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84 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Unidade II Na primeira parte do curso, analisamos os precursores da Antropologia, o surgimento do ser humano e as noções de cultura, etnia e identidade. Na sequência de nossa discussão, vamos nos ater à formação dessa disciplina a partir do que pensaram seus pais fundadores, ao trabalho antropológico e aos elementos centrais do método dessa ciência, desde a Etnografia até as técnicas de pesquisa e trabalho de campo. Em seguida, traremos à luz alguns dos temas centrais estudados pela Antropologia, como sistemas de parentesco, sistemas políticos, religião, mitos e ritos. Por fim, teremos uma discussão sobre o futuro da Antropologia e como essa ciência pode ser importante no nosso dia a dia e também na formação de um professor de ciências sociais. 5 Os pais fundadOres da antrOpOlOgia 5.1 O evolucionismo social: tylor, Morgan e frazer Vimos até este ponto um pouco da Pré‑História da Antropologia. Terminamos aquele tópico com uma abordagem sobre a visão dominante no século XIX. Convém retomar um pouco do espírito daquele período, no qual era preponderante a ideia do triunfo da ciência sobre as demais formas de pensamento e não havia dúvidas, entre os europeus, da superioridade do “civilizado” em relação às populações selvagens ou primitivas. O sistema colonial estava plenamente instalado e exigia, para seu melhor funcionamento, que se entendesse melhor quem eram os povos das colônias. Se juntarmos a isso tudo a noção de que as ciências, notadamente as ciências humanas, já estavam estabelecidas, com seus métodos específicos, veremos que um curto passo a ser dado seria estabelecer uma ciência que se ocupasse da compreensão desses povos primitivos. É nesse contexto que surge a ciência do antropos. Podemos assim dizer que essa Antropologia é fruto do colonialismo, mas é também o cume de uma preocupação ou necessidade de longa data a respeito da compreensão do outro, do diferente, daquele que é ao mesmo tempo igual e diferente, conforme comentamos anteriormente. Nesse sentido, ela seria um desenvolvimento automático dessa preocupação, tendo, dessa vez, como base de reflexão o pensamento científico. Entretanto, não seria possível, devido às características daquele momento, que essa Antropologia inicial se abstivesse de um forte componente etnocêntrico, uma vez que se tratava da afirmação da superioridade do branco sobre os nativos primitivos. Um detalhe bastante importante a ser ressaltado e que de alguma maneira demonstra certo avanço é que esse nativo não era mais considerado um selvagem, como o fora até o século XVIII. Nesse momento histórico, os nativos das colônias eram também considerados seres humanos (com pleno reconhecimento de sua humanidade), membros de uma mesma espécie, e o que os diferenciaria dos europeus seria o estágio de evolução em que se encontrariam. 85 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Essa primeira escola antropológica ficou conhecida pelo nome de evolucionismo. Num primeiro momento, essas diferenças de estágio evolutivo, tão aparentes para todos aqueles que se detiveram na observação desses povos, eram bastante elucidativas e explicavam com certa coerência as gritantes diferenças entre os povos. Eram influentes, também, as ideias evolucionistas de Charles Darwin. Para esses primeiros pensadores, as diferenças humanas poderiam ser explicadas pelas diferenças de estágio de evolução entre os grupos humanos, agora pensando em termos até de uma evolução biológica. O que reforçava essa posição era a ideia de raça, supostamente, uma noção biológica. Em outras palavras, é como se entre os humanos pudéssemos encontrar, num mesmo período histórico‑geológico, indivíduos de uma mesma espécie em diferentes graus de evolução. Com o passar do tempo, ficará evidente que isso é um grande equívoco. Naturalmente, é um erro pensar assim, pois em nenhuma espécie encontramos, numa mesma época, grupos de indivíduos em diferentes estágios de evolução biológica. Podemos ter, por exemplo, nos dias atuais, elefantes modernos, mas não temos grupos de ancestrais de elefantes. Podemos até encontrar os fósseis desses antepassados dos elefantes modernos, mas eles eram de outra espécie, já desaparecida. Assim é com todos os seres vivos. Mas naquele momento não se tinha clareza disso e se acreditava que entre os humanos poderíamos ter esses diferentes graus de evolução convivendo. As diferentes raças, naquilo que se entendia por raça, seriam as provas evidentes dos diferentes graus evolutivos. Os grupos humanos estariam, assim, distribuídos da seguinte forma: • primitivos (selvageria); • bárbaros (barbárie); • civilizados (civilização). Vamos lembrar que o progresso tecnológico e científico estava em pleno auge no século XIX. A exploração pelo interior do território europeu fez que fossem encontrados fósseis de nossos antepassados em regiões até então não exploradas. Chamados de homens das cavernas, esses fósseis não eram vistos, num primeiro momento, como exemplares de humanos primitivos. As diferentes feições físicas, por exemplo, entre as nossas e as dos fósseis de neandertalenses encontrados eram atribuídas a indivíduos com deficiências e portadores de doenças causadoras de má‑formação. A visão religiosa de então não permitia compreendê‑los como nossos antepassados. Com o avançar da ciência e o começo da aceitação das ideias de Darwin, os homens das cavernas passaram a ser vistos como registros fósseis do passado histórico dos europeus. Junto aos fósseis foram descobertos artefatos de pedra, como os famosos machados. Dessa maneira, a comparação com o modo de vida dos povos tribais, que também utilizavam ferramentas líticas, era evidente. Para os pensadores daquele período, os índios estariam no mesmo estágio em que os europeus haviam estado no passado. Essa visão incorporava o índio no universo humano, afinal, os europeus também haviam passado por aquele estágio, o que explicaria as diferenças gritantes entre eles e o ocidental moderno. 86 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II lembrete Voltemos um pouco no tempo para lembrar o que tratamos como a Pré‑História antropológica. Uma vertente que tinha em suas origens influências de pensadores como Rousseau tinha ganhado corpo e se ocupava em perceber as características humanas como fruto da aprendizagem, muito mais do que das aptidões inatas. Mesmo antes desse mestre francês, Locke (1632‑1714) já havia definido a mente humana como uma caixa vazia que seria preenchida ao longo do processo de aprendizagem. Os primeiros pensadores antropológicos não ficaram exclusivamente presos à visão evolucionista com viés biológico. Interessava‑lhes verificar as diferenças culturais. Essa vertente da Antropologia começava a se voltar para os aspectos sociais como base para se compreender a espécie humana. No entanto, ainda não havia um conceito que definisse plenamente o que entendemos por cultura. 5.1.1 Tylor Foi somente em 1871 que apareceu, pela primeira vez, o conceito de cultura para dar conta das diferenças entre os grupos humanos explicando‑as como não provenientes da herança biológica, mas da aprendizagem. O grande marco dessa nova concepção foi, sem sombra de dúvida, a publicação do livro de Edward Tylor, Primitive Culture (Cultura Primitiva). Nessa obra, o antropólogo inglês, um dos pais fundadores da Antropologia, definia cultura como um atributo exclusivamente comportamental, compreendido como um conjunto de hábitos adquiridos pelo ser humano em sociedade por um processo de aprendizagem.Tylor (1832‑1917), assim como seus contemporâneos evolucionistas, ainda estava fortemente influenciado pelas ideias biológicas, mas procurava, na cultura, as raízes da diversidade humana e via nela uma invenção humana e o fruto da aprendizagem em um meio social. Apesar disso, nesse período, o viés etnocêntrico e racista ainda era bastante presente, uma vez que as diferenças entre os povos eram relacionadas a estágios diferenciados da evolução, estando o ranço europeu no topo do processo evolucionário. É isso o que caracteriza a Antropologia Evolucionista. Além do ranço biológico, o evolucionismo compartilhava algumas ideias com o Iluminismo, como a noção de que o desenvolvimento social era um processo inevitável e determinado. De igual maneira, assumia a ideia de que as sociedades começavam num estágio de natureza e progrediam para um estágio civilizado. É preciso, contudo, reconhecer que a Antropologia não é fruto do trabalho de um único autor. Geralmente localizamos em Edward Tylor a fundação da Antropologia. Isso se deve, principalmente, ao uso pioneiro da noção de cultura no livro Primitive Culture. Porém, vários outros autores daquela época contribuíram para o surgimento da nova ciência. Dentre eles citamos: Henry Maine (inglês, 1822‑1888), com a publicação, em 1861, de Ancient Law (Lei Antiga ou Primitiva); Johann Bachofen 87 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia (suíço, 1815‑1887) com a publicação, também em 1861, de Das Mutterrecht (Matriarcado); Adolf Bastian (alemão, 1826‑1905), precursor da noção de unidade psíquica da humanidade; Lewis Morgan (estadunidense, 1818‑1881), com o livro A Sociedade Primitiva, de 1877; e James Frazer (inglês, 1854‑1941), com a publicação de O Ramo de Ouro, em 1890. saiba mais Dos livros citados, apenas o de Morgan e o de Frazer estão traduzidos para o português. No entanto, há uma boa coletânea de textos de Tylor, Morgan e Frazer disponível: CASTRO, C (Org.). Evolucionismo cultural: textos de Morgan, Tylor e Frazer. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. O livro de Frazer, O Ramo de Ouro, tem uma edição resumida, mas ricamente ilustrada, que vale a pena conferir: FRAZER, J. G. O ramo de ouro. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. O livro de Morgan possui uma publicação portuguesa: MORGAN, L. A sociedade primitiva. Lisboa: Presença, 1980. v. 1 e 2. 5.1.2 Maine Henri Maine ficou famoso por trabalhar a noção de lei nas sociedades primitivas. De acordo com sua tese, entre os indivíduos do mundo antigo, havia um forte vínculo com o status de grupos tradicionais, enquanto, no mundo moderno, no qual os indivíduos são vistos como agentes autônomos, eles são livres para fazer contratos e formar associações com quem escolherem. Bachofen foi jurista e também pioneiro na Antropologia. Famoso pelos estudos sobre o matriarcado, ele reuniu documentos demonstrando que a maternidade é a fonte de todas as sociedades humanas, além de ter lidado com a relação entre o matriarcado e o direito da mãe com a religião. Podemos pensar em Bachofen como um dos precursores dos estudos de parentesco, tão importantes na Antropologia, como veremos adiante. Mas são Tylor, Morgan e Frazer justamente os três nomes centrais do pensamento evolucionista na Antropologia. Em todas as obras desse período, nota‑se uma forte intenção de se estabelecer um verdadeiro corpus etnográfico da humanidade. Há nelas a perspectiva de perceber a humanidade de um modo geral, de se incluir o primitivo, embora não mais aquele selvagem do tempo do Iluminismo, vivente num estado 88 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II de natureza e distante da humanidade. Dessa maneira, a Antropologia, na busca da compreensão do significado de ser humano, volta‑se para as nossas origens, para as formas mais simples de organização e de mentalidade. A sociedade moderna ocidental seria, assim, o fruto de uma evolução que teria começado nos estágios mais primitivos. Esse evolucionismo empreendeu um método comparativo, estabelecendo na comparação entre as diferentes sociedades a fonte da compreensão dos seres humanos. Porém, buscava‑se a confrontação de elementos isolados de seu contexto cultural mais amplo, fato que seria fortemente criticado posteriormente. Para entender melhor, convém apontar alguns exemplos. As vestimentas eram comparadas entre as diferentes sociedades. As roupagens extremamente simples que um indígena usava eram vistas, a partir da moral cristã europeia, quase como nudez. Comparava‑se o hábito indígena com o de um britânico da Era Vitoriana, que trajava vestimentas altamente sofisticadas. O resultado seria colocar o indígena num dos extremos do gradiente da evolução, e o ocidental moderno, principalmente se britânico, no outro extremo. Esse tipo de comparação era feito também em vários outros aspectos, como é o caso da religião. As sociedades tidas como as mais primitivas eram as aborígines da Austrália. Suas crenças giravam em torno do totemismo e eram vistas como um pensamento não racional, arcaico e bastante inferior ao cristianismo monoteísta do europeu. Observação Totemismo é um conjunto de ideias e práticas baseadas na crença na existência de um parentesco entre seres humanos e animais ou plantas. A partir dessa noção de parentesco se dá a formulação de toda a organização social. Esse método comparativo empreendido pelos evolucionistas consistia em ordenar os fenômenos observados, segundo princípios estabelecidos de antemão. Era, portanto, uma postura etnocêntrica. Os elementos eram comparados segundo o que se supunha ser uma ordem lógica evolutiva. O estudo do parentesco tinha a noção ocidental de família como parâmetro. Ao verificar formas diferentes de parentesco entre muitas organizações indígenas, a conclusão era a não compreensão da complexidade dessas sociedades, seguida da sua classificação como promíscuas. Essa promiscuidade era vista como uma ausência de estrutura familiar e, portanto, um estágio inicial, primitivo, de todo e qualquer sistema de parentesco. Uma característica fundamental do método evolucionista era a noção da existência de uma linha evolutiva única entre todos os povos humanos, a qual teria uma tendência a ser seguida inevitavelmente de maneira ascendente. Nesse princípio se inseria a visão da unidade psíquica da humanidade, ou seja, todos os seres humanos teriam o mesmo potencial de desenvolvimento, embora estivessem em graus bastante diferenciados na evolução. O pensamento primitivo era, assim, tido como uma maneira errônea de pensamento, não porque o primitivo fosse um selvagem, mas somente porque estaria em um estágio primitivo de um processo que 89 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia ele ainda teria de percorrer até chegar ao estágio científico. Essa noção de unidade psíquica, desenvolvida por Adolf Maine, foi importante, entre outras razões, por influenciar o pensamento de autores como Carl Jung. Mais tarde, o francês Lucien Lévy‑Bruhl elaborou a tese da mentalidade primitiva, dizendo que o primitivo não pensava de maneira lógica, como os ocidentais, mas de modo pré‑lógico. Guardadas as evidentes críticas que devem ser feitas ao pensamento evolucionista, principalmente, com relação à visão etnocêntrica, essa corrente de pensamento pioneira trouxe consideráveis contribuições. Foram os evolucionistas os primeiros a organizar e formalizar um pensamento científico sobre as diferenças humanas e a contribuir teoricamente com a análise da realidade social para o conhecimento de diferentes sociedades e para o entendimento da humanidadede modo geral. 5.1.3 Frazer Outra forte característica desses desbravadores da ciência antropológica é a ausência do trabalho de campo, ou seja, aquilo que é hoje uma característica elementar da Antropologia era evitado pelos evolucionistas. Eles foram, assim, chamados de antropólogos de gabinete, justamente por terem construído suas teorias de dentro de seus confortáveis gabinetes e não terem mantido contato com aqueles que denominavam primitivos. Apesar disso, esses antropólogos tinham enorme capacidade de juntar os mais diversos dados possíveis, coletados por viajantes, missionários e agentes coloniais, e de fazer suas comparações, em busca das unidades evolutivas. Há uma famosa piada, não sabemos se verdadeira ou não, contando que, quando indagado se conhecia algum primitivo, Frazer teria respondido à pergunta com um sonoro “não, graças a Deus”. Frazer colecionava uma infinidade de fatos etnográficos de todo o mundo, do tempo presente e também de épocas historicamente mais distantes, além de procurar verificar numa ordem lógica a verdadeira história da humanidade. Nesse processo, ele separava os fatos de seus contextos originais, importando, apenas, o fato em si. A fenomenal obra de Frazer, O Ramo de Ouro, de 1890, é uma coletânea de inúmeros mitos, rituais e crenças de diferentes povos, desde indígenas atuais até textos bíblicos e rituais do Egito e da Roma antiga. Uma verdadeira epopeia antropológica. Figura 18 – Capa do livro O Ramo de Ouro 90 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Apresentada em sua versão ilustrada em doze volumes, a obra busca compreender um mito do norte da Itália: o herói, sacerdote‑rei do bosque sagrado de Diana, e também seu consorte, que passa a vida ao pé de uma árvore sagrada, na beira do lago Nemi, sabe que seu sucessor deve assassiná‑lo, depois de ter roubado um ramo de visgo ou visco (o ramo dourado) que cresce no alto da árvore. As previsões se realizam quando as suas forças declinam, iniciando um novo ciclo da narrativa. O ramo dourado é citado apenas marginalmente numa nota de rodapé de um verso de Ovídio sobre o santuário de Diana. Ele é apenas o artifício utilizado por Frazer para fazer toda a sua narrativa. Frazer utiliza esse quadro para apresentar uma vasta documentação colhida na biblioteca de Cambridge. As perguntas de Frazer são: por que o sacerdote de Diana, o rei do bosque, tinha de matar seu predecessor? Por que, antes de matá‑lo, tinha de arrancar um visgo de ouro? A primeira parte do livro é dedicada à distinção entre magia e religião (esforço do homem para conciliar os poderes superiores). Para Frazer, há uma evolução do pensamento que começa na magia e chega à ciência. Uma vez que tanto magia quanto ciência lidam com a Lei de Causa e Efeito, Frazer afirma que a magia é a precursora do pensamento científico. No entanto, o selvagem primitivo não consegue fazer a distinção entre natural e sobrenatural; seu mundo é regido por forças sobrenaturais. O nativo confunde as duas coisas. A sequência lógica seria sair do mundo sobrenatural da magia e chegar à ciência, essa sim evoluída e, portanto, correta. No entanto, aqueles que não conseguem dar o salto qualitativo caem na submissão a um poder superior. Renunciando a uma explicação científica do mundo, aceitam a vontade dos deuses e permanecem nas forças do sobrenatural, agora na religião. Assim, a religião seria sinônimo do fracasso de se pensar cientificamente. O grande valor dessa obra está na sua qualidade artística e na capacidade de recriar o espírito humano em algumas de suas expressões mais dramáticas, em diferentes tempos e sociedades. Por meio dessa multiplicidade infinita de manifestações, Frazer procura demonstrar a unidade essencial do espírito humano, pois percebe uma continuidade dos mesmos jogos de pensamento se repetindo ao longo dos tempos. Pretende, portanto, mostrar a progressão constante de formas rudes e perversas de conduta para formas cada vez mais purificadas e espiritualizadas – ou seja, a da realeza britânica. No pensamento dos evolucionistas, há um enfoque centralizado em alguns temas. Notadamente, podemos perceber uma recorrência aos estudos de parentesco e de religião. Essas temáticas permaneceram centrais na Antropologia até os dias atuais. Mas por que despertaram a atenção já dos primeiros antropólogos? A perspectiva de compreensão das diferenças humanas passava, inevitavelmente, pela comparação entre as sociedades. Talvez dois dos fatores que tenham chamado tanto a atenção dos antropólogos tenham sido justamente o parentesco e a religião. Esta última em sua intrínseca relação com a magia. Afinal, para esses evolucionistas, o primitivo não tinha religião, apenas magia. Para alguns pais fundadores dessa ciência, o que mais chamava a atenção na comparação desses outros com o europeu branco, cristão e civilizado, era o fato de haver um enorme fosso no universo de compreensão e visão do mundo e nos hábitos um tanto exóticos dos nativos. Não se reconhecia nessas crenças uma verdadeira religião – que só podia ser monoteísta, revelada e denominada religião do 91 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia livro. Extraordinariamente a essa ideia, podiam ser classificadas como religiões, no máximo, as grandes tradições do Oriente, como as religiões da Índia, da China e do Japão. Os povos tidos como primitivos eram detentores, dizia‑se, de uma mentalidade primitiva, que enxergava feitiçarias e animismos em todos os cantos. Pensar o diferente englobava pensar as diferentes mentalidades, fossem elas consideradas animistas, mágicas, míticas ou até pré‑lógicas. A preocupação de fundo era, justamente, perceber como os povos primitivos podiam pensar de modo tão distante da maneira dos ocidentais. Tratava‑se de perceber a espécie humana por meio de uma unidade psíquica que ligaria o primitivo ao civilizado. O que poderia, então, distingui‑los era justamente o estágio de desenvolvimento das ideias. Enquanto uns pensavam ainda de maneira animista ou mágica, outros já tinham alcançado um estágio superior de desenvolvimento e de compreensão da realidade, sabendo separar a ciência, voltada para as coisas materiais, da religião, voltada para a dimensão da relação com o criador e para a verdade última. Para Edward Tylor, o animismo seria universal e o primeiro estágio do processo evolutivo daquilo que viria a se tornar a religião. Embora sem a crença em deuses, o primitivo atribuía os fenômenos naturais à intervenção de espíritos benevolentes ou malévolos. Para o animismo, o mundo estaria povoado por seres que habitariam os objetos, as plantas, os animais e os homens. As experiências da doença, da morte e, sobretudo, dos sonhos estariam nas origens da noção de alma. Isso levaria o primitivo a imaginar que existiria um ser, dotado de uma substância espiritual, que estaria além do corpo físico. Com a evolução das culturas, o animismo daria lugar ao politeísmo e depois ao monoteísmo. É famosa a definição de religião elaborada por Tylor. A Tese da Unidade Psíquica da Humanidade percebe nos mitos concordâncias espantosas, como entre mitos de índios americanos e africanos ou australianos. Para ele, é o recurso da Psicologia que poderia explicar essas coincidências, como o medo de pesadelos e a crença disseminada na existência de uma alma distinta do corpo. Freud utilizou as interpretações de Tylor na Psicanálise, tomando sua ideia de que os místicos, o esquizofrênico e também a criança e o primitivo valorizam seus próprios desejos. Para esse britânico pioneiro, religião era a crença em seres sobrenaturais ou espiritualizados. Desse modo, num gradiente evolutivo, haveria desde a crença animistaaté a formulação mais sofisticada do divino. Tylor, contudo, não se restringiu apenas à definição de cultura nem à questão de animismo. Em seu livro Primitive Culture, aparecem também reflexões sobre o tema do parentesco. Ele percebeu que a circulação de bens dentro de uma sociedade indígena se dá a partir da classificação entre os diferentes clãs. Apesar de verem as formações familiares como aberrações primitivas, os evolucionistas perceberam que essas sociedades se organizavam a partir do parentesco. Sendo a noção de família algo básico, o que chamou a atenção de alguns deles foi como essas sociedades poderiam continuar existindo, apesar de formularem sistemas de parentesco que lhes pareciam tão equivocados. Parentesco e família pareciam, também, um belo exemplo de comparação com a sociedade europeia, principalmente, naquilo que acarretava termos de comparação moral. Distante do continente europeu, mas afinado com a mesma formulação teórica, temos o norte‑americano Lewis Morgan. Foi ele quem iniciou o estudo comparativo dos sistemas de parentesco. 92 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Morgan estudou os índios dos Estados Unidos e ficou bastante impressionado com os iroqueses, que ficaram famosos pela utilização de estruturas matrilineares, ou seja, famílias que se classificavam a partir de descendência materna. Morgan fez uma análise aprofundada em relação aos costumes e regras sociais dos iroqueses, tendo como ponto de partida as relações de parentesco. Ao analisar os índios iroqueses, o antropólogo percebeu que havia uma lógica que determinava as relações familiares. Foi Morgan que estabeleceu as tipologias de formas de parentesco diferentes e que até os dias de hoje são bastante utilizadas na Antropologia. Ele utilizou as expressões sistema classificatório e sistema descritivo. Os sistemas classificatórios eram característicos das sociedades primitivas, com classificações de termos de parentesco que podiam ir muito além daquelas conhecidas na sociedade ocidental, como pai, mãe, filho, primo e avô. Além dos iroqueses, em outras das sociedades estudadas por Morgan, aparecem diferentes terminologias para primos, como primo paralelo e primo cruzado, ou tio materno e tio paterno. Se para nós essa diferenciação entre primos ou tios não faz nenhuma diferença, para os povos primitivos significava situações completamente diferentes, a ponto de um ser parente e outro não, ou um ser preferível para se casar e outro considerado parente tão próximo que seria proibido o estabelecimento de laços matrimoniais. O sistema descritivo, no entender desse autor evolucionista, seria próprio da sociedade considerada civilizada e estabeleceria a classificação de parentesco segundo a ordem biológica, ou seja, a verdadeira. Sem dúvida, essa visão trouxe uma forte conotação etnocêntrica, própria do pensamento evolucionista, mas representou um ganho ao mostrar que os sistemas de parentesco possuíam lógicas próprias e que interferiam na vida social. Em suma, a Antropologia Evolucionista, com todos os problemas de ordem etnocêntrica e preconceituosa que podemos localizar, representou a abertura da compreensão da cultura e das diferenças entre os agrupamentos humanos, de um ponto de vista científico. Estava, desse modo, criada a Antropologia como uma ciência. 5.1.4 O darwinismo social 5.1.4.1 Spencer De certa maneira, ainda relacionada à visão evolucionista, embora não tenha a ver diretamente com a Antropologia, está a ideia do darwinismo social. Essa expressão foi criada a partir das posições de um filósofo inglês, Herbert Spencer (1977, p. 147‑9), profundo admirador do pensamento de Charles Darwin. Embora Spencer nunca tenha utilizado a expressão darwinismo social, as ideias centrais dessa teoria foram por ele propostas. Para esse pensador britânico, as leis da evolução descobertas por Darwin poderiam ser aplicadas às sociedades humanas. Quando falamos em sobrevivência do mais forte, logo pensamos se tratar de uma ideia de Darwin, mas, na verdade, foi uma criação de Spencer para explicar e justificar as divisões sociais existentes na sociedade. Convém ressaltar que Darwin estava preocupado com a evolução biológica e nunca utilizou sua teoria para explicar as diferenças sociais ou as desigualdades entre classes sociais. Foram outros autores, 93 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia a começar por Spencer, que procuraram justificar a divisão da sociedade em classes, sugerindo que as diferenças fossem exemplos de seleção natural por meio do conflito e da competição entre os grupos sociais, sobrevivendo, ou tendo mais êxito, aqueles mais fortes ou aptos. Como consequência desse tipo de pensamento, surgem as explicações de que os mais pobres eram menos aptos, enquanto os mais ricos, que haviam prosperado economicamente, eram mais aptos a sobreviver e, portanto, mais evoluídos. Essas explicações justificavam desde a dominação imperialista das metrópoles sobre as colônias, no processo do sistema colonial descrito anteriormente, até o sucesso de alguns empresários que haviam demonstrado sua capacidade de vitória no competitivo mundo dos negócios. Outras consequências danosas desse pensamento foram o fortalecimento e a justificativa dados ao racismo, como se a superioridade de uma raça (ao menos, daquilo que se convencionou chamar de raça) sobre outra fosse fruto da luta pela vida e da sobrevivência do mais forte. Não é preciso ir muito longe para compreender as terríveis consequências dessa visão. Porém, é sempre bom lembrar que no senso comum muitas pessoas continuam repetindo esses velhos preconceitos, embora em termos científicos nada justifique ou comprove as teses do darwinismo social. 5.2 a crítica ao evolucionismo: Boas e Malinowski Na virada do século XIX para o XX, a Antropologia empreendeu uma forte crítica à visão evolucionista e a seu viés etnocêntrico. Podemos afirmar que, a partir de então, o reconhecimento de que as diferenças entre as culturas humanas não podem ser compreendidas por serem mais ou menos primitivas ou civilizadas tornou‑se um postulado para a Antropologia. lembrete Chama‑se relativização ou relativismo cultural o processo de não valorização de uma cultura em detrimento de outra, tomada, num olhar etnocêntrico, a partir dos valores da primeira. Essa crítica surgiu em dois contextos diferentes e, consequentemente, acarretou posições teóricas também distintas. Nos Estados Unidos, surge com Franz Boas o culturalismo ou Antropologia Cultural. Na Europa, desenvolve‑se outra corrente teórica, denominada funcionalismo, principalmente, com Bronislaw Malinowski. Ambas criticam a visão evolucionista, mas são bastante diferentes entre si. lembrete Embora o pensamento evolucionista tenha sido fortemente criticado e não seja mais aceito atualmente na Antropologia, muitas pessoas continuam acreditando que existem povos mais primitivos e outros mais evoluídos. 94 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Um ponto fundamental de distinção dessa crítica empreendida por Malinowski e por Boas com relação ao pensamento evolucionista diz respeito ao contato direto com os povos nativos. Surge, então, a Etnografia, a qual pressupõe que o próprio antropólogo colha seus dados por meio de um trabalho de campo de observação direta. Esse procedimento elimina a divisão anterior, na qual o observador era um viajante ou missionário, e o antropólogo permanecia distante, dentro de sua biblioteca ou de seu gabinete. Esse trabalho de campo, portanto, deve ser a própria fonte de pesquisa do antropólogo.Por trás dessa postura está a concepção de que não se está falando de fósseis do passado quando se trata de sociedades primitivas ainda existentes ou das fontes históricas de povos antigos, mas sim de culturas vivas, atuais, tanto quanto a moderna sociedade ocidental. Há diferenças entre ambas, claro, mas essas não podem ser imputadas a estágios evolutivos diferenciados. Todas as culturas, assim, seriam historicamente evoluídas; a questão seria entender em que medida se daria a diferença entre elas. Da mesma maneira que nos referimos à escola teórica evolucionista, não podemos dizer que essa crítica seja feita apenas com base na obra de um ou dois pensadores. Vários antropólogos do período de virada de século promoveram trabalhos de campo e contato direto com os nativos. Radcliffe‑Brown (inglês, 1881‑1955) desenvolveu um estudo com os habitantes das ilhas Andamã, no Oceano Índico, entre os anos de 1906 e 1908. Charles Seligman (inglês, 1873‑1940) esteve entre os melanésios da Nova Guiné, em 1904. Em 1907, esteve no Ceilão e, posteriormente, entre 1909 e 1910, no Sudão. William Rivers (inglês, 1864‑1922) estudou os toda na Índia. Porém, são Boas e Malinowski os pensadores mais influentes desse período. As duas correntes relativizadoras tomam a história única dos evolucionistas como parâmetro de suas críticas, mas em situações opostas. Para a corrente culturalista (Boas), não existe uma história única, mas inúmeras histórias particulares, tantas quantas são as culturas diferentes. Cada qual teria traçado sua própria história particular. Essa corrente também é reconhecida como particularismo histórico. Para o funcionalismo (Malinowski), a história não tem a importância dada pelas demais correntes, o que importa é a compreensão de uma determinada cultura num dado momento específico. Veremos essas duas correntes teóricas de maneira mais aprofundada a seguir. 5.2.1 O culturalismo de Franz Boas (1858‑1942) Boas nasceu na Alemanha, em 1858. Antes da Antropologia, Boas interessou‑se por física, formando‑se doutor nessa área em 1881. Ao desenvolver pesquisas sobre Psicofísica entre os inuítes (esquimós), no norte do Canadá, teve seu primeiro trabalho de campo e contato com um povo nativo. Esse contato foi decisivo para a mudança de suas preocupações e para o seu encaminhamento à Antropologia. Depois dessa experiência, estabeleceu‑se nos EUA. Em 1896, passou a ser curador de Etnologia do Museu Americano de História Natural. Logo depois, tornou‑se professor da Universidade Columbia, em Nova Iorque. Seu trabalho na universidade foi de fundamental importância para o estabelecimento acadêmico da disciplina nos EUA. Em torno de Boas formaram‑se grandes nomes da Antropologia norte‑americana, como Margaret Mead, Melville Herskovits, Ruth Benedict e Alfred Kroeber. Para a Antropologia brasileira, Boas teve grande influência na formação de Gilberto Freyre. 95 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Figura 19 – Franz Boas Boas foi o responsável pela formulação do conceito de etnocentrismo, em sua crítica à postura evolucionista e em sua defesa da ideia da necessidade de se estudar cada cultura em seus próprios termos e processo histórico particular. O antropólogo criticou de maneira veemente a noção de evolução única para toda a humanidade e defendeu a visão de que os povos são diferentes devido às trajetórias históricas desiguais que trilharam. Vem de Boas a crítica aos conceitos de determinismos biológico e geográfico. Ou seja, a cultura não é fruto dos determinantes biológicos e da raça, nem das condições geográficas em que se acha inserida. Para ele, a dinâmica da cultura está na interação dos indivíduos com a sociedade. Para Boas, as situações assemelhadas em duas diferentes culturas não podem ser atribuídas a uma linha evolutiva comum. Esses eventos poderiam ter se originado de diferentes caminhos, tendo em cada cultura um significado próprio e diferente. Para compreender o sentido próprio de cada cultura, seria fundamental a compreensão da história de cada grupo estudado. Para Boas, não há, portanto, uma cultura única, mas culturas particulares, sempre no plural. As culturas são, assim, todas elas, independentemente da sua situação, dinâmicas e, justamente por isso, sofrem mudanças ao longo do tempo. É preciso perceber qual o sentido dado pelos membros de uma cultura às suas práticas cotidianas. Figura 20 – Um inuíte, da capa do livro A Formação da Antropologia Americana, de Franz Boas 96 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II As principais obras de Franz Boas foram: The Mind of Primitive Man (A Mente do Ser Humano Primitivo), de 1911, Primitive Art (Arte Primitiva), de 1927, e Race, Language and Culture (Raça, Língua e Cultura), de 1940. Há, ainda, uma coletânea de textos e discursos proferidos pelo mestre teuto‑americano. saiba mais Os textos de Boas publicados no Brasil são: BOAS, F. Arte primitiva. São Paulo: Fenda, 1996. ___. A mente do ser humano primitivo. Petrópolis: Vozes, 2011. ___. A formação da Antropologia americana: 1883‑1911. Organização e introdução de George Stocking Jr. Rio de Janeiro: Contraponto; UFRJ, 2004. Boas e seus discípulos desenvolveram um longo trabalho de mapeamento das populações nativas norte‑americanas. Foi ele o responsável pela notável pesquisa entre os kwakiutl e os chinook, da Colúmbia Britânica, no oeste do Canadá. Suas pesquisas ficaram notabilizadas pela precisão minuciosa. Para ele, tudo deveria ser anotado, desde a construção das casas até as melodias cantadas pelos nativos. Diferentemente dos evolucionistas, que se preocupavam com a comparação de alguns elementos entre diferentes culturas, o culturalismo atentava à cultura estudada em si, como uma totalidade autônoma. Boas deu muita importância ao estudo da língua por parte do pesquisador, pois só assim este poderia ter acesso às particularidades da cultura estudada. Embora não tenha deixado escrito nenhum tratado teórico de peso, sua influência na Antropologia foi significativa. Uma importante geração de antropólogos que constituiriam a Antropologia nos Estados Unidos teve sua formação a partir de Boas e de seu culturalismo. 5.2.2 O Funcionalismo de Bronislaw Malinowski (1884–1942) Bronislaw Malinowski nasceu na Polônia e se formou, inicialmente, em Ciências Exatas. Após a leitura de O Ramo de Ouro, de James Frazer, resolveu abandonar a carreira de Física e Matemática e dedicar‑se à Antropologia. Após breve passagem pela Alemanha, foi estudar na Inglaterra, com o próprio Frazer. Em menos de três anos, já era tido como antropólogo promissor. O início de sua carreira acadêmica coincidiu com um período de grande crescimento da Antropologia, caracterizado pela busca de novas técnicas de pesquisa e pela crítica aos métodos interpretativos existentes. Malinowski ficou notabilizado pela introdução do trabalho de campo na Antropologia. Embora saibamos que ele não foi o pioneiro, vieram dele as maiores contribuições para a sistematização desse tipo de levantamento de dados. 97 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Esse antropólogo polonês ficou por vários anos em ilhas do arquipélago Trobriand, na Nova Guiné. Ninguém antes dele havia se esforçado tanto para penetrar na vida dos nativos e procurar levar uma vida tal qual a do povo estudado. Sua monografia, publicada em 1922, sobre os trobriandeses é um primor não apenas no relato cativante e envolvente, mas na descrição do método empregado. Malinowski inicia seu relato com a descrição de uma cena que poderia ser desalentadora para amaioria de nós. Diz ele: [...] imagine‑se o leitor sozinho, rodeado apenas de seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar‑se no mar até desaparecer de vista. Tendo encontrado um lugar para morar no alojamento de algum homem branco – negociante ou missionário – você nada tem a fazer a não ser iniciar imediatamente seu trabalho etnográfico. [...] Lembro‑me bem das longas visitas que fiz às aldeias durante as primeiras semanas; do sentimento de desespero e desalento após inúmeras tentativas obstinadas, mas inúteis para tentar estabelecer contato real com os nativos e deles conseguir material para minha pesquisa. Passei por fases de grande desânimo, quando então me entregava à leitura de um romance qualquer, exatamente como um homem que, numa crise de depressão e tédio tropical, se entrega à bebida (MALINOWSKI, 1976, p. 19). Após um período de adaptação, o antropólogo deveria ficar atento a tudo o que ocorresse ao seu redor. Essa busca incorria num verdadeiro processo de alteridade, de relação com o outro. A meta era viver tal qual um nativo, ou, como diz o próprio Malinowski, ver o mundo a partir do ponto de vista daquele a quem se está estudando. Ele continua: [...] tive de aprender a comportar‑me como eles e desenvolvi uma certa percepção para aquilo que eles consideravam como “boas” ou “más” maneiras. Dessa forma, com a capacidade de aproveitar sua companhia e participar de alguns de seus jogos e divertimentos, fui começando a sentir que entrara realmente em contato com os nativos. Isso constitui, sem dúvida alguma, um dos requisitos preliminares essenciais à realização e ao bom êxito da pesquisa de campo (MALINOWSKI, 1976, p. 22). Esse livro marcou profundamente a história da Antropologia. o autor radicalizou a necessidade de compreensão da cultura em estudo “por dentro”. Para isso, procurou romper os contatos com o mundo europeu e estabelecer a permanência do antropólogo no meio da aldeia a ser estudada. Quanto à postura teórica, o pensamento de Malinowski trouxe a ruptura com a visão de história única dos evolucionistas por meio do estudo de uma sociedade enquanto uma totalidade. Desaparece, então, a necessidade de se estabelecer comparações entre duas ou mais culturas e inseri‑las numa linha evolutiva única, a que estabelecia aquela mais primitiva e a mais evoluída. Para o funcionalismo de Malinowski, todas as culturas são consideradas válidas e corretas, mas devem ser analisadas cada qual em si. É preciso verificar como funciona uma dada sociedade no 98 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II momento em que a observamos. É nesse sentido que o funcionalismo não considera a história como elemento‑chave de seu recorte analítico. Não devemos pensar que essa corrente de pensamento tenha obliterado o desencadeamento histórico. É evidente que ele reconhece que as sociedades são históricas, mas, para sua análise, importa apenas a situação num dado momento. Como numa fotografia de um momento, a análise funcionalista procura os elementos da cultura estudada que contribuem para o funcionamento da sociedade em si. Há uma busca intensiva e contínua por analisar uma microssociedade sem se referir à sua história. Para Laplantine, é com Malinowski que a Antropologia se torna uma ciência da alteridade, que se “dedica ao estudo das lógicas particulares características de cada cultura” (LAPLANTINE, 1988, p. 81). Os povos estudados pelos antropólogos, por mais exóticos que possam parecer à primeira vista, não são resquícios de um passado primitivo, uma infantilidade da humanidade. Hoje, todos os etnólogos estão convencidos de que as sociedades diferentes da nossa são sociedades humanas tanto quanto a nossa, que os homens e as mulheres que nelas vivem são adultos que se comportam diferentemente de nós, e não ”primitivos”, autômatos atrasados (em todos os sentidos do termo) que pararam em uma época distante e vivem presos a tradições estúpidas (MALINOWSKI, 1976, p. 81). A coerência interna de uma sociedade a ser estudada é a meta a ser atingida por essa ciência desenvolvida por Malinowski. Nisso consiste a herança que vem do sociólogo Émile Durkheim. Para esse mestre francês, a sociedade é formada por várias instituições, que, como num organismo ou corpo, possuem cada qual a sua função. O bom funcionamento de todas elas garante a saúde da sociedade inteira. Durkheim partia de uma perspectiva das ciências naturais para estudar a sociedade, principalmente, da Medicina. Malinowski segue na mesma direção, e é com este último que o termo funcionalismo ganha o uso corrente que encontramos nos dias de hoje. O termo vem das funções que cada instituição (econômica, política, familiar, etária, educativa etc.) tem para atender às necessidades da sociedade e da cultura em geral. A partir disso, o mais importante é verificar, a cada momento, como uma dada sociedade está organizada e como funciona. O retrato estático, sincrônico é mais importante que o filme dinâmico, diacrônico. Convém, neste ponto, retomar alguns tópicos da obra máxima de Malinowski, tida com um dos grandes clássicos da Antropologia até os dias atuais. Os Argonautas do Pacífico Ocidental, livro publicado em 1922, representou uma verdadeira revolução na Antropologia. A obra teve enorme repercussão, inclusive, entre o público leigo, pois apresentou uma nova visão de ser humano e indicou uma nova maneira de compreender o nosso comportamento. Desfez, assim, a visão anterior das sociedades tribais como fósseis vivos do passado, como aglomerados de crenças e costumes irracionais e desconexos. Os costumes e as crenças de qualquer povo, por mais 99 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia exóticos que possam parecer à primeira vista, adquirem plenitude de significado, e o comportamento nativo, dessa forma, aparece como ação coerente e integrada. Nesse livro, Malinowski trabalha a ideia de que todos os aspectos sociais, como religião, mito, parentesco, economia, organização social etc. devem ser vistos a partir da perspectiva do kula, um sistema de trocas. Essa perspectiva permitiu perceber a totalidade integrada da vida social. O kula foi algo que logo chamou a atenção de Malinowski, e foi com essa instituição que o autor pôde compreender a cultura trobriandesa em sua totalidade. kula é a troca de colares e braceletes entre os habitantes das ilhas circunvizinhas. A troca não tem o caráter meramente econômico que podemos pensar em nossa sociedade, muito menos uma visão utilitarista. É comum serem trocados braceletes e colares tão pequenos ou tão grandes que seu uso seria impraticável. Mas por que esses nativos fazem essas trocas? Os habitantes das ilhas fabricam canoas, praticam rituais e promovem viagens de vários quilômetros pelo mar bravio com a finalidade de realizar as trocas. O arquipélago tem as ilhas dispostas numa forma circular. Os colares, feitos de coral avermelhado, são trocados sempre no sentido horário, entre uma ilha e outra, enquanto os braceletes, de conchas brancas, caminham na direção oposta. Mas não é qualquer pessoa que pode simplesmente dar um bracelete ou um colar a qualquer outra. Aparece, então, uma série de regras de hierarquias e posições sociais. Esses habitantes das ilhas Trobriand estabelecem relações entre si a partir da instituição kula. Além disso, uma vez recebido um colar, estabelece‑se a necessidade da reciprocidade por meio de um bracelete. Essa troca não ocorria necessariamente no mesmo momento, mas estava estabelecida a obrigatoriedade da retribuição. Algo parecido acontece quando recebemos um presente de algum conhecido e sentimos odever de retribuir‑lhe posteriormente. Ao estabelecer essas trocas dos braceletes e colares, esses indivíduos compactuam com outros elementos da vida social, como mercadorias e parentesco. Esse último deve ser pensado no sentido de que, se um ilhota está impedido de casar com alguém de sua tribo, devido a laços de parentesco, estabelece, por meio do kula, uma relação com um habitante de uma ilha vizinha e poderá casar‑se com a irmã de seu parceiro, e vice‑versa. Malinowski percebeu que toda a vida dos trobriandeses girava em torno do kula. Posições políticas, hierarquias, economia, rituais mágicos, quem pode ou não praticar os rituais, construção das canoas, casamentos e inúmeros outros aspectos se relacionavam com esse aparentemente estranho processo de troca. Somente uma perspectiva que procurasse entender a sociedade de um modo geral (base do pensamento funcionalista) daria conta desse tipo de compreensão. Malinowski publicou outros livros a partir de seus trabalhos de campo na Melanésia. Além de monografias sobre os hábitos dos moradores daquelas ilhas distantes, elaborou trabalhos teóricos, como o livro Magia, Ciência e Religião, publicado em 1925. Essa obra, também um contraponto à visão evolucionista, estabelece os campos entre os saberes e busca compreender a realidade quente da vida humana com as abstrações frias da ciência. Nela, não há preocupação em saber o que aparece primeiro, magia, religião ou ciência, mas com o fato de essas 100 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II dimensões da vida social aparecerem ligando todos os aspectos. Não há separação entre magia, religião e vida social do grupo. A vida social é permeada pela magia e pela religião. Magia encarna a esperança do ser humano em superar a própria natureza quando não há outros recursos da ciência. É aquilo que alimenta os primitivos, fazendo‑os crer que existam possibilidades. Ciência e magia diferem de maneira radical. A ciência nasce da experiência, a magia é feita pela tradição. A ciência se guia pela razão e se corrige pela observação; a magia é impermeável a ambas (razão e observação) e vive em uma atmosfera de misticismo. A ciência é aberta a toda a sociedade; a magia é oculta, se ensina a partir de misteriosas iniciações. A religião, assim como a magia, deriva de momentos de caráter emotivo. Tanto uma quanto a outra estão rodeadas por tabus e cerimônias que diferenciam seus atos daqueles do mundo profano. Mas o que distinguiria magia de religião? Na magia há sempre a afirmação de um poder de controle sobre a natureza por meio de ritos; na religião aparece todo o mundo sobrenatural da fé, com espíritos, demônios etc. A mitologia religiosa é mais complexa. A magia busca um fim prático; a religião já é a finalidade em si. Esse livro sobre magia, religião e ciência marcou uma posição do autor e de toda uma corrente antropológica posterior de que não se deve pensar os nativos que agem magicamente como movidos por um pensamento infantil, pré‑lógico. Ao contrário, deve‑se ter em mente a compreensão de que qualquer instituição de conhecimento deve ser buscada no todo social. Equipamento material, organização social e simbolismo são três dimensões intimamente vinculadas, e a realidade jamais poderá ser compreendida integralmente se não se apreender a simultaneidade de todas as suas dimensões. As instituições são os núcleos de ordenação da sociedade que formam o todo integrado. Qualquer elemento cultural aparece como uma projeção parcial da totalidade, mas não como uma parte apenas. A instituição permeia toda a cultura, e a cultura está presente na instituição. Essa foi a grande contribuição de Malinowski à Antropologia, marcando definitivamente essa disciplina a partir de então. 5.2.3 Radcliffe‑Brown Outro grande nome desse período foi Alfred Radcliffe‑Brown (1881‑1955). Também influenciado pelo pensamento de Durkheim, esse antropólogo britânico praticamente inaugurou um ramo teórico denominado estrutural‑funcionalismo. Radcliffe‑Brown reconhecia nas instituições a chave para a manutenção da ordem social de modo similar aos órgãos de um corpo para o funcionamento do organismo em sua totalidade. O estudioso buscou, assim, compreender as funções sociais dos costumes culturais para a manutenção da estabilidade global de uma sociedade. No entanto, colocava‑se numa posição teórica bastante distante do funcionalismo de Malinowski, pois não admitia que as práticas sociais pudessem ser explicadas pela sua capacidade de satisfazer necessidades biológicas básicas. Para Radcliffe‑Brown, as relações sociais são reais e diretamente observáveis, mas a estrutura social é uma construção teórica postulada pelo cientista, com base em sua observação das relações sociais. 101 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Ele defendeu a importância da noção de uma estrutura social total, que é a soma total das relações sociais de uma determinada unidade social de análise durante um determinado período. Segundo ele, as funções das práticas sociais deveriam ser relativas a essa estrutura social total. Tanto Malinowski quanto Radcliffe‑Brown têm papel capital no desenvolvimento da Antropologia na Europa, notadamente, na Inglaterra. Este último ficou notabilizado, também, pelos estudos dos sistemas de parentesco, que terão bastante influência no pensamento estruturalista do francês Claude Lévi‑Strauss. saiba mais O livro de Malinowski sobre os argonautas do Pacífico ocidental é uma obra‑prima que merece ser lida: MALINOWSKI, B. Argonautas do Pacífico ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné – Melanésia. São Paulo: Abril Cultural, 1978. O livro básico da teoria de Radcliffe‑Brown está traduzido para o português e também se constitui como leitura interessantíssima: RADCLIFFE‑BROWN, A. R. Estrutura e função na sociedade primitiva. Petrópolis: Vozes, 2013. 6 O MétOdO antrOpOlógicO Passaremos, a partir de agora, a tratar um pouco do trabalho do antropólogo. De que maneira esse cientista colhe os dados necessários para suas pesquisas sobre a cultura e a diversidade humana? Além disso, depois de colhidos os dados, quais são os tratamentos analíticos necessários para extrair deles as respostas para as perguntas feitas inicialmente? Lembremos que a Antropologia pode ter vários campos, entre eles a arqueologia e a Antropologia Biológica. Estas últimas trabalham com escavações do solo, restos de antigas sociedades, fósseis e outros elementos que devem ser colhidos, necessariamente, num sítio arqueológico. Não é dessa Antropologia que estamos falando nesta disciplina, mas da Antropologia Cultural. Esta também deve colher seus dados, fazer “escavações” de outra ordem, ou seja, procura colher, entre os indivíduos de um determinado grupo, as lógicas simbólicas da cultura estudada. Vimos, no tópico anterior, que no início da Antropologia os dados não eram colhidos pelos antropólogos, mas por terceiros, viajantes ou missionários, principalmente, dos povos distantes e exóticos. Também aprendemos que a virada da Antropologia no começo do século XX representou uma 102 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II profunda modificação na coleta de dados, acarretando uma ampla alteração no olhar sobre o “outro”. Tratamos, ainda, do trabalho de campo feito pelo próprio antropólogo. Vamos, agora, nos deter um pouco mais sobre o nosso trabalho de pesquisa. Diferentemente da Sociologia, que desde o seu início trabalhou com as grandes sociedades ocidentais, a Antropologia teve início no estudodos povos indígenas, distantes e de dimensões bastante reduzidas em relação à nossa sociedade. Aos poucos, a Antropologia foi percebendo que seu olhar característico, o olhar antropológico, poderia ser aplicado a sociedades maiores. Tratava‑se de compreender as lógicas simbólicas dessas sociedades. Em meados do século XX, começam os chamados estudos de comunidade, principalmente, os de aldeias camponesas. Não era ainda o estudo da moderna sociedade ocidental, mas já era algo mais próximo dela. Dos anos 1960 em diante, a Antropologia se abriu cada vez mais para os estudos sobre a nossa própria sociedade moderna ocidental. Atualmente, um antropólogo pode tanto estudar os hábitos de consumo de uma elite econômica em Nova Iorque quanto os costumes de um grupo de funk na periferia carioca, ou, ainda, a questão da multiculturalidade que caracteriza a vida de qualquer citadino metropolitano neste início de século XXI, tudo isso sem deixar de lado a velha Etnologia indígena em seus estudos sobre os povos distantes pouco contatados pela nossa sociedade; ou, ainda, as transformações que uma etnia indígena sofre ao estabelecer relações com a sociedade ocidental. O desenvolvimento da coleta de dados, a Etnografia, deu‑se com o estudo das pequenas sociedades. Essa tradição permanece até mesmo quando estudamos uma grande sociedade. Ao antropólogo interessa o detalhe, os particulares de uma cultura. Para tanto, é preciso o contato direto com o povo estudado, para levantar as maneiras pelas quais as pessoas vivem e constroem suas visões de mundo. Figura 21 – Trabalho de campo 6.1 O estudo da totalidade Os sociólogos, para estudar as grandes sociedades industriais, desenvolveram métodos a partir de questionários e de outros levantamentos de dados quantificáveis. Para esses cientistas sociais, era 103 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia importante trabalhar com dados estatísticos, pois eles permitiriam perceber as grandes tendências e características de uma sociedade. Para a Antropologia, no entanto, esses dados estatísticos nunca foram muito importantes. Para estudar as pequenas sociedades tradicionais, geralmente ágrafas, os antropólogos depararam com a necessidade de utilizar outras técnicas. lembrete Como visto, a Etnografia é a técnica própria de pesquisa em que o antropólogo busca vivenciar, junto com um determinado povo, tudo aquilo que faz parte de sua cultura e a constitui. Após esse momento de trabalho de campo, chamado de observação participante, o antropólogo deve refletir sobre o que viu, ouviu e presenciou. É o momento da reflexão teórica. Sem esta última, não teríamos a Antropologia. No levantamento de dados, o antropólogo procura todo e qualquer detalhe do grupo pesquisado, mesmo que aparentemente não seja relevante numa primeira instância. Chamamos isso de observação em totalidade ou estudo de totalidade. Em geral, os antropólogos praticam uma observação mais livre, mas nem por isso menos sistemática, em que possam entrar em contato com determinadas dimensões da vida cultural que, de outra forma, seria impossível. É importante, portanto, que o antropólogo desenvolva empatia com o grupo, de forma que este possa agir como se o pesquisador não estivesse presente. Claro que isso é bastante difícil, mas é uma meta a ser sempre buscada. Um breve paralelo serve aqui como ilustração dessa dificuldade. Imagine uma situação em que um fotógrafo vá fazer um retrato de um grupo de amigos ou de uma família qualquer. Todos querem “sair bem na foto”. Isso significa que as pessoas buscam fazer poses ou se mostrar de um jeito “oficial”, um jeito como gostariam de ser vistas. Não há escapatória, o fotógrafo dificilmente conseguirá uma foto mais correspondente ao modo de vida próprio daquele grupo. A presença do antropólogo em campo acaba tendo um peso semelhante ao da máquina fotográfica. Além disso, é preciso salientar que vários antropólogos utilizam instrumentos como gravadores, máquinas fotográficas ou filmadoras em seus levantamentos etnográficos. A questão é como o pesquisador deve estar presente nos acontecimentos cotidianos do grupo e, ao mesmo tempo, interferir minimamente nesses mesmos acontecimentos. Uma passagem da descrição de trabalho de campo entre os balineses, na Indonésia, de um famoso antropólogo estadunidense, Clifford Geertz (1926‑2006), ilustra bem essa questão. Geertz estava na ilha de Bali já há um tempo, e todos os nativos o ignoravam, fazendo que ele não conseguisse os dados para sua pesquisa. Ninguém conversava com ele. Seu tempo de estadia estava se esgotando, e ele deveria retornar aos EUA, mas um acontecimento inesperado alterou tudo. Ele estava assistindo a uma briga de galos. As brigas de galo são muito importantes na cultura balinesa, mas são proibidas pelo governo da Indonésia, que controla politicamente a ilha de Bali. Num determinado momento, a polícia apareceu na rinha, e todos correram, inclusive Geertz e sua esposa, que o acompanhava. Eles se esconderam na casa de um nativo. Quando os policiais chegaram até eles e perguntaram o que aqueles dois “brancos” 104 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II estavam fazendo por lá, o dono da casa, até então um completo e distante estranho, começou a relatar tudo o que Geertz fazia na ilha, os pormenores de sua vida como professor norte‑americano e que estavam há horas tomando chá e que nada sabiam das brigas de galo. Geertz ficou espantado que aquele nativo, que jamais havia conversado com ele, soubesse em detalhes o que ele fazia na ilha. Isso mudou sua pesquisa. Na manhã seguinte, a aldeia era um mundo completamente diferente para nós. Não só deixáramos de ser invisíveis, mas éramos agora o centro de todas as atenções, o objeto de um grande extravasamento de calor, interesse e, principalmente, de diversão. Na aldeia todos sabiam que havíamos fugido como todo mundo. [...] Em Bali, ser caçoado é ser aceito. Foi justamente o ponto da reviravolta no que concerne ao nosso relacionamento com a comunidade, e havíamos sido literalmente “aceitos”. Toda a aldeia se abriu para nós, provavelmente mais do que o faria em qualquer outra ocasião. [...] Ser apanhado, ou quase apanhado, numa incursão policial ao vício talvez não seja uma receita muito generalizada para alcançar aquela necessidade do trabalho de campo antropológico – o acordo, a harmonia –, mas para mim ela funcionou admiravelmente. Levou‑me a uma aceitação súbita e total, não habitual, numa sociedade extremamente avessa à penetração de estrangeiros. Deu‑me a oportunidade de aprender, de imediato, um aspecto introspectivo da “mentalidade camponesa” que os antropólogos que não tiveram a sorte de fugir como eu, juntamente com o objeto de suas pesquisas, das autoridades armadas, normalmente não conseguem (GEERTZ, 1978, p. 282‑3). Essa passagem não apenas abriu as portas para seu trabalho de campo, mas também foi fundamental para recolher um dado de campo básico para a compreensão da cultura balinesa. Geertz relata que essa oportunidade o fez colocar‑se em contato com os nativos e permitiu que passasse um tempo maior colhendo dados, além de o colocar diretamente em contato com a dimensão emocional da vida dos balineses. A partir de então, ele pôde perceber como a briga de galos, aparentemente, um elemento pequeno na vida dos balineses, é um ritual em que os balineses expressam a totalidade de sua cultura afetiva, emocional e intelectiva. Isso é um estudo de totalidade, ou seja, de um pequeno elemento colhido em campo, e esse pequeno elemento pode ser até mesmo uma anedota, mas podemos tirar dele elementos fundamentais da vida cultural de um povo. Essa noção de totalidade,tão cara à Antropologia, deve ser entendida como uma técnica que não estava presente nos primórdios da disciplina. lembrete No evolucionismo, um elemento da cultura era tomado e retirado de seu contexto sociocultural. Com a crítica realizada no início do século XX, tanto no culturalismo quanto no funcionalismo, um elemento cultural só podia ser compreendido na totalidade da cultura estudada. 105 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Todos os elementos de uma dada cultura guardam uma intrínseca relação com o contexto mais amplo. Isso não significa dizer que as culturas sejam fechadas, pois elas estão constantemente trocando informações com outras sociedades, mas sim que só poderemos compreender um elemento, por menor que seja, se levarmos em consideração a totalidade da cultura. Por isso a tradição dos estudos de grupos pequenos das primeiras Etnografias permaneceu mesmo quando a Antropologia se voltou para o estudo das grandes sociedades: preocupamo‑nos com os detalhes porque eles nos ajudam a compreender o todo de uma cultura. Ainda hoje, quando um antropólogo estuda um estilo de vida de um grupo de adolescentes que frequenta uma dada praça ou galeria no centro de uma cidade como São Paulo, não apenas procura compreender esse pequeno grupo levando em consideração a cultura envolvente, mas também entender a cultura dessa grande cidade a partir do que fazem os inúmeros e diferentes grupos que ali habitam. 6.2 etnografia e o método etnográfico – a observação participante É costume entre os antropólogos registrar tudo o que observam em campo num caderno ou diário pessoal. Essa técnica vem desde Malinowski, em seu famoso estudo entre os trobriandeses. Nesse diário de campo, o antropólogo deve registrar os detalhes que presencia, os contos, os mitos, as práticas cotidianas, mesmo que num primeiro momento não façam sentido para ele. Todo esse material será analisado posteriormente, quando estiver numa situação de distanciamento físico do grupo. Em geral, esse diário é separado do caderno de anotações mais formais, mas compõe com ele um conjunto importante de registro de dados. Há uma máxima, na Antropologia, expressada por Roberto da Matta, que diz o seguinte: “vestir a capa de etnólogo é aprender a realizar uma dupla tarefa que pode ser grosseiramente contida nas seguintes fórmulas: (a) transformar o exótico em familiar e/ou (b) transformar o familiar em exótico” (DA MATTA, 1983, p. 157). Esse duplo movimento é complementar, e não excludente. Num primeiro momento da Antropologia, aquele do estudo exclusivo das sociedades indígenas, era fundamental compreender uma prática absolutamente exótica como aquela da troca de braceletes e colares dos trobriandeses e estar familiarizado com ela. Contudo, isso não esgota o movimento da Antropologia. É preciso também transformar aquilo que é bastante familiar num elemento exótico, distanciado e passível de ser analisado. Em outras palavras, algo a que estamos habituados é sentido e compreendido como natural. Se for vista assim, como natural, deixará de ser visto como cultural, construído pelo próprio grupo e pleno de significações. É necessário um estranhamento diante desse aspecto, que pode ser um hábito, uma prática ou uma crença, para que possamos compreendê‑lo como uma construção humana carregada de sentido. Esse fato tão habitual deve passar a ser visto como exótico, distante, para que o antropólogo possa estudá‑lo como um dos elementos daquela cultura. Esse mecanismo deve ocorrer nas sociedades mais distantes, não nos deixando cair em explicações simplistas que reduzam aquilo que assistimos a uma lógica da nossa sociedade, como se fossem sinônimos, mas, principalmente, deve ocorrer no estudo da nossa própria sociedade. Neste último ponto o erro é mais comum porque estamos habituados às nossas práticas. Como fazer para percebê‑las como elementos de uma cultura mais ampla? Esse é o processo de estranhamento, tão fundamental ao método antropológico. 106 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II lembrete Tenha em mente que estranhamento não é a atitude de ver uma coisa diferente e achá‑la estranha, mas, principalmente, a de transformar aquilo que é habitual em algo estranho, de tal maneira que possamos compreendê‑lo como um elemento cultural. Outro fator de extrema importância no método antropológico é o distanciamento. Em sua dimensão mais imediata, invoca o próprio distanciamento físico. Malinowski levou das ilhas Trobriand todos os registros que lá colhera e, na distante Inglaterra, empreendeu o trabalho de reflexão, análise e construção da teoria antropológica. Sem esse movimento, não haveria a obra deixada pelo mestre polonês. O trabalho reflexivo é feito a distância, isolado do grupo em que os dados foram colhidos. Além disso, o distanciamento tem outro significado também importante, sem o qual não haveria Antropologia: trata‑se do distanciamento emocional. Como visto no caso de Geertz, o antropólogo precisa de empatia com o grupo estudado, mas essa relação não pode ser nem de antipatia, nem de simpatia. Explicamos melhor: numa situação de antipatia, o antropólogo já inicia sua pesquisa com uma concepção discriminatória diante do grupo. Pode ser que ele inicie seu trabalho com um preconceito, uma verdade preestabelecida e fechada, em razão, por exemplo, de o grupo ter uma posição política diferente da sua ou compartilhar hábitos que não lhe agradem. Um bom exemplo seria o de um antropólogo da religião, convicto de suas verdades religiosas, estudando um outro grupo religioso, bastante diferente do seu. Pode ser que ele chegue ao grupo e tudo o que ele presencie ou ouça seja apenas usado para comprovar aquilo que ele “já sabia”, isto é, que a sua religião é superior àquela estudada. De certa forma, foi isso o que fizeram os antropólogos evolucionistas. Eles estudaram os indígenas com muita antipatia, considerando de antemão que fossem primitivos e inferiores aos brancos europeus cristãos. Não é possível fazer Antropologia caso vejamos o grupo com uma atitude de antipatia, pois toda a análise será deturpada. O contrário também é verdadeiro. É cada vez mais comum, nos dias atuais, que um antropólogo estude seu próprio grupo. Isso se dá com um envolvimento bastante grande, e há muita simpatia na relação. Essa proximidade pode atrapalhar. É evidente que o conhecimento “de dentro” desse grupo é algo positivo. Afinal, essa é a busca que o antropólogo faz ao tentar “ver o mundo a partir dos olhos do nativo”. Nesse caso, ele mesmo é um nativo, um “de dentro”. Digamos que um religioso vá pesquisar sua própria religião ou que uma feminista faça um estudo antropológico sobre a questão de gênero em seu próprio meio. Nada impede que eles façam uma excelente Antropologia, mas a possibilidade de cair num recorte também enviesado, que no fundo procure defender as posições ou crenças deles mesmos, é muito grande. Em ambos os casos é necessário um distanciamento emocional. O distanciamento não diz respeito a uma distância física, mas sim subjetiva; é necessário que o observador não se envolva com o observado, ou que esse 107 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia envolvimento – de fato inevitável – se dê dentro dos limites da empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro sem, no entanto, tomar partido em relação a ele. A empatia permite olhar o mundo através dos olhos do outro e, assim, possibilita a compreensão de seu ponto de vista em relação à realidade. A título de ilustração, a simpatia e a antipatia, por exemplo,seriam formas de envolvimento subjetivo que levam o observador a uma tomada de posição valorativa em relação ao observado, resultando numa compreensão tendenciosa e parcial. O que se busca na observação participante é a compreensão mais complexa e totalizante sobre o outro (PASSADOR, 2001, p. 45). lembrete Distanciamento é um afastamento emocional, quando o antropólogo procura não se envolver, positiva ou negativamente, com o grupo estudado. Devemos ter sempre em mente que, quando tratamos de Antropologia, estamos lidando com a diversidade cultural humana. Pode parecer óbvio, mas nem sempre estamos atentos a isso. O antropólogo é também um ser humano, ou seja, é ele também fruto de uma socialização em um determinado meio sociocultural. Se ele não se desprender ou se distanciar minimamente de seus valores, não conseguirá captar a realidade que está à sua volta. Por isso, é preciso abertura para o mundo. [...] o registro das primeiras impressões ajudará a destacar alguns dos aspectos mais básicos da diversidade cultural, como odores específicos, ruídos que as pessoas fazem, como elas cobrem a boca ao comer e como olham para as outras. Esses padrões, que são tão básicos a ponto de parecer quase triviais, fazem parte do que Bronislaw Malinowski chamou de ”os imponderáveis da vida nativa e do comportamento típico”. Essas características da cultura são tão fundamentais que os nativos as consideram naturais. São básicas demais, até mesmo para ser comentadas, mas o olho desacostumado do etnógrafo, que busca estranhamento, as capta. A partir de sua familiarização, ficam borradas nos limites da consciência. As primeiras impressões são valiosas e devem ser registradas. É muito importante que os etnógrafos façam observações, registros e relatos precisos do que veem em campo (KOTTAK, 2013, p. 72). Estar atento a esses imponderáveis ao mesmo tempo que busca esse distanciamento é uma tarefa difícil, mas necessária. Um antropólogo jamais deve ser um observador totalmente imparcial ou distante, mas não deve, tampouco, fazer dessa proximidade algo que atrapalhe seu próprio labor. A observação participante exige que o antropólogo tome parte da vida da comunidade ao estudá‑la. É somente essa proximidade que permite perceber por que as pessoas consideram os eventos significativos. Só assim o pesquisador vai poder compreender os significados e a lógica das organizações sociais. 108 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Próximo e distante ao mesmo tempo, exótico e familiar também simultaneamente. Essas lições são básicas para o fazer antropológico. Distante de uma ciência exata e por vezes distante também da objetividade esperada de uma ciência social, a Antropologia lida, na maior parte das vezes, com a subjetividade tanto do pesquisador quanto dos pesquisados. Nesse sentido, “procura penetrar e compreender a subjetividade presente nas manifestações humanas, e o faz procurando traduzir os significados particulares de uma cultura para outra” (PASSADOR, 2011, p. 48). O método da relativização, de que já falamos, não pode jamais ser esquecido ou deixado de lado. Nenhum valor é absoluto. É preciso ver valores ou qualquer outra prática ou crença como elementos relativos do grupo cultural que está sendo estudado. É preciso perceber que existem tantas formas de ser humano quantas são as culturas diferentes. É necessário sair dos nossos próprios valores, ter distanciamento e percebê‑los não como únicos e verdadeiros, mas apenas como uma das inúmeras maneiras de viver. lembrete Não há culturas superiores nem inferiores. Há culturas diferentes. Observação A relativização procura perceber que nenhum valor ou prática cultural é absoluto. Todos devem ser compreendidos como relativos à cultura do grupo social original. 6.3 técnicas de pesquisa e trabalho de campo A partir dos pressupostos básicos da metodologia da observação participante e da visão de totalidade, a Antropologia desenvolveu uma série de técnicas capazes de realizar o levantamento dos dados necessários. Algumas dessas técnicas requerem uma atenção redobrada. Talvez a técnica mais usual do trabalho antropológico seja a conversa. Faz parte da observação participante não ser mero espectador, mas procurar dialogar com seus sujeitos. Nas monografias dos grandes clássicos da pesquisa etnográfica, a começar pelo próprio Malinowski, não faltaram descrições dos informantes‑chaves. O informante é aquele nativo com quem o pesquisador estabelece um vínculo mais próximo e que passa a ser uma espécie de companheiro. Em muitas situações, quando o antropólogo ainda não domina a língua nativa, esse informante pode ser uma espécie de tradutor, alguém que tenha a capacidade de dar ao pesquisador as informações de que ele precisa, traduzindo aquilo que acontece no grupo. 109 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Figura 22 – Projeto Rondon, Operação Velho Monge, Piracuruca/PI O conhecimento da língua nativa é fundamental porque, a partir de um dado momento, o antropólogo não pode mais depender exclusivamente de seu fiel informante. Uma conversa entre dois ou mais nativos pode ser uma rica fonte de informações para o pesquisador. Além das conversas mais informais, faz parte das técnicas usuais a realização de entrevistas. Em geral, um antropólogo não utiliza as mesmas técnicas de um sociólogo, pois este último está mais preocupado em atingir uma amostragem estatisticamente significativa e aplicar um questionário controlado, geralmente fechado. Na Antropologia, utilizam‑se mais entrevistas abertas, nas quais o entrevistador é o próprio antropólogo. Para não se perder na divagação da conversa, é aconselhável que o antropólogo siga um roteiro de entrevista previamente estabelecido. Cabe a ele ter sensibilidade para, no meio da entrevista‑conversa, fazer as correções necessárias, voltando aos pontos definidos ou, se a conversa evoluir para outros caminhos igualmente profícuos, saber aprofundar uma temática que o entrevistado demonstre ter vontade de explorar. É comum procurar algumas pessoas com mais idade e com muitas histórias do grupo para contar e fazer com elas o que chamamos de entrevistas de história de vida. Nessas conversas, procuramos perceber, na trajetória percorrida pelo entrevistado, aspectos marcantes da vida cultural do grupo. Conversas, entrevistas e histórias de vida podem contar com o auxílio de instrumentos de gravação, como gravadores de voz ou filmadoras. Essa medida permite que o pesquisador fique despreocupado com as anotações e se volte de corpo e alma para a temática em discussão. A partir dos dados coletados, é importante saber distinguir os saberes aí presentes. Costumamos dizer que o antropólogo deve sair do discurso do nativo. A fala e as explicações dadas pelos povos estudados podem ser essenciais, mas são apenas o ponto de partida do trabalho, que não pode se limitar a reproduzir somente o que dizem os informantes e entrevistados. Costumamos dizer que há uma abordagem êmica e uma abordagem ética no trabalho antropológico. 110 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Observação A abordagem êmica reproduz o que pensam as pessoas locais. Trata‑se da visão de mundo do nativo, como ele compreende a realidade, define os termos de parentesco, classifica os objetos e os animais etc. Esse levantamento é condição inicial e necessária para se fazer Antropologia, que se dá por meio da abordagem ética. Observação A abordagem ética está no campo dos saberes científicos. Deve reorientar aquilo que foi levantado em campo,as categorias nativas e a visão de mundo do informante para as do antropólogo. Esse ponto de vista científico deve buscar a objetividade e a imparcialidade nas análises, além de trazer sempre um ponto de vista abrangente. Lembremos que objetividade e imparcialidade totais são impossíveis de serem completamente alcançadas dentro das ciências humanas. Nisso se inclui a Antropologia. O pesquisador é, ele também, um ser humano carregado de desejos, posições ideológicas e recortes culturais. No entanto, o exercício da relativização deve ser sempre executado, e essa objetividade, se não totalmente possível, deve ser sempre buscada. É para isso que o antropólogo recebe uma formação específica capaz de fazê‑lo atravessar percalços e reduzir as tendências à imposição do viés do pesquisador apenas. Desde os estudos de Malinowski, a Etnografia (ou levantamento de dados antropológicos) avançou muito. Naquele primeiro momento, a tarefa básica do pesquisador era entender o ponto de vista do nativo e compreender sua visão de mundo. Décadas depois, outro antropólogo, Clifford Geertz, já citado, trouxe novas perspectivas para esse fazer antropológico. Geertz afirmava que a Antropologia não era uma ciência em seu sentido mais estreito, mas uma literatura: ou seja, o que os antropólogos faziam era obra de ficção literária (GEERTZ, 2002, p. 19). Geertz desenvolveu uma metodologia que ficou conhecida como Antropologia Interpretativa. Para ele, a cultura é um texto dotado de sentido que os nativos leem constantemente e, assim como um texto de uma peça teatral, procuram interpretar em todo momento de suas vidas sociais. Ao antropólogo cabe a interpretação desse texto, porém ela será sempre de segunda ou terceira ordem, já que são os nativos que fazem sempre a primeira interpretação. Geertz levanta a questão da subjetividade do fazer antropológico e da impossibilidade da objetividade. Seria necessário chegar às interpretações dos nativos para compreender os sentidos presentes na cultura deles. Atualmente, há antropólogos que reconhecem que a Etnografia é uma construção abstrata do etnógrafo e que foge da realidade vivenciada pelos nativos. Praticamente todas as culturas entraram em 111 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia contato com a sociedade ocidental e sofreram profundas transformações a partir do estabelecimento de relações mais amplas. Contudo, nenhum antropólogo consegue fazer sua pesquisa em uma aldeia “intocada” e distante dos valores de sua própria sociedade. Talvez o que importe mais atualmente não seja a descrição pura (se é que ela realmente algum dia existiu) do ponto de vista do nativo, mas buscar como os grupos humanos constroem significações diferenciadas no intrincado jogo das relações que estabelecem no processo histórico, político e econômico mais amplo. Diferentemente de seus momentos iniciais, nem todos os antropólogos estudam sociedades indígenas nos dias atuais. Eles, na verdade, estão preocupados com elementos diversos, como a própria inserção dessas sociedades indígenas no complexo jogo das relações entre países, a ação das organizações não governamentais nos novos movimentos sociais, nas lutas por reivindicação de terras, na migração, nos choques populacionais nas fronteiras, nas “ressignificações” que cada grupo cultural estabelece, até como forma de permanecer um grupo dentro do quadro social mais amplo etc. Os grupos sociais vivem momentos cada vez mais acelerados, tanto que em nada se assemelham às velhas aldeias encontradas pelos antropólogos no começo do século. Essas novas posturas da Antropologia serão visitadas em outras disciplinas de nosso curso. No entanto, devemos reconhecer que a atenção tradicional da Antropologia à observação de determinadas vidas em determinados lugares permanece. Num estágio intermediário, já apontado em nosso livro‑texto, em que a Antropologia começou a analisar a sociedade ocidental naquilo que ela tinha de mais próximo das sociedades indígenas, houve uma série de estudos de comunidade que buscavam perceber como as pequenas comunidades de lavradores, pescadores, seringueiros e ribeirinhos sofriam o impacto do avanço da sociedade ocidental sobre suas terras. Uma dessas pesquisas, realizada no começo dos anos 1960 por estudiosos de universidades norte‑americanas, buscou compreender a vida de várias pequenas comunidades no interior do Brasil. A seguir, temos a reprodução do relato de um desses pesquisadores e de seu impacto cultural ao chegar a essas terras. Até mesmo os antropólogos sofrem choque cultural Eu morei em Arembepe (Brasil) pela primeira vez durante o verão entre o terceiro e o quarto ano na Faculdade Colúmbia, de Nova Iorque, onde estudava Antropologia. Fui para Arembepe como participante de um programa já extinto, que pretendia proporcionar aos estudantes uma experiência direta fazendo Etnografia – estudo em primeira mão da cultura de uma sociedade diferente e de sua vida social. Criados em uma cultura, porém muito curiosos sobre as outras, os antropólogos, no entanto, vivenciam choque cultural, particularmente em sua primeira viagem de campo. O choque cultural é todo o conjunto de sentimentos relacionados a estar em um ambiente estranho, e as reações que resultam. É um sentimento arrepiante e assustador de alienação, de estar desprovido de alguns dos sinais mais comuns e triviais (e, portanto, básicos) de sua cultura de origem. 112 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Ao planejar minha primeira partida para o Brasil, eu não poderia saber o quanto me sentiria nu sem o manto da minha própria língua e cultura. A estada em Arembepe seria a minha primeira viagem para fora dos Estados Unidos. Eu era um garoto urbano que crescera em Atlanta, na Geórgia e em Nova Iorque. Tinha pouca experiência com a vida rural em meu próprio país, nenhuma com a América Latina e tinha recebido apenas uma formação mínima em português. Voamos de Nova Iorque diretamente para Salvador, Bahia, com apenas uma breve escala no Rio de Janeiro – onde uma visita mais longa seria a recompensa no final do trabalho de campo. À medida que nosso turboélice se aproximava da tropical Salvador, eu não conseguia acreditar na brancura da areia. “Isso não é neve, é?”, comentei com um companheiro da equipe de campo. Minhas primeiras impressões da Bahia foram de cheiros – odores estranhos de mangas, bananas e maracujás maduros e em deterioração – e de bater em moscas onipresentes que eu nunca tinha visto, embora tivesse lido muito sobre seu comportamento reprodutivo em aulas de Genética. Havia misturas estranhas de arroz, feijão preto e gosmas gelatinosas feitas com carnes não identificáveis e pedaços flutuantes de pele. O café era forte, e o açúcar, não refinado, e todas as mesas tinham recipientes para palitos e farinha de mandioca a ser polvilhada, como queijo parmesão, em qualquer coisa que se pudesse comer. Eu me lembro de caldo de aveia e de um ensopado viscoso de língua de boi com tomates. Em uma refeição, uma cabeça de peixe aos pedaços, com os olhos ainda presos, quase olhando para mim enquanto o resto do corpo flutuava em uma tigela de azeite de dendê de um laranja reluzente. Lembro‑me vagamente do meu primeiro dia em Arembepe. Diferentemente dos etnógrafos que estudaram tribos remotas nas florestas tropicais no interior da América do Sul ou nas serras de Papua‑Nova Guiné, eu não precisava percorrer trilhas nem andar de canoa durante dias para chegar ao meu campo. Arembepe não era isolada em comparação a esses lugares, somente em relação a todos os outros lugares onde eu tinha estado. Mas eu me lembro bem do que aconteceu quando chegamos. Não havia estradaformal que levasse à aldeia. Os veículos simplesmente iam ziguezagueando em torno de coqueiros, seguindo as marcas deixadas pelos automóveis que tinham passado ali anteriormente. Um grupo de crianças tinha nos ouvido chegar e perseguiu o carro pelas ruas da aldeia até que paramos em frente à nossa casa, perto da praça central. Nossos primeiros dias em Arembepe foram passados com crianças nos seguindo por toda parte. Durante semanas, tivemos poucos momentos de privacidade. As crianças assistiam a tudo o que fazíamos através de nossa janela da sala. Ocasionalmente, uma fazia uma observação incompreensível. Em geral, só permaneciam no local. Os sons, as sensações, as visões, os cheiros e os sabores da vida no Nordeste do Brasil e em Arembepe foram se tornando conhecidos. Eu me acostumei a esse mundo sem Kleenex®, no qual gotas de muco costumavam escorrer do nariz das crianças da aldeia sempre que fazia algum frio. 113 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Um mundo onde, aparentemente sem esforço, as mulheres carregavam na cabeça latas de querosene de 18 litros cheias de água, onde os meninos soltavam pipa e ostentavam sua habilidade de pegar moscas com a mão, onde as mulheres de idade fumavam cachimbo, comerciantes serviam cachaça às 9 horas da manhã e os homens jogavam dominó preguiçosamente nas tardes em que não havia pesca. Eu estava visitando um mundo onde a vida humana estava voltada à água – ao mar, onde os homens pescavam, e à lagoa, onde as mulheres comunitariamente lavavam roupas, louças e seus próprios corpos. (KOTTAK, 2013, p. 83‑4). saiba mais Sobre o trabalho etnográfico, convém ler os livros: GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. CLIFFORD, J. A experiência etnográfica: Antropologia e Literatura no século XX. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998. 7 a OrganizaçãO sOcial Após termos estudado um pouco sobre o surgimento da Antropologia e seus métodos de pesquisa, chegou a hora de olharmos mais detalhadamente para os temas centrais que têm estado no cerne das preocupações dos antropólogos. Como já dissemos, a família e os sistemas de parentesco têm chamado a atenção dos antropólogos desde o início da disciplina. Estamos acostumados a ver a família nuclear – pai, mãe e filhos – como algo tão natural que qualquer outro tipo de composição familiar nos causa estranheza. Esse será o nosso primeiro ponto de reflexão. Outro tema, também já lembrado ao longo de nossa discussão, é o da religião e de tudo o que envolve sistemas de crenças. Além desses, voltaremos nosso olhar para a formação de sistemas econômicos, ou seja, para como os grupos humanos constroem seus meios de subsistência e de troca, e a de sistemas políticos, entendidos aqui como qualquer sistema que envolva distribuição de poder entre grupos e indivíduos. Vários outros temas poderiam também ser tratados neste ponto de nossa reflexão, como linguagem, arte, diferenciação social, gênero etc. Contudo, como nem tudo é possível, nossa opção foi por analisar os temas que parecem ter sido o foco da Antropologia em mais de um século de reflexões. Fica a sugestão para que o estudante busque se aprofundar nas demais temáticas nas quais tenha interesse. Mais adiante, sugeriremos material bibliográfico para pesquisa. 114 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II 7.1 família e sistemas de parentesco Uma constatação básica da Antropologia é a de que não existe uma sociedade humana que não tenha uma forma qualquer de família. No entanto, as formas podem variar enormemente. Estamos acostumados a pensar em família dentro do nosso quadro conceitual habitual, como a família nuclear, formada pelos pais genitores e pelos filhos. Também estamos acostumados a incluir no conceito de família a denominada família extensa, que envolve um quadro de parentesco mais amplo, como avós, tios, primos e todos os demais agregados, como sogros, genros, noras, cunhados etc. Mas, afinal, o que podemos compreender como família? Para nós, existe uma denominação que acrescentamos ao nosso nome individual e que designa, até certo ponto, a nossa família. É o sobrenome. Algumas pessoas carregam o nome apenas da família paterna, outras trazem o sobrenome da materna, ou ambos. Por quê? Em nossa sociedade, damos ênfase à família nuclear, que está, até certo ponto, relacionada à estrutura de um lar, um local de moradia. Usamos uma série de medidas que têm a família nuclear como referência. Isso se dá pelo que entendemos por chefe da família e também pelo que chamamos de renda familiar. Porém, a própria ideia de família nuclear está mudando em nossa sociedade. Há muitos lares que não possuem um casal para criar os filhos. É cada vez maior o número de famílias com apenas um progenitor a criar os filhos, principalmente, no caso de mulheres solteiras, mas há homens também. Cada vez mais surgem casais homossexuais que criam filhos adotados ou de um dos parceiros. Em muitas culturas estudadas pelos antropólogos, notadamente, no início da Antropologia, quando estudávamos fundamentalmente as sociedades indígenas, a importância maior recaía sobre o grupo de parentesco mais amplo, sendo menor a importância do núcleo básico (marido, esposa e filhos). Uma pessoa pode ter vários nomes próprios, dependendo da idade e da posição social, mas em geral é importante a denominação do clã a que pertence. Muitas vezes não encontramos paralelo com o nome familiar ou sobrenome que temos em nossa cultura. Outra questão importante a se ressaltar é a diferença entre parentes consanguíneos e parentes por afinidades. Por exemplo, cunhado é parente? Em termos consanguíneos, não, mas, por afinidade, sim. Isso indica que existem, em toda sociedade, termos classificatórios que colocam os indivíduos em relações uns com os outros. Esses termos são oriundos de um sistema de classificação de parentesco. Uma vez definido quem é cunhado de quem, quem é genro e quem é sogra, fica estabelecida uma série de compromissos e posições hierárquicas entre esses indivíduos. Não é difícil estender essa ideia e perceber que toda sociedade tem como estrutura básica o sistema classificatório de parentesco. 115 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Figura 23 – Ilustração de árvore genealógica Atualmente vivemos numa sociedade com milhões de pessoas. A maioria daquelas com quem nos relacionamos é de fora do nosso quadro familiar. Trata‑se de amigos, colegas de trabalho, conhecidos diversos e, cada vez mais, seguidores das redes virtuais. Não há dúvidas de que nossos compromissos se dão, em muitos casos, fora do âmbito familiar. Isso não significa que a família não seja importante para nós, mas que nossas vidas econômica e social se dão, na maior parte das vezes, além dos limites familiares. Importante notar também que, quando nos relacionamos amorosamente ou estamos procurando parceiros em potencial, isso acontece, na quase totalidade dos casos, fora do âmbito familiar. Observação O conceito de família na Antropologia vai muito além do fenômeno biológico. Família é acima de tudo um fenômeno social. O mesmo não acontece numa sociedade de menor escala. A humanidade passou a maior parte de sua existência vivendo em pequenos grupos caçadores e coletores (veremos a seguir o que isso significa) com um número bem reduzido de indivíduos. Até os dias de hoje, a maioria das sociedades, não na soma dos indivíduos, mas em número de grupos étnicos, vive em grupos pequenos, com menos de quinhentos indivíduos, chegando muitas vezes a cinquenta ou até menos. Numa situaçãodessas, há de se compreender que todos seriam, de certa maneira, parentes entre si. É fundamental que haja um sistema de classificação para saber quem é quem no grupo, quem deve obediência a quem ou tem compromisso com quem e, principalmente, quem pode casar‑se com quem. Sem uma estruturação desse tipo, essa sociedade não sobreviveria. Portanto, é de extrema importância que qualquer sociedade tenha um quadro classificatório que estabeleça as posições individuais. Lembrando: numa sociedade indígena, até as relações de produção e as políticas são definidas a partir desse quadro de parentesco mais amplo. Dessa forma, fica fácil perceber que toda sociedade 116 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II possui família, e uma observação externa que afirme não haver família naquele grupo (uma vez que aquela sociedade não tem as mesmas nomenclaturas existentes na nossa sociedade) não passa de uma visão etnocêntrica e deturpada. O que estamos afirmando é que família vai muito além de um simples fenômeno biológico cujo objetivo é a reprodução. Acima de tudo, família é um fenômeno social. Nesse aspecto, é preciso saber que a percepção da procriação como fruto de um fenômeno biológico no qual se juntam espermatozoide e óvulo, e que isso se dá pelo intercurso sexual, é muito recente. Até mesmo a noção de que é preciso uma relação sexual para gerar um bebê não está presente em todas as culturas. Então, a noção de família está longe de ser apenas biológica. Em muitas sociedades, o pai biológico, aquele companheiro da mãe com quem ela tem afinidades amorosas e relacionamentos sexuais, não é, necessariamente, considerado o pai das crianças. Nessas sociedades, a função de pai é do irmão mais velho da mãe. É importante não colocarmos um juízo de valor nessa relação e, mais que isso, não rotular‑mos essa sociedade como ignorante, pois esse seria um julgamento etnocêntrico. É preciso relativizar e perceber que esse tipo de classificação de parentesco estrutura aquela sociedade. No início, a Antropologia estava preocupada em compreender as sociedades indígenas, nas quais despontava a noção de parentesco como estruturação básica. O estudo sobre parentesco acabou ficando como uma marca registrada da Etnologia. Houve uma proliferação de termos técnicos criados para designar os mais diferentes tipos de sistemas de parentesco, o que demonstra a importância desse estudo para a Antropologia. Atualmente, os estudos de parentesco estão mais reduzidos à esfera da Etnologia, que estuda as sociedades indígenas. Os estudos culturais nas sociedades de larga escala acabaram relegando a compreensão do parentesco a um plano inferior. Isso não significa que entre nós o parentesco não tenha importância. Ao contrário, apenas demonstra que, numa sociedade de pequena escala, é gritante a importância do parentesco. No fundo, todas as relações sociais tidas por nós como econômicas, políticas e religiosas passam pelas relações de parentesco. Veja o que diz um importante antropólogo francês que estudou as relações políticas. Longe de conceber o parentesco e o político como termos que se excluem mutuamente ou que se opõem um ao outro, a Antropologia Política revelou os laços complexos existentes entre os dois sistemas e fundou a análise e a elaboração teórica de suas relações por ocasião das pesquisas de campo (BALANDIER, 1969, p. 49). É inegável, portanto, a importância dos sistemas classificatórios de parentesco. Em todas as sociedades há a formação de algum tipo de núcleo familiar. Ele é responsável, em última instância, pela procriação e pela educação das crianças. Esse núcleo pode variar enormemente. Se para nós ele está vinculado à ideia de um lar, uma moradia, para muitas sociedades nas quais o casamento não implica a formação de uma nova habitação, isso desaparece. Os laços amorosos de um casal podem ser a origem desse núcleo, mas a própria educação pode ficar a cargo de pessoas de fora dele, como é o 117 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia caso já citado do irmão da mãe. Nessas sociedades, o núcleo familiar, embora existente, não tem muita importância. Entre nós, a família nuclear dura o tempo de criação dos filhos, ou um pouco mais. À medida que os filhos se casam e saem de casa, formam novas famílias nucleares. Quando nascemos, descendemos de duas famílias nucleares. Quando nos casamos, trazemos pessoas de fora dessas duas famílias para compor um novo núcleo. Com o tempo, as famílias anteriores vão, com a morte dos mais idosos, se extinguindo. Contudo, num mesmo tempo, podemos ter a formação de outras famílias nucleares, à medida que é comum, nos dias atuais, que casais se separem e tenham novos casamentos e novos filhos. Na nossa sociedade, até algum tempo atrás, ainda era comum que um novo casal permanecesse na casa dos pais, em geral, junto dos pais da noiva. Só com o tempo e com possibilidades financeiras é que formariam uma nova família nuclear. É comum que esse novo núcleo seja formado nas vizinhanças da família anterior, permanecendo alguns laços anteriores por um tempo longo. Mesmo em sociedades ocidentais, isso pode se dar de maneira diferente. Veja o que diz Conrad Kottak sobre as diferenças entre famílias norte‑americanas e brasileiras: Observe o forte contraste entre os Estados Unidos e o Brasil, os dois países mais populosos do hemisfério ocidental, em termos de significado e papel da família. Os adultos norte‑americanos em geral definem sua família como sendo constituída de cônjuge e filhos, mas, quando brasileiros de classe média falam sobre famílias, querem dizer seus pais, irmãos, tias, tios, avós e primos. Mais tarde, acrescentam seus filhos, mas quase nunca o marido ou a esposa, que têm sua própria família. Os filhos são compartilhados pelas duas famílias. Como os norte‑americanos de classe média geralmente não têm sistema de apoio da família extensiva, o casamento assume maior importância. A relação entre marido e mulher deve ter precedência sobre a relação de qualquer dos cônjuges com seus próprios pais, o que impõe uma pressão significativa sobre os casamentos norte‑americanos. Vivendo em uma sociedade com menos mobilidade, os brasileiros permanecem em contato direto, mais próximo, com seus parentes, incluindo membros da família extensiva, do que os norte‑americanos. Moradores do Rio de Janeiro e de São Paulo, duas das maiores cidades da América do Sul, relutam em deixar esses centros urbanos para viver longe de parentes e amigos. Os brasileiros consideram os mundos sociais sem parentes difíceis de imaginar e desagradáveis para viver (KOTTAK, 2013, p. 166). Em muitas sociedades, as relações com os membros da família nuclear têm precedência sobre as relações com outros parentes, mas, em muitas, notadamente as indígenas e de pequena escala, o núcleo familiar não tem praticamente nenhuma importância. Convém ressaltar também que, entre nós, há diferenças na importância da família nuclear conforme as classes sociais. Os mais pobres tendem a formar domicílios familiares extensivos, com a moradia de vários filhos casados, seus cônjuges e filhos. Em famílias mais ricas, os filhos, logo que se casam, já estabelecem um novo núcleo. 118 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II lembrete Sociedades de pequena escala são aquelas que têm menor número de pessoas, com até mais ou menos quinhentos indivíduos, por exemplo, as sociedades indígenas. 7.1.1 Grupos de descendência Um grupo de descendência é mais comum em sociedades de pequena escala. Trata‑se de uma unidade social mais estável e permanenteque um núcleo familiar. Os membros desse grupo reconhecem serem todos descendentes de um ancestral comum. O grupo permanece, mesmo que seus membros se mudem por meio de casamentos externos ou morram. A participação na descendência do grupo é definida no momento do nascimento e se mantém ao longo da vida desse indivíduo. Trata‑se de um status atribuído. As diferentes culturas possuem complexos sistemas classificatórios que definem quem será reconhecido como membro desse grupo ou de outro. Assim, dependendo de o sistema naquela cultura ser matrilinear ou patrilinear, a criança, ao nascer, pertencerá ao grupo de descendência da mãe, no primeiro caso, ou do pai, no segundo. Isso nos soa estranho, pois, de certa forma, nos reconhecemos como parentes tanto do lado paterno quanto do materno, mas isso não ocorre na maioria das sociedades. Em geral, os grupos de descendência são exogâmicos, ou seja, as pessoas só podem se casar com indivíduos de outros grupos de descendência. Os grupos de descendência podem ser formados por clãs ou linhagens. Em ambos os casos, acredita‑se que todos daquele grupo descendam de um mesmo ancestral comum. Nos clãs, não há preocupação de se rastrear os vínculos genealógicos reais. Vemos em muitos mitos a vinculação de um clã a um ancestral, mas não conseguimos perceber toda a linha genealógica que liga um indivíduo a esse ancestral mítico – geralmente um animal ou uma planta, mas que também pode ser uma pessoa. Observação Quando o ancestral mítico é uma planta ou um animal, estamos diante de um caso de totemismo. Há uma série de obrigações e tabus em relação ao totem. Nas linhagens, ao contrário, a descendência é demonstrada, mesmo que não seja real. Costumam‑se utilizar extensas listas para provar a ligação de um determinado ancestral até o presente. É o caso dos descendentes de Abraão, no caso bíblico, ou dos descendentes de Ali, primo de Mohamed, no islamismo xiita. 119 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Não é raro encontrar sociedades que se compõem de extensas e complexas listas de clãs e linhagens. As descendências mais próximas, até algumas gerações passadas, são reconhecidas e formam linhagens, mas um conjunto de linhagens pode formar um clã. Essa complexa divisão de clãs e linhagens estrutura a vida social dessas sociedades, dizendo quem pode casar‑se com quem e localizando socialmente os indivíduos em termos do lugar que ocupam no sistema de parentesco. É comum depararmos com complexas regras que exigem a exogamia (casamento fora do grupo) em relação à linhagem, mas não ao clã, ou ainda casamento fora do clã. O sistema é ainda mais complexo ao olharmos para a questão da localidade de moradia de um novo casal. Lembre‑se de que nessas sociedades as moradias são grandes e envolvem vários núcleos familiares. Há regras para que, quando se casarem, os noivos morem na casa dos pais do noivo ou da noiva. Como as casas podem comportar até mais de uma centena de indivíduos, temos um quadro social bastante complexo. Isso nos mostra, mais uma vez, como essas sociedades não são nada primitivas, pois constituíram complexos sistemas de parentesco e organização social evoluída. Em geral, a patrilocalidade, quando o novo casal vai habitar a moradia do marido, está relacionada à patrilinhagem. Nesse sistema, os filhos permanecerão na localidade de sua família paterna, já que serão parentes apenas do pai. Ao contrário, em grupos matrilineares, a tendência é a da regra da matrilocalidade, ou moradia no local da família da mãe. No caso dos índios brasileiros, encontramos uma enorme variedade de sistemas relacionando moradia e parentesco. Entre os índios Tukâno, a casa tradicional era uma grande maloca que abrigava todos os habitantes do grupo local. Uma delas tinha 27,60 metros de comprimento, por 18 metros de largura [...] As famílias se localizavam nas partes laterais da casa, junto ao beiral do telhado, enquanto o espaço central servia para passagem, reuniões, danças, visitas, trabalho (MELATTI, 1983, p. 76). É comum entre grupos do Brasil Central que a divisão maior seja feita em metades. Várias tribos do Brasil estão divididas em duas partes, devendo seus membros, mediante certa regra, pertencer a uma ou a outra. A essas partes se costuma dar o nome de metades. Entre os índios Borôro, o indivíduo sempre deve pertencer à metade de sua mãe. Já entre os índios Tukúna, cada indivíduo deve pertencer à metade de seu pai. Tanto em uma como em outra das referidas tribos, as metades são exogâmicas, isto é, cada indivíduo deve sempre se casar com membros pertencentes à metade oposta (MELATTI, 1983, p. 78‑9). Até o momento, falamos apenas de casamentos monogâmicos, mas não é raro encontrarmos culturas em que o casamento é realizado por um conjunto de parceiros. Os nomes dados aos casamentos poligâmicos são: poliginia, quando um homem tem duas ou mais esposas, que podem ou não ser irmãs; e poliandria, quando uma mulher se casa com dois ou mais homens. Embora este último caso seja mais 120 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II raro, há várias sociedades em que encontramos a poliandria fraternal, ou seja, o casamento de uma mulher com vários irmãos. Isso é muito comum em aldeias do Himalaia. A poliandria é rara e é praticada em condições muito específicas. A maioria dos povos poliândricos do mundo vive na Ásia Meridional – Tibete, Nepal, Índia e Sri Lanka. Em algumas dessas áreas, a poliandria parece ser uma adaptação cultural à mobilidade associada às viagens habituais dos homens para trabalho, comércio e operações militares. A poliandria garante que haverá pelo menos um homem em casa para realizar atividades masculinas em uma divisão do trabalho baseada em gênero (KOTTAK, p. 187). Podem ocorrer, também, casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Isso está sendo cada vez mais usual em nossa sociedade (com vários países reconhecendo judicialmente essas uniões), mas não é exclusivo dela, pois em sociedades indígenas pode também ocorrer, embora por motivos diferentes. Algumas sociedades reconhecem vários tipos de casamentos do mesmo sexo. No Sudão, uma mulher nuer podia se casar com uma mulher se seu pai tivesse filhas, mas nenhum herdeiro do sexo masculino, o que é necessário para que sua linhagem paterna sobreviva (KOTTAK, 2013, p. 175). O que importa, nesse caso, não é o amor entre dois indivíduos do mesmo sexo, como existe na nossa sociedade, mas a manutenção de um determinado sistema. No caso relatado, entre os nuer, no Sudão, o importante era a continuidade da linhagem paterna. Se não houvesse herdeiros do sexo masculino, uma mulher se casaria com outra, e os filhos desse casamento continuariam a linhagem paterna. O pai pediria, assim, que uma filha sua cumprisse o papel de filho e se casasse com uma outra mulher. Nesse caso, essa sua filha seria reconhecida como marido da outra. Essa relação era simbólica e social, em vez de sexual. A ”esposa” tinha relações sexuais com um homem ou homens (a quem seu ”marido” do sexo feminino deveria aprovar) até engravidar. As crianças nascidas da esposa eram aceitas como filhas da mulher‑marido e da esposa. Embora o marido do sexo feminino não fosse o genitor verdadeiro, o pai biológico, dos filhos, ela era seu páter‑famílias ou pai socialmente reconhecido. O que importa nesse caso dos nuer é a paternidade social, e não a biológica. Vê‑se, mais uma vez, como o parentesco é socialmente construído. Os filhos da noiva eram considerados filhos legítimos de seu marido do sexo feminino, que biologicamente era mulher, mas socialmente era homem, e a linha de descendência continuava (KOTTAK, pp. 175‑6). Aqui cabe umaexplicação: esse casal de mulheres poderia ter filhos, claro, pois elas não estariam impedidas de ter seus relacionamentos sexuais com outros parceiros. O que importa é que, para fins classificatórios e de estruturação social, esse casal de mulheres tivesse um filho e que ele continuasse a linhagem. Lembre‑se de que nem sempre a procriação foi vista como relacionada ao ato sexual. 121 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia O mesmo ocorre com os chamados casamentos fantasmas. Trata‑se de casamentos em que um dos cônjuges já é falecido, mas, para a manutenção da ordem social dada pela classificação de parentesco, a criança nascida seria filha da pessoa já falecida. Mais uma vez, convém relativizar e pensar que, nessas sociedades, não há uma percepção de que uma criança seja gerada pelo ato sexual. Veja, novamente recolhendo exemplos entre os nuer, o que Lévi‑Strauss nos fala sobre isso: Entre os nuer sudaneses de que falei, se um homem morria solteiro ou sem descendência, um parente próximo podia se servir do gado do defunto para comprar uma esposa. Esse “casamento fantasma”, como dizem os nuer, o autorizava a engendrar em nome do defunto, já que este último fornecera a compensação matrimonial criadora da filiação. [...] E o ”casamento fantasma” dos nuer admite um requinte suplementar caso o irmão, substituindo‑se ao defunto, não tenha engendrado por conta própria. O filho gerado em nome do defunto (e que seu pai biológico considera, portanto, como sobrinho) poderá prestar ao pai biológico o mesmo serviço. Sendo então esse genitor o irmão de seu pai legal, os filhos que ele puser no mundo serão legalmente seus primos (LÉVI‑STRAUSS, 2012, p. 47). 7.1.2 A proibição do incesto Em nenhuma sociedade até então conhecida as pessoas podem se casar com quem quiserem. Há regras que indicam os parceiros preferenciais para se casar e aqueles que não podem ser parceiros de forma alguma. Estes últimos estão relacionados àquilo que denominamos relacionamento incestuoso, e há uma forte proibição desse tipo de casamento. O famoso médico psicanalista Sigmund Freud tratou desse tipo de evitamento como sendo um verdadeiro horror que sentimos simplesmente ao pensarmos nele. Figura 24 – Família tradicional Casamentos entre parentes próximos, como filho e mãe, pai e filha, irmão e irmã, são vistos em nossa sociedade como algo repugnante e tidos como um crime. Podemos pensar, num primeiro momento, que essa interdição está relacionada a uma segurança biológica da espécie, visto que casamentos consanguíneos tendem a perpetuar algumas doenças congênitas. Ora, se pensarmos dessa forma, 122 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II estaremos nos esquecendo do que foi dito antes sobre a maioria das sociedades não ver relação entre o ato sexual, o casamento e a procriação. O que então levaria a haver uma proibição desse tipo também nessas sociedades? Além do mais, em todas as sociedades existe a proibição, mas há uma grande variedade do que se considera um relacionamento incestuoso ou não. Se fosse algo que tivesse a ver com o aspecto biológico e com a preservação da espécie, deveria ser igualmente restrito em todas as sociedades, já que somos todos da mesma espécie. Lembre‑se de que, mesmo entre nós, não é bem‑visto o casamento de um homem com sua filha adotiva, ou de uma mãe e seu filho adotivo. Isso não traria nenhum problema de ordem genética, mas sim de ordem moral. Em muitas sociedades, incentiva‑se o casamento de primos cruzados, mas a união seria considerada incestuosa se o casamento fosse entre primos paralelos. Em nossa sociedade, não fazemos distinção entre os primos, que são todos aqueles filhos de irmãos de nosso pai ou de nossa mãe. Há outras sociedades, contudo, em que o parentesco vem apenas por um lado, ou paterno, ou materno, e há uma enorme diferença entre os primos, dependendo do lado da família do qual eles vêm. A diferenciação básica se refere à sua classificação. Primos paralelos são aqueles filhos da irmã da mãe ou filhos do irmão do pai. Repare que nos dois casos há igualdade de gênero entre a mãe e a tia ou o pai e o tio: São do mesmo sexo a mãe e a irmã da mãe, no primeiro caso, e o pai e o irmão do pai, no segundo. Primos cruzados são os filhos do irmão da mãe ou os filhos da irmã do pai. Note que, nesses casos, os gêneros são diferentes. Observação Primos paralelos são considerados irmãos. Um casamento, nesse caso, seria incestuoso e proibido. Primos cruzados não são considerados irmãos e, em muitas sociedades, esse é o tipo ideal de casamento. Aqui temos um bom exemplo de como dois possíveis parceiros, ambos consanguineamente semelhantes (afinal, os dois são primos) têm tratamento classificatório completamente diferente. Com um deles, o casamento é proibido porque seria considerado incesto. No outro caso, é o casamento tido como preferencial. lembrete Primos cruzados: filhos de irmão e irmã. Primos paralelos: filhos de dois irmãos ou duas irmãs. É preciso lembrar que casamento não está relacionado, necessariamente, a um vínculo romântico e à atração entre duas pessoas. Num casamento estão envolvidos interesses muito mais amplos e com ele se contraem alianças entre todos os indivíduos das famílias dos noivos. Pode‑se afirmar que um casamento é uma forma de unir grupos sociais. A partir de um casamento, dois grupos estabelecem alianças, unem esforços econômicos, apoiam‑se mutuamente. A necessidade de se casar fora da família mais próxima leva ao estabelecimento dessas alianças. Amplia‑se, assim, o universo de qualquer grupo social. 123 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia O incesto é o contato sexual entre parentes, principalmente, entre parentes próximos, da mesma família nuclear, mas cada cultura define quem são parentes e quem não são. Dessa forma, podemos afirmar que o incesto, tanto quanto o parentesco, é socialmente construído. Essa ligação social é tão forte que, em algumas culturas, existem até instrumentos socialmente estabelecidos para a perpetuação de um casamento, mesmo depois do falecimento de um dos parceiros. Trata‑se da permanência dos laços sociais entre as famílias dos cônjuges. O sororato é uma prática bastante difundida na qual, quando a esposa morre, o marido desposa uma de suas irmãs, que substitui a esposa falecida e permite que a união entre os grupos permaneça. Mas há também o levirato, que ocorre quando o esposo morre e a viúva pode se casar com o irmão do falecido. Esse é um casamento de continuidade que mantém as alianças entre os grupos de descendência. 7.2 adaptação e sistemas econômicos O tema da economia tem crescido ultimamente na Antropologia. De início, foram poucos os antropólogos que se preocuparam com a forma pela qual as sociedades humanas indígenas tratavam da sua adaptação ao meio, da produção dos bens necessários à sobrevivência e da troca de mercadorias. Salvo os estudos monográficos, como é o caso do estudo do kula feito por Malinowski, em que aparecia o lugar da troca no conjunto da totalidade então estudada, a questão econômica não era vista como uma chave de análise das diferentes culturas. A partir dos anos 1950, com a abordagem marxista na Antropologia, começaram a surgir estudos específicos sobre o tema. De 1970 aos dias atuais esses estudos aumentaram tanto em número como em importância. A Antropologia Econômica lida com o funcionamento e a evolução dos sistemas econômicos das sociedades pequenas e rurais, referindo‑se à maneira pela qual os membros de uma sociedade produzem, utilizam e administramseus bens e recursos. Mesmo as sociedades mais simples, com poucos indivíduos, têm alguma forma de organização econômica. Para esse ramo da Antropologia, interessa saber como as sociedades conseguem sua subsistência, quais as fontes de sua alimentação, como o trabalho é organizado, como são distribuídos os bens e serviços e como são distribuídas, ao longo do ano, as atividades produtivas. Todas as sociedades produzem, trocam e consomem bens, embora nem todas tenham um planejamento muito elaborado para tal. A importância da produção na vida das comunidades é muito significativa. Costumamos compreender que a civilização tornou‑se possível a partir da domesticação de plantas e animais, há 10 mil anos, fazendo que os grupos criassem habitações em localidades fixas, deixando de ser nômades. Essas sociedades ampliaram muito o número de seus habitantes e tiveram de estabelecer estruturas sociais distintas, como a divisão em classes sociais e a formação do que entendemos por Estado. A invenção da escrita é creditada a essa dinâmica. No entanto, há quem defenda a ideia de que as sociedades indígenas contemporâneas, que também domesticaram plantas e animais, não cresceram e se tornaram grandes 124 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II civilizações não por incapacidade, mas por uma posição de não se dividirem em classes sociais distintas. É a tese do antropólogo francês Pierre Clastres. saiba mais Sobre esse tema, convém verificar o livros de Pierre Clastres: CLASTRES, P. A sociedade contra o Estado. São Paulo: Cosac Naify, 2012. Os antropólogos perceberam que há uma forte relação entre as estratégias econômicas de uma sociedade e seus efeitos socioculturais. Assim, há uma forte semelhança entre sociedades forrageadoras (baseadas na caça e na coleta de alimentos), que as diferencia muito de sociedades baseadas na agricultura, por exemplo. As sociedades tendem a estabelecer estruturas sociais e hierárquicas entre os indivíduos, a partir do tipo de economia predominante. Costumam‑se utilizar cinco tipos de estratégias adaptativas: caça e coleta (forrageio); horticultura; agricultura; pastoreio; e industrialização. A utilização de caça e coleta, ou forrageio, é predominante em muitas pequenas sociedades indígenas, principalmente, na Amazônia, em ilhas da Ásia e da Oceania, em remotas regiões da África e em outros lugares bem distantes dos centros comerciais. Em muitas dessas sociedades, conhece‑se a domesticação de plantas e animais, sendo essa estratégia, muitas vezes, utilizada, mas se retomam a caça e a coleta, por serem estas técnicas suficientes e garantidoras da sobrevivência do grupo. Há povos, como perto do Polo Norte, em que a pesca de mamíferos aquáticos e a caça de grandes animais é a estratégia mais utilizada. Em outros, a depender do meio ambiente ao redor, caçam‑se pequenos animais. Em geral, esse tipo de economia exige que o grupo seja pequeno e que migre constantemente de um lugar para outro, embora retorne ao local inicial de tempos em tempos. Essa característica nômade nem sempre é compreendida em nossa sociedade. Acontece, por vezes, de uma etnia ter seu território demarcado, mas essa demarcação, feita burocraticamente, não levar em consideração a necessidade do rodízio das terras para que a caça e a coleta permaneçam constantes. Um grupo forrageador exige uma área muito maior do que aquela requerida por um grupo pastoril ou agricultor. Não é estranho pensar que, com o avanço da sociedade moderna por sobre as terras dos inúmeros povos forrageadores, eles estejam sofrendo grande risco de não ter como sobreviver. Uma das características comuns aos grupos forrageadores é a divisão de trabalho por gênero. Nessas sociedades, em geral, as mulheres coletam tubérculos, fungos e outros frutos. Aos homens cabem as tarefas da caça e da pesca. Dependendo do meio ecológico e também da estação do ano, pode ocorrer que, em uma dada sociedade, a dieta seja predominantemente preenchida pela caça, ou pode ocorrer o contrário: que as mulheres e suas coletas garantam a sobrevivência do grupo. 125 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Figura 25 – Mulheres indianas Em todas as sociedades de caça e coleta, há diferenciações básicas. Além da mencionada, entre homens e mulheres, há a diferenciação por idade. Os mais idosos são respeitados por sua sabedoria e, mesmo que não consigam mais caçar, são igualmente valorizados. Eles guardam os mitos e a sabedoria do grupo. Sem esse conhecimento, dificilmente o grupo sobreviveria. Os mais jovens devem aprender a tarefa dos adultos. Praticamente todas essas sociedades guardam um forte viés igualitário entre os membros. Uma caça ou uma coleta é geralmente dividida entre todos do grupo. As posições hierarquicamente mais valorizadas, além dos anciãos, são as dos médicos‑feiticeiros ou xamãs. A execução dos rituais e a cura das pessoas enfermas cabem a eles. Nas sociedades que produzem seus alimentos, seja no cultivo de hortaliças, seja na agricultura ou no pastoreio, as estruturas sociais são bastante diferentes daquelas encontradas nos grupos forrageadores, pela estratégia utilizada para a subsistência. Os pastores geralmente têm sua alimentação baseada nos produtos animais, como leite, seus subprodutos, carne e sangue. Este último pode parecer estranho, mas muitos povos desenvolveram uma alimentação que não exige a morte do animal de criação, e sim o uso de seu sangue combinado com leite ou outros produtos. Essa é, sem dúvida, uma estratégia de sobrevivência. Essas sociedades, em geral, são mais complexas que as dos forrageadores. Mesmo em sociedades baseadas na horticultura ou na agricultura, o esgotamento do solo exige a mudança constante de lugar de exploração. No entanto, algumas dessas sociedades têm habitações e equipamentos mais sofisticados, o que dificulta o nomadismo. Por isso, são comuns a permanência num local e a rotatividade do solo cultivado. Porém, isso também exige uma grande área para o grupo. A agricultura exige mais cuidados e o uso do solo de maneira mais intensiva. Muitas dessas sociedades usam animais como meio de produção, a para transporte, para puxar máquinas de arar ou simplesmente como fonte de estrume para adubo. O uso de terrenos para agricultura ou horta exige preparo e irrigação, o que requer maior conhecimento e tecnologia. O trabalho humano necessário para manter tudo isso é grande. No entanto, o rendimento desse tipo de atividade costuma ser gratificante e permite uma ampliação do grupo social. 126 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II O sedentarismo passa a ser uma característica desses tipos de atividades. Isso acarreta que as pessoas vivam em comunidades maiores e mais permanentes. Intensifica‑se o contato entre um assentamento e outro; assim, tanto o tamanho quanto a densidade populacional crescem. Em consequência disso tudo, aparece a necessidade de criar novos meios para regular as relações, uma vez que a chance de conflitos também fica maior. Nos grupos de pastores, aparece outra necessidade: o nomadismo pastoril, que ocorre quando todo o grupo acompanha o necessário movimento dos rebanhos ao longo das estações do ano. Isso é muito percebido entre as tribos do deserto no norte da África e do Oriente Médio. Em outras situações, apenas uma parte do grupo acompanha o rebanho; a outra permanece sedentária, em aldeias, à espera daqueles que foram com os animais. Isso acontece muito em grupos nas regiões de altitude, como os Alpes e os Andes. Hoje em dia, muitas dessas sociedades que estavam baseadasnum tipo de produção econômica sofrem o contato com as sociedades industrializadas. De alguma forma, esses grupos contrairão mudanças profundas na sua maneira de viver e, consequentemente, de ver o mundo. O uso do dinheiro, cada vez mais intenso, traz consigo a propaganda e o consumo de mercadorias que, supostamente, trariam bem‑estar. Várias sociedades até então tradicionais perdem muito de suas características e passam a viver às margens e na periferia da sociedade industrializada. A maior aldeia indígena brasileira, localizada a menos de dez quilômetros da cidade de Dourados, no Mato Grosso do Sul, convive há anos com esse problema. Os índios começam a frequentar a cidade e passam a trabalhar nas indústrias e usinas de cana‑de‑açúcar da região. No entanto, são altamente discriminados pelas pessoas da cidade. O dinheiro que ganham não é suficiente para ter a vida que o mundo do consumo faz imaginar. A vida da aldeia acaba se aproximando, pela pior comparação possível, da vida nas favelas das periferias das grandes cidades. O aumento populacional e a falta de terra para plantio colocam esses índios em situação bastante crítica. Nessa aldeia a que nos referimos, onde vivem índios terena e guarani, duas etnias distintas, com línguas, tradições e costumes bastante diferentes, o que resulta é a miséria. Há entre eles um altíssimo índice de suicídio, inclusive, entre adolescentes. O exemplo terrível dessa aldeia não é exceção. Muitos grupos indígenas foram sendo expulsos de suas terras e acabaram, pelas piores vias possíveis, integrando‑se à sociedade ocidental industrializada. O estudo das estratégias econômicas adaptativas das diferentes culturas permite que olhemos para o progresso econômico não com um fim em si inevitável, mas como uma das formas desenvolvidas pelos grupos humanos para promover sua subsistência. Permite também olhar para os povos forrageadores, as pequenas sociedades indígenas, muitas delas ágrafas, evitando o olhar de superioridade que espera pelo desmantelamento dessas sociedades como um mal inevitável do progresso econômico. O importante é perceber que são estratégias igualmente válidas encontradas pela cultura humana como forma de sobrevivência. Uma passagem de um livro de um famoso antropólogo, norte‑americano nos faz pensar bem sobre essa “inevitabilidade”. Estudando os grupos indígenas baseados na caça e na coleta, Sahlins percebeu que despendiam uma determinada quantidade de tempo para produzir os bens necessários à sobrevivência. 127 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Com a introdução de técnicas mais modernas, como enxadas e facões, em vez de produzirem mais bens, aumentando sua economia, preferiram permanecer com o nível de produção anterior. O restante do tempo, agora maior devido ao aumento da produtividade, era utilizado, como antes, em atividades de lazer, cuidado com os filhos, atenção aos idosos, ócio e outras coisas semelhantes. A nossa lógica acumulativa não permite pensar nessa possibilidade. Logo, os chamaríamos de ignorantes e preguiçosos. Mas para eles, o correto era fazer exatamente isso, pois já tinham os bens necessários à sobrevivência. saiba mais O texto de Marshall Sahlins está publicado em uma série de livros. Pode ser encontrado em: SAHLINS, M. A primeira sociedade da afluência. In: CARVALHO, E. A. Antropologia Econômica. São Paulo: Ciências Humanas, 1978. 7.3 sistemas políticos Outro tema que chamou a atenção dos antropólogos foi o estudo do fenômeno político. Porém, diferentemente da Ciência Política, tradicionalmente focada nas análises sobre o Estado, na Antropologia a preocupação continuou sendo compreender o ser humano na sua totalidade – nesse caso, os sistemas políticos nas diversas sociedades, principalmente, naquelas que não contam com uma organização estatal. De certa maneira, o tema já estava presente desde os evolucionistas, com Maine (no livro Lei Antiga) e Morgan (no livro Sociedade Primitiva). A partir dos anos 1930, o tema começa a ganhar destaque muito maior. Os trabalhos de Evans‑Pritchard sobre os nuer são exemplo desse momento. Em 1954, aparece a obra magistral de Edmund Leach, Sistemas Políticos na Alta Birmânia, que é um marco nos estudos sobre sistemas políticos em sociedades de pequenas dimensões. Georges Balandier, no seu livro Antropologia Política, define que um dos objetivos da Antropologia Política visa elaborar: [...] um estudo comparativo, que abrange as diferentes expressões da realidade política, não mais dentro dos limites de uma história particular – a da Europa, mas em toda a sua extensão histórica e geográfica. Nesse sentido, a Antropologia política quer ser Antropologia na plena acepção do termo (BALANDIER, 1969, p. 10). Os estudos antropológicos acabaram por revelar uma enorme variedade, entre as diferentes sociedades analisadas, de estruturação de poder, autoridade e sistemas jurídicos. Para nivelar os conceitos, por poder, subentende‑se a capacidade do exercício da própria vontade sobre os demais, e, por autoridade, o poder utilizado de maneira formal e socialmente aprovado. 128 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Nas sociedades em que não existe a organização formal do Estado, aquelas que Clastres denominou de “sociedades contra o Estado” (vide Adaptação e Sistemas Econômicos), fica difícil definir política. Não aparece, nesse caso, nada semelhante a uma “política pública”. A ênfase do olhar antropológico recai sobre o exercício do poder e da regulamentação das relações entre os grupos e seus representantes. “A regulamentação política inclui processos como tomada de decisão, gestão de disputas e solução de conflitos. O estudo da regulamentação política chama a nossa atenção para quem toma decisões e resolve conflitos” (KOTTAK, 2013, p. 139). Era comum, nos primeiros estudos políticos, a Antropologia definir quatro tipos de organização política: bando, tribo, chefia e Estado. Essa divisão não deixa de ser polêmica, e seu uso acabou sendo abandonado. No entanto, convém olhar um pouco mais para os significados desses termos. Figura 26 – Índios brasileiros Como tudo o que existe nas sociedades indígenas, a política também se relaciona com todas as demais esferas sociais. Assim, quando falamos em bandos, não podemos deixar de perceber a íntima relação com os sistemas de parentesco. Afinal, um bando é um tipo de organização que tem sua base no parentesco e no qual todos os indivíduos têm algum tipo de relacionamento de parentesco ou casamento. Além disso, é mais comum encontrar bandos em sociedades forrageadoras. Aqui, percebemos a correlação entre política e sistemas econômicos. Uma tribo se organiza em grupos de parentesco mais amplos, como clãs e linhagens, ou seja, reconhece que todos os indivíduos que a ela pertencem descendem de um ancestral comum. As tribos geralmente formam aldeias e têm suas economias baseadas na horticultura ou no pastoreio. Não aparece nas tribos um poder formalizado nem um meio legal de fazer cumprir as decisões políticas. Muitas vezes, o chefe político da tribo é também o xamã ou médico–feiticeiro. Essa pessoa é a que acaba exercendo maior poder sobre todos os outros. Em alguns casos, podemos encontrar algo que se assemelha a um conselho de anciãos. Nas chamadas chefias, o poder continua relacionado aos sistemas de parentesco, mas os indivíduos que exercem os cargos de chefia acabam tendo um acesso diferenciado e privilegiado com relação aos recursos do grupo. A estrutura política tende a ser mais permanente. 129 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Históriada antropologia A última categoria, o Estado, é uma forma de organização sociopolítica que tem por base uma estrutura formal de governo e surge quando a sociedade possui uma diferenciação econômica entre seus grupos internos de maneira bastante acentuada. Pode ocorrer, inclusive, que alguns grupos utilizem outros como escravos, com a finalidade de uso em situações de guerra ou de produção. Esse esquema, que pode ser bom para uma primeira aproximação, é muito simplista e não dá conta da imensa diversidade encontrada entre os grupos humanos. Talvez seu maior mérito esteja na diferenciação que podemos observar entre as sociedades sem Estado e aquelas que possuem esse tipo de organização sociopolítica. Nas sociedades sem Estado, a organização política não se encontra distinta e separada da ordem social. Nessas sociedades, fica até difícil perceber se um ato ou evento é simplesmente social ou se tem conotações políticas. Outro fator importante a ser notado é a íntima correlação entre o tipo de organização política e as formas econômicas e estratégias adaptativas dos diferentes grupos. Um grupo baseado na caça e na coleta tende a formar estrutura de bando. Aquele com uma produção baseada em hortas e criação de animais tende a um sistema de tribos ou chefias. Os grupos agricultores, principalmente, com um maior incremento produtivo, tendem a formar Estados. A maior produção de recursos possibilita o acréscimo populacional. Como resultado, a economia se torna mais complexa e com ela toda a forma de organização social. Isso exige novas formas de regulamentação e novos tipos de relações sociais. É importante reconhecer que mesmo as sociedades atuais que vivem em bandos não estão isoladas. Não há nenhum tipo de correlação com as sociedades primitivas, da Idade da Pedra, quando todos os grupos humanos viviam em organizações semelhantes. Os bandos atuais são contemporâneos no sentido em que estabelecem relações com os Estados‑Nação e com os demais grupos vizinhos. Não se trata de um estágio primitivo de organização política e econômica, mas de uma dentre as várias maneiras de organizar a vida humana. Assim, os índios da floresta amazônica que vivem basicamente de caça e coleta não deixam de estabelecer relações com o Estado brasileiro, por meio da Funai ou de outros organismos. Muito de sua base alimentícia depende desse tipo de relacionamento. É comum vermos um grupo indígena negociando seus produtos no mercado mais amplo, utilizando, inclusive, o sistema bancário nacional. Isso demonstra que a vida é sempre mais complexa do que os pesquisadores e cientistas gostariam que fosse. Uma tipologia como essa apresentada sobre as formas de organização política dificilmente se encontra em estado puro. Os grupos humanos acabam estabelecendo outras relações que fogem aos limites simplesmente impostos pela classificação científica. Uma característica constante em todas as sociedades e, assim, podemos dizer que se trata de um universal humano é a existência de formas para resolução de conflitos, que se juntam às regras e normas de uma cultura. Essas regras estabelecem os tipos de comportamento que são aceitáveis distinguindo‑os daqueles considerados impróprios ou inaceitáveis. Todas as sociedades as possuem. Nas sociedades mais simples, sem Estado, essas normas tendem a não ser formalizadas rigidamente, estão nos mitos e na tradição do grupo. De certa maneira, o conjunto de anciãos é responsável pela manutenção dessas normas e por fazê‑las valer. Quando conflitos surgem – e eles sempre ocorrem – esses anciãos procuram resolvê‑lo dentro dos padrões culturais tradicionais. Pode haver julgamento e punição de indivíduos que tenham infringido as normas e prejudicado outrem ou o grupo de um modo geral. 130 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Nas sociedades com Estado formalizado, as normas aparecem por meio de leis formais que são elaboradas, promulgadas e aplicadas mediante mecanismos definidos pelo Estado e pelos governos ou grupos administrativos estabelecidos. Em sociedades de caça e coleta, as leis não aparecem formalizadas, mas essa ausência não significa, de maneira alguma, uma anarquia total. É preciso reconhecer quais são, a cada momento, os instrumentos de controle social e solução de disputas e quem são os indivíduos reconhecidamente autorizados pelo grupo para o exercício desse poder. Nas sociedades tribais também não existe uma estratificação econômica e social nem governo formalmente estabelecido. Não há divisão de classes. Os mecanismos de regulamentação são mais elaborados e eficazes do que entre as sociedades forrageadoras, mas mesmo assim não existem meios formalizados de exercício do poder. No grupo, há indivíduos que acabam tendo posições sociais diferenciadas, com mais prestígio e poder. São os chefes da tribo, líderes de grupos de descendência, conselheiros e anciãos. Em todos esses casos, o poder dessas pessoas é limitado, segundo as tradições de cada cultura. Pode surgir, nesses casos, uma maior diferenciação social, sem chegar a diferenças de classe. Há uma certa preponderância de esse poder ser exercido por homens, cabendo às mulheres um outro tipo de dominação, mais interna, de âmbito doméstico. Um chefe de aldeia acaba não tendo os privilégios que costumamos imaginar que um líder poderia ter. Ele tem muito mais a função de dar exemplos de comportamento ao grupo e, como não há diferenciação social nem apropriação de bens por parte de um grupo, esse chefe deve trabalhar, como qualquer outro indivíduo. Em geral, é ele quem dá o exemplo e é o primeiro a sair a trabalhar. Pierre Clastres faz uma bela análise de que esse chefe político acumula também o cargo de chefe guerreiro. Longe de isso trazer um benefício econômico, traz apenas prestígio. Para manter o seu status, esse chefe deve se aventurar em guerras com tribos vizinhas, correndo grandes riscos, inclusive, de perder a vida. Clastres chamou isso de “o infortúnio do guerreiro selvagem” (CLASTRES, 2011, p. 205). Kottak nos apresenta um bom exemplo desse exercício de poder. Muitas sociedades do Pacífico Sul, principalmente nas ilhas da Melanésia e em Papua‑Nova Guiné, tinham uma espécie de líder político a que chamamos de grande homem. O grande homem (quase sempre do sexo masculino) era uma versão elaborada do chefe de aldeia, mas com uma diferença significativa: ao contrário do chefe de aldeia, cuja liderança se limita a uma aldeia, o grande homem tinha apoiadores em várias delas e, portanto, era um regulador da organização política regional. O status adquirido do grande homem dependia de determinadas características que o distinguiam de seus companheiros. Os atributos principais incluíam generosidade, riqueza, eloquência, aptidão física, bravura, poderes sobrenaturais e capacidade de conquistar apoio e lealdade dos demais. Os homens se tornavam grandes homens porque tinham certas personalidades, não herdando seu status, e sim criando‑o por meio de esforço e bom senso. A riqueza resultava do êxito na criação e no comércio 131 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia de suínos. À medida que o rebanho suíno de um homem e seu prestígio aumentavam, ele atraía apoiadores. Ele patrocinava banquetes suínos, nos quais se distribuía carne de porco (fornecida pelo grande homem e seus apoiadores) aos convidados, trazendo‑lhe mais prestígio e ampliando sua rede de apoio [...]. Os apoiadores do grande homem, reconhecendo seus favores passados e antecipando recompensas futuras, viam‑no como líder e aceitavam suas decisões como obrigatórias. O tonowi era um importante regulador de eventos regionais na vida kapauku, ajudando a determinar datasde festas e feiras. Ele iniciava projetos econômicos que requeriam cooperação de uma comunidade regional. O grande homem kapauku exemplifica, mais uma vez, uma generalização sobre a liderança em sociedades tribais: se alguém adquire riqueza e conquista respeito e apoio generalizados, deve ser generoso. O grande homem trabalhou arduamente não para acumular fortuna, mas para ser capaz de distribuir os frutos de seu trabalho e converter riqueza em prestígio e gratidão. Um grande homem mesquinho perderia apoio, grandes homens egoístas e gananciosos chegaram a ser assassinados por seus companheiros (KOTTAK, 2013, p.146‑7). A forma de organização do tipo chefia deve ter surgido um pouco antes das primeiras formações de Estado, há mais ou menos 6 mil anos. No entanto, são pouco encontradas nos dias atuais. No início da Antropologia, elas eram facilmente localizadas, principalmente, nas ilhas da Polinésia. Ao contrário dos bandos e das tribos, as chefias administram um sistema político de maneira mais permanente e sobre uma região claramente estabelecida. Nessas regiões, podem estar incluídas muitas aldeias e vilas, com centenas ou milhares de pessoas. São famosos os casos relatados pelo viajante navegador e aventureiro inglês James Cook, do século XVIII que, ao chegar às ilhas havaianas, deparou com as intrincadas chefias do local. Esse cargo de chefia é permanente e deve ser ocupado por outro tão logo fique vago, quando da morte de algum chefe. Dessa forma, o sistema político tende a se perpetuar por diversas gerações. Os chefes da Polinésia eram especialistas dedicados exclusivamente a isso, cujas funções incluíam a gestão da economia. Eles regulavam a produção ordenando ou proibindo (usando tabus religiosos) o cultivo de certas terras e culturas. Os chefes também regulavam a distribuição e o consumo. Em certas épocas, muitas vezes em uma ocasião ritual, como uma cerimônia de primeiras frutas, as pessoas ofereciam parte de sua colheita ao chefe por meio dos representantes dele (KOTTAK, 2013, p. 151). Diferentemente da formulação por Estado, as chefias tinham sua base numa estruturação familiar. O cargo de chefia era, geralmente, definido por herança. Isso gerou a formação de muitas dinastias, como em muitos reinos africanos. 132 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Na formação do tipo Estado, surge um sistema de poder ou governo composto por funcionários especializados, que podem ser civis, militares e até religiosos. É fundamental para um Estado o controle de seu território e de sua população. Vemos isso por meio da realização de censos e de controle de fronteiras de território. A população de um Estado não pode sair dele e voltar livremente. Os Estados gerenciam suas populações por meio da concessão de direitos e deveres entre aqueles que fazem parte de sua organização, os cidadãos e os estrangeiros. Nos Estados arcaicos, apareciam distinções de direitos entre aqueles considerados nobres, os cidadãos normais e os escravos. Os Estados precisam das leis escritas para o exercício do poder. Surge um controle judiciário que garante o pleno exercício do poder por meio das leis. Há a formação de quadros especializados para executar a lei, e todo Estado lança mão de um aparato militar para garanti‑la. É isso o que garante a permanência do poder. Em síntese, em vez da tradição, num Estado se estabelecem leis que devem ser seguidas por todos os indivíduos que dele fazem parte. Caso não sigam a lei, esses indivíduos ficam à mercê das sanções penais. Para garantir que esse esquema funcione, há sempre presente a possibilidade do uso da força militar. Além desses sistemas clássicos de exercício de poder nas diferentes sociedades humanas, de bandos a Estados, a Antropologia política também se preocupa em analisar outras formas de exercício do poder pelos indivíduos de um grupo social. Isso permite conhecer melhor a própria natureza do ser humano. Estudos em sociedades indígenas têm demonstrado que, por detrás do exercício de poder mais visível, surgem outros, geralmente, praticados de forma dissimulada por indivíduos submissos ao poder de um chefe, por exemplo. Caso o poder de uma aldeia esteja nas mãos dos homens e de chefes religiosos, é comum encontrar um exercício de poder por parte das mulheres, que agem sem que os homens tenham consciência disso, mas acabam por fazer prevalecer, muitas vezes, suas vontades. Isso permite perceber como, na nossa própria sociedade, grupos destituídos de poder utilizam estratégias de resistência ativa e, com isso, conseguem fazer valer suas vontades, modificando, mesmo aos poucos, a estrutura de poder mais ampla. Outra forma de exercício de poder que tem chamado a atenção dos antropólogos são processos informais de controle social, como a vergonha e a fofoca, principalmente em sociedades pequenas. A fofoca é, muitas vezes, utilizada para deixar um indivíduo em desvantagem diante dos demais e para que ele se sinta envergonhado. Isso foi percebido por vários antropólogos em seus trabalhos etnográficos. Essa situação de envergonhar alguém acaba sendo eficaz na medida em que a maioria das pessoas procura evitar comportamentos que possam estragar sua reputação e minar suas relações interpessoais. Kottak lembra que Malinowski descreveu como os “ilhéus de Trobriand podiam subir até o topo de uma palmeira e saltar para a morte por não conseguir tolerar a vergonha associada à divulgação pública de algumas ações estigmatizantes” (KOTTAK, 2013, p. 158). Embora não formalizada, a vergonha, muitas vezes provocada por fofocas, pode ser um poderoso instrumento de sanção social. Se isso existe nas pequenas sociedades, naturalmente, também está presente nas sociedades modernas ocidentais. Estudos demonstram uma das funções básicas da 133 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Antropologia, a de perceber na imensa diversidade humana aquilo que é básico da nossa constituição como espécie. As relações de poder estão aí incluídas. A organização política é um aspecto da cultura e, como tal, é encontrada em todos os grupos humanos, sejam eles organizações pequenas ou grandes civilizações. A formação de grupos e subgrupos em qualquer sociedade exige controle das relações sociais que aí se estabelecem. Essa é a natureza do poder político. 7.4 religião e magia Figura 27 – Totem A religião sempre esteve presente como tema nos estudos antropológicos. Muitos antropólogos utilizam, inclusive, uma denominação própria, Antropologia da Religião, para definir esse ramo específico de estudo. Outros preferem dizer que a religião e a magia são apenas um tema entre outros da Antropologia, não justificando uma área distinta. Não há religião que não esteja inserida numa sociedade e num ambiente simbólico e cultural. Além disso, não há sociedade ou cultura que não apresente algum tipo de sistema de crenças religiosas. Na Antropologia, o estudo da religião constitui uma temática em si, comparável a outras em importância, como a do parentesco ou a das estruturas sociais, abrangendo uma complexidade no interior das suas próprias fronteiras. Essa complexidade, para a Antropologia, refere‑se ao conjunto da dimensão social dos agrupamentos humanos ou, ainda, à complexidade da espécie humana, sendo a religião um dos componentes constituidores de ambas. A Antropologia trabalha com uma definição ampla de religião, longe daquilo que entendemos por igreja ou organização religiosa, buscando o estudo de elementos básicos das religiões, como o ritual, a mitologia e o sistema de crenças em geral. 134 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o-2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II No início da Antropologia, um dos fatos que mais chamavam a atenção dos pioneiros dessa disciplina era o universo de crenças dos povos indígenas. Não se reconheciam, nessas crenças, verdadeiras religiões – que seriam somente as monoteístas, reveladas e denominadas religiões do livro. No máximo, poderiam ser incluídas as grandes tradições do Oriente, como as religiões da Índia, da China e do Japão. Os povos tidos como primitivos eram detentores, dizia‑se, de uma mentalidade primitiva, que enxergava feitiçarias e animismos em tudo. O estudo dessas crenças ditas primitivas entrou na Antropologia como forma de diferenciação em relação ao modo de pensar considerado evoluído e civilizado, e não como uma temática eleita com distinção. A Antropologia da Religião não nasceu como área específica, mas por vias paralelas, como um esforço de compreensão das diferenças entre os povos. Pensar o diferente passava por pensar as diferentes mentalidades, fossem estas tidas por animistas, mágicas, míticas ou até pré‑lógicas. Já vimos, enquanto estudávamos o evolucionismo, como dois dos mais eminentes fundadores da Antropologia reservaram lugar especial à religião em suas análises. A preocupação de fundo de ambos era, justamente, perceber como esses povos primitivos podiam pensar de modo tão distante da maneira dos ocidentais. Tratava‑se de perceber a espécie humana por meio de uma unidade psíquica que ligaria o primitivo ao civilizado. O que os distinguiria seria o estágio de desenvolvimento das ideias. Enquanto uns pensavam ainda de maneira animista ou mágica, outros já teriam alcançado um estágio superior de desenvolvimento e de compreensão da realidade, sabendo separar a ciência, voltada às coisas materiais, da religião, voltada à dimensão da relação com o criador e a verdade última. Para Edward Tylor, o animismo seria universal e o primeiro estágio do processo evolutivo daquilo que viria a se tornar a religião. Embora sem a crença em deuses, o primitivo atribuía os fenômenos naturais à intervenção de espíritos benevolentes ou malévolos. Para o animismo, o mundo seria povoado por seres que habitariam os objetos, as plantas, os animais e os homens. As experiências da doença, da morte e, sobretudo, dos sonhos estariam nas origens da noção de alma. Isso levaria o primitivo a imaginar que existisse um ser dotado de uma substância espiritual, que estaria além do corpo físico. Com a evolução das culturas, o animismo daria lugar ao politeísmo e depois ao monoteísmo. É famosa a definição de religião elaborada por Tylor. Para esse britânico pioneiro, religião era a crença em seres sobrenaturais ou espiritualizados. Para ele, num gradiente evolutivo, haveria desde a crença animista até a formulação mais sofisticada do divino. James George Frazer, outro dos grandes heróis civilizadores da Antropologia, estabeleceu uma sequência evolutiva que ia da magia, passando pela religião, até o ápice na ciência moderna. Ele percebia a superstição como um desvio intelectual que desvirtuava o pensamento lógico. Frazer via no feiticeiro alguém que acreditava compreender as leis que regem o mundo e, assim, controlar os fenômenos da natureza. Para ele, a magia era a primeira forma de pensamento humano. O primitivo procura controlar, segundo Frazer (1982), por seus próprios meios, as forças da natureza. Após perceber que não consegue utilizar essas forças, abandona a magia para se dedicar à adoração de seres divinizados e superiores. Passa, assim, a uma etapa mais evoluída, que, por meio da prece e do sacrifício em nome desses deuses, procura o caminho da salvação. Esse seria o momento da religião, para Frazer. Quando, enfim, percebe os limites da religião, o ser humano volta ao princípio da causalidade, não mais de maneira mágica, mas experimental e científica. Dessa forma, atinge o grau mais evoluído, ou seja, a moderna ciência da civilização ocidental. Frazer exerceu papel fundamental na legitimidade 135 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia dos estudos de religião. Sua influência não se limitou ao meio acadêmico, mas teve forte impacto também entre os religiosos e na população em geral. Ele enfatizou a erudição e o estudo comparativo de civilizações antigas e trouxe para um público mais amplo o gosto pela busca das origens da religião. Desde o início da disciplina antropológica até os dias atuais, o estudo do universo religioso de um povo é justificado pelo que pode contribuir para a compreensão dessa cultura em sua totalidade. Vários especialistas de diferentes áreas estudam, escrevem e falam sobre religião. Qual seria, portanto, a originalidade da abordagem antropológica sobre todas as demais? A distinção mais significativa da abordagem antropológica diante das demais fica por conta dos métodos de estudo e dos tipos de religiões que foram sendo estudadas e que acabaram contribuindo para a construção de diferentes teorias. O trabalho de campo, a busca do “ponto de vista do nativo”, o olhar relativizador e o distanciamento são elementos essenciais dessa busca de compreensão do religioso. Para uma Antropologia que não segue mais os pressupostos evolucionistas preconizados pelos iniciadores, não existe uma religião mais verdadeira que outra. É o olhar do antropólogo que permite penetrar nas redes de significados das diferentes culturas e perceber os sentidos intrínsecos que cada sistema religioso possui. Figura 28 – Buda Olhar para as outras culturas, diferentes da ocidental, força um olhar que nega uma universalidade do religioso identificada nos monoteísmos largamente conhecidos. Cada forma nova e diferente de sistema religioso que a Antropologia foi desvendando foi estabelecendo a certeza de que não se poderia mais pensar num sagrado para além das constituições históricas e nem mesmo para além de um continuum entre formas primitivas e civilizadas de religião. A religião do outro ganhou reconhecimento e valor. A magia, as feitiçarias em geral, os mitos e tudo que envolvesse qualquer sistema de crenças passaram a ser vistos no valor que trazem em si. Essa nova perspectiva está muito longe de uma Antropologia Religiosa. Não existe uma preocupação com a veracidade daquilo que é preconizado pelas religiões ou por qualquer sistema de crenças. 136 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Em última instância, isso significa dizer que, como método de análise, não parte do pressuposto da existência de uma essência do sagrado ou de uma divindade. Essa é uma questão que não cabe aos antropólogos. O que importa para a Antropologia da Religião são os significados subjacentes aos sistemas de crenças religiosas de um ou mais grupos sociais. Acrescenta‑se, ainda, a preocupação com os hábitos, práticas e costumes desses mesmos grupos advindos desses sistemas. Todas as religiões, por mais excêntricas que possam parecer, desempenham papéis importantes no mecanismo social. Figura 29 – Igreja católica A ruptura com o pensamento evolucionista dos primeiros antropólogos e o contato com o outro, com suas maneiras particulares de se comportar e de crer, possibilitado pelo imprescindível trabalho de campo, deslocou a preocupação com as origens da religião para o campo das funções sociais. Nesse processo, abandonou‑se a busca de uma teorização geral sobre a unidade psíquica humana e focou‑se nos pormenores da vida religiosa de um determinado povo. A grande contribuição para os estudos de religião foi, sem dúvida, o reconhecimento do valor desses universos religiosos, que deixaram de ser vistos como vestígios de um passado para se tornarem atuais e alternativos aos modelos então considerados únicos, como o monoteísmo cristão.Houve, assim, uma ampliação conceitual sobre a religião. Malinowski e Evans‑Pritchard contribuíram, sobremaneira, com uma compreensão das racionalidades do pensamento mágico e religioso. Ambos, cada um a seu modo, reconheceram que o pensamento mágico é também dotado de uma lógica e que o indígena tem consciência da distinção entre o racional e o não racional. Religião e magia deixaram, desse modo, de ser categorizadas como heranças de uma situação pré‑lógica, ilógica ou irracional. Importante ressaltar aqui que, embora tenham características distintas quanto à finalidade e ao modo de operação, religião e magia passaram a ser vistas pelos antropólogos como elementos de um mesmo sistema mais amplo de crenças. A própria separação entre religião e 137 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia magia deixa de ser pacífica, pois há vários sistemas mágicos em torno de comunidades semelhantes àquelas chamadas de igreja, assim como há muito de magia nas religiões fortemente institucionalizadas. As duas dimensões se interpenetram e são tratadas como um todo. Figura 30 – Sinagoga As teorias antropológicas de religião podem ser percebidas como divididas entre aquelas que enfatizam os aspectos simbólicos, as que se preocupam principalmente com as práticas e aquelas que priorizam as estruturas sociais. No entanto, mesmo para aqueles de cunho mais intelectualista, como Lévi‑Strauss, há o reconhecimento de um empirismo como negação da busca de uma essência para o religioso. Afastando‑se de uma perspectiva funcional, fosse ela das funções sociais ou das psicológicas, o norte americano Clifford Geertz abriu uma nova via para a compreensão antropológica da religião. Em seu estudo, ainda dos anos 1960, o estudioso estabeleceu uma definição de religião tida como clássica nos dias atuais. Religião, para ele, era um sistema de símbolos e a possibilidade de estudo que se dava por uma via hermenêutica e semiótica. Assim, ele procurou focar o que a religião representava para seus atores e como ela estabelecia a nossa própria noção de realidade. Para esse autor, religião é [...] um sistema de símbolos que atua para estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e vestindo essas concepções com tal aura de fatualidade que as disposições e motivações pareçam singularmente realistas (GEERTZ, 1978, p. 104‑5). Essa noção parece bastante útil, pois não fala em sobrenaturalidade ou divindade, muito menos em sagrado, podendo ser, dependendo do que se busca compreender, bastante conveniente. Pode‑se perceber que ela serve tanto para a religião quanto para as espiritualidades difusas. Geertz atribui o 138 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II poder da religião ao fato de esse sistema simbólico realizar a junção entre o ethos, a maneira de ser e sentir de um determinado grupo, e a visão de mundo, a formulação da ordem geral das coisas elaborada por esse mesmo grupo. A junção dessas duas dimensões tem o poder de formular uma imagem geral da estrutura do mundo e um programa de conduta humana em que um e outro se reforçam mutuamente. Não há um consenso entre os antropólogos sobre o conceito de religião. Contudo, é preciso reconhecer que, nessa caminhada, a Antropologia muito tem contribuído com a ampliação dos horizontes sobre o que é religião e, especificamente, sobre as diferentes maneiras de compreensão da realidade praticada pelos diferentes povos. Ao longo desse século e meio de ciência antropológica, a religião ganhou não necessariamente contornos mais definidos, mas visibilidade no seio das sociedades humanas. Pela própria trajetória do conceito, pode‑se perceber que se está muito longe de se obter uma posição definitiva, ressaltando que isso não seria nada salutar. Entretanto, houve muito avanço na compreensão dos mecanismos e simbolismos que envolvem o universo religioso, aumentando a amplitude e a profundidade nas análises. Todo esse avanço trouxe para a ciência da religião o elemento fundamental da constituição simbólica e social da religião. Com ele, tornou‑se possível um incremento nos estudos sobre as múltiplas manifestações religiosas presentes nas mais diferentes sociedades. 7.4.1 Mitos, rituais, símbolos e crenças O estudo antropológico das religiões não se limitou à busca de uma definição mais precisa do conceito religioso. Muitas propriedades das religiões particulares que foram sendo estudadas ganharam um estatuto de objeto de estudo particular e constituíram campos autônomos de análises. Dentre esses, podemos destacar as crenças, os rituais, os mitos e os símbolos. Figura 31 – China O estudo das crenças não se restringe necessariamente ao campo da Antropologia da Religião. Pode‑se compreender que as crenças dizem respeito a um universo muito mais amplo, que vai além daquilo que poderíamos chamar de crenças religiosas, ou crenças sagradas. No entanto, em que pesem as críticas feitas à noção de crença, semelhantes às empreendidas ao conceito de religião, as crenças religiosas compõem um dos objetos verificáveis da Antropologia da Religião. 139 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Como um fenômeno mental, a crença foi considerada um objeto próprio da Psicologia, mas, se pensadas em termos de sua materialidade, na encarnação em objetos específicos, as crenças ganham contornos específicos e são tratadas de maneira especial pela Antropologia. Nesse aspecto, não há necessário vínculo com a categoria “fé”, essa sim de cunho religioso. As crenças, para a Antropologia, ganharam destaque à medida que foram sendo estudadas em suas especificidades. Cada cultura possui um conjunto de elementos que seus integrantes creem fazer parte do mundo e que termina por moldar os contornos da realidade mais ampla. No estudo clássico sobre a magia do feiticeiro, Lévi‑Strauss (1970) afirma que o aprendiz de feiticeiro que ambicionava desmascarar os truques realizados pelos xamãs torna‑se ele próprio um grande xamã, não pela sua convicção particular, mas pela crença coletiva e pela confiança depositada pelo grupo. Da mesma forma, no estudo sobre os azande, Evans‑Pritchard percebe que os nativos têm plena consciência de que as doenças podem ser tratadas com remédios, visto que têm um vasto conhecimento sobre ervas e plantas medicinais, mas é inconcebível não reconhecer que há obra de bruxaria ou feitiçaria em todos os casos em que alguém fica acamado (EVANS‑PRITCHARD, 1978). Essas crenças compõem a materialidade do mundo dos azande. Talvez uma das mais fortes contribuições da Antropologia para o estudo da religião se dê pelo fato de ela ter dirigido especial atenção à pesquisa de sistemas simbólicos. Considerar a cultura humana como fruto da capacidade de simbolização é apenas ponto de partida. Sua grande colaboração se dá porque compreende o universo simbólico como elemento fundamental das comunicações e das trocas. Percebe‑se, então, o papel fundamental de Lévi‑Strauss, que não apenas delineou o funcionamento da magia por meio da eficácia simbólica, mas também trouxe enormes contribuições no campo das trocas simbólicas. Mary Douglas elaborou uma teoria sobre a naturalidade dos símbolos, sobre como eles passam a ser manifestações previsíveis (DOUGLAS, 1996). Focada na dimensão do simbolismo da experiência corporal, Douglas enfatizou o ritual como um sinônimo de símbolo. O efeito do rito se liga à modificação da experiência. Experiências díspares ganham sentido quando vivenciadas num quadro de estruturas simbólicas.Para ela, o ritual consiste essencialmente em uma forma de comunicação. Clifford Geertz, como já dissemos, elegeu os sistemas simbólicos de uma cultura como centro de suas análises, por exemplo, o religioso, o político, o científico e outros. Para a Antropologia, a simbolização reflete a maneira pela qual os símbolos religiosos se constituem, se fixam e se transmitem na história e nas sociedades humanas. Diferencia‑se de outras abordagens sobre os símbolos (tanto as que possam vir da psicanálise quanto as de uma concepção que parta do princípio de que os símbolos têm um significado fixo, inerente a eles mesmos) em todas as religiões e culturas. Por fim, destacam‑se ainda mito e ritual. Esses dois elementos da religião constituíram campos de dimensões abissais nos estudos antropológicos. Eles são vistos como inseparáveis, pois um lida com o aspecto do imaginário e das mentalidades, enquanto o outro trata do universo das práticas. O rito é um elemento essencial da vida religiosa. São tipos especiais de eventos, mais formalizados e estereotipados. Ritual é sempre comunicação, uma maneira evidente de comunicação entre o mundo 140 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II dos humanos e o mundo dos deuses. Além disso, tem o poder de instaurar uma condição social, reforçando os vínculos entre os indivíduos e estabelecendo os papéis sociais de cada um. São famosos na Antropologia os estudos sobre rituais de passagem, que trata‑se de uma ampla gama de rituais que marcam mudanças de estado não apenas definitivas, como as passagens entre as fases da vida, mas também temporárias, como as festas de inversão de papéis que acabam, por fim, reforçando as posições sociais. Vários outros tipos de rituais foram bastante estudados pela Antropologia da Religião, como os rituais de sacrifício, as peregrinações e os cultos de um modo geral. Um ritual pode ser entendido como uma chave heurística, por meio da qual podem ser acessados aspectos de uma sociedade que dificilmente se manifestam em falas ou discursos. Por meio de rituais, podem ser observados aspectos fundamentais de como uma sociedade vive, pensa a si mesma e se transforma. De certa maneira, os rituais encenam um ou vários mitos. Para muitos antropólogos, a relação entre ritual e mito é direta. Os mitos são narrativas coletivas, contadas a partir de um discurso metafórico, que tratam das questões mais íntimas de uma sociedade. Em geral, costuma‑se ver apenas as narrativas que tratam das origens das coisas, de ordem material ou social, e que ligam o mundo dos humanos ao dos deuses e heróis míticos. No entanto, o mito é uma forma de linguagem muito mais ampla e presente em todas as sociedades. Num primeiro momento e seguindo as posições positivistas, a Antropologia via nos mitos uma expressão da irracionalidade dos povos tradicionais. A partir, contudo, da crítica que a Antropologia empreendeu à visão evolucionista, os mitos começaram a ser compreendidos como tendo relação com a estrutura social. Como fazem sentido para os povos que os vivenciam, os mitos são vistos como manifestações de outra racionalidade, que trata de verdades profundas do grupo. Longe de perceber o mito como uma fábula infantil ou um discurso ilusório, a Antropologia passa a perceber a presença de mitos em praticamente todas as religiões. As histórias e narrativas sagradas são, em última instância, mitos. Logo, eles estão longe do que poderia ser chamado de falsidade. Trata‑se de profundas expressões do imaginário humano. Os mitos estão entre os objetos mais apreciados pelos antropólogos, visto que permitem, na visão de muitos deles, penetrar nos universos cosmológicos e nas visões de mundo de povos muito diferentes. Dada a linguagem cifrada dos mitos, seu estudo nunca foi tarefa das mais fáceis. Muitos dos primeiros estudiosos de religião se utilizaram de informações advindas dos levantamentos etnológicos para empreender esforços na tentativa de construções de mitologias comparadas. Utilizados também por outras chaves de leitura, como a Psicanálise ou a Filosofia, os estudos de mitos foram ganhando consistência teórica no interior da Antropologia. O mito passou a ser visto como um sistema de códigos culturais da experiência ordinária dos povos tradicionais indiferente às aparentes contradições lógicas internas. A Antropologia nasceu como ciência das chamadas sociedades primitivas. Há um bom tempo, entretanto, deixou de lado essa peculiaridade e ampliou seus olhares por sobre as demais formas sociais. Nos dias de hoje, os antropólogos estudam sociedades com dinâmicas altamente complexas, como é o caso das sociedades ocidentais pós‑industrializadas. Crenças, símbolos, rituais e mitologias continuam 141 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia sendo estudadas não mais no sentido de encontro com o totalmente outro, diferente desse ocidental, mas no que tem de religioso no seio de nossa própria sociedade. Há muito que os parâmetros de nosso grupo deixaram de ser vistos como um caminho inevitável para formas cada vez mais desencantadas. Atualmente, as mais diferentes formas de religiosidade são objetos de estudo dos antropólogos. As sociedades mantêm e reinventam antigas religiões, ao mesmo tempo que novas surgem a todo o momento. Além das religiões mais facilmente perceptíveis, por trazerem contornos institucionais visíveis e verificáveis, surge uma infinidade de outras formas de expressões religiosas denominadas por alguns estudiosos novas espiritualidades. Cabe a eles perceber as características dessas novas vivências, bem como desvendar e compreender as lógicas subjacentes internas. Religiões interiorizadas e cada vez mais individualizadas parecem querer contradizer tudo o que se entendia por religião. É a sociedade com sua riqueza e imensa variabilidade que traz novos desafios para os estudiosos atuais. 8 Os lugares da antrOpOlOgia Neste último ponto de nossa discussão procuraremos enfocar algumas das contribuições práticas da Antropologia e pensar seu lugar nos dias atuais. Como nas demais Ciências Sociais, a Antropologia traz uma dupla dimensão: a teórica e a prática. A construção de um saber teórico da disciplina busca a melhor compreensão da humanidade. Porém, nenhum saber é neutro. Não há como ficar inerte diante do conhecimento acumulado, principalmente porque se trata de um conhecimento diretamente relacionado à vida de pessoas e grupos culturais. Nas diferentes áreas de atuação da disciplina, encontramos profissionais engajados na defesa dos direito dos diferentes povos, minorias, grupos religiosos etc. Em última análise, a perspectiva do relativismo cultural impõe, necessariamente, um olhar de respeito à diversidade. Não se trata de uma postura paternalista na qual o antropólogo é portador de uma verdade que o povo que precisa ser defendido não teria condições de enxergar. Pelo contrário, nesse trabalho o antropólogo deve caminhar junto com os diferentes povos. Sua atuação está diretamente relacionada à possibilidade de enxergar a realidade por ângulos nem sempre usuais. É o olhar antropológico que faz a diferença. Desse modo, é nesse sentido que procuraremos entender, também, o lugar do estudo antropológico na formação de um professor de Sociologia. 8.1 a antropologia aplicada O relativismo cultural nos mostra que todo grupo humano tem o direito de construir sua própria cultura, sem interferências e imposições que venham de fora. Isso significa reconhecer que um grupo indígena pode lutar pela manutenção de suas tradições ou até, se assim ele mesmo preferir, aderir aos traços culturais da sociedade ocidental. Não somos nós, de fora, que podemos julgar e definir o que é melhorpara este ou aquele grupo. No atual estágio de desenvolvimento da civilização humana, não há grupo que permaneça isolado. Os contatos interétnicos são cada vez mais intensos e constantes. Os antropólogos são chamados, muitas vezes, como mediadores de conflitos, ou apenas como consultores técnicos para auxiliarem na compreensão do que está ocorrendo. 142 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Após a Constituição Nacional Brasileira de 1988, qualquer grande empreendimento que afete a vida das populações tradicionais deve passar por uma avaliação dos impactos causados. A avaliação dos antropólogos é peça‑chave para a aprovação dos Rimas – Relatório de Impactos no Meio Ambiente. Esse parecer técnico é referente ao impacto sobre as populações, e não sobre os aspectos geográficos. Assim, quando se planeja a construção de uma grande hidrelétrica ou uma estrada que atravesse uma terra indígena, o antropólogo é ouvido sobre os possíveis impactos culturais nos grupos atingidos. A Antropologia empenha‑se na solução de situações de conflito, procurando minimizar os desequilíbrios e as tensões culturais. Busca‑se que as culturas atingidas sejam minimamente molestadas e tenham seus direitos, valores e padrões respeitados. No interior da sociedade moderna ocidental, o papel dos antropólogos tem sido cada vez maior. Num grande centro urbano metropolitano, como São Paulo, Rio de Janeiro ou outra grande cidade brasileira, os conflitos entre grupos são inevitáveis. Esses conflitos são atravessados por categorias diversas, como classe social, padrões de comportamento, estilos de vestimentas, cortes de cabelo, práticas de lazer etc. Por exemplo, um grupo de esqueitistas que reivindica um espaço numa praça pública pode ser motivo de conflito com outros segmentos da sociedade. Outra questão similar é como fazer diferentes visões religiosas serem respeitadas dentro de um imenso caldeirão de crenças, sem que isso incomode os demais segmentos. No caso religioso, temos vários outros pontos que podem agravar a situação. Em geral, os grupos religiosos se acham detentores de uma verdade superior. As demais religiões podem ser vistas como primitivas ou até diabólicas. Além disso, há a prática tradicional de se considerar, no caso brasileiro, em especial, a religião católica como hegemônica, se não oficial. Não é simples elaborar políticas públicas que englobem a diversidade sem acarretar danos a quem quer que seja. Se uma religião tiver direito à manifestação pública, os que praticam outras se sentirão no direito de fazer o mesmo. Ocorrem ainda e, infelizmente, com frequência cada vez maior, conflitos religiosos, como as agressões de grupos evangélicos às práticas religiosas de matriz afro‑brasileira. Como o Estado deve se portar diante disso? Não cabe à Antropologia definir quem está com a razão neste ou naquele caso, mas refletir sobre os vários pontos envolvidos. Por detrás dessa reflexão deve sempre estar presente o reconhecimento das diferenças. Outros tipos de conflito urbano podem merecer a atenção de antropólogos. Manifestações de grupos de moradores de periferias das grandes cidades têm vindo a público e exigido participação na vida econômica. Esses acontecimentos sempre estão envoltos em múltiplos interesses, sejam eles econômicos, sociais ou políticos, mas guardam um forte componente cultural. Os grupos constituem‑se, mesmo no interior de uma sociedade mais ampla, por reivindicação de identidades étnicas diferentes daquelas da sociedade abrangente. Para compreender o que querem e como se comportam esses grupos, é preciso uma análise cultural afinada. Quando um grupo de “manos” da periferia invade o shopping center dos bairros mais abastados, um conflito acaba sendo gerado. Quem tem direito a quê, nesse caso? Como compreender o que está acontecendo para, inclusive, poder atuar de maneira mais justa e eficiente? 143 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia Uma sociedade como a nossa é extremamente complexa e, como não poderia deixar de ser, tem conflitos de toda ordem e natureza. Quando pensamos nas populações mais afastadas dos eixos econômicos, não podemos esquecer que essa pode ser uma distância física, mas não há como esses grupos não sofrerem com a sociedade mais ampla. O avanço da economia global sobre territórios pouco explorados, como a Amazônia, acarreta grandes problemas, pois envolve múltiplos interesses, sejam os das empresas exploradoras de recursos locais, os dos trabalhadores dessas empresas ou os das populações tradicionais. No caso das populações indígenas, os antropólogos têm atuado no âmbito do Estado por meio de organismos como a Funai, mas também em ONGs ou outras instituições maiores, como a ONU. O antropólogo Kottak (2013) indica uma série de atividades em que o conhecimento antropológico é importante. Para ele, a Antropologia Aplicada é a utilização de dados, perspectivas, teorias e métodos antropológicos para identificar, avaliar e resolver problemas contemporâneos. Segundo o autor: Os antropólogos médicos, por exemplo, têm atuado como intérpretes culturais em programas de saúde pública, ajudando esses programas a corresponderem à cultura local. Os antropólogos do desenvolvimento trabalham em agências internacionais de desenvolvimento, ou com elas, como o Banco Mundial e a U. S. Agency for International Development (Usaid). As conclusões da lixologia, o estudo arqueológico do lixo, são importantes para a Environment Protection Agency, para a indústria de papel e embalagem e para associações comerciais e profissionais. A Arqueologia também é aplicada à gestão dos recursos culturais e à preservação histórica. Os bioantropólogos aplicam seus conhecimentos a programas voltados à saúde pública, nutrição, aconselhamento genético, envelhecimento, abuso de substâncias e saúde mental. Os antropólogos forenses trabalham com policiais, médicos‑legistas, tribunais e organizações internacionais para identificar as vítimas de crimes, acidentes, guerras e terrorismo. Os antropólogos‑linguistas estudam a comunicação médico‑paciente e também mostram como as diferenças dialetais influenciam a aprendizagem em sala de aula. A maior parte dos antropólogos aplicados procura formas humanas e eficazes de ajudar a população local (KOTTAK, 2013, p. 292). Convém lembrar que “nem tudo são flores” na questão da aplicabilidade da Antropologia. Em seu início, com já visto, essa ciência serviu como forma de conhecimento dos povos sobre os quais estava se dando o processo do colonialismo. Conhecer esses povos era uma forma de melhor dominá‑los. Em tempos de guerra, a Antropologia foi utilizada como instrumento de conhecimento sobre o inimigo. É famoso um trabalho de uma das mais eminentes antropólogas norte‑americanas, Ruth Benedict, sobre a cultura japonesa. A obra, publicada logo após a Segunda Guerra Mundial, em 1946, é fruto de um trabalho feito por encomenda para entender a cultura japonesa, devido às dificuldades de ordem cultural que os militares norte‑americanos encontraram durante os combates no país asiático. O uso de estudos antropológicos em situações de guerra tem sido bastante criticado, e sua proibição faz parte, atualmente, dos manuais de ética da profissão de antropólogo. 144 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II A maioria dos antropólogos atuais trabalha em universidades, tanto em pesquisas quanto no ensino. Há, contudo, um número crescente que começa a ser empregado em organizações internacionais, governos, empresas, hospitais e escolas. Isso tem beneficiado o campo de aplicação da Antropologia.Muitos órgãos de governo e ONGs têm utilizado o saber antropológico para a definição de políticas públicas diversas, como as políticas afirmativas de inclusão de minorias étnicas, de portadores de deficiência ou de grupos sociais diversos em situações de ordem social mais ampla. Kottak (2013) assim define a atuação dos antropólogos: Os antropólogos são especialistas nos problemas humanos e nas transformações sociais que estudam, compreendem e respeitam os valores culturais diversificados. Considerando‑se esse cenário, os antropólogos são altamente qualificados para sugerir, planejar e implementar as políticas sociais que afetam as pessoas. Entre as funções apropriadas para antropólogos aplicados, estão: 1) Identificar necessidades de mudança percebidas pelas pessoas locais; 2) Trabalhar com essas pessoas para projetar a mudança culturalmente adequada e socialmente sensível; 3) Proteger essas pessoas de políticas e projetos que possam vir a prejudicá‑las (KOTTAK, 2013, p. 294‑5). Como visto, é amplo o campo de atuação da Antropologia na sociedade atual. Existem diversos outros campos de aplicabilidade que não foram ainda mencionados, mas que mereceriam um destaque. Há, atualmente, antropólogos que trabalham na área da Educação, procurando perceber as interações de professores, pais e estudantes. Eles buscam perceber como o processo de ensino‑aprendizagem se dá inserido em contextos culturais e no universo cultural que a criança traz como bagagem, muitas vezes, não reconhecido pela escola. Essa situação leva à criação de inúmeros conflitos, e cabe ao antropólogo percebê‑los para poder auxiliar os profissionais da educação, a fim de terem maior eficácia em seu trabalho. Uma Antropologia urbana ou das cidades tem sido desenvolvida de maneira autônoma, com teorias específicas, voltada para a compreensão e a intervenção nos problemas típicos das cidades. Junto aos sociólogos e demais pensadores, os antropólogos são chamados a contribuir na compreensão dos condicionantes culturais envolvidos nas diferentes atividades urbanas, como transporte, consumo, moradia etc. O mundo corporativo reconhece, atualmente, o importante papel da Antropologia na compreensão das culturas empresariais. Muitas empresas atuam como verdadeiras culturas, com valores e padrões de comportamento próprios. Um antropólogo ajuda a compreender esse complexo mundo empresarial e a solucionar problemas como o da dificuldade de assimilação de mudanças por parte do corpo de funcionários. 145 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia 8.2 O multiculturalismo e os usos da diversidade Um fenômeno relativamente recente das sociedades modernas é o multiculturalismo, que parte do princípio de que as sociedades atuais são verdadeiros caldeirões culturais, porque não há mais sociedades em que poderíamos enxergar uma coincidência entre o território mais amplo e a cultura de seus habitantes. O velho princípio que norteou a formação dos Estados‑Nação – de que a um território corresponderia um grupo étnico, uma língua e uma origem – não existe mais. O caso europeu é ilustrativo. Na época da formação dos países os (Estados‑Nação), os limites do território englobavam uma determinada nação, um povo, com costumes, língua e cultura semelhantes. Nos dias de hoje, isso não mais existe. Um país como a França, por exemplo, inclui diferentes nacionalidades. Os povos árabes do norte da África colonizados pela França e depois tornados independentes começaram a migrar para a antiga metrópole em busca de melhores condições de vida. Atualmente já estamos na segunda ou na terceira geração dessas populações. Elas permanecem com os hábitos e costumes de seus antepassados árabes, mas são agora cidadãos franceses, com direito à plena cidadania, como qualquer outro francês. A proibição do véu islâmico das meninas nas escolas públicas francesas pode ser tomada como um exemplo do tipo de conflito que surge dessa nova situação. O uso do véu é uma prática difundida no mundo árabe islâmico. A ausência do véu de uma menina islâmica é equivalente à ausência de uma blusa ou de outra parte do seu vestuário. Mas a lei francesa impede o uso de símbolos religiosos na escola laica. O véu não deixa de ser uma marca identitária e, como tal, também uma marca religiosa. Contudo, o que torna permitido o uso de uma corrente com uma cruz pendurada no pescoço e proibido o uso do véu islâmico? Veja que o convívio das diferenças numa situação multicultural não é simples. A diversidade cultural e étnica, muitas vezes, é vista como uma ameaça à identidade da nação. Há países que reconhecem a sua formação multicultural há bastante tempo, como o Canadá e a Austrália. Outros, como a França e outros países europeus, relutam em reconhecer essa nova realidade. O Brasil sempre foi multicultural, mas não tem muita consciência disso. Só recentemente o País passou a incorporar o ensino das tradições afro‑brasileiras e indígenas nos currículos escolares. Até então, estávamos acostumados a estudar a História do Brasil somente a partir do ponto de vista da colonização europeia e de uma nação europeizada, branca e católica. Está claro que o Brasil é isso e muito mais. Há, em nosso território, a presença de aproximadamente duzentas etnias diferentes, com línguas e costumes diferentes, além, é claro, da contribuição de diferentes povos que aqui vieram, tanto forçados pela escravidão quanto imigrantes. Um país que reconhece o multiculturalismo deve procurar políticas públicas que contemplem essa diversidade. Mas não é só. O próprio conjunto de leis, a começar pela Constituição, deve contemplar as diferenças. Não se trata da busca de uma homogeneidade cultural, como sempre se fez, mas de como estabelecer legislações que permitam a coexistência dos diferentes. Na sociedade liberal, os cidadãos são tratados como livres e iguais. Charles Taylor, filósofo, procurou refletir e responder à questão das dificuldades do convívio multicultural, ressaltando o que está em jogo na exigência que muitos fazem de que sua identidade particular obtenha o reconhecimento das instituições públicas. 146 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Taylor parte da relação entre reconhecimento e identidade. Para ele, nossa identidade é moldada pela existência (ou não) do reconhecimento dos outros em relação a ela (1993, p. 43). Um indivíduo ou um grupo pode sofrer verdadeiros danos discriminatórios e uma grande deformação de sua própria imagem quando a sociedade que o rodeia lhe mostra um quadro limitativo e depreciativo de si mesmo. Para ele, não se trata de falta de respeito com o outro, mas do falso reconhecimento dele. Esse é o grande responsável pelo acontecimento de feridas dolorosas, que acabam por mutilar suas vítimas. O reconhecimento é, assim, não somente um gesto de cortesia para com o outro, mas também uma necessidade vital com relação à constituição de sua própria identidade (TAYLOR, 1993, p. 45). No entender do autor, o desenvolvimento da democracia desembocou na formação da chamada política de reconhecimento igualitário, com a exigência de igualdade de status para todas as culturas. O princípio do respeito igualitário exige que tratemos as pessoas de forma que não leve em consideração as suas diferenças. Mas esse fato, aparentemente justo, é extremamente danoso, pois as pessoas e os grupos são diferentes. Essa política não reconhece as identidades particulares. Acima de particularidades de grupos e em nome do Estado igualitário para todos, acaba‑se caindo justamente numa discriminação. Essa forma de política do respeito igualitário consagrada no liberalismo dos direitos não tolera as diferenças, pois insiste na aplicaçãouniforme das regras que definem esses direitos e desconfia das metas coletivas. Há uma afirmação de que o liberalismo cego às diferenças possam oferecer um campo neutro onde coexistiriam pessoas de todas as culturas, de modo que torne as diferenças restritas a meros elementos secundários sem grande importância. O liberalismo, entretanto, não é neutro culturalmente. As sociedades dos dias de hoje tornam‑se cada vez mais multiculturais. Se no campo político há o reconhecimento de todos como cidadãos livres, no campo cultural as fronteiras permanecem fechadas. O desafio apontado por Taylor consiste em enfrentar a marginalização sem comprometer os princípios políticos fundamentais. Isso leva à percepção de que o multiculturalismo tem a ver com a imposição de algumas culturas sobre outras e com a suposta superioridade que possibilita essa imposição. Charles Taylor chama, assim, a atenção para a necessidade de se estabelecer um caminho que não seja nem a exigência homogeneizadora do reconhecimento igualitário, nem o encarceramento nas normas etnocêntricas. Existem outras culturas, e teremos de conviver cada vez mais com essa realidade (TAYLOR, 1993, p. 106). Um exemplo entre nós são os bolivianos na cidade de São Paulo. Eles sofrem pela falta de reconhecimento como cidadãos e, em consequência disso, sofrem aquilo que Charles Taylor apontou como autodepreciação (1993, p. 45). Numa situação de multiculturalismo, não se pode mais falar em uma política de igualdade para todos. É preciso buscar uma política das diferenças, mas, infelizmente, isso ainda não chegou aos bolivianos. O reconhecimento do que a sociedade mais ampla faz deles leva, de maneira geral, a um sentimento de incapacidade e reclusão. Podemos compreender melhor isso por meio do processo denominado identificação, por Stuart Hall (1999, p. 39). Para esse autor jamaicano, o hibridismo cultural não é comensurável por binarismos. Há aqueles que permanecem profundamente comprometidos com as práticas e os valores tidos como tradicionais, muitas vezes, de maneira reificada e rígida em seus traços diacríticos. Outros, numa mesma situação de diáspora, adotam posições de identificação deslocadas, múltiplas e hifenizadas (HALL, 1999, p. 72). Essas pessoas são 147 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia obrigadas a negociar com as novas culturas sem perder suas identidades originais completamente e sem ser totalmente assimiladas. São formadas assim as culturas híbridas desse momento pós‑colonialista. Os imigrantes não ficam mais à mercê de políticas de Estado, nem sob o controle de grupos que acreditam estar preservando seus traços culturais da maneira mais autêntica possível. Eles são os próprios artífices de sua história. Note que essa comunidade de bolivianos não forma uma cultura unificada nem homogênea; foi no espaço fronteiriço que a sociedade paulistana os jogou, com toda a carga de discriminação daí advinda, e é nesse espaço que esses donos da construção de suas próprias identidades híbridas constituem um jeito específico de ser boliviano na diáspora. O conceito de hibridismo cultural foi sendo construído na Antropologia para dar conta das novas situações multiculturais. Hibridação não é sinônimo de fusão sem contradições, mas pode ajudar a explicar as formas particulares de conflitos gerados na interculturalidade. O antropólogo Nestor Canclini define a hibridação como processo sociocultural em que estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, combinam‑se para gerar novas estruturas, objetos e práticas (1997, p. 19). Para esse autor, estudar processos culturais, mais do que nos levar a afirmar identidades autossuficientes, serve para conhecer formas de nos situar em meio à heterogeneidade e entender como se produzem as hibridações. A construção de um novo conceito como o de hibridação, nesse caso, tomado emprestado da Biologia, é sinal de como uma ciência se inova e busca novos instrumentais teóricos para entender situações até então inexistentes ou pouco evidentes. Os povos não estão mais isolados. Talvez nunca o tenham sido de fato. Atualmente, contudo, é inegável que a realidade é a da formação de sociedades diversificadas, multiculturais. Como entender esse novo fenômeno? As culturas estão em constante jogo de trocas e empréstimos entre si. Os indivíduos que compõem as sociedades e as culturas participam desse jogo numa busca constante de constituição de suas identidades e de reconhecimento. Esse é um desafio teórico bem diferente daquele enfrentado pelos primeiros antropólogos, que chegavam às aldeias distantes e se viam diante de culturas aparentemente homogêneas. Isso não existe mais. 8.3 a contribuição da antropologia para a formação do professor Estamos chegando ao final de nosso curso. Procuramos fazer uma introdução histórica à disciplina antropológica apresentando suas principais características, bem como os principais desafios que a ela se apresentam na atualidade. Estamos convictos de que o ensino da Antropologia nos faz cidadãos mais conscientes. No mínimo, aprendemos acerca da diversidade do homem e do jogo de reconhecimentos das identidades, que faz parte da história humana. O olhar antropológico, com seu viés relativizador, permite a compreensão das diferenças e uma postura mais democrática no seio de uma sociedade profundamente injusta como a brasileira. Entendemos que esse ensino deva ser cultivado desde as séries mais iniciais na trajetória de um estudante. No entanto, percebemos que o currículo escolar faz escolhas, e nem sempre há lugar para a Antropologia nelas. O ensino da Antropologia acaba, assim, restrito a algumas carreiras de nível superior. 148 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II Porém, um professor de Sociologia de Ensino Médio atuará na horizontalidade; e todos os estudantes formados nesse nível educacional passarão por suas mãos. Antropologia e Sociologia são ciências‑irmãs, ambas ciências sociais. Não se aplica mais aquela velha dicotomia, do início das Ciências Sociais, em que cabia à Sociologia o estudo das sociedades industrializadas, e à Antropologia, o das sociedades indígenas. Atualmente, há uma congruência entre as duas. Um bom cientista social é aquele que consegue navegar pelos temas e teorias das duas disciplinas. Um professor de Sociologia pode utilizar a Antropologia para compreender a diversidade cultural no interior de sua própria sala de aula. Afinal, é necessário reconhecer que, numa escola de Ensino Médio, temos uma grande diversidade de culturas. Cabe ao professor perceber que pode utilizar os ensinamentos antropológicos para o desenvolvimento de seu conteúdo didático, levando os estudantes a refletirem sobre a imensa riqueza humana. A disciplina História da Antropologia procurou enfocar os questionamentos que levaram à construção dessa área do saber, seus pensadores pioneiros, as primeiras correntes teóricas e os principais temas e questões que até os dias de hoje são elementos de preocupação dos antropólogos. As demais disciplinas de Antropologia do currículo de formação do curso de Licenciatura em Sociologia deverão aprofundar temas aqui apontados e continuar a trajetória da história das grandes correntes teóricas que marcam a nossa disciplina. A) Punta del Este, 2011 – Jornadas B) Palestra no CIEE, 2011 Figura 32 – Palestras resumo Procuramos discutir a construção histórica da Antropologia. Primeiro nos detivemos nos pais fundadores dessa ciência do antropos. Vimos como, no século XIX, foi constituído um pensamento científico para dar conta da explicação dos demais povos. Naquela época, a visão empregada era bastante etnocêntrica, com os europeusabsolutos na sua convicção 149 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia de verdade e superioridade. Montou‑se um esquema explicativo para dar conta das diferenças entre os povos que ia daqueles que seriam os mais primitivos, os índios, por exemplo, aos mais civilizados, nesse caso, os próprios europeus. Os autores centrais dessa visão evolucionista foram Tylor e Frazer. Aos poucos, a Antropologia começou a questionar essa ideia de superioridade e arrogância. Construiu‑se, na virada ao século XX, uma forte crítica a essa visão: o relativismo cultural. Essa nova postura apareceu por meio de duas grandes correntes do pensamento antropológico: nos Estados Unidos, as ideias de particularidade histórica de Franz Boas, e na Europa, o funcionalismo de Malinowski e Radcliffe‑Brown, principalmente. Foi nesse momento que a Antropologia ganhou os contornos que tem até os dias de hoje, principalmente, por meio da necessidade do trabalho de campo e do distanciamento. O trabalho de campo é fundamental para a Antropologia, pois é por meio dele que o cientista toma contato com os costumes do povo estudado e procura enxergar o mundo a partir dos olhos do nativo. Esse olhar relativizador requer o distanciamento emocional, que não permite ao pesquisador se envolver sentimentalmente com o grupo, uma vez que isso poderia comprometer a objetividade de sua pesquisa. O método antropológico envolve uma visão de totalidade, pois todos os elementos de uma cultura são importantes para a análise. Entretanto, mais do que isso, a visão de totalidade pressupõe que, para qualquer elemento de uma cultura, é preciso tomá‑la em seu conjunto maior. Para entender um comportamento, portanto, é preciso levar em consideração o contexto em que ele é praticado, ou seja, a cultura em sua totalidade. O curso procurou também aprofundar alguns dos temas mais discutidos pela disciplina. Assim, foram empreendidos esforços para compreender o que a Antropologia compreende por família e sistemas de parentesco e por que esse tema tem fundamental importância na compreensão das culturas humanas. Outros temas discutidos foram o da organização econômica e o dos sistemas políticos. Percebemos que esses tipos de organizações sociais já existiam desde o início das sociedades humanas e não são exclusividade das sociedades modernas. Compreender a natureza de um sistema político permite um olhar diferente para a nossa própria sociedade. 150 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II O último dos temas eleitos para uma discussão aprofundada foi religião e sistemas de crenças. Nesse universo, estão envolvidos os mitos, os rituais e a magia. A Antropologia sempre olhou para a religião, pois essa era uma maneira importante de perceber as diferenças entre os povos e suas maneiras de ver o mundo. O último tópico trabalhado procurou levantar algumas questões sobre a importância da Antropologia, tanto na sociedade atual (a chamada Antropologia Aplicada) quanto na formação de um professor de Sociologia. O mundo globalizado não trouxe a homogeneização cultural. Ao contrário, colocou as diferentes culturas num intenso processo de contato e conflitos. Vivemos atualmente naquilo que foi denominado multiculturalismo. Esse fato trouxe novos desafios com os quais a Antropologia está procurando lidar. A natureza humana é extremamente dinâmica, produzindo diferenças a cada momento. Longe de procurar uma única essência para o ser humano, temos de dar conta das nossas profundas diferenças. É a isso que a Antropologia se propõe. Talvez sejam nossas diferenças que nos tornem humanos. exercícios Questão 1. Nosso código genético não define nosso comportamento, portanto a cultura é necessária para sua manutenção. Assim, o comportamento humano é resultado: I – de um conjunto de normas e condutas que compõem a cultura; II – de um processo de diferenciação dos grupos que construíram identidades e modos diferentes de se relacionarem; III – de uma assimilação de informações e símbolos culturais construídos ao longo de muitas gerações. Está correto o que se afirma em: A) I, II e III. B) I e II, apenas. C) I e III, apenas. D) III, apenas. 151 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 História da antropologia E) II, apenas. Resposta correta: alternativa A. Análise das afirmativas I – Afirmativa correta Justificativa: a cultura de determinada comunidade inclui o conjunto de normas e condutas tidas como aceitáveis. Assim, o comportamento será fruto da adaptação e aceitação desse conjunto pelos membros da comunidade. II – Afirmativa correta Justificativa: os diferentes processos de formação de identidade caracterizam a formação de diferentes grupos em termos de valores culturais. Dentre esses valores, estão incluídas as formas aceitáveis de relacionamento social. III – Afirmativa correta Justificativa: fazem parte da formação cultural a assimilação de informações e o desenvolvimento de representações simbólicas de valores e crenças. Questão 2. Leia o texto a seguir: Até os anos 1970, “as restrições alimentares de cunho religioso, as referidas ao emprego de misturas alimentares ou as relacionadas a situações de doença ao parto eram interpretadas como irracionalidades comportamentais, presentes na cultura tradicional, constituindo‑se em obstáculos à adoção da racionalidade alimentar, calcada no conhecimento médico. Esta irracionalidade, produto da ‘ignorância’ e das ‘superstições populares’ que se faziam presentes nas interpretações de muitos autores dedicados à análise da cultura, comportava um viés cientificista e etnocêntrico. Por outro lado, opunham os autores o saber popular ao saber erudito, valendo‑se do critério do nível de cientificidade e da legitimidade deste último, sem questionar as bases sociais e as origens do primeiro”. Fonte: Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034‑89101988000300007&script=sci_arttext>. Acesso em: 11 mar. 2013. Considere as afirmativas a seguir: I – A visão corrente opõe‑se à abordagem anterior aos anos 1970, que não contempla as situações em que se inserem diferentes grupos sociais, bem como as representações e práticas dos agentes sociais. II – A interpretação anterior aos anos 1970 não é diferente dos atuais estudos antropológicos, já que ainda é necessário isolar o componente social sob o risco de perder‑se a objetividade e a cientificidade. 152 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 Unidade II III – A inclusão de variáveis sociais, crenças e valores só faz sentido quando estamos trabalhando com comunidades primitivas e em estágio de desenvolvimento pré‑capitalista. Está correto o que se afirma em: A) I, II e III. B) I e II, apenas. C) I, apenas. D) III, apenas. E) II, apenas. Resolução desta questão na plataforma. 153 Re vi sã o: G io va nn a - Di ag ra m aç ão : M ár ci o- 2 3/ 05 /2 01 4 FIGURAS E ILUSTRAÇÕES Figura 1 FILE0001609396808%20.JPG. 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