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DIREITO DAS OBRIGACOES E RESPONSABILIDADE CIVIL 2013-1

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indevido é o erro, a noção equivoca-
da de vinculação a uma obrigação que na realidade não existe. Trata-se de um 
requisito, pois se o solvens, mesmo sabendo da inexistência de débito, realiza 
o pagamento, não há que se pleitear repetição.
Do pagamento indevido surge uma obrigação que vincula o accipiens à 
devolução do indevidamente recebido. Essa obrigação tem causa na lei, no-
tadamente no art. 876 do Código Civil, e não deixa de ser um fato curioso 
na medida em que um pagamento, meio natural de extinção de obrigações, é 
causa geradora de uma nova relação crédito/débito.
No que concerne aos requisitos do pagamento indevido, pode-se elencar 
os seguintes: (i) pagamento (aqui concebido no sentido amplo); (ii) ausência 
24 Destaque-se que embora próximo 
ao enriquecimento sem causa, o pa-
gamento indevido, enquanto instituto, 
conserva especifi cidades próprias, 
como a ação de repetição, expediente 
processual diverso da actio in rem ver-
so, modalidade genérica cabível nos 
casos de enriquecimento ilícito.
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de causa jurídica; e (iii) erro, sendo aqui irrelevante a espontaneidade do pa-
gamento para tornar obrigatória a restituição do mesmo.
Em relação ao erro do solvens, é necessário atentar, preliminarmente, ao 
art. 877 do Código Civil, ao dispor que:
Art. 877. Àquele que voluntariamente pagou o indevido incumbe a 
prova de tê-lo feito por erro.
Conforme enuncia o dispositivo transcrito, no caso de pagamento indevi-
do, há a necessidade de provar o erro. No entanto, tal artigo deve ser inter-
pretado de modo restrito, como se referindo apenas ao pagamento sem causa 
jurídica. Não há que estender a imposição desse ônus probatório na confi gu-
ração do enriquecimento ilícito.25
Caio Mário destaca ainda, no tocante ao erro, que:
“A repetição do indébito comporta ainda o erro quantitativo quando 
o devedor paga mais do que deve; ou quando paga por inteiro a um dos 
co-credores, no caso de a obrigação não ser solidária e ser divisível, ou 
ainda quando por erro sobre a situação real, paga a dívida já extinta”.26
Da mesma forma, observa-se a existência de pagamento indevido quando 
se salda dívida condicional antes do implemento da condição suspensiva. 
Conforme observado, antes do implemento do evento futuro e incerto, não 
há direito propriamente dito, mas tão somente expectativa de direito. Não 
há obrigação a ser solvida e, portanto, o pagamento erroneamente vinculado 
é repetível.
No entanto, o mesmo não ocorre com as obrigações sujeitas a termo ini-
cial (suspensivo). No termo, o evento que implica a efi cácia da obrigação é 
futuro e certo. A obrigação já existe, apenas sua efi cácia é que se condiciona 
ao implemento do termo. O direito do credor de receber já existe e quando o 
prazo aproveitar ao devedor, este pode dele abrir mão, pagando antecipada-
mente a obrigação. Não haverá, nesse caso, que se falar em repetição.27
Delineamentos gerais da repetição
Os efeitos do pagamento indevido, no que concerne à repetição, podem 
variar de acordo com a intenção do accipiens, na medida em que a conduta 
deste pode ser dar em consonância com a boa ou má-fé.
De modo sucinto, em havendo boa-fé, algumas peculiaridades da repeti-
ção deverão ser observadas: (i) o accipiens deve restituir o recebido e os frutos 
estantes; (ii) a devolução deve ser dar, prioritariamente em espécie, mas na 
25 O enriquecimento sem causa, como 
visto, é gênero que compreende como 
espécie o pagamento ilícito. A prova 
do erro é exigência apenas quando se 
intenta mostrar a ocorrência da espécie 
em questão.
26 Caio Mário da Silva Pereira. Institui-
ções de Direito Civil, v. II. Rio de Janeiro: 
Forense, 2004; p. 297.
27 Destaque-se que, se por outro lado, o 
termo aprouver ao credor, esse poderá 
enjeitar o recebimento da prestação até 
o momento fi xado para o cumprimento 
da obrigação.
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impossibilidade disso ocorrer, deve o accipiens restituir o valor estimado em 
dinheiro; (iii) o accipiens tem direito aos frutos percebidos e não é obrigado 
a devolver a estimação pecuniária daqueles que já consumiu; (iv) tem ele 
direito à restituição dos valores referentes às benfeitorias úteis e necessárias (e 
o conseqüente direito de retenção), bem como o de levantar as benfeitorias 
voluptuárias; e (v) o accipiens somente responde pela deterioração ou pereci-
mento do objeto quando transigir com culpa.
Por outro lado, a lei é bem mais severa com o accipiens de má-fé, determi-
nando: (i) a restituição da coisa, bem como os frutos e acessões próprios a ela; 
(ii) o accipiens de má-fé pode somente pleitear o valor das benfeitorias neces-
sárias, sem nem mesmo o direito de retenção; (iii) quando do perecimento ou 
dano à coisa deve responder pela estimação pecuniária da mesma, ainda que 
não tenha concorrido com culpa, excepcionando-se os casos em que o dano 
ocorreria independentemente do pagamento indevido.
Ainda na seara dos efeitos, aquele que recebe imóvel por conta de paga-
mento indevido está incumbido a auxiliar o solvens na retifi cação do registro.
Se o accipiens, procedendo de boa-fé, alienar o imóvel antes da reivindica-
ção, fi ca obrigado a restituir ao solvens o valor auferido na transação. Estan-
do, entretanto, de má-fé, certa é a possibilidade do solvens exigir quantum 
indenizatório referente a perdas e danos.
Indistintamente, no caso de doação, aquele que pagou equivocadamente 
pode demandar o imóvel do benefi ciado.
A primeira das hipóteses de impossibilidade de repetição está inserta no 
art. 881:
Art. 881. Se o pagamento indevido tiver consistido no desempe-
nho de obrigação de fazer ou para eximir-se da obrigação de não fazer, 
aquele que recebeu a prestação fi ca na obrigação de indenizar o que a 
cumpriu, na medida do lucro obtido.
A prestação se esgota no ato de sua execução, no fazer, ou ainda numa 
omissão, nesse caso, não fazer. A regra aqui é que o accipiens fi ca obrigado a 
indenizar na medida do benefício auferido.
Atentando aos artigos 882 e 883 do Código Civil, pode-se perceber três 
casos de exclusão do direito de repetição: (i) no pagamento de dívida já pres-
crita; (ii) no pagamento de obrigação natural; e (iii) quando o pagamento 
objetiva fi m ilícito, imoral ou proibido por lei.
A razão de ser dessa tripartição de causas é adotar a metodologia exposta 
pelo Código, no entanto, como já foi destacado, as obrigações naturais com-
portam as obrigações prescritas.
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O art. 882 do Código Civil enuncia que a impossibilidade de repetição 
atinge tanto as dívidas prescritas como as obrigações juridicamente inexigí-
veis (leia-se, naturais):
Art. 882. Não se pode repetir o que se pagou para solver dívida pres-
crita, ou cumprir obrigação judicialmente inexigível. 
A prescrição atinge a pretensão, mas não o direito em si, e tendo isso em 
vista, o pagamento de dívida prescrita, bem como de qualquer outra obriga-
ção natural (inexigível), não importa para o accipiens a necessidade de repeti-
ção. São obrigações incompletas, uma vez que são caracterizadas apenas pela 
existência de débito, sem responsabilidade:
Art. 883. Não terá direito à repetição aquele que deu alguma coisa 
para obter fi m ilícito, imoral, ou proibido por lei.
Parágrafo único. No caso deste artigo, o que se deu reverterá em 
favor de estabelecimento local de benefi cência, a critério do juiz.
A associação dos contratantes almejando fi m reprovado pela lei tem por 
efeito macular o direito de repetição. É uma aplicação do adágio de que a 
ninguém é dado se benefi ciar da própria torpeza. Se o solvens procede de 
modo torpe, dando algo e pretendo fi nalidade ilícita ou imoral, não tem ação 
de repetição.
Por fi m, outra