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DIREITO DAS OBRIGACOES E RESPONSABILIDADE CIVIL 2013-1

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Por fi m, cumpre observar que a responsabilidade civil é usualmente con-
cebida no direito brasileiro através de duas espécies: (i) a responsabilidade 
subjetiva; e a (ii) responsabilidade objetiva.
A responsabilidade subjetiva está atrelada à noção de conduta culposa do 
agente causador do dano, no que se aplicam todas as considerações acima so-
bre os elementos que devem ser reunidos para a confi guração da responsabili-
31 sobre o nexo de causalidade, vide, por 
todos, Gustavo Tepedino. “notas sobre o 
nexo de causalidade”, in Revista Trimes-
tral de Direito Civil, no 06; pp. 3/20.
32 Gustavo Tepedino. “a tutela da perso-
nalidade no ordenamento civil-consti-
tucional brasileiro”, in Temas de Direito 
Civil. rio, renovar, 2a ed., 2001; p. 47.
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dade. Assim, no regime da responsabilidade subjetiva, a vítima deverá provar 
que o agente do dano agiu com culpa, o nexo causal existente entre a conduta 
do agente e o dano causado, e, fi nalmente, o dano efetivamente ocorrido.
A responsabilidade civil objetiva prescinde da prova da conduta culposa 
do agente. Para gerar o direito à indenização, basta à vítima provar o nexo 
causal e o dano sofrido. Essa nova forma de responsabilização surgiu em 
decorrência dos avanços científi cos e tecnológicos, além da explosão demo-
gráfi ca, ocorridos no século passado. Percebeu-se que, se fosse compelida a 
vítima a provar a culpa do agente em numerosas situações, terminar-se-ia por 
gerar verdadeiras injustiças, dada a difi culdade que a produção dessa prova 
poderia acarretar.
Embora possa ser afi rmado que o direito brasileiro adotou a responsa-
bilização de natureza subjetiva como regra no Código de 1916 e, de forma 
mais mitigada no Código de 2002, o número de situações em que a res-
ponsabilização será de natureza objetiva tem crescido exponencialmente, em 
especial após a publicação do Código de Defesa do Consumidor, em 1990, 
que estabelece a responsabilidade objetiva como regra para todas as relações 
de consumo. A existência de uma cláusula geral de responsabilidade objetiva 
no artigo 927, §, comprova a tese e exigirá maiores aprofundamentos em aula 
dedicada ao tema.
As funções de responsabilidade civil
Mas qual seria a função ou as funções desempenhadas pela responsabilida-
de civil na sociedade contemporânea? Se por um lado a maior parte dos auto-
res está de acordo com a função compensatória da responsabilidade civil, ou 
seja, na fi nalidade de reparar os danos causados à vítima, fazendo com que a 
situação retorne, da forma mais adequada possível, ao status quo ante, outras 
funções podem ser encontradas para a disciplina da responsabilidade civil.
A função punitiva do agente do dano é uma das fi nalidades mais comu-
mente encontradas na doutrina e nas decisões judiciais e cuja própria existên-
cia tem gerado sucessivos debates. No cerne da discussão está a compreensão 
de que a responsabilidade civil não serviria apenas para reparar a vítima do 
dano, mas também para sancionar o agente do ilícito de forma a desestimular 
a prática de novas condutas danosas ou mesmo a perpetuação de uma con-
duta ilícita atual.
À função punitiva geralmente se relaciona uma terceira fi nalidade, de ca-
ráter sócio-educativa, apontando que a responsabilidade civil opera não ape-
nas de forma a educar o autor do dano através de uma punição, mas também 
instrui a sociedade como todo, alertando para a não admissibilidade de um 
certo comportamento.
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No que diz respeito ao conhecimento da responsabilidade civil para a con-
dução de atividades empresariais, pode-se dizer que a disciplina assume uma 
função de gestão de riscos na medida em que possibilita prever o impacto 
jurídico derivado das decisões administrativas sobre a condução de suas ati-
vidades, especialmente no que diz respeito aos possíveis danos causados a 
funcionários, usuários e terceiros em geral que venham a ser afetados por 
essas atividades.
Quando se está diante de casos em que a vítima e o ofensor possuem capa-
cidades econômicas bastante diferenciadas, a disciplina da responsabilidade 
civil ganha, não raramente, contornos bastante polêmicos no que diz respeito 
à quantifi cação do dano sofrido. Levar-se-ia em conta para a estimativa do 
dano o potencial econômico da vítima ou do ofensor? Hipóteses como essa 
poderiam gerar verdadeiras situações de enriquecimento sem causa, como 
também impor indenizações que, na verdade, pouca importância respresena-
triam sobre o patrimônio de uma das partes envolvidas. Nesses casos, ques-
tiona-se sobre a utilização da responsabilidade civil como um mecanismo de 
“justiça social” camufl ado, função essa que, de todo inapropriada, parece ser 
encontrada em algumas decisões nacionais e internacionais, sendo objeto de 
estudo por autores ligados à análise econômica do direito.
Polêmicas ou de maior aceitação, o debate sobre as funções da responsabi-
lidade civil pode ser construído a partir de decisões e dos textos doutrinários 
sobre o tema. Para os fi ns de introdução ao debate, recomenda-se a leitura 
dos textos indicados no início da presente aula e dos trechos abaixo selecio-
nados de julgado bastante citado do Superior Tribunal de Justiça, que servirá 
como caso gerador.
2. CASO GERADOR:
Leia os trechos abaixo do acórdão do Superior Tribunal de Justiça profe-
rido no Recurso Especial n° 287849/SP, julgado em 17/04/2001. Trata-se 
de caso no qual o autor da demanda, durante a estada em hotel-fazenda no 
interior de São Paulo, utilizou o escorregador para mergulhar em piscina cujo 
nível de água estava baixo e não sinalizado, sofrendo então múltiplas lesões 
por conta do acidente. Constaram do pólo passivo da ação indenizatória o 
hotel no qual jovem hospedou e a operadora de turismo que havia vendido o 
pacote de viagem (no qual estava incluída a hospedagem no referido hotel).
Após a leitura, debata os fundamentos da decisão proferida, buscando 
delinear (i) qual seria o comportamento esperado de cada uma das partes 
envolvidas para evitar o evento danoso, (ii) a repercussão jurídica das condu-
tas efetivamente adotadas e (iii) os regimes de responsabilidade atinentes ao 
hotel e à operadora de turismo.
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ementa
CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. Responsabilidade do 
fornecedor. Culpa concorrente da vítima. Hotel. Piscina. Agência de viagens. 
Responsabilidade do hotel, que não sinaliza convenientemente a profundi-
dade da piscina, de acesso livre aos hóspedes. Art. 14 do CDC. A culpa con-
corrente da vítima permite a redução da condenação imposta ao fornecedor. 
Art. 12, § 2o, III, do CDC. A agência de viagens responde pelo dano pessoal 
que decorreu do mau serviço do hotel contratado por ela para a hospedagem 
durante o pacote de turismo. Recursos conhecidos e providos em parte.
decisão do tribunal de Justiça de são paulo:
“Aliás, mesmo que fosse o caso, nem de culpa concorrente poder-se-ia cogi-
tar diante da ausência total de comunicação sobre a profundidade da piscina, 
que tinha seu acesso livre e apresentava iluminação precária. Tanto há respon-
sabilidade do hotel, que uma criança, brincando pelo local e não sabendo ler, 
podendo penetrar livremente nas dependências da piscina, não sabendo nadar, 
caindo dentro d’água, morreria afogada e não se pode olvidar que o infausto 
acontecimento ocorreu às vésperas do Natal, quando os hotéis fi cam lotados.”
voto do min. Ruy Rosado (relator)
“Ocorre que o autor usou do escorregador e ‘deu um salto em direção à 
piscina’, conforme narrou na inicial, batendo com a cabeça no piso e sofren-
do as lesões descritas no laudo. Esse mau uso do equipamento — instalação 
que em si é perigosa, mas com periculosidade que não excede ao que decorre