GONALVESLIMA.InterpretaesdoTotalitarismo 20170927155337
13 pág.

GONALVESLIMA.InterpretaesdoTotalitarismo 20170927155337


DisciplinaPsicologia e Política13 materiais95 seguidores
Pré-visualização6 páginas
Interpretações do totalitarismo: Hannah Arendt e Friedrich-Brzezinski 
Interpretations of totalitarianism: Hannah Arendt and Friedrich-Brzezinski 
Acríssio Luiz Gonçalves 
Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais \u2013 UFMG. Professor do 
Centro Universitário UNA. E-mail: acrissio@yahoo.com.br 
Andréa Moreira Lima 
Doutora em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais \u2013 UFMG. Professora 
do Centro Universitário UNA. E-mail: andrea.m.lima10@gmail.com 
RESUMO: O presente artigo tem como objetivo apresentar e discutir duas diferentes leituras do 
fenômeno totalitário: a interpretação de Hannah Arendt, exposta na obra The Origins of 
Totalitarianism, de 1951, e a interpretação elaborada por Carl J. Friedrich e Zbigniew K. 
Brzezinski, na obra Totalitarian Dictatorship and Autocracy, de 1956. Embora as duas leituras 
apresentem pontos de contato, principalmente por considerarem o totalitarismo uma novidade em 
termos políticos, mostraremos que elas diferem, sobretudo em relação à descrição da finalidade 
desses movimentos de dominação política. 
PALAVRAS-CHAVE: totalitarismo; nazismo; fascismo; Hannah Arendt; Friedrich-Brzezinski 
ABSTRACT: The present paper aims to present and discuss two different readings of the 
totalitarian phenomenon: Hannah Arendt\u2019s interpretation, as exposed in her 1951 work The 
Origins of Totalitarianism, and the interpretation elaborated by Carl J. Friedrich and Zbigniew K. 
Brzezinski, in their 1956 work entitled Totalitarian Dictatorship and Autocracy. Although both 
readings have intersections \u2013 especially the consideration of totalitarianism as something new in 
political terms \u2013 we will show that they differ, mainly regarding the description of the purposes of 
those movements of political domination. 
KEYWORDS: totalitarianism; Nazism; fascism; Hannah Arendt; Friedrich-Brzezinski 
 
1 
 
 
GONÇALVES, A. C.; LIMA, A. M. Interpretações do totalitarismo: Hannah Arendt e Friedrich-Brzezinski. 
Clareira - Revista de Filosofia da Região Amazônica, 2017 (no Prelo). ISSN: 2359-1951. 
Interpretações do totalitarismo: Hannah Arendt e Friedrich-Brzezinski 
Introdução 
Três experiências políticas, que tiveram origem após a Primeira Guerra Mundial, são 
comumente apontadas como as principais expressões do totalitarismo: o fascismo italiano (1922-
1945), o nazismo alemão (1933-1945) e o estalinismo russo (entre meados da década de 1920 e 
1953). Em que pese apresentarem diferenças substanciais, mormente em termos ideológicos1, 
estes regimes podem ser comparados entre si, especialmente por terem se constituído como 
antíteses do Estado de Direito. Isto se explica uma vez que, nestes regimes, as características 
fundamentais do Estado de Direito \u2013 entre as quais a separação dos poderes, o pluralismo político-
partidário, a existência de instituições representativas, as garantias constitucionais das liberdades 
fundamentais dos indivíduos \u2013 foram completamente negadas (TRAVERSO, 2001). 
Apesar do adjetivo \u201ctotalitário\u201d ter sido forjado na década de 1920, por antifascistas 
italianos, como uma forma de referência e denúncia ao regime instaurado por Mussolini2, apenas 
a partir da Segunda Guerra Mundial a expressão se generaliza, passando a designar (em maior ou 
menor grau) os três regimes acima referidos (MORIN, 2005; TRAVERSO, 2005)3. 
Provavelmente, a popularização do termo, na década de 1950, seria decorrência da publicação de 
duas das mais completas interpretações sobre o fenômeno totalitário: a de Hannah Arendt, em The 
 
1 Uma reflexão aprofundada sobre a origem, a evolução e o conteúdo social dos diversos regimes reivindicados como 
totalitários revela diferenças muito profundas entre eles, principalmente entre o nazismo alemão e o stalinismo russo. 
Em primeiro lugar, existe uma diferença notável com relação à duração de ambos os regimes: o nazismo durou doze 
anos, de 1933 a 1945, conhecendo uma radicalização acumulativa até o seu desfecho, após o fim da II Guerra 
Mundial; o stalinismo soviético, por sua vez, durou mais de 30 anos e, ao contrário do nazismo, não encontrou o seu 
fim após o fracasso em uma guerra, mas devido a uma crise interna. Em segundo lugar, existe uma diferença patente 
na formação dos regimes: no caso do nazismo, um regime que se constitui por meio de uma alternância política 
legal; no caso do stalinismo, um regime que nasce de uma revolução política. Em terceiro lugar, também são distintas 
as ideologias que fomentam os dois regimes: no nazismo, uma concepção de mundo racista, fundada em uma visão 
nacionalista biologizada e, consequentemente, em culto à mitologia de superioridade alemã; no caso do regime 
stalinista, uma ideologia amparada em uma interpretação dogmática do marxismo. As diferenças ideológicas entre 
a Alemanha hitlerista e a Itália fascista, no entanto, diminuíram notavelmente a partir de 1938, quando da 
promulgação de leis raciais e antissemitas na Itália (TRAVERSO, 2005). 
2 Em 1932, em um ensaio da Enciclopédia Italiana, Benito Mussolini e Emilio Gentile afirmavam, abertamente, a 
natureza \u201ctotalitária\u201d do regime fascista, entendido como um partido que governa, totalitariamente, uma nação. 
Enquanto o liberalismo coloca o Estado a serviço do indivíduo, o fascismo, diziam os autores, reafirma o Estado 
como a verdadeira realidade do indivíduo: \u201cTudo está no Estado; e nada humano ou espiritual existe, muito menos 
tem valor, fora do Estado. [...] Fora do estado não existem indivíduos nem grupos (partidos políticos, associações 
culturais, sindicatos, classes)\u201d (MUSSOLINI & GENTILE, 1932). 
3 O conceito de \u201cEstado totalitário\u201d não se tornaria popular no nazismo, sendo uma exceção o uso desta expressão 
feita por intelectuais como Ernst Jünger e Carl Schmitt, os quais prefiguraram o advento de um \u201cEstado total\u201d, a 
partir do modelo italiano. Em oposição à noção de Estado \u201ctotalitário\u201d, tornou-se popular, no nazismo alemão, a 
noção de Estado \u201cracial\u201d (TRAVERSO, 2005, p.101). 
2 
 
 
GONÇALVES, A. C.; LIMA, A. M. Interpretações do totalitarismo: Hannah Arendt e Friedrich-Brzezinski. 
Clareira - Revista de Filosofia da Região Amazônica, 2017 (no Prelo). ISSN: 2359-1951. 
Origins of Totalitarianism, de 1951, e a de Carl J. Friedrich e Zbigniew K. Brzezinski4, em 
Totalitarian Dictatorship and Autocracy, de 1956 (STOPPINO, 1998). Segundo Enzo Traverso 
(2001), por exemplo, dentre as publicações em língua inglesa, estas duas obras podem ser 
apontadas como os grandes clássicos sobre a temática totalitária. Em direção semelhante, Michael 
Geyer e Sheila Fitzpatrick (2009, p.4) se referem a Arendt e a Friedrich e Brzezinski como os 
\u201cpensadores mestres da primeira geração do totalitarismo\u201d. 
O objetivo do presente trabalho, portanto, é o de apresentar uma visão contrastante dessas 
duas interpretações do fenômeno totalitário, apontando aproximações e divergências iniciais. 
Embora a publicação da obra de Arendt tenha marcado a história e o processo de \u201ccanonização 
acadêmica\u201d do conceito de totalitarismo (FUENTES, 2006, p.201), desconsideraremos a ordem 
cronológica de publicação das obras e apresentaremos, inicialmente, a interpretação oferecida por 
Friedrich e Brzezinski. 
Principais características dos regimes totalitários: a interpretação de Friedrich e Brzezinski 
(1956) 
Publicada, em 1956, pelos cientistas políticos de origem austríaca e polaca, Carl. J. 
Friedrich e Zbigniew K. Brzezinski, a obra Totalitarian Dictatorship and Autocracy 5 examina a 
anatomia dos regimes totalitários do século XX, buscando fixar os seus elementos constitutivos. 
Esse objetivo é apresentado pelos autores logo no prefácio da obra, quando afirmam a tentativa de 
\u201cestabelecer uma teoria