custodire = Digna-te, Senhor, neste dia (isto = masculino) guardar-nos ser pecado). Agora observe os paradigmas para fl exionar qualquer palavra de 5ªdeclinação: 1 4 Singular Plural Nominativo ES ES Genitivo EI ERUM Dativo EI EBUS Acusativo EM ES Vocativo ES ES Ablativo E EBUS Apresentamos a palavra DIES, EI = dia, fl exionada: 1 4 Nominativo Di es – o, um dia Di es – os, uns dias Genitivo Di ei – de, do, de um dia Di erum – de, dos dias Dativo Di ei – ao, para o dia Di ebus – aos, para os dias Acusativo Di em – o, um dia Di es – os, uns dias Vocativo Di es – ó dia Di es – ó dias Ablativo Di e – em, no, sem dia Di ebus – em, nos, sem dias Singular Plural 159 Terceira declinação – nomes masculinos e femininos Aula 14Os demais nomes, como se disse, não são usados no plural, havendo, porém, certos deles que, no plural, são usados apenas nos casos em ES: Pernicies, ei = estrago/ Fides, ei = fé/ Spes, ei = esperança/ Durities, ei = dureza etc. Aqui se encerram as abordagens sobre a declinação dos substantivos, permitindo trabalhar, a partir de agora, todos os nomes declináveis da língua latina. Você deve ter notado a grande variedade de desinências distribuídas por entre as diversas declinações. O reconhecimento da lista certa para declinar as palavras é sempre possível se o genitivo singular vier imediatamente após a forma do nominativo. Habitue-se a esta prática e você não terá qualquer dúvida sobre onde situar cada palavra. Muitas desinências são iguais de uma declinação a outra, mas isso não se constata em relação ao genitivo, pois não existe genitivo singular igual de declinação para declinação. EM RESUMO: Eis as terminações dos genitivos de cada declinação, válidas para todos os gêneros: Singular Plural 1ª declinação – AE ARUM 2ª declinação – I ORUM 3ª declinação – IS UM/IUM 4ª declinação – US UUM 5ª declinação – EI ERUM Apresentamos agora um quadro sinótico, contendo todas as desinências de todas as declinações. Este quadro que tivemos o cuidado de elaborar é um modo prático de visualizar, de uma só vez, todas as possibilidades que abrangem as palavras latinas. Pode-se dizer que boa parte do latim se encontra neste quadro-resumo. Ele é para ser usado, consultado, trans- formado em objeto de estudo de grande utilidade para realizar frases em latim e compreender os textos apresenta- dos para tradução. Com esta tabela você estará carregando, por onde for, a língua latina perfeitamente visualizada em suas possíveis fl exões. O domínio seguro da análise sintática continua sendo o ponto de apoio para bem trabalhar o latim. Olhando com atenção a tabela, você poderá realizar ex- ercícios mentais que permitam imaginar de que forma se revestiria cada palavra em contexto sintático específi co. Se você 160 Fundamentos da Língua Latina visualizar o quadro na vertical, estará percebendo todas as possibilidades de uma declinação qualquer. Na ótica horizontal, por sua vez, você con- hecerá a relação entre declinações e as possíveis formas manifestadas nas palavras quando estão cumprindo funções sintáticas idênticas. Trata-se de um exercício divertido com explorações variadas das palavras de diferentes declinações articuladas entre si. CONCLUSÃO Com esta aula conclui-se o estudo de todos os nomes declináveis em latim, ou seja, substantivos e adjetivos. Palavras de outras classes também declináveis fazem parte de um tema de estudo específi co. A base, porém, é o pleno domínio das cinco declina- ções associado a uma total segurança sobre análise sintática. Os pronomes, por exemplo, fazem parte de um grupo de palavras bastante utilizadas no exercício da língua. A forma pela qual os pronomes se fl exionam tem muita semelhança com a declinação dos nomes em geral; muitas desinências são comuns e de fácil assimilação. Isto você vai constatar na aula 18. Por sua vez, os numerais ordinais e as formas nominais dos verbos estão em perfeita sintonia com as fl exões dos nomes, sobretudo dos adjetivos de 1ª classe no que se refere aos numerais, certos particípios e as formas com que se obtém a voz passiva analítica. Tais assuntos, porém, serão dominados pouco a pouco, no exercício prático da língua. 161 Terceira declinação – nomes masculinos e femininos Aula 14Recomendamos, mais uma vez, a utilização constante do QUADRO SINÓTICO aqui apresentado e, por meio dele, o desenvolvimento de exercícios contemplando o maior número possível de palavras de todas as declinações e destas articuladas entre si. RESUMO Com esta aula conclui-se o estudo de todos os nomes declináveis em latim, ou seja, substantivos e adjetivos. Palavras de outras classes também declináveis fazem parte de um tema de estudo específi co. A base, porém, é o pleno domínio das cinco declina- ções associado a uma total segurança sobre análise sintática. Os pronomes, por exemplo, fazem parte de um grupo de palavras bastante utilizadas no exercício da língua. A forma pela qual os pronomes se fl exionam tem muita semelhança com a declinação dos nomes em geral; muitas desinências são comuns e de fácil assimilação. Isto você vai constatar na aula 18. Por sua vez, os numerais ordinais e as formas nominais dos verbos estão em perfeita sintonia com as fl exões dos nomes, sobretudo dos adjetivos de 1ª classe no que se refere aos numerais, certos particípios e as formas com que se obtém a voz passiva analítica. Tais assuntos, porém, serão dominados pouco a pouco, no exercício prático da língua. Recomendamos, mais uma vez, a utilização constante do QUADRO SINÓTICO aqui apresentado e, por meio dele, o desenvolvimento de exercícios contemplando o maior número possível de palavras de todas as declinações e destas articuladas entre si. 162 Fundamentos da Língua Latina ATIVIDADES 1. Por que as declinações 4ª e 5ª são consideradas as mais simples em latim? Explique. 2. Quais as palavras da 5ª declinação que possuem todas as formas no singular e no plural? 3. Qual o critério para utilizar IBUS ou UBUS nas palavras da 4ª declinação? Em que casos do plural isso acontece? 4. A 4ª declinação possui muitas formas iguais para o singular e o plural. Qual o recurso que pode auxiliar na identifi cação dos casos? Exemplifi que. 5. Que semelhanças apresentam no plural as terminações do genitivo, a) CARPE DIEM, eis um tema lírico muito grato ao poeta Horácio. b) Para surpresa de todos, a reunião foi adiada SINE DIE. c) Analise sintaticamente os termos latinos e realize a transposição de ambas as expressões para o plural. III – Acrescentando ao substantivo dia os adjetivos Bonus, a, um e Felix, felicis, à primeira expressão e os adjetivos Certus, a, um e possibilis, e à segunda expressão, tem-se: CARPE DIEM ___________et _______________________ SINE DIE ____________________et ___________________ Observação: Considere a questão de gênero da palavra dies, ei explicada nesta aula. IV – Compreendendo a função sintática dos termos da oração, explique o que diferencia as formas das palavras Pai, Filho e Espírito Santo nas frases: In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti (Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo). Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto (Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo). Vocabulário: In = Em – preposição que rege ablativo/ Nomen, nominis (N) = Nome/ Pater, Patris = Pai/ Filius, i = Filho/ Spiritus, us = Espírito/ Sanctus, a, um = Santo, a/ Gloria, ae = Glória. V – Explique sintaticamente as expressões LATO SENSU e STRICTO SENSU. Vocabulário: Sensus, us = senso,sentido/ Strictus, a, um = estrito, a/ Latus, a, um = largo, amplo, a. VI – TRADUZA do latim após realizar a análise sintática dos termos: a) Belorum exitus incerti semper erunt. b) Magnam fructuum copiam divinabamus. c) Fortuna est rerum domina et magistra. d) Si spes est signum boni, mali signum metus est. VII – Após realizar a análise sintática, transponha para o latim: a) A história explica as coisas e as causas das coisas. 163 Terceira declinação – nomes masculinos e femininos Aula 14b) Nossas esperanças são frágeis e vãs. c) O exército romano dominou o mundo. Vocabulário: Historia, ae = história/ Explico, as, avi, atum, are = explicar/ Res, ei = coisa/ Causa, ae = causa/ Noster, nostra, um = nosso, a/ Spes, spei = esperança/ fragilis, e = frágil/ Vanus, a, um = vão, vã/ Exercitus, us = exército/ Romanus, a, um = romano/ Domino, as, avi, atum, are = dominar / Mun- dus, i = mundo. Carpo, is, carpsi, carptum, carpere = colher, aproveitar/ Sine = sem – preposição que rege ablativo (a preposição é invariável, não se declina). Bellum, i = guerra/ Exitus, us = êxito, sucesso/ Incertus, a, um = incerto, a/ Magnus, a, um = grande/ Fructus, us = fruto/ Copia, ae = abundância/ Sum, es, fui, esse = ser/ semper = sempre/ Divino, as, avi, atum, are = adivinhar, pressentir/ Fortuna, ae = sorte/ Res, rei = cosa/ domina, ae = senhora/ magistra, ae = mestra/ Spes, spei = esperança / Si = se (conjunção – indeclinável)/ Malum, i = mal/ Signum, i = sinal/ Bonum, i = bem/ Metus, i = medo. do dativo e do ablativo de 5ª com as outras declinações? II. Compreendendo a função sintática de cada termo da oração, explique a diferença formal da palavra DIES, EI = dia, nas expressões latinas que aparecem nas frases abaixo: COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES I - Com este exercício se pretende revisar elementos básicos na compreensão das declinações aqui estudadas. A qualquer dúvida, deve-se recorrer às explicações contidas nesta aula. II - Uma palavra pode adquirir feições diversas a depender da função sintática que desempenha nas frases. Aqui se trata de elaborar a mesma palavra em circunstâncias diferentes. O intuito é forçar o raciocínio e tomar consciência das possibilidades a que levam as funções sintáticas nas frases. III - Expressões latinas de uso corrente são trabalhadas mediante acréscimos. Este exercício retoma os adjetivos de 1ª e 2ª classes e eles são trabalhados conjuntamente, evidenciando diferentes formas na mesma função sintática. IV - O que faz a mesma expressão adquirir feições diversas em latim? Certamente, a função sintática conduz à escolha exata do caso latino. Este exercício é bastante prático porque lida com a percepção de formas para uma mesma expressão. 164 Fundamentos da Língua Latina V - Para melhor compreender expressões latinas em pleno uso na atualidade, as expressões aqui analisadas evidenciam a diferença de formas exigida pela função sintática. VI e VII - Análise sintática e tradução. Os exercícios de tradução do latim ao português e vice-versa vão dinamizando a prática com a estrutura dessas línguas . O recurso é sempre o mesmo: identifi car o verbo e ver o tipo de sujeito que ele requer (singular ou plural) bem como os complementos que comportar e, fi nalmente, os adverbiais, se houver. Não costumamos repetir as palavras que já apareceram no vocabulário. Se elas aparecerem no contexto de outros exercícios, fi que, portanto, muito atento para encontrá-las quando se fi zer necessário. PRÓXIMA AULA Logo mais você identifi cará a morfologia dos verbos de 3ª conjugação, conhecendo as fl exões dos verbos nas vozes ativa e passiva. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Marcos. Latim para todos. Aracaju: J. Andrade, 2007. ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. São Paulo: Saraiva, 1995. CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. FURLAN, Oswaldo Antônio. Latim para o português. Florianópolis: EDUFSC, 2006. GONZAGA, Maria Cristina de Brito. Frases de latim forense. São Paulo: Livraria de Direito, 1994. LUIZ, Antônio Filardi. Dicionário de expressões latinas. São Paulo: Atlas, 2002. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do cérebro, 1999. SOARES, João S.. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. STOCK, Lco. Conjugação dos verbos latinos. Lisboa: Presença, 2000. WILLIAMS, Edwin B. Do Latim ao português. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. VIARO, Mário Eduardo. Por trás das palavras. São Paulo: Globo, 2004. _________ Importância do latim na atualidade. Revista de ciências humanas e sociais. São Paulo: Unisa, v. 1, n. 1, p. 7-12, 1999. MORFOLOGIA DOS VERBOS DE 3ª CONJUGAÇÃO META Mostrar as fl exões dos verbos de terceira conjugação nas vozes ativa e passiva. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula o aluno deverá: distinguir os verbos latinos pela conjugação a que pertencem; aplicar as formas verbais em todas as suas confi gurações no contexto de pequenas frases latinas; exercitar a derivação verbal a partir do conhecimento das formas primitivas; destacar semelhanças e diferenças entre a 2ª e 3ª conjugações verbais; reconhecer as características das conjugações estudadas mediante a comparação das formas; e realizar exercícios de tradução, reconhecendo as marcas de tempo, modo, pessoa, número e voz. PRÉ-REQUISITOS Os mesmos pré-requisitos apontados no estudo dos verbos anteriormente estudados valem também para os verbos da 3ª conjugação. Além do mais, os assuntos que tratam da declinação dos nomes devem ser revistos seguramente. Aula 15 166 Fundamentos de Língua Latina INTRODUÇÃO Nesta altura, você já deve transitar com desenvoltura por todas as declinações e saber associá-las umas às outras, recorrendo aos substantivos e adjetivos como palavras de base para a realização das frases. Importante é sempre associar os conhecimentos adquiridos, numa per- spectiva de conjunto onde os trabalhos são efetuados na maior serenidade, buscando-se mais o raciocínio do que a memorização inconseqüente. Daí a necessidade de se estar sempre consultando os dicionários, as tabelas e os quadros sinóticos. A 3ª conjugação é mais um avanço no conhecimento do latim. Como se disse das conjugações anteriormen-te abordadas, através dos tempos primitivos, que sempre são dados pelos dicionários, é possível chegar-se a todas as confi gurações com que os verbos são caracterizados. Retome o texto introdutório das lições 7, 9 e 12, referentes aos verbos esse (ser) e aos de 1ª e 2ª conjugações. As mesmas observações valem para os de 3ª conjugação, abordados nesta aula. Importa sempre conhecer, antes de qualquer trabalho com os verbos, os seus tempos primitivos. Neles estão contidas as particularidades que devem ser observadas para obter a totali- dade das formas. As conjugações 2ª e 3ª muito se assemelham, por isso é preciso ter aten- ção para não confundir as formas do infi nitivo, pois é impossível conjugar qualquer verbo que não seja usando o paradigma de sua própria conjugação. Temos mostrado nas aulas anteriores como é bastante simples o pro- cesso de fl exão dos verbos. Trata-se de algo prático e inteligente, sendo fundamental conhecer apenas um verbo da conjugação em apreço para, então, trabalhar qualquer outro da mesma espécie. Você não está obrigado a decorar fórmulas ou listas inteiras de tempos, modos etc. A memorização pode até acontecer por força do hábito, mas, em princípio, você apenas precisa saber consultar as tabelas, isolar os radicais e aplicar as desinências. Vamos, então, conhecer os verbos de 3ª conjugação, ou melhor, vamos nos familiarizar com as tabelas que mostram todas as possibilidades de articulação verbal nas vozes ativa e passiva. 167 Morfologia dos verbosde 3ª conjugação Aula 153ª CONJUGAÇÃO À 3ª conjugação latina pertencem os verbos cujo infi nitivo apresenta terminação em ERE (breve) LEG- ERE = ler (pronúncia: légere). Repare que a 2ª conjugação também apresentava o infi nitivo com a terminação em ERE. A diferença entre as duas, porém, consiste na posição da sílaba tônica, pois nos verbos de 2ª conjugação a terminação do infi nitivo é longa: DEL-ERE (pronúncia: delére). Compare bem as duas formas do infi nitivo das conjugações em apreço: 2ª conjugação: DELÉRE - 3ª conjugação: LÉGERE. Se você percebeu a diferença, tente agora realizar uma série de exercícios procurando verbos que se enquadrem em um ou outro modelo. Outra maneira de reconhecer se o verbo pertence à 2ª ou à 3ª conjuga- ção está indicada na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, forma verbal que aparece em primeiro lugar na relação dos tempos primi- tivos com que são apresentados todos os verbos nos dicionários latinos. Desta forma, se a 1ª pessoa do presente do indicativo terminar em EO, o verbo, certamente, pertence à 2ª conjugação, tendo, portanto, o infi nitivo em ERE longo. Observe: Presente do indicativo – DELEO – infi nitivo DELÉRE (longo), logo se trata de 2ª conjugação. Se, por outro lado, a 1ª pessoa do presente do indicativo terminar em O ou IO, o infi nitivo deverá terminar em ERE breve. Observe: Presente do indicativo – LEGO – infi nitivo LÉGERE (breve), logo se trata de 3ª conjugação ou Presente do indicativo – CAPIO – infi nitivo CÁPERE (breve), logo se trata também de 3ª conjugação. Esta observação é muito importante porque os verbos só podem ser fl exionados segundo o modelo da conjugação que lhes é própria e, apesar de certas semelhanças formais, as diferenças entre a 2ª e a 3ª conjugações são consideráveis. Na verdade, tais observações já foram colocadas quando foi estudada a 2ª conjugação - aula 12 – mas é sempre bom recordá-las para evitar equívocos no momento do uso. Agora você vai conhecer o modelo de fl exão dos verbos de 3ª conju- gação. Observe atentamente as tabelas contendo todas as confi gurações destes verbos nas vozes ativa e passiva. Para a mais completa visualiza- ção, as tabelas compreendem os verbos Lego (leio) e Cápio (tomo). As pequenas diferenças formais entre ambos até dispensariam a apresentação de dois verbos, pois se trata de uma mesma conjugação. Estamos, no en- tanto, facilitando ao máximo a fi m de evitar qualquer equívoco e, por isso, recomendamos que você observe atentamente as tabelas e realize várias substituições empregando verbos da mesma espécie. Assim procedendo, 168 Fundamentos de Língua Latina você vai-se familiarizando com todos os verbos. A sistemática é sempre a mesma: isolar o radical do verbo apresentado como padrão e substituí-lo pelo radical de qualquer outro da mesma conjugação: as desinências são as mesmas para todos e se enquadram perfeitamente facilitando o uso correto. 3ª CONJUGAÇÃO VOZ ATIVA LEGO, IS, LEGI, LECTUM, ERE Pelo mesmo modelo são conjugados os verbos: Discere (disco) = aprender; Facere (fácio)= fazer; Dicere (dico) = dizer; Mittere (mitto) = enviar; Lenire (lenio) = abrandar; Observe que os verbos de 3ª conjugação possuem duas formas exata- mente iguais para tempos diferentes. Trata-se das 1ª pessoas do singular do presente do subjuntivo e do futuro imperfeito. Assim, a forma legam pode signifi car, respectivamente, eu leia ou eu lerei, a depender do contexto. Esta mesma característica acontece com os verbos da 4ª conjugação e também na voz passiva de ambas as conjugações. 169 Morfologia dos verbos de 3ª conjugação Aula 15 Indicativo Subjuntivo lego = leio legam = leia legis legas legit legat legimus legamus legitis legatis legunt legant legebam = lia legerem = lesse legebas legeres legebat legeret legebamus legeremus legebatis legeretis legebant legerent legam = lerei leges leget legemus legetis legent legi = li, tenho lido legerim = tenha lido legisti legeris legit legerit legimus legerimus legistis legeritis legerunt legerint legeram=lera, tinha lido legessem = tenha lido legeras legisses legerant legisset legeramus legissemus legeratis legissetis legerant legissent legero = terei lido legeris legerit legerimus legeritis legerint Presente Futuro imperfeito Imperfeito Perfeito Mais-que- perfeito Futuro anterior 170 Fundamentos de Língua Latina Imperativo Infinitivo Participio lege = lê legere = ler legens, legentis Presente = que lê legite = lede legito lecturum, am, um esse lecturus, a um = ir ler, deve ler = que vai ler, Futuro que deve ler, para ler legitote legunto Passado legisse = ter lido Gerúndio Supino Gen. legendi = de ler lectum = para ler Dat. legendo lectu = de ler, por ler Abl. legendo = lendo Ac. (ad) legendum = (para) ler 3ª CONJUNGAÇÃO ATIVA (Fonte: http://pt.wikibooks.org). Tradução literal: “Louvam aquelas (coisas), mas lêem estas (coisas)!” 171 Morfologia dos verbos de 3ª conjugação Aula 15 Indicativo Subjuntivo capio= tomo capiam = tome capis capias capit capiat capimus capiamus capitis capiatis capiunt capiant capiebam = tomava caperem = tomasse capiebas caperes capiebat caperet capiebamus caperemus capiebatis caperetis capiebant caperent capiam = tomarei capies capiet capiemus capietis capient cepi = tomei, tenho tomado ceperim = tenha tomado cepisti ceperis cepit ceperit cepimus ceperimus cepistis ceperitis ceperunt ceperint ceperam=tomara, tinha tomado cepissem = tivesse tomado ceperas cepisses ceperant cepisset ceperamus cepissemus ceperatis cepissetis ceperant cepissent cepero = terei tomado ceperis ceperit ceperimus ceperitis ceperint Presente Futuro Imperfei- to Imperfeito Perfeito Mais-que- perfeito Futuro Anterior 3ª CONJUNGAÇÃO VOZ ATIVA CAPIO, IS, CEPI, CAPTUM, ERE 172 Fundamentos de Língua Latina VARIANTE DA 3ª ATIVA Imperativo Infinitivo Particípio cape = toma capere = tomar capiens, capientis Presente = que toma capite = tomai capito capturum, am, um esse capturus, a um = ir tomar, dever tomar = que vai tomar, Futuro que deve tomar, para tomar capitote capiunto Passado cepisse = ter tomado Gerúndio Supino Gen. capiendi = de tomar captum = para tomar Dat. capiendo captu = de tomar, por tomar Abl. capiendo = tomando Ac. (ad) capiendum = (para) tomar 173 Morfologia dos verbos de 3ª conjugação Aula 1515aula Indicativo Subjuntivo legor= sou lido legar = seja lido legeris legaris ou legare legitur legatur legimur legamur legunini legamini leguntur legantur legebar = era lido legerer = fosse lido legebaris ou legebare legereris ou legerere legebatur legeretur legebamur legeremur legebamini legeremini legebantur legerentur legar = serei lido legeris ou legere legetur legemur legemini legentur lectus, a um sum = fui lido lectus, a um sim = tenha sido lido lectus, a um es lectus, a, um sis lectus, a um est lectus, a, um sit lecti, ae, a sumus lecti, ae, a simus lecti, ae, a estis lecti, ae, a sitis lecti, ae, a sunt lecti, ae, a sint lectus, a um eram = fora ou lectus, a, um essem = tivesse tinha sido lido sido lido lectus, a, um eras lectus, a, um esses lectus, a, um erat lectus, a, um esset lecti, ae, a eramus lecti, ae, a essemus lecti, ae, a eratis lecti, ae, a essetis lecti, ae, a erant lecti, ae, a assent lectus, a, um ero = terei sido lido lectus, a, um eris lectus, a, um eris lecti, ae, a erimus lecti, ae, a eritis lecti, ae, a erunt Presente Futuro Imperfeito Imperfeito Perfeito Mais-que- Perfeito Futuro Anterior 3ª CONJUNGAÇÃO VOZ PASSIVA LEGOR, LEGI 174 Fundamentos de LínguaLatina Imperativo Infinitivo Particípio (legere) = sê lido legi = ser lido Presente (legimini) = sede lidos lectum iri = dever ser Futuro lido, ir ser lido (invariáriavel) Passado lectum, am, um esse = lectus, a, um = lido ter sido lido GERÚNDIO Legendus, a, um = deve ser lido 175 Morfologia dos verbos de 3ª conjugação Aula 153ª CONJUNGAÇÃO VOZ PASSIVA CAPIOR, CAPI 15aula Presente Futuro Imperfeito Imperfeito Perfeito Mais-que- Perfeito Futuro Anterior Indicativo Subjuntivo capior= sou tomado capiar = seja tomado caperis capiaris ou capiare capitur capiatur capimur capiamur capimini capiamini capiuntur capiantur capiebar = era tomado caperer = fosse tomado capiebaris ou capiebare capereres ou caperere capiebatur caperetur capiebamur caperemur capiebamini caperemini capiebantur caperentur capiar = serei tomado capieres ou capiere capietur capiemur capiemini capientur captus, a, um sum = fui tomado captus, a, um sim = tenho sido tomado captus, a, um es captus, a, um sis captus, a um est captus, a, um sit capti, ae, a sumus capiti, ae, a simus capti, ae, a estis capti, ae, a sitis capti, ae, a sunt capti, ae, a sint captus, a, um eram = fora ou captus, a, um essem = tivesse tinha sido tomado tomado captus, a, um eras captus, a, um esses captus, a, um erat captus, a, um esset capti, ae, a eramus capti, ae, a essemus capti, ae, a erantis capti, ae, a essetis capti, ae, a erant capti, ae, a essent captus, a, um ero = terei sido tomado captus, a, um eris captus, a, um erit capti, ae, a erimus capti, ae, a eritis 176 Fundamentos de Língua Latina Imperativo Infinitivo Particípio (capere) = sê tomado legi = ser lido Presente (capimini) = sede tomados captum iri = dever ser Futuro tomado, ir ser to- mado (invariáriavel) captum, am, um esse = captus, a, um = Passado ter sido tomado tomado Gerúndio capiendus, a, um = deve ser tomado CONCLUSÃO Esta aula vem reforçar o que já se disse sobre a complexidade dos verbos latinos. E olhe bem que aqui só estamos apresentando os verbos regulares. As difi culdades com os verbos irregulares são maiores, mas podem ser sanadas pelo conhecimento dos tempos primitivos, os quais, como você já sabe, compõem as informações necessárias para a percepção de um ou mais radicais que um mesmo verbo pode conter. O importante é sempre praticar exercícios, buscar nos dicionários verbos que sejam da mesma conjugação estudada e que, por isso, se en- quadram nos mesmos modelos. Com o tempo, a prática vai levando a uma assimilação consciente e muitas frases poderão ser trabalhadas, sobretudo se você tiver bom conhecimento das fl exões verbais do próprio português. Sempre recomendamos a mesma coisa: as tabelas foram elaboradas para serem manuseadas, consultadas até mesmo no instante das avaliações, pois estamos querendo tornar o conhecimento do latim uma coisa agradável, sendo importante muito mais que exercitar a memorização, aguçar o ra- ciocínio, trabalhar a lógica e tornar capaz a fl exão, em todas as modalidades possíveis de qualquer verbo da mesma conjugação. A esta altura, depois do contato com três conjugações latinas, você já está habilitado para exercitar frases que contemplem todas as possibilidades que as fl exões oferecem, sendo ainda mais perceptíveis as confi gurações de tempo, modo, pessoa, número, voz, assim como as formas nominais, que se assemelham às declinações dos substantivos e adjetivos. Só resta agora conhecer a 4ª conjugação (tema da aula 17) para você formar um juízo completo do que são as fl exões mais usuais dos verbos latinos. 177 Morfologia dos verbos de 3ª conjugação Aula 15RESUMO A 3ª conjugação muito se assemelha com a 2ª, pois ambas fazem o infi nitivo em ERE. A diferença está na localização da sílaba tônica, a qual, na 2ª conjugação é longa e na 3ª é breve. Os verbos desse grupo, assim como os das conjugações anteriormente estudadas, seguem modelo próprio aqui apresentado em tabelas mostrando todas as fl exões possíveis. Para tanto, foram escolhidos os verbos legere e capere, como poderiam ser utilizados quaisquer outros verbos do mesmo grupo. As pequenas particularidades nada possuem que interfi ra na essência das características comuns a ambos. É recomendável, porém, que você esta- beleça paralelos e reconheça as pequenas sutilezas que as duas modalidades apresentam, embora pertencentes à mesma conjugação. ATIVIDADES 1. Responda: a) Quais as características do infi nitivo dos verbos latinos para cada con- jugação? (Revisão). b) O que assemelha e diferencia as formas do infi nitivo de 2ª e 3ª conjuga- ções? Comente. (Revisão). c) Confi ra na tabela como se diz em latim: lerei/ eu leia; eu lia/ ele lia; aprenderei; aprendeste/ aprendestes/ foi lido; eram tomados. Justifi que. d) Pesquise na tabela a identifi cação completa (tempo, modo, pessoa, número e voz) de: deleamus, delevissetis, deleremini, delebuntur, deleti sumus, deleamur. (Revisão) e) Com base nos verbos dados por modelo (legere e capere), apresente as formas dos seguintes verbos de 3ª conjugação: aprenderemos (disco - discere); faziam (facio - facere); Que tu conduzas/ tu conduzirás (duco - ducere). 2. a) Explique a forma verbal da expressão latina CARPE DIEM (carpo, is, carpsi, carpitum, carpere = colher, aproveitar/ Dies, ei = dia). b) Transponha para o plural esta mesma expressão. 3. Identifi que nas tabelas de 2ª e 3ª conjugações as formas verbais que se substantivaram na língua portuguesa: agenda (ago, is, egi, actum, agere = agir), merenda (mereo, es, merui, mertitum, ere = merecer, ganhar), legenda (lego, is, legi, lectum, ere = ler), colendo (colo, is, colui, cultum, ere = cultivar, honrar). Explique o sentido dessas expressões no atual léxico português. 4. Transponha para o latim após reconhecer as funções sintáticas de cada termo da oração: a) A morte é o verdadeiro fi m de nossas vidas e destruirá nossas esperanças. b) Sempre vencerás as tuas dores com a grandeza do teu espírito. c) Os bons livros não serão lidos pelos alunos preguiçosos. Vocabulário Mors, mort is = morte/ Sum, es, fui , esse = ser/ Terminus, i = ter- mo, fim/ Vita, ae = vida/ Verus, a, um = verdadeiro, a/ Noster, nostra, um = nosso, a/ Et (conj.) = e/ Deleo, es, evi, etum, ere = destruir/ Spes, ei = esperança/ Semper (adv.) = sempre/ Vinco, is, vici, vic- tum, ere = vencer/ Magnus, a, um = magno, a; grande/ Dolor, doloris (M) = dor/ Tuus, a, um = teu, tua/ Cum (prep.) = com (rege ablativo)/ Magnitu- do, magnitudinis = 178 Fundamentos de Língua Latina COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES 1. Exercitando as tabelas dos verbos, mediante comutações, é possivel entender a variedade das formas. Os itens a e b encontram suas respostas na consulta ao conteúdo desta aula. Trata-se, apenas, de uma revisão do que foi exposto. Os itens c e d levam ao domínio progressivo das formas verbais em todas os seus aspectos. É um trabalho de consulta às tabelas, substituição das formas na perspectiva de trabalhar todos os tempos, modos etc. e, de acordo com o paradigma, usar qualquer verbo que se enquadra no modelo. 2. Compreendendo expressões latinas e modificando-as pela comutação, os itens a e b, retomam a proposta anterior a partir de uma expressão latina de amplo conhecimento, algo que pode ser feito com outras tantas expressões. 3. Compreendendo as marcas latinas no português mediante o uso do gerúndio, o exercício III retoma a prática de identifi car o latim na atualidade da língua protuguesa como já se tem feito em outros momentos deste curso. 4. Análise sintática e tradução. O exercício IV lida com a tradução do protuguês para o latim e, maisuma vez, renova-se a insistência pelo conhecimento seguro da análise sintática completado pela consulta às listas das declinações. PRÓXIMA AULA Na próxima aula, você conhecerá a morfologia dos advérbios e das preposições latinas, além de suas confi gurações no contexto das frases. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Marcos. Latim para todos. Aracaju: J. Andrade, 2007. ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. São Paulo: Saraiva, 1995. CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. FURLAN, Oswaldo Antônio. Latim para o português. Florianópolis: EDUFSC, 2006. GONZAGA, Maria Cristina de Brito. Frases de latim forense. São Paulo: Livraria de Direito, 1994. grandeza/ Spiritus, us = espírito/ Bo- nus, a, um = bom, boa/ Líber, libri = livro/ Non (adv.) = não/ A (prep.) = por, pelo, pela, pe- los, pelas/ Discipu- lus, i = discípulo, aluno/ Piger, pigra, um = preguiçoso, a. 179 Morfologia dos verbos de 3ª conjugação Aula 15LUIZ, Antônio Filardi. Dicionário de expressões latinas. São Paulo: Atlas, 2002. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do cérebro, 1999. SOARES, João S.. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. STOCK, Lco. Conjugação dos verbos latinos. Lisboa: Presença, 2000. WILLIAMS, Edwin B.. Do Latim ao português. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. VIARO, Mário Eduardo. Por trás das palavras. São Paulo: Globo, 2004. _________ Importância do latim na atualidade. Revista de ciências humanas e sociais. São Paulo: Unisa, v. 1, n. 1, p. 7-12, 1999. MORFOLOGIA DOS ADVÉRBIOS E DAS PREPOSIÇÕES META Apresentar os advérbios e as preposições latinas e o seu emprego no contexto das frases. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula o aluno deverá: reconhecer a morfologia dos advérbios e das preposições latinas e suas confi gurações no contexto das frases; identifi car o papel dos advérbios e das preposições na função de adjuntos adverbiais; distinguir preposições que regem ablativo e/ou acusativo, reconhecendo o signifi cado que imprimem na articulação com as palavras; associar as preposições latinas aos diversos prefi xos que contribuem para a formação das palavras tanto no latim quanto no português; e exercitar a comutação de prefi xos percebendo o signifi cado que as preposições imprimem, de modo especial, aos verbos. PRÉ-REQUISITOS Todas as aulas anteriores; revisão dos conceitos de adjunto adverbial e suas diferentes confi gurações. Aula 16 182 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO O latim, assim como o português, possui palavras invariáveis. A elas não se aplica o processo de conjugação com que são fl exionados os verbos e nem o processo de declinação com que são caracterizados os substantivos, adjetivos, pronomes, numerais ordinais e formas nominais dos verbos. As palavras invariáveis, portanto, não sofrem qualquer tipo de fl exão. Deste grupo de palavras fazem parte advérbios, preposições, conjunções e inter- jeições. Eles já vêm na forma pronta para serem usados nas frases. Por confi gurarem nas frases a função de adjunto adverbial, advérbios e preposições serão estudados numa mesma lição. O estudo das palavras assim classifi cadas é de muito mais fácil assimilação que o das palavras variáveis. As frases, porém, podem ser mais trabalhadas com a exploração dos adjuntos adverbiais, o que vai, certamente, conduzir as sentenças para o terreno das circunstâncias que envolvem a comunicação humana. Por esta razão, deve ser redobrado o cuidado daqui por diante, sendo imprescindível revisar os conceitos de tempo, modo, lugar, afi rmação, negação etc. viabilizados pelo emprego das palavras aqui estudadas. As abordagens iniciadas durante esta aula estarão sendo complementadas com o conhecimento posterior das conjunções, momento em que serão exploradas as confi gurações de coordenação e subordinação. (Fonte: http://www.enciclopedia.com.pt). 183 Morfologia dos advérbios e das preposições Aula 16ADVÉRBIOS E PREPOSIÇÕES Os advérbios latinos, assim como em português, são palavras que se justapõem aos verbos (Correr depressa ou apressadamente), aos adjetivos (sempre alegre) ou aos próprios advérbios (muito cedo). Normalmente, os advérbios não se juntam aos substantivos. Assim, se você encontrar frases do tipo: Maria é muito menina, saiba que o advérbio muito está, na verdade, dando intensidade ao adjetivo ameninada, do qual o substantivo assumiu o lugar. Alguns advérbios latinos podem ser considerados como palavras primitivas, independentes. Este é o caso dos advérbios de afi rmação sic e ita (assim), também empregados como advérbios de modo. É o caso também dos de negação non, ne e haud (não); de alguns advérbios de tempo, como ante (antes), post (depois), nunc (agora), olim (outrora), cras (amanhã), saepe (freqüentemente); ou de lugar, como ultra (além), supra (acima), infra (abaixo), circa (em torno de), prope (perto). Muitos desses advérbios funcionam também como preposições, adquirindo, neste caso, regência específi ca. Outra parte dos advérbios (de lugar, tempo, modo) é formada a partir de radicais nominais, aos quais se juntam sufi xos especiais, ou de duas ou mais palavras (variáveis ou não) justapostas ou aglutinadas. Alguns advérbios de lugar são formados com radicais de pronomes demonstrativos, mediante o acréscimo de uma partícula. Assim acontece com hic (aqui), cuja partícula se incorpora ao próprio pronome, de istic (aí) e de illic (ali). Outros equivalem ao ablativo de um pronome: alio (para outro lugar) e quo (para onde). Outros ainda apresentam radical de adjetivo e terminação equivalente ao que seria uma desinência nominal de palavras sem vogal temática: longe e late = longe. Alguns advérbios de tempo são formados com radicais de substanti- vos (noctu = de noite) ou de adjetivos (subito = subitamente); outros são formados pela justaposição de prefi xos a advérbios de lugar como adhuc (até agora) e abhinc (a partir de agora); de advérbios a pronomes, como postea (em seguida), de advérbios a substantivos, como quotannis (todos os anos) e pela aglutinação de pronomes a substantivos hodie < hoc die (hoje). Os advérbios de modo, em sua grande maioria, são formados por meio de radicais de adjetivos aos quais se anexa um elemento de valor sufi xal, tal como um, presente em verum (verdadeiramente) – na realidade uma termina- ção de acusativo singular neutro – o ou e, como se vê em falso (falsamente) ou docte (sabiamente) – terminações do ablativo singular. Como se disse anteriormente, advérbio é uma classe de palavra não declinável, mas nem por isso se dispensa o conhecimento das declinações, pois muitas formas atuais se fi xaram a partir de determinados casos. 184 Fundamentos da Língua Latina Há vários sufi xos formadores de advérbios de modo: -ter (vehementer = veementemente), -iter, (fortiter = fortemente) –itus( funditus = desde as fundações), - ito (fortuito = fortuitamente) –im (partim = em parte). Existem advérbios de modo que admitem comparativo e superlativo. Para construir o comparativo de superioridade, usa-se o prefi xo –ius (longius = mais longe); para os de igualdade e inferioridade, usam-se os advérbios tam e minus, que passam a formar perífrases com o advérbio em questão: tam forte (tão fortemente), minus forte (menos fortemente). Pela adjunção dos sufi xos –issime e –lime, constrói-se o superlativo de superioridade dos advérbios: fortissime (muito fortemente) e facilime (muito facilmente); o de inferioridade obtém-se por meio de perífrase contendo o advérbio minime: minime facile (o menos facilmente). Os advérbios de quantidade, magis (mais), minus (menos), multum (muito), nimis (excessivamente), paulo (pouco), satis (suficientemente) podem modifi car verbos ou adjetivos: Multum legebas (lias muito). Existem advérbios interrogativos entre os quais se destacam: ubi? (onde), unde? (de onde), quando? (quando), quandiu? (por quanto tempo), quomodo? (como), quid? (por quê), cur? (por quê), quin? (por que não), quan- tum? (quanto), quousque? (até quando). A interrogação latina também se expressa por meio de partículas que substituem os advérbios ou pronomes interrogativos. Tais partículas (ne, num) se unem às palavras ou aparecem isoladas e podem ser traduzidas por acaso, porventura ou simplesmente não ser traduzidas. Elas são uma espécie de reforço ou de alerta para que o leitor expresse o questionamento da frase: Legistine epistolam quam tibi scripsi? (Tu leste, por acaso, a carta que te escrevi?). Os advérbios são distribuídos segundo as circunstâncias que indicam, sendo as de maior destaque: 1. Lugar: Ubi = onde – emprega-se com verbos que indicam permanência, estar em. Unde = donde – emprega-se com verbos que indicam proveniência. Qua = por onde – emprega-se para indicar passagem por algum lugar. Quo = aonde – emprega-se com verbos que indicam movimento em direção para. Existe uma forma prática de guardar a correlação dos advérbios de lugar: onde, donde, por onde e para onde. 2. Tempo: Quotidie = todos os dias. Cras = amanhã. Deinde = depois, em seguida. Diu = por muito tempo. Dum = enquanto (durante o tempo em que). Heri = ontem. Hodie = hoje. 185 Morfologia dos advérbios e das preposições Aula 16Nunc = Agora. Postridie = no dia seguinte. Pridie = na véspera. Saepe = muitas vezes. Semper = sempre. Simul = ao mesmo tempo. 3. Modo: Bene = bem. Male = mal. Facile = facilmente. Diffi cile = difi cilmente. Fortiter = fortemente. Feliciter = felizmente. Prudenter = prudentemente. Quoque = também. Daqui por diante e após o conhecimento das preposições, todo o tra- balho consiste em elaborar frases que explorem as diversas circunstâncias pelas quais os advérbios respondem. PREPOSIÇÕES As preposições são palavras invariáveis que regem substantivos, palavras substantivadas ou pronomes, estabelecendo relação de dependência entre estes e outros elementos da oração. Segundo o próprio nome indica, é uma palavra posicionada antes de outra (pré + posição) e isso em latim implica que a palavra que vem depois dela, ou seja, o termo por ela regido, deve ser colocado no caso específi co que a preposição pedir. Assim, em latim se diz que as preposições podem reger somente acusativo ou somente ablativo ou, no caso de duas delas (in e sub), podem pedir os dois casos, mas indicam circunstâncias diferentes a depender do caso que estiverem regendo. Muitas preposições se tornaram prefi xos na língua portuguesa, amplian- do as possibilidades de signifi cado que as palavras podem apresentar. Assim, tomando, por exemplo, o verbo pôr, é possível perceber as variações que a comutação das preposições pode causar a uma mesma base, alterando-lhe o signifi cado, mudando a direção de um mesmo verbo: apor (ad = direção para)/ antepor (ante = perante)/ compor (cum = companhia)/ contrapor (contra = sentido contrário)/ depor (de = para baixo)/ expor (ex = para fora)/ impor (in = para dentro)/ interpor (inter = dentro de)/ justapor (juxta = ao lado de)/ opor (ob = diante de)/ pospor (post = depois de)/ repor (retro = para trás)/ supor (sub = abaixo de)/Transpor (trans= além de). Eis a relação das preposições que regem acusativo: 186 Fundamentos da Língua Latina Ad (para, a) – (no português, você tanto encontra adverso como en- contra avesso). Ante (perante) (anteparar > amparar). Apud (junto a) (expressão usada nas indicações bibliográfi cas de tra- balhos científi cos, quando se cita um autor com base em outra fonte que não ele próprio). Circa/ circum (ao redor de) (cercania, circunferência). Contra (contra) (contravenção). Erga (para com). Extra (fora de) (extraordinário). Infra (abaixo de) (infra-estrutura). Inter (entre) (interdisciplinar). Intra (dentro de) (intramuscular). Juxta (perto de) (justaposição). Ob (por causa de, diante de) (oblação/ oferta). Per (através de, por meio de) (percorrer). Post (depois de) (posteridade). Prope (perto de) (apropinquar). Propter (por causa de). Super (sobre, acima de) (superstição). Supra (sobre, acima de) (suprapartidário). Trans (além de) (translúcido, trasladar, traduzir, trespassar). 187 Morfologia dos advérbios e das preposições Aula 16Todas essas preposições pedem que as palavras por elas regidas sejam colocadas no acusativo. Essa afi rmação pode ser constatada em inúmeras expressões latinas em uso na língua portuguesa: Ad juditia Ad referendum Ante Christum Inter vivos Intra muros Per capita Post scriptum. Eis agora a relação das preposições que regem ablativo: A/ ab/ abs (por, afastamento de) (abdicar, abstenção). Coram (diante de). Cum (com) (condizente). De (a respeito de, para baixo) (depreciar). E/ ex (fora de) (evadir, exportar, esgotar). Prae (por causa de, antes de) (previdência). Pro (em favor de, em lugar de) (produzir, pronome). Sine (sem) (sincero). Essas preposições pedem que as palavras por elas regidas sejam coloca- das no ablativo. Como aconteceu com as preposições de acusativo no item precedente, você pode constatar essa afi rmação em inúmeras expressões latinas em uso pelos falantes do português, ou melhor, expressões consa- gradas pelo uso universal: Sine die Pro labore Ab initio A priori A posteriori Ab origine Ex offi cio As preposições in e sub podem apresentar regência nos dois casos, acusativo e ablativo. O signifi cado, porém, difere de um caso a outro. Um exemplo bem conhecido pode ilustrar essa afi rmação: In natura (regência de ablativo) = Lugar onde, na natureza. In memoriam (regência de acusativo) = lugar para onde, para a memória. Agora, a título de exercício, observando as expressões latinas, reconheça a regência da preposição IN e identifi que o seu signifi cado: In loco 188 Fundamentos da Língua Latina In altum In vitro Continuando o exercício, pesquise expressões latinas em que apareçam preposições e identifi que a sua regência e sig- nifi cado. Advérbios e preposições desempenham nas frases a função sintática de adjuntos adverbiais, porquanto servem para defi nir as diversas circunstâncias da ação e da vida humana. Tais ad- juntos podem vir expressos de diferentes formas: 1. Por um simples advérbio. Exemplo: As aulas começam agora. Neste caso, o adjunto adverbial é o próprio advérbio e, para traduzi-lo, basta colocar o advérbio na forma correspondente em latim, não havendo necessidade de determinar-lhe um caso, pois os advérbios não se declinam 2. Por uma preposição e seu complemento. Exemplo: Maria es- teve na escola. Neste caso, usa-se a preposição correspondente (IN), a qual, por designar uma circunstância de lugar onde, leva para o ablativo a palavra regida. Assim, a palavra escola terá a forma do caso ablativo. 3. Por uma oração. Exemplo: Maria fi ca doente quando chega o inverno. Trata- se aqui de uma oração subordinada temporal, cuja construção será feita com o auxílio de conjunção, assunto que será visto no momento oportuno. Conhecendo, portanto, os advérbios e as preposições com suas regên- cias específi cas, as frases latinas já podem ser mais elaboradas e, somados todos os recursos até aqui acumulados, os exercícios se tornam mais ricos. É preciso, porém, ter muita atenção e assegurar um raciocínio lógico e não esquecer de consultar o material do curso, bem como os dicionários e as gramáticas da língua latina. Observe a formação curiosa de algumas palavras do português oriun- das de combinações latinas, as quais contemplam advérbios, preposições, substantivos, adjetivos etc.: AGORA = (in) hac hora (nesta hora). HOJE = (in) hoc die (neste dia).ÁLIBI = al + ibi (outro aí). DIUTURNAMENTE = (diu = por muito tempo). PROCRASTINAR = (cras = amanhã) = adiar. HODIERNO = referente a hoje. POSTERGAR = (post = depois) = deixar o trabalho para depois. SATISFAZER = (satis = bastante) = fazer o bastante. APOSTILA = (ad + post + illa) = para depois destas coisas. 189 Morfologia dos advérbios e das preposições Aula 16CONCLUSÃO A morfologia dos advérbios e preposições, como, aliás, das palavras indeclináveis em geral, é facilitada pela forma única que a palavra possui, já pronta, portanto, para ser utilizada sem necessidade de recorrer às tabelas para uma confi guração de acordo com a função sintática, como aconteceu com substantivos e adjetivos. A preocupação maior é dominar a questão sintática e reconhecer os elementos das frases distribuídos em diferentes funções. As preposições serão sempre apresentadas com a indicação da regência específi ca e a con- sulta às tabelas continua sendo recomendada, razão pela qual não há o que amedrontar no estudo do latim. RESUMO Advérbios e preposições foram o tema desta aula. Trata-se de palavras indeclináveis e, por isso, dispensam a consulta à lista das declinações. As palavras destas classes já se encontram prontas para uso. O trabalho consiste em identifi car as circunstâncias que elas imprimem à linguagem funcionando na qualidade de adjuntos adverbiais. As preposições podem reger ablativo ou acusativo. Esta informação é sempre passada ao ser dada uma preposição. Basta ter o cuidado de dire- cionar a palavra por ela regida para o caso específi co. Muitas preposições entram como prefi xos na composição das palavras, sobretudo dos verbos, acrescentando-lhes direcionamento preciso. Você pode escolher certos verbos e substituir os prefi xos, percebendo a técnica de trabalhar os signifi cados pela comutação dos elementos. Este é um trabalho interessante que vem ampliar o conhecimento do vocabulário e o livre curso entre as palavras. ATIVIDADES 1. Responda: a) O que é um advérbio? Exemplo. b) O que se entende por modifi car quando se diz que uma palavra modifi ca outra? c) Quais são as classes de palavras que os advérbios costumam modifi car? Dê exemplos. d) O que é uma preposição? Exemplo. d) O que signifi ca dizer que as preposições latinas regem casos? Quais são esses casos? e) Cite exemplos de uma mesma preposição regendo dois casos. 190 Fundamentos da Língua Latina f) O que signifi ca a expressão ibidem, que aparece nas normas de citações bibliográfi cas? g) Como se confi guram os adjuntos adverbiais em latim? Dê exemplos. h) Redija três frases ou orações que exemplifi quem o advérbio muito modi- fi cando um adjetivo, um verbo e um advérbio. i) Diga cinco advérbios de modo em latim. II – Transponha para o latim após reconhecer as funções sintáticas de cada termo da oração: a) O bom mestre passeia agora nos belos jardins de Roma com os discípulos. b) Os homens sempre escreverão grandes livros sobre a amizade e sobre a velhice. c) Os grandes oradores excitam o povo contra as obras dos homens maus. d) Outrora, nos templos sagrados, os povos antigos imolavam homens aos grandes deuses em lugar de vítimas. Vocabulário: Bonus, a, um = bom, boa/ Magister, magistri = mestre/ Ambulo, as, avi, atum, are = passear/ In + ablativo = Em/ Nunc = agora/ Grossus, a, um = grosso, a/ grosseiro, a/ Modus, i = modo. Pulcher, pulchra, um = belo, a/ Hortus, i = jardim/ Roma, ae = Roma/ Cum + ablativo = com/ Discípulus, i = discípulo/ Homo, hominis = homem/ Semper = sempre/ Scribo, is, scripsi, scriptum, ere = escrever / Magnus, a, um = magno, a; grande/ Líber, Libri = livro/ De + ablativo = sobre, a respeito de/ Amititia, ae = amizade/ Senectus, senectutis = velhice. Orator, oratoris = orador/ Infl ammo, as, avi, atum are = excitar, infl amar/ Populus, i = povo/ Contra + acusativo = contra/ Opus, operis (N) = obra/ Improbus, a, um = mau, má/ Olim = outrora/ Templum, i = tempo/ Sacer, sacra, um = sagrado, a/ Antiquus, a, um = antigo, a/ Immolo, as, avi, atum, are = imolar/ Deus, dei = deus/ Pro + ablativo = em lugar de/ Victima, ae = vítima. 3. Recordando os adjuntos adverbiais, analise sintaticamente e identifi que as circunstâncias contidas nas expressões latinas que aparecem no contexto das frases: a) Grosso modo, é este o resumo do fi lme a que assisti. b) A pós-graduação stricto sensu ainda não foi reconhecida. c) O governador foi inspecionar as obras in loco. d) Quem te falou que o pro labore ia ser pago antes do Natal? e) A renda per capita dos brasileiros ainda é muito baixa. f) Se a reunião for adiada sine die, as pessoas perderão o estímulo. g) Depois de várias articulações inter muros, os parlamentares dobraram seus salários. Vocabulário: Strictus, a, um = restrito/ Sensus, us = senso, sentido. In + ablativo = em, no/ Locus, i = lugar. 191 Morfologia dos advérbios e das preposições Aula 16Pro + ablativo = em favor de/ Labor, laboris = trabalho, labor. Per + acusativo = por/ Caput, capitis (N) = cabeça. Sine + Ablativo = sem/ Dies, ei = dia. Inter + acusativo = entre/ Murus, i = muro. 4. Pesquise nos dicionários diferentes verbos aos quais se pode acrescentar sutilezas de signifi cado mediante a comutação dos prefi xos, que, na realidade, são as preposições aqui estudadas. Este processo pode ser exercitado tanto no latim quanto no português, a exemplo de PLICARE = dobrar A plicar(e) COM plicar(e) EX plicar(e) IM plicar(e) RE plicar(e) SU plicar(e) COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES 1. A resposta às questões aqui formuladas encontra-se nas exposições desta aula. Basta realisar os conteúdos teóricos. 2. A proposta da tradução segue os mesmos critérios dos execícios anteriores. 3. A comutação das preposições usadas com prefi xos, sobretudo nos verbos, vem evidenciar a sutileza de detalhes, algo que pode ser percebido em inúmeros verbos (admitir, transmitir etc.) O mesmo pode ser feito com substantivos (comissão - demissão - promissão - remissão etc.) Outras expressões latinas podem ser baseadas neste processo. 4. A pesquisa nos dicionários é de suma importância para o enriquecimento do léxico. 192 Fundamentos da Língua Latina ATIVIDADES A ilustração na página anterior contem várias expressões que revelam circunstâncias normalmente expressas por advérbios e preposições em latim e em português. Exemplo pós-graduação (a preposição pós (português) equivale à latina post. I - Busque outros exemplos. justifi que-os. II - Exercite a comutação usando outras palavras do anúncio. veja que exercício interessante! 193 Morfologia dos advérbios e das preposições Aula 16PRÓXIMA AULA Logo mais, você conhecerá a morfologia dos verbos de 4ª conjugação, quando será apresentada a fl exão de tais verbos nas vozes ativa e passiva. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. São Paulo: Saraiva, 1995. CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. GONZAGA, Maria Cristina de Brito. Frases de latim forense. São Paulo: Livraria de Direito, 1994. LUIZ, Antônio Filardi. Dicionário de expressões latinas. São Paulo: Atlas, 2002. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do cérebro, 1999. SOARES, João S.. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. VIARO, Mário Eduardo. Por trás das palavras. São Paulo: Globo, 2004. _________ Importância do latim na atualidade. Revista de ciências humanas e sociais. São Paulo: Unisa, v. 1, n. 1, p. 7-12, 1999. MORFOLOGIA DOS VERBOS DE 4ª CONJUGAÇÃO META Apresentar a fl exão dos verbos de quarta conjugação nas vozes ativa e passiva. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula o aluno deverá: distinguir os verbos latinos pela conjugação a que pertencem; aplicaras formas verbais em todas as suas confi gurações no contexto de pequenas frases latinas; exercitar a derivação verbal a partir do conhecimento das formas primitivas; reconhecer as características das conjugações estudadas mediante a comparação das formas no trato com um mesmo verbo e com outros da própria conjugação ou de conjugações diversas; e realizar exercícios de tradução, reconhecendo as marcas de tempo, modo, pessoa, número e voz. PRÉ-REQUISITOS Os mesmos pré-requisitos apontados no estudo dos verbos anteriormente estudados valem também para os verbos da 4ª conjugação. Além do mais, os assuntos que tratam da declinação dos nomes devem ser revistos seguramente. Aula 17 196 Fundamentos de Língua Latina INTRODUÇÃO Nesta altura, você, aluno de latim, já deve transitar com desenvoltura por todas as declinações e saber associá-las umas às outras, recorrendo aos substantivos e adjetivos como palavras de base para a realização das frases. O conhecimento dos advérbios e das preposições reforça consider- avelmente a qualidade das frases e amplia as possibilidades em torno das sentenças que podem ser trabalhadas, agora explorando, em grande parte, a questão dos adjuntos adverbiais. Insistimos na necessidade de realizar constantes associações entre os assuntos estudados, sempre buscando uma visão de conjunto e primando pelo raciocínio bem mais do que exercitando a memorização inconseqüente. A esta altura, a consulta aos dicionários, gramáticas e outros materiais de apoio vai-se tornando indispensável, até porque é impossível apresentar todas as palavras da língua ou explorar todas as confi gurações gramaticais. Habitue-se, pois, a um trabalho de consulta, pesquisa, refl exão, descobe- rta e verá como o estudo do latim se torna interessante e prático, revelando- se de grande utilidade para os trabalhos lingüísticos. VERBOS DA 4ª CONJUGAÇÃO A 4ª A conjugação é última da série de base sobre o conhecimento dos verbos latinos. Não existem, porém, grandes surpresas para quem já travou contato com as conjugações precedentes. Você vai perceber que a mesma estruturação se repete entre as conjugações, observadas apenas as particu- laridades de cada uma. 197 Morfologia dos verbos de 4ª conjugação Aula 17A marca da 4ª conjugação é a terminação do infi nitivo em IRE (audire = ouvir). Este verbo servirá de modelo nesta explanação e sempre reco- mendamos o mesmo processo: o acréscimo das mesmas desinências ao radical de qualquer outro verbo da mesma conjugação. Como se disse das conjugações anteriormente abordadas, através dos tempos primitivos, que sempre são dados pelos dicionários, é possível chegar- se a todas as confi gurações com que os verbos são caracterizados. Retome o texto introdutório das lições 7, 9, 12 e 15, referentes aos verbos esse (ser) e aos de 1ª, 2ª e 3ª conjugações. As mesmas observações valem para os de 4ª con- jugação, abordados nesta aula. Importa sempre conhecer, antes de qualquer trabalho com os verbos, os seus tempos primitivos. Neles estão contidas as particularidades que devem ser observadas para obter a totalidade das formas. A 4ª conjugação possui algumas semelhanças com a 3ª e você as per- ceberá comparando as tabelas. Temos mostrado nas aulas anteriores como é bastante simples o pro- cesso de fl exão dos verbos. Trata-se de algo prático e inteligente, sendo fundamental conhecer apenas um verbo da conjugação em apreço para, então, trabalhar qualquer outro da mesma espécie. Você não está obrigado a decorar fórmulas ou listas inteiras de tempos, modos etc. A memorização pode até acontecer por força do hábito, mas, em princípio, você apenas precisa saber consultar as tabelas, isolar os radicais e aplicar as desinências. Vamos, então, conhecer os verbos de 4ª conjugação, ou melhor, vamos nos familiarizar com as tabelas que mostram todas as possibilidades de ar- ticulação verbal nas vozes ativa e passiva. À 4ª conjugação latina pertencem os verbos cujo infi nitivo apresenta terminação em IRE (longo) AUD-IRE = ouvir (pronúncia: audíre). Eis ainda outras características desta conjugação: - a 1ª pessoa do singular do presente do indicativo termina em –io (audio). - a vogal característica da conjugação é i, que se conserva em todas as formas verbais. - as terminações do futuro imperfeito e do presente do subjuntivo são as mesmas da 3ª conjugação. A língua portuguesa não possui uma 4ª conjugação verbal. Por muito tempo, associou-se o verbo pôr (e seus derivados) a uma pretensa conjuga- ção cujo infi nitivo terminaria em or, segundo a ordem mesma das vogais. O latim, no entanto, desconhece terminação verbal em ore, não havendo, portanto, motivo para tirar tal conclusão. O verbo pôr, da língua portuguesa, é, na verdade, derivado de pónere, da 3ª conjugação latina, obedecendo ao seguinte processo evolutivo: ponere > poner > poer >pôr. Somente este verbo e seus derivados passaram por tal evolução. Aqui estão as tabelas contendo um paradigma da 4ª conjugação – vozes ativa e passiva: Pelo mesmo modelo são conjugados os verbos: Venire = vir (e deriva- dos)/ Custodire = guardar/ Partire = partir/ Finire = fi ndar/ Comperire = conhecer, descobrir etc. 198 Fundamentos de Língua Latina 4ª CONJUNGAÇÃO VOZ ATIVA AUDIO, IS, IVI, ITUM, IRE Indicativo Subjuntivo audio= ouço audiam = ouça audis audias audit audiat audimus audiamus auditis audiatis audiunt audiant audiebam = ouvia audirem = ouvisse audiebas audires audiebat audiret audiebamus audiremus audiebatis audiretis audiebant audirent audiam = ouvirei audies audiet audiemus audietis audient audivi = ouvi, tenho ouvido audiverim = tenha ouvido audivisti audiveris audivit audiverit audivimus audiverimus audivistis audiveritis audiverunt audiverint audiveram=ouvira, tinha ouvido audivissem = tivesse ouvido audiveras audivisses audiverat audivisset audiveramus audivissemus audiveratis audviissetis audiverant audivissent audivero = terei ouvido audiveris audiverit audiverimus audiveritis audiverint Presente Futuro Imperfeito Imperfeito Perfeito Mais-que- Perfeito Futuro Anterior 199 Morfologia dos verbos de 4ª conjugação Aula 174ª CONJUGAÇÃO ATIVA Imperativo Infinitivo Participio audi = ouve audire = tomar audiens, audientis Presente = que ouve audite = ouvi audito auditurum, am, um esse auditurus, a um = ir ouvir, dever ouvir = que vai ouvir, Futuro que deve ouvir, para ouvir auditote audiunto Passado audivisse = ter ouvido Gerúndio Supino Gen. audiendi = deouvir auditum = para ouvir Dat. audiendo auditu = de ouvir, por ouvir Abl.audiendo = ouvindo Ac. (ad)audiendum = (para)ouvir (Fonte: http://img365.imageshack.us). 200 Fundamentos de Língua Latina 4ª CONJUNGAÇÃO VOZ PASSIVA AUDIOR, AUDIRI Indicativo Subjuntivo audior= sou ouvido audiar = seja ouvido audiris audiaris ou audiare auditur audiatur audimuri audiamur audimini audiamini audiuntur audiantur audiebar= era ouvido audirer = fosse ouvido audiebaris ou audiebare audireris ou audirere audiebatur audiretur audiebamur audiremur audiebamini audiremini audiebantur audirentur audiar = serei ouvido audieris ou audiere audietur audiemur audiemini audientur auditus, a, um sum = fui ouvido auditus, a, um sim = tenha sido ouvido auditus, a, um es auditus, a, um sis auditus, a, um est auditus, a, um sit auditi, ae, a sumus auditi, ae, a simus auditi, ae, a estis auditi, ae, a sitis auditi, ae, a sunt auditi, ae, a sint auditus, a, um eram=fora ou tinha auditus, a, um essem = tivesse sido ouvido sido ouvido auditus, a, um eras auditus, a, um esses auditus, a, um erat auditus, a, um esset auditi, ae, a cramus auditi, ae, a essemus auditi, ae, a eratis auditi, ae, a essetisauditi, ae, a erant auditi, ae, a essent auditus, a, um ero = terei sido ouvido auditus, a, um eris auditus, a, um erit auditi, ae, a erimus auditi, ae, a, eritis auditi, ae, a erunt Presente Futuro Imperfeito Imperfeito Perfeito Mais-que- Perfeito Futuro Anterior 201 Morfologia dos verbos de 4ª conjugação Aula 17 Imperativo Infinitivo Particípio (audire) = sê ouvido audiri = ser ouvido Presente (audimini) = sede ouvidos auditum iri = dever ser Futuro ouvido, ir ser ou- vido (invariáriavel) auditum, am, um esse = auditus, a, um = Passado ter sido ouvido ouvido Gerúndio audiendus, a, um = deve ser ouvido CONCLUSÃO Depois desta aula, você já conhece um modelo de cada conjugação latina. A partir daí, é possível fl exionar qualquer verbo, desde que relacionado corretamente de acordo com a tabela que lhe convém. As difi culdades serão sanadas quanto maior for o número de exercícios realizados. Aos poucos, também, até a conjugação dos verbos irregulares estará sendo assimilada. Para chegar ao domínio seguro na aplicação dos verbos, é imprescindível tomar como ponto de partida as formas primitivas de cada verbo. Aqui se completa a confi guração das vozes ativa e passiva dos verbos regulares das quatro conjugações latinas. Esta apresentação ainda é bastante elementar, mas o sufi ciente para conceber e desenvolver a fl exão de qualquer verbo no contexto das frases. Como se disse, existem os verbos irregulares para os quais as formas primitivas facilitam o reconhecimento das variações nos radicais, sendo sempre iguais as fl exões de tempo, modo, pessoa, número e voz que se devem acrescentar a cada radical. Esteja sempre atento às tabelas, cultive o hábito de pesquisar em gramáticas e dicionários mesmo no momento das avaliações. O bom aluno de latim não é aquele que memoriza fórmulas, mas o que se torna capaz de refl etir, conceituar, associar e buscar as coisas no seu devido lugar, tendo sempre o cuidado de compreender a correlação entre o latim e o português. 202 Fundamentos de Língua Latina RESUMO A 4ª conjugação faz o infi nitivo em IRE, sendo, portanto, I a vogal temática que vai vigorar em todas as fl exões que o verbo comportar. As tabelas apresentadas dão conta de todas as fl exões possíveis. Im- porta saber realizar as substituições e circular seguramente por todos os tempos, modos, pessoas e números. As frases é que vão dizer a forma a ser buscada e nisto você perceberá a riqueza de detalhes que os verbos latinos comportam, demonstrando tanto mais habilidade quanto maior segurança possuir das conjugações em língua portuguesa. Dos dicionários você pode colher os tempos primitivos de qualquer verbo, mediante os quais as fl exões se processam naturalmente. A melhor forma de assimilação consiste em treinar muito, realizando comutações inteligentes em frases que contemplem todas as possibilidades a que o verbo está sujeito. Vá em frente, portanto! ATIVIDADES 1. Responda: a) Os verbos da 4ª conjugação latina como terminam no infi nitivo? Exemplo. b) Conjugue o verbo venire (vir) no presente do indicativo – voz ativa e passiva, acentuando com o máximo cuidado as sílabas tônicas. c) Conferindo na tabela, como se diz em latim: ouviam, ouviremos, ouvistes, ouça, ouvissem? Justifi que. d) Pesquise na tabela a identifi cação completa (tempo, modo, pessoa, número e voz) de: audiamus, audiemus, audimos, audivisti, audiverint e audivisset. e) Consultando as tabelas da 4ª conjugação, você vai perceber que, por duas vezes, aparecem as formas audiam (voz ativa) e audiar (voz passiva). Em que elas se assemelham e se diferenciam? 2. Traduza do latim após reconhecer as funções sintáticas de cada termo da oração: a) Tempus animi nostri magnos dolores leniet. b) Discipuli audientes praecepta magistrorum magnorum ab omnibus laudentur. c) Custodimus corpora nostra, custodiamus etiam spiritus et mentes. d) Propter fi lios nostros veniebamus in Romam. e) Audite, amici, exempla bona patrum vestrorum! f) Petrus et Paulus, discipuli sapientes, lectiones magnas et exempla bona magistri audiunt. Vocabulário: Tempus, temporis (N) = tempo/ i = Animus, i = ânimo, espírito/ noster, 203 Morfologia dos verbos de 4ª conjugação Aula 17nostra, um = nosso, a/ Magnus, a, um = magno, a; grande/ Dolor, doloris (M) = dor/ Lenio, is, lenivi, itum, ire = abrandar/ Discipulus, i = discípulo/ Audio, is, ivi, itum, ire = ouvir/ Praeceptum i = preceito, determinação/ Magister, magistri = mestre/ Laudo, as, avi, atum, are = louvar – voz passiva/ Ab (preposição + ablativo) = por/ Omnis, e = todo, a/ Custodio, is, ivi, itum, ire = guardar, cuidar/ Corpus, corporis (N) = corpo/ etiam = também/ Spiritus, us = espírito/ Mens, mentis = mente/ Propter (preposição + acusativo) = por causa de/ Filius, i = fi lho/ Venio, is, vivi, ventum venire = vir/ In (preposição + acusativo) = para/ Roma, ae = Roma. Amicus, i = amigo/ Bonus, a, um = bom, boa/ Exemplum, i = exemplo/ Pater, patris = pai/ Vaester, vestra, um = vosso, a. Petrus, i = Pedro/ Paulus. I = Paulo/ Sapiens, sapientis: sábio, a/ Lectio, lectionis = lição/ Exemplum, i = exemplo. COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES 1. Trabalhando as tabelas, é possível comentar formas e perceber sutilezas de detalhes na identificação das características verbais (tempo, modo, pessoa, voz etc.). Este exercício repete o que já foi feito anteriormente no estudo das outras conjugações. 2. A boa tradução latina é fruto da plena compreensão das funções sintáticas das palavras nas frases. PRÓXIMA AULA Na próxima aula, você conhecerá o mecanismo de fl exão dos pronomes. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. São Paulo: Saraiva, 1995. CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. GONZAGA, Maria Cristina de Brito. Frases de latim forense. São Paulo: Livraria de Direito, 1994. LUIZ, Antônio Filardi. Dicionário de expressões latinas. São Paulo: Atlas, 2002. 204 Fundamentos da Língua Latina MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do cérebro, 1999. SOARES, João S.. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. VIARO, Mário Eduardo. Por trás das palavras. São Paulo: Globo, 2004. ___________ Importância do latim na atualidade. Revista de ciências humanas e sociais. São Paulo: Unisa, v. 1, n. 1, p. 7-12, 1999. MORFOLOGIA DOS PRONOMES META Apresentar o mecanismo de fl exão dos pronomes e empregá-los corretamente no contexto das frases. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula o aluno deverá: descrever a morfologia dos pronomes latinos e sua funcionalidade no âmbito da sintaxe; identifi car os pronomes em sua variada classifi cação e em sua relação com palavras de outras classes; associar a fl exão dos pronomes à declinação dos nomes em geral, reconhecendo semelhanças e diferenças; e exercitar frases com variados exemplos do emprego de pronomes. PRÉ-REQUISITOS Conhecimento da declinação das palavras e das fl exões verbais. Revisão de análise sintática. Aula 18 206 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO Os pronomes desempenham um papel peculiar pela dupla função que exercem no plano semântico. São palavras variáveis que se fl exionam me- diante o processo de declinação, assim como ocorre com os substantivos e adjetivos. Muitas formas com que os pronomes se confi guram são exata- mente iguais às dos nomes, por isso o conhecimento das declinações muito contribui para perceber as fl exões pronominais. Apesar de tal semelhança, não se pode enquadrar todos os pronomes no sistema das declinações até aqui estudado, exceção feita aos possessivos, que, em todas as pessoas, seguem exatamentea confi guração dos adjetivos de 1ª classe: meus, a, um/ tuus, a, um/ suus, a, um/ noster, nostra, um/ vester, vestra, um. Para os outros pronomes, existem tabelas específi cas, embora tam- bém funcionem como adjuntos adnominais, função muito apropriada aos adjetivos. Você vai ter conhecimento das tabelas que dão conta das fl exões dos pronomes, mas sempre trabalhando na mesma perspectiva: consultar, com- parar, conferir sem grandes preocupações de memorização. (Fonte: http://www.cacarecos.fi les.wordpress.com) 207 Morfologia dos pronomes Aula 18PRONOMES A concepção de pronome, segundo indica a própria pa-forme se con- stata no exercício da língua: 1. PRONOME - designando a função adjetiva, exercendo papel de deter- minante que se põe ao lado de (PRO = ao lado de, em favor de), ou seja, ao lado do nome a fi m de reforçá-lo tal como fazem os adjetivos no âmbito das frases. Em português, usando a mesma conceituação, costuma-se dizer: campanha pro natal das crianças, no sentido de dar apoio. Sintaticamente, nesta acepção, os pronomes, da mesma forma que os adjetivos, funcionam como adjuntos adnominais. Nesta função sintática, os pronomes adjetivos concordam em gênero, número e caso com o sub- stantivo ao qual se ligam. Na frase: ESTE LIVRO É MEU LIVRO, aparecem as formas pronomi- nais este e meu, uma demonstrativa e outra possessiva, respectivamente. Ambas, não tendo dispensado o substantivo livro, ao qual determinam, funcionam como pronomes adjetivos e sintaticamente como adjuntos adnominais de livro. O latim os denomina de adjetivos possessivos, de- monstrativos etc., terminologia outrora também adotada pelo português. Estabeleça o paralelismo de signifi cado entre as frases: a) Bom livro é livro caro. (adjetivos – ao lado dos nomes – adjuntos ad- nominais) b) Este livro é livro meu. (pronomes adjetivos – ao lado dos nomes – ad- juntos adnominais) Repetindo o que já se disse, em ambos os casos, tem-se a função sintática de adjuntos adnominais e, assim, adjetivos e pronomes adjetivos devem concordar em gênero, número e caso com os substantivos a que se ligam. 2. PRONOME - designando a função substantiva e tomando o lugar do próprio nome: aqui o pronome substitui o nome e se põe em lugar de (PRO = em lugar de), ou seja, em lugar do nome, dispensando-o da frase, pois, como fazem os substantivos, eles designam alguma coisa, são a própria coisa. Exemplo disso é o termo profeta, o que fala em lugar de. Sintaticamente, nesta acepção, os pronomes, da mesma forma que os substantivos, porque designam os seres, podem assumir qualquer função sintática: sujeito, predicativo do sujeito, objeto direto, agente da passiva etc. Pelos exemplos a seguir, vai-se constatar que tais pronomes dispensam o nome e a eles remetem sem que estes estejam presentes. Na frase: ESTE LIVRO É MEU LIVRO, os pronomes adjetivos vão-se transformar em pronomes substantivos de várias maneiras: a) Este é meu livro (este, dispensando o substantivo, assumiu o lugar dele e virou pronome substantivo, tornando-se o sujeito da frase, função ante- riormente assumida por livro). b) Este livro é meu (agora foi meu que realizou o processo anterior e pas- 208 Fundamentos da Língua Latina sou sintaticamente a exercer a função de predicativo do sujeito que era assumida por livro). c) Este é meu (os dois pronomes se tornaram substantivos, pois o sub- stantivo livro foi dispensado em ambos os casos e a função de sujeito e predicativo do sujeito é assumida pelo pronome). Assim, toda vez que toma o lugar do nome confi gura-se o pronome substantivo. O latim o denomina simplesmente de pronomes possessivos, demonstrativos etc., terminologia outrora também adotada pelo português, como já se disse. Tais princípios são básicos para reconhecimento do papel desempen- hado pelos pronomes. Para decliná-los, porém, importa consultar as listas específi cas. Dos possessivos já se ressaltou que possuem as mesmas fl exões dos adjetivos de 1ª classe. Os outros pronomes apresentam muitas formas iguais às das declinações dos nomes, mas é necessário conhecer cada tabela. O difícil seria exigir-se de você uma memorização rápida e incondicional como ainda se faz muito nos cursos de latim que por aí vigoram. Não que- remos formar repetidores; queremos, sim, desenvolver o hábito da consulta, da comparação, da pesquisa e, sobretudo, do raciocínio lógico. A classifi cação dos pronomes é muito vasta, mas tentaremos apresentar, embora de forma bastante esquemática, as subclasses e suas particularidades. PRONOMES PESSOAIS Tais pronomes indicam a pessoa do discurso como sempre se ensinou em português: a pessoa que fala (1ª), a pessoa com quem se fala (2ª) e a pessoa de quem se fala (3ª). Em latim eles são desnecessários em sua forma subjetiva, pois não se costuma conjugar os verbos com os pronomes já que as desinências pessoais são bem marcadas nas formas verbais. São, porém, enfáticos, expressivos. Enquanto complemento verbal, os pronomes pes- soais desempenham seu papel gramatical. Possuem declinação própria e a primeira pessoa do singular apresenta raízes diferentes no nominativo e nos demais casos. Observe a fl exão dos pronomes pessoais: As formas verbais não costumam aparecer com o pronome pessoal: Cogito, ergo sum. ([Eu] penso, logo [eu] existo – Descartes). Raramente, é possível encontrá-los associados aos verbos: Ego sum pastor bonus (Eu sou o bom pastor – Jesus). As 1ª e 2ª pessoas não possuem o vocativo. Às vezes, quando se quer reforçar o discurso, o vocativo pode aparecer, sendo a sua forma igual à do nominativo. O vos omnes qui transitis per viam...(Ó vos todos que passais pelo caminho – Lamentações – Bíblia). As formas do ablativo construídas com a preposição cum, traduzindo os adjuntos adverbiais de companhia, usam colocar a preposição após o 209 Morfologia dos pronomes Aula 18pronome: mecum, tecum, secum, nobiscum, vobiscum, em lugar de cum me, cum te, cum se, cum nobis, cum vobis, como era de se esperar. O por- tuguês, curiosamente, constrói esta modalidade de pronomes deixando duas vezes a preposição com, antes e depois dos pronomes: comigo, contigo, consigo, conosco, convosco. Será que não bastaria dizer com nós ou nos co(m)? São as idiotices da língua; idiotices no verdadeiro sentido, coisas próprias, particularidades. Um resquício das declinações latinas pode ser visto nas formas atuais dos pronomes pessoais em português. Como acontece no latim, EU é forma que só traduz a função do sujeito; MIM só traduz o objeto indireto e assim por diante. Por isso, a língua culta não aceita expressões como Maria matou eu de raiva ou Maria mim matou de raiva, pois, na função de objeto direto que a frase expressa, a forma do pronome de 1ª pessoa no singular é me. Logo, deve-se dizer: Maria matou-me ou me matou de raiva. EXERCÍCIO - Os pronomes pessoais podem ser vistos em muitas expressões latinas ainda em pleno uso pelos falantes de outras línguas, que os incorporam em seus discursos, a exemplo de: VADE MECUM HODIE MIHI, CRAS TIBI. (Expressão colocada em muitos cemi- térios) TU QUOQUE, FILI MI, BRUTE? MISERERE NOSTRI ou NOBIS. ORA PRO NOBIS. DOMINUS TECUM. MEMENTO MEI, QUIA NON OBLIVISCAR TUI. QUI NOM EST MECUM CONTRA ME EST. TE DEUM LAUDAMUS Pesquise o signifi cado de cada expressão e procure enquadrá-las em frases da língua portuguesa. 210 Fundamentos da Língua Latina 2ª Pessoa 3ª Pessoa Nominativo Ego Eu Genitivo Mei De mim Singular Dativo Mihi Me, a, para mim Acusativo Me Me Ablativo Me Por, em, sem...mim Nominativo Nos Nós Genitivo Nostrum e nostri De nós Plural Dativo Nobis Nos, a, para nós Acusativo Nos Nos Ablativo Nobis Por, em, sem...nós Nominativo Tu Tu Genitivo Tui De ti Singular Dativo Tibi Te, a, para ti Acusativo Te Te AblativoTe Por, em, sem...ti Nominativo Vos Vós Genitivo Vestrum e Vestri De vós Plural Dativo Vobis Vos, a, para vós Acusativo Vos Vos Ablativo Vobis Por, em, sem... vós Genitivo Sui De si Singular Dativo Sibi se, a, para si e Acusativo Se Se Plural Ablativo Se Por, em...si PRONOMES POSSESSIVOS Essa modalidade de pronomes, conforme se disse acima, declina-se segundo o modelo dos adjetivos de 1ª classe: Meus, a, um = 1ª pessoa; Tuus, a, um = 2ª pessoa; Suus, a, um 3ª pessoa. Em latim é preciso ter cuidado para não confundir o emprego da 3ª pessoa aplicada à pessoa com quem se fala (2ª pessoa), construção muito 211 Morfologia dos pronomes Aula 18freqüente em português, devido ao uso de você. Em português, portanto, pode ser ambígua a frase: Eu vi João com a sua noiva. O interlocutor pode fi car na dúvida: a noiva de quem? Dele João ou minha com quem se está falando? Em latim esta confusão não existe: seu, sua sempre se referem à 3ª pessoa, logo, na frase acima, a referência será unicamente à noiva dele, de João. A confi guração latina também acontece em outras línguas românicas, a exemplo do francês. PRONOMES DEMONSTRATIVOS Os pronomes demonstrativos servem para indicar, mostrar as pessoas do discurso. Eles modifi cam ou substituem os substantivos indicando a posição do ser a que se referem em relação às pessoas do discurso, tal como se dá em português: perto da 1ª pessoa ou proximidade temporal e local = Hic, haec, hoc; próximo da 2ª pessoa e às vezes usado com sentido pejorativo = iste, ista, istud; e próximo da 3ª pessoa ou mostrando distanciamento da 1ª e da 2ª = ille, illa, illud. A declinação desses pronomes como dos outros que a seguir serão apresentados obedece a uma confi guração específi ca. É claro que muitas formas vão, imediatamente, fazer lembrar a declinação dos substantivos e adjetivos, mas existem muitas particularidades que dizem respeito unica- mente à fl exão dos pronomes. Capa revista (Fonte: http://fesmippb.org.br). 212 Fundamentos da Língua Latina Pesquise: o que é um “Vade mecum” para determinados profi ssionais? (Advogados, médicos, padres etc.) Eis como são declinados: HIS, HAEC, HOC = Este, esta, isto. Nominativo Hi Hae Heac Genitivo Horum Harum Horum Dativo His His His Acusativo Hos Has Haec Ablativo His His His Masculino Feminino Neutro Nominativo Hic Haec Hoc Genitivo Huius Huius Huius Dativo Huic Huic Huic Acusativo Hunc Hanc Hoc Ablativo Hoc Hac Hoc Singular Plural Nominativo Isti Istae Ista Genitivo Istorum Istarum Istorum Dativo Istis Isti Isti Acusativo Istos Istas Ista Ablativo Istis Istis Istis Nominativo Iste Ista Istud Genitivo Istius Istius Istius Dativo Isti Isti Isti Acusativo Istum Istam Istud Ablativo Isto Ista Isto Singular Plural Masculino Feminino Neutro ISTE, ISTA, ISTUD = Esse, essa, isso. O caso vocativo não é usado como em português, não faz sentdio construir frases do tipo: O’ este menino, vem cá! 213 Morfologia dos pronomes Aula 18 Ruinas (Fonte: http://fesmippb.org.br). ILLE, ILLA, ILLUD = Aquele, aquela, aquilo. Nominativo Illi Illae Illa Genitivo Illorum Illarum Illorum Dativo Illis Illis Illis Acusativo Illos Illas Illa Ablativo Illis Illis Illis Nominativo Ille Illa Illud Genitivo Illius Illius Illius Dativo Illi Illi Illi Acusativo Illum Illam Illud Ablativo Illo Illa Illo Singular Plural Masculino Feminino Neutro 214 Fundamentos da Língua Latina Ao lado desses pronomes, costuma-se classifi car como demonstrativo o anafórico is, ea, id (este, esta, isto), empregado freqüentemente na função de pronome pessoal de terceira pessoa (ele, ela) ou em associação com o relativo qui, quae, quod em expressões como is qui = aquele que, quem. O tempo e a freqüência de uso é que darão o pleno domínio das formas e a total segurança no momento de empregá-los. Mais uma vez, o aluno deverá constantemente consultar as tabelas e também compará-las entre si. IS, EA, ID = Este, esta, isto. Masculino Feminino Neutro Nominativo Is Ea Id Genitivo Eius Eius Eius Dativo Ei Ei Ei Acusativo Eum Eam Id Ablativo Eo Ea Eo Nominativo Ei Eae Ea Genitivo Eorum Earum Eorum Dativo Eis Eis Eis Acusativo Eos Eas Ea Ablativo Eis Eis Eis Singular Plural 215 Morfologia dos pronomes Aula 18IDEM, EADEM, IDEM = O mesmo, a mesma, o mesmo. Nominativo Eidem Eaedem Eadem Genitivo Eorundem Earundem Eorundem Dativo Eisdem Eisdem Eisdem Acusativo Eosdem Easdem Eadem Ablativo Eisdem Eisdem Eisdem Nominativo Idem Eadem Idem Genitivo Eiusdem Eiusdem Eiusdem Dativo Eidem Eidem Eidem Acusativo Eundem Eandem Idem Ablativo Eodem Eadem Eodem Masculino Feminino Neutro Singular Plural Nominativo Ipse Ipsa Ipsum Genitivo Ipsius Ipsius Ipsius Dativo Ipsi Ipsi Ipsi Acusativo Ipsum Ipsam Ipsum Ablativo Ipso Ipsa Ipsa Nominativo Ipsi Ipsae Ipsa Genitivo Ipsorum Ipsarum Ipsorum Dativo Ipsis Ipsis Ipsis Acusativo Ipsos Ipsas Ipsa Ablativo Ipsis Ipsis Ipsis Singular Plural Masculino Feminino Neutro IPSE, IPSA, IPSUM = O próprio, a própria, o próprio. 216 Fundamentos da Língua Latina PRONOMES RELATIVOS Os pronomes relativos são muito empregados em português. Até reco- mendam os gramáticos que sejam refeitas as frases que apresentam o uso excessivo do que. Por outro lado, os professores demasiadamente apegados às regras gramaticais se deleitam cobrando dos alunos o conhecimento completo das funções do que, tema que já fez muita gente considerar in- tragável a língua portuguesa. O tema do relativo que tornou-se complexo porque, na passagem do latim para o português, todas as formas do singular e do plural que a declinação dos relativos comportava foram reduzidas a uma só: que. Em outras palavras: o latim possuía formas do que para cada gênero, número, caso, coisa que o português simplifi cou: O menino que surgiu aqui (em latim = qui – masculino, singular, sujeito)/ A menina que surgiu aqui (em latim = quae - feminino, singular, sujeito)/ O exemplo que surgiu aqui (em latim = quod – neutro, singular, sujeito). O menino que eu vi aqui (em latim = quem – masculino, singular - ob- jeto direto)/ A menina que eu vi aqui (em latim = quam – feminino, singu- lar, objeto direto)/ O exemplo que eu vi aqui (em latim = quod – neutro, singular, objeto direto). E assim por diante. Você pode observar que em português a forma que é a mesma para todas as frases, ainda que ocorram variações de gênero, número ou função sintática. Continue o exercício, construindo frases em português que contem- plem o relativo que em diferentes gêneros, números e funções sintáticas, identifi cando, ao mesmo tempo, a forma latina correspondente para cada variação que você construir. Desta forma, todas as possibilidades dos rela- tivos podem ser visualizadas e você perceberá com maior clareza como o latim concebe este tipo de pronome no exercício da língua. Assim você estará percebendo, igualmente, as confi gurações sintáticas dos relativos na língua portuguesa. São muito freqüentes os apagamentos das funções sintáticas do relativo que, sobretudo no exercício da oralidade em frases do tipo: A rua que eu moro/ A pessoa que eu me casei/ O menino que a mãe morreu/ As patroas que eu trabalhei nas casas...etc. 217 Morfologia dos pronomes Aula 18Conferindo a tabela da fl exão dos relativos, IDENTIFIQUE como seria cada um desses que em latim e JUSTIFIQUE a sua resposta. CONSTRUA outros exemplos. Agora veja a declinação desses pronomes: QUI, QUAE, QUOD = O qual, a qual, o qual. Nominativo Qui Quae Quae Genitivo Quorum Quarum Quorum Dativo Quibus Quibus Quibus Acusativo Quos Quas Quae Ablativo Quibus Quibus Quibus Nominativo Qui Quae Quod GenitivoCuius Cuius Cuius Dativo Cui Cui Cui Acusativo Quem Quam Quod Ablativo Quo Qua Quo Masculino Feminino Neutro Singular Plural Embora haja outros pronomes relativos em latim, o mais freqüente e comum é qui, quae, quod, assim como se mostrou na tabela acima. Em estudos posteriores, você pode completar em qualquer gramática latina o conhecimento deste assunto e de outros, os quais o curto espaço destas aulas não permitiu esgotar. PRONOMES INTERROGATIVOS Assim como aconteceu com os relativos, o pronome interrogativo concorda inteiramente com o substantivo. As formas também em muito se assemelham, o que reduz as difi culdades no trato com eles. Observe a declinação dos interrogativos, comparando-a com os rela- tivos contemplados na tabela acima: QUIS, QUAE, QUID = Quem, que? 218 Fundamentos da Língua Latina Nominativo Quis Quae Quid Genitivo Cuius Cuius Cuius Dativo Cui Cui Cui Acusativo Quem Quam Quid Ablativo Quo Qua Quo Nominativo Qui Quae Quae Genitivo Quorum Quarum Quorum Dativo Quibus Quibus Quibus Acusativo Quos Quas Quid Ablativo Quibus Quibus Quibus Singular Masculino Feminino Neutro Plural PRONOMES INDEFINIDOS Os mais freqüentes dos indefi nidos são quis, quae (ou qua), quid (alguém), cuja declinação é exatamente igual à do interrogativo, e aliquis, aliqua, alquid (alguém), composto do primeiro. Outros indefi nidos existem dos quais não faremos menção neste curso. Como já se disse, na medida em que a necessidade de aprofundamento se fi zer necessária, você terá às mãos os recursos que remetam à pesquisa. Importante é trabalhar pequenas frases, reconhecer as formas associadas às funções sintáticas e realizar vários exercícios, nos quais se enquadrem todos os assuntos já vistos. 219 Morfologia dos pronomes Aula 18CONCLUSÃO O estudo dos pronomes vem completar os conhecimen-tos sobre a fl exão das palavras variáveis, embora os pronomes não se enquadrem per- feitamente nas tabelas destinadas aos substantivos e adjetivos. As tabelas referentes a cada modalidade de classifi cação garantem o emprego seguro das formas, sempre associadas à função sintática desem- penhada pelos pronomes no contexto das frases. Sendo o latim uma língua sintética, os pronomes muito contribuem para tornar as sentenças mais curtas e mais precisas, reforçando os nomes ou evitando repetições desnecessárias e, até mesmo, embelezando-lhes o estilo e ressaltando a riqueza da língua. Como sempre acontece com as palavras variáveis latinas, as listas de declinações são inevitáveis, mas, na perspectiva que se vem imprimindo a este curso, é preciso afastar toda sorte de impacto e até de certo terrorismo que, infelizmente, ainda caracteriza o estudo do latim. Não se constitui nenhum defeito ou atraso insistir na necessidade de o aluno familiarizar-se com a consulta às tabelas, dicionários, gramáticas e manuais. O assunto referente aos pronomes pode ser encontrado com muita propriedade nesses compêndios. RESUMO A morfologia dos pronomes, não resta dúvida, é bastante complexa, mas nada que bloqueie o acesso ao pleno domínio do assunto. Você já deve ter percebido que a grande difi culdade para o estudo do latim não reside no próprio latim, mas na defi ciência de compreensão da própria língua portuguesa. Os pronomes possuem classifi cações diversas, mas elas são as mesmas a que estamos habituados no estudo do português. Para iniciar, quem domina os conceitos básicos em português já está a caminho da compreensão do próprio latim: possessivos, demonstrativos, relativos etc. O que signifi ca esta terminologia que o português herdou do latim? Parte da morfologia dos pronomes (os possessivos) segue exatamente a declinação dos adjetivos de 1ª classe. E este assunto já foi plenamente contemplado nas aulas anteriores. Os outros pronomes (os relativos, in- defi nidos etc.) possuem confi guração própria, mas nada que esteja inteira- mente distante das declinações dos nomes. Um trabalho comparativo vai comprovar esta afi rmação e afastar ainda mais o fantasma da complexidade. Até os pronomes pessoais, que apresentam características bem mar- cantes, aqui e ali se aproximam do plano geral das declinações latinas. Enfi m, as listas estão aí. Utilize-as a todo tempo. 220 Fundamentos da Língua Latina ATIVIDADES 1. Responda: a) O que diferencia as funções adjetiva e substantiva dos pronomes? Ex- emplo. b) Sintaticamente, como se comportam os pronomes sendo eles adjetivos ou substantivos? Apresente exemplos bastante ilustrativos. c) O que signifi cam as diferenças formais do pronome pessoal: MEI/ MIHI/ ME? Dê exemplos com frases do português para cada uma dessas formas. Justifi que. d) Como se dizem em latim os pronomes pessoais contidos nas expressões: para ti/ sem ti/ de nós? JUSTIFIQUE. e) Como o latim trabalha a preposição com (cum + ablativo) associada aos pronomes pessoais? Exemplo. f) Explique a morfologia dos pronomes demonstrativos a partir da prox- imidade do locutor para com as pessoas do discurso. g) Comparando as tabelas das declinações dos substantivos e adjetivos com as tabelas de declinação dos pronomes, identifi que as formas semelhantes. h) Como o latim articula o pronome relativo que? Na passagem para o português, o que houve com a confi guração deste pronome? 2. Pesquise o signifi cado dos pronomes nas seguintes expressões latinas que aparecem inseridas nas frases da língua portuguesa. Justifi que: - Antes de começar a reunião, Pedro foi designado secretário ad hoc. - Vou te repetir ipsis litteris o que eu ouvi. - Como pensas terminar a casa se não tens os cum quibus? - A fala dele é um verdadeiro qui pro quo. - A honestidade é condição sine qua non para a seriedade na política. - Se os ricos mantêm o status quo, como pode o país crescer? 3. Reconheça as formas latinas do pronome relativo que nas seguintes frases do português. Justifi que. a) O livro a que me referi está esgotado. b) Nas noites em que não durmo prefi ro ver televisão. c) O homem que eu vi estava perdido na praça. d) A vida que eu levo não é fácil. PRÓXIMA AULA Na próxima aula, o assunto a ser discutido compreende o emprego das conjunções e interjeições. 221 Morfologia dos pronomes Aula 18REFERÊNCIAS ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. São Paulo: Saraiva, 1995. CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. GONZAGA, Maria Cristina de Brito. Frases de latim forense. São Paulo: Livraria de Direito, 1994. LUIZ, Antônio Filardi. Dicionário de expressões latinas. São Paulo: Atlas, 2002. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do cérebro, 1999. SOARES, João S.. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. VIARO, Mário Eduardo. Por trás das palavras. São Paulo: Globo, 2004. ___________ Importância do latim na atualidade. Revista de ciências humanas e sociais. São Paulo: Unisa, v. 1, n. 1, p. 7-12, 1999. CONJUNÇÕES E INTERJEIÇÕES META Apresentar o emprego das conjunções latinas no processo de coordenação e subordinação em que as frases se constroem e as interjeições latinas. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula o aluno deverá: identifi car a morfologia das conjunções e sua funcionalidade na construção das frases latinas; reconhecer a importância do processo de coordenação e subordinação na elaboração das sentenças; defi nir a função sintática das orações subordinadas para as quais contribuem as diferentes conjunções como cláusula adverbial ou substantiva; distinguir as circunstâncias que envolvem a comunicação e elaborar textos pertinentes; e conhecer as interjeições e o seu efeito nas frases latinas. PRÉ-REQUISITOS Conhecimento acumulado dos temas estudados. Noções de análise sintáticae revisão de orações coordenativas e subordinativas. Aula 19 224 Fundamentos da Língua Latina CONJUNÇÕES E INTERJEIÇÕES As conjunções marcam as condições de coordenação e subordinação entre as idéias. Existe uma lista bastante signifi cativa de palavras desta classe que podem expressar mais de uma circunstância tanto no latim como no português. Um exemplo disso é a conjunção como. Perceba a diferença semântica que imprime às frases a depender da combinação com a forma verbal: Ele age como costumam agir as crianças. (conformidade) Como estava doente, cancelou todos os seus compromissos. (causa) Conjunção Esta palavra latina tem o seu corre- spondente na língua grega: SÍNDETO. As orações que contêm conjun- ções são chamadas de SINDÉTICAS. Sem as conjunções visivelmente ex- pressas, as orações d e n o m i n a m - s e ASSINDÉTICAS e se, pelo contrário, possuem mais de uma conjunção, as orações são chama- das de POLISSIN- DÉTICAS. Essas modalidades são comuns no latim e no português. INTRODUÇÃO As conjunções são palavras invariáveis que servem para conectar pa- lavras ou orações. Grande parte das dis-cussões em torno da elaboração textual passa pelo estudo das conjunções. Existe uma lógica que perpassa o conhecimento destas partículas para o perfeito encadeamento das idéias, para cuja compreensão é indispensável saber articular conjunções e tem- pos verbais. Desta articulação melhor se evidenciam as circunstâncias que envolvem as expressões da linguagem em todas as modalidades exigidas no exercício da língua. As interjeições, embora não interfi ram na questão sintática das frases, merecem algumas observações nesta aula, uma vez que também se en- quadram no léxico latino. 225 Conjunções e interjeições Aula 19Vejam como Maria anda. (modo) Como um cordeiro, ele não protesta nem reage. (comparação). Os estudos de coerência textual exploram por demais as sutilezas de signifi cado que as conjunções podem acrescentar à linguagem. Além do mais, elas são vistas como elementos de ligação e encadeamento para ga- rantir a lógica do discurso. Um estudo mais amplo das conjunções latinas destina-se a quem pre- tende aprofundar-se no conhecimento da língua e para isso existe biblio- grafi a vasta. Trata-se de uma exploração complexa, pois as sentenças mais difíceis da língua latina trazem as conjunções no seu âmbito, sobretudo as que executam a subordinação. Apesar da difi culdade, torna-se fascinante perceber os indicativos de causa, fi nalidade, concessão, condição, confor- midade etc. que as conjunções podem evidenciar e, como se disse acima, algumas conjunções podem imprimir efeitos diversos à linguagem. Experimente identifi car na língua portuguesa os efeitos diversos de certas conjunções e identifi car as formas verbais que participam destas alterações. Aqui apresentamos, sucintamente, o quadro das conjunções latinas. CONUNÇÕES COORDENATIVAS a) Copulativas (aditivas): et, ac, que, atque com o signifi cado de e. A partícula que é acrescentada no fi nal de uma palavra e unida a ela. Assim, tanto faz dizer Petrus et Paulus ou dizer Petrus Paulusque. Este recurso é muito comum na linguagem poética. b) Disjuntivas (alternativas): aut, vel, ve, sive, seu com o signifi cado de ou. c) Adversativas: at, sed, verum, tamen com o signifi cado de mas. d) Explicativas: nam, namque, enim com o signifi cado de com efeito. e) Conclusivas: ergo, igitur com o signifi cado de portanto. Observe algumas conjunções coordenadas em expressões conhecidas: - Da mihi animas et coetera tolle. (Dá-me as almas e carrega o restante) - Dura lex, sed lex. (A lei é dura, mas é a lei) - Libertas quae sera tamen. (A liberdade ainda que tarde) - Cogito, ergo sum. (Penso, logo [portanto] existo) Observe que, como em português, tais conjunções apenas coordenam as idéias, mas cada oração tem vida independente da outra, isto é, pode ser compreendida isoladamente. CONUNÇÕES SUBORDINATIVAS As subordinativas exigem mais atenção, pois articulam frases mais complexas, sendo uma das orações dependente da principal. Como acon- tece em português, pela constância de exercícios é que se vai aprendendo 226 Fundamentos da Língua Latina a lidar com elas e, mesmo assim, em muitos casos, não é fácil discernir a confi guração exata que elas imprimem à frase. A este respeito, basta recordar as complexas funções do que tão cobradas em aulas de gramática. Eis aqui algumas subordinativas: a) Finais: ut, uti, quo, ne com o signifi cado de que, para que, para que não. b) Consecutivas: ut, ita ut, ut non, quin com o signifi cado de de tal forma que, de tal forma que não. c) Temporais: ubi, cum, quando (quando), dum (enquanto), donec, quoad (até que), postquam (depois que), antequam (antes que). d) Causais: quod, quia (porque), cum, quoniam (pois que), ut (visto que). e) Comparativas: quam (que), ut (como), sicut (assim como). f) Concessivas: quanquam, etsi, etiamsi, quamvis (embora, ainda que). g) Condicionais: si (se), nisi (a não ser que), sive (ou se), modo, dummodo (contanto que). h) Integrantes: ut (que), ne, quin, quominus (que ...não), quod (o fato de que). Assim como em português, muitas conjunções desempenham papéis múltiplos, assumindo, conforme o caso, signifi cações diferentes e exigindo o verbo em modo específi co. Muitas vezes a conjunção é apenas subentendida sem que neces- sariamente venha expressa na frase e, outras vezes, a frase pode apresentar repetição da mesma conjunção num só contexto. ORAÇÕES SUBSTANTIVAS (SUJEITO ACUSATIVO OU ORAÇÃO INFINITIVA) A oração subordinada substantiva possui uma particularidade sintática de largo uso em latim. Trata-se, na verdade, da oração subordinada sub- stantiva objetiva direta reduzida de infi nitivo. Eis um exemplo: O general mandou o povo recuar. A oração subordinada o povo recuar constrói-se em latim com o sujeito (o povo) no acusativo e o verbo no infi nitivo. Na verdade, o sujeito da oração subordinada (o povo) também funciona como objeto direto da oração principal: O general mandou o povo (o povo) re- cuar. O sujeito da subordinada (por ser também objeto direto da principal) é colocado no latim no acusativo, que é o caso do objeto direto. Em português, o mesmo se verifi ca e pode ser mais visível em con- struções com os pronomes pessoais. Esses pronomes do caso reto (eu, tu, ele-ela, nós, vós, eles-elas) sempre devem exercer a função de sujeito. Nas orações de que aqui se trata, esses mesmos pronomes do caso oblíquo (me, te, se, o, a, nos, vos, os, as) é que passam a exercer a função de sujeito. Exemplos: O diretor deixou-me entrar na sala e não O diretor deixou eu entrar na sala. A polícia mandou-o sair depressa e não A polícia mandou ele sair depressa. 227 Conjunções e interjeições Aula 19 Tais construções sempre acontecem com verbos que expressam decla- ração, conhecimento (dizer, afi rmar, crer, saber, mandar etc.). O latim vulgar costuma desdobrar tais orações com o auxílio da con- junção integrante que. Assim também acontece em português, facilitando por demais o seu uso. Ambas as formas estão corretas, mas o desdobra- mento da oração vem sendo, desde o latim vulgar, o modo mais simples de expressar o mesmo conteúdo. Deste modo, as mesmas orações dos exemplos acima tornam-se: O diretor deixou que eu entrasse na sala. A polícia mandou que ele saísse depressa. Em outras palavras: enquanto o latim erudito prefere dizer Creio Deus ser infi nito. (Credo Deum infi nitum esse), o latim vulgar, desdobrando a oração, dirá Creio que Deus é infi nito (Credo quod Deus est infi nitus). Como se pode ver, o latim clássico coloca o sujeito e o predicativo do sujeito no acusativo Deum/ infi nitum e o verbo vai para o infi nitivo, esse. Em português, ainda são encontradas muitas construções semelhantes:Creio não haver mais tempo...julgo não ser mais necessário...etc. Em outras palavras: eis os procedimentos para traduzir orações sub- ordinadas como: Creio que Deus existe, julgo que Pedro é culpado etc.: - o que não se traduz; - o sujeito vai para o acusativo; - o verbo vai para o infi nitivo; (Fonte: http://www.mariarafart.com). 228 Fundamentos da Língua Latina - se o verbo da subordinada for um verbo de ligação, o predicativo irá também para o acusativo. Agora é possível ao aluno distinguir as formas do infi nitivo com seus tempos específi cos: Infi nitivo presente: Creio que Pedro vem/ Credo Petrum venire. Infi nitivo passado: Creio que Pedro veio/ Credo Petrum venisse. Infi nitivo futuro: Creio que Pedro virá/ Credo Petrum venturum esse. O processo de construção das frases obedece sempre aos mesmos critérios: sujeito no acusativo e verbo no infi nitivo, mas sempre observado o tempo exato em que se diz o infi nitivo: presente, passado ou futuro. INTERJEIÇÕES Cabe aqui uma palavra fi nal sobre as interjeições. Trata-se, em muitos casos, de palavras equivalentes a expressões inarticuladas que exprimem sentimentos ou sensações. Algumas são monossilábicas e não se revestem de conteúdo signifi cativo, podendo variar de conotação a depender da infl exão da voz ou das circunstâncias em que sejam pronunciadas. É o caso, por exemplo, de ah!,a!, o!, interjeições que servem para expressar dor, espanto, alegria, surpresa. Tais sons apenas acompanham os sentimentos expressos no discurso, e muitos deles nunca tiveram sentido algum. Todas as línguas, todas as cul- turas possuem essas entonações para dar maior expressividade ao discurso, traduzindo em pequenos ruídos os sentimentos que o homem pode emitir nas mais variadas situações. Eis algumas interjeições latinas: 1. Sons desprovidos de sentido: Oh! Oho! = dor, admiração. Oh, me miserum! Heu, eheu! = ai! oh! Eia! = alegria. Vae = ameaça. Ecce = apresentação. 2. Substantivos e verbos empregados como interjeições: Pax! = saudação. Malum = maldição. Hercule! = por Hércules. Ave! = saudação. Salve! = saudação. Age! Agite! = coragem. Este foi só um demonstrativo a fi m de não deixar de abordar este as- sunto. É, porém, um tema sem muita importância e sem maiores compli- cações no momento de uso, até mesmo porque não interfere na estrutura sintática das frases. 229 Conjunções e interjeições Aula 19 RESUMO As conjunções realizam conexão entre palavras e orações num processo que pode ser de coordenação ou de subordinação. A lista de conjunções apresentada vai, pouco a pouco, familiarizando o estudante no trato com esta classe de palavras. Importa perceber o que cada uma destas partículas pode acrescentar à linguagem e as circunstâncias que elas defi nem no mo- mento do uso. É necessário ainda reconhecer a variedade de sentidos que uma mesma conjunção acarreta. As interjeições, por sua vez, não interferem na essência das sentenças; apenas, como recurso estilístico, conseguem traduzir a expressividade hu- mana que comporta o gesto da comunicação. (Fonte: http://blog.uncovering.org). CONCLUSÃO As conjunções permitem elaborar frases mais complexas e, a partir desta aula, os textos já podem ser en-frentados, sobretudo no que tange ao processo de tradução do latim ao português. As noções de análise sintática devem ser revistas de modo especial no que tange aos adjuntos adverbiais e às diferentes circunstâncias que as conjunções podem viabilizar. As interjeições são meros instrumentos estilísticos, ou seja, recursos expressivos que acrescentam ênfase ao discurso. 230 Fundamentos da Língua Latina COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES 1. A questão I revisa os conteúdos básicos desta aula. Trata-se de assimilar conceitos e saber demonstrá-los através de exemplos criados por você mesmo. Tais exemplos podem ser socializados, para enriquecimento das ilustrações que expressam a compreensão do assunto. 2. Saber distinguir as funções do “que” é o primeiro passo para trabalhar certas orações subordinadas. Aqui se evidenciam as subordinadas adjetivas e as substantivas e a diferença de trato que cada uma requer. ATIVIDADES 1.Responda: a) Qual o papel das conjunções? b) Explique a diferença entre coordenação e subordinação. c) Apresente orações em português que ilustrem a coordenação e a sub- ordinação. d) Mostre exemplos no latim e no português de uma mesma conjunção que imprime signifi cado diverso ao discurso. e) Como se constroem em latim as orações subordinadas substantivas objetivas diretas? Exemplo. f) O sujeito da frase em latim pode ir para o acusativo? A língua portuguesa também conhece processo semelhante? Explique e dê exemplos. g) No caso de o sujeito se colocar no acusativo, existindo um predicativo do sujeito, para que caso deverá direcionar-se? Exemplo. h) Que efeito produz nas frases o uso das interjeições? Cite algumas inter- jeições latinas. i) Como se chama o que pelo qual se inicia a subordinada substantiva ob- jetiva direta? 2. Identifi que a diferença entre o que das seguintes orações: - Sei que a vida dos homens é breve. - Sempre amarei a vida que Deus me deu. Transponha para o latim essas duas orações. Explique o processo. Coloque a 1ª oração nas duas formas possíveis. 3. Construa orações em português que ilustrem todas as modalidades de orações coordenativas e subordinativas. 231 Conjunções e interjeições Aula 19 PRÓXIMA AULA Mais adiante, você verá como se dá o processo de formação das pa- lavras latinas. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. São Paulo: Saraiva, 1995. CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. GONZAGA, Maria Cristina de Brito. Frases de latim forense. São Paulo: Livraria de Direito, 1994. LUIZ, Antônio Filardi. Dicionário de expressões latinas. São Paulo: Atlas, 2002. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do cérebro, 1999. SOARES, João S.. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. VIARO, Mário Eduardo. Por trás das palavras. São Paulo: Globo, 2004. ___________ Importância do latim na atualidade. Revista de ciências hu- manas e sociais. São Paulo: Unisa, v. 1, n. 1, p. 7-12, 1999. Vocabulário: Scio = sei/ Quia = que/ vita, ae = vida/ Homo, hominis = homem/ Sum, es, fui, esse = ser/ Brevis, e = breve. Amo, as, avi, atum, are = amar/ qui, quae, quod = que, o qual, a qual/ Deus, Dei = Deus/ Do, das, dedi, datum, dare = dar/ Ego, mei = eu, me. 3. O pleno domínio das conjunções manifesta-se na construção de frases que ilustram a distinção de cada modalidade. FORMAÇÃO DAS PALAVRAS META Apresentar o mecanismo de formação das palavras latinas e sua correlação com a língua portuguesa. OBJETIVOS Ao fi nal desta aula o aluno deverá: defi nir o processo de formação das palavras latinas; reconhecer as marcas latinas nas palavras da língua portuguesa; descrever provérbios, ditados e expressões latinas em pleno uso na atualidade; identifi car a incorporação de termos latinos no discurso da língua portuguesa; e reconhecer a contribuição do latim para o desenvolvimento do raciocínio e a expressão da linguagem no mundo de hoje. PRÉ-REQUISITOS Todos os conhecimentos das aulas anteriores. Atitude de investigação para com as diversas marcas deixadas pelo latim no exercício atual da língua. Aula 20 234 Fundamentos da Língua Latina INTRODUÇÃO Não se pode negar que o latim é uma língua morta. Não existe no mundo inteiro qualquer comunidade lingüística fazendo uso corrente do latim para garantir a comunicação oral e escrita entre as pessoas e, sob esta ótica, é inquestionável reconhecer que o latim morreu. Observe, porém, esta comparação:imagine você aquele boneco chama- do “João teimoso” com o qual crianças e adultos se divertem justamente pela sua resistência em não querer fi car deitado, quieto. Ele estará sempre lutando para se pôr de pé. Com o latim acontece o mesmo e o mais inter- essante é que não é ele, língua morta, que luta para reerguer-se, é o mundo que precisa dele e a ele recorre consciente ou inconscientemente. Nesta aula, a última desta série, tenta-se evidenciar as diversas marcas pelas quais se comprova a presença viva do latim nas línguas modernas. De um lado, estão as línguas românicas, nas quais, como oriundas do latim, se percebem traços e mais traços de uma língua mãe que lhes serviu de base. De outro lado, estão tantos idiomas, a exemplo do inglês, que, mesmo per- tencendo a outra família lingüística, servem-se do latim e do grego como base para muitas de suas composições lexicais, sobretudo no que se refere às terminologias, as quais, via latim e grego, já se encontram incorporadas ao vocabulário universal. Basta recordar-se de áreas como a botânica, a química, o direito, a medicina, a fi losofi a e outras tantas, cuja precisão conceitual melhor se concretiza sobre as bases das línguas clássicas. Estas poucas aulas, como sempre foi aqui reforçado, são apenas um breve ilustrativo da pertinência e viabilidade do conhecimento do latim na atualidade, sobretudo em se tratando de um curso de Letras, no qual se discutem aspectos da linguagem humana para cuja abordagem não podem ser negligenciadas as considerações sobre as bases históricas da língua, ou melhor, da língua portuguesa, última fl or surgida do seio da língua do antigo Lácio. 235 Formação das palavras Aula 20FORMAÇÃO DAS PALAVRAS Considerada por alguns como parte da morfologia; por outros, como parte do vocabulário, a formação das palavras é um dado importante no ensino do latim. A língua portuguesa, por sua vez, também trabalha as palavras imitando o procedimento que herdou da língua mãe. Como parte da morfologia, busca-se conhecer os elementos consti- tutivos da palavra (prefi xos, sufi xos, desinências, radicais) como forma habitual pela qual as palavras se formam. As pessoas assimilaram o modelo e, mesmo inconscientemente, recorrem a ele quando querem criar novos termos que se vão incorporando, pouco a pouco, ao vasto repertório de que se constitui o léxico. Tais elementos, acrescidos à raiz, não modifi cam precisamente o sentido fundamental da palavra, mas apenas lhe conferem um novo matiz semântico. Sem esses recursos, o léxico estaria muitís-simo reduzido às suas bases e, conseqüentemente, as possibilidades de denominação das coisas seriam muito restritas. Existem muito mais objetos a serem denominados do que nomes com os quais denominá-los. O léxico de uma língua seria muitíssimo mais extenso se houvesse um nome específi co para cada objeto da realidade. Não sendo assim, porém, acontece, muitas vezes, a repetição dos mesmos nomes para designar coisas variadas, daí o uso constante de polissemias, das quais todas as línguas possuem variados exemplos. A que remete mesmo a palavra manga? A uma fruta? A uma peça do vestuário? A um lugar onde pascem os rebanhos? A uma forma do verbo mangar? A tudo isso e ainda podendo ser a mais alguma coisa? (Fonte: http://www.toolong.com). 236 Fundamentos da Língua Latina Tais empréstimos são muito freqüentes, manifestando uma das modali- dades pelas quais o léxico se multiplica. Outros modos de formar palavras são muito bem apresentados por Hevaldo Heckler et alii num trabalho muito efi ciente sobre a Estrutura das Palavras (Cf. Anexo 05, p. 399-400). O importante é ver, na maioria das palavras da língua portuguesa, as marcas visíveis e indeléveis da língua latina. A este respeito, deve ser citada outra obra de muito valor. Trata-se do livro Por trás das palavras, de Mário Edu- ardo Viaro, onde se pode vislumbrar a análise criteriosa das marcas latinas no léxico português. E este reconhecimento é algo curioso, pelo qual a maioria das pessoas, mesmo sem ser especialista na área, fi ca fascinada. É assim que muitos trabalhos de etimologia conseguem atrair a atenção e o interesse do grande público. As pessoas demonstram grande curiosidade por saber a origem dos nomes próprios, sendo inegável o encanto quando se descobre a relação entre as palavras e as coisas. É neste momento que o latim, mais do que qualquer outra língua, faz transparecer a riqueza deixada no vocabulário da língua portuguesa. Vamos apresentar o processo de forma bem simples e de fácil com- preensão. Você lembra do caso chamado genitivo? Esta palavra está ligada a uma família onde se encontra o termo genitor, que quer dizer pai. O genitivo é, pois, o caso gerador da palavra. É dele que se tira o radical que serve de base para a declinação dos outros casos latinos, daí por que todos os sub- stantivos em latim devem ser apresentados com a forma do seu respectivo genitivo singular. É do genitivo também que se depreende a forma que vão ter as palavras da língua portuguesa quando forem isolados todos os acréscimos (prefi xos, sufi xos, desinências). Esta forma corresponde exata- mente ao radical latino do genitivo da palavra em questão. Esta manifestação pode ser bem mais visível nas palavras da 3ª declinação, cujas diferenças de radical entre o nominativo e o genitivo no singular são bem acentuadas. Podem ser vistas também nos tempos primitivos dos verbos, cujas marcas de irregularidades aparecem também nas palavras da língua portuguesa. Observe estes exemplos: A palavra nome, como qualquer palavra em latim, deve ser apresentada com as formas do singular do nominativo e do genitivo. Assim, pois, é que ela aparece nos dicionários: NOMEN, NOMINIS (N). O segundo elemento é, pois, a forma no genitivo singular: NOMINIS. Isolando a desinência IS, que é a marca do genitivo singular de todas as palavras da 3ª declinação, vai sobrar a forma NOMIN e é daí que o português vai originar todas as pala- vras desta mesma família, ou seja, para dizer tudo o que se refere a NOME. Etimologia Estudo da origem das palavras. Os gregos denomina- vam de ÉTIMO, a marca de ver- dade que se pode identifi car em cada palavra, isto é, o el- emento que garante o seu significado e vai-se constitu- indo em famílias de palavras, todas e las expl icadas pelo elemento de origem comum. O mesmo ÉTIMO remete, pois, ao mesmo signifi cado e em torno dele, mediante acrésci- mos, as palavras vão manifestando sutilezas diversas e ampliando as pos- sibilidades de de- nominar as coisas. 237 Formação das palavras Aula 20Pode comprovar agora: adNOMINal deNOMINar NOMINativo deNOMINação deNOMINador inNOMINável proNOMINal (Fonte: http://www.latim.ufsc.br). Viu como é interessante? É a forma do genitivo singular que gera todas as palavras da mesma família, ou seja, ela vai aparecer em todos os termos que contêm o signifi cado de NOME. Os elementos em letras minúsculas são os acréscimos: prefi xos, sufi xos, desinências, isto é, elementos que imprimem sutilezas de detalhes, sem, contudo, modifi car-lhes as bases. Nota-se que a base, isto é o radical, é comum a todas as palavras da família, assegurando-lhes a mesma essência, o mesmo signifi cado fundamental. Tente aplicar este mesmo processo a outras tantas palavras e o resultado será o mesmo. Faça o teste: LUMEN, LUMINIS (N) = luz. SEMEN, SEMINIS (N) = semente. PECTUS, PECTORIS (N) = peito. COR, CORDIS (N) = coração. ORDO, ORDINIS (F) = ordem. Com os verbos irregulares acontece o mesmo processo, tendo o por- tuguês assimilado todas as irregularidades existentes no latim. Observe os tempos primitivos do verbo pôr: PONO, PONIS, POSUI, POSITUM, PONERE. A irregularidade deste verbo é constatada pelas diferentes formas de radical que apresenta.PON/ POS/ POSIT (POST) e o português as herdou: comPONente disPONível disPONibilidade imPONente intransPONível POSe aPOSITivo dePOSITado proPÓSITo suPOSITório POSTo POSTe 238 Fundamentos da Língua Latina POSTal imPOSTo imPOSTação imPOSTor suPOSIÇão e muitos outros derivados. Assim pode ser feito com outros verbos: Mitto, mittis, misi, missum, mittere = enviar. Ago, agi, egi, actum, agere = agir. Tango, tangis, tetigi, tactum, tangere = tocar. As marcas latinas ainda são bastante visíveis nos constantes metaplas- mos, pelos quais certos sons se correspondem. No quadro sinótico a seguir, mostram-se os metaplasmos, seus exem- plos aplicados às palavras e a retomada da forma antiga, mais próxima, portanto, da raiz latina. Na coluna dos metaplasmos, destacam-se as cor- respondências esperadas no processo de transformação. Tem-se, na coluna intermediária, o exemplo ilustrativo de cada metaplasmo e, na última coluna, estão as alomorfi as, ou seja, as formas de onde provieram as transformações segundo as regras, tendo essas palavras maior ou menos intensidade de uso, conforme sejam mais afeitas ao domínio erudito ou popular Não existe muita difi culdade, nem mesmo para o falante mais simples, de efetuar a passagem de determinados sons a outros. Este é um excelente recurso para compreender as razões da nossa ortografi a. Faculdade < facultativo Abelha < apiário Compreender < compreensivo Sessão > sede Cessão > ceder Seção > setor, seccional Feliz < felicidade, felicíssimo Segredo < secreto ETC. ETC. ETC (Fonte: http://www.lago.com.br). 239 Formação das palavras Aula 20Nós estamos recorrendo ao latim a todo instante, ainda que inconsci- entemente. Observe como o latim está presente na atualidade: QUADRO SINÓTICO DAS ALOMÓRFICAS METAPLASMOS EXEMPLOS RETOMADA P>B caPram>caBra caPrino, caPricórnio B>V arBorem>árVore arBorizar, arBóreo T>D peTram>peDra peTrificar, peTróleo C(K)-QU>G-GU luCrare>loGraraQUa>aGUa luCro, luCrativoaQUático, aQUoso C(s)-X>Z viCinum>viZinho viCinal cruCem>cruZ cruCial, cruCifixo D>S auDere>ouSar auDácia, auDaz D, L, N, G suDore>suor suDorese, suDário (desaparecimento saLutem>saúde saLutar, saLústio entre vogais) eGo>eu eGoísmo, eGoísta luNam>lua luNar, luNático GN>NH puGNum>puNHo impuGNar, repuGNância coGNoscere>coNHecer coGNição, coGNitivo CL, FL, PL,>CH CLavem>CHave CLave, conCLave FLammam>CHama inFLamável, FLâmula PLuviam>CHuva PLuvial, Pluviômetro N>~(til) maNum>mão maNual, maNobra oncePTivo, noCTívago PT,CT>IT,UT concPTum>conceITo defeCTivo doCTorem>doUTor defeCTum>defeito CULUM, A; oCULUM>oLHo oCULar, oCULista ALUM, A; coeciCULA>Cecília CLO, A>LHO, A; LIO, A F>V multiFarium>multiVário auriFicem>ouriVes triFolium>treVo I>J maIorem>maJor maIoridade, maIoria U>V riUm>riO rioVal, riValidade AU>OU,OI lAUrum>lOUro, lOIro Lauro, lAUreado TION>CION>ÇÃO naTIONem>naÇÃO naCIONal, naCIONalidade concepTION>conceiÇÃO anticoncepCIONal secTIONem>se(c)ÇÃO secCIONar, secCIONal I>E pIllum>pÊlo depIlar, depIlação digItum>dEdo dIgitar, dIgotador mInorem>mEnor mInorar, mInoritário U>O, O>U pUtrem>pOdre pUtrefeito, pUtrefaçãa iOcum>lUgar lOcar, deslOcar 240 Fundamentos da Língua Latina Ainda, o latim: PRODUTOS COMERCIAIS: Sabonete SENSUS Pão PLUS VITA TERMINOLOGIA DAS CITAÇÕES CIENTÍFICAS APUD IN ET ALII IBIDEM OPUS CITATA TERMOS JURÍDICOS PRO RATA HABEAS CORPUS IN DUBIO PRO REO AD NUTUM AD REFERENDUM AD JUDITIA EXPRESSÕES INCLUÍDAS NO DISCURSO ET COETERA GROSSO MODO PRO LABORE PER CAPITA MAPA MUNDI VOX POPULI POST SCRIPTUM LATO SENSU STRICTO SENSU SINE DIE CARPE DIEM EXPRESSÕES RELIGIOSAS AGNUS DEI CORPUS CHRISTI ANNO DOMINI SEDES SAPIENTIAE MATER DEI 241 Formação das palavras Aula 20REGINA COELI MATER CHRISTI NOMES DE INSTITUIÇÕES ESCOLA PUERI PAX CURSO PRAETORIUM ATIVIDADES 1. Responda: a) Em que sentido o latim é mesmo uma língua morta? b) Em que sentido o latim ainda está muito vivo? Exemplo. c) Como reconhecer as marcas latinas no português? Exemplos. d) O que se pode ver do latim nos termos da informática: internauta, deletar, digitar (e seus cognatos)? e) Qual a importância do caso genitivo na formação das palavras do por- tuguês? Exemplos a partir palavras ARBITER, ARBITRI = juiz e LUX, LUCIS = luz. f) Que tipo de acréscimos se pode fazer ao radical da palavra RADIX, RADICIS = raiz? g) O que signifi ca etimologia? Identifi que a etimologia da palavra CAL- CULUM, I = pedra. h) Existe uma forte relação entre certas palavras e os objetos que elas no- meiam. Identifi que, pois, a relação entre a palavra latina CRIBRUM, I = peneira, e o termo CRIVADO, da língua portuguesa. 2. Realize um vasto trabalho de pesquisa identifi cando as marcas latinas em diversos aspectos da vida moderna. Tente traduzir e compreender as expressões dentro de contextos específi cos. 3. Construa frases em português contextualizando as seguintes expressões latinas. Explique sintaticamente cada termo latino: IPSIS LITTERIS AB ORIGINE CAUSA MORTIS HONORIS CAUSA 242 Fundamentos da Língua Latina CONCLUSÃO [O latim tem grande importância na atualidade, estando presente em muitos aspectos da vida moderna, seja pelo emprego expressamente visível de expressões da língua incorporadas ao discurso corrente, seja pelas marcas deixadas na formação da grande maioria das palavras do português. É difícil, portanto, deixar de utilizar o latim. Para o estudante de Le- tras, tal necessidade se acentua, sobretudo quando se deseja desvendar o verdadeiro sentido das palavras, conhecer as razões das regras ortográfi cas e possuir um domínio amplo do léxico português. RESUMO O conhecimento do latim contribui indiscutivelmente para o perfeito domínio das palavras. Muitas expressões latinas estão perfeitamente incorporadas ao dis- curso, não só do português, que é uma língua derivada do latim, mas também por muitos outros idiomas, sobretudo quando se trata de usar uma terminologia comum que facilite a compreensão universal da linguagem científi ca. Há um processo de formação das palavras com o qual o falante, mesmo sem ser especialista na área das letras, vai assimilando no próprio exercício da língua, sendo capaz de lidar com as palavras de forma bastante pertinente. O estudante de Letras, contudo, após os conhecimentos mínimos do latim, já se torna capaz de ir desvendando o mistério das palavras e conhecer- lhes os signifi cados mais profundos e as possibilidades de novas composições. Cabe exercitar a curiosidade, o interesse em realizar pesquisas, consultar dicionários, conhecer as expressões latinas de uso mais freqüente e ir-se aprofundando num terreno de dimensões imprevisíveis, mas também de compensações muito gratifi cantes. O material que ilustra esta última lição é inspirado na capa do meu livro Alomorfi as do léxico português. Com este trabalho tento visualizar a relação do latim com o português, algo bem mais profundo do que comumente se imagina ou se comenta. O costume tem sido alertar para expressões latinas incluídas nas frases ou vigentes no exercício do Direito, do discurso católico e outras. Isso, porém, é muito pouco, pois o latim está bem mais presente e é usado em muitas outras ocasiões, sobretudo para se obter o pleno domínio do léxico e para se ampliar, consideravelmente, o vocabulário. A idéia remete ao relógio do tempo (ampulheta) e o destaque não é apenas diacrônio, mas igualmente sincrônico, ou, melhor dizendo, pancrônico, ou seja, no pleno entendimento de um tempo global no qual latim e português se inserem. Nesta perspectiva, as letras vêm do latim (parte superior) e chegam ao português com algumas transformações (parte inferior) que se mantêm na atualidade sem, contudo, haver uma eliminação das formas anteriores. 243 Formaçãodas palavras Aula 20Deste modo, latim e português constituem, sem qualquer embaraço, as for- mas atuais da língua: as palavras conseguem expressar conceitos de forma diversa (alomorfi a) sem sair da família a que pertencem, dando, assim, maior amplitude ao léxico e não causando qualquer problema ao falante, o qual faz, tranquilamente, alternância entre ambas a depender da necessidade de uso. A correspondência das fontes usadas para cada metaplasmo leva à compreensão das variações ocorridas pelas quais as formas latinas adquirem novas confi gurações, permanecendo, no entanto, na família a que pertencem. Observe bem que não se trata do processo de sinonímia pelo qual as palavras dizem os mesmos conceitos, mas em diferentes famílias. Aqui o processo é denominado de alomorfi a, ou seja, outra forma, caracterizando-se, pois, pela aquisição de novas formas gráfi cas e fônicas sem sair da família específi ca. Recorrendo aos metaplasmas, é possível dar nova feição, outra forma às palavras para dizer os mesmos conceitos. Assim, quem diz ViDro e ViTrifi car está dizendo exatamente a mesma ambiência conceitual. A noção de metaplasmo indica um trabalho pelo qual as palavras são plasmadas, tal como faz o oleiro com o barro bruto, imprimindo-lhe novas feições, num verdadeiro trabalho de arte plástica. Exemplos: a letra B que aparece na parte superior da ampulheta tem a mesma fonte da letra V da parte inferior, que é a feição nova com que se 244 Fundamentos da Língua Latina apresenta no português. Servem de ilustração para este exemplo as palavras probabilis (latim) > provável (português), mas você pode observar como a forma latina não desaparece na atualidade, daí probabilidade, probabilístico etc. O desenho da ampulheta é um desafi o. Tente descobrir outras cor- respondências sempre orientado pela associação da fonte das letras para expressar o mesmo fenômeno. Depois disso, busque exemplifi cação no léxico da atualidade. Esta é a melhor forma de demonstrar a importância do latim nos dias atuais. Divirta-se e aprenda e, por este meio, surpreenda-se do quanto de latim você já conhece. Último conselho: não rejeite o latim. Não alimente o fantasma de que o latim é difícil, é língua morta, é desnecessário. Você sabe mais latim do que imaginava. O seu trato com a língua portuguesa, depois de estudar este pouco de latim, jamais será o mesmo. Tenho certeza! REFERÊNCIAS ALMEIDA, Marcos. Latim para todos. Aracaju: J. Andrade, 2007. ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática latina. São Paulo: Saraiva, 1995. CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao latim. São Paulo: Ática, 1989. COMBA, Júlio. Gramática latina. São Paulo: Salesiana, 1981. FURLAN, Oswaldo Antônio. Latim para o português. Florianópolis: EDUFSC, 2006. GALVÃO, José Raimundo. Alomorfi as do léxico português. Aracaju: EDUFS, 2008. GONZAGA, Maria Cristina de Brito. Frases de latim forense. São Paulo: Livraria de Direito, 1994. LUIZ, Antônio Filardi. Dicionário de expressões latinas. São Paulo: Atlas, 2002. MACHADO, Luiz. Uma nova visão do latim pelo uso da inteligência. Rio de Janeiro: Cidade do cérebro, 1999. SOARES, João S.. Latim 1 – Iniciação ao latim e à civilização romana. Coimbra: Almedina, 1999. STOCK, Lco. Conjugação dos verbos latinos. Lisboa: Presença, 2000. WILLIAMS, Edwin B.. Do Latim ao português. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. VIARO, Mário Eduardo. Por trás das palavras. São Paulo: Globo, 2004. _________ Importância do latim na atualidade. Revista de ciências humanas e sociais. São Paulo: Unisa, v. 1, n. 1, p. 7-12, 1999.