O papel da Perícia Psicológica na Execução Pena
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O papel da Perícia Psicológica na Execução Pena


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O PAPEL DA PERÍCIA PSICOLÓGICA NA EXECUÇÃO 
PENAL1 
Saio de Carvalho 
Introdução 
A investigação objetiva analisar o papel dos técnicos na execução da 
pena criminal, sobretudo da pena privativa de liberdade cumprida em regime 
fechado (carcerário). Ao longo dos 25 anos de vigência da Lei de Execução 
Penal (LEP), consolidou-se determinada forma de atuar dos peritos-crimi- 
nólogos voltada quase exclusivamente à satisfação das demandas do Poder 
Judiciário através da elaboração de laudos e pareceres. 
No entanto, alteração produzida com o advento da Lei 10.792/03 
possibilitou reavaliar o papel dos atores da execução, dentre eles o do corpo 
criminológico formado por profissionais das áreas da psicologia, medicina 
(psiquiatria) e serviço social. 
A hipótese que orienta essa pesquisa é a de que, na atualidade, existem 
condições legais de superação do antigo modelo, com a incorporação, por 
parte dos criminólogos que atuam nas instituições carcerárias, de práticas 
voltadas à redução dos danos causados pelo processo de prisionalização. 
Os laudos e as perícias criminológicas na Lei de Execução Penal 
Em 1984, com a edição da LEP, instituiu-se a avaliação criminológica como 
requisito para que o condenado atingisse a última fase da individu-
 
1 Os resultados apresentados neste artigo são fruto de pesquisa financiada pela Pontifícia Univer-
sidade Católica do Rio Grande do Sul, desenvolvida junto ao seu Programa de Pós-graduação em 
Ciências Criminais. 
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alização da pena (individualização executiva). Após a aplicação da sanção 
(individualização judicial), caberia aos técnicos do sistema carcerário classi-
ficar os condenados com intuito de definir programa ressocializador e avaliar 
seu comportamento durante a execução, de forma a orientar a decisão do 
magistrado. Conforme determina a LEP, \u201cos condenados serão 
classificados, segundo os seus antecedentes e personalidade, para orientar a 
individualização da execução penal\u201d (art. 5o). 
Os condenados à pena privativa de liberdade, principalmente aqueles 
a quem foram determinadas penas com modalidade de cumprimento em 
regime fechado, seriam submetidos ao diagnóstico para obtenção de 
elementos necessários à adequada classificação, objetivando estabelecer os 
parâmetros do tratamento penal. 
A Comissão Técnica de Classificação (CTC),para obtenção dos dados 
reveladores da personalidade, deveria realizar inúmeros procedimentos de 
prova, dentre os quais requisitar de repartições ou de estabelecimentos 
privados informações do condenado e entrevistar pessoas, ou seja, realizar 
todas as diligências que considerasse necessárias (art. 92, LEP). Determi-
nação legal aditiva à CTC, conforme a redação original da LEP, era a de 
acompanhar a execução das penas privativas de liberdade (art. 6-, LEP)2, 
propondo à autoridade competente as progressões (art. 112, LEP) e regres-
sões (art. 118, LEP) dos regimes, bem como as conversões de penas (art. 
180, LEP). Presidido pelo Diretor da instituição carcerária, sua estrutura era 
composta, no mínimo, por dois chefes de serviço, um psiquiatra, um psicólogo e um 
assistente social (art. 7o, LEP). 
Diferiam da CTC, cujo labor tinha como escopo avaliar o cotidiano 
do condenado, os afazeres dos técnicos do Centro de Observação 
Criminológica (COC). Este local autônomo da instituição carcerária 
realizaria exames periciais e pesquisas criminológicas que retratariam o perfil 
do preso, fornecendo instrumentos de auxílio nas decisões judiciais dos 
incidentes da execução, nota- damente nos casos de livramento condicional 
e de progressão de regime. Desta forma, enquanto a CTC atuaria no local da 
execução, como observatório do cotidiano do apenado, o COC teria por 
função realizar exames criminológicos mais sofisticados, com intuito de 
 
2 "Art 6o. A classificação será feita por Comissão Técnica de Classificação que elaborará o programa 
individuali- zador e acompanhará a execução das penas privativas de liberdade e restritivas de direitos, 
devendo propor, à autoridade competente, as progressões e regressões dos regimes, bem como as 
conversões."(Redação Original). 
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auxiliar os órgãos judiciais da execução.
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Não obstante os dispositivos da 
LEP, o Código Penal determinava 
funções ao corpo criminológico (COC), 
mormente realizar prognósticos de não 
delinquência, requisito subjetivo obri-
gatório para concessão do livramento 
condicional - \u201cpara o condenado por 
crime dolosó' cometido com violência 
ou grave ameaça à pessoa, a concessão 
do livramento ficará também subordi-
nada à constatação de condições 
pessoais que façam presumir que o 
liberado não voltará a delinquir\u201d (art. 
83, parágrafo único, CP). E, segundo o 
Código, nos casos em que o apenado 
havia praticado delitos considerados 
graves, eram estabelecidas condições 
especialíssimas para concessão do 
direito ao livramento condicional - 
última etapa do sistema progressivo da 
pena. 
Conforme a doutrina, 
A ESTRUTURA DA EXECUÇÃO da pena no 
Brasil é moldada pelo sistema progressivo (art. 
33 do Código Penal); ou seja, após 
cumprimento de um determinado período de 
tempo, dependendo do'mérito'e da'avaliação 
da personalidade' (laudos e pareceres), o 
apenado será transferido a um regime menos 
gravoso (p. ex\u201e progressão do regime fechado 
ao semiaberto e deste ao aberto). 
O livramento condicional, apesar de ser 
considerado a última etapa deste sistema, no 
qual o condenado readquire sua liberdade 
submetendo-se a um controle por parte das 
agências judiciais e penitenciárias, a legislação 
prevê a possibilidade de alcance do direito 
sem a passagem pelas instâncias 
intermediárias (art. 83 do Código Penal). 
No entanto, da mesma forma que o sistema 
permite a transferência para regime menos 
severo, em face de prática de faltas graves (p. 
ex\u201e participação em fuga, rebelião ou motim - 
art. 50, incisos I e II da Lei de Execução), o 
condenado pode regredir seu reime (art. 118 
da Lei de Execução).
 
...o dispositivo se inspira na reclamada defesa social e tem por 
objetivo a prevenção geral. Se após o exame criminológico (ou 
resultar da convicção do juiz) ainda revelar o condenado sinais 
de desajustamento aos valores jurídico-criminais, deverá 
continuar a sofrer imposição daquela pena até o seu limite final 
se a tanto for necessária em nome da prevenção especial. 
(FRANCO, 1993: 535) 
O exame pericial que se estabeleceu na prática forense, após a 
Reforma Penal de 1984, como idôneo para a prognose das condições do 
detento, foi o de cessação de periculosidade, em avaliação análoga àquela 
realizada pelo inimputável sujeito à aplicação de medida de segurança 
quando do incidente de insanidade mental (art. 175, LEP3). Caso
 
3 À guisa de ilustração: "a verificação dos requisitos inseridos no art. 83 e seus incisos, impondo-se 
também a realização da perícia, para verificar a superação das condições e circunstâncias que levaram 
o condenado a delinqüir, consoante o conteúdo do parágrafo único do mesmo dispositivo, e ressalva, 
ainda, que a norma, destinada ao sentenciado por crime violento, caracteriza exigência necessária 
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diante da extinção 
da medida de segurança para os imputáveis"(TA/RS, HC 285039624, Rei.Talai Selistre). 
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contrário, na ausência do exame, o juízo seria absolutamente hipotético, 
cabendo com exclusividade ao julgador atribuir o grau de periculosidade do 
condenado (COSTA