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Fábrica - Convento e Disciplina

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de realizar as tarefas e o grau de agilidade no seu desempenho. 
A formação da disciplina estava também diretamente vinculada ao funcionamento do 
processo produtivo durante e enquanto ele estivesse em operação. 
 
Sistema de Penalidades e de Premiação 
A obediência ao regulamento não repousava apenas em mecanismos persuasivos. 
Previam-se meios para que as ordens emanadas da direção ou as disposições 
regimentais fossem cumpridas: Um sistema de punição explícito e pessoas encarregadas 
de aplicá-lo. 
O regulamento previa punições previstas: repreensão dos “empregados negligentes ou 
malprocedidos”; aplicação de “multas nas contravenções”; envio de incorrigíveis ao 
escritório do gerente para os “fins convenientes” e a “expulsão”. As penalidades tinham 
o efeito corretivo: visavam coibir “micropenalidades” formadas de pequenos delitos 
cometidos pelos operários. Podiam estar relacionados: 
A) Ao tempo (atrasos, ausências); 
B) À atividade (desatenção, negligência) 
C) À maneira de ser (grosseria, desobediência); 
D) Aos discursos (conversar com operários de outras máquinas, escrever, ler 
livros durante a jornada); 
E) Ao corpo (trabalhar assentado); 
F) Aos gestos e atitudes incorretas. 
 
A manifestação da sexualidade era proibida no trabalho. 
As correções seguiam um ritual: havia um evidente desconforto físico e psicológico 
quando o empregado era enviado ao escritório central, devia ser notado por todos. O 
gerente fazia uma repreensão. Dependendo do delito, seguiam-se castigos corporais. 
A “correção” prolongava no meio social. Os efeitos das reprimendas ou dos castigos 
corporais eram aplicados na fábrica e se estendiam ao convívio social do operário e se 
estendiam até a própria família. 
Os empresários preferiam contratar famílias grandes intencionalmente, pois a 
estrutura familiar para disciplinar e controlar os funcionários, sobretudo os menores, 
servia de prolongamento do poder na fábrica como um mecanismo de manter a 
disciplina. Outra penalidade era a multa variando o valor segundo o delito ou a 
frequência. 
Ao dar ênfase às proibições, ao precaver-se contra as infrações e ao estabelecer 
uma série de punições para evitá-las, o regulamento produzia em partes, os valores de 
caráter repressivo da sociedade agrária escravocrata, da qual os industriais proviam. 
Para os empresários, os operários continuavam trabalhadores sem direitos. Por isso, 
para discipliná-los, lançaram mão dos mais diversos mecanismos coercitivos da 
formação econômica e social escravagista combinando0os com procedimentos 
espaciais, funcionais e políticos específicos do sistema fabril capitalista. 
Ao lado do sistema punitivo, aparece a gratificação. Segundo Foucault, a punição 
na disciplina não passa de um elemento de um sistema duplo: gratificação-sanção. 
Após isso, o autor cita medidas que poderiam resolver a questão da rotatividade da 
mão-de-obra. Primeiramente uma espécie de criação de incentivos com prêmios 
anuais para os empregados que se destacasse; segundo uma criação de uma caderneta 
de poupança. A última medida seria a criação de um percentual a ser descontado para 
a constituição da caixa econômica, uma espécie de aposentadoria. 
Os operários parecem ter resistido à medida, mas não existem motivos explícitos. 
As razões que podem ter influído se referem que o sistema não previa a contrapartida 
da empresa. A administração do fundo era exclusiva da companhia. O percentual 
descontado pesava no orçamento familiar em virtude dos baixos salários. Se a 
iniciativa garantia o futuro, o desconto mensal poderia comprometer a sobrevivência 
imediata. 
Ao invés da aposentadoria, houve a criação de um programa, mais modesto, que se 
tratava de um amparo a moléstia. A política de gratificações ainda instituiu prêmios 
para estimular o aumento da produtividade e aperfeiçoamento dos produtos e ainda 
uma distribuição de sobras ou vendas de ações das fábricas aos mestres e 
contramestres. 
A estrutura de poder dentro da fábrica era seu centro vital. Da estrutura de poder, 
dependia da eficácia dos procedimentos – a cerca, o controle do horário e da 
pontualidade, a distribuição espacial e funcional dos operários postos em prática para 
a formação da disciplina. 
Para que esse sistema fosse eficaz garantindo a produção, o funcionamento da 
fábrica e a manutenção da ordem havia um sistema de punição e de prêmios que, no 
limite, assegurava a obediência ao regulamento e às ordens diretas emanadas da 
direção e o disciplinamento dos operários. Quando o consentimento ativo não era 
obtido por meio de advertência e prêmios, a compulsão punitiva era acionada. A 
gratificação não foi um recurso generalizado e sua distribuição muito seletiva 
Havia também relatos de multas na época onde seu montante não era a parte 
significativa. Para o estudo da formação da disciplina, mais que o valor, o importante 
era seu registro, porque constitui a prova de que tais multas eram aplicadas e de que o 
sistema punitivo era utilizado, derivando um poder corretivo. 
Pelo caráter elitista e excludente da sociedade agrária e escravocrata da época, 
pode-se presumir que o sistema punitivo industrial funcionava em todos os casos (não 
funcionava apenas em casos excepcionais), sendo o uso da ameaça seu principal 
recurso para garantir a ordem na fábrica. 
Apesar do caráter limitado e restritivo, a premiação desempenhou um papel 
fundamental no complexo sistema de mecanismos acionados pelos empresários para 
a produção da disciplina, na medida em que garantiu e realimentou a dedicação e a 
lealdade da estrutura intermediária de poder. 
 
A Construção da Disciplina na Vila Operária 
Os operários dos primeiros estabelecimentos industriais estavam expostos silmutânea 
e permanentemente a outro espaço fechado, as vilas operárias, construídas anexas as 
fábricas, em terrenos de propriedade das companhias que as controlavam. Todas as 
indústrias fundadas nesse período viram-se na necessidade de oferecer casas e 
residências para seus colaboradores. 
A construção de vilas operárias foi condição sine qua non (não pode deixar de ser) 
para que as empresas assegurassem a mão de obra necessária para o desempenho de 
suas atividades. 
O modelo de fábrica com vila operária é um sistema de dominação que permite a 
extensão do poder exercido pelos empresários no interior da unidade produtiva ara a 
vida social e privada. Desse prolongamento derivava parte de seu poder disciplinador 
fora das relações de trabalho, expresso de duas formas principais: 
a) As companhias têxteis “auto-investiram-se” de algumas prerrogativas do 
estado, passando a regular os aspectos mais importantes da vida social; 
b) Utilizaram o poder econômico e ideológico para conformar o 
comportamento dos operários. 
 
O Uso do Poder Político 
O poder político foi utilizado pelos empresários para determinar o comportamento 
dos moradores e operário no âmbito das vilas. 
O poder de legislar, os regulamentos das fábricas foram escritos para gerar 
compromissos sociais os mais abrangentes possíveis. 
Os empresários proclamavam sua soberania nos domínios internos e externos da 
fábrica, não havia outra escolha para os trabalhadores em moradores: ou se submetiam a 
todas as normas regulamentares ou passavam a categoria incômoda de contraventores. 
As fábricas passaram a determinar o comportamento dos operários, definindo o certo 
e o errado, o permitido e o proibido: os direitos de morar, ir e vir, as características da 
vida social. Os empresários intervinham na esfera privada, regulamentando a 
convivência familiar e social. 
Os empresários se investiam de poderes para controlar o lazer, as amizades, as 
visitadas, as residências,