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Fábrica - Convento e Disciplina

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os costumes, procurando evitar situações disruptivas, 
explicitando um modelo de moralidade e de ordem publica a ser seguido. Além disso, 
tinha-se o interesse em instaurar um clima familiar nas filas. 
Os regulamentos prescreviam uma série de normas destinadas à preservação da saúde, 
à melhoria das condições sanitárias nas vilas, à criação de novos hábitos de higiene 
pessoal e de uma nova concepção de morar. 
Além do poder de legislar e de aplicar penalidades fora das relações de trabalho, os 
industriais, recorreram ao uso da violência nas vilas. O emprego da força foi utilizado 
para assegurar os mais diversos objetivos: o cumprimento do regulamento, preservação 
da propriedade, a manutenção da ordem e do sossego publico ou o domínio dos 
empresários sobre os moradores. 
A preservação da hegemonia empresarial sobre a força de trabalho supôs a utilização 
dos mais variados recursos táticos ou estratégicos. Na maior parte das fábricas, gerentes, 
acionistas, superintendentes ou diretores sempre residiram nas próprias vilas operárias e 
imediações. 
Em outras fábricas, as pessoas encarregadas de manter a disciplina podiam ser 
especificamente contratadas para o exercício dessa função ou até mesmo um corpo de 
policiais particulares, pagos pela companhia, para garantir propriedades, a ordem e o 
sossego público. 
O banditismo era pragmaticamente tolerado porque funcionava com um aliado na 
ação disciplinadora e moralizadora empreendida pelos empresários. 
As vilas operárias foram se transformando em cidades, sedes de municípios, os 
poderes políticos de legislar, multar, fiscalizar e etc., se voltaram para a esfera publica. 
Ao constituir-se o poder publico municipal, as contradições e conflitos resultantes da 
administração da vila passaram para outra arena, tendo outros mecanismos de 
expressão, fora da responsabilidade direta dos empresários. 
 
A manipulação do poder econômico e ideológico 
Com a associação entre a fábrica e as vilas operárias o poder de disciplinamento dos 
operários se estendeu para a vida privada, familiar e social dos trabalhadores e 
moradores, com o objetivo de assegurar o controle político. 
Os bens essenciais que as fábricas mineiras de tecidos do início do século XIX 
manipulavam eram muito variados. Passava pelo abastecimento, moradia, terras para 
plantio, água, transporte, luz elétrica, etc. 
Para obter a disciplina de seus operários os empresários desenvolveram diversas 
técnicas dentre elas a criação de instituições privadas de poder que se antecipavam de 
todos os problemas vividos por seus trabalhadores evitando que os operários tomassem 
iniciativas que pudessem redundar a sua constituição como classe ou na organização de 
associações próprias. 
Quanto ao problema de aposentadoria, auxilio doença e abastecimento a direção das 
fabricas criou em 1884 a caixa econômica, antes que o Estado intervisse na 
regulamentação dessa matéria. 
Quanto ao problema de educação os operários organizaram escolas primarias noturna 
para meninos e meninas objetivando o treinamento dos mesmos para trabalhar nas 
fábricas. 
Outra agência de poder extremamente útil para o disciplinamento dos funcionários foi 
a Igreja. A frequência às missas e aos cultos sempre foi estimulada. Os dirigentes 
sempre que podiam liberavam os operários para eventos da igreja. Meninas abrigadas 
pelos conventos eram as preferidas como mão de obra, já que eram assíduas e o custo 
era baixo. 
Outro campo que foi investido em busca da disciplina dos funcionários foi o de lazer 
e diversão, os empresários estimulavam formações de bandas e times de futebol além de 
investirem em cinemas e organização de clubes para os funcionários. O empregado ao 
iniciar seus serviços assinava uma folha autorizando o desconto mensal dando direito a 
frequentar o clube e a serviços médico-dentario. 
Outra agência de caráter privado utilizado para a disciplina dos funcionários era a 
família. Quanto mais filhos empregados nas fábricas, mais fácil ficaria o orçamento 
familiar. 
Para fazer parte do quadro de funcionários de uma fábrica a disciplina e à hierarquia 
passam a ser requisitos essenciais. Para os que não se adequassem a única maneira seria 
afasta-los de seus cargos. Os operários estavam sujeitos a um complexo sistema de 
disciplina que supunha o enclausuramento, a obediência às normas, às técnicas de sua 
distribuição espacial e funcional, rigorosos controles de entrada, saída e permanecia. 
Os empresários manipulavam indiretamente o poder ideológico por meio do uso de 
agências privadas previamente existentes na sociedade civil (como família, igreja e 
escola.) ou diretamente por associações criadas por eles, com o mesmo intuito: as 
bandas, clubes, hospitais e etc. 
 
O convento 
Os conventos eram instituições criadas pelos empresários de fábricas para alojar 
moças solteiras com a finalidade de trabalharem em suas fábricas. Era uma forma barata 
de recrutar mão de obra porque evitava a imobilização de capital na construção de 
cassas para operários, possibilitava o pagamento dos mais baixos salários as operarias, 
porque as despesas com as moças eram as menores possíveis, e por ultimo, o que 
também movia esse recrutamento era que elas era as mais constantes e estáveis 
trabalhadoras. Do ponto de vista organizacional, o convento foi uma instituição laica 
que atuava na formação de disciplina de um segmento importante da classe 
trabalhadora. 
Os intermediários encarregados de recrutar as moças podiam ser industriais, padres 
ou clientes, fornecedores de algodão ou distribuidores de tecidos. Eram previamente 
informados das qualidades que deveriam presidir no recrutamento das candidatas. 
Atributos ligados a inteligência, conhecimento prático e robustez era o primeiro critério. 
Além disso deveriam ser jovens com mais de 14 anos. 
Os conventos eram instituições regidas por estatutos próprios. Por essa razão, eles 
não podiam ser reduzidos a simples pensões. A existência de regulamento própria 
transforma o convento em uma organização fechada. Nele, as moças operárias não 
podiam agir livremente. Seu tempo e suas atividades passavam a ser reguladas 
coletivamente. 
O convívio social era controlado. A vida interna seguia o regulamento dentro dos 
horários preestabelecidos. Previa-se a realização de tarefas coletivas como: limpeza, 
arrumação da casa, lavação de roupas, etc. em casos de namoro eles poderiam acontecer 
na varanda ou na sala de visitas na presença da regente do convento. Das regentes 
dependiam o sucesso do convento, o bom funcionamento, a disciplina interna e a 
satisfação das conventuais, consequentemente, a sua permanência no trabalho. 
Foi decidido pelas fábricas que cada operário resolveria sua questão de subsistência 
por conta própria, inclusive as moças do convento, pois pensavam que o fornecimento 
de alimentação pelas fábricas ou pela regente do convento poderia ser motivo de queixa 
e insatisfação. 
Alguns motivos levavam as moças a saírem dos conventos, como o casamento, já que 
as fábricas não aceitavam mulheres casadas e com filhos, pois isso causava inúmeras 
faltas ao trabalho. E outro motivo era a contração de doenças. 
Nas fábricas de minas não havia inspetores de saúde publica que registrassem as 
condições subumanas de trabalho e vida dos operários das primeiras fábricas de tecidos 
do século XIX. A herança escravocrata dos primeiros empresários não era muito 
favorável a introdução de maiores melhorias de vida e de trabalho. 
Em síntese a formação da disciplina proveio da atuação conjunta e complementar de 
todos os mecanismos acionados, postos em prática em três ambientes – fábrica, vila 
operária e convento – tornando os efeitos da ação empresarial