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Resumo Perda de Sangue

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há pouca margem entre as ações anestésicas e os efeitos letais
(geralmente decorrentes de depressão respiratória).
Cerca de 10% dos indivíduos que ingerem álcool progridem para níveis de
consumo que são deletérios dos pontos de vista físico e social. O uso abusivo crônico
acompanha-se de tolerância, dependência e desejo irrefreável de usar a droga. O
alcoolismo caracteriza-se pelo uso compulsivo apesar das consequências médicas e
sociais claramente deletérias. O alcoolismo é uma doença progressiva e a lesão cerebral
causada pelo uso abusivo crônico de álcool contribui para os déficits das funções
cognitivas e do discernimento que são observados nos alcoólatras. 
Nos EUA, o alcoolismo é uma das principais causas de demência. O uso abusivo
crônico de álcool causa redução da massa cerebral em virtude das perdas das
substâncias branca e cinzenta. Os lobos frontais são particularmente sensíveis a lesão
provocada pelo álcool e a extensão dessa lesão é determinada pela quantidade e pela
duração do consumo de etanol, mas os alcoólatras idosos são mais suscetíveis que os
mais jovens. É importante ressaltar que o próprio etanol é neurotóxico e, embora a
desnutrição ou as carências vitamínicas provavelmente desempenhem um papel
importante nas complicações do alcoolismo (p. ex., encefalopatia de Wernicke e psicose
de Korsakoff), a maior parte das lesões cerebrais induzidas pelo álcool nos países
ocidentais é atribuída ao próprio etanol. Além da perda de tecidos cerebrais, o uso
abusivo de álcool também reduz o metabolismo cerebral (evidenciado por tomografia por
emissão de pósitrons) e esse estado de hipometabolismo repercute em um nível
exagerado de metabolismo durante a desintoxicação. O grau de disfunção metabólica é
determinado pelo número de anos de consumo do álcool e pela idade do paciente.
Ações do etanol nos Sistemas Neuroquímicos e nas Vias de Sinalização. 
O etanol afeta quase todos os sistemas cerebrais. As alterações dos sistemas
neuroquímicos ocorrem simultaneamente e, em geral, são interativas. Outra complicação
ao descrever os efeitos do álcool no SNC é a adaptação rápida ao etanol observada no
cérebro, resultando no fato de que os efeitos agudos da primeira dose de álcool
geralmente são contrários às consequências neuroquímicas da administração repetida e
às alterações observadas quando os níveis sanguíneos do etanol diminuem e também
nas síndromes de abstinência.
O álcool altera o equilíbrio entre as influências excitatórias e inibitórias no cérebro e
causa ataxia, sedação e efeito ansiolítico. Esses efeitos são produzidos por estimulação
da neurotransmissão inibitória, ou antagonismo da neurotransmissão excitatória. O etanol
provavelmente produz seus efeitos alterando simultaneamente as funções de algumas
Sidney Ferreira de Moraes Neto - Med2020 - 2017
proteínas que podem afetar a excitabilidade dos neurônios (Tabela 23-1). Um desafio
primordial tem sido identificar as proteínas que determinam a excitabilidade neuronial e
são sensíveis ao etanol nas concentrações que produzem efeitos comportamentais (5-20
mM). Muitos dos efeitos proeminentes ocorrem nos canais iônicos controlados por ligando
e por voltagem e nos sistemas GPCR.
Canais iônicos
Os mediadores principais da neurotransmissão inibitória do cérebro são os
receptores A do ácido γ-aminobutírico (GABAA) controlados por ligantes, cuja função é
expressivamente aumentada por algumas classes de sedativos, hipnóticos e anestésicos,
inclusive barbitúricos, benzodiazepinas e anestésicos voláteis. Dados significativos
implicam o receptor GABAA como alvo importante para as ações do etanol in vivo. A
estimulação desse sistema de canal de Cl– formado por várias subunidades e controlado
por ligantes contribui para as sensações de sonolência e relaxamento muscular e para as
propriedades anticonvulsivantes agudas associadas a todos os fármacos que ativam o
sistema GABA. 
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Depois da ingestão aguda, o etanol provoca liberação de GABA; a ingestão maciça
crônica altera o padrão de expressão dos genes que determinam a síntese das
subunidades do GABAA. A intoxicação por etanol pode ser entendida como um estado de
abundância de GABA, enquanto os fenômenos associados à abstinência estão
relacionados em parte com a atividade deficiente do GABAA. Vários polimorfismos dos
genes do receptor GABAA estão relacionados com a predisposição à ingestão maciça de
álcool e aos problemas associados ao alcoolismo.
O receptor nicotínico da ACh também é sensível aos efeitos do etanol. 
A ingestão aguda de álcool aumenta a quantidade de ACh na área tegmentar
ventral, com aumento subsequente da concentração de DA no núcleo acumbente. A
vareniclina (um agonista parcial do subtipo α4β2 do receptor nicotínico da ACh) reduz o
comportamento de procura por etanol e a ingestão desta substância em um modelo de
roedores, semelhante aos efeitos que produz na dependência da nicotina. Os efeitos do
etanol nesses receptores podem ser particularmente importantes porque existe uma
correlação entre a exposição à nicotina (tabagismo) e o consumo de álcool pelos seres
humanos. Além disso, vários estudos indicaram que a nicotina aumentava o consumo de
álcool nos modelos animais.
Os receptores ionotrópicos excitatórios do glutamato são subdivididos em duas
classes: receptores do N-metil-Daspartato (NMDA) e receptores não NMDA; este último
grupo também é subdivido em receptores do cainato e do AMPA. O etanol inibe a função
dos receptores de NMDA e do cainato; os receptores do AMPA são praticamente
resistentes ao álcool. Assim como ocorre com os receptores GABAA, a fosforilação do
receptor do glutamato pode modular a sensibilidade ao etanol.
Alguns outros tipos de canais são sensíveis ao álcool em concentrações
alcançadas rotineiramente in vivo. O etanol aumenta a atividade dos canais de K+ de alta
condutância ativados pelo Ca2+ nas terminações da neurohipófise, talvez contribuindo
para a redução da liberação de ocitocina e vasopressina depois da ingestão de etanol. O
etanol também inibe os canais de Ca2+ dos tipos N e P/Q por um mecanismo que pode
ser antagonizado pela fosforilação do canal pela PKA. Os canais BK (Maxi-K e slo1)
também são alvos da ação do etanol. Os canais de K+ retificadores internos controlados
pelas proteínas G (canais GIRK ou Kir) podem ser ativados pelas subunidades βγ da
família Gi/Go, pelo PIP2 e por outros alcoóis (por um mecanismos diferente). Os alcoóis
pequenos ligam-se a uma fenda de acoplamento hidrofóbica dos GIRKs, resultando na
ativação do canal por estabilização da conformação aberta.
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Outros sistemas neurotransmissores. Os sistemas relacionados com a dopamina
têm importância fundamental nas sensações de gratificação e desejo associadas a todas
as substâncias intoxicantes. Particularmente importantes são as alterações da atividade
da DA na área tegmentar ventral e adjacências, especialmente o núcleo acumbente, que
provavelmente desempenha um papel importante nas sensações de euforia e
gratificação. A ingestão aguda de álcool aumenta os níveis de DA nas sinapses, mas a
administração repetitiva está associada às alterações dos receptores D2 e D4, que podem
ser importantes para a perpetuação do consumo de álcool e também na recidiva do
alcoolismo.
O impacto do etanol nas vias dopaminérgicas está diretamente relacionado com as
alterações dos sistemas associados ao estresse. Teoricamente, essas alterações estão
relacionadas com o reforço produzido