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UNIVERSIDADE FEREDAL DE MINAS GERAIS FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS Filipe Souza Castro Marco Túlio Fernandes Paula Lavínia Alves Perret Sávio Costa e Silva ANTROPOLOGIA I Belo Horizonte 2017 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS POLÍTICAS Filipe Souza Castro Marco Túlio Fernandes Paula Lavínia Alves Perret Sávio Costa e Silva ANTROPOLOGIA I Trabalho apresentado como recurso avaliativo na disciplina de Antropologia I, ministrada pelo professor Ruben Caixeta de Queiroz e pela monitora Juliana Tolentino. Belo Horizonte 2017 A crítica ao Etnocentrismo na obra de Pierre Pierre Clastres foi um importante antropólogo do século XX que, por ser adepto da antropologia relativista, dedicou sua carreira à crítica ao pensamento etnocêntrico. “Desde a muito reconhecemos o adversário sempre desperto, o obstáculo constantemente presente na investigação antropológica, o etnocentrismo que mediatiza todo o olhar sobre as diferenças para as identificar e finalmente as abolir. ” (CLASTRES, 1979, 14). O etnocentrismo está presente na tentativa de impor valores civilizados nas sociedades primitivas e de interpretar, baseado em preconceitos, ou melhor, em conceitos estritamente ocidentais, uma sociedade que possui signos totalmente distintos. Durante a sua curta, porém valiosa obra, Clastres visa eliminar qualquer vestígio de etnocentrismo no pensamento antropológico, que, como veremos, possui diversas facetas. O primeiro exemplo está no cientificismo. Todas as sociedades são etnocêntricas, no sentido de que todas encontram nas diferenças em relação ao outro a sua identidade. A grande diferença do etnocentrismo ocidental para o primitivo está no discurso cientificista, que pretende situar seu conhecimento no campo do universal (CLASTRES, 1979). A crítica do autor à Antropologia Marxista é um exemplo de combate ao cientificismo. Essa vertente antropológica visa preencher as lacunas deixadas pelo estruturalismo lévi-straussiano, principalmente no contexto de aplicação das análises das estruturas elementares no entendimento das relações sociais, implementando o método marxista no estudo das sociedades primitivas. O problema apontado por Clastres está na fragilidade teórica dessa vertente, marcada pela clara tentativa de ampliar a teoria do conflito moderna para sociedades sem hierarquia (CLASTRES, 2004). A questão é que o marxismo, teoria rica e fundamental para a compreensão da sociedade capitalista, têm seu tempo e espaço muito bem definidos, justamente a sociedade burguesa pós-revolução industrial. Ao ignorarem esses preceitos científicos, os antropólogos marxistas geraram aberrações teóricas, como comentou Clastres sobre a obra do marxista Godelier. Aplicando o método marxista na análise de sociedades primitivas, esse autor considerou as representações primitivas (religião, mitos, etc.) como formas de ideologia (alienação) e, ainda, as relações de parentesco como relações estritamente de produção. Essas conclusões absurdas deixam evidente como que o discurso cientificista, ao tentar universalizar conceitos particulares, gera resultados que podem ser tudo menos científicos, pois só ignorando os dados etnográficos e as condições teóricas para concluir que em uma sociedade sem hierarquia há a opressão do homem pelo homem e que, além disso, ela tem motivação econômica. O evolucionismo, outra expressão do etnocentrismo, age primeiro estabelecendo uma graduação entre diferentes tipos de sociedade e, depois, prevendo uma continuidade no desenvolvimento delas, da de menor para a de maior grau evolutivo. A crítica de Clastres a essa vertente está principalmente sobre o preconceito inerente a esse pensamento e ao desconhecimento de diversos dados etnográficos que contradizem qualquer noção evolutiva das sociedades humanas. Um exemplo de estropio dos dados científicos está no estudo da economia selvagem, para qual sempre foi designada a categoria de subsistência. Essa definição prematura e inabalável da economia selvagem leva a uma série de erros interpretativos e conclusões indevidas sobre essas sociedades: “Longe de consumir-se incessantemente tentando sobreviver, a sociedade primitiva, seletiva na determinação de suas necessidades, dispõe de uma máquina de produção apta a satisfazê-las, funciona de fato segundo o princípio: a cada um conforme suas necessidades. ” (CLASTRES, 2004, 243). O fato é que a etnografia mostra que nessas sociedades os indivíduos trabalham em média 5 horas por dia (interruptos) e produzem o dobro do mínimo necessário para toda a comunidade. Ou seja, ao contrário de ser uma sociedade da escassez e do trabalho contínuo, a sociedade primitiva é a sociedade da abundância e do lazer (CLASTRES, 2004). “Trata-se simplesmente de mostrar a fatuidade científica do conceito de economia de subsistência, que traduz muito as atitudes e hábitos dos observadores ocidentais face das sociedades primitivas do que a realidade econômica sobre a qual repousam essas culturas” (CLASTRES, 1979, 12). Assim, a classificação dessas comunidades no limiar da sobrevivência é uma forma de julgamento etnológico, na qual uma sociedade do acúmulo como a ocidental é supervalorizada em detrimento de outras realidades. Usamos a diferença mais para legitimar a nossa vivência, do que para entender a do outro. Como foi visto, o etnocentrismo tenta sobrepor a sociedade ocidental, seja deturbando os dados etnográficos para imperar uma opinião preconceituosa do mundo selvagem, seja tornando universal um conhecimento científico particular de nossa sociedade. É isso que Clastres pretende evidenciar em seu estudo sobre o poder em sociedades primitivas. Enquanto o evolucionismo tratava essas sociedades como estágios anteriores da evolução humana (sociedades sem Estado) e o cientificismo não conseguia encontrar Poder nessas comunidades da maneira que foi definido no ocidente, Clastres declarou que o erro está nas próprias etnologias: “Nossa cultura, desde as suas origens, pensa o poder político em termos de relação hierarquizadas e autoritárias de comando-obediência. Toda forma, real ou possível de poder, é por conseguinte redutível a essa relação privilegiada que exprime a priori a sua essência. Se a redução não é possível, é que nos encontramos aquém do político: a ausência da relação comando-obediência acarreta ipsofacto a ausência de poder político” (CLASTRES, 1979, p.14). O que Clastres evidencia em sua obra é que termos como Subsistência, Guerra, Poder não podem ser utilizados no estudo de sociedades primitivas se os mesmos foram criados a partir de nossa sociedade e servem apenas à nossa sociedade. “Ou o conceito clássico de poder é adequado à realidade que ele pensa, e nesse caso é necessário apontar-lhe, justamente onde foi assinalado; ou ele não é adequado, e então é necessário abandoná-lo ou transformá-lo” (CLASTRES, 1979, 11). Como não existe o social sem o político, é necessário que haja um poder sem coerção. Clastres, então, elabora os conceitos de Totalidade e Unidade. De uma maneira sucinta, uma sociedade primitiva seria uma unidade, já que possui instrumentos para evitar a hierarquização e manter a igualdade de seus indivíduos, e também uma totalidade, já que é através das guerras e alianças com os vizinhos que o todo define a sua identidade e promove sua liberdade Una. O poder selvagem não estaria, portanto, na figura do chefe que manda e do servo que obedece, mas sim na própria estrutura da sociedade que impede que o sistema comando-obediência se estabeleça. Em outras palavras, a Unidade exerce poder sobre a Desigualdade. A sociedade primitiva não seria a sociedade sem Estado, menos evoluída, mas definitivamente a sociedade contra o Estado. Assim, o autor pensa um conceito de poder que consegue abranger também a realidade selvagem e estabelece sua crítica ao etnocentrismo de uma forma original e marcante. A crítica ao Etnocentrismo naobra de Malinowski Os primeiros empreendimentos ocidentais que visavam a compreensão da pluralidade humana se conceberam a partir de conceitos etnocêntricos, que se baseiam em superstições, generalização e estigmas, e produziram perspectivas preconceituosas sobre os povos nativos. Malinowski era crítico à ausência de metodologia dessas práticas que consolidavam teorias etnocêntricas. “A ideia geral que se faz é de que os nativos vivem no seio da natureza, fazendo mais ou menos aquilo que podem e querem, mas presos a crenças e apreensões irregulares e fantasmagóricas. A ciência moderna, porém, nos mostra que as sociedades nativas têm uma organização bem definida, são governadas por leis, autoridade e ordem em suas relações públicas e particulares e que estão, além de tudo, sob controle de laços extremamente complexos de raça e parentesco. “ (MALINOWSKI, 1978, p.23) Malinowski, ao mesmo tempo em que faz uma crítica as pesquisas etnográficas construídas sob pilares etnocêntricos, vai conceber métodos, para que o registro etnográfico seja o mais honesto possível em relação aos fatos experimentados durante a pesquisa de campo. Segundo o autor, o pesquisador, a fim de compreender plenamente a cultura dos nativos, deve estabelecer contato íntimo com os selvagens, e para isso deve afastar-se da companhia dos homens brancos, isto é, o etnógrafo deve estar disposto a imergir totalmente na cultura daquele povo. "Além disso, o modo como meus informantes brancos se referiam aos nativos e expressavam suas opiniões revelava, naturalmente, mentes não disciplinadas e, portanto, não acostumadas a formular seus pensamentos com precisão e coerência. Ainda mais, em sua maioria, como era de esperar, esses homens tinham preconceitos e opiniões já sedimentadas, coisas essas inevitáveis no homem comum, seja ele administrador, missionário ou negociante, mas repulsivas àqueles que buscam uma visão objetiva e científica da realidade." (MALINOWSKI, 1978, p.20). Outra ferramenta fundamental para que a etnografia realizada seja de boa qualidade é a linguagem, ou seja, compreender a língua dos nativos demonstra-se como de grande importância no que diz respeito ao entendimento da mentalidade, comportamento, crenças, magia e religião dos nativos, além de contribuir para o abandono de conceitos etnocêntricos pré-concebidos. Somado ao conhecimento da linguagem, a observação empírica do etnógrafo é de igual relevância, pois apesar de possuírem leis e ordens dentro da vida tribal, é necessário que se faça uma análise e coleta de dados em relação a como os nativos reagem aos seus instintos e impulsos nas instituições nativas. Segundo Malinowski, ainda no que se refere aos registros etnográficos, é essencial que o etnógrafo abandone conceitos primitivos anteriormente concebidos, uma vez que contemplam ideias etnocêntricas, que se tornam perniciosas para a boa qualidade da etnografia do pesquisador de campo. "Em etnologia, os primeiros trabalhos de Bastian, Tylor, Morgan e dos volkerpsychologen Alemães reformularam as informações antigas e toscas de viajantes, missionários, etc., mostrando-nos quão importante à pesquisa é a aplicação de concepções mais profundas e o abandono dos conceitos primitivos e inadequados" (MALINOWSKI, 1978, p.22). Desse modo, Malinowski se posiciona contrário à concepção etnocêntrica colocada anteriormente, pois estabelece um método para conseguir desassociar valores pré-concebidos na produção etnográfica. “Foi-se o tempo em que se aceitavam relatos nos quais o nativo aparecia como uma caricatura infantil do ser humano. Relatos desse tipo são falsos – e, como tal, a ciência os rejeita inteiramente. O etnógrafo de campo deve analisar com seriedade e moderação todos os fenômenos que caracterizam cada aspecto da cultura tribal sem privilegiar aquele que lhe causam admiração ou estranheza em detrimento dos fatos comuns e rotineiros. “ (MALINOWSKI, 1978, p.24) Em suma, o autor quebra paradigmas dos primeiros registros etnográficos não-científicos realizados por viajantes e missionários, abrindo espaço para que os antropólogos que lhe sucederam façam críticas à antropologia clássica que, mesmo tendo base cientifica, se configura como etnocêntrica. REFERÊNCIAS CLASTRES, Pierre. Arqueologia da Violência: pesquisas de antropologia política. Tradução por Paulo Neves. São Paulo: Cosac & Naify, 2004 CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado: investigações de antropologia política. Tradução por Bernardo Frey. Porto: Afrontamento, 1979 MALINOWSKI, Bronislaw. Tema, método e objetivo desta pesquisa. In: MALINOWSKI, Bronislaw. Argonautas do Pacífico Ocidental: Um Relato Do Empreendimento E Da Aventura Dos Nativos Nos Arquipélagos Da Nova Guiné Melanésia. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 19-34. Traduções de Anton P. Carr e Lígia Aparecida Cardieri Mendonça. MORE: Mecanismo online para referências, versão 2.0. Florianópolis: UFSC Rexlab, 2013. Disponível em: ‹ http://www.more.ufsc.br/ › . Acesso em: 27 set 2017.