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BURREL & MORGAN, "Sociological Paradigms and Organizational Analysis", 
Heineman, London, l979. 
(tradução livre do prof Wellington Martins, EA/UFBa.) 
 
INTRODUÇÃO. 
 
Este livro, que devorou os últimos dois anos de nossas vidas, é produto de uma 
amizade e parceria intelectual. Ele começou com a idéia inócua que cresceu com tal 
força que se tornou uma "maneira de ver". Isto fez mudar a maneira como pensávamos 
sobre teoria social, e esperamos que isto também aconteça com os outros. 
Este livro tem a intenção de clarear e ajudar a superar o que parece ser uma das 
maiores fontes de confusão dentro das ciências sociais na atualidade. Inicialmente ele 
teve um objetivo muito específico: o de tentar relacionar teorias de organização com 
seus contextos sociológicos mais amplos. No curso do desenvolvimento, contudo, esta 
diligência se ampliou tanto e se voltou também para a tarefa de abarcar muitos 
aspectos de filosofia e de teoria social em geral. Como tal ele agora sustenta um 
discurso em teoria social de relevância para muitas disciplinas de ciência social, das 
quais na área geral de estudos de organização - a sociologia industrial, a teoria 
organizacional, a psicologia organizacional e relações industriais - são alguns casos 
que utilizamos para ilustrar nossos temas gerais. 
Nossa proposta é de que a teoria social pode beneficamente ser concebida em 
termos de quatro paradigmas chaves baseados em diferentes conjuntos de 
pressupostos metateóricos sobre a natureza da ciência social e sobre a natureza da 
sociedade. Os quatro paradigmas são fundamentados em visões do mundo social 
mutuamente exclusivas. Cada uma delas se posiciona em seu próprio campo e cada 
uma de per si gera sua própria analise distintiva da vida social. Com relação ao estudo 
das organizações, por exemplo, cada paradigma gera teorias e perspectivas que estão 
em fundamental oposição àquelas geradas nos outros paradigmas. 
Tal análise da teoria social coloca-nos face a face com a natureza dos pressupostos 
subjacentes às diferentes abordagens à ciência social. Traz à tona detalhes que 
adornam muitas das teorias sociais naquilo que é fundamental à determinação da 
maneira como vemos o mundo que estamos pretendendo analisar. Este aspecto 
enfatiza o papel social desempenhado pelo quadro de referência do cientista na 
geração da teoria social e da pesquisa. 
A este respeito, com relação ao campo do estudo das organizações no presente 
momento, como em outras disciplinas da ciência social, constata-se que uma vasta 
proporção de teoria e pesquisa estão localizadas dentro dos limites de somente um dos 
quatro paradigmas aqui considerados. Na verdade, a grande maioria está localizada 
dentro do contexto de uma gama de possibilidades teóricas relativamente estreita que 
define aquele paradigma. Não é exagero, portanto, sugerir que a o empreendimento 
científico social em geral é construído em cima de um conjunto extremamente limitado 
de pressupostos metateóricos. Esta concentração de esforços em áreas relativamente 
estreitas define o que é usualmente visto como a ortodoxia dominante dentro de um 
assunto. Porque esta ortodoxia é tão dominante e forte, seus aderentes a tomam como 
certa e auto-evidente. As perspectivas rivais dentro do mesmo paradigma ou fora de 
1 
suas fronteiras aparecem como satélites definindo pontos de vista alternativos. 
Contudo, o impacto deles na ortodoxia é raramente muito significante. Eles são 
freqüentemente muito fortes para se estabelecerem como algo mais que um conjunto 
de abordagens até certo ponto desviantes. Como resultado as possibilidades que eles 
oferecem são raramente pouca exploradas e são deixadas de lado. 
A fim de entender pontos de vista alternativos é importante que o cientista esteja 
totalmente consciente dos pressupostos em que sua perspectiva está baseada. Esta 
apreciação envolve uma excursão intelectual que o coloca fora do campo de seu 
familiar domínio. Esta tarefa requer que ele se torne consciente das fronteiras que 
definem sua perspectiva. Isto também requer que ele excursione no inexplorado. 
Requer mais que ele se torne familiar com paradigmas que não são o seu próprio. 
Somente então ele pode olhar para traz e apreciar inteiramente a natureza precisa de 
seu ponto de partida. 
O trabalho aqui apresentado é uma tentativa de levar o estudante de organizações 
aos domínios que provavelmente ele jamais explorou antes. Esta é uma jornada em 
que nós, os autores, embarcamos despercebidamente como resultado de certas 
dúvidas importunantes e de incertezas a cerca da utilidade e validade de muitas das 
teorias e pesquisas contemporâneas em nosso assunto. Estamos conscientes da 
maneira como os estudos das atividades organizacionais tem gerado montanhas de 
teorias e pesquisas que pareciam não ter ligações óbvias fora das estreitas áreas de 
disciplinas. Estamos conscientes da natureza essencialmente efêmera de nosso 
assunto. Estamos a par do sectarismo acadêmico refletido várias vezes na hostilidade 
aberta, na indiferença tipo avestruz e no diálogo e debate geralmente de baixa 
qualidade entre escolas de pensamento relacionadas em essência. Em suma, sentimos 
que nossa área de temática exigiu um cuidadoso exame dos pressupostos sobre os 
quais se baseou com vistas a vê-la numa nova e esperançosamente refrescante luz. 
Em essência nosso livro apresenta uma prestação de contas de nossa jornada e um 
registro das conclusões e insights que emergiram. 
Começamos nossa tarefa pela consideração de como poderíamos distinguir entre 
diferentes abordagens ao estudo das organizações. A visão de que "todas as teorias de 
organização estão baseadas em uma filosofia de ciência e numa teoria da sociedade" 
voltou freqüentemente em nossas conversas e logo descobrimo-la definindo as duas 
principais dimensões de análise. Embora os teóricos organizacionais nem sempre 
sejam muito explícitos sobre os pressupostos básicos que informam seus pontos de 
vista, é claro que todos eles tomam uma posição em cada um destas questões. Quer 
estejam conscientes disto ou não eles trazem para seus temas de estudos um quadro 
de referência que reflete uma total série de pressupostos sobre a natureza do mundo 
social e da maneira como ele deveria ser investigado. 
Nossa tentativa de explorar estes pressupostos levou-nos para os domínios da 
filosofia social. Nos defrontamos com problemas de ontologia e epistemologia e outras 
questões que raramente recebem consideração dentro do campo de estudo da 
organização. A medida em que investigamos estas questões descobrimos que elas 
sustentaram os grandes debates filosóficos entre cientistas sociais de tradições 
intelectuais rivais. Constatamos que a ortodoxia em nossos objetos de estudo estava 
apoiada essencialmente em apenas uma destas tradições e que as perspectivas 
satélites que observamos como rodeando a ortodoxia eram, de fato, derivadas de uma 
fonte intelectual completamente separada. Constatamos que eles estavam tentando 
articular pontos de vista que derivavam de pressupostos diametralmente opostos sobre 
a natureza básica do mundo social; deste modo eles subscreveram pressupostos 
completamente diferentes sobre a verdadeira natureza do próprio empreendimento 
científico-social. 
Ao investigar os pressupostos relacionados com a natureza da sociedade nos 
tornamos, em princípio, capazes de operar em terreno mais firme. A sociologia dos 
anos 60 tinha colocado o seu foco no "debate ordem-conflito" quer fosse enfatizando o 
"problema da ordem" quer fosse o "problema de conflito e mudança". No fim dos anos 
60 o debate tinha sido considerado morto, e estas duas visões da sociedade eram 
vistas meramente como dois aspectos da mesma problemática. Ao revisar a literatura 
relevante deste debate tornamo-nos crescentemente convencidos de que aquele 
debate tinha tido uma morte prematura. Enquanto estavaclaro que os sociólogos 
acadêmicos tinham se convencido de que o "problema do conflito poderia se 
subordinar ao "problema da ordem", cientistas fora desta tradição, particularmente 
aqueles interessados na teoria marxista, estavam ativamente engajados no 
desenvolvimento de teorias sociais que colocavam os problemas de conflito e mudança 
na linha de frente de suas análises. Embora os sociólogos acadêmicos e os cientistas 
sociais marxistas aparentassem estar contentes trabalharem isoladamente, ignorando 
as perspectivas contraditórias que apresentavam, parecia que quaisquer análises das 
teorias da sociedade deveriam levar em conta as perspectivas rivais. 
Nossa incursão à literatura marxista nos conduziu a um novo campo mais alem de 
nosso interesse inicial. Ficamos surpresos em descobrir chocantes paralelos entre 
desenvolvimentos dentro da teoria marxista e da sociologia acadêmica. Constatamos 
que os pressupostos sobre a natureza da ciência social que dividiu os sociólogos em 
diferentes escolas de pensamento também dividiram os cientistas marxistas. Naquele 
campo, também, o quadro teórico dominante estava arrodeado por escolas de 
pensamento satélites oferecendo explicações rivalizantes. Perseguindo estas tradições 
a partir de suas fontes, descobrimos que elas emergiram a partir precisamente das 
mesmas fronteiras da filosofia social que tinham comprometido elementos divergentes 
dentro da própria sociologia. Isto tornou claro que as tradições divergentes que 
enfatizavam "ordem" como oposto a "conflito" compartilhavam da mesma linhagem de 
suas raízes em filosofia social. Derivando de pressupostos similares sobre o status 
ontológico e epistemológico da ciência social, eles tinham estado ligados a quadro de 
referência fundamentalmente diferentes com relação a natureza da sociedade. 
Ao fazer estas ligações cruzadas entre estas tradições intelectuais antagônicas, 
tornou-se claro para nós que nossos dois conjuntos de pressupostos poderiam ser 
colocados um contra o outro para produzir um esquema analítico para o estudo da 
teoria social em geral: os dois conjuntos definiam quatro paradigmas básicos refletindo 
visões da realidade social absolutamente diferentes. Ao tentar relacionar este esquema 
com a literatura em ciência social verificamos que estávamos de posse de uma 
ferramenta extremamente poderosa para negociar nosso caminho através de diferentes 
áreas temáticas, e particularmente uma que fez sentido devido a grande confusão que 
caracteriza a maioria do atual debate dentro das ciências sociais. O esquema ofereceu-
se como uma forma de mapa intelectual mediante o qual as teorias sociais poderiam 
ser localizadas de acordo com suas fontes e tradições. As teorias raramente ou quase 
nunca aparecem fora de seu espaço estreito; elas geralmente têm por traz uma historia 
bem estabelecida. Descobrimos que nosso mapa intelectual permitia-nos rastrear a 
evolução das teorias. Estas se localizaram de acordo com suas origens. Onde as 
tradições intelectuais antagônicas tinham sido fundidas, versões híbridas distintas 
pareciam aparecer. O que primeiro se ofereceu como um simples dispositivo 
classificatório para organizar a literatura passou a apresentar-se como uma ferramenta 
analítica. Isto nos indicou novas áreas de investigação. Isto permitiu-nos estimar e 
avaliar as teorias comparando com o pano de fundo da tradição intelectual que elas 
3 
pensavam rivalizar. Isto permitiu-nos identificar teorias embrionárias e antecipar 
potenciais linhas de desenvolvimento. Isto finalmente permitiu-nos escrever este livro. 
Nos capítulos que se seguem procuramos apresentar nosso esquema analítico e 
usá-lo para abrir caminho através da literatura em teoria social e análise 
organizacional. Tivemos a intenção de apresentá-lo tão clara e diretamente quanto 
possível ao mesmo tempo evitando os inconvenientes de super-simplificação. Porem 
os conceitos de um paradigma não podem facilmente serem interpretados nos termos 
daqueles conceitos de um outro. Para entender um novo paradigma a pessoa tem que 
explorá-lo a partir de dentro dele, em termos de sua problemática que o distingue. 
Assim, enquanto fazíamos cada esforço para prestar conta tão plenamente quanto 
possível até onde nos permitiu a língua inglesa, tivemos necessariamente que nos 
valer de conceitos que as vezes não são familiares. 
Os demais capítulos que complementam a Parte I definem a natureza de nossas 
duas dimensões de análise chaves e os paradigmas que emergem dentro de seus 
limites. Nesta análise nós polarizamos uma quantidade de questões e fazemos muito 
uso de grosseiras dicotomias como meio de apresentar nossos casos. Assim 
procedemos não meramente com propósitos de classificação, mas para forjar uma 
ferramenta de trabalho. Nós advogamos nosso esquema como um dispositivo 
heurístico em lugar de um conjunto de definições rígidas. 
Na Parte II colocamos nosso quadro analítico em operação. Para cada um de 
nossos quatro paradigmas conduzimos uma análise da teoria social relevante e então 
precedemos o relacionamento das teorias de organização com seus backgrounds mais 
amplos. Cada um dos paradigmas são tratados em termos consistentes com seu 
próprio quadro de referência que o distingue. Não se faz qualquer tentativa de criticar e 
avaliar a partir de uma perspectiva fora do paradigma. Tal crítica é tão fácil mas auto-
destrutiva, uma vez que é usualmente dirigida para os fundamentos do próprio 
paradigma. Todos os quatro paradigmas podem ser demolidos com sucesso nestes 
termos. O que buscamos fazer é desenvolver a perspectiva que é característica do 
paradigma e ressaltar algumas das implicações para a análise social. Ao assim fazer 
temos descoberto que freqüentemente somos capazes de fortalecer as conceituações 
geradas em cada paradigma de interesse para o estudo as organizações. Nossa regra 
guia tem sido a de oferecer algo para cada paradigma nos termos de sua própria 
problemática. Os capítulos na Parte II, portanto, são por natureza essencialmente 
expositivos. Eles procuram proporcionar um minucioso quadro de referência a partir do 
qual futuros debates poderão ser frutiferamente baseados. 
A Parte III apresenta uma curta conclusão que focaliza alguns dos principais 
assuntos que emergem de nossa análise. 
BURRELL & MORGAN, "Sociological Paradigms and Organizational Analysis", 
Heinemann, London, 1979. 
(tradução livre do Prof. Wellington Martins, EA/UFBa.) 
 
 
1. PRESSUPOSTOS SOBRE A NATUREZA DA CIÊNCIA SOCIAL. 
 
Central para nossa tese é a idéia de que "todas as teorias de organização são 
baseadas em uma filosofia da ciência e em uma teoria da sociedade". Neste capítulo 
desejamos nos reportar ao primeiro aspecto desta tese e examinar alguns dos 
pressupostos filosóficos que subjazem as diferentes abordagens à ciência social. 
Iremos argumentar que é conveniente conceituar ciência social em termos de quatro 
conjuntos de pressupostos relativos a ontologia, a epistemologia, a natureza humana e 
a metodologia. 
Todos os cientistas sociais abordam seus temas por meio de pressupostos implícitos 
ou explícitos a cerca da natureza do mundo social e da maneira como ele pode ser 
investigado. Em primeiro lugar, há pressupostos de natureza ontológica - pressupostos 
que dizem respeito à verdadeira essência do fenômeno sob investigação. Os cientistas 
sociais, por exemplo, são colocados frente a frente com a questão: a "realidade" a ser 
investigada é uma realidade externa ao indivíduo - impondo-se à sua consciência a 
partir de fora - ou é produto de sua consciência; se é uma realidade de natureza 
objetiva ou produto da cognição do indivíduo; se é uma realidade que é dada "lá fora" 
no mundo ou é produto da propriamente? 
Associados com esta questão ontológica, há um segundo conjunto de pressupostos 
de natureza epistemológica. Estes são pressupostos sobre as bases do conhecimento- 
de como alguém poderia começar a entender o mundo e transmitir este conhecimento 
para seus semelhantes em forma de comunicação. Estes pressupostos abarcam 
idéias, por exemplo, sobre que formas de conhecimento podem ser obtidas, e como 
alguém pode separar o que é para ser visto como "verdadeiro" do que é para ser visto 
como "falso". Na verdade esta dicotomia de "falso" e "verdadeiro" por si só pressupõe 
uma certa posição epistemológica. Ela é atribuída mediante uma visão da própria 
natureza do conhecimento: se, por exemplo, o conhecimento é algo sólido, real e capaz 
de ser transmitido de modo tangível ou é algo mais maleável, subjetivo, espiritual ou 
mesmo transcendental, baseado na experiência e no insight de natureza única e 
essencialmente pessoal. Os pressupostos epistemológicos nestes exemplos 
determinam posições extremas na questão de se por um lado o conhecimento ser algo 
que pode ser adquirido ou se por outro lado é algo que tem que ser experimentado 
pessoalmente. 
Associado com as questões ontológicas e epistemológicas, mas conceitualmente 
separada delas, está um terceiro conjunto de pressupostos relacionados com a 
natureza humana e, em particular, a relação entre os seres humanos e seu ambiente. 
Fica bem claro que toda ciência social deve ser predita mediante este tipo de 
pressuposto, uma vez que a vida humana é essencialmente o sujeito e o objeto da 
investigação. Portanto, podemos identificar em ciência social perspectivas que 
vinculam uma visão dos seres humanos respondendo, em um mecânico ou mesmo em 
uma forma determinista, a situações encontradas em seu mundo exterior. Esta visão 
5 
tende a ser uma em que os seres humanos e suas experiências são vistos como 
produtos do ambiente; uma em que os humanos são condicionados por suas 
circunstâncias externas. Esta perspectiva extrema pode ser contrastada com uma outra 
que atribui aos seres humanos um papel muito mais criativo: uma perspectiva onde 
o "livre arbítrio" ocupa o centro do palco; onde o homem é olhado como criador de seu 
ambiente, controlador em vez de controlado, senhor ou invés de marionete. Nestas 
duas visões extremas da relação entre seres humanos e seus ambientes identificamos 
um grande debate filosófico entre os defensores do determinismo, por um lado e o 
voluntarismo por outro. 
Os três conjuntos de pressupostos acima têm implicação direta de natureza 
metodológica. Cada um tem importantes conseqüências na maneira como se tenta 
investigar e obter "conhecimento" do mundo social. Diferentes ontologias, 
epistemologias e modelos de natureza humana levam os cientistas sociais a diferentes 
metodologias. A possível gama de escolhas é certamente tão grande que o que é visto 
como ciência pelo tradicional "cientista natural" cobre apenas uma pequena margem de 
opções. É possível, por exemplo, identificar metodologias empregadas em pesquisas 
na área de ciência social que tratam do mundo social como um mundo natural, como 
sendo sólido, real e externo ao indivíduo, e outros que percebem o mundo social como 
sendo muito mais maleável, pessoal e de qualidade mais subjetiva. 
Se alguém subscreve a visão do primeiro tipo, que trata o mundo social como se ele 
fosse uma realidade concreta e objetiva, então o empreendimento científico é para 
colocar seu foco de análise nas relações e regularidades entre os vários elementos que 
o encerra. O interesse, portanto, é com a identificação e definição desses elementos e 
com a descoberta dos meios pelas quais as relações podem ser expressas. As 
questões metodológicas de importância são pois os próprios conceitos, suas medidas e 
a identificação dos temas subjacentes. Esta perspectiva expressa-se com muito mais 
força na busca de leis universais que explicam e governam a realidade que está sendo 
observada. 
Se alguém subscreve a visão alternativa da realidade social, que enfatiza a 
importância da experiência subjetiva dos indivíduos na criação do mundo social, então 
a busca do entendimento coloca o seu foco nas diferentes questões e as aborda de 
diferentes maneiras. O interesse principal é com o entendimento da maneira como o 
indivíduo cria, modifica e interpreta o mundo no qual ele se descobre. Em casos 
extremos, a ênfase tende a ser colocada na explanação e no entendimento do que é 
único e particular ao indivíduo ao invés do que é geral e universal. Esta abordagem 
levanta a questão de se existe uma realidade externa digna de estudo. Em termos 
metodológicos esta é uma abordagem que enfatiza a natureza relativa do mundo social 
a um ponto tal que pode ser percebida como "anti-científica" ao tomar como referência 
as regras básicas aplicadas às ciências naturais. 
A dimensão subjetiva -objetiva 
 
A abordagem subjetiva A abordagem objetiva 
à ciência social à ciência social 
 
 Nominalismo ----------- ontologia ---------- Realismo 
 
 Antepositivismo ---- epistemologia -------- Positivismo 
 
 Voluntarismo ------ natureza humana ------- Determinismo 
 
 Ideográfico ---------- metodologia --------- Nomotético 
 
Fig. 1.1. Esquema para analisar os pressupostos sobre a 
natureza das ciências sociais. 
 
 
Neste breve esboço dos vários pontos de apoio ontológicos, epistemológicos, 
humanos e metodológicos que caracterizam as abordagens à ciência social, temos 
procurado ilustrar duas perspectivas amplas e de certo modo polarizadas. A figura 1.1. 
busca retratar estas perspectivas em um modelo mais rigoroso em termos do que 
descrevemos como a dimensão objetiva - subjetiva. Este modelo identifica os quatro 
conjuntos de pressupostos que são relevantes para o entendimento da ciência social, 
caracterizando cada um por seus rótulos descritivos sob os quais eles têm sido 
debatidos na literatura de filosofia social. Na sessão seguinte deste capítulo faremos 
uma revisão de cada um destes quatro debates em necessariamente breves mas 
sistemáticos termos. 
OS FIOS DO DEBATE. 
O Debate Ontológico.: Nominalismo - realismo.1
Estes termos têm sido objeto de muita discussão na literatura e há grandes áreas de 
controvérsia em torno delas. A posição nominalista gira em torno do pressuposto de 
que o mundo social externo à cognição do indivíduo é construído de nada mais que 
 
1
. Para uma discussão mais profunda sobre o debate nominalismo - 
realismo, ver Kolakowski (1972),pp.15-16. 
 
7 
nomes, conceitos e títulos que são usados para estruturar a realidade. O nominalista 
não admite a existência de qualquer estrutura 'real' para o mundo em que tais 
conceitos são usados para descrever. Os 'nomes' usados são vistos como criações 
artificiais cuja utilidade é baseada em suas conveniências como ferramentas para 
descrever, dar sentido de e negociar com mundo externo. O nominalismo é 
freqüentemente comparado com o convencionalismo, e nós não faremos qualquer 
distinção entre eles.1
O realismo, por outro lado, postula que o mundo social externo cognição do 
indivíduo, é um mundo real composto de estruturas concretas, tangíveis e 
relativamente imutáveis. Quer nós as percebamos e as rotulemos ou não, ainda assim, 
elas existem independentemente de nós, como entidades empíricas. Podemos até não 
estar conscientes de certas estruturas cruciais e apesar disto não termos 'nomes' ou 
conceitos para articulá-las. Para o realista, o mundo social existe independentemente 
de uma apreciação dele pelo indivíduo. O indivíduo nasce e vive dentro de um mundo 
social que tem sua própria realidade. Não há nada que o indivíduo possa criar - ele 
existe "lá fora". Ontologicamente ele é anterior à existência e consciência de qualquer 
ser humano em particular. Para o realista, o mundo social tem uma existência que é 
sólida e concreta como o mundo natural.2 
 
O Debate Epistemológico: Positivismo - Antipositivismo.3Tem se afirmado que a palavra 'positivista' do mesmo modo que a palavra 
'burguesia' tem se tornado mais um epiteto depreciativo do que um conceito descritivo 
útil'.4 Temos a intenção de usá-lo aqui nesse último sentido, como um conceito 
descritivo que pode ser utilizado para caracterizar um tipo particular de epistemologia. 
Muitas das descrições do positivismo em uso corrente se refere a uma ou mais das 
dimensões ontológicas, epistemológicas e metodológicas de nosso esquema para 
analisar pressupostos com relação a ciência social. Ele é também algumas vezes 
erradamente equiparado com o empirismo. Tais misturas encobrem questões básicas e 
contribui para o uso do termo no sentido depreciativo. 
Usamos o termo "positivista" aqui para caracterizar epistemologias que buscam 
explicar e predizer o que acontece no mundo social, pela procura de regularidades e 
relações causais entre seus elementos constituintes. A epistemologia positivista é, em 
essência, baseada nas abordagens tradicionais que dominam as ciências naturais. Os 
positivistas podem diferir em termos de abordagens detalhadas. Alguns poderiam 
defender, por exemplo, que regularidades estabelecidas como hipóteses podem ser 
verificadas através de um programa de pesquisa experimental adequado. Outros 
sustentam que hipóteses somente podem ser falsificadas e nunca demonstradas como 
 
1
. Kolakowski (1972), pp. 158 - 9. Em sua forma mais extrema o 
nominalismo não reconhece a existência de qualquer mundo fora 
dos domínios da consciência do indivíduo. Esta é a posição 
solipsista, que discutiremos em mais detalhes no Capítulo 6. 
2
. Para uma revisão mais abrangente do 'realismo', ver Keat e 
Urry (1975), pp. 27 - 45. Eles fazem muita distinção entre 
'positivismo' e 'realismo' mas, como eles próprios admitem, 
estes termos são usados de uma maneira de certo modo não 
convencional. 
3
. Para uma maior discussão do debate positivismo - anti-
positivismo ver, por exemplo, Giddens (1974) e Walsh (1972). 
4
. Giddens (1974), p. 1. 
"verdade"5. Contudo, tanto os verificacionistas como os falsificacionistas aceitam 
que o crescimento do conhecimento como um processo essencialmente cumulativo em 
que novas descobertas são adicionadas ao estoque de conhecimento existente e as 
falsas hipóteses eliminadas. 
A epistemologia do anti-positivismo pode tomar várias formas porem se coloca 
firmemente contra a inutilidade da busca de leis e de regularidades subjacentes e de 
relações causais no mundo dos afazeres sociais. Para os anti-positivistas , o mundo 
social é essencialmente relativista e pode somente ser entendido do ponto de vista dos 
indivíduos que estão diretamente envolvidos nas atividades que estão sendo 
estudadas. Os anti-positivistas rejeitam o ponto de vista do 'observador', que 
caracteriza a epistemologia positivista, como um ponto vantajoso para entender as 
atividades humanas. Eles sustentam que uma pessoa somente pode 'entender' 
ocupando-se de um quadro de referência do participante na ação. a pessoa tem que 
entender a partir de dentro ao invés de fora. Deste ponto de vista a ciência social é 
vista como essencialmente subjetiva em lugar de um empreendimento objetivo. Os 
anti-positivistas tendem a rejeitar a noção de que a ciência pode gerar conhecimento 
objetivo de qualquer espécie.6
O Debate sobre a "Natureza Humana": Voluntarismo - Determinismo. 
Este debate gira em torno do modelo de homem contido em uma dada teoria social 
científica. Em um extremo está a visão determinista que vê o homem e suas atividades 
como sendo completamente determinadas pela situação ou pelo ambiente em que ele 
se situa. No outro extremo identificamos a visão voluntarista do homem completamente 
autônomo e possuidor de livre arbítrio. Até onde alcançam as teorias sociais no que 
concerne o entendimento das atividades humanas, elas devem se inclinar implícita ou 
explicitamente para um ou outro destes pontos de vista, ou adotar um ponto 
intermediário que permite a influência tanto de fatores situacionais ou voluntários na 
constatação de atividades dos seres humanos. Tais pressupostos são elementos 
essenciais nas teorias sociais científicas, uma vez que define em termos amplos a 
natureza das relações entre o homem e a sociedade em que ele vive.7
O Debate Metodológico: Teoria Ideográfica - Nomotética. 
A abordagem ideográfica à ciência social é baseada no ponto de vista que só se 
pode entender o mundo social pela obtenção, em primeira Mão, do conhecimento sob 
Investigação. 
Esta abordagem coloca considerável ênfase no tornar-se mais próximo do subjetivo 
das pessoas e em explorar seus detalhados backgrounds e história de vida. A 
 
5
. Ver, por exemplo, Popper (1963). 
6
. Para uma boa ilustração de uma visão anti-positivista de 
ciência, ver Douglas (1970b),pp. 3 - 44. 
9 
7
. O debate sobre a natureza humana em seu mais amplo sentido 
envolve muitos outros aspectos que não nos referimos aqui O 
preciso modelo de homem a ser empregado em qualquer esquema 
analítico, contudo, está subscrito por pressupostos que refletem 
questões de voluntarismo-determinismo de uma maneira ou de 
outra. Isolamos aqui este elemento do debate como um meio de 
tratar a este nível mais básico um pressuposto necessário a 
todas as teorias sociais científicas que pretenda levar em conta 
as atividades humanas. Proposições detalhadas com relação a uma 
precisa explanação das atividades humanas de uma maneira ou de 
outra elaboram estes temas básicos. 
abordagem ideográfica enfatiza a análise das constatações subjetivas que uma pessoa 
gera ao 'penetrar' em situações e ao se envolver no fluxo da vida diária - a análise 
detalhada das descobertas geradas por tais encontros com o subjetivo da pessoa e as 
descobertas reveladas de constatações impressionísticas encontradas em diários, 
biografias e registros jornalísticos. O método ideográfico ressalta a importância de se 
deixar que o próprio subjetivo da pessoa revele sua natureza e características durante 
o processo de investigação.8
A abordagem nomotética à ciência social coloca ênfase na importância de basear 
pesquisa em protocolo sistemático e em técnica. Ela pode ser condensada nas 
abordagens e métodos empregados nas ciências naturais que focalizam o processo de 
testar hipóteses de acordo com os cânones do rigor científico. Ela está preocupada 
com a construção de testes científicos e no uso de técnicas quantitativas para a análise 
de dados. Pesquisa de dados, questionários, testes de personalidade e instrumentos 
de pesquisa padronizados de todos os tipos são proeminentes entre as ferramentas 
que compreende a metodologia nomotética.9
 
Analisando os Pressupostos sobre a Natureza da Ciência Social 
 
Esses quatro conjuntos de pressupostos com relação a natureza da ciência social 
proporcionam uma poderosa ferramenta para a análise da teoria social. Na maioria da 
literatura há uma tendência a misturar os assuntos que estão envolvidos. Desejamos 
argumentar aqui que vantagens consideráveis decorrem de se tratar estas quatro 
linhas de debate cientifico-social como analiticamente distintos. Embora na prática haja 
freqüentemente uma forte relação entre as posições adotadas em cada uma das quatro 
linhas, os pressupostos sobre cada uma delas podem de fato variar grandemente. É de 
bom alvitre examinar este ponto em mais detalhe. 
As posições extremas em cada uma das quatro linhas de debate estão refletidas nas 
duas principais tradições intelectuais que têm dominado a ciência social por mais de 
duas centenas de anos. A primeira destas é comumente descrita como "positivismo 
sociológico". Em essência esta reflete a tentativa de aplicar modelos e métodos 
derivados das ciências naturais ao estudo dos afazeres humanos. Ela tratao mundo 
social como ele fosse um mundo natural, adotando uma abordagem "realista" para a 
ontologia. Isto é apoiado por uma epistemologia "positivista", por uma visão da 
natureza humana relativamente "determinista" e pelo uso de metodologias 
"nomotéticas". A segunda tradição intelectual, do "idealismo Germânico", se coloca em 
completa oposição àquela. Em essência ela é baseada na premissa de que a realidade 
última do universo reside no "espírito" ou "idéia" em lugar de nos dados do sentido da 
 
8
. Para uma excelente discussão da abordagem ideográfica à 
ciência social, ver Blumer (1969), ch. 1. 
9
. É importante enfatizar aqui que tanto as metodologias 
nomotéticas como ideográficas podem ser empregadas num sentido 
indutivo e dedutivo. Enquanto o debate indutivo-dedutivo em 
ciência é objeto de considerável interesse e importância, não o 
vemos como sendo central para as quatro dimensões sugeridas aqui 
como meios de distinguir entre teorias sobre a natureza das 
ciências sociais. Que apesar disto, ele permanece uma questão 
metodológica importante, de relevância tanto para a sociologia 
como para a análise organizacional, dentro do contexto dos 
pressupostos explorados aqui. 
percepção. Ela é essencialmente nominalista em sua abordagem à realidade social. 
Em contraste com as ciências naturais, ela enfatiza a natureza essencialmente 
subjetiva dos afazeres humanos, negando a utilidade e a relevância dos modelos e 
métodos da ciência natural para os estudos neste campo. Ela é "anti-positivista" em 
epistemologia, "voluntarista" com relação a natureza humana e favorece os métodos 
ideográficos como fundamentação da análise social. O positivismo sociológico e o 
idealismo Germânico deste modo definem os extremos objetivo e subjetivo de nosso 
modelo. 
Muitos sociólogos e teóricos de organização foram criados dentro da tradição do 
positivismo sociológico, sem se expor à doutrina básica do idealismo Germânico. Para 
eles a ciência social é vista como concordante com a configuração dos pressupostos 
que caracterizam o extremo objetivo de nosso modelo. Contudo, nos últimos setenta 
anos ou mais tem havido uma crescente interação entre estas duas tradições, 
particularmente no nível sócio-filosófico. Como resultado têm surgido pontos de vista, 
cada um deles com suas próprias configurações distintivas dos pressupostos sobre a 
natureza da ciência social. Eles todos desovaram teorias, idéias e abordagens 
características de suas posições intermediárias. Como argumentaremos em capítulos 
mais na frente, os desenvolvimentos em fenomenologia, etnometodologia e o quadro 
de referência da ação deverão ser entendidos nestes termos. Estas perspectivas, 
enquanto oferecendo sua própria marca de descoberta, têm sido freqüentemente 
usadas como almodas de lançamento para ataque ao positivismo social e têm gerado 
uma considerável quantidade de debates entre escolas de pensamento rivais. a 
natureza deste debate pode somente ser completamente entendido pela apreensão e 
apreciação de pressupostos diferentes que estão embasando os pontos de vista em 
competição. 
É nosso contentamento que o esquema analítico oferecido aqui torne as pessoas 
capazes de fazer precisamente isto. Ele é oferecido não como um mero dispositivo 
classificatório, mas como uma importante ferramenta para transacionar a teoria social. 
Ele chama atenção para pressupostos chaves. Ele permite que as pessoas focalizem 
em questões precisas que diferenciam as abordagens sócio-cientificas. Chama 
também atenção para o grau de congruência entre os quatro conjuntos de 
pressupostos sobre a ciência social que caracterizam quaisquer dos pontos de vista de 
teóricos. Oferecemos aqui como a primeira dimensão principal de nosso esquema 
teórico para analisar a teoria em geral e a teoria organizacional em particular. Por 
conveniência podemos normalmente nos referir a ele como a dimensão "subjetiva - 
objetiva", dois rótulos descritivos que talvez capturem os pontos de comunalidade entre 
as quatro linhas analíticas. 
11 
2. PRESSUPOSTOS SOBRE A NATUREZA DA SOCIEDADE.. 
 
O debate Ordem - Conflito. 
 
Os últimos vinte anos ou mais têm testemunhado um número de tentativas de sociólogos em 
delinear as diferenças que separam as várias escolas de pensamento e os pressupostos meta-
sociólogicos que elas refletem. 
Foram Dahrendorf (1959) e Lockwood (1956) quem iniciaram a distinção entre aquelas 
abordagens à sociologia que se concentraram em explanar a natureza da ordem e do equilíbrio 
social por um lado, e daquelas que tinham mais a ver com problemas de mudança, conflito e 
coerção nas estruturas sociais por outro. Os "teóricos da ordem" eram bem mais numerosos do 
que os "teóricos do conflito". 
Muitos sociólogos vêem agora este debate como morto ou como tendo sido um não-debate, de 
certo modo espúrio, por entenderem ser o conflito um aspecto social funcional e, portanto, uma 
variável dentro dos limites de teorias que são primordialmente engendradas para explanar a 
ordem social. Neste sentido as visões de ordem e conflito da sociedade são os dois lados da 
mesma moeda. Por conta deste argumento, deixou-se de lado o debate ordem - conflito, e na 
esteira do movimento de contracultura dos anos 60, os sociólogos ortodoxos se tornaram mais 
interessados e envolvidos com os problemas do "indivíduo" em oposição àqueles da "estrutura" 
da sociedade em geral. A influência dos movimentos "subjetivistas" tais como a fenomenologia, 
a etnometodologia e a teoria de ação, tornaram-se muito mais atrativos e mais merecedores de 
atenção. 
No entanto, no entender de Burrel & Morgan, ao revisar as fontes intelectuais e os 
fundamentos do debate - ordem e conflito - se é forçado a concluir que este debate teve uma 
morte prematura. Dahrendorf e Lockwood pensaram em revitalizar o trabalho de Marx através 
de seus escritos e a resgatá-los conduzindo-os a um lugar central na teoria sociológica, uma vez 
que Marx sempre foi grandemente ignorado por renomados sociólogos, pela enorme influência 
de Durkheim, Weber e Pareto, cujo principal interesse era o da ordem social. Era em Marx que 
estava a preocupação com o papel do conflito como uma força impulsora por traz da mudança 
social. Dito desta maneira, portanto, o debate está comprometido com diferenças de perspectivas 
e de interesses de teóricos sociais proeminentes do século dezenove e inicio do século vinte. A 
sociologia moderna tem feito pouco mais do que articular e desenvolver os temas básicos 
iniciados por aqueles pioneiros da análise social. 
Não se pode ignorar as substanciais diferenças entre os trabalhos de Marx e os de Durkheim, 
Weber e Pareto. Qualquer um familiar com os trabalhos destes teóricos e conscientes da 
profunda divisão que existe entre Marxismo e sociologia é forçado a admitir que há diferenças 
fundamentais, que ainda estão longe de serem conciliadas. 
Para melhor entender a questão voltemos ao trabalho de Dahrendorf que pode ser 
esquematizado como a seguir: 
 
 
 
 
Tabela 2.1 
 
Duas teorias da sociedade: "ordem" e "conflito" 
___________________________________________________________ 
A “ordem” ou "integracionismo" O "conflito" ou "coerção" 
 visa visa 
____________________________________________________________ 
 Estabilidade Mudança 
 Integração Conflito 
 Coordenação Funcional Desintegração 
 Consenso Coerção 
____________________________________________________________ 
Embora represente uma supersimplificação, esta conceituação fornece uma útil ferramenta 
para se distinguir as diferenças entre os dois pontos de vista. A tentativa de incorporar a noção 
de "conflito" como mecanismo de integração é forçar muito a barra. Não se pode simplesmente 
incorporar a dimensão conflito/integração dentro do interesse da sociologiatradicional para 
explicar a ordem. A falácia desta posição torna-se clara se consideramos formas extremas de 
conflito tais como conflito de classe, revolução e guerra, que somente podem ser incorporados ao 
modelo integracionista, por maior que seja o alongamento da imaginação. Não se pode igualar 
conflitos macroestruturais com conflitos funcionais, como os identificados por Coser (1956). Há 
uma importante questão de gradação a ser considerada ao dicotomizar integração x conflito; na 
realidade a distinção entre os dois é muito mais a de um contínuo do que a maioria dos escritores 
têm reconhecido. 
Um outro aspecto do esquema de Dahrendorf tido como problemático reside na distinção 
entre consenso e coerção. Embora pareça óbvio e claro, ao focar em valores compartilhados por 
um lado, e em imposição de algum tipo de força por outro, isto implica em certa ambigüidade. 
De onde provem os valores compartilhados? São eles adquiridos autonomamente ou impostos 
sobre alguns membros da sociedade por outros? Estas questões identificam a possibilidade de 
que consenso pode ser o produto do uso de alguma forma de força coercitiva. Wright Mills 
(1959), por exemplo, nos chama a atenção para o que Parsons e outros grandes teóricos chamam 
de "orientações para valores" e "estrutura normativa" como tendo muito a ver com símbolos 
dominantes de legitimação. A estrutura normativa aqui - que Dahrendorf teria visto como 
consenso - é tratada como um sistema legitimando a estrutura de poder. Do ponto de vista de 
Mills, ela reflete o fato de dominação. Em outras palavras, os valores compartilhados podem ser 
vistos não somente como um índice de grau de integração que caracteriza uma sociedade, como 
um que reflete o sucesso das forças de dominação de uma sociedade predisposta a desintegração. 
De um ponto de vista , idéias compartilhadas, valores e normas são algo a ser preservado; de 
outro, eles representam um modo de dominação que o homem necessita se livrar. A dimensão 
consenso/coerção pode assim ser vista como focalizando assuntos de controle social. 
13 
Ao distinguir entre estabilidade e mudança como aspectos respectivamente de ordem e 
conflito, o modelo de Dahrendorf abre a possibilidade interpretação errônea, ainda que ele 
explicite que afirmou não ter a intenção de concluir que a teoria da ordem admite que a 
sociedade é estática. Seu interesse foi mostrar como as teorias funcionais são essencialmente 
envolvidas com aqueles processos que servem para manter os padrões do sistema como um todo. 
Em outras palavras, as teorias funcionais são vistas como estáticas no sentido em que estão 
interessadas na explanação do status quo. Neste respeito as teorias de conflito são claramente de 
natureza diferente; elas estão comprometidas com, e buscam explicar, o processo e a natureza da 
mudança estrutural profundamente assentada na sociedade, em oposição à mudança de natureza 
mais superficial e efêmera da teoria da ordem. 
Nota do tradutor: Estes dois aspectos de mudança têm muito a ver com o meu trabalho. Não 
estou interessado nessa mudança superficial e efêmera das teorias organizacionais 
funcionalistas e, como tal, me distancio das estratégias de D.O e de outras tantas de natureza 
semelhante. O atalho que Argyris tomou e que estou seguindo com os devidos cuidados, ataca 
de frente a estrutura normativa da sociedade pela raiz: os valores governantes básicos que 
orientam as ações dos indivíduos nas suas relações com o outro e/ou com o contexto. Embora 
não se possa afastar o caráter funcional da busca de eficiência e eficácia, o certo é que o 
questionamento de valores governantes contidos na estrutura normativa da sociedade (e por 
extensão, das organizações), pode levar, e esperamos que efetivamente leve , a profundas 
mudanças nas organizações, a partir da reestruturação cognitiva dos indivíduos. 
As noções de Dahrendorf de coordenação funcional e de desintegração pode ser vista como 
constituindo uma das mais poderosas linhas de pensamento que distingue ordem de conflito. 
Todavia, há também lugar para interpretações errôneas. Seu conceito de integração deriva do 
interesse funcionalista com a contribuição que os elementos de um sistema fazem para o todo. 
Isto é uma super-simplificação, não só porque há disfunções (Merton, 1948) como também 
porque, como o próprio trabalho de Dahrendorf sugere, várias partes de um sistema podem ter 
um alto grau de autonomia e podem contribuir muito pouco para a integração do sistema como 
um todo. 
Por esta razão pode se tornar bem mais claro se a posição da teoria do conflito, nesta 
dimensão, tivesse sido apresentada em termos mais radicais e distintos. Há muito mais na teoria 
Marxiana, por exemplo, no que se refere a noção de contradição e de incompatibilidade básica 
entre diferentes elementos da estrutura social. Contradição implica em heterogeneidade, 
desequilíbrio e forças sociais essencialmente antagônicas e divergentes. Argumentar que o 
conceito de contradição pode ser abarcado pela análise funcional, requer um ato de fé ou, no 
mínimo um considerável vôo de imaginação. 
Alinhados com esta análise, os autores (B&M) argumentam que a tentativa de reduzir os dois 
modelos a uma base comum ignora as diferenças fundamentais que existem entre elas. A teoria 
do conflito baseado no conflito estrutural, profundamente arraigado e relacionado com 
transformações radicais da sociedade, não é consistente com a perspectiva funcionalista. 
'Regulação" e "Mudança Radical". 
As expressões "regulação" e "mudança radical" sugeridas pelos autores, substituem com 
vantagens as noções de ordem e conflito até agora discutidas. 
O termo sociologia da regulação refere-se aos escritos dos teóricos que estão 
primordialmente interessados em prover explanações da sociedade em termos que enfatizam sua 
unidade subjacente e coesão. É uma sociologia essencialmente interessada na necessidade de 
regulação dos afazeres humanos; as questões básicas que ela faz tende a focar na necessidade de 
entender porque a sociedade é mantida como uma entidade. O trabalho de Durkheim, com sua 
ênfase na natureza da coesão e da solidariedade social, por exemplo, dá uma clara e 
compreensiva ilustração de um interesse pela sociologia da regulação. 
A sociologia da mudança radical se contrapõe à sociologia da regulação naquilo em que seu 
interesse básico é descobrir explicações para a mudança radical, para o conflito estrutural 
profundamente arraigado, para os modos de dominação e das contradições estruturais que os 
teóricos vêem como caracterizando a moderna sociedade. É a sociologia interessada 
essencialmente com a emancipação do homem de suas estruturas, que limitam e impedem seu 
potencial de desenvolvimento. As questões básicas que ela faz, focalizam na privação do homem 
, tanto material como psíquica. É freqüentemente visionária e utópica, naquilo que olha como 
potencialidade, muito mais do que como realidade presente; está interessada no que é possível, 
mais do que com o que a coisa é; com alternativas, mais do que com a aceitação do status quo. A 
tabela 2.2 sumariza a situação. 
Tabela 2.2. 
A dimensão regulação - mudança radical. 
____________________________________________________________ 
 REGULAÇÃO MUDANÇA RADICAL 
 tem a ver com: tem a ver com: 
_________________________________________________________ 
 
 (a) o status quo (a) mudança radical 
 (b) ordem social (b) conflito estrutural 
 (c) consenso (c) modos de DOMINAÇÃO 
 (d) INTEGRAÇÃO e COESÃO social (d) CONTRADIÇÃO 
 (e) solidariedade (e) emancipação 
 (f) satisfação de necessidade (f) privação 
 g) realidade presente (g) potencialidade 
____________________________________________________________ 
 
 
 
15 
BURREL & MORGAN, "Sociological Paradigms and Organizational Analysis", Heineman, 
London, l979. 
(traduçãolivre do profº. Wellington Martins, EA/UFBa.) 
 
3. DUAS DIMENSÕES : QUATRO PARADIGMAS. 
 
Do que até agora foi examinado, pode-se observar que os pressupostos sobre a natureza da 
ciência estão contidos numa dimensão: subjetiva - objetiva; e os pressupostos sobre a natureza 
da sociedade em uma dimensão: regulação - mudança radical, como se pode ver na Figura 3.1 
abaixo. 
A SOCIOLOGIA DA MUDANÇA RADICAL 
SUBJETIVO OBJETIVO 
Humanismo Estruturalismo 
radical radical 
Interpretativo Funcionalismo 
 
A SOCIOLOGIA DA REGULAÇÃO 
Figura 3.1. Quatro paradigmas para análise da teoria social. 
Dentro da sociologia da regulação o debate tem surgido entre a sociologia interpretativa o 
funcionalismo. Na esteira do tratado de Berger & Luckman (1966) sobre a sociologia do 
conhecimento, no trabalho de Garfinkel (1967) sobre etnometodologia e no ressurgimento geral 
do interesse na fenomenologia, o status questionável dos pressupostos ontológico e 
epistemológico da perspectiva funcionalista tem sido crescentemente exposto. 
Similarmente, dentro do contexto da sociologia da mudança radical tem havido uma divisão 
entre os teóricos que adotam os pontos de vista subjetivo e objetivo da sociedade. Este debate 
foi, em grande medida, liderado pela publicação na França (1966) e na Inglaterra (1969) do 
trabalho de Louis Althusser chamando a atenção para a "quebra epistemológica" do trabalho de 
Marx, que enfatizou a polarização dos teóricos Marxistas em dois campos: aqueles que 
enfatizavam os aspectos subjetivos (por exemplo, Lukács, e a Escola de Frankfurt) e aqueles 
que advogavam mais abordagens objetivas tais como as daqueles associados ao estruturalismo 
Althussiano. 
O debate entre as sociologias da regulação e da mudança radical que aconteceu na segunda 
metade dos anos 60, foi substituído por um diálogo interno dentro do contexto de escolas de 
pensamento separadas. Ao se voltarem para elas próprias e ao defenderem suas posições com 
relação a dimensão subjetivo - objetivo, negligenciaram a dimensão mudança-regulação radical. 
No momento já existe amadurecimento para considerações do caminho a frente, e os autores 
submetem as duas independentes dimensões chaves de análise que ressuscitam os assuntos 
sociológicos dos anos 60 e os colocam ao daqueles do fim dos anos 60 e inicio dos anos 70. 
Tomados em conjunto, eles distinguem 4 paradigmas distintos: o humanismo radical, o 
estruturalismo radical, Interpretativo e funcionalista. 
Natureza e Usos dos Quatro Paradigmas. 
Vemos os 4 paradigmas definidos por pressupostos metateóricos muito básicos que 
subscrevem o quadro de referência , o modo de teorizar e o modus operandi dos teóricos sociais 
que operam dentro deles. É um termo que tem a intenção de enfatizar o que tem de comum nas 
perspectivas que liga o trabalho de um grupo de teóricos de tal modo que podem ser usualmente 
vistos como abordando uma teoria social dentro dos limites da mesma problemática. 
Esta definição não implica completa unidade de pensamento. O paradigma tem uma unidade 
subjacente em termos de seus pressupostos básicos e freqüentemente "tidos como verdades" que 
separam um grupo de teóricos de maneira fundamentalmente diferente de teóricos localizados 
em outros paradigmas. A unidade do paradigma portanto deriva da referência a pontos de vista 
alternativos da realidade que se posiciona alem de suas fronteiras e que pode não ser 
necessariamente nem mesmo reconhecido como existente. 
Os 4 paradigmas tomados em conjunto fornecem um mapa para negociar a área sujeito, que 
oferece uma maneira conveniente de identificar similaridades básicas e diferenças o trabalho dos 
vários teóricos e, em particular, os quadros de referência subjacentes que eles adotam. Também 
fornece uma conveniente meio de localizar o próprio quadro de referência com relação a teoria 
social, e deste modo um meio de entender porque certas teorias e perspectivas podem ter mais 
atrativo pessoal do que outras. Como qualquer outro mapa, ele fornece uma ferramenta para 
estabelecer onde estão, onde esteve e pra onde se é possível ir no futuro. 
Um fato que merece atenção é que os 4 paradigmas são mutuamente exclusivos. Eles 
oferecem pontos de vista alternativos sobre a realidade social. 
O Paradigma Funcionalista. 
Este paradigma tem provido um quadro dominante na condução da sociologia acadêmica e no 
estudo das organizações É firmemente enraizado na sociologia da regulação e aborda o sujeito 
principal de um ponto de vista objetivista. Caracteriza-se pelo interesse em dar explicações do 
status quo , da ordem social, da integração social, da solidariedade, e da necessidade de 
satisfação e atualização. Ele aborda estes assuntos sociológicos gerais sob o ponto de vista que 
tende para ser realista, positivista, determinista e nomotético. 
Está voltado para explanações essencialmente racionais de assuntos sociais. Altamente 
pragmático em orientação, freqüentemente orientado para o problema, envolvido em prover 
soluções práticas. É usual e firmemente envolvido com a filosofia de engenharia social como 
base para a mudança social, enfatizando a importância de entender a ordem, o equilíbrio e a 
estabilidade na sociedade e os meios pelos quais eles podem ser mantidos. Está envolvida com a 
efetiva regulação e controle dos affairs sociais 
Originado na França nas primeiras décadas do século XIX, recebeu suas maiores influências 
através dos trabalhos de Augusto Comte, Herbert Spencer, Emile Durkheim e Valfrido Pareto. A 
abordagem funcionalista à ciência social tende a assumir que o mundo social é composto de 
artefatos empíricos relativamente concretos e de relações que podem ser identificadas, estudadas 
e medidas através de abordagens derivadas das ciências naturais. 
Para ilustrar, vejamos o trabalho de Durkheim. Central em sua posição foi a idéia de que os 
"fatos sociais" existem fora da consciência dos homens, e restringe o homem em suas atividades 
diárias. 
17 
Desde as primeiras décadas do século XX que o paradigma funcionalista tem sido 
influenciado por elementos do idealismo Germânico de pensamento social. Através dos trabalhos 
de Weber, George Simmel e George Herbert Mead, a abordagem idealista tem sido utilizada no 
contexto das teorias sociais numa tentativa de fazer a ponte entre as duas tradições. Assim 
fazendo, esqueceram algumas perspectivas teóricas características da última região do 
“objetivismo", fronteiriça do paradigma interpretativo. Tais teorias têm rejeitado o uso de 
analogias mecânicas e biológicas no estudo do mundo social e tem introduzido idéias que 
colocam ênfase na importância de entender o mundo social do ponto de vista dos atores que 
estão realmente engajados no desempenho das atividades sociais. 
A partir dos anos 40 tem havido também uma infusão de certas influências Marxistas 
características da sociologia da mudança radical que tem ajudado a radicalizar a teoria 
funcionalista e a recusar a pecha geral de que o funcionalismo é essencialmente conservador e 
incapaz de prover explicações para a mudança social. 
A SOCIOLOGIA DA MUDANÇA RADICAL 
SUBJETIVO OBJETIVO 
Idealismo Germânico Teoria Marxista 
 
SOCIOLOGIA DA REGULAÇÃO Positivismo sociológico 
 
Fig. 3.2. Influências intelectuais sobre o paradigma funcionalista. 
Cruamente falando, a formação do paradigma funcionalista pode ser entendido em termos da 
interação de três conjuntos de forças intelectuais: a teoria marxista, o idealismo germânico e o 
positivismo sociológico, sendo esta última a mais influente. O cruzamento destas forças tem 
dado lugar a um numero de distintas escolas de pensamento. Na sociologia as principais são : o 
objetivismo, a teoria dos sistemas sociais, a teoria integrativa e a escola do interacionismo e da 
teoria da ação social. Na análise das organizações as principaissão: o objetivismo, a teoria do 
sistema social, o pluralismo, as teorias das disfunções burocráticas e o quadro de referência da 
ação. 
O Paradigma Interpretativo. 
Embora identificado com a sociologia da regulação o paradigma interpretativo é 
informado por um interesse em entender o mundo como ele é, mas de entender a natureza 
fundamental do mundo social ao nível da experiência subjetiva. Ele busca explanação dentro do 
reino da consciência individual e da subjetividade, dentro do quadro de referência do 
participante, em oposição ao do observador da ação. É nominalista, antepositivista, voluntarista 
e ideográfico. Através dele se vê o mundo social como um processo social emergente que foi 
criado pelos indivíduos envolvidos. A realidade social não tem existência fora da consciência de 
qualquer indivíduo em particular ; é visto como sendo pouco mais do que uma rede de 
pressupostos e de significados compartilhados inter-subjetivamente 
A sociologia interpretativa está interessada em entender a essência do mundo do dia a dia. Em 
termos do esquema analítico dos autores, está envolvida com assuntos relacionados com a 
natureza do status quo, da ordem social, do consenso, da integração e coesão, e da 
solidariedade e atualização. 
O paradigma interpretativo é também produto direto do idealismo Germânico. Seus 
fundamentos vêm do trabalho de Kant e reflete a filosofia social que enfatiza essencialmente a 
natureza espiritual do mundo social. No princípio do século sofreu a influência dos neo-
idealistas tais como Dilthey, Weber, Husserl e Schutz. Em termos sociológicos nota-se 4 grandes 
correntes: a hermenêutica, a sociologia fenomenológica, a fenomenologia e o solipsismo. Em 
termos da teoria das organizações: a etnometodologia e o interacionismo simbólico 
fenomenológico. 
A fig. 3.3 e 3.4 ilustram a maneira como o paradigma foi explorado tomando como referência 
nosso interesse na teoria social e no estudo das organizações. Enquanto tenha havido um 
pequeno número de tentativas de estudar os conceitos de organização e situações a partir deste 
ponto de vista, o paradigma não gerou muitas teorias organizacionais. Como ficará claro a partir 
de nossa análise, há boas razões para isto. As premissas do paradigma interpretativo questionam 
se as organizações existem senão no sentido conceitual e, como tal, desafia a validade dos 
pressupostos ontológicos subjacentes às abordagens funcionalistas da sociologia em geral e ao 
estudo das organizações em particular. 
O Paradigma do Humanismo Radical. 
É definido por seu interesse em desenvolver a sociologia da mudança radical. de um ponto 
de vista subjetivista. Vê o mundo social de uma perspectiva que tende a ser nominalista, 
antepositivista, voluntarista e ideográfica. Seu quadro de referência está envolvido com uma 
visão da sociedade que enfatiza a importância de destruir ou de transcender as limitações dos 
arranjos sociais existentes. 
Uma das noções mais básicas que subjacem o todo deste paradigma é o de que a consciência 
do homem é dominada pelas superestruturas ideológicas com o qual ele interage, e que estas 
dirigem uma cunha cognitiva entre o próprio indivíduo e a verdadeira consciência. Esta cunha é 
a da "alienação" ou da "falsa consciência" que inibe ou evita o verdadeiro preenchimento 
humano. O maior interesse dos teóricos abordando a condição humana nestes termos é o de 
livrar o ser humano das restrições que os arranjos sociais colocam sobre o desenvolvimento 
humano. Critica-se o status quo. Vê-se a sociedade como anti-humana e se está interessado em 
articular meios para que os seres humanos possam transcender os vínculos e grilhões que os 
prendem aos padrões sociais existentes e, portanto, a realizar seu potencial pleno. 
O humanismo radical coloca ênfase na mudança radical, nos modos de dominação, 
emancipação, potencialidade e privação. Os conceitos de conflito estrutural e de contradição 
não figuram proeminentemente nesta perspectiva, desde que elas são características de visões 
mais objetivas contidas no estruturalismo radical. A principal ênfase do humanismo radical é na 
consciência humana. Deriva também do idealismo Germânico, particularmente expresso nos 
trabalhos de Kant e Hegel (como reinterpretado nos escritos do jovem Marx). É através de Marx 
que a tradição idealista foi primeiro utilizada como base da filosofia social radical, e muitos 
humanistas radicais têm derivado sua inspiração desta fonte. Em essência Marx inverteu o 
quadro de referência refletido no idealismo Hegeliano e deste modo forjou a base do humanismo 
radical. O paradigma também tem sido influenciado por uma infusão da fenomenologia de 
Husserl. 
Foram Luckács e Gramsci quem reviveram o interesse na interpretação subjetiva da teoria 
Marxista. Este interesse foi encampado pelos membros da Escola de Frankfurt, particularmente 
Habermas e Marcuse. A filosofia existencialista de Sartre também pertence a este paradigma, do 
mesmo modo que os escritos de Illich, Castaneda e Laing. Cada um deles, a sua maneira, 
dividem um interesse comum pela libertação da consciência e da experiência de dominação 
pelos vários aspectos da superestrutura ideológica do mundo social dentro da qual os homens 
19 
vivem fora de suas vidas. Eles buscam mudar o mundo social através da mudança nos modos de 
cognição e consciência 
A fig. 3.3 e 3.4 mais uma vez proporciona um grosseiro e pronto sumário da maneira como 
este paradigma tem sido explorado em termos da teoria social e do estudo das organizações. 
Como argumentaremos no Capítulo 9, os escritores que têm algo a dizer sobre as organizações a 
partir desta perspectiva têm colocado as bases de uma nascente teoria anti-organização. Em 
essência o humanismo radical é baseado na inversão. Não seria surpresa, portanto, que a teoria 
anti-organização inverte a problemática que define a teoria da organização funcionalista em 
todos os sentidos. 
O Paradigma do Estruturalismo Radical. 
Os teóricos localizados dentro deste paradigma advogam a sociologia da mudança radical 
sob o ponto de vista objetivista. Embora com muitas similaridades com a teoria funcionalista, ela 
é dirigida para fins fundamentalmente diferentes. O estruturalismo radical está comprometido 
com mudança radical, emancipação e potencialidade, em uma análise que enfatiza conflito 
estrutural, modos de dominação, contradição e privação. Ele aborda estes assuntos gerais do 
ponto de vista realista, positivista, determinista e nomotético. 
Enquanto o humanismo radical forja sua perspectiva focando a consciência , o estruturalismo 
radical se concentra nas relações estruturais dentro de um mundo social real. Os estruturalistas 
enfatizam o fato de que a mudança radical se constrói na verdadeira natureza e estrutura da 
sociedade contemporânea, e buscam prover explanações das inter-relações básicas dentro do 
contexto total das formações sociais. Há um amplo debate dentro do paradigma, e diferentes 
teorias chamam a atenção de papeis de diferentes forças como meios de explicar a mudança 
social. Enquanto alguns focalizam nas contradições internas profundamente arraigadas, outros 
focam nas estruturas e nas análises das relações de poder. Comum a todos os teóricos é a visão 
de que a sociedade contemporânea se caracteriza por conflitos fundamentais que geram mudança 
radical através de crises políticas e econômicas. É através de tais conflitos e mudanças que a 
emancipação dos homens das estruturas sociais em que eles vivem é vista como acontecendo. 
O principal fonte de debate intelectual provem dos trabalhos do Marx maduro, após a "quebra 
epistemológica" em seu trabalho. Dentro da teoria social Russa destacam-se os nomes de Engels, 
Plekhanov, Lênin e Bukarin. Entre os estruturalistas radicais fora do reino da teoria social Russa, 
destacam-se Althusser, Poulantzas, Colleti e vários sociólogos Marxistas da NovaEsquerda. Há 
também a forte influência Weberiana que já se fez referência acima, através dos trabalhos de 
Darhrendorf e Lockwood, alem de outros. 
Em termos de teoria sociológica, o estruturalismo radical é composto da teoria social Russa, 
da teoria do conflito e do marxismo Mediterrâneo contemporâneo. Quanto a escolas de análise 
organizacional há menção apenas a teoria da organização radical. 
BURREL & MORGAN, "Sociological Paradigms and Organizational Analysis", Heineman, 
London, l979. 
(tradução livre do profº. Wellington Martins, EA/UFBa.) 
 
3. DUAS DIMENSÕES : QUATRO PARADIGMAS. 
 
Do que até agora foi examinado, pode-se observar que os pressupostos sobre a natureza da 
ciência estão contidos numa dimensão: subjetiva - objetiva; e os pressupostos sobre a natureza 
da sociedade em uma dimensão: regulação - mudança radical, como se pode ver na Figura 3.1 
abaixo. 
A SOCIOLOGIA DA MUDANÇA RADICAL 
SUBJETIVO OBJETIVO 
Humanismo Estruturalismo 
radical radical 
Interpretativo Funcionalismo 
 
A SOCIOLOGIA DA REGULAÇÃO 
Figura 3.1. Quatro paradigmas para análise da teoria social. 
Dentro da sociologia da regulação o debate tem surgido entre a sociologia interpretativa o 
funcionalismo. Na esteira do tratado de Berger & Luckman (1966) sobre a sociologia do 
conhecimento, no trabalho de Garfinkel (1967) sobre etnometodologia e no ressurgimento geral 
do interesse na fenomenologia, o status questionável dos pressupostos ontológico e 
epistemológico da perspectiva funcionalista tem sido crescentemente exposto. 
Similarmente, dentro do contexto da sociologia da mudança radical tem havido uma divisão 
entre os teóricos que adotam os pontos de vista subjetivo e objetivo da sociedade. Este debate 
foi, em grande medida, liderado pela publicação na França (1966) e na Inglaterra (1969) do 
trabalho de Louis Althusser chamando a atenção para a "quebra epistemológica" do trabalho de 
Marx, que enfatizou a polarização dos teóricos Marxistas em dois campos: aqueles que 
enfatizavam os aspectos subjetivos (por exemplo, Lukács, e a Escola de Frankfurt) e aqueles 
que advogavam mais abordagens objetivas tais como as daqueles associados ao estruturalismo 
Althussiano. 
O debate entre as sociologias da regulação e da mudança radical que aconteceu na segunda 
metade dos anos 60, foi substituído por um diálogo interno dentro do contexto de escolas de 
pensamento separadas. Ao se voltarem para elas próprias e ao defenderem suas posições com 
relação a dimensão subjetivo - objetivo, negligenciaram a dimensão mudança-regulação radical. 
No momento já existe amadurecimento para considerações do caminho a frente, e os autores 
submetem as duas independentes dimensões chaves de análise que ressuscitam os assuntos 
sociológicos dos anos 60 e os colocam ao daqueles do fim dos anos 60 e inicio dos anos 70. 
21 
Tomados em conjunto, eles distinguem 4 paradigmas distintos: o humanismo radical, o 
estruturalismo radical, Interpretativo e funcionalista. 
Natureza e Usos dos Quatro Paradigmas. 
Vemos os 4 paradigmas definidos por pressupostos metateóricos muito básicos que 
subscrevem o quadro de referência , o modo de teorizar e o modus operandi dos teóricos sociais 
que operam dentro deles. É um termo que tem a intenção de enfatizar o que tem de comum nas 
perspectivas que liga o trabalho de um grupo de teóricos de tal modo que podem ser usualmente 
vistos como abordando uma teoria social dentro dos limites da mesma problemática. 
Esta definição não implica completa unidade de pensamento. O paradigma tem uma unidade 
subjacente em termos de seus pressupostos básicos e freqüentemente "tidos como verdades" que 
separam um grupo de teóricos de maneira fundamentalmente diferente de teóricos localizados 
em outros paradigmas. A unidade do paradigma portanto deriva da referência a pontos de vista 
alternativos da realidade que se posiciona alem de suas fronteiras e que pode não ser 
necessariamente nem mesmo reconhecido como existente. 
Os 4 paradigmas tomados em conjunto fornecem um mapa para negociar a área sujeito, que 
oferece uma maneira conveniente de identificar similaridades básicas e diferenças o trabalho dos 
vários teóricos e, em particular, os quadros de referência subjacentes que eles adotam. Também 
fornece uma conveniente meio de localizar o próprio quadro de referência com relação a teoria 
social, e deste modo um meio de entender porque certas teorias e perspectivas podem ter mais 
atrativo pessoal do que outras. Como qualquer outro mapa, ele fornece uma ferramenta para 
estabelecer onde estão, onde esteve e pra onde se é possível ir no futuro. 
Um fato que merece atenção é que os 4 paradigmas são mutuamente exclusivos. Eles 
oferecem pontos de vista alternativos sobre a realidade social. 
O Paradigma Funcionalista. 
Este paradigma tem provido um quadro dominante na condução da sociologia acadêmica e no 
estudo das organizações É firmemente enraizado na sociologia da regulação e aborda o sujeito 
principal de um ponto de vista objetivista. Caracteriza-se pelo interesse em dar explicações do 
status quo , da ordem social, da integração social, da solidariedade, e da necessidade de 
satisfação e atualização. Ele aborda estes assuntos sociológicos gerais sob o ponto de vista que 
tende para ser realista, positivista, determinista e nomotético. 
Está voltado para explanações essencialmente racionais de assuntos sociais. Altamente 
pragmático em orientação, freqüentemente orientado para o problema, envolvido em prover 
soluções práticas. É usual e firmemente envolvido com a filosofia de engenharia social como 
base para a mudança social, enfatizando a importância de entender a ordem, o equilíbrio e a 
estabilidade na sociedade e os meios pelos quais eles podem ser mantidos. Está envolvida com a 
efetiva regulação e controle dos affairs sociais 
Originado na França nas primeiras décadas do século XIX, recebeu suas maiores influências 
através dos trabalhos de Augusto Comte, Herbert Spencer, Emile Durkheim e Valfrido Pareto. A 
abordagem funcionalista à ciência social tende a assumir que o mundo social é composto de 
artefatos empíricos relativamente concretos e de relações que podem ser identificadas, estudadas 
e medidas através de abordagens derivadas das ciências naturais. 
Para ilustrar, vejamos o trabalho de Durkheim. Central em sua posição foi a idéia de que os 
"fatos sociais" existem fora da consciência dos homens, e restringe o homem em suas atividades 
diárias. 
Desde as primeiras décadas do século XX que o paradigma funcionalista tem sido 
influenciado por elementos do idealismo Germânico de pensamento social. Através dos trabalhos 
de Weber, George Simmel e George Herbert Mead, a abordagem idealista tem sido utilizada no 
contexto das teorias sociais numa tentativa de fazer a ponte entre as duas tradições. Assim 
fazendo, esqueceram algumas perspectivas teóricas características da última região do 
“objetivismo", fronteiriça do paradigma interpretativo. Tais teorias têm rejeitado o uso de 
analogias mecânicas e biológicas no estudo do mundo social e tem introduzido idéias que 
colocam ênfase na importância de entender o mundo social do ponto de vista dos atores que 
estão realmente engajados no desempenho das atividades sociais. 
A partir dos anos 40 tem havido também uma infusão de certas influências Marxistas 
características da sociologia da mudança radical que tem ajudado a radicalizar a teoria 
funcionalista e a recusar a pecha geral de que o funcionalismo é essencialmente conservador e 
incapaz de prover explicações para a mudança social. 
A SOCIOLOGIA DA MUDANÇA RADICAL 
SUBJETIVO OBJETIVO 
Idealismo Germânico Teoria Marxista 
 
SOCIOLOGIA DA REGULAÇÃO Positivismo sociológico 
 
Fig. 3.2. Influências intelectuais sobre o paradigma funcionalista. 
Cruamente falando,a formação do paradigma funcionalista pode ser entendido em termos da 
interação de três conjuntos de forças intelectuais: a teoria marxista, o idealismo germânico e o 
positivismo sociológico, sendo esta última a mais influente. O cruzamento destas forças tem 
dado lugar a um numero de distintas escolas de pensamento. Na sociologia as principais são : o 
objetivismo, a teoria dos sistemas sociais, a teoria integrativa e a escola do interacionismo e da 
teoria da ação social. Na análise das organizações as principais são: o objetivismo, a teoria do 
sistema social, o pluralismo, as teorias das disfunções burocráticas e o quadro de referência da 
ação. 
O Paradigma Interpretativo. 
Embora identificado com a sociologia da regulação o paradigma interpretativo é 
informado por um interesse em entender o mundo como ele é, mas de entender a natureza 
fundamental do mundo social ao nível da experiência subjetiva. Ele busca explanação dentro do 
reino da consciência individual e da subjetividade, dentro do quadro de referência do 
participante, em oposição ao do observador da ação. É nominalista, antepositivista, voluntarista 
e ideográfico. Através dele se vê o mundo social como um processo social emergente que foi 
criado pelos indivíduos envolvidos. A realidade social não tem existência fora da consciência de 
qualquer indivíduo em particular ; é visto como sendo pouco mais do que uma rede de 
pressupostos e de significados compartilhados inter-subjetivamente 
A sociologia interpretativa está interessada em entender a essência do mundo do dia a dia. Em 
termos do esquema analítico dos autores, está envolvida com assuntos relacionados com a 
natureza do status quo, da ordem social, do consenso, da integração e coesão, e da 
solidariedade e atualização. 
23 
O paradigma interpretativo é também produto direto do idealismo Germânico. Seus 
fundamentos vêm do trabalho de Kant e reflete a filosofia social que enfatiza essencialmente a 
natureza espiritual do mundo social. No princípio do século sofreu a influência dos neo-
idealistas tais como Dilthey, Weber, Husserl e Schutz. Em termos sociológicos nota-se 4 grandes 
correntes: a hermenêutica, a sociologia fenomenológica, a fenomenologia e o solipsismo. Em 
termos da teoria das organizações: a etnometodologia e o interacionismo simbólico 
fenomenológico. 
A fig. 3.3 e 3.4 ilustram a maneira como o paradigma foi explorado tomando como referência 
nosso interesse na teoria social e no estudo das organizações. Enquanto tenha havido um 
pequeno número de tentativas de estudar os conceitos de organização e situações a partir deste 
ponto de vista, o paradigma não gerou muitas teorias organizacionais. Como ficará claro a partir 
de nossa análise, há boas razões para isto. As premissas do paradigma interpretativo questionam 
se as organizações existem senão no sentido conceitual e, como tal, desafia a validade dos 
pressupostos ontológicos subjacentes às abordagens funcionalistas da sociologia em geral e ao 
estudo das organizações em particular. 
O Paradigma do Humanismo Radical. 
É definido por seu interesse em desenvolver a sociologia da mudança radical. de um ponto 
de vista subjetivista. Vê o mundo social de uma perspectiva que tende a ser nominalista, 
antepositivista, voluntarista e ideográfica. Seu quadro de referência está envolvido com uma 
visão da sociedade que enfatiza a importância de destruir ou de transcender as limitações dos 
arranjos sociais existentes. 
Uma das noções mais básicas que subjacem o todo deste paradigma é o de que a consciência 
do homem é dominada pelas superestruturas ideológicas com o qual ele interage, e que estas 
dirigem uma cunha cognitiva entre o próprio indivíduo e a verdadeira consciência. Esta cunha é 
a da "alienação" ou da "falsa consciência" que inibe ou evita o verdadeiro preenchimento 
humano. O maior interesse dos teóricos abordando a condição humana nestes termos é o de 
livrar o ser humano das restrições que os arranjos sociais colocam sobre o desenvolvimento 
humano. Critica-se o status quo. Vê-se a sociedade como anti-humana e se está interessado em 
articular meios para que os seres humanos possam transcender os vínculos e grilhões que os 
prendem aos padrões sociais existentes e, portanto, a realizar seu potencial pleno. 
O humanismo radical coloca ênfase na mudança radical, nos modos de dominação, 
emancipação, potencialidade e privação. Os conceitos de conflito estrutural e de contradição 
não figuram proeminentemente nesta perspectiva, desde que elas são características de visões 
mais objetivas contidas no estruturalismo radical. A principal ênfase do humanismo radical é na 
consciência humana. Deriva também do idealismo Germânico, particularmente expresso nos 
trabalhos de Kant e Hegel (como reinterpretado nos escritos do jovem Marx). É através de Marx 
que a tradição idealista foi primeiro utilizada como base da filosofia social radical, e muitos 
humanistas radicais têm derivado sua inspiração desta fonte. Em essência Marx inverteu o 
quadro de referência refletido no idealismo Hegeliano e deste modo forjou a base do humanismo 
radical. O paradigma também tem sido influenciado por uma infusão da fenomenologia de 
Husserl. 
Foram Luckács e Gramsci quem reviveram o interesse na interpretação subjetiva da teoria 
Marxista. Este interesse foi encampado pelos membros da Escola de Frankfurt, particularmente 
Habermas e Marcuse. A filosofia existencialista de Sartre também pertence a este paradigma, do 
mesmo modo que os escritos de Illich, Castaneda e Laing. Cada um deles, a sua maneira, 
dividem um interesse comum pela libertação da consciência e da experiência de dominação 
pelos vários aspectos da superestrutura ideológica do mundo social dentro da qual os homens 
vivem fora de suas vidas. Eles buscam mudar o mundo social através da mudança nos modos de 
cognição e consciência 
A fig. 3.3 e 3.4 mais uma vez proporciona um grosseiro e pronto sumário da maneira como 
este paradigma tem sido explorado em termos da teoria social e do estudo das organizações. 
Como argumentaremos no Capítulo 9, os escritores que têm algo a dizer sobre as organizações a 
partir desta perspectiva têm colocado as bases de uma nascente teoria anti-organização. Em 
essência o humanismo radical é baseado na inversão. Não seria surpresa, portanto, que a teoria 
anti-organização inverte a problemática que define a teoria da organização funcionalista em 
todos os sentidos. 
O Paradigma do Estruturalismo Radical. 
Os teóricos localizados dentro deste paradigma advogam a sociologia da mudança radical 
sob o ponto de vista objetivista. Embora com muitas similaridades com a teoria funcionalista, ela 
é dirigida para fins fundamentalmente diferentes. O estruturalismo radical está comprometido 
com mudança radical, emancipação e potencialidade, em uma análise que enfatiza conflito 
estrutural, modos de dominação, contradição e privação. Ele aborda estes assuntos gerais do 
ponto de vista realista, positivista, determinista e nomotético. 
Enquanto o humanismo radical forja sua perspectiva focando a consciência , o estruturalismo 
radical se concentra nas relações estruturais dentro de um mundo social real. Os estruturalistas 
enfatizam o fato de que a mudança radical se constrói na verdadeira natureza e estrutura da 
sociedade contemporânea, e buscam prover explanações das inter-relações básicas dentro do 
contexto total das formações sociais. Há um amplo debate dentro do paradigma, e diferentes 
teorias chamam a atenção de papeis de diferentes forças como meios de explicar a mudança 
social. Enquanto alguns focalizam nas contradições internas profundamente arraigadas, outros 
focam nas estruturas e nas análises das relações de poder. Comum a todos os teóricos é a visão 
de que a sociedade contemporânea se caracteriza por conflitos fundamentais que geram mudança 
radical através de crises políticase econômicas. É através de tais conflitos e mudanças que a 
emancipação dos homens das estruturas sociais em que eles vivem é vista como acontecendo. 
O principal fonte de debate intelectual provem dos trabalhos do Marx maduro, após a "quebra 
epistemológica" em seu trabalho. Dentro da teoria social Russa destacam-se os nomes de Engels, 
Plekhanov, Lênin e Bukarin. Entre os estruturalistas radicais fora do reino da teoria social Russa, 
destacam-se Althusser, Poulantzas, Colleti e vários sociólogos Marxistas da Nova Esquerda. Há 
também a forte influência Weberiana que já se fez referência acima, através dos trabalhos de 
Darhrendorf e Lockwood, alem de outros. 
Em termos de teoria sociológica, o estruturalismo radical é composto da teoria social Russa, 
da teoria do conflito e do marxismo Mediterrâneo contemporâneo. Quanto a escolas de análise 
organizacional há menção apenas a teoria da organização radical. 
25 
Burrel & Morgan, "Sociological Paradigms and Organizational Analysis", Heinemann, 
London, 1979. 
(tradução livre do Profº. Wellington Martins, EA/UFBa.) 
 
4. SOCIOLOGIA FUNCIONALISTA 
 
Origens e tradição Intelectual. 
Suas origens remontam as raízes da sociologia como disciplina, e às primeiras tentativas de 
filósofos sociais de aplicar as idéias e métodos das ciências naturais ao reino dos negócios 
sociais. 
Devido a sua longa história, é difícil localizar um ponto inicial. Poderia se fazer um 
retrospecto ao pensamento político e social da antiga Grécia todavia, por conveniência pode-se 
começar a análise por Augusto Comte (1789-1857). 
Comte pode ser visto como, o primeiro e mais importante sociólogo da unidade humana e 
social. Ele acreditava que o conhecimento e a sociedade estavam em um processo de transição 
evolutiva, e que a função da sociologia era de entender o necessário, indispensável e inevitável 
curso da história de tal modo a promover a realização de uma nova ordem social. A visão de 
Comte era de um mundo em que a “racionalidade” científica estava em ascendência, subjacendo 
a base de uma ordem social bem regulada. 
Comte colocou os fundamentos de uma teorização sociológica característica do paradigma 
funcionalista. Baseado no modelo “positivo” das ciências naturais, utilizou analogias mecânicas 
e orgânicas, distinguiu entre estático (estrutura) e dinâmico (processo) e advogou um holismo 
metodológico. Iniciou importantes regras básicas para uma empresa sociológica dirigida a uma 
explanação da ordem e da regulação social. 
Herbert Spencer (1820-1903) teve uma grande influência no desenvolvimento da sociologia 
nos anos 1870 e 1880. Sua principal contribuição foi uma mais detalhadas e extensivas maneiras 
de implicação da analogia biológica na sociologia. Influenciado pelo trabalho de Darwin, ele viu 
o estudo da sociologia como um estudo de evolução em sua forma mais complexa. Seu trabalho 
muito contribuiu para colocar as fundações para a análise do fenômeno social em termos de 
“estrutura” e “função”, elaborando a noção Comtiana de totalidade e a necessidade de entender 
as partes no contexto do todo. 
Muitas das noções suportando o que hoje conhecemos como funcionalismo estrutural deriva 
do trabalho de Spencer. Sua visão da sociedade era de um sistema auto-regulado que podia ser 
entendido através do estudo de seus vários elementos ou órgãos e da maneira como eles se inter-
relacionavam. Viu a sociedade como sendo estabelecida em um curso evolutivo de 
desenvolvimento em que as mudanças de estrutura eram caracterizadas por um processo de 
crescente diferenciação e integração. A idéia de evolução teve aplicabilidade universal e foi a 
chave para o entendimento tanto do mundo social como do natural. 
Desde os anos 1880 Durkheim se orientou para o estudo das relações indivíduo-sociedade e 
de personalidade do indivíduo-solidariedade social. Ele viu as “sociedades tradicionais” como 
sendo mantidas na base de uma “solidariedade mecânica” derivando da similaridade das partes, 
tendo a “consciência” do indivíduo como “simples apêndice do tipo coletivo, que a segue em 
todos os seus movimentos”. A “consciência coletiva” era baseada em um sistema compartilhado 
de valores, normas e crenças. Na sociedade “industrial” com seu sistema extensivo de “divisão 
de trabalho” e de “diferenciação funcional” ele viu uma “solidariedade orgânica” emergindo da 
interdependência das partes. 
Valfrido Pareto (1848-1923) ingressou na sociologia através da economia com vistas a 
suplementar teorias econômicas científicas baseado em seus pressupostos de lógica e de conduta 
racional, com uma teoria científica de conduta não-lógica e não-racional. Sua visão da sociedade 
era de um sistema de partes inter-relacionadas em que, embora em um estado de fluxo superficial 
continuo, estavam também em um estado de equilíbrio imutável, em que os movimentos fora da 
posição de equilíbrio eram contrabalançados por mudanças tendendo a restaurá-lo. Pareto viu no 
conceito de equilíbrio uma ferramenta útil para entender a complexidade da vida social. 
Também devem ser incluídos na tradição funcionalista os sociólogos Alfred Marshall, Max 
Weber, John Stuart Mill, Georg Simmel, George Herbert Mead, e William James, dentre outros. 
A Estrutura do Paradigma. 
O paradigma funcionalista está identificado com 4 grandes categorias de pensamento : a) a 
teoria do sistema social; b) interacionismo e teoria da ação social; c) teoria integrativa; e d) 
objetivismo. 
Teoria do Sistema Social. 
Sob este título são consideradas 2 escolas de pensamento: o “funcionalismo estrutural” e a 
“teoria dos sistemas”, que tiveram importante impacto no campo da análise organizacional. 
Construído sob os conceitos de holismo, inter-relação entre partes, estruturas, funções e 
necessidades, a analogia biológica tem sido desenvolvida para produzir uma perspectiva de 
ciência social firmemente enraizada na sociologia da regulação. Como teoria e método de análise 
o funcionalismo estrutural recebeu sua primeira expressão coerente da antropologia social 
através do estudo de sociedades de pequena escala, que proporcionaram situações ideais para 
aplicação de visão holística da sociedade num contexto empírico manejável. Dois nomes se 
sobressaem ai - Malinowski e Radcliffe-Brown. 
A sobrepujante contribuição de Malinowski foi a de estabelecer a importância do trabalho de 
campo. Sua visão era de que “sociedade” e “cultura” deveriam ser olhados como um todo 
complexo e entendidas em termos de relações entre as várias partes e suas adjacências 
ecológicas. Organização social, religião, língua, economia, organização política, etc., deviam ser 
entendidas não mais como refletindo uma mentalidade primitiva ou um estágio de “sub 
desenvolvimento” mas em termos das funções desempenhadas. 
Malinowski advogou uma explicação “funcionalista” onde argumentava que as características 
usuais ou especiais de sistemas sociais primitivos podiam ser entendidos em termos das funções 
que elas desempenhavam. 
Radcliffe-Brown, por outro lado, especificamente reconheceu que o conceito de função, como 
aplicado às sociedades humanas, era baseado na analogia entre a vida social e a vida orgânica., e 
que ela tinha já recebido uma certa quantidade de consideração em filosofia e em sociologia. 
Desenvolvendo analogia com organismos animais, ele argumentou que as sociedades podiam ser 
conceituadas como redes de relações entre partes constituintes - “estruturas sociais”- que tinham 
uma certa continuidade. Nos animais como nas sociedades, a continuidade estrutural chama-se 
vida. A continuidade da vida de uma sociedade poderia ser concebida em termos do 
funcionamento de suas estruturas - daí a noção de “funcionalismo estrutural”. 
27 
Teoria dos Sistemas. 
Deste os anos 50 a “teoria dos sistemas” assumiu crescente importância nas várias correntes 
de análise social. Em sociologia,psicologia, antropologia, arqueologia, lingüística, teoria 
organizacional, relações industriais e muitas outras, a teoria dos sistemas estabeleceu-se como 
um importante método de análise. 
A despeito de sua popularidade, a noção de sistema é ilusória. Muitos livros sobre teoria dos 
sistemas não oferecem uma definição formal do conceito de sistemas, e aqueles onde se tenta 
uma definição, esta é de considerável generalidade. As noções de “holismo” e de “interação” de 
partes não é exclusivo da teoria de sistemas, e definições genéricas nada mais são do que velhas 
conceituações travestidas de novos e desnecessários jargões complexos. 
Contudo, a situação é ainda mais complicada do que isto. Von Bertalanffy usou a noção de 
sistema como meio de reduzir as diferenças substantivas que existem entre as diferentes 
disciplinas acadêmicas.Os sujeitos da química, física, biologia, sociologia, etc., se ligam em sua 
visão pelo fato de que estudam “elementos complexos que ficam em interação” ou seja, 
“sistemas”. A tarefa da teoria geral dos sistemas é descobrir princípios de organização que 
subjacem tais sistemas. Um de seus objetivos gerais é o de alcançar a “unidade da ciência” 
baseado nas “leis do isomorfismo em campos diferentes”(von Bertalanffy, 1956 p.8). 
Em muitos aspectos o objetivo de Bertalanffy pode ser visto como arquétipo da perspectiva 
positivista: ele é baseado em pressupostos epistemológicos dominados por um interesse em 
buscar e explicar regularidades e uniformidades estruturais que caracterizam o mundo em geral. 
Isto difere da maioria dos positivistas, pois von Bertalanffy coloca-se firmemente contrário ao 
reducionismo que caracteriza a maioria das áreas de esforço científico que enfatiza modos de 
investigação baseados em métodos e princípios da física convencional. Ele busca uma 
alternativa: ao invés de reduzir todos os fenômenos estudados a eventos físicos, ele advoga o 
estudo deles como sistemas. Sua idéia de sistema tem contido um conceito organizativo 
(organizing concept). 
Sua diferenciação entre sistema “aberto” e “fechado” é muito importante. Segundo 
Bertalanffy os sistemas “fechados” devem, de acordo com a segunda lei da termodinâmica, 
eventualmente atender a um estado de equilíbrio independente de tempo, com máxima entropia e 
um mínimo de energia livre, onde a razão entre suas fases permanece constante. Os sistemas 
abertos são bem diferentes, pois se engajam em transações com seu ambiente, “importando” e 
“exportando” energia do ambiente e se transformando em processo. O conceito de sistema aberto 
é essencialmente processual. O sistema aberto comporta uma variedade de situações: pode 
permanecer eventualmente estável, pode ser dirigido para um objetivo, evoluir, retornar, ou 
desintegrar-se. Um dos propósitos da teoria dos sistemas abertos é o de estudar um padrão de 
relações que caracteriza um sistema e as relações com seu ambiente, a fim de entender a maneira 
como ele opera. A abordagem dos sistemas abertos não traz consigo a implicação de que 
qualquer tipo particular de analogia seja apropriado para estudar todos os tipos de sistemas, uma 
vez que é possível discernir diferentes tipos de sistemas abertos na prática. 
Os sistemas fechados, a despeito de suas deficiências largamente reconhecidas como 
construtos teóricos nas ciências sociais, são muito mais usados e tendem a ser baseados em 
analogias mecânicas e biológicas, recentemente, tem havido uma crescente atenção aos modelos 
cibernéticos como uma base de análise. 
Interacionismo e Teoria da Ação Social. 
Como tradição intelectual tanto o interacionismo como a teoria da ação social podem ser 
entendidos como representando a fusão de certos aspectos do idealismo Germânico e do 
positivismo sociológico Anglo-germânico. 
Interacionismo. 
Georg Simmel (1858-1918) foi um filósofo e historiador que se tornou sociólogo. 
contribuindo livremente para uma ampla gama de áreas de investigação. Rejeitando os extremos 
das posições do idealismo Germânico e do positivismo Franco-germânico, argumentou em favor 
de uma análise de associação e interação humanas. Nas palavras de Coser (1965), ele estava 
interessado no estudo da sociedade como "um intrincado entrelaçamento de múltiplas relações 
estabelecidas entre indivíduos em constante interação uns com os outros. As estruturas supra 
individuais mais amplas - o estado, o clã, a família, a cidade, ou o sindicato - resultam das 
cristalizações destas interações, ainda que possam atingir autonomia e permanência e confrontar 
os indivíduos como se eles fossem poderes alheios. O principal campo de estudo para o 
estudante de sociedade é, pois, a associação e não a sociedade" (Coser, 1965, p. 5). 
Simmel portanto, focou sua atenção nos seres humanos em seu contexto social. Ele estava 
interessado , acima de qualquer coisa, no que ele descreve como “interações entre os átomos da 
sociedade”. A maior parte de seu trabalho foi devotado à análise das formas de interação grupal 
fossem as díades, as tríades, ou outras formações grupais, seus processos e influências, na ação 
humana e no comportamento. 
A despeito de seu interesse por normas e padrões nos assuntos sociais, Simmel viu a vida 
social como sendo caracterizada por um contínuo conflito entre o indivíduo e seu mundo social. 
O interesse de Simmel por um nível de análise micro conduziu a muitos insights com relação a 
dinâmica da vida social. O tema de conflito entre o indivíduo e o contexto social, por exemplo, é 
um que corre através de muitos aspectos de seu trabalho e que permite uma base de uma 
penetrante análise do estado de alienação do homem moderno. Para ele, o indivíduo “tornou-se 
um mero dente de engrenagem numa grande organização de coisas e poderes que lhe arranca das 
mãos todo o progresso, espiritualidade e valor, a fim de transformá-los de suas formas subjetivas 
em forma de uma vida puramente objetiva” (Simmel, 1950, p. 422). 
Os escritos de Simmel influenciaram desenvolvimentos em muitas áreas, particularmente 
aquelas de sociologia urbana, pesquisas em grupos experimentais, comportamento de grupos de 
referência, teoria de papeis e conflito funcionalista. 
George Herbert Mead (1863-1931) foi um dos filósofos sociais Americanos também 
influenciado por correntes cruzadas de pensamento emergentes das últimas décadas do século 
XIX e primeiras décadas do século XX. Em sua ampla contribuição à filosofia social e à 
psicologia social, percebe-se uma fusão das duas tradições do idealismo Germânico e do 
positivismo Anglo-francês. 
Em seu livro Mind, Self and Society busca estabelecer como “mente” e “pessoa” surgem 
dentro do contexto de conduta social e interação. Sua explicação coloca ênfase no papel dos 
gestos no processo de interação. Vê a noção de gesto em termos sociais - como parte de um 
“ato”. Na interação entre animais o ato social ou “conversa de gestos” pode ser entendida em 
termos de uma série de símbolos para os quais as várias partes respondem de acordo com a 
interpretação colocada nos vários gestos. Tal ação pode ser vista como uma forma de 
comunicação , em que os vários gestos ou símbolos envolvidos influenciam estágios posteriores 
do ato. 
No caso dos seres humanos a situação é um tanto diferente dos animais, uma vez que através 
de “gestos vocais” ou linguagem os indivíduos têm a capacidade de se tornarem conscientes do 
29 
que estão fazendo. Para Mead, é o mecanismo da linguagem que subjaz o desenvolvimento da 
“mente”. Através de operação da mente o indivíduo pode tornar-se o objeto de seus próprios 
pensamentos. Este é o processo que subjaz o desenvolvimento da “pessoa”. 
Deste modo, para Mead, a consciência do ser humano evolui através de um processo social; 
um processo de interação que envolve o desenvolvimento da linguagem e portanto “mente” e 
“pessoa”. O ser humano, diferente dos outros origenismos animais, tem a capacidadede se tornar 
consciente do que ele está a fim. Para que isto aconteça, ele deve ser capaz de interpretar o 
significado de seus gestos. Isto envolve uma “conversa” interna ou processo de pensar de um 
ponto de vista do que Mead chamou de “o outro generalizado” (Mead, 1934, p.155). 
Mead reconhece o papel desempenhado por seres humanos em influenciar seu ambiente, 
particularmente através da interpretação simbólica das conseqüências dos vários tipos de 
condições ambientais e de modos de interação. Concorda-se assim que os atores individuais têm 
no mínimo um papel mediador e interpretativo, senão inteiramente de controle ou de criação em 
relação ao seu ambiente. 
Interacionismo Simbólico. 
A noção deriva diretamente do trabalho de Mead e da distinção que ele faz entre interação 
“não-simbólica” e “simbólica”. Como colocado por Blumer , um de seus ex-alunos e interpretes: 
"Na interação não-simbólica os seres humanos respondem uns aos outros diretamente por 
gestos ou ações. Na interação simbólica eles interpretam os gestos e atos uns dos outros na base 
do significado produzido pela interpretação... A interação simbólica envolve interpretação, ou 
determinação de significado das ações ou afirmações das outras pessoas, e definição, ou 
indicações convergentes para outras pessoas de como elas devem agir. A associação humana 
consiste de um processo de interpretação e definição assim. Através deste processo os 
participantes ajustam seus próprios atos aos atos em andamento de outra pessoas e os guia ao 
assim fazer. (Blumer, 1966,p. 537 - 8).” 
Teoria da Ação Social. 
A teoria da ação social deriva largamente do trabalho de Weber(1864-1920). O método do 
entendimento interpretativo - verstehen - introduzido por Dilthey e elaborado por Weber, é o 
método de alguém se colocar no papel do ator como meio de relacionar a experiência interior a 
ações externas. 
Max Weber foi um tanto positivista em sua epistemologia geral, vez que desejou construir 
uma ciência social objetiva capaz de prover explicações causais do fenômeno social. Para ele, as 
explicações sobre o mundo social tinham que ser “adequadas ao nível de significado”. 
Weber construiu uma tipologia de ação social que distinguia entre: (a) ação orientada para a 
tradição; (b) ação dominada por fatores emocionais; (c) ação orientada para algum valor 
absoluto; e (d) ação racionalmente orientada para o alcance de fins específicos e em que se toma 
em consideração as vantagens e desvantagens relativas de meios alternativos. Era seu ponto de 
vista que estes tipos de ação poderiam ser úteis ferramentas sociológicas para analisar os modos 
de orientação de ação social na prática. Este esquema foi normalmente negligenciado em favor 
de uma interpretação mais generalizada da perspectiva de ação que focaliza as maneiras como os 
indivíduos interpretam a situação em que se encontram. 
Como sugerido por Cohen, a teoria da ação pode ser vista como consistindo de um número de 
pressupostos que proporciona um modo de análise para explicar a ação e conduta de indivíduos 
típicos (atores e atores sociais) em situações típicas: 
(i) o ator tem objetivos (ou metas, ou fins); suas ações são levadas avante para perseguir estes 
objetivos. 
(ii) A ação freqüentemente envolve a seleção de meios para atender a objetivos; mas mesmo 
onde parece que ela não existe, ainda assim é possível a um observador distinguir analiticamente 
entre meios e objetivos. 
(iii) Um ator sempre tem muitos objetivos; suas ações em perseguição de qualquer um afetam 
e são afetadas por suas ações em perseguição de outras. 
(iv) a perseguição de objetivos e a seleção de meios sempre ocorre dentro de situações que 
influenciam o curso da ação. 
(v) o ator sempre faz certos pressupostos concernentes a natureza de seus objetivos e da 
possibilidade de seu atendimento. 
(vi) a ação é influenciada não somente pela situação mas também pelo conhecimento que o 
ator tem dela. 
(vii) o ator tem certos sentimentos ou disposições afetivas que afetam tanto sua percepção de 
situações como sua escolha de objetivos. 
(viii) o ator tem certas normas e valores que governam sua seleção de objetivos e seu 
ordenamento deles a partir de um esquema de prioridades. (Cohen, 1968, p.69). 
Interpretado a partir deste ponto de vista, o efeito da teoria de ação Weberiana tem sido o de 
injetar medidas de voluntarismo nas teorias de comportamento social permitindo o fato dos 
indivíduos interpretarem e definirem suas situações e agir de acordo com elas. 
Um dos mais proeminentes seguidores da teoria de ação Weberiana foi Talcott Parsons, em 
cujo trabalho clássico A Estrutura da Ação Social (1949), argumentou que havia uma tendência 
do trabalho de Durkheim, Marshall, Pareto e Weber convergirem em torno de uma “teoria de 
Ação voluntarista”. Embora Parsons advogasse esta teoria voluntarista como uma perspectiva 
sociológica geral, na verdade seu próprio trabalho tornou-se muito mais firmemente determinista 
e foi eventualmente incorporado à teoria dos sistemas sociais que se localizava numa região mais 
objetivista. Na observação de Giddens (1976, p.16) “não havia qualquer ação na "estrutura de 
referência de ação" de Parsons, somente comportamento que é propelido por disposições de 
necessidades e expectativas de papeis. Estabelece-se o cenário, mas os atores apenas 
desempenham de acordo com o script que já tinha sido escrito para ele”. Tal é a natureza da 
perspectiva funcionalista; seus pressupostos metateóricos subjacentes somente permitem uma 
medição limitada de voluntarismo no comportamento humano. 
Teoria Integrativa. 
A teoria integrativa reúne 4 correntes de pensamento: (a) o modelo de troca e poder de Blau; 
(b) a teoria de estrutura social e cultural de Merton; (c) o conflito funcionalista; e (d) a teoria dos 
sistemas morfogênicos. 
Cada um destas 4 linhas de pensamento se apóiam no pressuposto de que o atingimento da 
ordem social dentro da sociedade é de algum modo problemático e requer explicações que não 
são normalmente proporcionadas dentro das fronteiras da teoria dos sistemas sociais. 
A teoria de Blau enfatiza o papel da troca e poder como uma fonte de integração da vida 
social. A teoria de Merton da estrutura social e cultural tende a enfatizar as funções 
desempenhadas por elementos da estrutura social no processo integrativo. O conflito 
31 
funcionalista tende a focar nas funções “positivas” servidas pelo conflito. A teoria dos sistemas 
morfogênicos enfatiza a importância da transmissão de informação como uma variável central de 
análise. 
O Modelo de Troca e Poder de Blau. 
A teoria de troca e poder na vida social se propõe analisar os processos que governam a 
associação humana, com vistas a estabelecer uma base para uma teoria de estrutura social. A 
teoria de Blau tenta ligar as análises nos níveis micro e macro sociais para construir a ponte entre 
o interacionismo e a teoria do sistema social. 
Blau, seguindo Simmel, vê o estudo da associação social como uma tarefa central em 
sociologia. Ele se coloca firmemente contra explicações reducionistas da sociedade, vez que 
ignoram o que ele chama de “propriedades emergentes” da inter-reação humana. Para ele a 
sociedade é mais que a soma das partes. A estrutura social não pode ser reduzida a uma série de 
elementos constituintes; ela tem que ser entendida como um processo social emergente. 
Sua análise do processo de troca social leva-o a identificar os meios em que o status e o poder 
tornam-se diferenciados, e a maneira em que o poder torna possível organizar o esforço coletivo. 
Ele faz um acompanhamento da maneira na qual a legitimação do poder tem sua fonte na 
aprovação social em que seu justo exercício evoca entre os subordinados. Sua análise reconhece 
que o consenso normativo não é de maneira alguma automático, e que o exercício do poder nem 
sempre serálegitimado. 
Sua análise enfatiza o papel de troca e poder na emergência da estrutura social e deste modo 
seu papel como forças integrativas em qualquer explicação da sociedade como um processo em 
andamento. Blau analisa as relações entre sub-elementos da sociedade e a maneira como os 
conflitos produzem um padrão de mudança dialética. Como ele próprio coloca: 
"Os conflitos entrecruzados e oposições em modernas sociedades complexas, com muitas 
coletividades organizadas se intersectando e seus membros se fechando internamente nelas, são 
uma fonte contínua de reorganização e mudança. O padrão de mudança é dialético, uma vez 
que cada reorganização básica tem ampla repercussão que cria novos problemas e estimula 
frescas oposições. A pressão cruzada resultante de afiliações multi-grupais e os recorrentes 
alinhamentos de coletividades se superpondo em diferentes controvérsias evita que conflitos 
sobre assuntos de se tornarem cumulativos e de produzir uma profunda divisão entre dois 
campos hostis. (Blau, 1964, p. 311). 
Teoria Mertoniana de Estrutura Social e Cultural. 
É Robert Merton o sociólogo par excellence da corrente integrativa. Seu trabalho recebe a 
influência de escritores amplamente diversificados como Durkheim, Marx, Mead, Parsons, 
Simmel e Weber. O trabalho de Merton é integrativo no sentido em que ele busca ligar um 
número de teorias conceitualmente distintas dentro do contexto do paradigma funcionalista. É 
também integrativo no sentido em que busca ligar os níveis de análise micro e macro, empirismo 
e grande teoria, naquilo que ele tem descrito como teorias do “âmbito intermediário”. 
Tomando como ponto de partida seus primeiros trabalhos sobre “grupo de referência” e de 
“teoria da anomia” que busca entender como surgem os sub-grupamentos dentro de um contexto 
de estrutura social. (Merton, 1968). Em seu artigo “Estrutura Social e Anomia”, ele busca 
descobrir como as estruturas sociais exercem uma pressão definitiva sobre certas pessoas numa 
sociedade para engajar em comportamentos não-conformistas. Sua perspectiva é descrita como 
aquela de um “analista funcional que considera o comportamento socialmente desviante um 
produto da estrutura social tanto quanto o comportamento conformista. sugerindo a existência de 
um sistema central de valores normativos. Ao fazer um rastreamento das possíveis relações entre 
dois elementos da estrutura social - “os objetivos culturais” e os “meios institucionalizados” de 
alcançá-los - Merton é capaz de desenvolver uma tipologia de adaptação do indivíduo que, em 
adição a “conformidade”, dá lugar a comportamento aberrante associado com “inovação”, 
“ritualismo”, ”fuga” e “rebelião”. (Merton, 1968, p. 194). 
Seu tratamento de comportamento desviante ou aberrante se coloca em total oposição a visão 
do interreacionismo simbólico que ressalta o caráter emergente de normas e valores. De uma 
perspectiva interacionista, as normas e valores são socialmente geradas e sustentadas pelos seres 
humanos em suas interações diária com os outros. Para Merton, eles são parte de um contexto 
social predefinido dentro do qual a ação social acontece. 
De acordo com Merton, a teoria do grupo de referência objetiva sistematizar as determinantes 
e conseqüências daqueles processos de evolução e de auto-avaliação em que o indivíduo toma os 
valores e padrões de outros indivíduos ou grupos como uma estrutura de referência comparativa. 
(Merton, 1968, 288). A visão dos grupos de referência é um desenvolvimento direto do “outro 
generalizado” de Mead, noção esta que Mead usou para explicar a emergência do self através da 
interação. 
Conflito Funcionalista. 
Representa uma fusão da tradição funcionalista com as teorias de Simmel e uma incorporação 
do trabalho de Marx. As bases do conflito funcionalista em muitos aspectos foi colocado no 
clássico artigo de Merten de 1958, “Funções Latentes e Manifestas”. Seus argumentos foram 
dirigidos contra 3 postulados centrais da tradicional análise funcional que ele argumentava serem 
debatíveis e desnecessárias a orientação funcional como tal. Estes eram: (a) o postulado da 
unidade funcional da sociedade - ou seja - que atividades sociais padronizadas ou itens culturais 
são funcionais para o todo social ou sistema cultural; (b) o postulado do funcionalismo universal 
ou seja, que todos os itens sociais e culturais preenchem funções sociológicas; (c) o postulado da 
indispensabilidade - ou seja - que estes itens são conseqüentemente indispensáveis. 
Teoria dos Sistemas Morfogênicos. 
É um ramo da teoria integrativa principalmente associada com o trabalho de Buckley (1967) e 
com o “modelo de processo” que ele advoga para o estudo da sociedade. Seu trabalho é uma 
tentativa de introduzir nas ciências sociais a moderna teoria dos sistemas refletida na 
cibernética, na teoria da informação e comunicação e na pesquisa dos sistemas gerais. Seu 
trabalho apresenta um modelo de sistema com a capacidade de explicar a maneira como as 
sociedades mudam e elaboram suas estruturas básicas. Seu modelo abarca e tenta sintetizar toda 
uma gama de pensamento contido no paradigma funcionalista, desde o interacionismo até a 
teoria dos sistemas sociais, de passagem fazendo referência a algumas idéias de Marx. 
Depois de fazer uma ampla crítica aos modelos de sistemas orgânico e mecânico, com 
referência específica a Parsons (1951) e a Homans (1950), Buckley desenvolve um modelo de 
processo que, em essência, representa uma fusão das várias correntes de interacionismo e da 
moderna teoria dos sistemas. Seu modelo tenta ligar os níveis de análise micro e macro, 
construindo a partir da noção Meadiana de “ato” e do processo básico de interação simbólica , 
através da noção de “papel” e dinâmica de papel, para a emergência das organizações e das 
instituições. O sistema sociocultural é visto como um “conjunto de elementos ligados quase que 
inteiramente por meio da intercomunicação de informações (no sentido amplo) ao invés de ser 
ligado a energia ou substância como são os sistemas físicos e orgânicos. (Buckley, 1967, p. 82). 
O sistema sociocultural emerge de uma cadeia de interação entre os indivíduos em que a 
informação é seletivamente percebida e interpretada de acordo com os significados que possuem 
para os atores envolvidos. O modelo é processual invés de estrutural. 
33 
Buckley indubitavelmente fez uma importante contribuição para a aplicação da teoria dos 
sistemas às ciências sociais. 
Objetivismo. 
É caracterizado por um extremamente alto grau de envolvimento com modelos e métodos 
derivados das ciências naturais. Os objetivistas tratam o mundo social exatamente como se fosse 
um mundo natural. Eles usam o mundo biológico e físico como fonte de analogias para estudar o 
mundo social, como uma fonte de hipóteses e de insights. 
Behaviorismo. 
O Behaviorismo está mais freqüentemente associado a Skinner que tentou desenvolver teorias 
causais de comportamento baseadas na análise de estímulo e resposta. Para este propósito o 
homem é tratado , como qualquer outro organismo natural, inteiramente como o produto de seu 
ambiente. O homem, em essência, é visto como nada mais que uma máquina, respondendo de 
maneira determinística, às condições externas a que foi exposto. 
Empirismo Abstrato. 
A certo ponto da discussão das escolas de pensamento associadas com interacionismo, teoria 
integrativa e teoria do sistema social, nos referimos ao fato de que o trabalho de vários teóricos e 
pesquisadores têm terminado como empirismo abstrato. Os teóricos de sistemas que gastam suas 
energias medindo “estruturas”; os interacionistas que utilizam medidas estáticas de “atitudes” e 
de “situações de papéis”; os teóricos integrativos que tentam produzir índices quantitativos de 
“poder”, “conflito”, “desvio”, etc., - todos eles dão ilustrações de empirismo abstrato. naquilo 
em que engajam em pesquisaempírica que viola os pressupostos de suas perspectivas teóricas. 
O termo “empirismo abstrato” entrou em uso popular através do trabalho de C. Wright Mills 
(1959) que, em sua crítica de teoria e método nas ciências sociais, o usou para descrever a 
produção de pesquisadores que têm permitido metodologias derivadas das ciências naturais 
dominar seus trabalhos. Nós o usamos aqui num sentido relacionado, porem mais específico e 
limitado, ou seja, o empirismo abstrato representa uma situação em que se usa metodologia 
altamente nomotética para testar uma teoria que se baseia em uma ontologia, uma epistemologia 
e uma teoria de natureza humana da espécie mais subjetivista. Ela representa uma situação em 
que uma metodologia nomotética é incongruente com os pressupostos das outras três posições da 
dimensão subjetiva-objetiva. É com vistas a esta incongruência que o empirismo abstrato difere 
do behaviorismo. 
É um fato lamentável que uma grande proporção de trabalhos de pesquisa em ciências sociais 
no momento resultem em empirismo abstrato. Forçar a obtenção de fundos para pesquisa a fim 
de sustentar equipes de pesquisadores tende a favorecer a coleta de grande quantidade de dados 
empíricos. Na verdade esta coleta e processamento de dados são freqüentemente igualadas ao 
esforço de pesquisa total e são vistos como um ingrediente essencial de qualquer proposição 
provável de encontrar os requerimentos de “controle de qualidade” das instituições que fornecem 
os fundos. As demandas por resultados pragmáticos de programas de pesquisa em ciência social 
tendem a favorecer alguma forma de informação substantiva como produto. Sob a pressão de tais 
forças, os programas de pesquisa freqüentemente se tornam ajustados aos requerimentos e 
métodos de seus dados básicos, na medida em que aqueles pressupostos teóricos com relação a 
ontologia, a epistemologia e a natureza humana são relegados a um papel secundário e a 
eventualmente ser violado pelas demandas do empirismo. 
A Unidade Subjacente do Paradigma. 
Embora haja uma substancial diferença entre as diversas correntes de pensamento, há uma 
forma comum e uma unidade subjacente. Os teóricos da paradigma funcionalista estão ligados 
por uma visão compartilhada da natureza fundamental da realidade sócio-cientifica para a qual 
eles endereçam seus trabalhos. Eles estão envolvidos com uma visão do mundo social que vê 
sociedade como ontologicamente anterior ao homem e procura colocar o homem e suas 
atividades dentro daquele contexto social mais amplo. Merton tem notado que o “conceito de 
função envolve o ponto de vista do observador, não necessariamente aquele do participante 
(Merton, 1968, p.78). Os teóricos localizados dentro do contexto do paradigma tendem a assumir 
o ponto de vista do observador e tentam relacionar o que eles observam ao que eles vêm com 
elementos importantes dentro de um contexto social mais amplo. 
A visão funcionalista deste contexto social mais amplo tende a ter muitos pontos de referência 
comuns: é a visão que assume uma ordem e um padrão contínuos. Permitindo vários mas 
limitados graus de ordem e desordem, consenso e dissenso, integração e desintegração social, 
solidariedade e conflito, satisfação de necessidade e frustração, o esforço global é de 
proporcionar uma explicação do porque o tecido social da sociedade tende a se manter junto. É 
dirigido a proporcionar uma explicação da natureza regulada dos negócios humanos. 
O paradigma é baseado em normas subjacentes de racionalidade utilitária. Este conceito 
proporciona uma direta ligação entre as dimensões regulativa e objetivista da visão do mundo 
social do paradigma. O conceito de ciência subjacente ao paradigma enfatiza a possibilidade 
de investigação objetiva capaz de dar verdadeiro conhecimento explicativo e preditivo de 
uma realidade externa. 
Esta racionalidade essencial refletida nesta visão de ciência é utilizada para explicar a 
racionalidade essencial da sociedade. A ciência proporciona um quadro de referência para 
estruturar e ordenar o mundo social, um quadro que enfatiza uma ordem e coerência similares 
àquelas encontradas no mundo natural. Os métodos de ciência são usados para gerar explicações 
do mundo social consistentes com a natureza e filosofia da ciência em si. Ciência na mão dos 
funcionalistas torna-se uma ferramenta de impor ordem e regulação sobre o mundo social - 
ordem e regulação do ponto de vista do observador. 
35 
 
5. TEORIA FUNCIONALISTA DA ORGANIZAÇÃO. 
 
 
Burrel & Morgan, Sociological Paradigms and Organizational Analysis, Heinemann, 
London, 1979. (Tradução livre do Profº. Wellington N. F. Martins, EA/UFBa., 1991.) 
 
 
Em anos recentes o estudo das organizações tem se estabelecido como uma significativamente 
crescente área de investigação social científica. Quer em termos do número de estudos de 
pesquisas conduzidos, quer no volume de literatura produzida, quer no seu estabelecimento 
como um reconhecido campo de estudo dentro das instituições acadêmicas, o estudo das 
organizações tem uma boa razão para ser olhada como um distinto ramo da ciência social de 
alguma importância. 
 
Porém em muitos aspectos ele é um campo confuso. Ele é usualmente apresentado como 
contendo no mínimo três linhas de desenvolvimento, cada um seguindo um número de diferentes 
tradições intelectuais. A primeira delas é a que pode ser descrita como teoria das organizações, 
endereçada ao estudo das "organizações formais" e que é construída em cima da chamada 
"escola clássica" de gerência e de teoria administrativa. Como Salaman e Thompson advertiram, 
esta linha é freqüentemente vista como a da "abordagem ortodoxa" ao estudo das organizações e 
"tende a adotar teorias e modelos de funcionamento organizacional, e a enfocar áreas de 
investigação empírica que são altamente orientadas para concepções gerenciais de organização, 
para problemas e prioridades gerenciais e para preocupações gerenciais com resultados práticos" 
(Salaman e Thompson, 1973, p.1). Os fundamentos da teoria clássica foram amplamente fun-
damentados por administradores práticos com pouco ou nenhum respaldo de ciências sociais. 
 
A segunda linha é muitas vezes descrita como a sociologia das organizações, que em grande 
parte se apóia no trabalho de Max Weber e aborda o estudo das organizações de uma perspectiva 
sociológica em oposição a uma perspectiva gerencial. 
 
A terceira linha envolve-se essencialmente com o estudo do comportamento dos indivíduos 
dentro de organizações, de um ponto de vista psicológico. Ela se assenta no trabalho 
desenvolvido pelo movimento das relações humanas e na sua maior parte aborda o sujeito de um 
ponto de vista psicológico, embora tenha recebido a contribuição de um número significativo de 
sociólogos industriais. 
 
Todas as teorias de organização são fundamentadas em uma filosofia da ciência e uma teoria 
da sociedade, quer os teóricos estejam conscientes disto ou não. Para muitos esta pode parecer 
uma afirmação injustificadamente banal e simplista. Na verdade muitos teóricos parecem estar 
inconscientes ou, no mínimo, ignorar os pressupostos que as várias teorias refletem. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teorias de Organização Dentro do Paradigma Funcionalista. 
 
As teorias de organização contemporâneas dentro do paradigma se identificam com 4 
principais perspectivas teóricas a seguir. 
 
___________________________________________________________________ 
| | | | 
| | 
| | 
| Pluralismo | 
| | 
|| 
| Quadro de Teorias das Teoria do | 
| referência disfunções sistema Objetivismo | 
| da ação. burocráticas social | 
| | 
| | 
| | 
| | 
|_________________________________________________________________| 
 
 Fig. 5.1. Abordagens funcionalistas ao estudo das organizações. 
 
1. Teoria de Sistema Social e Objetivismo. 
 
Esta perspectiva, que caracteriza a região mais objetivista do paradigma, é de esmagadora 
significância para as teorias de organização contemporâneas, pois a vasta maioria de escritores 
em assuntos organizacionais adotam uma perspectiva aqui localizada. Ela corresponde as 
categorias de teoria social identificadas no capítulo 4 como teoria de sistema social e 
objetivismo. No campo dos estudos em organização tem havido uma interação contínua entre es-
tas duas categorias de teorias, uma vez que as distinções conceituais entre elas não têm sido 
freqüentemente reconhecidas. Tentaremos seguir algumas destas interações e mostrar como 
algumas destas teorias evoluíram. A perspectiva como um todo corresponde ao que Silverman 
(1970) descreveu como "a ortodoxia de sistemas", embora, como argumentaremos, ela é 
positivamente desencaminhadora para a visão de que muitas das teorias localizadas dentro dela 
são teorias de sistemas somente no nome. Ela abarca uma pequena quantidade de teoria de 
sistemas social e uma larga quantidade de behaviorismo, porem é dominada pelo empirismo 
abstrato. 
 
2. O Quadro de Referência da Ação 
 
Esta perspectiva, que ocupa a fronteira subjetivista do paradigma, é consideravelmente menos 
desenvolvida. Derivando principalmente do trabalho de Weber, ela recebeu sua expressão e 
formulação mais clara no trabalho de Silverman (1070). Contrariando a visão de Silverman, não 
vemos esta perspectiva como constituindo um paradigma alternativo para o estudo das 
organizações. Vemo-la como uma perspectiva alternativa que permanece essencialmente dentro 
do contexto do paradigma funcionalista. Ela é uma perspectiva que, em termos da análise contida 
no capítulo 4, é consangüínea do interacionismo simbólico e da teoria da ação social. 
 
 
 
3. Teorias das disfunções burocráticas 
 
37 
Esta perspectiva é construída a partir da categoria da teoria integrativa descrita no capítulo 4 
como a Teoria Mertoniana da estrutura social e cultural. Ela abarca um relativamente pequeno 
número de teóricos, que especificamente desenvolveram o trabalho de Merton e levaram a 
perspectiva a uma posição que se aproxima da do conflito funcionalista. 
 
4. Teoria pluralista 
 
Esta é uma outra categoria da teoria integrativa consangüínea da do "conflito funcionalista" 
discutido no capítulo 4. Os teóricos chegaram a esta perspectiva por diferentes rotas. Em termos 
de números eles são relativamente poucos, mas a perspectiva é de crescente importância dentro 
da área subjetiva como um todo. 
 
O resto deste capitulo devotaremos a uma análise sistemática das teorias de organização 
comparadas com um background teórico definido pelo paradigma funcionalista como discutido 
no capítulo 4. Tentamos penetrar além da simples análise histórica e tipológica atingindo os 
fundamentos teóricos essenciais que dão suporte ao trabalho contemporâneo no assunto. 
 
Teoria do Sistema Social e Objetivismo 
 
A perspectiva dominante dentro do campo dos estudos organizações é caracterizado por uma 
relação estreita e interativa entre teoria de sistema e objetivismo. No resto desta secção 
tentaremos esboçar as relações entre alguns de seus limites proeminentes. A Figura 5.2 ilustra o 
curso geral do desenvolvimento. 
 
Nosso plano para negociar este complexo campo de teoria e pesquisa é como se segue. 
Tomamos como nosso ponto de partida os teóricos gerencialistas clássicos e os psicólogos 
industriais que foram os precursores do movimento de relações humanas. Nosso argumento é de 
que, não obstante as diferenças de detalhes nas teorias que eles expuseram, ambos ocupam uma 
posição similar no lado da fronteira mais objetivista do paradigma funcionalista. As perspectivas 
de tanto um como outro conjunto de teóricos refletiram um forte determinismo, em que os 
fatores objetivos no ambiente do trabalho eram tratados como de enorme importância para a 
análise e explicação do comportamento das organizações. Como tentamos ilustrar na Figura 5.2, 
as duas abordagens ainda hoje permanecem vivas e bem. Elas floresceram através dos tempos e 
estão muito evidentes nos trabalhos dos ergometristas, dos teóricos do estudo do trabalho e dos 
teóricos do gerencialismo que continuam a prescrever regras de organização. 
 
Vamos sair destes primeiros exemplos de objetivismo para entrar numa consideração da 
teoria do sistema social refletida nos Estudos de Hawthorne. Argumentamos que o modelo 
teórico que emergiu deste trabalho foi, no seu tempo, muito sofisticado, embora os insights que 
ele ofereceu ficaram grandemente perdidos nos debates ulteriores que tenderam a focalizar os 
resultados empíricos do estudo. As pesquisas pós-Hawthorne em comportamento do trabalho 
usualmente se reverteram no objetivismo dos anos iniciais. Dedicamos nossa próxima secção a 
uma consideração deste objetivismo pós-Hawthorne que dominou o movimento de relações 
humanas e as pesquisas em satisfação do trabalho, dinâmica de grupo, liderança e estilos 
gerenciais, etc., até os dias atuais. Esta primeira parte é seguida por uma curta secção sobre a 
teoria dos sistemas sócio-técnicos, que em essência representa um direto desenvolvimento dos 
descobertas teóricas geradas na pesquisa de Hawthorne, e que teve uma grande influência na 
teoria do desenho do cargo. 
 
Uma consideração da teoria dos sistemas sócio-técnicos leva naturalmente ao exame da 
abordagem dos sistemas abertos relativo ao estudo das organizações. A fim de prover uma 
adequada medida destes sistemas, é necessário retornar aos estudos de Hawthorne e traçar uma 
nova linha de desenvolvimento, que começa com a teoria de organização de Barnard. O trabalho 
de Barnard representou uma das primeiras tentativas de desenvolver um modelo compreensivo 
de uma organização. Todas as outras pesquisas que já mencionamos focam suas atenções no 
comportamento dentro das organizações e têm a ver com o indivíduo, o grupo social e o 
ambiente de trabalho. O trabalho de Barnard representa uma clara mudança na direção de um 
nível de analise organizacional. Mais adiante neste capítulo consideraremos a teoria de Barnard, 
juntamente com o trabalho de Herbert Simon, sob o título de teorias do equilíbrio da 
organização. 
 
A teoria de Barnard, grandemente influenciada pela pesquisa de Hawthorne, tendeu as 
enfatizar os aspectos sociais da organização. Ele estava interessado, primeiro e principalmente, 
em ver a organização como uma empresa. Esta tendência foi modificada pelos teóricos que lhe 
sucederam como Philip Selznick e Herbert Simon que, influenciados por Weber e alguns dos 
teóricos clássicos, deram maior proeminência aos aspectos racional/legal ou burocrático da 
organização. Simon assim procedeu dentro do contexto de um modelo de equilíbrio abrangendo 
os fatores sociais e racionais. Selznick o fez dentro de um contexto de abordagem estrutural 
funcionalista da organização. Ao desenvolver certos princípios derivados do uso de uma 
analogia orgânica, o estruturalismo funcional teve uma importante influência na teoria da 
organização. Nossa próxima secção, portanto, é devotada à consideração ao primeiro trabalho de 
Selznick como exemplo de uma abordagem estrutural funcionalista à organização.Ao levar em consideração estes fundamentos para a teoria das organizações, estaremos numa 
posição de fazer uma ponte com nossa prévia discussão da teoria dos sistemas sócio-técnicos, e 
devotaremos uma secção para considerar algumas das teorias que emergiram nos anos 1960 
tratando as organizações como sistemas abertos. Estes modelos incorporaram os insights das 
primeiras abordagens e tenderam a colocar primordial ênfase nas relações entre as organizações 
e o ambiente. 
 
Na secção seguinte consideraremos alguns estudos empíricos de características 
organizacionais que refletem o movimento de saída da teoria do sistema social para o 
objetivismo. Estes estudos, juntamente com os modelos de sistemas abertos dos anos 1960, 
prepararam o caminho para uma síntese geral em termos de teoria da contingência. Esta 
abordagem, que dominou a teoria da organização nos anos 1970, é objeto de nossa penúltima 
secção. 
 
Concluímos nossa análise com a discussão do movimento de qualidade de vida. Ele também 
ganhou proeminência nos anos 1970 e em essência funde as perspectivas dos teóricos do 
desenho do cargo com os daqueles derivados da teoria dos sistemas abertos. Comparando com a 
noção de pós-industrialismo, isto vincula a tradicional preocupação do movimento de relações 
humanas e da teoria dos sistemas sócio-técnicos com as mudanças que estão ocorrendo dentro do 
contexto da sociedade contemporânea como um todo. 
 
Teoria Gerencial Clássica e Psicologia Industrial. 
 
Taylor (1856-1915), o fundador da "administração científica" era muito mais um homem 
prático. Como engenheiro chefe de uma grande fábrica de aço que subiu de posição a partir de 
um simples trabalhador de oficina, ele estava interessado em ação gerencial e seus resultados 
imediatos mensuráveis. Descobrimos que desenvolveu suas técnicas de estudo de trabalho como 
resultado de problemas experimentados como chefe de uma gang que buscava aumentar a 
produção colocando pressão sobre os homens. Foi uma séria luta que ele empreendeu e que 
finalmente ganhou mas as expensas de considerável e penosa busca. Ele mostrou o assunto 
suspeito e decidiu que a principal causa de tal conflito era a administração, que sem saber o que 
constituía um dia de trabalho, tentava assegurar a produção mediante pressão. Ele sentiu que se a 
administração soubesse que tipo de trabalho era possível, ela então poderia determinar a 
39 
produção por demonstração. Ele decidiu experimentar e descobrir o que era mesmo um dia de 
trabalho adequado para cada operação na fabrica de aço (Taylor, 1947). 
 
Taylor pensou em converter o processo de gerência de uma arte baseada na experimentação e 
nas regras de tentativa e erro, em uma verdadeira ciência apoiada em leis, regras, princípios e 
fundamentos claramente definidos. (Taylor, 1947, p. 7). 
 
Fayol (1841-1925) foi um engenheiro de minas Francês que subiu ao topo da hierarquia 
gerencial. Enquanto Taylor concentrou seu trabalho no piso da fábrica, Fayol concentrou o seu 
nos problemas de trabalho ao nível gerencial. Seu foco de interesse foi o planejamento, a 
organização, o comando, a coordenação e o controle. Ele definiu vários princípios que podiam 
ser ensinados. Ele viu a necessidade de uma teoria de gerência. 
 
Os subseqüentes seguidores da 'escola clássica' foram Gulick, Mary Parker Folet, Mooney, 
Urwick e outros que se envolveram com a formulação e popularização dos princípios de 
gerência. Seus trabalhos se relacionaram amplamente com problemas de estrutura organi-
zacional, estilos de liderança e eficiência, e constituíram um guia de ação gerencial mais do que 
uma teoria de organização no sentido formal. 
 
As teorias de Taylor, Fayol e escola clássica de gerência como um todo, são fundamentadas 
em pressupostos muito objetivistas, onde o mundo das organizações é tratado como o mundo do 
fenômeno natural, caracterizado por uma realidade concreta que pode ser sistematicamente 
investigada de modo a revelar suas regularidades subjacentes. Ao indivíduo foi atribuído um 
papel essencialmente passivo. Seu comportamento no trabalho era visto como determinado pela 
situação em que ele era exposto. 
 
A partir do início da I Guerra Mundial outro movimento que teve considerável impacto nas 
teorias de comportamento das organizações, nos EUA., na Inglaterra e em alguns países da 
Europa foi o movimento da psicologia industrial que inicialmente adotou um baixo perfil. Para 
muita gente ele estava envolvido com consultoria para gerentes industriais em problemas 
associados com fadiga, seleção de empregados, diferenças individuais, etc. trabalho este muito 
mais de natureza prática do que de pesquisa. Deste modo, só se desenvolveu academicamente a 
partir de 1915 com suas primeiras pesquisas. Com suas dificuldades iniciais em se distinguir do 
Taylorismo, o movimento de psicologia industrial buscou enfatizar o humanitarismo buscando 
facilitar as dificuldades do trabalhador e através disso aumentando sua produção e sua satisfação 
pessoal. 
 
Embora as comparações entre a psicologia industrial e a gerência científica defendam 
diferenças entre estes dois movimentos, descobre-se que há muitos pontos semelhantes. O 
trabalho inicial dos psicólogos, por exemplo foi grandemente dirigido para estabelecer as causas 
da fadiga e da monotonia no trabalho e seus efeitos no desempenho e na eficiência. Entre os 
fatores estudados acham-se o grau de mecanização e de rotina do trabalho, métodos de paga-
mento, rotação do trabalho, horas de trabalho, introdução de pausas para descanso e a influencia 
de grupos sociais recebendo atenção. Todos estes fatores pesquisados no fim dos anos 20, até 
hoje ainda recebe muita atenção dos psicólogos industriais. 
 
Os trabalhos dos psicólogos industriais como os de Taylor, se basearam no pressuposto de 
que fatores objetivos em situação de trabalho têm muita influência no comportamento em 
organizações. O mundo do trabalho é tratado como um mundo de realidade concreta ca-
racterizado por uniformidades e regularidades que podem ser entendidas em termos de causa e 
efeito. Atribui-se ao indivíduo um papel passivo; seu comportamento é visto como determinado 
pelo ambiente do trabalho. Dentro do Taylorismo o homem não é mais que uma máquina. No 
esquema da psicologia industrial o homem é uma entidade mais complexa; a relação entre seu 
ambiente e seu comportamento somente pode ser deslindada e entendida através do uso de 
modelos psicológicos mais complexos. 
 
Os Estudos de Hawthorne. 
 
Por mais de 25 anos os estudos de Hawthorne têm sido submetido a crescente crítica por 
ignorar o papel do conflito no local de trabalho; por ser ideologicamente viciado em favor da 
gerência; por ser paternalista; por adotar uma visão não apropriada do homem e da sociedade; 
por ignorar os sindicatos e o papel da barganha coletiva; por dar uma insuficiente atenção ao 
papel de fatores externos ao ambiente; por ser muito não-científico; e por interpretar erro-
neamente a evidência que eles coletaram (Landsberger, 1958; Carey, 1967). Dadas estas críticas, 
quase todas elas são válidas em graus variados, é freqüentemente muito difícil saber com 
precisão o que fazer dos estudos de Hawthorne. Muitos teóricos concordarão que seu significado 
sob o ponto de vista histórico vai além da disputa. Quer estas críticas estejam certas ou erradas, 
os psicólogos industriais chamaram a atenção dos pesquisadores para o papel dos fatores sociais 
no local de trabalho e para o que se vem chamando de organização informal. Os estudos de 
Hawthorne tiveram um impacto massivo nos desenvolvimentos subseqüentes em psicologia 
industrial e sociologia, particularmente em relação ao chamado movimento das relações 
humanas6.
 
Em muitos aspectos a pesquisa de Hawthorne entrou no domínio da mitologia. Poucos 
estudantes de organização lê agora tanto Os problemas Humanosde uma Civilização Industrial 
de Mayo (1933) ou o relato mais abrangente do A Administração e o Trabalhador de 
Roethlisberger e Dickson (1939). Eles tendem a ler sobre os estudos de Hawthorne de segunda e 
terceira mão. A literatura está repleta de constatações supersimplificadas e relatos de 
investigações que tendem a focar na maior parte das vezes nas implicações práticas da gerência. 
 
Alem do principal significado que se dá aos estudos de Hawthorne de ter identificado o 
'homem social', eles representam uma mudança consciente do objetivismo para teoria do sistema 
social ainda que de maneira limitada, ou seja, a mudança de uma abordagem behaviorista e 
determinista para um modelo de sistema de equilíbrio mecânico baseado nas idéias de Pareto. 
 
Os experimentos de Hawthorne tiveram início em 1927 e foram relatados por Roethlisberger 
e Dickson (1939) em cujo relato se percebe os seguintes avanços em relação ao modelo de 
Hawthorne: 
 
(a) Ele é completamente explicito em rejeitar a utilidade da abordagem tradicional de gerência 
científica e da psicologia industrial como meio de investigação de situações sociais dentro das 
organizações. Estas abordagens tentaram concentrar-se nas relações entre 
as mudanças orgânicas, as condições físicas do trabalho e o equilíbrio no indivíduo ou no 
organismo. O modelo de Hawthorne enfatiza que as atitudes dos empregados e o comportamento 
de trabalho só podem ser entendidos em termos de uma complexa cadeia de elementos em 
interação dentro e fora do trabalho e também dentro do próprio indivíduo. 
 
(b) esta abordagem de sistemas é conscientemente 'aberta' por natureza, naquilo que 
reconhece a influência de forças externas, assim dá-se principal atenção a elas na medida em que 
elas afetam a história dos indivíduos e seus possíveis efeitos são moderados pelo conceito de 
equilíbrio. 
 
(c) a análise de fatores dentro da fábrica identifica os elementos da abordagem de sistemas 
sócio-técnicos com o estudo de organizações. 
 
6.
 
41 
 
(d) na situação (a) acima, os investigadores especificamente rejeitam o ponto de vista de que 
qualquer fator pode ser identificado como fonte de problemas industriais. Eles mencionam 
'fadiga', 'monotonia' e 'supervisão'; com uma compreensão tardia eles indubitavelmente teriam 
acrescentado 'necessidades sociais'. 
 
Roethlisberger e Dickson prosseguem em aplicar este modelo à evidência coletada na 
pesquisa e assim desenvolvem certos aspectos em mais detalhes. Brevemente, eles sugerem que 
a evidência coletada mostra um conjunto de relações entre as condições físicas e mudanças 
orgânicas, e destas com o equilíbrio individual ou organizacional resultando em queixas ou na 
redução da eficiência no trabalho. Também mostram as relações entre a história pessoal, as 
preocupações e o equilíbrio individual e organizacional que também resultam em queixas e 
redução da eficiência do trabalho, como menos importantes fontes de desequilíbrio do que 
aquelas associadas com condições sociais externas relacionadas com condições sociais de 
trabalho com preocupações e com o equilíbrio individual e organizacional que resultam em 
queixas e redução da eficiência no trabalho. Em outras palavras, eles põem ênfase nos fatores 
sociais do trabalho, externos e internos, como influentes nas atitudes dos empregados e na 
eficiência do trabalho. Com esta conclusão eles focalizam estes fatores em suas subseqüentes 
investigações e análises e identificam as noções de organização 'formal' e 'informal' e das con-
tribuições feitas por fatores sociais ao equilíbrio no local de trabalho. 
 
Outro ponto digno de nota. Tendo identificado a importância das atitudes individuais na 
situação de trabalho, Roethlisberger and Dickson elaboraram um outro esquema conceitual para 
entender a satisfação ou insatisfação dos empregados. Este esquema tenta mostrar, em termos 
das relações dos empregados uns com os outros, que não se pode deixar de levar em 
consideração fatores tais como bens materiais, eventos físicos, horas de trabalho, mudanças 
técnicas e políticas da empresa como fatores pertencentes ao ambiente total plenos de significado 
e de valor social. 
 
 
e) uma antecipação do que mais tarde veio a ser tornar proeminente: 'o quadro de referência 
da ação'. Eles enfatizaram que as explicações deviam ser adequadas ao nível do significado dos 
indivíduos envolvidos. Este insight foi encoberto pela euforia da descoberta da importância da 
organização social. Como eles próprio colocaram: 
 
"para entender o significado das queixas e mágoas dos empregados é necessário levar em 
conta sua posição ou status dentro da companhia. Esta posição é determinada pela organização 
social da companhia; aquele sistema de práticas e crenças por meio das quais se expressam os 
valores humanos da organização, e os símbolos ao redor dos quais eles se organizam - eficiência, 
serviço, etc... Mas a relação do indivíduo com a companhia não é um sistema fechado. Todos os 
valores do indivíduo não podem ser levados em conta pela organização social da companhia. O 
significado que uma pessoa dá a sua posição depende de como aquela posição está ou não 
permitindo-lhe preencher as demandas sociais que ele está fazendo de seu trabalho. A 
significação última de seu trabalho não é definida tão somente por sua relação com a companhia 
mas também por sua realidade social mais ampla." (Reothlisberger and Dickson, 1939, p. 374-5). 
 
Estes importantes insights teóricos foram grandemente encobertos pelos dados empíricos da 
pesquisa gerados pelo estudo. Em termos teóricos o modelo de Hawthorne pode ser melhor 
entendido como representando a fusão das sociologias de Pareto e de Durkheim. A noção de 
fatos e de sentimentos desempenham uma parte importante na orientação da análise de 
Hawthorne. Por outro lado, enquanto em Pareto a noção de um sistema em equilíbrio fornece 
uma estrutura organizativa para a pesquisa, de Durkheim a noção de anomia recebe uma atenção 
central. Os estudos de Hawthorne por eles próprios se endereçam para o que é percebido como 
uma situação de anomia - a separação entre o indivíduo e o seu trabalho. 
 
O espírito de Durkheim está presente em toda a análise e se reflete claramente na sugestão de 
Mayo (1933) de que os problemas humanos são para ser entendidos em relação a erosão dos 
valores sociais que se realizaram pelos ditames da economia e da mudança tecnológica. 
 
O modelo de equilíbrio social está bem claro nos comentários de Mayo quando ele afirma que 
 
"A colaboração humana no trabalho, seja em sociedades primitivas ou desenvolvidas, tem 
sempre dependido para sua perpetuação da evolução de um código social não-lógico que regula 
as relações entre as pessoas e suas atitudes umas com as outras. Insistência em uma mera 
lógica de produção econômica - especialmente se a lógica é mudada freqüentemente - interfere 
com o desenvolvimento de tal código e conseqüentemente dá lugar no grupo a um sentimento de 
derrota. Esta derrota resulta na formação de um código social nos níveis mais baixos e em 
oposição à lógica econômica. Um de seus sintomas é 'restrição'. (Mayo, 1933, p.120 -1)". 
 
Esta afirmação claramente reflete os princípios centrais que informam a perspectiva teórica 
dos estudos de Hawthorne. A sociedade é vista em termos de um sistema tendendo ao equilíbrio; 
se este equilíbrio é perturbado, forças são estabelecidas para restaurá-lo. Este modelo de 
equilíbrio usado para o nível social, se transfere mais ou menos de forma imutável para uma 
análise da situação do trabalho. O indivíduo torna-se um sistema em equilíbrio, influenciado por 
vários elementos que compõem a situação dentro e fora do trabalho. O comportamento no 
trabalho é entendido em termos de tentativas de manter ou restaurar uma posiçãode equilíbrio. 
 
 
Objetivismo Pós-Hawthorne: satisfação do trabalho e relações humanas. 
 
A despeito dos insights teóricos básicos implícitos no modelo de sistema social de 
Hawthorne, a maioria dos teóricos sociais interessados no estudo do comportamento do trabalho 
permaneceram amplamente não influenciados pela noção de sistemas até cerca de vinte anos 
mais tarde, quando a idéia de sistema 'sócio-técnico' começou a mudar as opiniões. Neste 
ínterim, e numa menor extensão através do período pós-Hawthorne como um todo, pesquisa no 
comportamento do trabalho tem sido caracterizada por um retorno ao objetivismo da psicologia 
industrial tradicional já discutida. Do ponto de vista da maioria dos pesquisadores este retorno 
foi o resultado do trabalho de Hawthorne que comandou atenção, e os estudos foram usados 
largamente como uma fonte de novas hipóteses para informar e guiar posteriores investigações 
empíricas no molde tradicional. O modelo de sistemas foi largamente deixado de lado em favor 
de uma busca contínua por relações causais entre novas variáveis identificadas no trabalho de 
Hawthorne. 
 
Vale recordar da discussão anterior que os primeiros psicólogos industriais estiveram 
envolvidos com o estudo de relações entre empregados, seu ambiente de trabalho e seus 
desempenhos. Neste envolvimento conceitos tais como "fadiga" e "monotonia" proporcionaram 
o principal foco de interesse. Na era pós-Hawthorniana o interesse se voltou para a noção de 
"satisfação no trabalho". O interesse se direcionou para a identificação das determinantes da sa-
tisfação no trabalho e suas relações com o desempenho no trabalho. Deste modo, enquanto o 
interesse pré-Howthorne foi o estudo das relações entre trabalho, fadiga, monotonia e 
desempenho, o interesse pós-Hawthorne foi com o estudo das relações entre trabalho, satisfação 
e desempenho. 
 
O primeiro estudo abrangente de satisfação no trabalho foi conduzido por Hoppock (1935). 
Este estudo focalizava a satisfação geral do trabalho entre empregados adultos dentro de uma 
43 
pequena comunidade, e concluía que fatores como nível ocupacional, fadiga, monotonia, 
condições de trabalho e realização poderiam ter influência na satisfação do trabalho. A este se 
seguiram uma multidão de outros estudos empíricos focalizando específicas variáveis de tra-
balho tais como supervisão, estilo de liderança, oportunidades de promoção, remuneração, status, 
conteúdo de trabalho, condições de trabalho, ambiente social, atitudes com a companhia e 
tecnologia. Muitos destes estudos também buscaram ligar a satisfação no trabalho, tanto em 
relação a fatores específicos do trabalho, como em termos gerais, ligar a níveis de desempenho 
do empregado, ausência do trabalho, taxa de turnover, acidentes, etc. O método de análise 
adotado nestes estudos focalizou a medição de variáveis envolvidas e um estudo de coeficientes 
de intercorrelações. 
 
A ausência de uma relação clara entre fatores no ambiente de trabalho e na satisfação da 
tarefa inevitavelmente tem levado a um crescente foco na natureza do homem. As tentativas de 
identificar e definir o que constitui a satisfação do trabalho tem levado a necessidade de se 
entender o processo de motivação. A luz da pesquisa pós-Hawthorne a clássica visão do homem 
econômico tem sido crescentemente desacreditada. As pesquisas de Reothlisberger e Dickson 
(1939), os estudos de White sobre a indústria de restaurantes (1948), os estudos de Walter e 
Guest das linhas de montagem (1952), os trabalhos de Likert sobre liderança e supervisão (1961, 
1967), e os trabalhos de Lewin et al sobre liderança e dinâmica de grupo (1939), entre inúmeros 
outros estudos de pesquisas, têm sido interpretados como evidência e suporte do ponto de vista 
do homem no trabalho como um ser social motivado por necessidades afetivas. 
 
Em essência, a tentativa de identificar e testar através de pesquisa empírica a validade de 
diferentes modelos de homem pode ser entendida como uma busca por um substituto do 'homem 
econômico' de Taylor. As teorias behavioristas e deterministas de comportamento humano 
somente têm utilidade si se pode mostrar que o homem é predizível. Muito da pesquisa 
objetivista sobre comportamento do trabalho visa essencialmente mostrar precisamente isto: que 
a natureza do homem pode ser revelada através de investigação empírica sistemática de suas 
atitudes e comportamentos. 
 
Na tentativa de identificar um modelo de homem apropriado para o estudo do comportamento 
de trabalho, pesquisadores industriais tem feito muito uso de psicólogos humanistas tais como 
Abraham Maslow, cuja teoria da hierarquia de necessidades humanas tem provado ser muito 
influente (Maslow, 1943). Algumas tentativas específicas têm sido feitas para testar seu modelo 
a um nível empírico, embora a abordagem mais comum tenha sido usá-la como ponto de refe-
rência para interpretar os resultados encontrados independentemente do modelo como tal. Em 
ambos os casos os dados gerados provaram ser não conclusivos. Mesmo o caso de Herzberg et 
al. (1959) com sua teoria de dois fatores de satisfação de cargo, que em essência está relacionado 
com as idéias de Maslow, também provaram ser não conclusivas. 
 
Desde os anos 1960 a inabilidade de tais modelos de homem para prover explicações 
consistentes de motivação e comportamento no trabalho tem levado a crescente interesse em 
modelos cognitivos de processo motivacional, particularmente a 'teoria da expectância'. Esta é 
uma teoria baseada essencialmente no que Locke tem descrito como 'uma forma de hedonismo 
psicológico calculativo, em que o motivo último de cada ato humano está designado a ser uma 
maximização do prazer e/ou uma minimização de sofrimento. O indivíduo sempre escolhe 
aquele curso de ação que ele espera o levará ao maior grau de prazer ou que produzirá o menor 
grau de sofrimento'.(Locke, 1975, p. 459). Paradoxalmente, a teoria da expectância gira a roda da 
psicologia industrial de volta aos dias do Taylorismo, em que em lugar do homem racional 
econômico, o substitui por um homem racional calculativo e hedonista. 
 
Os psicólogos industriais têm visto o homem como crescentemente complexo e problemático 
tanto quanto têm se interessado pelo comportamento em organizações. Eles têm buscado 
soluções nas psicologias humanista e cognitiva, em principio com vistas a colocar um homem 
psicológico complexo na estrutura de uma teoria de comportamento de trabalho determinística, 
embora se baseiem em modos de explicação contingencial ao invés de universal. 
 
 
Teoria dos Sistemas Sócio-técnicos. 
 
Como já chamamos a atenção, os elementos da teoria dos sistemas sócio-técnicos foi 
construída a partir do modelo de Hawthorne para analisar situações de trabalho. Contudo nos 
anos imediatamente pós-Hawthorne, estes importantes insights foram muito negligenciados em 
favor de estudos objetivistas de satisfação da tarefa, dinâmica de grupo, estilos de liderança e de 
outros fatores de interesse do movimento das relações humanas. Certos estudos tinham prestado 
atenção às relações entre tecnologia e estrutura social, mas foi somente a partir de 1950 que 
alguma coisa começou a ser abordada com relação ao que hoje se chama de abordagem dos 
sistemas sócio-técnicos. 
 
O termo 'sócio-técnico' foi primeiro usado por membros do Instituto Tavistock para 
caracterizar a interação de fatores tecnológicos e sociais nos sistemas de produção industrial. Ele 
derivou em grande medida dos estudos conduzidos por Trist e Banforth (1951) que foi dirigido a 
examinar o efeito da introdução do método de 'long-wall' em mina de carvão em certas minas 
Britânicas. Este sistema de mineração mecanizado de produção em massa, que substituiu o 
tradicional método 'hand-got', envolveu uma completa reorganização do trabalho e de relações 
sociais dentro do poço da mina. O estudo quefoi fortemente informado por uma perspectiva 
psicanalítica focalizando a importância das relações de grupos, levou os pesquisadores a ver a 
situação do trabalho em termos das inter-relações entre fatores sociais e tecnológicos. O grupo 
foi visto não só como um sistema técnico ou um sistema social, mas como um sistemas sócio-
técnico independente. Como os estudos de Hawthorne, o trabalho do Tavistock foi subscrito por 
pressupostos de um modelo de equilíbrio. A mudança tecnológica refletida no novo método foi 
vista como perturbando o 'equilíbrio pré-mecanizado' e a respostas dos mineiros foi interpretada 
como reações a estes distúrbios. A situação no poço foi analisada em termos de um campo de 
forças psicológicas e sociais, equilíbrio este que foi influenciado pela interação entre os fatores 
técnicos e humanos. 
 
O estudo foi importante ao reconhecer que fatores sócio-psicológicos eram formados dentro 
da natureza da tecnologia do trabalho, e que a organização do trabalho também tinha 
propriedades sociais e psicológicas próprias que eram independentes de tecnologia. Contudo, a 
noção de sistemas sócio-técnicos permaneceu de maneira embrionária, esperando refinamento 
através de mais pesquisa. Esta foi conduzida por membros do grupo Tavistock pelos anos 50 e 
resultou em um número de importantes publicações. Estas refletem uma crescente preocupação 
com a noção de sistema como um conceito organizativo, não só ao nível do grupo de trabalho 
mas para o estudo da organização como um todo, e um movimento de um modelo de equilíbrio 
para um sistema baseado na analogia com o organismo. 
 
A noção de sistema sócio-técnico teve um grande impacto nos desenvolvimentos dentro do 
campo de desenho de tarefa, particularmente a partir do meio dos anos 60, e sobre o movimento 
de qualidade de vida no trabalho. Contudo, por um numero de anos, seu uso foi muito mais 
proeminente na pesquisa Britânica, particularmente no Tavistock. As pesquisas conduzidas nos 
EE. UU. durante os anos 50 não foram tão claramente informadas pelo conceito de sistemas, 
embora fossem endereçadas a considerações similares. O trabalho de Argyris dá um exemplo da 
maior projeção e interesse. Em 1952 ele publicou O Impacto dos Orçamentos nas Pessoas e em 
1957 Personalidade e Organização ambos investigando conflitos entre as necessidades da 
personalidade humana e as características da organização formal, reconhecendo que uma análise 
adequada de comportamentos em organizações deve tomar em consideração fatores individuais, 
45 
fatores de pequenos grupos informais e fatores da organização formal (linha-staff, cadeia de 
comando, especialização de tarefas, lay-out da produção e controle, etc.). Argyris estava 
interessado em integrar pesquisa em ciência comportamental relevante através do uso de uma 
estrutura sistemática para estudo do que ele descreve como comportamento organizacional, e ele 
gera muitos insights que se comparam àqueles que caracterizam a teoria dos sistemas sócio-
técnicos. Há aí contido a noção de equilíbrio. Certos elementos antecipam uma visão de 
organizações como sistemas abertos, e certamente o modelo subjacente é especificamente 
atualizado e reescrito dentro do contexto da abordagem dos sistemas abertos em um seu volume 
subseqüente (Argyris, 1964). 
 
Teorias Organizacionais de Equilíbrio: Barnard e Simon. 
 
Chester Barnard (1886-1961) por muitos anos foi uma figura proeminente do managirialismo 
nos EE. UU.. Como presidente de uma grande empresa, ele teve muito contacto com os 
sociólogos do 'Grupo de Harvard' liderados por Henderson e Mayo, durante os anos 30 e, em 
resposta ao encorajamento deles, firmou seus pensamentos sobre gerência e organização em seu 
famoso ensaio As funções do Executivo (1938). Este trabalho reflete as perspectivas e 
orientações dominantes do Grupo de Harvard, em que está subscrito por um interesse em análise 
de organizações como sistemas sociais cujas atividades podem ser entendidas com referência ao 
conceito de equilíbrio. Os ensaios de Barnard representam uma das primeiras tentativas siste-
máticas de assentar as bases de uma teoria de organizações e foi extremamente influente no 
pensamento subseqüente. Na verdade Perrow foi muito adiante a ponto de sugerir que 'não seria 
um exagero tão grande dizer que o campo da teoria organizacional é dominado por Max Weber e 
Chester Barnard, cada um apresentando modelos diferentes, e que os seguidores de Barnard 
ganham em superioridade numérica' (Perrow, 1972, p. 75). 
 
O trabalho de Barnard apresenta dois tratados: o primeiro é descrito como uma 'exposição de 
uma teoria de cooperação e organização; o segundo como 'um estudo das funções e dos métodos 
de operação de executivos em organizações formais' (Barnard, 1938, p. xii). o tema subjacente é 
que as organizações são por natureza essencialmente sistemas cooperativos mas requerem 
sensibilidade gerencial para mantê-las em estado de equilíbrio. Seu ensaio como um todo busca 
estabelecer as bases de uma teoria gerencial que contribuirá para este objetivo geral. 
 
Barnard define a organização formal como 'um sistema de atividades conscientemente 
coordenadas ou forças de duas ou mais pessoas'(1938, p. 73) e argumenta que 'uma organização 
acontece quando (1) há pessoas capazes de se comunicar umas com as outras, (2) que querem 
contribuir com ação, (3) para atingir um propósito comum'(1938, p. 82). Barnard argumenta que 
estes 3 fatores - comunicação, disposição para servir e propósito comum - São condições ne-
cessárias e suficientes encontradas em todas as organizações formais. No trabalho de Barnard as 
noções de cooperação e propósito assumem um sabor moral. Para Barnard o fato dos membros 
de uma organização participarem e cooperarem prontamente é tido como um endosso ao 
propósito da organização. 
 
Barnard reconhece que o desequilíbrio é um estado muito comum e que na prática mesmo a 
vontade das pessoas em cooperar pode estar em dúvida. Ele então devota grande atenção à 
consideração de caminhos em que se pode restaurar o equilíbrio através de apropriada gerência 
executiva. Pede-se aos executivos que dêem consideração aos necessários ajustamentos em 
relação ao ambiente e dentro da organização. Em relação à organização ele é solicitado a alterar 
as condições de comportamento dos indivíduos, incluindo as condições de treinamento 
individual, pela incucação de atitudes e pela construção de incentivos (19345, p. 15). 
 
Como se percebe, embora se defenda a cooperação dos indivíduos como a característica 
definidora de uma organização, a teoria das funções executivas de Barnard, é baseada em 
pressupostos de certo modo contraditórios. Isto é uma grande fraqueza em sua teoria. Sua teoria 
de 'induzimentos' e de 'contribuições', que é desenvolvida para explicar a continuidade da 
participação dos membros da organização, parece particularmente paradoxal dentro do contexto 
de uma organização caracterizada por um propósito comum. Similarmente a visão Barnardiana 
de que as funções dos executivos é de 'indotrinar' aqueles nos níveis mais baixos da organização, 
parece igualmente paradoxal (l938, p. 233). Do mesmo modo, sua visão de que 'o teste final de 
seu 'esquema conceitual' é se seu uso tornará possível uma promoção consciente e uma 
manipulação de cooperação entre os homens mais efetiva' (1938, p. 74), também contradiz seus 
pressupostos básicos a respeito da natureza cooperativa das organizações. 
 
Embora a maior parte das secções de seu livro a teoria e estrutura das organizações formais 
ha, até certo ponto, muito pouca discussão de estrutura no sentido clássico gerencial. Barnard es-
teve menos interessado em descrever hierarquias gerenciais, linhas de comando, alcances de 
controle, desenhos de tarefas, etc., do que em delinear as relações entre membros individuais no 
processo executivo em andamento. Barnard abordouos problemas relacionados com a motivação 
individual dos membros . Para ele a teoria da organização formal estava grandemente envolvida 
com a relação entre pessoas. 
 
Barnard deu muito mais atenção que os teóricos clássicos ao papel dos indivíduos, suas 
motivações e comportamentos na organização, e muito menos atenção aos problemas de 
estrutura. Pelos anos 40 portanto, já era propício uma fusão das duas perspectivas e da criação de 
uma teoria de organizações orientada para objetivos que tomasse em consideração fatores 
humanos e estruturais. Os fundamentos de tal perspectiva se assentaram de duas maneiras bem 
diferentes em Simon e Selznick. 
 
Simon, em seu famoso livro Comportamento Administrativo (1945), integra as abordagens 
estrutural e motivacional à organização dentro do contexto de uma teoria de equilíbrio. Sua 
análise, como a de Barnard, é amplamente subscrita nas idéias de Pareto. Ele focaliza a tomada 
de decisão dentro da organizações e busca reconciliar os princípios de racionalidade que estão 
contidos na teoria da organização formal e administração com o fato de que os indivíduos nunca 
alcançam uma alto grau de racionalidade. Para Simon, a noção de 'homem econômico' 
característico da teoria clássica está plenamente em oposição com a visão do homem revelada 
pelos psicólogos e, na verdade, aquele que emerge da observação da experiência de trabalho 
diário. Uma de suas soluções é introduzir um novo modelo de homem - o homem administrativo 
- baseado na noção de 'racionalidade limitada' e no pressuposto de que o homem 'satisfaz' e não 
necessariamente 'maximiza' seu comportamento de trabalho. 
 
Assim, para Simon, 'o interesse central da teoria administrativa é com o limite entre os 
aspectos racionais e não-racionais do comportamento humano social. A teoria administrativa é 
peculiarmente a teoria da racionalidade intencional e limitada - do comportamento de seres 
humanos que se satisfazem porque não têm a sabedoria para maximizar (Simon, 1957, p. xxiv). 
Simon está especificamente interessado em construir uma teoria de comportamento adminis-
trativo em torno de uma teoria de escolha humana ou tomada de decisão que seja 
suficientemente ampla e realista para acomodar aspectos racionais de escolha que tenha 
interessado a economistas e elementos de tomada de decisão e de comportamento que tem 
interessado aos psicólogos. É uma teoria que coloca no centro de seu modelo de equilíbrio 
(induzimento-contribuição) da organização e do qual ele deriva várias proposições de interesse 
para o administrador. 
 
A teoria de Simon provou ser tremendamente influencial e tem estimulado considerável 
interesse nas abordagens de tomada de decisão para o estudo das organizações. Os temas básicos 
implícitos na análise de Simon foram atualizados em um importante volume escrito por Simon e 
47 
March (1958) que, em essência, buscou codificar e definir o campo da teoria de organização em 
termos de uma serie de proposições formais. 
 
O modelo de Simon e March foi posteriormente desenvolvido por Cyert e March (1963) que 
viram a organização como um sistema 'racionalmente adaptativo' lidando com uma variedade de 
restrições internas e externas para chegar a decisões. Ele vê a firma como um sistema de 
processamento de informações e de tomada de decisão que tem de lidar com vários conflitos 
dentro dos limites internos e externos à organização. Ele focaliza as operações internas da firma, 
desenvolve as análises de conflito de March e Simon e chega a uma perspectiva teórica que, 
embora dominada pela noção de equilíbrio, tem muitos pontos de semelhança com as teorias 
pluralistas de organização. 
 
A Abordagem Estrutural Funcionalista à Organização. 
 
Philip Selznick (1948), como Simon, buscou desenvolver uma teoria de organização orientada 
para objetivos que toma na devida consideração fatores humanos e estruturais. Contudo, 
enquanto Simon focalizou organizações como entidades de tomada de decisão, Selznick 
escolheu desenvolver uma visão estrutural funcionalista. 
 
Ele começa sua análise revendo duas definições de uma organização, uma do trabalho de J. 
M. Gauss e outra de Barnard. Gauss definiu a 'organização como 'um arranjo de pessoas para 
facilitar a atingimento de alguns propósitos combinados através da alocação de 
responsabilidades e de funções “(1936, p. 66). Barnard definiu uma organização formal como 
um sistema de atividades conscientemente coordenadas ou forças de duas ou mais pessoas (1938, 
p. 73). Assim, Selznick liga sua visão de organização como expressão estrutural da ação racional 
e reconhece que as organizações estão longe de serem racionais em suas verdadeiras operações. 
Alinhando as conclusões de Hawthorne, com as pesquisas sobre disfunções burocráticas de 
Merton e com a análise dos sistemas cooperativos de Barnard, Selznick argumenta que na 
medida em que se inspeciona estas estruturas formais começa-se a ver que elas nunca são bem 
sucedidas na conquista das dimensões não racionais do comportamento organizacional. Este úl-
timo permanece imediatamente indispensável para a continuidade do sistema de coordenação e 
ao mesmo tempo a fonte de fricção, dilema, dúvida e ruína. (Selznick, 1948, p. 25). Em outras 
palavras, Selznick argumenta que embora as organizações sejam formalmente racionais, na 
prática real, elas são grandemente influenciadas pelos aspectos informais e sociais da 
organização. Ele argumenta que os indivíduos nunca se submetem totalmente aos ditames da 
estrutura formal. Ele também argumenta que o ambiente institucional dentro do qual a 
organização se encontra exerce pressão sobre a estrutura formal e social da organização. Enfim 
sugere que a organização poderia ser vista como 'uma economia' e como 'uma estrutura social 
adaptativa'. 
 
Tendo integrado os aspectos formal e social, econômico e técnico, Selznick defende uma 
forma estrutural funcional de análise . Ele reconhece que a análise sociológica das estruturas 
formais é inadequada como um fim em si mesmo e que se requer uma teoria de organização 
capaz de entender o processo adaptativo. Ele vê a análise estrutural funcional como sendo 
adequada para este fim e desenvolve um modelo baseado na analogia com um organismo 
biológico. Em grande medida ele segue o esquema de Parsons já descrito em que busca 
identificar os 'imperativos' funcionais que servem a todas as necessidades de 'manutenção do 
sistema' como um todo. 
 
Em Selznick como em Simon a racionalidade está presente como um conceito central. Em 
Simon o 'homem administrativo' preserva a racionalidade como um conceito preeminente. A 
natureza do homem é redefinida para servir a teoria da organização formal. No modelo de 
Selznick a noção de racionalidade ocupa um papel de pano de fundo ainda que extremamente 
penetrante em termos da natureza intencional da organização. A presunção é de que a 
organização opera de maneira direcionada para objetivos, e é engrenada para auto-manutenção 
internamente e em relação a seu ambiente. A adoção de uma analogia orgânica como uma base 
de análise conduz a identificação de uma serie de imperativos funcionais que servem às 
necessidades da organização como um 'econômico' e 'sistema social adaptativo'. A racionalidade 
intencional é ainda o conceito dominante, embora - em contraste com Simon - o indivíduo esteja 
aparentemente ausente; a racionalidade intencional torna-se uma característica do sistema como 
um todo. 
 
Organizações como Sistemas Abertos. 
 
Desde a metade dos anos 50 a abordagem dos sistemas abertos se estabeleceu com um meio 
popular de estudar as organizações. Para iniciar recordemos a discussão do trabalho do Instituto 
Tavistock onde o conceito de sistemas sócio-técnicos foram formulados a base de um modelo 
mecânico de equilíbrio (Trist e Bamforth, 1951). Em 1958 incorporou-se ao conceito uma 
abordagem bem maisampla de sistemas sócio-técnicos abertos baseados em analogias orgânicas. 
A análise de Rice (1958) da pesquisa do Tavistock em uma firma têxtil Indiana deu uma clara 
ilustração de que a empresa industrial é vista como um sistema sócio-técnico que deve satisfazer 
as condições financeiras da industria da qual é parte. As dimensões sociais, tecnológicas e 
econômicas da organização são todas vistas como independentes mas com valores próprios. Dito 
de maneira mais incisiva, o argumento é de que em um sistema industrial há imperativos sociais, 
tecnológicos e econômicos que devem ser satisfeitos se pretende um sistema industrial ótimo a 
ser alcançado. 
 
A análise de Rice da firma têxtil está explicitamente baseado no modelo de uma firma como 
um organismo vivo que está aberto para seu ambiente. A forma é vista como mantendo-se 
através da troca de materiais com o ambiente - importando capital, matérias primas, 
equipamentos e suprimentos, e exportando dividendos, investimentos, sobras e produtos finais. 
O estudo é guiado para a noção de 'tarefa primária'. Cada sistema ou subsistema é visto como 
tendo, a qualquer tempo, uma tarefa primária - tarefa que é criada para desempenhar (Rice, 1958, 
p. 32). 
 
A organização é assim vista como um sistema unitário sob o guarda-chuva de uma tarefa 
comum. o sistema social é visto como uma força positiva contribuindo para o alcance da tarefa. 
A tecnologia é vista como impondo restrições sobre possíveis maneiras de organização, mas 
onde é possível se fazer escolhas. A variável importante é, portanto, o desenho organizacional. A 
concepção de um modo apropriado de organização do trabalho que satisfaça as demandas da tec-
nologia e as necessidades dos empregados é vista como a chave para a produção de uma 
organização efetiva e harmoniosa. Este é uma visão de sistema que se baseia na filosofia de 
engenharia social e que em essência busca melhorar os problemas criados pela mudança 
tecnológica. 
 
A sofisticação da abordagem dos sistemas sócio-técnicos abertos para o estudo das 
organizações foi elaborado mais tarde dentro do contexto da problemática acima, através de 
outra pesquisa conduzida por membros do Tavistock. Neste trabalho dá-se cada vez mais atenção 
a relação entre a organização e seu ambiente. Em seu livro A Empresa e seu Ambiente (1963), 
Rice define a tarefa primária da organização como 'a tarefa que ela deve desempenhar para 
sobreviver' e 'a tarefa primária da liderança como 'gerir as relações entre a empresa e o seu 
ambiente de modo a permitir um desempenho ótimo da tarefa primária da empresa' (1963, p. 13-
15). O ambiente da empresa é visto como consistindo de suas adjacências políticas, sociais e 
econômicas totais; para uma parte da empresa o ambiente é visto como incluindo as outras partes 
e o todo (1963, p. 15). Alinhada com a crescente atenção devotada ao 'ambiente', a noção de 
regulação de fronteiras e gerenciamento é também dada crescente importância, particularmente 
49 
no trabalho de Miller e Rice (1967). Regulação de fronteira é visto como 'o controle gerencial 
essencial em qualquer empresa' e é dada considerável atenção aos problemas e importância de 
definição de fronteiras de sistemas de controle dentro da empresas e entre as empresas e seus 
ambientes. Este trabalho vê explicitamente a organização 'como uma ferramenta desenhada pri-
mariamente para desempenho de tarefa', em que 'as necessidades humanas - para satisfação e 
para defesa contra ansiedade - poderia ser vista como restrições ao desempenho da tarefa' (Miller 
e Rice, 1967, p. vi). 
 
A natureza dos ambientes organizacionais também tem recebido uma grande quantidade de 
atenção da equipe do Tavistock em anos recentes. Emery e Trist publicaram um artigo bem 
conhecido 'A Textura Causal de Ambientes Organizacionais', em que mudaram o foco da teoria 
dos sistemas abertos de um interesse específico que Dill (1958) descreveu como 'ambiente de 
tarefa' para um interesse mais geral de 'apreciação' do ambiente social como um domínio quase-
independente. A turbulência do ambiente mundial como um todo e suas implicações para o 
futuro passaram a ser vistos como importantes influências contextuais nas atividades da 
organização. Seu interesse mais amplo por contexto levou-os a um interesse no campo da 
ecologia social' (Emery e Trist, 1972). A tentativa de entender organizações como sistemas 
sócio-técnicos abertos tem levado com ela um interesse em entender os padrões de vida 
característicos da sociedade pós-industrial, a maneira em que estes padrões estão mudando e as 
implicações que eles carregam para o entendimento e a influenciação da operação de 
organizações como sistemas adaptativos complexos. Este interesse em ecologia social tem 
levado a uma fusão entre a teoria dos sistemas sócio-técnicos e as teorias do 'pós-industrialismo', 
que tem levado os pesquisadores envolvidos, a saírem de um interesse de base exclusiva e 
estreita de teorias de organização e mudança organizacional para um interesse em teoria social e 
mudança social. Suas teorizações agora refletem aquelas teorias da engenharia social operando 
em uma verdadeira escala macro. 
 
A segunda ilustração da abordagem dos sistemas abertos é tirada do trabalho de Katz e Kahn. 
Seus estudo A psicologia Social das Organizações (1966) se firmou como um clássico no campo 
e proporciona um dos mais citados modelos de sistemas de uma organização. Em essência ele 
constitui um modelo de organização estrutural funcionalista, apresentado na terminologia e 
jargão da teoria dos sistemas abertos. Sua abordagem básica ao estudo do fenômeno social é 
muito na tradição de Radcliffe-Brawn, em que eles enfatizam a necessidade de ver o sistema 
social mais como uma 'estruturação de eventos ou acontecimentos do que de partes físicas' e 
como não tendo 'estruturas fora de seu funcionamento' (Katz e Kahn, 1966, p. 31). Eles vêem a 
abordagem dos sistemas abertos como um meio de analisar o contexto social e institucional em 
que as pessoas vivem, e desenvolvem um modelo de processo para entender as organizações em 
termos de 'input', 'throughput' e 'output'. A análise é largamente baseada no pressuposto de que 
os sistemas sociais são homeostáticos, possuindo característica de entropia negativa, feedback, 
diferenciação e equifinalidade. 
 
Dentro do contexto da abordagem dos sistemas abertos Katz e Kahn dão 5 tipos genéricos de 
subsistemas: 
 
 
 
 
SUBSISTEMA DE PRODUÇÃO OU TÉCNICO primordialmente envolvido com a 
produção organizacional; 
 
SUBSISTEMA DE APOIO que executa as transações com o ambiente na procura de insumos 
ou na disposição de produtos ou de ajuda nestes processos; 
 
SUBSISTEMAS DE MANUTENÇÃO para atrair e manter pessoas em seus papeis 
funcionais; 
 
SUBSISTEMA ADAPTATIVO envolvido com mudança organizacional; 
 
SUBSISTEMA GERENCIAL que dirige e adjudica entre todos os outros. 
(Katz e Kahn, 1966, pp. 39 -47). 
 
Esta classificação é reminiscência dos quatro 'imperativos funcionais de Parsons discutidos no 
capítulo anterior e reflita a predileção de Katz e Kahn pela explanação dos fatores que eles vêem 
como "criando e mantendo um sistema estável (1966, p. 107). Eles estão principalmente 
interessados em explicar a maneira pela qual os sistemas sociais mantêm-se a si mesmos, e toda 
a análise deles é dirigida para este mister. Eles reconhecem explicitamente as limitações dos 
modelos mecânicos como meios de estudar os atividades sociais, e argumentam que o uso de tais 
modelos ignora o significado da abertura de sistemas com relação a produção e manutenção de 
insumos e negligencia a grande importância do insumo de manutenção para o sistema social 
(1966, p.31). Eles argumentam que especial atenção deve ser dada a estes insumos de 
manutenção. 
 
Os modelos do Tavistock e de Katz e Kahn representam duas das mais proeminentes 
abordagensde sistemas ao estudo das organizações e servem ao propósito de ilustrar o estado da 
arte no presente. A teoria dos sistemas abertos tem tido, indubitavelmente, o maior impacto, 
particularmente com relação à ênfase que agora se coloca no entendimento da natureza e 
influenciado ambiente e no estudo de organizações como processos e não como estruturas. 
 
Os modelos de sistemas abertos são invariavelmente baseados na analogia com um organismo 
biológico. A organização é vista como essencialmente intencional por natureza e como tendo 
certas necessidades ou 'imperativos funcionais' que devem ser preenchidos se a organização é 
parta continuar existindo. Deste modo, na pressuposição de que as organizações são como 
organismos vivos, aos modelos de sistemas são freqüentemente atribuídos objetivos de 
sobrevivência. Isto é conceituado em termos de 'tarefas primárias' ou em termos de algum tipo de 
processo de estabelecimento de objetivo. A organização e seus subsistemas são então vistos 
como orientados para o alcance deste objetivo geral e presumido ser inteligível com este ponto 
de referência em mente. A norma de racionalidade intencional é subjacente a abordagem como 
um todo. Os subsistemas são definidos e suas ações julgadas com referência a suas influencias 
sobre a habilidade do sistema de atingir a tarefa primária. 
 
Estudos Empíricos de Características Organizacionais. 
 
Um dos primeiros e certamente um dos mais significantes estudos organizacionais na tradição 
behaviorista foi aquele conduzido por Joan Woodward no inicio dos anos 50. Woodward (1958 e 
1965) buscou descobrir se os princípios de organização defendidos pelos teóricos do 
gerencialismo clássico tinham correlação com sucesso nas empresas de negócios quando postos 
em prática. Uma vez que a maioria destes princípios tinha a ver com o desenho de estruturas de 
organização, seu levantamento de firmas do sudeste de Essex envolveu a coleta de uma ampla 
variedade de dados quantitativos relacionados com a organização da firma, com processos e 
métodos de manufatura, com sucesso comercial e com a história em geral. Os resultados de seu 
estudo agora famosos, sugeriram que havia uma relação empírica entre a natureza dos sistemas 
de produção (tecnologia), os padrões de organização e o sucesso nos negócios. Enquanto 
rejeitando as hipóteses derivadas da teoria gerencial clássica, o estudo gerou uma nova: que os 
métodos técnicos eram o fator mais importante na determinação da estrutura da organização e 
tinha uma importante influência sobre as relações humanas dentro da firma. Este estudo e seus 
resultados estavam muito alinhados com as conclusões emergentes de pesquisa conduzida em 
51 
outros lugares. O interesse na relação entre tecnologia e organização social estava em grande 
ascendência. O trabalho de Trist e Bamforth (1951), Walter e Guest (1952), Burns e Stalker 
(1961), Sayles (1968) e muitos outros estavam produzindo achados semelhantes. O que é impor-
tante no trabalho de Woodward para nossos propósitos é que ele foi focado no nível de análise 
organizacional e empregou simplesmente descrições quantitativas que poderiam ser submetidas a 
análise estatística. Isto abriu as comportas a um novo estilo de pesquisa baseado em pressupostos 
objetivistas que as organizações são fenômenos empíricos concretos e firmes que podiam ser 
mensurados. 
 
O trabalho do grupo de pesquisadores de Aston sobre organizações na Inglaterra durante os 
anos 60 e inicio dos anos 70 representa uma das mais proeminentes, sistemáticas e sustentadas 
tentativas de estudar as organizações de uma perspectiva bolchevista (Pugh et al., 1976). 
 
Em essência, a pesquisa de Aston buscou conceituar e medir estruturas organizacionais, e o 
contexto em que elas são estabelecidas, com vistas a examinar as relações entre eles através de 
uma análise de dados multi-variada. As estruturas organizacionais foram conceituadas em termos 
de um número de dimensões - especialização, padronização, formalização, centralização, 
configuração e flexibilidade - que em grande medida derivou do conceito de burocracia de 
Weber em termos de um 'tipo ideal'. A noção de 'contexto' foi conceituada em termos de fatores 
tais como origem e história, propriedade e controle, tamanho, carta patente, tecnologia, 
localização, recursos e interdependência (com outras organizações). 
 
Nos EE. UU. têm sido conduzidas numerosas pesquisas nesta linha de Aston, relacionando, 
medindo e explicando as mais diversas Características organizacionais. Dentre os mais 
proeminentes pesquisadores Richard Hall, Hage e Aikin e Peter Blau. 
 
O extremamente alto grau de envolvimento com modelos e métodos das ciências naturais que 
caracteriza este tipo de trabalho estabeleceu-se firmemente como uma perspectiva dominante 
dentro da teoria de organização. Ele busca avançar no conhecimento e no entendimento das 
organizações através de análise empírica de um mundo social reificado. Ele se baseia em uma 
ontologia, epistemologia, metodologia e numa visão da natureza humana característica da região 
mais objetivista do paradigma funcionalista. 
 
Teoria da Contingência: uma Síntese Contemporânea. 
 
A abordagem contingencial ao estudo das organizações tornou-se crescentemente 
proeminente durante os anos 70 como um tipo solto de estrutura para sintetizar as principais 
noções das teorias de sistemas abertos com os resultados de pesquisas objetivistas conduzidas 
em todos os níveis de análise organizacional. O resultado de pesquisas empíricas sobre 
motivação do indivíduo, satisfação do trabalho, estilo de liderança, estrutura da organização, 
tecnologia e muitas outras variáveis organizacionais têm sido interpretadas dentro do contexto de 
um conjunto de proposições gerencialmente orientadas, que estabelecem que a operação efetiva 
de uma empresa depende de haver uma combinação apropriada entre sua organização interna e a 
natureza das demandas colocadas sobre ela por suas tarefas, seus ambiente e as necessidades de 
seus membros. 
 
A idéia de uma teoria contingencial de organização foi primeiro apresentada de uma maneira 
explícita por Lawrence e Lorsch em seus livro A Organização e o Ambiente (1967), que reportou 
os resultados de um estudo empírico de 10 organizações operando em uma variedade de 
condições ambientais. Os autores expressam suas visíveis da organização como sistema da 
maneira seguinte: 
 
"A um nível mais geral descobrimos ser útil ver a organização como um sistema aberto em 
que o comportamento dos membros estão inter-relacionados entre eles. Os comportamentos dos 
membros de uma organização são também interdependentes com a organização formal, as tarefas 
a serem atingidas, as personalidades de outros indivíduos, e das regras não-escritas sobre 
comportamento apropriado de um membro. Sob este conceito de sistema o comportamento de 
qualquer um gerente pode ser visto como determinado não somente pelas necessidades e motivos 
de sua própria personalidade, mas também pela maneira como sua personalidade interage com 
aquelas de seus colegas. Alem disso, esta relação entre membros da organização é também 
influenciado pela natureza da tarefa a ser desempenhada, pelas relações formais, recompensas e 
controles, e pelas idéias existentes dentro da organização sobre como um membro bem aceito 
deveria se comportar. É importante enfatizar que todas estas determinantes de comportamento 
são elas próprias inter-relacionadas. (Lawrence e Lorsch, 1967, p. 6)". 
 
O estudo de Lawrence e Lorsch coloca ênfase na organização como um sistema que está 
internamente diferenciado e que deve alcançar um adequado nível de integração se é que se 
adapte às condições que encontra em seu ambiente. Com base no resultado de suas pesquisas 
empíricas, os autores concluem que as organizações mais efetivas são aquelas que são bem 
sucedidas em alcançar um grau dediferenciação e de integração compatíveis com as demandas 
ambientais. Os resultados da pesquisa sugeriram que organizações efetivas em todos os 
ambientes empregaram métodos efetivos de resolução de conflitos a fim de manter o requerido 
estado de diferenciação e ainda alcançar o grau de integração requerido. (1967, p. 109-132). 
 
Os achados de Lawrence e Lorsch proporcionaram um desafio direto aos princípios das 
teorias gerencial clássica e de relações humanas. Enquanto a teoria gerencial clássica especifica 
princípios universais de organização, os estudos de Lawrence e Lorsch sugeriram que diferentes 
princípios organizacionais eram apropriados em diferentes circunstâncias ambientais e 
certamente em diferentes partes da mesma organização. Os teóricos das relações humanas ti-
nham enfatizado a importância de adotar estruturas organizacionais e estilos gerenciais que 
permitissem a satisfação de necessidades psicológicas através, por exemplo, da participação em 
decisões, da assunção de responsabilidades, etc. Em outras palavras, eles eram geralmente a 
favor de uma abordagem à organização que mudava de um modelo burocrático mecanicista para 
um mais flexível, frouxamente estruturado, aberto e orgânico. Lawrence e Lorsch sugeriram que 
um modelo altamente estruturado e burocrático, do ponto de vista do sucesso dos negócios, 
poderia ser efetivo em certas circunstâncias. 
 
Já era oportuno, portanto, uma reconciliação das minuciosas proposições da teoria gerencial 
clássica e das relações humanas, que por muitos anos se colocaram em oposição uma com a 
outra. A abordagem da teoria contingencial de Lawrence e Lorsch pareceu mostrar um caminho 
adiante sugerindo que a propriedade dos princípios gerenciais dependem da natureza da situação 
em que eles são aplicados. Ademais, outros estudos empíricos importantes geraram resultados 
similares. O estudo de Woodward (1958) demonstrou que firmas comercialmente bem sucedidas 
organizaram-se de maneira compatível com suas tecnologias. Burns e Stalker (1961) 
demonstraram que firmas bem sucedidas adotaram uma abordagem à organização e gerência 
consistentes com demandas de seus ambientes, particularmente com relação ao grau de mudança 
de mercado e de tecnologia. Emery e Trist (1965), também deram atenção à importância das 
demandas do ambiente sobre as organizações, e juntamente com outros colegas do Tavistock por 
muito tempo argumentaram que a organização era uma variável aberta à escolha (Trist at al., 
1963). O trabalho sobre estruturas de organização conduzido nos anos 1960 pelo grupo de Aston 
(Pugh at al., 1976), e Richard Hall (1972), entre muitos outros (por exemplo, Udy, 1959), 
apontaram para a variedade e diversidade de formas organizacionais e dirigiram a atenção para a 
necessidade de alguma forma de explicação. Fiedler (1967) desenvolveu uma teoria da 
contingência da liderança. Thompson sugeriu que á função básica de administração parece ter 
co-alinhamento, não meramente com pessoas (nas coalizões) mas de ação institucionalizada - de 
53 
tecnologia e tarefa ambiental num domínio viável, e de desenho organizacional e estrutura 
apropriada com ele (Thompson, 1967, p. 157). Burns e Stalker argumentaram que 'o inicio da 
sabedoria administrativa é a consciência de que não há um tipo ótimo de sistema gerencial' 
(1961, p. 125). Em suma, pareceu que uma teoria contingencial era necessária para dar uma 
oportunidade de reconciliar e sintetizar as conclusões emergentes dos trabalhos de um corpo di-
versificado de teóricos estudando organizações e comportamento de um ponto de vista gerencial. 
Dez anos depois dos estudos de Lawrence e Lorsch constata-se que houve muito pouco 
progresso na articulação de uma teoria da contingência como tal. No momento, há dentro da 
teoria da organização um corpo de pesquisa representativo da 'visão contingencial' ou 
'abordagem contingencial' e um conjunto organizado de proposições que, em ultima análise 
endossam a visão de que não há regras universalmente válidas de organização e gerência. 
 
Um Modelo de Contingência para Análise Organizacional. 
 
1. A teoria contingencial de organização postula que as organizações e seu funcionamento 
podem ser entendidos em termos de princípios que se aplicam aos organismos biológicos. 
 
2. Ela é baseada em uma visão de sistemas abertos que vê uma organização como existindo 
dentro de um contexto de um ambiente mais amplo. 
 
3. A organização e seu ambiente são vistos como estando em um estado de mútua influencia e 
interdependência. Em princípio a organização é vista como representando um subsistema de um 
sistema social mais amplo em que o ambiente é parte. 
 
4. Contudo, como analistas organizacionais, os teóricos da contingência focalizam a 
organização como uma unidade em si mesma, distinta do ambiente mais amplo por uma fronteira 
nacional. 
 
5. A teoria da contingência está interessada em entender e representar as associações chave 
que caracterizam relações entre a organização e seu ambiente. 
 
6. Assume-se que as relações chave entre organização e ambiente podem ser entendidas em 
termos das 'necessidades' de sobrevivência da organização. 
 
7. A organização, alinhada com o uso de uma analogia orgânica, é vista como compondo uma 
serie de subsistemas interdependentes, cada um dos quais tem uma função a desempenhar dentro 
do contexto da organização como um todo. 
 
8. Em outras palavras, a organização como um sistema compõe uma serie de subsistemas 
funcionais, cada um dos quais pode interagir com elementos do ambiente externo à organização. 
Devido a suas importâncias para as necessidades de sobrevivência da organização como um 
todo, cada um pode ser conceituado em termos de um 'imperativo funcional'. 
 
9. Teóricos da contingência não estão em completa concordância com o que caracteriza os 
subsistemas ou imperativos funcionais, ou que poderia ser destacado para representar o sistema 
como um todo. Eles freqüentemente confundem subsistemas funcionais com suas manifestações 
estruturais a qualquer ponto dado no tempo. Contudo, os subsistemas a seguir são 
freqüentemente identificados em uma forma ou outra na literatura, e eles são apresentados aqui 
como imperativos funcionais de relevância direta ao interesse dos teóricos da contingência para 
explicar a sobrevivência da organização dentro de um contexto de seu ambiente mais amplo. 
 
O subsistema de controle estratégico. A organização como um sistemas é vista como 
necessitando de orientação estratégica com o objetivo de manter um equilíbrio apropriado entre a 
organização e o seu ambiente. Este é um problema de gerenciamento das fronteira entre a 
empresa e seu ambiente. Isto é visto usualmente como monitorização de mudanças 
mercadológicas, tecnológicas, econômicas, políticas e sociais. com vistas a tomar decisões-chave 
que (a) estabeleça os objetivos e a direção da organização como um todo, (b) ponha em movi-
mento os mecanismos internos que produzirão um equilíbrio apropriado e relações entre 
subsistemas dentro da organização e assim (c) assegure a viabilidade, legitimidade e 
sobrevivência das organização dentro do seu contexto no ambiente mais amplo. 
 
O subsistema operacional. A organização é vista como sendo envolvida em alguma forma de 
atividade proposital engrenada para o atingimento de metas e objetivos estabelecidos por seus 
fazedores de política. Nas organizações industriais esta atividade envolve a transformação de 
insumos em produtos ou bens finais. Este processo de transformação reflete o 'imperativo 
operacional' característico de organizações orientadas para objetivos. Este imperativo recebe 
expressão tangível através do qual os papeis produtivos são organizados. Em termos amplos é 
também caracterizado pela tecnologia empregada. 
 
O subsistema humano. Na maioria das teorias de organização contemporâneas o papeldos 
seres humanos na organização recebe um status especial. Os indivíduos são reconhecidos como 
tendo certas necessidades que devem ser satisfeitas se quer atrai-los e encorajá-los a permanecer 
dentro da organização e que eles se apliquem dentro de seus papeis funcionais de maneira 
consistente com as exigências do sistema como um todo. Os teóricos diferem com relação a 
natureza deste imperativo funcional, de acordo com o modelo de homem que adotam. De um 
ponto de vista de sistema, o 'homem econômico', o 'homem social', o 'homem auto-atualizante' ou 
qualquer outro, implica um imperativo humano de forma diferente. 
 
O subsistema gerencial. É responsável pela integração e pelo controle interno da organização. 
A diferenciação funcional requer métodos de integração para atender as demandas e solucionar 
conflitos entre os subsistemas de 'produção' e 'humano' para assegurar a harmonia dos requisitos 
impostos pelo subsistema de 'controle estratégico'. Na maioria das teorias de organização 
contemporâneas, o gerenciamento é visto como um imperativo funcional; a noção de subsistemas 
de humanos e de produção auto-reguladores não é freqüentemente encontrada, embora tenda a 
se usar os grupos de trabalho autônomos como algo que se move em direção deste estado de 
coisas e, até certo ponto, mina a noção de imperativo gerencial. A operação do subsistema 
gerencial se expressa de duas maneiras principais. Em primeiro lugar, recebe expressão 
estrutural através da estrutura de autoridade como, por exemplo, está refletido nos orga-
nogramas, descrições de cargos, sistemas de controle de orçamento e outros. Segundo, se 
expressa pelos estilos gerenciais adotados pelos gerentes individualmente nas suas relações 
cotidianas. 
 
10. A teoria contingencial assume que cada um dos quatro subsistemas é aberto a um gama de 
variações; enfatiza as escolhas estratégicas, escolhas tecnológicas (isto é, escolha de métodos 
operacionais) e escolhas organizacional e gerencial. Também reconhece que a natureza do 
subsistema humano sofre a contingência de personalidades e orientações de membros da 
organização. Reconhece outrossim que cada um dos subsistemas pode refletir uma gama de 
variações no interior de cada organização. 
 
11. A variação nos ambientes e nos subsistemas organizacionais têm recebido considerável 
atenção em teoria e pesquisa conduzidas dos últimos 20 anos ou mais, e parece haver um 
emergente consenso de que a diferenciação destas variáveis pode ser caracterizada nos seguintes 
termos: 
 
a) o ambiente: 
 
55 
 Estável e Turbulento e certo 
imprevisível 
 
Um tema comum rolando através de recentes pesquisas sobre a natureza dos ambientes 
organizacionais focalizam o conceito de incerteza como uma característica preeminente para se 
distinguir entre diferentes tipos de ambiente. A pesquisa de Burns e Stalker (1961), Emery e 
Trist (1965), Lawrence e Lorch (1967), Thompson (1967), Terryberry (1968) e Child (1972) 
dentre outros, todos eles de maneira diferente caracterizam os ambientes em termos do grau de 
incerteza. 
 
Uma das dificuldades encontradas em tentar aplicar este conceito de incerteza na análise dos 
ambientes organizacionais gira em torno da definição do que constitui um ambiente particular. A 
distinção entre "tarefa ambiental" (Dill, 1958) e "contexto" (Emery e Trist, 1965) é aqui 
particularmente relevante. Visto do ponto de vista deste último, todas as organizações 
contemporâneas estão localizadas num ambiente certo e turbulento, em que as mudanças de 
tecnologia, economia, mercado, assim como social e políticas rapidamente se tornam uma norma 
característica da sociedade pós industrial. Deste ponto de vista, terminou a época do ambiente 
estável e certo. 
 
b) o controle estratégico: 
 
 Estabelecimento de Criação de sistemas 
 metas operacionais de aprendizagem 
 
Dentro de uma visão de organizações num contexto de contingência a principal tarefa da 
administração de topo - assegurar sobrevivência - usualmente tem sido interpretada como a 
necessidade de relacioná-la com seu ambiente (Burns e Stalker, 1961; Rice, 1958 e 1963). Deste 
ponto de vista, a natureza da principal tarefa é a contingência das circunstâncias ambientais. 
Assim a principal tarefa estratégica de uma organização em um ambiente altamente incerto e 
turbulento é visto como sendo o de facilitar a aprendizagem organizacional e sua adaptação às 
mudanças. Em um ambiente mais estável a principal tarefa pode ser conceituada em termos do 
atingimento de objetivos mais estáveis. Ao proporcionar estabilidade, a principal tarefa de uma 
organização pode ser muito mais operacionalmente orientada para a manutenção de estabilidade 
e de sobrevivência da organização através da eficiência e de alcance efetivo dos objetivos 
preestabelecidos. A dimensão do controle estratégico pode então ser conceituado de um ponto de 
vista contingencial, em termos de estabelecimento de objetivos operacionais versus a geração de 
aprendizagem no interior da organização. Esta caracterização reflete as implicações das 
circunstancias ambientais para as decisões estratégicas. 
 
c) o subsistema operacional. 
 
 Papeis rotineiros de papeis complexos de 
 baixa liberdade de ação alta liberdade de ação 
 
Como subsistema operacional define-se aqui todas as atividades - produção, vendas, pessoal, 
finanças, pesquisa e desenvolvimento, que contribuem para o processo geral de transformação 
com o qual a organização está envolvida. Dois conceitos básicos estão aí envolvidos: o de 
'tecnologia' e o de 'tarefa operacional'. Segundo as contribuições de pesquisadores do grupo de 
Aston (Hickson at all, 1969 e Charles Perrow, 1967) pode-se distinguir 3 tecnologias: a 
tecnologia de operações, a de materiais e a de conhecimento. 
 
Tecnologia de operações: 
Refere-se a técnicas usadas no fluxo de atividades. Significa ter um numero de características 
tais como 'automação', 'rigidez de fluxo' e exatidão de padrões contra os quais as operações 
podem ser avaliadas. Outros fatores tais como 'continuidade' podem ser relevantes em certos 
casos. 
Tecnologia de materiais: 
Este conceito, também usado por Perrow, diz respeito a características do material usado no 
fluxo de trabalho, particularmente sua 'uniformidade' e 'estabilidade'. 
Tecnologia de conhecimento: 
Um conceito novamente usado por Perrow, que diz respeito ao conhecimento usado no fluxo 
de trabalho, um fator grandemente influenciado pela predibilidade e familiaridade dos problemas 
encontrados. 
 
Todos estes três elementos de tecnologia se combinam para influenciar a natureza do cargo ou 
'tarefa' dentro das organizações, e muitos escritores têm escolhido analisar o impacto da 
tecnologia a este nível de papeis individuais. As características das três dimensões acima 
parecem se correlacionar em termos de 'rotina' ou de 'conteúdo discricionário' do trabalho, fator 
este que tem sido investigado por Jaques (1962) e Turner e Lawrence (1965), entre outros. Este 
'grau de rotina' de tarefas proporciona um meio de diferenciação entre características de 
subsistemas operacionais, desde aqueles dominados pela tecnologia do tipo produção em massa 
que cria um tipo de baixa liberdade de ação, até aqueles mais complexos de alta liberdade de 
ação, como por exemplo, muitos dos papeis de executivos, ou de trabalhos enriquecidos. 
d) O subsistema humano. 
 
 homem econômico orientação homem auto-realizador 
 para o trabalho trabalho como centro de 
 interesse da vida 
 
Desde os estudos de Hawthorne, as necessidades do subsistema social ou humano dentro deuma organização tem recebido crescente atenção. A ampla linha de argumento tem sido a de que 
a visão do 'homem econômico' de Taylor que vê o trabalho de maneira puramente instrumental 
deturpa grosseiramente as necessidades e aspirações das pessoas no trabalho. visíveis 
alternativas de motivação humana que (seguindo Maslow e Outros psicólogos humanistas) 
enfatizam a importância de satisfação de necessidades de 'alto nível', têm sido advogadas por 
muitos teóricos como proporcionando um modelo de homem mais realista para se compreender o 
comportamento humano. As teorias de Argyris (1957 e 1964), Heszberg et al. (l959) e muitos 
outros teóricos da neo-relações humanas, têm apresentado este ponto de vista e argumentado de 
que a satisfação das necessidades de alto nível, no trabalho, é um imperativo na medida em que 
envolve crescimento e desenvolvimento humano, satisfação no cargo e desempenho efetivos. Os 
diferentes modelos de homem advogados por Taylor por um lado, e dos teorismos da neo-
relações humanas por outro, deste modo oferecem uma maneira de conceituar a natureza do 
subsistema humano em termos dos imperativos estabelecidos pela natureza das necessidades 
humanas. Contudo, a situação é mais complicada do que isto, naquilo em nossa discussão do 
objetivismo pós-Hawthorne tem mostrado, que a evidência empírica em apoio a este imperativo 
está longe de ser nítida, e a relação não é tão determinista como muitos teóricos têm sugerido. 
Uma importante idéia suplementar que certos teóricos têm defendido para manter a validade da 
'abordagem de modelo de homem' à luz desta evidência, se relaciona com a questão de 
orientação para o trabalho. Pesquisas desenvolvidas por Dubin(1956) e Goldthorpe e seus 
colegas (1968) demonstraram que o trabalho não é de modo algum o interesse central da vida, e 
que as pessoas podem procurar minimizar seu comprometimento com o trabalho e obter sa-
tisfação (em termos de necessidades psicológicas, metas e valores pessoais, ou o que quer que 
seja), em qualquer parte. Deste modo, o fator 'orientação para o trabalho' deve ser colocado lado 
a lado com a análise do 'modelo de homem' em qualquer tentativa de conceituar as dimensões do 
57 
subsistema humano. A análise psicológica em termos de necessidades modifica-se então em 
termos de fatores sociológicos que influenciam as atitudes no trabalho. 
 
e) o subsistema gerencial. 
 
 Burocrático Orgânico 
 
 Autoritário Democrático 
 (teoria X) (teoria Y) 
 
Como já se argumentou, o subsistema gerencial expressa-se através da estrutura formal de 
autoridade e da natureza dos estilos pessoais de comportamentos de gerentes individualmente. 
Em princípio, ambos são capazes de variar independentemente, vez que se pode argumentar que 
tipos particulares de organização atraem e desenvolvem tipos particulares de gerentes. 
 
A estrutura da autoridade formal das organizações tem recebido uma considerável quantidade 
de atenção na literatura de teoria das organizações e tem se tornado mais ou menos ortodoxa ao 
comparar organizações em termos do grau de burocratização, usando o tipo de burocracia ideal 
de Weber como base de análise. A distinção dada por Burns e Stalker(1961) em termos de 
organizações orgânicas e mecânicas ficou também muito bem estabelecida e, como já referido 
acima, as pesquisas de Woodward (1958), o grupo de Aston(Pugh at al., 1976) e Richard 
Hall(1972), do mesmo modo que os trabalhos empíricos anteriormente citados veio acrescentar 
substancia à noção de que de fato as organizações variam em termos de sua estrutura formal. 
 
Os estilos de liderança ou gerenciais também têm recebido considerável atenção dos 
pesquisadores operando tradição das relações humanas como, por exemplo, McGregor com sua 
teoria X e Y (1960), Likert com seus sistemas 1 a 4 (l967, e Black e Mouton com seus estilos 
9.1 e 9.9 (1964). servem para capturar um elemento comum (a teoria X e Y) que distingue 
aqueles estilos gerenciais que procuram dirigir, coagir e controlar aqueles concebidos para 
integrar o indivíduo e a organização através de estilos mais democráticos e abertos que 
enfatizam a importância de delegação, confiança e satisfação intrínseca da tarefa. 
 
12. A teoria da contingência postula que a efetividade da organização em lidar com as 
demandas de seu ambiente é contingente dos elementos dos vários subsistemas que compõem a 
organização desenhada de acordo com as demandas do ambiente (ou mais acuradamente, dos 
vários sub-ambientes) com a qual ela interage; isto implica que os elementos de diferentes 
subsistemas devem ser congruentes em termos das características junto a cada elemento das 
dimensões básicas através das quais eles são definidos. Chamaremos isto de hipótese de 
congruência. 
 
A hipótese de congruência garante mais elucidação, que pode ser facilmente atingida com a 
ajuda da figura 5.5. A hipótese de congruência postula que uma condição necessária para a 
efetividade de uma organização em atender as demandas de seu ambiente é que as relações entre 
características dos sistemas sejam congruentes; postula-se que as organizações serão menos 
efetivas ao lidar com as demandas quando tais relações são incongruentes. Estabeleceu-se a 
hipótese de que, por exemplo, uma organização ou parte dela ao lidar com um ambiente 
altamente estável e certo pode operar efetivamente quando: 
 
(a) o subsistema estratégico é engrenado para o estabelecimento de objetivos; 
(b) o subsistema operacional emprega uma tecnologia que conduz a alta especialização e 
divisão do trabalho de acordo, por exemplo, com os princípios de administração científica; 
(c) os empregados estão contentes com as recompensas econômicas e têm baixas expectativas 
em relação ao trabalho; 
(d) a organização é estruturada de maneira burocrática; 
(e) a organização é gerenciada de maneira altamente autoritária e diretiva. 
 
De maneira inversa, estabelece-se a hipótese que quando uma organização ou um elemento de 
uma organização está lidando com um ambiente turbulento e imprevisível, o elemento 
apropriado da organização necessidade de: 
 
(a) administração estratégica que reforce a habilidade da organização como um todo a 
aprender e responder ao ambiente pela 
(b) adoção de um sistema operacional caracterizado por papeis complexos e de alta liberdade 
de ação, que são 
(c) preenchidos pelo 'homem organizacional' que busca o trabalho como seu interesse central 
de vida e que tenta satisfazer necessidades psicológicas do mais alto grau através de sua 
experiência de trabalho, e 
(d) que são geridos dentro do contexto de uma forma orgânica de estrutura organizacional por 
(e) gerentes que adotam um estilo aberto e democrático, e que engrenam seus esforços para 
criar situações nas quais é possível para os indivíduos serem dirigidos para satisfazer seus 
próprios objetivos pessoais através do alcance dos objetivos organizacionais. 
 
Estas duas relações estabelecidas como hipóteses caracterizam as posições extremas dentro 
dos modos de organização e gerência e são ilustrados na figura 5.5 pelas linhas quebradas 
marcadas por A e B respectivamente. O modelo de contingência dá lugar a posições in-
termediárias com relação a natureza de ambientes organizacionais e subsistemas. Cada dimensão 
poderia ser vista como um continuum ao invés de dicotomia, variando de acordo com as 
características discutidas no item 11 acima. 
 
A hipótese de congruência se aplica a todas estas posições intermediárias; a manutenção da 
congruência com as demandas do ambiente é uma característica essencial dos elementos do 
subsistema se espera que uma organização seja bem sucedida em suas tarefas primordiais. Um 
estágio intermediário de congruência é mostrado pela linha quebrada C. A linha contínua D 
ilustrauma posição caracterizada por incongruência; a hipótese aí presente é de que a organi-
zação poderia ser menos efetiva do que a ilustrada pela linha C, devido ao fato de que operam 
sob condições ambientais similares. 
 
13. A adoção de elementos de subsistemas para as demandas ambientais leva a diferenciação 
dentro da organização que requer um adequado gerenciamento de fronteiras para atingir um 
adequado estado de integração para o sistema como um todo. Esta integração é uma das funções 
correntes dos subsistemas gerencial e estratégico. Congruência entre elementos de subsistemas 
(diferenciação) é uma condição necessária mas não suficiente. Há necessidade de ser suple-
mentada pelo que pode ser chamada de hipótese de integração. que postula que a organização 
uma vez diferenciada deve alcançar um estado apropriado de integração para ser completamente 
efetiva. 
 
14. O modelo de contingência, portanto, postula que o sucesso de uma organização em lidar 
com as demandas de seu ambiente é contingente na apropriada diferenciação caracterizada por 
uma Congruência entre elementos do subsistema e o alcance de um estado de integração 
apropriado. 
 
O modelo de contingência acima esboçado oferece uma base teórica para analisar as 
organizações de um ponto de vista gerencial, e representa uma síntese de conceitos e idéias 
implícitas em muitas das teorias organizacionais contemporâneas. Muitas das pesquisas 
empíricas em organização durante os anos 60 e 70 têm sido informadas por vários elementos do 
modelo, embora seja muito questionável se ele tem sido genuíno em relação aos fundamentos 
59 
ontológicos e epistemológicos em que se baseou. Temos em mente aqui a distinção entre 
processo e estrutura (Cooper, 1976) a que já nos referimos anteriormente. O modelo de 
contingência baseado como é na abordagem de sistemas abertos é, por natureza, processual. Os 
subsistemas são vistos em termos de imperativos funcionais que interagem com o ambiente de 
modo a alcançar a sobrevivência do sistema como um todo através de apropriada adaptação às 
circunstâncias ambientais. Este processo sistêmico expressa-se de maneira parcial e transitória 
através de varias características estruturais tais como 'tecnologia' e 'grau de burocratização'. É 
destas manifestações estruturais temporárias de um processo mais fundamental e contínuo que os 
pesquisadores organizacionais tendem a costurar para o propósito de pesquisa empírica. A 
organização é freqüentemente equiparada com estas características estruturais, enquanto os 
aspectos de processo do sistema são ignorados. Muito da pesquisa que tem sido conduzida sob a 
noção da abordagem contingencial tem sido desta natureza e como tal coloca-se como uma 
forma abstrata de empirismo. A incongruência entre teoria e método que isto reflete é um 
problema fundamental que em geral os teóricos dos sistemas sociais se deparam. A natureza 
processual do sistema não o leva a um estudo significativo pelo uso de tomadas instantâneas de 
quantitativos de estruturas sociais objetificadas. Os teóricos de sistemas sociais que desejam 
operacionalizar a teoria da contingência certamente se deparam com muitos problemas reais, 
onde se necessita de uma nova metodologia que seja consistente ontológica e epistemolo-
gicamente com uma genuína abordagem de sistemas abertos. 
 
Há algumas implicações conceituais do modelo. A primeira delas emerge do papel do 
subsistema de controle estratégico dentro do contexto do modelo como um todo. Se as relações 
entre os elementos de subsistemas e seus ambientes é contingente das decisões que emergem do 
subsistema de controle estratégico e também, a um nível mais baixo da organização, daqueles 
emergindo do subsistema gerencial, a procura pela determinação de relações entre fatores 
contextuais e características organizacionais e entre elementos de diferentes subsistemas, é mal 
fundamentada, é produto de decisão humana e é influenciado por escolha. 
 
A hipótese de congruência traz à tona muitas implicações para as teorias de desenvolvimento 
e mudança organizacional. Sugere-se, por exemplo, que tentativas de mudar o subsistema 
operacional através de algum programa de redesenho do cargo tem implicações para os outros 
subsistemas dentro da organização. Qualquer estrutura analítica para estudar e prescrever 
mudança organizacional deve prestar a devida aderência aos elementos do modelo como um 
todo. 
 
Um terceiro ponto de alguma importância surge do fato de que o papel da 'escolha' chama a 
atenção para o assunto de poder como uma variável organizacional que tem sido virtualmente 
ignorado na teoria de sistemas sociais. Um modelo orgânico de sistemas enfatiza a unidade 
funcional das partes do sistema, e vê a organização como sendo guiada para alcançar os estados 
finais compartilhado por todo o sistema. Imperativos funcionais e propósitos de unidade tendem 
a dominar a análise. Embora o modelo de contingência identifique o poder como uma variável, 
ele não lhe faz referência de nenhuma maneira específica. Para fazê-lo de uma maneira 
significativa envolve uma mudança em perspectiva nos limites da teoria de sistemas sociais. 
 
O Movimento de Qualidade de Vida no Trabalho. 
 
Concluímos nossa análise de teoria de sistema social com uma breve discussão do movimento 
de qualidade de vida no trabalho que tomou proeminência durante os anos 70. Em essência o 
movimento busca aplicar os insights da teoria dos sistemas abertos , particularmente através das 
noções de sistemas sócio-técnicos abertos e da teoria do desenho do cargo, aos problemas que 
seus seguidores vêem como característicos das sociedades pós-industriais. Ele é baseado numa 
filosofia de engenharia social de construção gradual que busca resolver os problemas colocados 
pela transição da sociedade industrial para a pós-industrial. As perspectivas chaves são bem 
ilustradas nos recentes volumes editados por Davis e Cherns (1975). Os autores argumentam que 
a uma crescente crise que coloca em questão a viabilidade das atuais relações entre trabalho, 
produção econômica, homem e sociedade, e a habilidade das organizações se adaptarem 
rapidamente às mudanças do ambiente. A solução para estes problemas tem sido vistos como a 
criação de uma melhoria na qualidade de vida no trabalho em tudo que é produtivo na sociedade, 
particularmente em encarar a transição para a era pós-industrial, se queremos desenvolver 
políticas sociais úteis e enxergar respostas aos problemas.(Davis and Chern, 1975, p.5). Eles 
argumentam que a chave para o problema gira em torno da 'humanização do trabalho' que longe 
de impor custos econômicos, produz ganhos sociais, pessoais e econômicos. 
 
Visto dentro do contexto do modelo de contingência, o movimento de qualidade de vida no 
trabalho estimula um programa de mudança organizacional baseado no pressuposto de que uma 
situação de trabalho mais humana é um imperativo funcional dentro do contexto do sistema total. 
 
O movimento de qualidade de vida representa um avanço em relação ao movimento da neo-
relações humanas e do desenvolvimento organizacional. Suas proposições opõem-se àquelas da 
teoria da contingência que enfatiza que nos ambientes estáveis rígidos, estruturas de trabalhos 
desumanas podem ser apropriadas para alcançar a eficácia. 
 
O movimento de qualidade de vida vê a organização como um subsistema da sociedade mais 
ampla e a solução proposta é a de que é um imperativo funcional melhorar a qualidade de vida 
no trabalho para sustentar a sociedade como um todo. As noções de 'responsabilidade social' e de 
responsabilidade individual' são invocados para preencher o vácuo entre os interesses 
organizacionais e os interesses sociais. 
 
O movimento de qualidade de vida também é visto e apresentado freqüentemente como uma 
ação radical orientada, em resposta aos problemas em andamento enfrentadospelas sociedades 
industriais modernas do Ocidente. 
 
Para B&M o movimento é essencialmente regulador e comprometido com ajustamentos de 
partes criadas para melhorar a viabilidade da sociedade tecnológica característica de nossa era. 
 
 
Teorias Das Disfunções Burocráticas. 
 
O artigo de Merton sobre 'Personalidade e Estrutura Burocrática'(1968) focaliza sobre as 
tensões e torções internas que caracterizam as atividades burocráticas. Observando que a teoria 
da burocracia formal Weberiana põe ênfase nas funções e atendimentos positivos da organização 
burocrática, Merton busca abordar o assunto sob o ponto de vista oposto. Merton argumenta que 
as operações burocráticas que enfatizam método, prudência, disciplina e conformidade, podem 
ter tal impacto sobre o burocrata que a aderência à regras e regulamentos, originalmente 
concebidos como meios para propósitos mais amplos, tornam-se fins em si mesmos; há uma 
adaptação ao 'ritualismo', onde aspirações definidas culturalmente são abandonadas e o 
comportamento é governado por uma aderência compulsiva total às normas institucionais. 
Merton prossegue argumentando que os problemas que criam a rigidez geram mais respostas 
dentro da organização que reforçam a importância da conformidade à regulamentos e regras. A 
situação torna-se cumulativamente pior, na medida em que os burocratas procuram defender suas 
ações contra pressões externas. Ao tentar explicar a fonte estrutural dos desvios, Merton enfatiza 
a 'incapacidade treinada' do burocrata como produto da estrutura burocrática em que ele trabalha. 
Seu modelo enfatiza as disfunções que emergem da tentativa de atingir o controle estrutural 
sobre as operações da organização. 
 
61 
Selznick se destaca pelo seu famoso estudo empírico 'TVA and the Grass Roots em que estuda 
o processo administrativo tanto dentro da organização como em suas relações com seu ambiente. 
Mais especificamente, ele mostra como a delegação de autoridade leva a especialização dentro 
de esferas de atividades limitadas e a orientação de grupos de indivíduos à vários sub-objetivos 
associados com estes interesses especializados. 
 
Para os autores, as análises de Merton e Selznick mostram um alto grau de similaridade. 
Enquanto Merton focalizou a influência disfuncional das regras como uma forma de controle 
burocrático, Selznick focalizou as conseqüências disfuncionais de delegação e especialização. 
 
Gouldner direciona seu trabalho para certas 'obscuridades' e "tensões na teoria de 
Weber'(Gouldner, 1954 a, p. 19-20), particularmente com relação à noção que a efetividade do 
funcionamento burocrático depende dos membros da organização aceitar a legitimidade das 
regras ou 'normas legais', se estas são estabelecidas por acordo ou por imposição. Sua análise 
empírica da sucessão gerencial dentro da fabrica de gesso, e o impacto que isto tem sobre as re-
gras burocráticas e sobre as atividades dos empregados , leva-o a concluir que a maneira como as 
regras são iniciadas é de considerável importância. Baseado em suas análises ele identifica 3 
tipos de burocracia, 'imitativa', 'representativa' e 'punitiva', cada uma das quais se caracteriza por 
diferentes padrões de estabelecimento de regras e sanções, diferentes modos de organização 
social e diferentes níveis de tensão e conflito. Os estudos de Gouldner conduzem a importantes 
modificações da noção de burocracia como concebida por Weber. Seu modo de análise focaliza 
na maneira pela qual o elemento humano da organização modifica os aspectos formal e técnico. 
Seu estudo da maneira pela qual a burocracia se desenvolve através da criação e uso de regras 
impessoais enfatiza as conseqüências imprevistas que resultam devido a seus efeitos sobre as 
relações interpessoais dentro da organização. As regras são mostradas como sendo usadas por 
gerentes e trabalhadores para fundamentalmente diferentes fins e em caminhos que são 
disfuncionais para os objetivos formais da organização. Gouldner ilustra muito claramente que 
as organizações como tal somente têm metas e fins de maneira abstrata ou num sentido 
'metafórico', e que a realidade da vida organizacional é dominada por indivíduos e grupos 
esforçando-se por diferentes fins. 
 
Um quarto estudo relacionado com os aspectos disfuncionais da organização burocrática é o 
apresentado por Blau(1955), - A Dinâmica da Burocracia - Neste trabalho Blau procura aplicar 
os princípios contidos no paradigma de Merton para análise funcional de operações diárias e de 
relações interpessoais de funcionários do governo em duas agências burocráticas. Sua análise 
focaliza fatores que geram desequilíbrio e mudança, e confirma muitas das disfunções 
burocráticas identificadas por Merton e seus colegas, tais como superconformismo e 
deslocamento de meta. Ela demonstra, como as burocracias, longe de serem estruturas estáticas, 
são cenários de um processo continuo de relações interpessoais que geram novos elementos de 
organização. O estudo enfatiza a importância de rastrear as conseqüências imprevistas como uma 
base para entender o verdadeiro significado de qualquer característica organizacional particular. 
Ele claramente demonstra a futilidade de confinar atenção somente nas funções racionais ou 
manifestas da organização. Para Blau tais fatores são vistos como repousando no coração de 
explicações de mudança organizacional. Assim, a estrutura burocrática é vista como gerando 
forças que conduzem a sua própria transformação. 
 
 
O Quadro de Referência da Ação. 
 
Embora a ação como quadro de referência foi primeiro articulado por Weber, o 
interacionismo simbólico é o grande produto das perspectivas teóricas de Simmel e Mead. O 
interacionismo simbólico teve relativamente pouco impacto na teoria das organizações. Simi-
larmente, a ação como quadro de referência tem sido raramente conceituada e implementada em 
sua forma pura como visualizada por Weber. 
 
Goffman tem se estabelecido como um dos maiores expoentes da abordagem 'dramatúrgica' 
ao interacionismo simbólico. Em um de seus primeiros e mais famoso livro - A Representação 
do Eu na Vida Cotidiana (1959) - ele oferece a visão do indivíduo em situações ordinárias de 
trabalho como engajado em um 'desempenho teatral', num processo da 'impressão da gerência', 
como fazendo um 'show' através dos quais tentam guiar e controlar as impressões que as pessoas 
formam deles. O propósito da análise de Goffman é identificar os traços que caracterizam os 
padrões do dia a dia. Alinhado com a perspectiva de Simmel, ele está interessado em penetrar 
nas formas subjetivas dos relacionamentos humanos. Ele está interessado em construir um 
retrato da interação humana a partir de elementos básicos tais como olhares, gestos, afirmações 
verbais e posicionamentos, com vistas a por em descoberto a ordem normativa dos relacio-
namentos humanos (Goffman, 1967). Sua análise focaliza os rituais e rotinas que caracterizam a 
interação humana. 
 
Goffman está também interessado em, mostrar como as pessoas se relacionam com as regras, 
tanto conformando-as como adaptando-as a seus propósitos. Os papeis e os padrões 
institucionais não são vistos como determinantes do comportamento do indivíduo em nenhum 
sentido; ao contrário, eles fornecem um quadro de referência dentro do qual o processo de vida 
social acontece. Ontologicamente, na tradição do interacionismo simbólico comportamental, a 
sociedade é vista como sendo anterior ao 'self', porem ao indivíduo é concedido um papel 
criativo na produção do 'self', ou no mínimo a impressão do 'self' criado como um resultado de 
gerência de desempenho. 
 
A análise de Goffman da interação humana tem claras implicações para o estudo do 
comportamento em organizações. Seu estudo das 'instituições totais' mostrou que naquelas 
instituições como nas organizações, em que as autoridades tentam definir a situaçãopara seus 
companheiros de casa através de regras, regulamentos, doutrinação, disciplina, etc, os indivíduos 
que vivem dentro delas, fazem seus ajustes de várias maneiras. Eles 'desenvolvem sua própria 
maneira de viver de modo a tornar a vida significativa, razoável e normal'(Goffman, 1961, p. 7). 
O trabalho focaliza estes processos de ajustamento. Segundo Eldridge e Crombie (1974) o estudo 
de Goffman sobre a 'instituições totais' também informa-nos sobre processos de controle social 
dentro delas e nos ensina sobre a vida e os mecanismos que operam em todas as organizações 
formais. 
 
Outro exemplo de pesquisa interacionista é o apresentado por Barry Turner(1971) - 
Explorando a Subcultura Industrial. Ele estava interessado 'em descobrir os caminhos pelos 
quais as pessoas na industria definem suas posições de vidas, com a aprendizagem do conjunto 
de simbolismos que eles adotam nas definições, e com o exame de conseqüências coletivas e 
organizacionais destas visíveis que eles têm deles próprios' (Turner, 1971, p. vii). Turner estava 
interessado no estudo dos meios pelos quais as subculturas evoluem e são mantidas. Seu foco é 
no 'significado' e os meios pelos quais se tornam compartilhadas através de 'trocas 
comunicativas'. 
 
Um terceiro exemplo de teoria e pesquisa nesta área vem dos membros da Escola de Chicago 
que têm se interessado na sociologia ocupacional. Dentre eles Everett Hughes (1958) é o mais 
proeminente. O trabalho de Hughes e seus liderados se caracteriza por uma tentativa de penetrar 
no nível de significado subjetivo numa exploração de papeis de ocupação. Eles estavam 
interessados em estudar o que o trabalho significa para o indivíduo, e o que isto tem a ver com as 
atitudes e relacionamentos dentro do local de trabalho. Estes teóricos tendem a iniciar com o 
indivíduo e a partir dele construir seu mundo organizacional. Tomados em conjunto estes 
estudos construíram um retrato da experiência de trabalho nas sociedades contemporâneas, da 
63 
maneira como foi vista pelos próprios trabalhadores ao invés de um observador 'destacado'. A 
abordagem se apóia grandemente em considerações etnográficas e em técnicas de observação 
participante, e tende a focalizar processos invés de estruturas estáticas como meio de caracterizar 
os principais aspectos do mundo do trabalho e do dia a dia. 
 
O trabalho dos sociólogos ocupacionais move-se muito próximo ao uso de um quadro de 
referência de ação, naquilo que eles estão primeiramente envolvidos com a orientação geral de 
indivíduos em seus papeis e com o significado do trabalho a um nível subjetivo. Nesta linha 
destaca-se o trabalho de Goldthorpe seus colegas(1968) em seu estudo de orientação de 
trabalhadores para o trabalho. 
 
O mais proeminente advogado da ação como quadro de referência como base de analise 
organizacional tem sido David Silverman. Na verdade, foi ele que no livro A Teoria de 
Organizações (1970) criou uma alternativa à teoria dos sistemas. Ele sugere que a abordagem 
dos sistemas, como aplicado às Organizações, tem 'dificuldades lógicas severas' particularmente 
em seu pressuposto de que as Organizações como sistemas têm 'necessidades' ou são 'auto-
reguladas'. Ao atribuir tais características a organização, exceto como instrumento heurístico, 
envolve o problema de 'reificação', um processo por meio do qual se confere aos construtos 
sociais o poder de pensar e agir. Ele argumenta que as explicações de mudança social a um nível 
sistêmico usualmente envolve estes problemas de reificação, uma vez que se dá atenção às ações 
intencionais do sistema, que é visto como reconhecendo ameaças a sua existência e como se 
adaptando adequadamente. A visão sistêmica de organizações é portanto visto como sendo 
erigido a um nível de análise que não leva em conta, ou não proporciona explicações em termos 
das ações dos seres humanos que são seus membros constituintes. Opondo-se a esta visão de 
sistemas, Silverman argumenta que os cientistas sociais deveriam construir suas teorias sobre 
fundações que percebem a realidade social como socialmente construída, socialmente sustentada 
e socialmente mudada. Em outras palavras, Silverman deseja colocar o homem como um ator 
social no centro do palco, na medida em que se pretenda analisar as organizações como 
fenômeno social. Ao reconhecer o fato de que a vida social é um processo em andamento, 
sustentada e 'realizada' pelos atores sociais, ele advoga a ação como quadro de referência como 
dando uma base de análise apropriada. 
 
A seguir um resumo das sete proposições de Silverman: 
 
1. As ciências sociais e as ciências naturais lidam com ordens de assuntos diferentes. 
Enquanto os cânones do rigor e do ceticismo se aplicam a ambas, não se deveria esperar que suas 
perspectivas sejam as mesmas. 
 
2. A sociologia está interessada em entender as ações ao invés de observar o comportamento. 
A ação emerge de significados que definem a realidade social. 
 
3. Os significados são dados aos homens por sua sociedade. Orientações compartilhadas 
tornam-se institucionalizadas e são experimentadas por generalizações posteriores de fatos 
sociais. 
 
4. Enquanto a sociedade define o homem, o homem por seu turno define a sociedade. 
constelações particulares de significados são somente sustentadas por reafirmações contínuas na 
ação do dia a dia. 
 
5. Através de sua interação os homens também modificam, trocam e transformam os 
significados sociais. 
 
6. Segue-se dai que as explicações das ações humanas devem levar em consideração os 
significados que aqueles interessados atribuem a seus atos; a maneira em que o mundo do dia a 
dia é socialmente construído e deste modo percebido como real e rotineiro, torna-se um assunto 
crucial de análise sociológica. 
 
7. Explicações positivistas, quando asseveram que a ação é determinada por forças sociais ou 
não-sociais externas e repressoras, são inadmissíveis. (Silverman, 1970, p. 126-7). 
 
Como se pode ver Silverman apóia-se em Dilthey, Weber e Schutz. De Weber ele tira o 
conceito de que a 'ação social deriva do significado que é atribuído ao mundo social pelos atores 
individuais'. Em outras palavras, a ação dos homens é significativa para eles. Eles constroem seu 
mundo social atribuindo significado a ele. As ações surgem dos significados, de modo que é 
necessário entender as atividades humanas ao nível dos significados subjetivos. 
 
Em outro ponto ele adota uma posição ontologicamente 'realista' em que a sociedade é vista 
como sendo anterior ao homem. Neste particular ele segue Durkheim que vê os homens como 
restringido por fatos sociais que determinam suas ações e sua consciência. Nesta linha, 
Silverman sugere que os significados residem nas instituições sociais e que os indivíduos 
desempenham papeis que lhe são dados como resultado de sua localização no mapa social. 
 
Embora Silverman adote uma posição indubitavelmente 'realista' ele também assume uma 
posição 'nominalista' ao enfatizar que os atores individuais podem operar de acordo com a crença 
do 'senso comum' que o mundo social existe fora deles e que, na verdade, esta noção de senso 
comum somente se mantem na medida em que é sustentada e reforçada pelas ações do dia a dia 
dos atores diretamente envolvidos em uma dada situação social. Em sua palavras 'a existência da 
sociedade depende dela ser continuamente confirmada nas ações de seus membros'(1970, p. 
134). Seguindo Berger e Pullberg (1966) ele afirma que a estrutura social 'não tem realidade 
exceto a humana. Ela não pode ser caracterizada como sendo uma coisa capaz de permanecer por 
ela própria...(e) existe somente na medidas em que e enquanto os seres humanos constatam-na 
como parte de seus mundos'. Ele finalmente, argumenta que atribuir a sociedade uma existência 
separada e acima de seus membros é reificá-la. 
Ao enfatizar omeio pelo qual os indivíduos têm a habilidade de interpretar e atribuir 
significado a seu mundo social, Silverman em verdade dirige a atenção para a natureza 
'voluntarista' das atividades humanas, quando afirma, por exemplo, que 'através de sua interação 
os homens...modificam, trocam e transformam os significados sociais'. 
 
Ao elaborar seu esquema de ação Silverman apresenta uma visão do mundo social que 
enfatiza a natureza processual dos afazeres humanos. É um mundo onde os atores humanos 
interpretam a situação em que se encontram e agem de maneira em que seja significativo para 
eles. A realidade social é então vista como sendo um processo de fluxo contínuo, como os seres 
humanos interpretam e redefinem, através de suas ações, o mundo social em que vivem. 
Teoria Pluralista 
A questão de poder e conflito dentro das organizações de há muito tem atraído a atenção dos 
teóricos de organização mas raramente têm recebido consideração sistemática e sustentada. 
Tentamos aqui argumentar que muitas das idéias e pesquisas encontradas com este interesse tem 
apontado na direção e gerado antecipado desenvolvimento de uma teoria pluralista de 
organizações característica do conflito funcionalista discutido no Capítulo 4. Tomados em 
conjunto, eles assentam as bases para análise das organizações como sistemas políticos 
pluralistas - de acordo com os quais as organizações e seus ambientes são vistos principalmente 
como arenas de conflito entre os indivíduos e os grupos cujas atividades são orientadas para a 
consecução de seus objetivos, valores e interesses pessoais. Muitas das teorias de organizações 
correntes contêm elementos deste ponto de vista, mas ficam distantes de uma teoria pluralista 
completamente desenvolvida. O poder e o conflito são freqüentemente estudados como 
65 
fenômenos isolados ou usados como conceitos em esquemas guiados para fins mais amplos. Eles 
são raramente vistos como definidores da natureza da própria organização. 
Como Eldridge e Crombie (1974) chamaram atenção, 
 
 
 6. SOCIOLOGIA INTERPRETATIVA 
 
 Burrel e Morgan, Sociological Paradigms and Organizacional Analysis, Heinemann, 
London, 1979. 
(Tradução livre do Profº. Wellington Martins) 
 
 
Origens e Tradição Intelectual 
 
O paradigma interpretativo abrange uma grande extensão do pensamento filosófico e 
sociológico que compartilha uma característica comum de tentar entender e explicar o mundo 
social fundamentalmente do ponto de vista dos atores diretamente envolvidos no processo social. 
Sua história está firmemente enraizada na tradição do idealismo alemão, e na visão de que a 
realidade última do universo repousa no "espírito" ou "idéia" ao invés de sobre os dados da per-
cepção sensorial. Esta tradição, que se contrapõe ao positivismo sociológico, deve muito ao 
trabalho de Immanuel Kant (1724-1803), que foi um dos primeiros filósofos a articular seus 
fundamentos ontológicos e epistemológicos básicos. Kant, cuja filosofia está aberta a uma ampla 
gama de interpretações, colocava que um conhecimento a priori deve preceder qualquer 
apreensão ou entendimento dos dados dos sentidos da experiência empírica. Ele argumentava 
que deveria haver princípios de organização inerentes e inatos dentro da consciência humana 
pelos quais quaisquer e todos os dados sensoriais são estruturados, arranjados e desta forma 
entendidos. Um conhecimento a priori que era visto como independente de qualquer realidade 
externa e dos dados do sentido que ele emite; este conhecimento era visto como o produto da 
"mente" e dos processos interpretativos que ocorrem dentro dela. Embora o mundo onde vivem 
os homens possa ser o produto de um complexo inter-relacionamento entre o conhecimento a 
priori e a realidade empírica, para Kant o ponto de partida para entender essa situação está no 
domínio da "mente" e da "intuição". É esta a suposição básica e não complicada que forma a 
base de todo o idealismo alemão. 
 
Contudo, o desenvolvimento de idealismo tem estado longe de ser uniforme. Sujeito a 
influências diversas variando dos escritos românticos de Goethe e Schiller à filosofia um tanto 
dogmática de Hegel, seu destino tem variado confusamente. De um período da ascensão no 
pensamento europeu durante o fim do século dezoito e início do século XIX, o idealismo foi em 
seguida mais ou menos forçado a um segundo plano pelas realizações 'práticas' do positivismo 
sociológico. Contudo, no fim do século XIX um renovação do interesses estava em plena 
marcha, surgindo o então chamado movimento neo-idealista, ou neo-kantiano. 
 
Como H. Stuart Hughes tão claramente argumentou, o período de 1890-1930 foi uma época 
de considerável fermentação intelectual caracterizada pela preocupação com os aspectos 
subjetivos da investigação científica. As maiores figuras intelectuais dos anos 1890 "estavam 
obcecadas, quase intoxicadas, com a redescoberta do não-lógico, do não civilizado, do 
inexplicável" (H.S. Hughes, 1958, p.. 35). Este interesse pelo subjetivo e pelo irracional estava 
refletido no trabalho de escritores tão amplamente diversos com Freud, Weber e Husserl, cada 
um dos quais respondendo de seu próprio modo distintivo.1 Além de focar a atenção sobre a 
natureza essencialmente problemática e complexa da experiência e do comportamento humano, 
o trabalho dessa geração de teóricos voltou-se para os problemas básicos de epistemologia 
identificados por Kant, que confrontou ambas as ciências natural e social. A posição positivista 
foi crescentemente vista como insatisfatória e problemática ao menos em dois aspectos. 
Primeiro, dentro das ciências naturais (Naturwissenschften) tornou-se claro que os valores 
humanos se introduziam no processo da investigação científica. Era evidente que o método 
científico não poderia ser mais considerado como isento de valor; o quadro de referência do 
observador científico era visto cada vez mais como uma força ativa que determinava a maneira 
67 
pela qual o conhecimento científico era obtido. Dentro do domínio das ciências culturais 
(Gesteswissenchaften) um segundo conjunto de dificuldades foi visto como surgindo, depois que 
seus temas principais foram distinguidos por seu caráter essencialmente espiritual. Constatou-se 
que o homem como um ator não poderia ser estudado pelos métodos das ciências naturais, com 
seus interesses em estabelecer leis gerais. Na esfera cultural, sustentou-se que o homem 'não 
estava sujeito a leis no sentido físico, mas que era livre. Uma apreensão intelectual de sua vida 
e ação poderia ser atingidas somente pelos métodos filosóficos , especialmente por um processo 
de intuição das totalidades (Gestalten) tornando-se assim ilegítimo examiná-la através da análise 
"atomística". (Parsons, 1949; p..475. Como resultado desta desilusão com o positivismo 
sociológico, o idealismo tomou um novo ânimo de vida. Em resumo, houve uma distinta 
mudança de foco de atenção intelectual ao longo da dimensão subjetiva-objetiva de nosso 
esquema analítico, que envolveu certos teóricos na clarificação dos fundamentos intelectuais do 
que descrevemos como o paradigma interpretativo. 
 
Entre os teóricos que contribuíram para estes fundamentos intelectuais, podemos identificar 
Wilhelm Dilthey, Max Weber e Edmund Husserl como tendo sido particularmente influentes. De 
maneiras fundamentalmente distintas eles fizeram mais que definir a natureza e questões que 
mereceram a atenção da sociologia interpretativa durante o século vinte. 
 
Dilthey(1833-1911) e Weber(1864-1920) estavam particularmente preocupados em lançar 
um ponte no abismo existente entre idealismo e positivismo, ou pelo menos em colocar as 
ciências da cultura sobre um firme fundamento em termos de sua 'validade objetiva'2. Se as 
ciências da cultura eram definidas pela sua natureza espiritual, então o "espírito" de uma situação 
social ou o tipo de instituiçãoera de vital importância. Isto evidenciou problemas consideráveis 
para os filósofos, que estavam interessados em prover explicações das questões sociais e 
históricas sem voltar aos métodos do positivismo. O processo idealista da 'intuição de 
totalidades', proporcionou um meio de organizar o processo histórico, mas não conseguiu se 
aproximar de uma compreensão deste. Freqüentemente resultou uma visão inteiramente 
relativista da história como séries de sistemas únicos e essencialmente desconexos. As 
explicações na tradição idealista poderiam só ser proporcionadas através do recurso à intuição ou 
à metafísica.3 
 
A solução de Dilthey para o problema foi encontrada na nação de verstehen (entendimento). 
Ao fazer uma distinção entre as ciências naturais e culturais, ele afirmava que a diferença entre 
elas era essencialmente de substância, e que os dois tipos de ciência se destinavam 
fundamentalmente a deferentes tipos de assuntos. Uma vez que as ciências naturais investigavam 
os processos externos de um mundo material, as ciências da cultura estavam essencialmente inte-
ressadas nos processos internos das mentes humanas. Embora estes processos pudessem ser 
traduzidos em fenômenos culturais relativamente tangíveis tais como arte, poesia, instituições e 
semelhantes, afirmava-se que eles poderiam ser completamente entendidos em relação às 
mentes que os criavam e à experiência interna que elas refletiam. Os fenômenos culturais eram, 
na essência, vistos como manifestações externas de tal experiência interna e portanto, argu-
mentava-se, que só poderiam ser entendidos com este ponto de referência em vista. Nestas 
situações a abordagem e os métodos das ciências naturais, com sua ênfase na procura de leis 
gerais e explicações causais, foram julgadas inapropriadas. As ciências da cultura necessitavam 
de um novo método analítico baseado na verstehen, através dos quais o investigador poderia 
procurar compreender os seres humanos, suas mentes internas e seus sentimentos, e a maneira 
que estes se expressam nas suas ações aparentes e realizações. Em resumo, as manifestações 
aparentes da vida humana necessitavam ser interpretadas em termos da experiência interna que 
elas refletiam através do método do verstehen. 
 
Desejamos colocar ênfase aqui na palavra método desde que, como conceituada por Dilthey e 
depois por Weber, este foi seu status essencial. O verstehen foi visto como um método que 
poderia ser usado nas ciências culturais para produzir o conhecimento científico de uma 
objetividade comparável àquela obtida nas ciências naturais. A noção de verstehen proporcionou 
um meio de estudar o mundo dos afazeres humanos revivendo e reencenando a experiência dos 
outros. Como veremos, a visão de Dilthey do verstehen tem tido uma influência importante, 
direta e formativa sobre a escola hermenêutica de pensamento que discutiremos mais a frente 
neste capítulo. Em termos mais gerais, sua filosofia social teve uma marcante mas indireta 
influência sobre o desenvolvimento do muitos outros elementos do pensamento característico do 
paradigma interpretativo. De fato, a noção de "entendimento" de uma forma ou outra é uma ca-
racterística definidora de todas as teorias situadas dentro deste paradigma. 
 
A despeito da importância e da básica influência formativa de Dilthey, é através do trabalho 
de Weber que a noção de verstehen enquanto método teve o maior impacto sobre o pensamento 
sociológico, e em parte alguma é o exercício de construção mais evidente de uma ponte entre o 
idealismo e o positivismo. Como Hughes (1958), Runciman (1972) e outros sugeriram, Weber 
estava travando uma guerra ao menos em duas frentes. Ele estava insatisfeito com as 
superficialidades que considerava como características das explicações positivistas da sociedade, 
e também grandemente preocupado com a natureza subjetiva e não científica do pensamento 
idealista. Sua solução para o problema foi encontrado em seus escritos metodológicos, nos quais 
desenvolve a visão de que as explicações dos acontecimentos sociais devem ser 'adequadas ao 
nível do significado', e que a função essencial da ciência social é ser 'interpretativa', isto é, 
entender o significado subjetivo da ação social. Ele define a sociologia como 'uma ciência que 
tenta a entendimento interpretativo da ação social de forma que por meio desse chegue a uma 
explicação causal de seus desenvolvimentos e efeitos... A ação é social até onde, em 
virtude do significado subjetivo ligado a esta ação pelo individuo enquanto ator social, leva em 
conta o comportamento de outros indivíduos, e por esse meio é orientado em seu desenvol-
vimento' (Weber, 1947.p..88).5 
 
Esta definição claramente define a tentativa de fusão das perspectivas idealista e positivista. 
Ele adere ao interesse positivista de prover explicações causais dos fenômenos sociais mas in-
siste que tais explicações devem ser reduzidas ao nível do indivíduo. Como Schutz observa, 
Weber reduz todas as espécies de relações e estruturas sociais, todas as objetificações culturais, 
todos os domínios da mente objetiva, às formas mais elementares de comportamento individual' 
(Schutz, 1967, p. 6). Sua visão de sociologia é portanto, aquela que está interessada em 
proporcionar explicações causais dos fenômenos sociais ao mesmo tempo em que evitar as arma-
dilhas de reificação. Ele está interessado em construir uma ciência objetiva de sociologia 
assentada sobre os fundamentos de significados subjetivos e de ação individual. 
 
Nesta tarefa a noção weberiana de 'tipo ideal' desempenha uma parte central.6 Na verdade, 
Weber insiste que a objetividade nas ciências sociais somente pode se tornar possível através do 
uso de tipos ideais, que permitem ordenar os elementos da realidade. Através do uso destes 
construtos Weber tenta reconciliar o método do verstehen com a necessidade de desenvolver 
uma ciência social objetiva. Os tipos ideais incorporam o 'espírito' que caracteriza fenômenos 
individuais num todo mais amplamente generalizado. Em certos aspectos importantes, 
entretanto, o método da verstehen é assimilado em um esquema tipológico de análise que 
proporciona um meio de ordenar e explicar a ação humana. 
 
Weber assim procura contrabalançar e reconciliar as perspectivas potencialmente divergentes 
de idealismo e de positivismo. Ao tempo em que realça a importância do significado subjetivo 
nas explicações dos acontecimentos sociais, ao mesmo tempo procura conter e limitar o papel 
destes fatores subjetivos. Isto está claramente evidente, por exemplo, em sua classificação do 
comportamento em diferentes tipos tais como "racional com propósito", "racional orientado para 
valor", "emocional" e "tradicional". Embora o objetivo central de sua sociologia seja entender e 
interpretar a ação social, ele limita este esforço pela suposição implícita de que o comportamento 
69 
pode ser causalmente explicado tomando-se como referência as absolutamente estreitas 
tipologias de ação como definidas. 
 
 Visto criticamente, portanto, a posição de Weber com respeito a "sociologia interpretativa" 
pode ser entendida como refletindo certas distorções e tensões. A interpretação e a noção de 
verstehen nas mãos de Weber é não mais do que uma ferramenta metodológica para vencer 
deficiências óbvias no método positivista. Em essencial, Weber está interessado no 
desenvolvimento de uma teoria causal da explicação social ao invés de perseguir todas as 
implicações da visão idealista da natureza da realidade social. Como Schutz (1967) observou, 
Weber estava mais preocupado em confrontar problemas concretos e estava interessado em 
questões epistemológico mais fundamentais somente até onde estas tivessem uma contribuição a 
dar para este fim. 
 
Weber pode ser visto como um 'sociólogo da regulação', no aspecto de que uma de suas 
preocupações centrais eraproporcionar uma análise completa da ordem social. Nisto a noção de 
racionalidade correspondia ao papel central. Se ele pode ou não ser descrito de maneira mais 
apropriada como um positivista ao invés de um idealista sem dúvida continuará a ser objeto de 
debate.7 Até onde diz respeito os quatro elementos da dimensão subjetiva-objetiva de nosso 
esquema analítico, ele parece ocupar uma posição intermediária e um tanto incongruente. Em 
termos de metodologia, sua perspectiva interpretativa sugere uma posição no limite do 
paradigma interpretativo, juntamente com a hermenêutica de Dilthey. Sua posição com relação à 
ontologia, à epistemologia e à natureza humana mostra ser mais objetivista. Para Weber, a 
realidade objetiva do mundo social não é uma questão central. O importante é a maneira pela 
qual esta realidade é interpretada pelos atores humanos. Nisto sua posição é diretamente similar 
à perspectiva teórica que descrevemos como interação simbólica behaviorista dentro contexto 
do paradigma funcionalista. Como sugerimos, a teoria e a pesquisa, que se baseiam no quadro de 
referência da ação, que deriva mais ou menos diretamente das explorações de Weber em 
metodologia, esta mais apropriadamente situada aí, e parece que uma situação similar pode ser 
vista em relação a muitos outros trabalhos de Weber. 
 
Qual é, então, a importância de Weber para o paradigma interpretativo?. Argumentamos que 
esta resulta de seu papel como um ponto de partida para outros escritores, notavelmente Schutz, 
que tomou seu trabalho como base para desenvolver uma visão muito mais subjetivista da 
sociologia. Isto ficará evidente em nossa discussão posterior no capítulo em que a noção de 
verstehen tomado por outros assumi um significado além daquele de simples método. Como 
Giddens observou, de um ponto de vista fenomenológico 'é exatamente a condição ontológica da 
vida humana em sociedade como tal' (Giddens, 1976, p..19). Este status do verstehen está 
claramente evidente, por exemplo, no trabalho de Edmund Husserl, e ele será proveitoso se 
concluímos nossa discussão das origens e tradições intelectuais com uma breve revisão de seu 
trabalho. A posição extremamente subjetivista que Husserl adota também servirá para ilustrar a 
perspectiva essencialmente intermediária revelada em Weber. 
 
Edmund Husserl (1859-1938) é amplamente considerado como o fundador e expoente 
principal do movimento fenomenológico na filosofia. Como se tornará evidente em nossa 
discussão posterior neste capítulo, este não é um movimento completamente coerente e não con-
duz a qualquer definição simples e direta. Maurice Natanson, um dos principais porta-vozes 
contemporâneos da fenomenologia, oferece a seguinte categorização: 
 
A fenomenologia é uma filosofia sem pressupostos que toma a consciência de ser a matriz de 
todos os fenômenos, considera os fenômenos como objetos de atos intencionais e os trata como 
essências, exige seu próprio método, preocupa-se com a experiência pré-predicativa, oferece ela 
própria como fundamento da ciência, e inclui uma filosofia do mundo da vida, uma defesa da 
Razão, e finalmente uma crítica à filosofia. (Natanson, 1975 b, p.19) 
 
A fenomenologia husserliana está baseada em um questiona-mento fundamental do senso-
comum, de atitudes "tomadas como verdadeiras" que caracterizam a vida cotidiana e os 
domínios da ciência natural. Como Natanson sugeriu, 'o objetivo central da fenomenologia é 
transcender (o que Husserl chama de) a atitude natural da vida cotidiana de maneira a que se 
torne um objeto para investigação filosófica e de modo que descreva e leve em conta sua 
estrutura essencial' (Natanson, 1966, p.3). A visão que há um mundo objetivo externo que existe 
no espaço e no tempo e é real para todos os homens está sujeito à completo escrutínio. As 
pressuposições da ciência ficam reduzidas a compromissos metafísicos implícitos. No processo o 
mundo externo se mostra ser um artefato da consciência; os fenômenos são mostrados como 
sendo legados à existência através de atos intencionais. O homem é mostrado viver em um 
mundo criado através da consciência. 
 
Assim Husserl adota uma posição extremamente subjetivista em relação à dimensão 
subjetiva-objetiva de nosso esquema analítico. Ontologicamente, o mundo constitui uma corrente 
da consciência; é experiencial; o subjetivo é a fonte de todas as objetividades. A tarefa da 
epistemologia é de explorar e revelar os tipos essenciais e as estruturas da experiência. A 
Fenomenologia estuda as essências e clarifica as relações entre elas; procura investigar e 
clarificar os verdadeiros fundamentos do conhecimento. Nesta tentativa os métodos de 'intuição 
direta' e 'súbita descoberta das estruturas essenciais' são oferecidas como os principais meios de 
penetrar nas profundezas da consciência e de transcender o mundo dos acontecimentos 
cotidianos na busca de subjetividade em sua forma pura. O procedimento do époche - por meio 
do qual o fenomenologista suspende sua cumplicidade e a participação na 'atitude natural' - tam-
bém desempenha um papel central. Como Natanson coloca, acreditar no mundo é o paradigma 
da normalidade. A tarefa do filósofo é não ridicularizá-lo mas entendê-lo e evidenciar suas 
implicações. Entretanto, qualquer tentativa de examinar tal crença será prejudicada pela própria 
crença do filósofo, salvo se ele encontra uma maneira de se libertar de si mesmo numa 
verdadeira atitude que busca elucidar' (Natanson, 1973 p.15). A Époche, ou cumplicidade em 
suspensão, proporciona um meio de penetrar no domínio da subjetividade que a fenomenologia 
procura analisar e descrever. 
 
Comparada com a filosofia de Husserl, a sociologia interpretativa de Weber emerge portanto, 
como uma excursão muita limitada ao reino do subjetivo. É talvez lícito dizer que esta faz pouco 
mais que atribuir um elemento de voluntarismo à interpretação individual de seu mundo que 
muitas das teorias positivistas típicas do paradigma funcionalista tendem a negar, ou pelo menos 
ignorar. 
 
Interessante bastante é que Husserl, como Weber, começaram a articular sua posição 
intelectual distintiva como resultado de sua insatisfação com a ciência convencional. Ele 
começou sua carreira acadêmica como matemático e físico mas posteriormente tornou-se 
preocupado com o que considerava como defeitos em seus fundamentos essenciais.8 Estava 
passionalmente envolvido com o ideal de uma 'ciência rigorosa' e procurava por respostas na 
filosofia e na lógica que ele via como problemas fundamentais. Desapontado com o que 
encontrou, seu desejo de penetrar nas origens da ciência o levou a uma crescente posição 
subjetivista, e à conclusão de que a filosofia exigia uma reorganização fenomenológica que 
'ajudasse até mesmo o cientista objetivo no esclarecimento e crítica de seus conceitos 
fundamentais não esclarecidos e suposições'. (Spiegelberg, 1965, p.79). 
 
Como Weber, Husserl estava altamente insatisfeito com a ciência positivista, com seu estudo 
não-crítico de meros fatos e sua inabilidade de dominar problemas de verdade última e de 
validade. Contudo, enquanto Weber estava envolvido com o refinamento da metodologia e 
encaminhava-se ao que ele via como problemas fundamentais da ciência social, Husserl viajava 
em outra direção. Voltando-se para os problemas fundamentais de ontologia, epistemologia e 
71 
metodologia, ele embarcou numa jornada intelectual assumindo uma forma radicalmente 
subjetivista da fenomenologia transcendental. Ao fazê-lo ele estabelece os fundamentos para 
uma nova exploração na região mais extremamente subjetivista do paradigma interpretativo. 
 
 
A Estrutura do Paradigma. 
 
Enquanto suas raízes intelectuais podem ser rastreadas retrospectivamente aos trabalhos dos 
primeiros idealistas alemães, o paradigma interpretativo foi mais decisivamente elaborador e 
influenciado pelos trabalhosde Dilthey, Husserl e Weber. Na maior parte, portanto, ele pode ser 
considerado como um fenômeno do século vinte. 
 
Argumentamos que o paradigma pode ser considerado em termos de quatro categorias 
distintas mais relacionadas da teoria interpretativa, sendo distinguido em sua maior parte pelo 
grau de 'subjetividade' em termos dos quatro elementos da dimensão subjetiva-objetiva de nosso 
esquema analítico.9 Os identificamos como: a)solipsismo; b)fenomenologia; c)sociologia 
fenomenológica; d)hermenêutica. Sua posição dentro do paradigma está ilustrado na figura 3.3 
 
A escola hermenêutica ocupa a região menos subjetivista da paradigma. Derivando 
largamente do trabalho de Dilthey e da noção de verstehen, esta desenvolveu-se primeiro como 
um método de estudo especialmente adaptado a uma visão idealista do mundo. Mais recen-
temente, sob a influência de Gadamer, ela assumiu uma nova dimensão e desenvolveu-se 
largamente em termos teóricos, particularmente em relação ao papel e influência da linguagem 
na vida social. Sua importância contemporânea dentro do contexto do paradigma interpretativo 
vem crescendo rapidamente, embora até agora tenha sido largamente obscurecida por seu uso na 
teoria crítica dentro do contexto do paradigma humanista radical. Identificamos o solipsismo na 
região mais subjetivista do paradigma. Este pertence ao domínio da metafísica ao invés de 
pertencer à sociologia e está incluído aqui para salientar o último dilema face á todas 
perspectivas filosóficas e sociológicas que enfatizam o subjetivo de uma forma extrema. 
 
A fenomenologia ocupa a região intermediária do paradigma. Distinguimos entre a 
fenomenologia transcendental de Husserl e a fenomenologia existencial de Schutz. As últimas 
tentativas de ligar temas tirados da sociologia de Weber e da filosofia de Husserl. 
 
Intimamente relacionada à fenomenologia, mas distinta dela, identificamos dois ramos do 
pensamento sociológico que combina a perspectiva fenomenologia com elementos tirados de 
toda parte. A etnometodologia funde a fenomenologia e os elementos da linguagem filosófica 
ordinária, particularmente aquela típicas do trabalho mais tardio de Wittgenstein e Winch. O 
interacionismo simbólico fenomenológico interpreta o trabalho de G.H. Mead de uma 
perspectiva fenomenologia, de certo modo discutido num capítulo anterior. 
 
Examinaremos cada categoria ampla e cada escola de pensamento no momento próprio. 
 
 
 
Hermenêutica. 
 
A hermenêutica envolve-se com a interpretação e entendimento dos produtos da mente 
humana que caracterizam o mundo social e cultural. Ontologicamente, seus proponentes adotam 
uma visão 'idealista objetiva' do ambiente sociocultural, vendo este como um fenômeno 
humanamente constituído. Os seres humanos no curso de vidas externalisam os processos 
internos de suas mentes através da criação de artefatos culturais que ganham um caráter objetivo. 
Instituições, obras de artes, literatura, linguagens, religiões e semelhantes são exemplos deste 
processo de objetificação. Tais objetificações da mente humana são temas de estudo na 
hermenêutica. 
 
Como já observamos, é em grande parte através do trabalho de Dilthey que a hermenêutica 
obteve o status de uma escola de pensamento dentro do contexto da teoria social 
contemporânea.10 Nas mãos de Dilthey ela foi essencialmente uma metodologia para o estudo 
das objetificações da mente. Representar um papel central em seu esquema global para 
objetivamente gerar conhecimento válido no Geisteswissenschaften através do método do 
verstenhen. Verstehen, recordemos, é a maneira pela qual compreendemos o significado de uma 
situação histórica ou social ou de um artefato cultural. É um método de entendimento baseado na 
reencenação. A fim de que seja compreendido, o tema em estudo necessitava ser revivido na 
vida subjetiva do observador. Através deste processo, Dilthey afirmava que o conhecimento 
objetivo poderia ser obtido. 
 
Dilthey argumentava que um dos primeiros caminho para a verstehen era através do estudo de 
afirmações empírica da vida - instituições, situações históricas, linguagem, etc. - que refletiam a 
vida interior de seus criadores. O estudo destas criações sociais era visto como o principal 
caminho para um entendimento do mundo da mente objetiva. O método era a hermenêutica. 
Como ele coloca: 
 
Recriando e revivendo o que é estranho e passado mostra claramente como o entendimento 
repousa sobre a inspiração pessoal especial. Mas, como esta é uma condição significante e 
permanente da ciência histórica, a inspiração pessoal torna-se uma técnica que se desenvolve 
com o desenvolvimento da consciência histórica. Ela depende de expressões permanentemente 
fixas tornando-se disponíveis de modo a que possamos sempre retornar a elas. O entendimento 
metodológico de expressões permanentemente fixas chamamos de exegese. Na medida em que a 
vida da mente só encontra sua completa e exaustiva expressão e por conseguinte, objetivamente 
compreensível expressão na linguagem, a exegese culmina na interpretação de registros escritos 
da existência humana. Este método é a base da filosofia. A ciência deste método é a 
hermenêutica. (Dilthey, 1976. p..228) 
 
Dilthey distinguiu a hermenêutica como um método disciplina chave das ciências humanas. 
Ele advogava que os fenômenos sociais de todos os tipos poderiam ser analisados em detalhes e 
interpretados como textos, para revelar seu significado essencial e sua significação. O método 
hermenêutico, portanto, envolveu cientistas humanos adotando o estilos da análise literária 
diferentemente dos cientistas naturais. A análise textual do significado e da significação, foi 
considerada mais apropriada que a investigação científica para o conhecimento de leis gerais. 
Dilthey estava interessado que as regras básicas da hermenêutica pudessem ser definidas, de 
maneira que os insights dos intérpretes de genialidade rara pudessem ser utilizados pelos outros. 
 
A abordagem global de Dilthey para a hermenêutica está claramente ilustrado na noção do 
então chamado 'circulo hermenêutico'. Ele reconhecia que o todo social não poderia ser 
entendido independentemente de suas partes, e vice-versa. As palavras de uma sentença têm de 
ser entendidas em termos de seu contexto total. Enquanto alguém pode atribuir um significado 
específico para as palavras por si mesmas, eles podem assumir um significado diferente no 
contexto de outras palavras. Assim são, igualmente, os fenômenos sociais. Dilthey reconhecia 
que esta parte - relações com o todo era característica do mundo social e que uma abordagem 
sistemática era necessária. O desejo de formular regras metódicas de interpretação, por 
conseguinte, vinha acompanhado de um reconhecimento que "não havia nenhum ponto de 
partida absoluto, nenhuma evidência própria, certezas independentes sobre as quais poderíamos 
construir, porque sempre nos encontramos no meio de situações complexas que tentamos 
desembaraçar fazendo, por revisão, suposições provisórias' (Rickman, 1976, p.11). Desta forma 
73 
as regras metodológicas da hermenêutica eram vistas movimentar um estilo circular e interativo 
que se dirigia para uma crescente entendimento das objetificações da mente. 
 
 Em anos recentes a tradição hermenêutica tem assumido uma nova linha de desenvolvimento 
particularmente através do trabalho de Gadamer (1965)11. Ele argumenta que o circulo de 
entendimento, como imaginado, por exemplo, por Dilthey, não é um círculo 'metodológico', mas 
descreve um elemento estrutural ontológico no entendimento. Tomando a descrição de 
Heidegger e a medida existencial do círculo hermenêutico como um ponto de partida, ele argu-
menta que não podemos relacionar, por exemplo, a uma tradição histórica como se ela existisse 
como um objeto separado de nós, desde que não há uma interação entre o movimento da tradiçãoe do intérprete. De maneira que compreender os fenômenos sociais ou culturais, o observador 
deve entrar em um diálogo com o assunto em estudo. Como Giddens coloca: 
 
Compreender um texto de um período bem antes de nós, por exemplo, ou de uma cultura bem 
diferente da nossa é, de acordo com Gadamer, um processo essencialmente criativo em que o 
observador, ao penetrar num modo de existências alienígena recomendando ao nosso próprio, 
por exemplo de uma cultura muito diferente e nossa própria é, de acordo com Gadamer, 
essencialmente um compromisso criativo no qual o observador através da penetração e um modo 
de existência estranho, enriquece seu próprio auto-conhecimento sobre os outros. Verstehen 
consiste, em não se colocar 'dentro' da experiência subjetiva do autor de um texto, mas na 
compreensão da arte literária através do apreensão, para usar o termo de Wittgenstein, a 'forma 
da vida' que lhe dá significado. (Giddens, 1976, p. 56). 
 
Com Gadamer, o Verstehen não está tão preocupado em revelar ou penetrar nas experiências 
subjetivas dos outros como era para Dilthey. Está mais preocupado com a apreciação do 
intercâmbio de quadros de referência do observador e do observado. Neste processo o papel da 
linguagem é dado como um papel central 'como o meio de intersubjetividade e como expressão 
concreta das formas de vida', ou aquilo que Gadamer chama de 'tradições'. (Giddens, 1976, p.. 
56). A linguagem é o mediador entre os quadros de referência ou tradições, e é portanto central 
para o processo de compreensão. 
 
Ampliada e desenvolvida desta maneira, a hermenêutica, sob o controle de Gadamer torna-se 
relevante para todas as áreas de investigação: 'um modo universal de filosofia' e não apenas um 
fundamento metodológico para as ciências culturais. O papel da linguagem assume status 
ontológico e traz a visão de Gadamer de hermenêutica para próximo de uma perspectiva 
fenomenológica. A linguagem, para Gadamer, é mais do que um sistema de símbolos para 
rotular o mundo externo; ela se torna uma expressão do modo humano de 'ser no mundo'. Como 
Gadamer diz: 'o ser se manifesta na linguagem'.12 
 
Da perspectiva da sociologia que se opõe àquela da filosofia, a escola hermenêutica de 
pensamento ainda tem recebido pouca atenção dentro do contexto do paradigma interpretativo. 
Seu principal impacto foi sobre o paradigma humanista radical, onde os insights de Gadamer 
geraram interesse sobre o papel da linguagem no contexto da teoria crítica, particularmente 
como desenvolvida por Habermas. 
 
Solipsismo. 
 
O solipsismo representa a mais extrema forma de idealismo subjetivo, visto que nega que o 
mundo tenha qualquer realidade distinta independente. Para o solipsista, o mundo é a criação de 
sua mente. Ontologicamente, este não tem existência além das sensações que ele percebe em sua 
mente e corpo.13 
 
A visão solipsista está mais freqüentemente associada com o trabalho do clérigo irlandês 
Bispo Berkeley (1685-1753), embora na realidade ele mesmo não tinha aderido a tal ponto de 
vista extremo14. Berkeley questionava a crença do senso comum de que o homem está cercado 
por objetos externos tais como árvores, montanhas, mesas, rios, cadeiras, etc., e sugeria que eles 
poderiam ser meramente os produtos de nossa percepção. Ele argumentava que estes objetos 
poderiam não ter nenhuma existência separada, não sendo mais do que nossas idéias. Eles só 
poderiam existir em nossa mente. O que queremos significar quando dizemos que uma coisa 
existe é que ela é percebida. Um objeto não pode ter nenhuma existência além desta percepção 
ideal. 
 
A perspectiva solipsista freqüentemente atrai desdém e ridículo por parte daqueles que 
desejam continuar a aprová-la como uma visão do senso comum de um mundo cotidiano com 
uma realidade externa sólida e segura. Contudo, o argumento de Berkeley é freqüentemente 
equivalente a um desafio não facilmente refutado. Boswell relata como o contemporâneo de 
Berkeley, Dr. Johnson, chutou uma pedra nas proximidades dizendo "portanto eu a refuto". 
(Boswell, 1953, p.333). A experiência de Dr. Johnson, contudo, nos termos de Berkeley, era 
reduzível à percepção de dor e às sensações corporais que Johnson pode ter localizado em seu 
dedo do pé. A refutação tentada está portanto de acordo com a tese de Berkeley de que o mundo 
não é mais do que aquilo que percebemos ser.15 
 
A posição solipsista resulta em um completo relativismo e ceticismo. Dado que não há 
nenhum ponto de referência externo, o conhecimento pode ser limitado àquilo que temos como 
experiências individuais. Esta é uma questão inteiramente individual e pessoal; não há nada além 
de si mesmo e das idéias. A posição solipsista é, portanto, aquela que é logicamente permissível 
mas voltada para ver a si mesmo e auto-sustentada, e esta não oferece nenhum escopo para o 
desenvolvimento de uma teoria filosófica ou social que possa ser partilhada com qualquer senso 
realístico. 
 
Caracterizamos o solipsismo como se ocupando da região mais subjetivista da dimensão 
subjetiva-objetiva de nosso esquema analítico. As noções de regulação e de mudança radical 
claramente não tem nenhum significado em uma perspectiva solipsista; o solipsismo está 
portanto, consistente com ambos os paradigmas, o interpretativo e o humanista radical. Seu 
significado para o contexto de cada uma é, para a maior parte, algo negativo, no qual este se 
apresenta como um perigo potencial para os teóricos sociais que desejam desenvolver teorias 
com uma ênfase subjetiva. As filosofias subjetivistas correm o perigo de ser fundadas sobre a 
"linha do solipsismo" de Sartre, de entrar numa visão inteiramente individualista e subjetivista 
da realidade na qual nenhum discurso significativo é possível. Portanto, encontraremos na 
discussão subseqüente, a 'linha do solipsismo tendo em vista como uma ameaça a uma multidão 
de filósofos sociais, notavelmente Husserl. 
 
Num sentido mais positivo, ao enfatizar o extremo subjetivismo do solipsismo define-se o 
status essencialmente intermediário e mais moderado de outras filosofias subjetivistas. Adotando 
uma posição completamente relativista esta ilustra a extensão na qual outras visões do 
conhecimento do mundo e da realidade social estão essencialmente baseados em significados 
compartilhados. Esta também realça igualmente a natureza extrema da noção de senso comum de 
um mundo de uma realidade objetiva firme e sólida. 
 
O solipsismo está portanto, localizado no contexto da paradigma interpretativo e do 
humanismo radical como uma posição logicamente válida, porém algo de pouca importância no 
contexto da sociologia contemporânea. 
 
Fenomenologia. 
 
75 
Como já observamos, o movimento fenomenológico não é algo completamente coerente, visto 
que reflete um grande número de linhas de desenvolvimento. Tomando o trabalho de Husserl 
como um ponto de partida, este se bifurca em outras direções de acordo a perspectiva de seu 
interprete particular. Escritores tais como Scheller, Heidegger, Schutz, Sartre e Marleau-Ponty 
todos eles fizeram significantes e distintivas contribuições em direção a seu desenvolvimento 
global.15 
 
Discutiremos aqui a fenomenologia sob dois grandes títulos. Primeiro, dedicaremos atenção 
ao que se conhece como fenomenologia 'transcendental' ou 'pura' que vem freqüentemente 
associada ao trabalho de Husserl. Segundo, consideraremos um derivado desta, a fenomenologia 
'existencial', particularmente como mostrada no trabalho Schutz. 
 
 
 
 
Fenomenologia Transcendental 
 
Recordemos que Husserl era um matemático e físico, que cedo em sua carreira, tornou-se 
interessado no que ele considerava como os precários fundamentos da lógica e da ciência. Era 
característico do homem que ele decidisse investigar a origem destes fundamentos. Então ao 
fazer isso ele embarcou em um trabalhode vida em que ele estava preocupado com o problema 
dos fundamentos. 
 
Uma de suas primeiras observações foi que a ciência era caracterizada pela 
"intencionalidade". Apesar do fato de que os resultados da ciência eram sempre aproximados e 
imperfeitos, o cientista era guiado pela intenção de objetividade absoluta. Era este objetivo da 
ciência, esta idéia de ciência, ao invés de seus resultados, o que era importante ao distingui-la 
como uma disciplina digna de seu nome. 
 
Em sua busca pelos fundamentos objetivos da ciência, Husserl tentou tornar accessível uma 
nova direção na análise da consciência. Trazendo uma mentalidade matemática ao assunto, ele se 
contentou com a manipulação das essências ideais. Ao invés de se preocupar com as realidades 
factuais ou com a formulação de hipóteses, ele se orientou para a questão central do significado. 
Ele colocou de lado a realidade (ou em seus termos, 'em parênteses') e procurou penetrar no nível 
do fenômeno. Em outras palavras, ele procurou praticar fenomenologia. Como Thévenaz coloca: 
 
A fenomenologia não é nunca uma investigação de fatos externos ou internos. Ao contrário, 
provisoriamente silencia a experiência, deixa de lado a questão da realidade objetiva ou do 
conteúdo real a fim de voltar sua atenção unicamente e simplesmente sobre a realidade na 
consciência, sobre objetos na medida em que eles são intencionados pela e na consciência, em 
resumo aquilo que Husserl chama de essências ideais. Por isto não poderemos entender as meras 
representações subjetivas (que nos deixaria no plano da psicologia) nem as realidades ideais ( 
que 'reificaria' ou hipostasiaria indevidamente os dados da consciência e nos colocaria no nível 
da metafísica), mas precisamente os "fenômenos"... O fenômeno aqui é aquele que se manifesta 
a si mesmo, imediatamente na consciência; este é apreendido como um convite que precede a 
qualquer reflexão ou qualquer julgamento. Isto só é permitido para que ele mostre-se a si 
mesmo, manifestar-se a si mesmo; o fenômeno é aquele que se dá a si mesmo (Felbgtgeburg). O 
método fenomenológico então, defrontou-se com os objetos e com os conteúdos do 
conhecimento, consiste em negligenciar o que só conta para os filósofos e cientista, isto é, seu 
valor, sua realidade ou irrealidade. Este consiste em descrevê-los tais como eles se dão a si 
mesmos, como pura e simples intenções(visées) da consciência, como significados, para torná-
los visíveis e manifestos tais como são. Nesta Wesenschchau, a essência (wesen) não é nem a 
realidade ideal nem a realidade psicológica, mas a intenção ideal (visée), objeto intencional da 
consciência, imanente à consciência (Théveraz, 1962.pp.43-4) 
 
Tal é a natureza do fenômeno que Husserl perseguia. Em sua busca da origem dos 
fundamentos da lógica e as ciências e evidentemente de toda a filosofia, Husserl começou a 
desenvolver sua análise fenomenológica. Em sua investigação ele rapidamente constatou que a 
análise fenomenológica tinha que ir além da descrição superficial da aparência ou da intuição. 
Com Husserl, o conhecimento, que no pensamento comum pré-filosófico é a coisa mais natural 
do mundo, assume o status de um 'mistério'. A investigação era para a principal e absoluta 
evidência que, como o fenômeno, era completa, claramente estabelecida e não necessitava de 
nada de fora de si mesma para lhe dar forma. 
 
Nesta tentativa o método da époche, o qual já nos referimos, deveria desempenhar um papel 
central, abrindo o caminho para a 'redução fenomenológica' e para um novo e fundamental nível 
de significado - o campo transcendental. Nesta filosofia transcendental Husserl tenta apreender 'o 
mundo como fenômeno'- apreendê-lo não como objeto, mas como puro significado . O propósito 
fundamental, original e essencial da redução é 'levar luz ao contexto intencional essencial entre 
consciência e o mundo' (Thíveraz, 1962, p.47). 
 
A redução fenomenológica leva, portanto, a uma conjunção entre a consciência pura e o 
fenômeno mundo. Todas as suposições da vida cotidiana são deixadas de lado na perseguição da 
subjetividade pura, da consciência transcendental, a intencionalidade que é a fonte de todo 
significado. Esta noção de intencionalidade - a idéia de que a consciência sempre tem um objeto 
que a constitui - desempenha um papel crucial na filosofia de Husserl. Ela nega a possibilidade 
de haver uma realidade independente de qualquer espécie. Ao mesmo tempo, a realidade não é 
construída pela consciência; ela lhe é revelada através do ato de intencionalidade. Esta busca da 
consciência transcendental levou Husserl perigosamente perto do solipsismo. Como o mundo 
cotidiano externo foi deixado de lado na investigação da consciência transcendental, a 
consciência pura foi deixada em esplêndido isolamento, ficando sua intencionalidade o único elo 
com alguma semelhança de uma realidade mais ampla. Ela ocupou um domínio isolado e auto-
contido de si mesmo. Tudo mais era um produto de sua natureza intencional. Por conseguinte, 
não havia meios externos de validar sua existência. A 'linha do solipsismo' delineou-se próxima. 
 
Este era um problema que preocupou grandemente Husserl durante seus últimos anos, e ele 
lutou arduamente para encontrar uma maneira de se livrar deste dilema solipsista, 
particularmente através da noção da "intersubjetividade". Ele procurou 'mostrar como o ego 
transcendental constitui outros egos como parceiros iguais em uma comunidade intersubjetiva; 
que por sua vez forma os fundamentos para o mundo "objetivo" (isto é, o mundo intersubjetivo). 
Seus argumentos nesta direção não foram inteiramente convincentes, dado que os aspectos 
transcendentais de sua filosofia deveriam ser mantidos intactos mas, como veremos, eles 
colocaram importantes fundações para o desenvolvimento da fenomenologia "existencial", par-
ticularmente como a desenvolvida por Schutz. Muitos dos seguidores de Husserl estavam 
satisfeitos em habitar o mundo vivido da experiência17. Eles não estavam preparados para seguir 
o caminho em direção transcendentalismo e em grande parte abandonaram este aspecto da 
filosofia de Husserl. Até onde diz respeito ao paradigma interpretativo, a fenomenologia 
transcendental tem sido o assunto de desenvolvimento pouco recente. Ocupando uma posição em 
direção do extremo subjetivista do paradigma, seu principal significado tem sido portanto o de 
um trampolim ou no mínimo um ponto de partida, para ramos da fenomenologia menos 
subjetivamente orientados. Discutiremos as mais importantes destes ramos na próxima seção. 
 
Bastante interesse é que as noções transcendentais de Husserl até certo ponto foram adotadas 
pelos teóricos operando dentro de uma perspectiva característica do paradigma humanista 
radical. A transcendência, do ponto de vista deles, tem sido vista como indicando um potencial 
77 
para libertá-los dos grilhões da vida cotidiana. O trabalho de Sartre, em particular, reflete a 
influência direta de Husserl, e voltaremos a uma discussão dele em capítulo posterior. 
 
Fenomenologia Existencial. 
 
A ala existencial do movimento fenomenológico está mais freqüentemente associada com o 
trabalho de Heidegger, Merleau-Ponty, Sartre e Schutz. Eles partilham um interesse comum pelo 
que Husserl chamou de 'mundo da vida' (Lebenswelt), para significar o mundo da experiência 
cotidiana em oposição ao domínio da consciência transcendental. Contudo, afora esta 
preocupação com o 'mundo da vida' e com a maneira como os homens existem nele, é 
desorientador ver seus trabalhos em termos similares. Cada qual desenvolve uma perspectiva 
teórica que, embora aderindo a uma posição aproximadamente similar em termos das várias 
posições da dimensão subjetiva-objetiva de nosso esquema analítico, ela se direciona para 
questões e problemas inteiramente diferentes.18 Limitaremos aqui nossa discussão dafenomenologia existencial ao trabalho de Schutz que, em sua tentativa de desenvolver uma 
'fenomenologia do mundo social', transpõe o assunto do domínio do discurso filosófico para algo 
próximo de uma perspectiva sociológica. 
 
O trabalho de Alfred Schutz (1899-1959) pode ser caracterizado como um esforço sustentado 
para relacionar a idéia de fenomenologia com os problemas de sociologia . Na essência, esta 
procura ligar as perspectivas de Weber e Husserl, incluindo também a filosofia de Bergson. 
 
Schutz começa seu trabalho clássico A fenomenologia do mundo social, publicado 
inicialmente em 1932, declarando que este se baseava no intenso interesse de muitos anos com 
os escritos teóricos Max Weber. Enquanto convencido que a abordagem de Weber era correta e 
que esta proporcionava 'um apropriado ponto de partida para a filosofia das ciências sociais', 
Schutz sentiu-se seguro de que ele 'não se aprofundava suficientemente para estabelecer os 
fundamentos sobre os quais só alguns dos problemas das ciências humanas poderiam ser 
solucionados" (1967, pp.XXXI) 
 
Ao buscar estes fundamentos, na maneira de Husserl, Schutz identificou muitas ambigüidades 
na posição de Weber e as submeteu à completa análise filosófica. Enquanto concordando com 
Weber de que a função essencial da ciência social era ser interpretativa, isto é, a de compreender 
o significado subjetivo da ação social, ele sentiu que Weber falhou ao colocar como 
características essenciais do 'entendimento' (Verstehen), 'o significado subjetivo' e 'a ação'. Para 
Schutz, uma análise minuciosa destes conceitos era essencial para que se colocasse o assunto e 
os métodos das ciências sociais em uma base sólida. 
 
Schutz embarca numa análise fenomenológica de significado, pesquisando suas origens no 
'fluxo da consciência'. Esta noção, que ele tira de Bergson, é crucial para sua análise, visto que 
ela introduz a dimensão temporal que serve de base ao conceito de "reflexividade". Schutz 
argumenta que a consciência é fundamentalmente o fluxo ininterrupto das experiências vividas 
que não têm nenhum significado nelas mesmas. O significado é dependente da reflexividade - o 
processo de voltar a si mesmo e olhar para o que está ocorrendo. O significado está ligado às 
ações retrospectivamente; só o já experienciado é significativo, e não o que está em processo de 
ser experienciado. 
 
Schutz também argumenta que este processo de atribuir significado através da reflexão 
depende do ator identificar o propósito ou objetivo que ele está supostamente procurando. Isto 
introduz a noção de ser capaz de atribuir significado, de antemão, para as experiências futuras. O 
conceito da ação significativa portanto contém elementos tanto do passado como do futuro 
antecipado; intrinsecamente ele contem uma dimensão temporal. A análise de Schutz deste 
'processo de constituição da consciência interna do tempo' é uma aplicação direta da 'redução 
fenomenológica' como descrita por Husserl. A atitude natural na direção do "mundo que me é 
dado como estando lá fora" fica suspensa na maneira da époche, na tentativa de penetrar na 
essência da consciência e do significado. Embora apropriada para o propósito acima, Schutz 
reconhece especificamente que a análise do significado da vida social cotidiana não requer o 
conhecimento transcendental produzido pela redução fenomenológica. Na medida em que 
prossegue no estudo do mundo social, portanto, ele abandona o método estritamente 
fenomenológico. Ele aceita a existência do mundo social como apresentado na atitude natural e 
focaliza o problema do entendimento intersubjetivo 'passando por cima de todo um conjunto de 
problemas' identificado por Husserl em relação à questão da subjetividade transcendental e à 
intersubjetividade'(Schutz, 1967, pp.94). 
 
A análise de Schutz da intersubjetividade está, portanto, principalmente baseada uma 
perspectiva sociológica em oposição a uma perspectiva fenomenológica. Ela reflete uma 
predileção pelo "mundo da vida" como oposta àquela da filosofia transcendental. Basicamente, 
Schutz está preocupado em lançar luz sobre a maneira como chegamos a conhecer a experiência 
vivida dos outros. Nisto ele faz uma distinção fundamental "entre a genuína compreensão de 
outra pessoa e a conceituação abstrata de suas ações ou pensamentos como sendo deste ou 
daquele tipo" (1967, p. XXV). A compreensão genuína significa a apreensão intencional da 
experiência do outro, de modo semelhante a de observar o fluxo da consciência do outro. Ela re-
flete a verdadeira compreensão do significado subjetivo. A conceituação abstrata não se refere 
tanto ao entendimento, mas à auto-elucidação; ela é meramente um ordenamento da própria 
experiência em categorias. O verdadeiro entendimento é possível nas relações face-a-face do 
nós; ele depende da troca direta e da interação. Na medida em que passamos destas situações de 
interação direta a modos de experiência direta dos outros, temos que recorrer mais e mais à 
conceituação abstrata. 
 
Para Schutz, o processo de compreender a conduta dos outros pode ser entendida como um 
processo de tipificação, por meio do qual o ator aplica construtos interpretativos semelhantes aos 
"tipos ideais" para apreender os significados do que as pessoas fazem. Estes construtos são 
derivados da experiência da vida cotidiana e do estoque do conhecimento ou compreensão do 
senso-comum que contem a atitude natural. É através do uso de tipificações que classificamos e 
organizamos nossa realidade cotidiana. As tipificações são aprendidas através de nossa situação 
biográfica. Elas são transmitidas a nós de acordo com nosso contexto social. O conhecimento da 
vida cotidiana é portanto socialmente orientado. A noção de tipificação ou de tipos ideais não é 
portanto meramente um aparelho metodológico como concebido por Weber, mas uma caracte-
rística inerente do nosso mundo cotidiano.19 
 
Schutz argumenta que o estoque de conhecimento que usamos para tipificar as ações dos 
outros e compreender o mundo em torno de nós varia de contexto para contexto. Vivemos num 
mundo de "múltiplas realidades" cada uma das quais é definida em termos das "finitas regiões do 
significado". O ator social muda entre estas regiões de significado no curso de sua vida 
cotidiana. Como ele muda do mundo do trabalho para aquele do lar e do lazer ou para o mundo 
da experiência religiosa, diferentes regras fundamentais (ground rules) são trazidas à cena. 
Enquanto isto acontece dentro da competência normal da ação individual para mudar de uma 
esfera para outra, para fazê-lo há necessidade de um "salto da consciência" para vencer as 
diferenças entre os diferentes mundos.20 
 
Para Schutz, entretanto, o problema de entender a estrutura significativa do mundo da vida 
cotidiana era uma preocupação central. "Ver este mundo em sua complexidade massiva, esboçar 
e explorar suas características essenciais e acompanhar suas múltiplas relações eram as partes 
componentes de sua tarefa central, a realização de uma filosofia da realidade do mundo, ou, 
numa linguagem mais formal, de uma fenomenologia da atitude natural" (Schutz, 1962, p. xxv). 
A tarefa central da ciência social, de acordo com Schutz, era entender o mundo social pela visão 
79 
daqueles que vivem nele, usando os construtos e as explicações que são inteligíveis em termos 
da interpretação do senso-comum da vida cotidiana.21 
 
Assim Schutz tenta ligar a fenomenologia e a sociologia em uma análise do mundo dos 
afazeres cotidianos. Sua tentativa, embora geradora de muitas luzes, é só parcialmente bem 
sucedida. Os elos substantivos com a filosofia transcendental de Husserl são as vezes muito 
tênues, particularmente com relação à questão da intersubjetividade. Esta noção é crucial para a 
análise de Schutz, ainda que extremamente problemática dentro do contexto da fenomenologiatranscendental, por razões que já discutimos. O mundo interior da consciência intencional e as 
manifestações exteriores do mundo da vida cotidiana são às vezes companheiros incômodos. O 
empreendimento fenomenológico de per si encontra sérias dificuldades na tentativa de lidar com 
qualquer realidade fora da consciência individual e o trabalho de Schutz refle-te este dilema. 
 
Julgada do ponto de vista de seu outro principal ponto de partida intelectual - o trabalho 
teórico de Max Weber - a fenomenologia de Schutz do mundo social deve ser considerada um 
grande avanço na teoria social. Em essência, Schutz persegue as suposições ontológicas 
implícitas na metodologia de Weber e desenvolve uma abordagem global que reflete uma 
posição consistente e coerente em termos dos quatro elementos da dimensão subjetiva-objetiva 
de nosso esquema analítico. Schutz demonstra que as noções de significado subjetivo, 
entendimento e ação social tem ramificações mais amplas do que aquelas mostradas no trabalho 
de Weber. Em comparação com Schutz, a posição de Weber no contexto do paradigma 
funcionalista em oposição do paradigma interpretativo torna-se claramente evidente. 
 
Sociologia Fenomenológica. 
 
Ambas as escolas de pensamento identificadas nesta categoria de teoria interpretativa ocupam 
uma posição semelhante às duas dimensões de nosso esquema analítico. Fazemos distinção entre 
elas em grande parte porque elas se desenvolveram em paralelo mas de maneira algo diferente 
das tradições fenomenológicas. A etnometodologia deriva em grande parte da fenomenologia de 
Schutz, e o interacionismo simbólico fenomenológico da obra de G. H. Mead. 
 
Etnometodologia. 
 
A etnometodologia está fundamentada no minucioso estudo do mundo da vida cotidiana. 
Essencialmente ele procura "tratar das atividades práticas, das circunstâncias práticas e da razão 
sociológica prática como tópicos de estudo empírico, e de dar atenção à maioria dos lugares-
comuns da vida diária de acordo com eventos extraordinários, procurando aprender sobre eles 
como fenômenos a partir deles próprios". (Garfinkel, 1967.p.1). Isto tem a ver com aprender 
sobre as maneiras como as pessoas ordenam e dão sentido as suas atividades cotidianas e às 
maneiras como elas se tornam "avaliáveis" para os outros, no sentido de serem "observáveis e re-
portáveis". As interações entre pessoas na vida cotidiana podem ser consideradas como 
realizações, nas quais aqueles envolvidos desenvolvem varias suposições, convenções, práticas e 
outros tipos de recursos disponíveis dentro de sua situação para sustentar e modelar seus 
encontros de diversas maneiras. A etnometodologia procura entender tais realizações em seus 
próprios termos. Ela procura compreendê-las a partir de dentro. 
 
O termo "etnometodologia" foi inventado por Harold Garfinkel como resultado de seu 
trabalho sobre um 'projeto de júri' (Garfinkel, 1968). Os procedimentos de um júri tinham sido 
importunados. O trabalho que Garfinkel consistiu em escutar as fitas, conversar com os jurados 
e considerar a questão geral de "O que os torna jurados?" Garfinkel e um colega estavam 
interessados em estabelecer "como os jurados sabiam que eles estavam executando o trabalho de 
jurados". Eles reconheceram que os jurados, ao empreender seus trabalhos, foram adotando 
vários métodos para produzir suas atividades que fossem válidas para eles mesmos e para os 
outros. Eles estavam engajados num processo de "dar sentido" à prática do trabalho do júri. Eles 
estavam preocupados com tais coisas como "avaliações adequadas", descrições adequadas" e 
"evidências adequadas". Eles procuraram evitar o senso-comum", buscando agir de maneira 
como imaginavam que deveria agir um jurado. O termo "etnometodologia" foi cunhado para 
caracterizar os compromissos dos jurados numa metodologia relacionada com uma área 
específica do conhecimento do senso-comum. Eles estavam comprometidos com um processo 
que lhes solicitava usar uma série específica das práticas para produzir sentido numa atividade 
social específica. Contudo, a etnometodologia se tornou um meio para diferentes finalidades. 
Como Garfinkel (1968) observou, "ela transformou-se em uma doutrina antiquada", e ele 
francamente repudia qualquer responsabilidade pelo que as pessoas venham a fazer da 
etnometodologia22. Muitos não aceitariam o repúdio de Garfinkel. Seus escritos são 
desnecessariamente obscuros e torcidos e eles permanecem como uma relação paradoxal pelo 
fato de que a etnometodologia está envolvida com a compreensão do mundo cotidiano das 
atividades práticas simples e com o domínio do conhecimento do senso-comum. 
 
O trabalho dos etnometodologistas está muito mais envolvido com a identificação de 
suposições "tidas por verdadeiras" que caracterizam qualquer situação social e com as maneiras 
pelas quais os membros então envolvidos através do uso de prática cotidianas, para produzir suas 
atividades "racionalmente computáveis". Nesta análise as noções de "indexicabilidade" e 
reflexividade" representam uma parte importante. As atividades cotidianas são vistas como 
sendo ordenadas e explicadas racionalmente dentro do contexto onde elas ocorrem. A forma pela 
qual elas são organizadas faz uso de expressões e atividades que só modeladas e não 
necessariamente determinadas racionalmente (indexicabilidade); isto depende da capacidade de 
olhar para trás e no que aconteceu antes (reflexividade). A situação social é vista como um 
processo de ação avaliável que é mantida pelos esforços dos participantes; os participantes são 
vistos como tentando ordenar a experiência deles quanto manter o cotidiano e as suposições do 
senso-comum que caracterizam a rotina da vida cotidiana. 
 
Segundo Douglas (1970 b), é conveniente distinguir entre dois tipos de etnometodologista, o 
lingüístico e o situacional. O etnometodologista lingüístico ( por exemplo, Cicourel, 1972; 
Schegloff e Sacks, 1973) focaliza o uso da linguagem e as formas pelas quais as conversações da 
vida cotidiana são estruturadas. A análise delas produz muito dos significados "dados por 
verdadeiros", o uso de expressões indexadas e a maneira pela qual as conversações exprimem 
muito mais do que atualmente é dito. Os etnometodologistas situacionais (Mc Mugh, 1968, por 
exemplo) lançam suas visões sobre uma gama mais ampla da atividade social e procura entender 
as os meios pelos quais as pessoas negociam os contextos sociais nos quais eles próprios se 
encontram. Eles estão preocupados em compreender como as pessoas fazem sentido de e como 
ordenam seu ambiente. Como parte do método deles os etnometodologistas podem 
conscientemente desorganizar ou "dar por verdadeiro" a questão dos elementos nas situações 
diárias, a fim de que estas revelem os processos subjacentes em funcionamento. 
 
A etnometodologia está portanto firmemente comprometida com uma compreensão do 
"mundo da vida". Garfinkel reconhece uma sua dívida intelectual com Husserl, Schutz e 
Parsons, e seu trabalho pode talvez ser melhor entendido como um tipo específico de resposta à 
preocupação de Schutz com a análise da atitude natural. Como Giddens observa, Garfinkel 
 
está preocupado em como a atitude natural se realiza enquanto um fenômeno de atores na 
vida cotidiana ... Isto o conduz para fora da fenomenologia, com sua ênfase cartesiana sobre a 
(essencial ou existencial) primazia da experiência subjetiva, direcionada para o estudo das 
"ações situadas" como formas "publicamente" interpretadas. Não é difícil ver que a direção do 
movimento é para Austin, e para o último Wittgestein. Para a noção de atos ilocucionários, ou 
como Wittgestein diz, " que as palavras são também reais", embora, servindo para fins 
81 
descritivos ao invés de filosóficos, se ajusta muito proximamente com as preocupações de 
Garfinkel. (Giddns, 1976. p. 36) 
 
Giddens faz muito da convergênciade interesses na fenomenologia e na linguagem filosófica 
comum (como expressa no trabalho posterior de Wittgestein e seus seguidores) sobre o mundo 
cotidiano, e teremos de dizer mais acerca disto na seção que este capítulo. 
 
O débito de Garfinkel a Pansons expressa sua preocupação com a ordem social. A 
etnometodologia está claramente preocupada para proporcionar explicações na natureza 
ordenada do mundo social, e isto em grande parte pela razão de que, com os fenomenólogos e os 
inter-racionistas simbólicos, os etnometodólogos foram classificados como os "novos 
conservadores" da sociologia (Mc Nall e Johnson, 1975). Contudo, a abordagem 
etnometodológica se distingue significativamente daquilo que caracteriza o esquema personiano 
e outras escolas do pensamento característica do paradigma funcionalista. A preocupação não é 
explicar qualquer estrutura ordenada ou padronização de outros ou regularidades do 
comportamento humano; ao contrário, esta proporciona uma explicação da maneira pela qual os 
atores individuais aparecem para ordenar o mundo deles através do uso de várias práticas 
"consideradas". Os etnometodólogos estão interessados na maneira pela qual os atores tornam 
evidente e persuadem uns aos outros nos eventos e atividades nos quais eles estão envolvidos, 
estas são coerentes e consistentes. Eles estão preocupados em compreender os métodos que 
caracterizam este processo considerado. Do ponto de vista metodológico, a "ordem" dos 
acontecimentos humanos não existe independentemente das práticas consideradas empregadas 
na sua descoberta. 
 
Muitos etnometodologistas resistem muito energicamente a qualquer tentativa de ligar o 
trabalho deles com problemas convencionais e preocupações da sociologia acadêmica. Para eles, 
cada homem é seu próprio sociólogo, comprometido com o entendimento de sua vida cotidiana. 
Nesta conexão, Garfinkel traça a distinção entre os sociólogos "profissionais" e os "leigos", as 
atividades de ambos estão abertas à análise etnometodológica. A sociologia do profissional, 
equivalente a do leigo, pode ser considerada como um tipo específico de prática avaliativa. 
Como Giddens coloca, a "ciência social é uma realização prática como qualquer outra forma de 
atividade social, racionalmente avaliável, e pode ser estudada como tal" (Giddens, 1976, p. 39). 
Muitos etnometodólogos especificamente se dissociam da sociologia ortodoxa como tal, 
particularmente da orientação dirigida à "análise construtiva", e limitam seus esforços para a 
indexicabilidade das descrições cotidianas e das formas das quais eles as tornam racionalmente 
avaliáveis. 
 
A substância da etnometodologia está, portanto, em grande parte comprometida com um 
conjunto específico de técnicas e abordagens para serem usadas no estudo que Garfinkel 
descreveu como "indexicabilidade espantosa" da vida cotidiana. Esta é aparelhada para o estudo 
empírico, e a ênfase que seus praticantes dão a singularidade das situações encontradas, projeta 
uma estância essencialmente relativista. Um compromisso com o desenvolvimento da me-
todologia e do trabalho de campo tem ocupado o primeiro lugar no interesse de seus adeptos, de 
modo que as questões relacionadas a ontologia, a epistemologia e a natureza humana receberam 
menos atenção do que talvez mereciam. 
 
O Interacionismo Simbólico Fenomenológico. 
 
Lembremo-nos de nossa discussão na capítulo 4 que é possível distinguir duas tendências de 
interacionismo simbólico - o comportamental e o fenomenológico. Este último é tipificado por 
sua ênfase nas emergentes propriedades de interação, através das quais os indivíduos criam seu 
mundo social ao invés de meramente reagirem a ele. O significado é atribuído ao ambiente, não 
derivado e imposto aos atores individuais; a ação é construída ao invés de ser uma resposta ou 
mero mecanismo de liberação. Ambos grupos de inter-racionistas normalmente reconhecem sua 
principal dívida intelectual ao trabalho de G. H. Mead, embora, como argumentamos, eles 
tendam a interpretar isto de maneiras fundamentalmente diferentes. 
As diferenças entre os inter-racionistas fenomenológicos e comportamentais não são sempre 
tão claras quanto deveriam ser, visto que os primeiros têm freqüentemente sido atraídos para os 
métodos de pesquisa positivista que se contrapõe à sua orientação teórica básica. Como Douglas 
observou, "o problema geral da tradição interacionista do pensamento e da pesquisa em 
sociologia é que seus praticantes, raramente viam clara e consistentemente os fundamentos 
teóricos e as diferenças metodológicas entre uma sociologia positivista (absolutista) e uma 
sociologia fenomenológica ou existencial" (Douglas, 1920, p. 18). 
 
Esta confusão está também refletida no debate sobre se pode haver um síntese genuína entre o 
interacionismo simbólico e a etnometodologia. Norman Denzin, um proeminente interacionista 
simbólico, tem argumentado que é possível uma síntese; Don Zimmerman e Lawrence Wieder, 
dois proeminentes etnometodológicos, argumentaram que isto não é possível24. Interpretando o 
interacionismo de uma perspectiva etnometodológica ao invés de comportamental, no caso de 
Denzin repousa em grande parte sobre a visão de que tanto o interacionismo simbólico e quanto 
a etnometodologia cobrem em grande parte o mesmo terreno. Como ele coloca, 
 
O interacionismo simbólico engloba um grande número de problemas e particularidades 
tomadas agora como de competência da etnometodologia - isto é, que o estudo da conduta 
humana, dentro de qualquer tipo de ordem social, demanda consideração de como as pessoas em 
interação cooperam na construção de uma rotina, e no momento de tomar como verdadeiro um 
conjunto de significados necessários para a ação conjunta. Para o interacionista qualquer ordem 
social emerge do processo de interação de uma situação onde as pessoas levam em conta o 
ponto de vista dos outros. O fundamento de tais ordens se encontra no significado que as pessoas 
em interação trazem para os objetos e os atos que estão à mão. O significado surge da interação, 
e não de outra coisa ao redor. A tarefa do interacionista é descobrir como as pessoas em 
interação chegam a um acordo sobre certos significados e definições para a ação coordenada. O 
papel central do self em formar tais definições é de excepcional importância ... É necessário 
notar que somente uma concepção do processo de interação requer uma visão especial da 
pesquisa empírica... uma característica fundamental da pesquisa interacionista é a fusão do 
próprio self do pesquisador na posição daquele que ele está estudando (Douglas, 1970, pp. 296). 
 
Os etnometodólogos afirmam que uma das principais formas pela qual eles diferem deste 
ponto de vista é que eles tem uma visão fundamentalmente diferente do problema da ordem 
social e de sua análise. Zimmerman e Wieder afirmam que enquanto o interacionista trata o 
ponto de vista dos atores como apenas um aspecto do problema da ordem, buscando relacioná-lo 
com um contexto mais amplo em termos de descrição e explicações cientificamente válidas, o 
etnometodólogo limita suas atividades ao mundo do ator. Ele não está muito interessado, em ir 
além. Como ele coloca: "o etnometodólogo não está preocupado em prover explicações causais 
de ações de observabilidade regular, padronizada e repetitiva por algum tipo de análise do ponto 
de vista do ator. Ele está interessado em como os membros da sociedade se ocupam da tarefa de 
ver, descrever e explicar a ordem no mundo em que eles vivem" (Douglas, 1970, pp. 287-9). O 
etnometodólogo compromete-se muito mais plenamente com a perspectiva do ator do que o 
interacionista - há um maior compromisso em estudar o ator em seu próprio terreno. Denzin 
duvida que haja qualquer diferença radical entre as duas abordagens sobre este ponto e o debate 
continua sem conclusão. 
 
Para nossos propósitos aqui pareceque as similaridades entre as duas abordagens são de 
máxima importância, visto que elas definem claramente a maneira pela qual ambas, a 
etnometodologia e o interacionismo simbólico fenomenológico diferem de outras escolas do 
pensamento. Ambas seguem a tradição fenomenológica de atribuir a realidade social um status 
83 
ontológico muito precário. Reconhece-se que à realidade social abrange pouco mais que um 
complexo conjunto de tipificações que podem ser partilhadas intersubjetivamente. A noção de 
"tipo ideal", que na abordagem de Weber à sociologia interpretativa é oferecida meramente 
como uma ferramenta metodológica, assume status ontológico dentro do contexto da sociologia 
fenomenológica. Os sociólogos fenomenologistas reconhecem que a realidade social é criada e 
sustentada através do uso das tipificações ou "tipos ideais", na medida em que os indivíduos 
tentam ordenar e "dar sentido" ao mundo que eles vivem. Os etnometodólogos da lingüística 
tentam enfocar este assunto via entendimento da maneira pela qual as "práticas avaliativas" se 
desenvolvem, e eles enfatizam a linguagem como o principal meio através do qual as pessoas 
vêem e criam seu mundo social e através do qual os significados intersubjetivamente 
compartilhados podem surgir. Os 'etnometodológicos situacionais', como os inter-racionistas 
simbólicos fenomenológicos, estão mais interessados em estudar a maneira pela qual a realidade 
social reflete um precário equilíbrio dos significados intersubjetivamente partilhados, que são 
continuamente negociados, sustentados e transformados através da interação cotidiana dos seres 
humanos individuais. A realidade social é para eles ou reafirmada ou criada novamente em cada 
encontro social. 
 
A Subjacente Unidade do Paradigma. 
 
Os teóricos de todas as escolas de pensamento dentro do paradigma interpretativo tendem a 
partilhar uma perspectiva comum, no principal interesse de entender a experiência subjetiva dos 
indivíduos. Suas teorias são construídas do ponto de vista do ator individual em contraposição ao 
observador da ação; eles vêem a realidade social como um processo emergente - como uma 
extensão da consciência humana e da experiência subjetiva. Até onde um ambiente social mais 
amplo esteja de acordo com o status ontológico, a realidade social é considerada como a criação 
e a extensão da experiência subjetiva dos indivíduos envolvidos. Ontologicamente, as teorias 
características do paradigma interpretativo é indiscutivelmente nominalista; com relação à 
natureza humana, eles são essencialmente voluntaristas. 
 
Todas teorias construídas no contexto do paradigma interpretativo são anti-positivistas. Elas 
rejeitam a visão que o mundo dos acontecimentos humanos possam ser estudados à maneira das 
ciências naturais. No contexto do paradigma interpretativo o principal empenho é entender o 
mundo subjetivo da experiência humana. Manter a integridade dos fenômenos sob investigação, 
faz-se uma tentativa de entrar neles e de entendê-los de dentro. Resiste-se à imposição da forma 
externa e da estrutura, visto que isto reflete o ponto de vista do observador em contraposição ao 
ator diretamente envolvido. Favorece-se o método de estudo ideográfico ao invés do nomotético. 
 
Nestes aspectos as teorias características do paradigma interpretativo são significativamente 
diferentes daquelas do paradigma funcionalista. Embora certos teóricos neste último tenham 
tentado incorporar idéias e insights do primeiro, particularmente em termos de método (por 
exemplo, Weber e seu uso da noção de verstehen), os dois tipos de teoria permanecem 
fundamentalmente distintos. As suposições ontológicas de uma teoria verdadeiramente in-
terpretativa não permitem um perspectiva funcionalista; os dois tipos de teorias estão baseados 
em fundamentalmente diferentes suposições com respeito do status ontológico do mundo social. 
 
Ao mesmo tempo há pontos de similaridade entre as teorias interpretativa e funcionalista - 
similaridades que se tornam claramente evidentes quando estas teorias são comparadas suas 
contrapartes nos paradigmas humanista radical e estruturalista radical. As teorias interpretativa e 
funcionalista refletem uma preocupação comum com a sociologia da regulação. De um modo 
geral, as teorias interpretativas se concentram no estudo das maneiras como a realidade social é 
significativamente construída e ordenada do ponto de vista dos atores diretamente envolvidos. 
Elas representam uma perspectiva na qual os atores individuais negociam, regulam e vivem suas 
vidas dentro do contexto do status quo. O fato de que as teorias interpretativas são moldadas à 
forma da sociologia da regulação reflete o quadro de referência de seus proponentes ao invés de 
suposições metodológicas e ontológicas básicas. Como veremos no Capítulo 8, a hermenêutica 
nas mãos de Habermas e a fenomenologia nas mãos de Sartre são direcionadas para diferentes 
fins dentro do contexto de uma sociologia da mudança radical. 
 
Se a alguém fosse exigido uma simples linha de divisão entre as teorias localizadas no 
contexto do paradigma interpretativo, talvez a mais significante teria sido aquela entre a 
orientação altamente subjetivista do solipsismo e da fenomenologia transcendental de um lado e 
a fenomenologia existencial, a sociologia fenomenológica e a hermenêutica do outro lado. 
Considerando que a primeira se inicia com uma viagem ao domínio da subjetividade pura e 
permanece dentro dos limites puramente do discurso filosófico, a segunda está mais envolvida 
com o "mundo da vida" e é responsável pelo estudo de uma perspectiva mais sociológica. Dentro 
do contexto da segunda é importante observar uma convergência do interesse sobre o papel da 
linguagem como um meio de atividade social prática. A fenomenologia existencial, a 
etnometodologia e a hermenêutica têm características em comum com a teoria da linguagem 
como desenvolvida no trabalho de Wittgenstein (1963) e seus seguidores.25 Todas estas áreas de 
análise enfatizam a importância do significado no contexto. Como Wittgenstein coloca "uma 
expressão só tem significado no fluxo da vida". Na linguagem, como em outras áreas de ati-
vidade social, o processo de comunicação é uma realização contínua caracterizada pela 
indexicabilidade e reflexividade. Toda atividade humana é muito aceita como verdadeira, e o 
que constitui realidade depende das regras que subjazem aquilo que Wittgenstein chama de 
"formas de vida". 
 
Estas noções tem implicações fundamentais para nossa visão de ciência, visto que se segue 
que o que se coloca como ciência é não mais que uma particular forma de vida ou jogo de 
linguagem. A ciência está baseada em suposições "dadas como verdadeiras", e portanto, como 
qualquer outra prática social, deve ser entendida dentro de um contexto específico. Localizadas 
por suas origens, todas as atividades que se colocam como ciência podem ser descobertas pelos 
pressupostos fundamentais relacionadas com a vida cotidiana e não podem de forma alguma ser 
consideradas como gerando conhecimento com um status "objetivo", livre de valor, como 
algumas vezes se pretende. O que se tem como conhecimento científico pode ser mostrado ser 
encontrado em uma série de convenções não afirmadas, crenças e suposições exatamente como é 
o conhecimento do senso-comum do dia a dia . A diferença entre eles repousa em grande parte 
na natureza das regras e da comunidade que os reconhece e os subscreve. O conhecimento em 
ambos os casos não é tão "objetivo" como partilhado. 
 
Esta visão se compara com a visão de ciência articulada por Kuhn (1970) e a noção de 
paradigma. Em essência, seu trabalho representa uma característica da perspectiva teórica do 
paradigma interpretativo - uma teoria na tradição da análise das múltiplas realidades de Schutz e 
das "formas de vida" de Wittgenstein. Aqui o conhecimento científicoé em essência socialmente 
construído e socialmente sustentado; sua importância e significado podem só ser entendidos 
dentro de seu contexto social imediato. 
 
Esta visão de ciência é explicitamente reconhecida no trabalho dos fenomenólogos e 
etnometodólogos operando dentro do paradigma interpretativo. Explica em parte a medida de 
suas indiferenças em relação aos paradigmas funcionalista e estruturalista radical, ou o profundo 
ceticismo com que eles vêem o trabalho dos teóricos operando dentro destes contextos, e seus 
vigorosos esforços para construir teorias sociais baseadas em uma visão fundamentalmente 
diferente do papel e natureza da ciência. 
 
 
 
NOTAS E REFERÊNCIAS 
85 
 
1. Hughes identifica a geração de influentes escritores durante o período 1890-1970 como 
segue: Freud (nascido 1859), Durkheim (1858), Mosca (1858), Bergson (1859), Croce (1866), 
Benda (1867), Pirandello (1867), Alain (1868), Proust (1871), Peguy. 
 
7. O PARADIGMA INTERPRETATIVO E O ESTUDO DAS ORGANIZAÇÕES 
 
 
Burrel & Morgan, Sociological Paradigms and Organizacional Analysis, Heinemann, London, 
1979. 
 
 
Como ficou claro a partir de nossa discussão do capítulo anterior, a história intelectual do 
paradigma interpretativo é tão complexa e conceitualmente rica quanto a do paradigma 
funcionalista. Os pressupostos que fundamentam este paradigma com relação ao status 
ontológico do mundo social contestam a utilidade de se construir uma ciência social que enfoque 
a análise de 'estruturas’. Ele rejeita qualquer visão que atribua ao mundo social uma realidade 
que seja independente da mente dos homens. Ele enfatiza que o mundo social é não mais do que 
uma construção individual subjetiva dos seres humanos que, pelo desenvolvimento e uso da 
linguagem comum e da interação do dia a dia, pode criar e sustentar um mundo social de 
significados compartilhados intersubjetivamente. O mundo social é portanto de natureza 
essencialmente tangível e está em contínuo processo de reafirmação ou mudança. 
 
Tal visão não permite a existência de organizações em qualquer sentido sólido e concreto. 
Enquanto certas escolas de pensamento aceitam o conceito de organização e seu uso como uma 
'prática cumulativa' através da qual as pessoas tentam dar significado ao seus mundos, os 
teóricos da corrente interpretativa não reconhecem as organizações como tal. Do ponto de vista 
deste paradigma, as organizações simplesmente não existem. 
 
Falando estritamente, portanto, a possibilidade de existir uma teoria de organização com as 
características do paradigma é, de certo modo, contraditório. Entretanto, em anos recentes um 
número de teóricos dentro deste paradigma se envolveram em um debate sobre vários aspectos 
da vida organizacional. Eles agiam como sociólogos interessados em demonstrar a validade de 
seus pontos de vista contra a ortodoxia prevalecente característica do paradigma funcionalista. 
Como ficou aparente de nossa discussão no Capítulo 5, a maioria dos teóricos de organizações 
tendem a tratar seu sujeito de estudo como um fenômeno empírico sólido, concreto e tangível 
que existe 'lá fora' no 'mundo real'. Os sociólogos da corrente interpretativa se opõem firmemente 
a tal 'absolutismo estrutural', argumentando que a ciência social poderia ser fundamentalmente 
baseada em diferentes suposições sobre o status ontológico do mundo social. A fim de 
demonstrar este ponto de vista eles têm se engajado em pesquisas designadas a ilustrar a falácia 
do ponto de vista funcionalista. Eles têm procurado mostrar como os aspectos da vida 
organizacional supostamente 'reais', sólidas, concretas e tangíveis são dependentes das 
construções subjetivas dos seres humanos individualmente. Ao procederem assim eles 
produziram uma certa quantidade de literatura que tem considerável relevância para nossa 
análise aqui, uma vez que abre um debate sobre os pressupostos que subjacem a ortodoxia 
contemporânea em teoria de organizações. Entretanto, esta literatura não está isenta de 
problemas uma vez que ao tentar combater as noções que informam as abordagens funcionalistas 
mais ortodoxas do estudo da vida organizacional, o sociólogo interpretativo tem entrado numa 
batalha no campo de seus oponentes. Ao adotar posições reativas freqüentemente endossam, por 
conseqüência, a validade de certas suposições que servem de base para definir a problemática 
funcionalista. Conseqüentemente, suas posições são freqüentemente contraditórias, e tendem a se 
tornar uma divergência entre pronunciamentos teóricos e suposições refletidas na pesquisa 
empírica. 
 
Neste capítulo esperamos promover alguns meios de clarear os assuntos aqui apresentados. 
Poderemos ver alguma literatura e tentar avaliá-la em termos das suposições na qual ela se 
baseou. Esta literatura está confinada às perspectivas descritas no capítulo anterior como 
87 
etnometodologia e como interacionismo simbólico fenomenológico embora, como já sugerimos, 
não desejamos colocar tantã ênfase na importância desta distinção. 
 
 
Abordagens Etnometodológicas ao Estudo 
das Atividades Organizacionais. 
 
Uma das mais antigas críticas etnometodológicas à teoria funcionalista das organizações é 
encontrada no artigo de Egon Bittner 'O Conceito de Organização', publicado pela primeira vez 
em 1965. Neste artigo Bittner argumenta que os teóricos em organização, que definem as 
organizações como 'organizações estáveis de pessoas engajadas em atividades conjunta dirigidas 
ao atendimento de objetivos específicos', tende a tornar o conceito de estrutura organizacional 
como não problemático. Ele argumenta que a noção de estrutura representa não mais do que uma 
suposição de senso comum de certos atores dentro de uma dada situação. Tomar esta suposição 
de senso comum pela exata significação do termo e usá-la como base para a análise 
organizacional é pois repleto de dificuldades. Com efeito, ele argumenta que o sociólogo que usa 
tal conceito como um 'recurso' para explicar as atividades organizacionais está cometendo um 
erro fundamental, e que tais conceitos poderiam ser o 'tópico' ao invés da ferramenta de análise. 
No decorrer de seu argumento Bittner ilustra seu caso em relação aos trabalhos de Selznick e 
Weber, e sugere que suas teorias estão baseadas em uma série de pressuposições não expressas e 
de atalhos teóricos que constroem um manto protetor em torno do tema em estudo. O conceito de 
burocracia, por exemplo, forma-se a partir de informações de fundo que normalmente os 
membros competentes da sociedade tomam por certo como usualmente já conhecido. Ao 
elaborar isto Bittner sugere que Weber está conivente com aqueles sobre os quais teoriza. Ele 
muito enfaticamente resume seu ponto de vista nos seguintes termos: "Se a teoria da burocracia é 
mesmo uma teoria de fato, ela é uma versão refinada e purificada da teorização do ator. Na 
medida em que ela é um refinamento e uma purificação ela é, pelo que já foi dito, uma versão 
corrupta e incompleta dela mesma; uma vez que não é garantido reduzir os termos do discurso 
do senso comum a um dicionário de significados culturalmente codificados para satisfazer aos 
requisitos de postulações teóricas" (Bittner, 1974, p. 74). 
 
No lugar desta versão 'corrupta' e 'incompleta' da teorização do ator sobre as estruturas 
organizacionais, Bittner sugere o estudo de organização como um construtor do senso comum 
em que o 'metodólogo' deve estar envolvido com os procedimentos e considerações que os atores 
invocam na construção de seus mundos. Na última parte de seu artigo Bittner prossegue 
desenvolvendo uma explícita abordagem etnometodológica para as construções racionais 
agrupadas sob o conceito de organização, que reflete um programa de investigação ao invés de 
um interesse específico na produção de uma teoria de organizações como tal. Nela Bittner supõe 
que o ator em uma organizaçãonão é um espectador desinteressado mas um instrumentista 
usando o conceito de organização de uma certa maneira relativamente específica e por certas 
razões variáveis. Ele sugere que os atores organizacionais podem, por exemplo, usar o conceito 
de organização racional como uma 'abertura de complacência' em que se invocam certas regras 
de conduta ao simplesmente se fazer usar o termo. Por outro lado , há um 'campo aberto de livre 
desenvolvimento' dentro e fora das regras que se apresenta para nós com a oportunidade de 
'alcançar uma compreensão do significado que elas têm como construtos do senso comum a 
partir da perspectiva das pessoas que as promulgam e vivem com elas’. Ademais, o conceito de 
organização formal' atua como um 'modelo de unidade de estilo' e como uma 'referência 
corroborativa', duas noções inter-relacionadas preocupadas com regulação e disciplina de 
comportamento nos contextos organizacionais. Tomadas em conjunto com a 'abertura de 
complacência' elas formam três maneiras dentro das organizações em que competentes usuários 
do termo 'organização formal' utilizam-no como um mecanismo de controle. Nesta maneira a 
análise de Bittner aponta na direção de se entender o modo como o mundo organizacional é 
construído pelos atores envolvidos. 
 
O principal ataque do artigo de Bittner repousa na sugestão de que o conceito de organização 
e assuntos correlatos tais como estrutura, hierarquia e eficiência, são construtos sociais 
problemáticos. Ele argumenta que estes construtos poderiam ser o tópico de pesquisa em análise 
sociológica e não poderia ser tomada como verdadeiros. Contudo, em trabalho subseqüente, 
Bittner e seus seguidores nem sempre provaram ser coerentes com estes requisitos. Seu artigo 
'The Pólice on Skid Row' (1967), por exemplo, claramente ilustra isto. 
 
A pesquisa de Bittner com os departamentos de polícia de duas grandes áreas urbanas usou as 
práticas contábeis de funcionários da polícia como seu foco de atenção analítico. Ao centrar 
atenção no Skid Row que é visto pela policia como uma área especial divorciada da sociedade 
em geral, caracterizado por uma violência gratuita, incerteza no comportamento humano e de 
uma mutante e desinteressada população de desviantes maltrajados, Bittner é capaz de retratar o 
policial como o 'definidor da situação' por excelência. O papel de 'mantenedor da paz' adotado 
pela polícia no Skid Row permite-os considerável liberdade de ação, relativamente não coibido 
pelo judiciário e pela autoridade central, como um resultado para o qual eles estão livres para 
definir o comportamento das pessoas no local, a motivação e as ações passadas somente em 
termos de suas expectativas. 
 
Não obstante, Bittner deu-se o trabalho de apontar que o Skid Row. Não é usual, já que os 
homens que o patrulham Não estão sujeitos a 'qualquer sistema de controle externo'. 
Implicitamente, portanto, e pela porta traseira de sua análise, a noção de estrutura social e 
organizacional aparece em cena. Em um certo ponto de sua análise Bittner introduz o conceito de 
'determinantes estruturais' mas tenta defini-las de maneira subjetiva como 'situações típicas que 
os policiais percebem como condições de demanda para ação sem prisão'1. O que parece 
implicar, aqui e por todo o artigo, é que os fatores estruturais tanto ao nível social como 
organizacional tendem a ter menos impacto no desempenho dos papeis de policiais no Skid Row 
do que em qualquer outra parte. O artigo não questiona a natureza problemática dos conceitos de 
'controle externo', 'sociedade em geral', 'normalidade' e 'superioridade'. Um tanto 
paradoxalmente, portanto, ao invés do estudo do Skid Row representar uma refutação 
etnometodológica da importância dos fatores estruturais, o muito de sua excepcionalidade parece 
salientar o impacto crucial da estrutura na vida cotidiana 'normal'. A pesquisa de Bittner torna-se 
importante ao demonstrar o papel das práticas acumulativas na construção social da 'realidade', 
mas ela é apresentada de tal modo ao reacender no leitor investigante a crença na existência de 
'estrutura' dentro de um vasto segmento da sociedade que não é Skid Row. Portanto, enquanto o 
artigo teórico de Bittner "O Conceito de Organização" adverte do perigo de 'conluio' ou 
cumplicidade dentro do tema sob. Investigação, o trabalho empírico de mais ou menos dois anos 
depois parece cair na própria armadilha. O próprio esquema de suposições que dão suporte são 
atribuídos a uma serie de relações organizacionais e sociais que parecem ser aceitas sem 
questionamento. 
 
Esta discrepância entre o pronunciamento teórico e a pesquisa empírica também caracteriza o 
trabalho de Don Zimmerman e seus associados. Em certos artigos Zimmerman adere a uma 
ontologia nominalista característica do paradigma interpretativo, mas em outros ele muda em 
direção muito mais objetivista. No artigo escrito com Wieder (1970), por exemplo, o mundo 
social é visto como um produto direto da consciência humana. Os autores especificamente 
rejeitam a noção de que existem significados compartilhados intersubjetivamente, normas e 
valores através dos quais as atividades dos indivíduos se orientam. Ao invés disso eles 
consideram a presença aparente de tais fenômenos sugerindo que os seres humanos 
'continuamente confiam e, quando pressionados, insistem nas capacidades dos outros em 
descobrir um sentido presumidamente compartilhado no que eles estão dizendo' (Zimmerman e 
Wieder, 1970, p. 294). Em outras palavras, eles enfatizam que o mundo social é criado através 
de praticas acumulativas dos indivíduos na medida em que se engajam em atividades cotidianas 
89 
rotineiras. A ontologia nominalista refletida neste ponto de vista é perfeitamente consistente com 
as suposições que caracterizam o paradigma interpretativo. 
 
Em dois artigos apresentando o resultado de trabalho empírico Zimmerman toma um caminho 
diferente. Teos e mente aqui "As Praticalidades da Regra de Uso" (1970 a) e "A Manutenção de 
Registro e o Processo de Entrada em Uma Organização de Bem Estar Público" (1970 b). Ambos 
estão baseados em pesquisas nos escritórios de um Bureau Estadual de Assistência Pública; o 
primeiro chamando a atenção para a 'função de recepção' não tanto em termos do trabalho 
prescrito, mas do ponto de vista dos próprios recepcionistas. Como um artigo ele examina certos 
aspectos das atividades de trabalho destes atores burocráticos, particularmente seus papeis em 
induzir em suas rotinas organizacionais as pessoas que se inscrevem para assistência pública. 
Seguindo Bittner, Zimmerman ataca a noção de que uma estrutura de organização formal é uma 
facticidade não problemática chamando atenção para o fato de que o assunto sobre que regras, 
políticas e objetivos significam para o ator burocrático em ocasião concreta de seus usos (por 
exemplos, para guiar, avaliar ou para justificar a ação) podem ser tratados como problemáticos' 
(Zimmerman, 1970 a, p.224). O artigo mostra muito claramente que os indivíduos usam as 
regras de organização para relacionar com os requisitos. Para Zimmerman, é a interpretação do 
recepcionista que é crucial e não o suposto fato de que as regras e os regulamentos existem 'fora' 
dos indivíduos envolvidos em qualquer senso objetivamente definido, fixo e solto. O 'uso 
competente' de uma regra, que por si só não pode jamais ser completamente determinante do 
comportamento, repousa atrás da reprodução de um estado de coisas 'normal' do dia a dia. 
Contudo, Zimmerman aceita claramente a facticidade de estruturas organizacionais e a existência 
de regras impostas de fora. O que ele sugere como o fez Bottner antes dele, é que o movimento 
dentro da estrutura é possível. Ontologicamente, isto se coloca em total contraste com seu artigo 
teórico escrito com Wieder (1970). Embora exista uma marcante medida de voluntarismo 
comum aos dois artigos, uma vez queos seres humanos vistos como 'competentes usuários de 
regras' sejam relativamente livres para criar seu próprio mundo social, os fundamentos 
ontológicos parecem diferir entre os trabalhos teórico e empírico. No primeiro o mundo social é 
em grande medida um produto da consciência; no último uma vaga e inquietante ambiência da 
'estrutura', obscurecida e ameaçadora mas não inteiramente discernível, é sentida como o 
'verdadeiro' âmago da realidade social. 
 
A 'presença' estrutural está também evidente em outras partes de Zimmerman sobre 'o sensível 
trabalho de entrada' (1970 b). O trabalhador-de-casos do Bem Estar social, do mesmo modo que 
o recepcionista, está engajado em um processo continuo de interpretação de quantas das histórias 
do cliente são ficção e quantas são 'fatos'. A documentação aqui é crucial e o registro do caso é 
de particular importância como um exemplo de uma tentativa de montar o mundo de um cliente, 
que é inerentemente governado por regras e cujos dados são acumulados através de reconstrução 
post facto como uma reminiscência da noção de reflexividade de Schutz. Este conjunto de 'fatos' 
documentados deste modo assumem uma facticidade e imutabilidade, e são vistos como 
objetivos, destacados e inerentemente confiáveis. Para o trabalhador-de-casos o mundo é visto 
como não-problemático, na verdade é visto como óbvio, e os registros de casos refletem esta 
suposição. Zimmerman admite que as restrições externas são importantes. Por exemplo, ele 
afirma que rapidez e verificação são centrais para o papel de trabalhador-de-casos, mas fica por 
conta do leitor inferir que isto é devido a posição do trabalhador de casos dentro da hierarquia 
organizacional com suas próprias regras e procedimentos disciplinares. Esta aceitação do status 
ontológico de estruturas organizacionais não é consonante com a ontologia nominalista 
característica do trabalho mais teórico de Zimmerman. 
 
As teoria e pesquisa tanto de Bittner como de Zimmerman é portanto caracterizada pelo que 
pode ser usualmente descrito como uma forma de 'oscilação ontológica'. Analiticamente eles 
enfatizam uma posição altamente subjetivista que nega a existência de estruturas sociais e de 
realidades sociais concretas de qualquer forma. Porem a tentativa de operacionalizar suas idéias 
dentro de um contexto empírico leva-os freqüentemente a admitir uma forma mais realista de 
ontologia por portas travessas. Uma vez que isto é não-intencional, faz pesar grandes 
dificuldades para os estudantes tentarem entender seus trabalhos e distingui-los da típica 
pesquisa, por exemplo, do quadro de referência de ação e do interacionismo característico do 
paradigma funcionalista. Porem esta oscilação ontológica é prevalente em todas as formas de 
sociologia fenomenológica que tenta ilustrar suas proposições básicas através de estudos 
empíricos de situações tiradas da vida cotidiana. 
 
Isto é característico, por exemplo, do trabalho de David Silverman que, desde sua advocacia 
do quadro de referência da ação (Silverman, 1970), tem produzido trabalhos com 
significantemente diferentes orientações. Como já argumentamos no Capítulo 5, Silverman, 
como muitos outros teóricos que têm adotado o quadro de referência da ação como base para 
análise, freqüentemente têm buscado inspiração nos escritos de teóricos mais 
fenomenologicamente orientados, particularmente Schutz. Contudo, ao seguir Weber, eles 
usaram o contexto da ação como uma ferramenta para estudar uma realidade social relativamente 
'realística', ignorando grandemente as implicações ontológicas que refletem suas estruturas. 
Como já mostramos no Capitulo 6, o verdadeiro significado da sociologia fenomenológica 
repousa em seu reconhecimento do status ontológico de tipificações ou 'tipos ideais' que abrange 
o cerne da realidade social. No livro A Teoria das Organizações (1970), Silverman reconhece 
que a realidade é socialmente construída, socialmente sustentada e socialmente mudada, porem 
ele interpreta isto essencialmente como indicando a necessidade para as teorias sociais adotarem 
uma teoria de ação mais voluntarista e para evitar a reificação do fenômeno social. Em outras 
palavras, como já argumentamos em profundidade no Capítulo 5, Silverman (1970) adere a uma 
visão da natureza humana altamente voluntarista mas somente para uma ontologia, uma 
epistemologia e uma metodologia característica da região subjetivista do paradigma 
funcionalista. A Teoria das Organizações é endereçada aos teóricos de organizações que mantêm 
uma visão funcionalista da realidade social; sua principal contribuição reside na advocacia de 
uma metodologia particular para estudar aquela realidade. 
 
Em seu trabalho mais recente (Filmer et al., 1972; Silverman, 1975 a, 1975 b; Silverman e 
Jones, 1973, 1976), Silverman perseguiu as latentes questões fenomenológicas que ocupam um 
papel de pano de fundo na Teoria das Organizações e adotou uma posição firmemente localizada 
dentro do contexto do paradigma interpretativo. Uma comparação do conteúdo deste trabalho 
com o da A Teoria das Organizações ilustra claramente as implicações da mudança de 
paradigma. Para os teóricos de organizações localizados dentro do paradigma funcionalista, o 
recente trabalho de Silverman usualmente parece confuso, se não ininteligível, e grandemente 
rejeitado como imprestável, se não irrelevante. Contudo do ponto de vista do paradigma 
interpretativo, ele contem insights genuínos e tem grandemente contribuído para o debate em 
círculos contemporâneos interessados na sociologia fenomenológica. 
 
O recente trabalho de Silverman busca prover uma interpretação etnometodológica de várias 
atividades dentro do contexto de situações organizacionais.2 A publicação de Novos Rumos em 
Teoria Sociológica (1972), escrito em conjunto com Filmer et al, marca um explícito movimento 
na direção de uma ontologia característica do paradigma interpretativo. Neste trabalho Silverman 
e seus colegas buscam trocar as perspectivas sociológicas afastando-se da ortodoxia 
funcionalista e rumando para abordagens de inspiração mais fenomenológica. O capítulo 6 é de 
particular interesse uma vez que ele diz respeito ao estudo específico das atividades 
organizacionais. Nele Silverman ataca a teoria de organização funcionalista por sua excessiva 
crença nos 'fatos sociais' e, ao retirar dos trabalhos de Bittner (1965), Zimmerman (1970 a) e 
Sudnow (1965), argumenta que as 'regras' organizacionais são, de fato, as 'continuas realizações 
práticas' dos membros da organização. Silverman faz esforço para rejeitar o 'absolutismo 
estrutural' da maior parte da teorização sociológica, particularmente por ignorar 'a relação 
processual entre sujeito e objeto no mundo social, isto é, o reconhecimento do caráter 
91 
intersubjetivo da vida social' (Filmer et al., 1972, p. 168). Nesta parte do trabalho Silverman 
percebe a sociologia fenomenológica como imbuída não só com a 'experiência única' mas 
também com a comunalidade dos 'matérias primas' notadamente a linguagem, que sustenta a 
experiência social como um todo. Silverman parece aceitar que há uma realidade compartilhada 
intersubjetivamente que se oferece à investigação pelo sociólogo fenomenologista. 
 
No artigo 'Conseguindo: As Realizações Conseguidas como Conseqüências de Seleção 
"Correta" (Silverman e Jones, 1973), fica evidente uma mudança de atenção, em que se coloca 
considerável ênfase não só na comunalidade da matéria prima que suporta a experiência social, 
mas também nos pontos de vista conflitantes da realidade que caracterizam uma dada situação. O 
estudo apresenta um relato preliminar da pesquisa empírica sobre entrevistas de seleção de 
auxiliares numa grande organização. Ele mostra a maneira como a situação de entrevista é 
construída em torno de trocas verbais e não-verbais em que motivos e qualidades pessoais são 
atribuídas aos outrosatravés do uso de tipificações, e como a entrevista pode ser vista como um 
processo de acumulação influenciado pela necessidade de 'contabilização de autoridade' através 
da qual ele pode se tornar avaliável para outras pessoas. Silverman e Jones demonstram como a 
situação de entrevista é caracterizada por realidades múltiplas, na medida em que as pessoas 
tentam dar sentido à situação. Como eles chamam atenção, seu foco teórico é a idéia de que 'a 
constatação de qualquer realidade deriva sua racionalidade não de sua correspondência com 
algum mundo objetivo mas da habilidade de seus ouvintes (leitores) darem sentido ao que levam 
em conta no contexto das ocasiões socialmente organizadas de seu uso (e deste modo, tratá-lo 
como correspondendo a um mundo objetivo)' (Silverman e Jones, 1973, pp. 63-4). Este foco 
reflete claramente a ontologia nominalista característica do paradigma interpretativo, com 
Silverman e Jones enfatizando como a realidade é específica de contextos sociais particulares. 
Contudo, do mesmo modo que muitos dos outros estudos fenomenológicos, a presença de 
estrutura sob a forma de influencia hierárquica e de 'grupos de vigilância científicos' fica de 
espreita na retaguarda como uma força influenciando a necessidade de 'acumulação autoritária' 
de eventos e do atingimento de 'corretos' resultados de seleção. 
 
No artigo 'Acumulações das Organizações' (Accounts of Organizations) Silverman retorna a 
uma posição que se aproxima daquela refletida em seu trabalho de 1972, com uma crítica às 
concepções funcionalistas da organização a partir de uma ponto de vista etnometodológico. 
Neste artigo ele enfatiza a necessidade, por exemplo, de entender as atividades organizacionais 
em termos das práticas cumulativas e de entender a burocracia "não como 'um objeto' em si 
mesmo mas como uma categoria de linguagem que proporciona para a representação do objeto 
qualidades de uma atividade (Silverman, 1975 a, 296). Suas premissas ontológicas, embora 
consistentes com a posição dentro do paradigma interpretativo, não são tão subjetivistas como 
aquelas refletidas no 'Getting In' (Silverman e Jones, 1973). 
 
O livro O Trabalho Organizacional (Silverman e Jones, 1976) dá o testemunho de uma outra 
mudança. Este livro apresenta o relato final do trabalho empírico dos autores sobre o processo de 
seleção do staff dentro de uma situação organizacional e centra seu foco nas relações de poder e 
autoridade refletida na linguagem usada no contexto organizacional. Silverman e Jones relatam 
como uma 'vigorosa olhada' em suas fitas de entrevista revelaram que os membros da 
organização em suas interações e procedimentos acumulativos tinham 'configurado' 
conceituações de 'hierarquia'. Enquanto isto é visto como dando evidencia em favor de uma 
construção e reconstrução fenomenológica da estrutura organizacional (onde as pessoas criam 
estruturas por meio de suas práticas de acumulação), Silverman e Jones argumentam que ela não 
é para 'ser construída como uma negação solipsista do caráter factual das estruturas 
organizacionais', uma vez que a realidade delas é 'inegável' (Silverman e Jones, 1976, p. 20). Tal 
afirmação sobre o status ontológico das estruturas, que lhes atribui uma existência em seus 
próprios termos, está bem longe de se manter coerência com as posições articuladas no trabalho 
anterior já acima referido e comprova o que parece ser uma importante mudança de orientação 
teórica. Enquanto Silverman e Jones não negam o papel que os indivíduos desempenham na 
construção de seu mundo social, eles continuam a argumentar que a natureza das praticas de 
acumulação sustentam 'toda a nossa tão real comunidade tecnológica/burocrática', e que nossa 
fala e linguagem discursiva tendem a nos fechar em um papel relativamente passivo como 'meros 
funcionários' dentro de nossa sociedade atual. Eles ilustram seus pontos de vista por meio da 
evidência da pesquisa empírica sobre entrevista que empreenderam, demonstrando 'a graduação 
da linguagem' na qual a fala e os relatos escritos refletem a natureza hierárquica do contexto em 
que estavam localizadas. Os elementos de graduação ou hierárquicos no processo de entrevista, 
por exemplo, são vistos com estando ligados a 'princípios de racionalidade' em que há (1) 
premissas que todos podem aceitar, (2) passos que todos podem seguir e (3) conclusões que 
todos devem aceitar. Estes cânones passam a ser usados nas organizações como legítimos 
dispositivos para definir a 'seriedade' ou autenticidade das acumulações da comunidade. O 
paralelo entre esta análise e a teoria da 'distorção comunicativa de Habermas, que discutiremos 
no próximo capítulo, é particularmente notável, embora os autores não especificamente aceitem 
a ligação. Contudo, eles identificam semelhanças com o trabalho de Heidegger e Marx. 
Silverman e Jones argumentam que entrevistas de seleção são uma forma de avaliação, e que isto 
envolve estratificação na sociedade cuja 'forma de vida' é vista, em essência, como um mercado 
em que linguagem e fala constituem mercadorias. Tanto Heidegger como Marx são vistos como 
tendo reconhecido isto em suas diferentes trajetórias. estabelecer gradação e acumular gradação 
torna-se, para Silverman e Jones, um trabalho alienado, 'em que os homens são relacionados a 
seus modos de falar do mesmo modo com a um objeto alheio; no que eles usam a palavra para 
fazer coisas (como graduar) mas ao usá-la tornam-se dominados por ela vez que a forma de vida 
que produz esta fala inteligível desumaniza as atividades humanas (tornando-as coisas)' 
(Silverman e Jones, 1976, p.172). O trabalho alienado assim forma um nexo com a natureza 
hierárquica de nossa existência mundana e com a predominância do 'valor de troca' como padrão 
de discurso dentro de nossa sociedade. Deste modo Silverman e Jones concluem que nossa 
estrutura social atual requer uma graduação de linguagem, que ela própria afirma 'hierarquia de 
mercado e uma separação do Ser do Escrito'. 'O que', perguntam eles, 'poderia ser semelhante a 
não mais a escrever meramente como um funcionário?' (Silverman e Jones, 1976, p. 180). 
 
Ao descobrir as relações de poder e autoridade dentro das praticas de acumulação, linguagem 
e 'atos da fala', Silverman e Jones estão, com efeito, articulando uma perspectiva característica da 
abordagem hermenêutica à teoria crítica dentro do paradigma do humanismo radical. Como 
notamos acima, ela tem muito em comum com o trabalho de Habermas e deve ser vista com uma 
grande mudança na orientação teórica. A oscilação ontológica característica de seu trabalho 
anterior fica resolvido, talvez inadvertidamente, através do reconhecimento de uma dimensão de 
poder e dominação sob o continuo processo através do qual a realidade social é criada e 
sustentada. Esta dimensão do poder é capaz de levar em conta a aparente presença de fatores 
estruturais dos fundamentos que suportam os relatos de trabalhos empíricos, mas não é 
inteiramente consistente com a sociologia fenomenológica característica do paradigma 
interpretativo, uma vez que implica que a construção social da realidade é subscrita por um 
forma disfarçada de dominação ideológica. A orientação essencialmente conservadora da 
sociologia interpretativa, com seu interesse em entender como os indivíduos criam e impõem 
ordem em seus mundos, é deslocada ao longo da dimensão regulação-mudança radical de nosso 
esquema analítico pela preocupação do humanismo radical em entender como os indivíduos 
caem na armadilha como 'meros funcionários' dentro do contexto de uma formação social alheia 
à natureza de seu verdadeiro ser. 
 
INTERACIONISMO SIMBÓLICO FENOMENOLÓGICO E O ESTUDO 
DAS ATIVIDADES ORGANIZACIONAIS 
 
O foco de interesse do interacionismo simbólico fenomenológico difere daquele da 
etnometodologia no grau de atenção devotada a maneira como a realidade social é negociada 
93 
atravésda interação. Enquanto o etnometodologista usualmente focaliza a maneira como os 
atores individuais prestam contas de e dão sentido a seus mundos, o interacionismo simbólico 
fenomenológico foca os contextos sociais em que os indivíduos em interação empregam uma 
variedade de práticas para criar e sustentar definições particulares do mundo. Eles demonstram 
como 'realidade' e 'fatos' são essencialmente criações sociais, negociadas através da interação o 
de vários temas em competição e de definições de realidade. Consideraremos aqui dois estudos 
que ilustram esta abordagem. 
David Sudnow em 'Crimes Normais' (1965), tenta demonstrar a maneira em que sentenças 
criminais em certas cortês nos Estados Unidos são negociados através da interação entre o 
Procurador do Distrito, o Promotor Público, o Defensor Público e o réu. Sudnow explica que, 
numa tentativa de acelerar o andamento através das cortês e reduzir o acúmulo de trabalho, o réu 
pode ser persuadido a pleitear culpa em troca de uma taxa e de uma sentença reduzidas. Isto 
ocorre no contexto de uma negociação consistindo de uma oferta por parte do Procurador do 
Distrito para alterar a taxa original. Contudo, tal oferta tem se mostrado dependente de e o crime 
cometido pelo réu se enquadra nas 'tipificações' classificadas pelas partes legais em seus 
arquivos-de-casos guardados na mente como 'crime normal'. O processo legal, que usualmente é 
visto como governado por e limitado pela natureza do código penal, é mostrado operar por meio 
de um processo de interação e negociação mediado por realidades socialmente construídas 
aderidas às partes envolvidas. Isto demonstra que o código legal e as estatísticas criminais, que 
são comumente tratados como 'fatos sociais' concretos, não são de maneira alguma confiáveis e 
descrições de contornos bem definidas do que são as realidades sociais particulares. A 
implicação é que a realidade social é negociada e socialmente sustentada, mesmo dentro de um 
contexto de regras limitadoras e de situações burocráticas firmemente controladas. 
Uma perspectiva similar fica evidente no 'Comportamento em Locais Privados' de Joan 
Emerson (1970). Neste artigo Emerson busca ilustrar como uma definição de realidade 
dominante pode ser invadida por realidades contrárias que se opõem ou qualificam a definição 
dominante de várias maneiras. O exame ginecológico apresenta uma situação em que diferentes 
realidades são precariamente balanceadas. As situação é caracterizada, por um lado, por uma 
definição impessoal, clínica e médica, e por outro lado por uma definição pessoal, íntima e 
sexual. Emerson claramente demonstra como o aspecto sexual pode involuntariamente invadir a 
definição clinica, de modo a que as partes envolvidas continuamente se esforcem em definir a 
situação como um 'exame ginecológico acontecendo de maneira correta', uma situação em que 
ninguém fique embaraçado e ninguém pense em termos sexuais. Ela demonstra claramente como 
isto ocorre, com o ginecologista e a enfermeira agindo de comum acordo para sustentar a 
definição dominante através de um tipo particular de linguagem e técnica. Quando a definição 
dominante se rompe (através, por exemplo, da paciente se ruborizar, ou recusar cooperar por 
pudor), toda uma bateria de intervenções e de técnicas é acionada para restaurar o equilíbrio. A 
realidade do exame ginecológico foi mostrado que se apóia em uma serie de negociações 
complexas e sustentadas entre todas as partes envolvidas. 
 
Emerson sustenta que o precário equilíbrio de realidades em confronto encontrado no exame 
ginecológico representa um caso ilustrativo extremo de um processo continuo que caracteriza 
uma larga gama de situações da vida diária. Isto meramente exagera a internamente contraditória 
natureza de definições de realidade que são encontradas em situações do dia a dia, no trabalho, 
nos encontros sociais, ou em quaisquer outras. O estudo enfatiza como os indivíduos têm eles 
próprios que se envolverem num esforço deliberado para manter o equilíbrio de temas 
conflitantes refletidos em qualquer situação social dada, e como a realidade social que emerge é 
essencialmente negociada pelos atores diretamente envolvidos. 
 
Como no caso do estudo etnometodológico de Sudnow, o trabalho de Emerson, enquanto 
distintivamente fenomenológico em sua orientação básica com respeito ao status da realidade 
socialmente criada, admite uma forma de organização social mais concreta na retaguarda. Em 
cada caso a realidade é construída sobre o que parece ser uma cena preestabelecida pelos atores 
que já têm papeis alocados. Em nenhum estudo este pano de fundo foi submetido a escrutínio; o 
foco é nas maneiras como os atores constroem a cena em que próprios se encontram. 
 
Como no caso dos estudos etnometodológicos considerados anteriormente, certos problemas 
ontológicos se refletiram na pesquisa. Mais adiante neste capítulo iremos considerar o dilema 
que os sociólogos fenomenologistas se defrontam ao se engajar em trabalhos empíricos desta 
espécie. Por enquanto, contudo, voltaremos a considerar as implicações que este tipo de pesquisa 
fenomenologicamente orientada, não obstante seus problemas, tem para os teóricos de 
organizações localizados dentro do paradigma funcionalista. 
 
O DESAFIO FENOMENOLÓGICO PARA A TEORIA CONTEMPORÂNEA 
DAS ORGANIZAÇÕES. 
 
O desafio que a sociologia fenomenológica apresenta para a teoria contemporânea das 
organizações é claramente de uma forma verdadeiramente fundamental.3 Ela sugere que todo o 
empreendimento da 'teoria organizacional' se baseia em fundamentos muito dúbios. As 
suposições ontológicas que caracterizam o paradigma funcionalista fica em fundamental 
oposição àqueles que subscrevem a perspectiva fenomenológica. Para os fenomenólogos, as 
organizações como fenômenos tangíveis e relativamente concretos simplesmente não existem; o 
mundo social é essencialmente processual e emerge dos atos intencionais dos seres humanos 
agindo individualmente ou de comum acordo uns com os outros. A realidade social 'criada' no 
curso do processo consiste de pouco mais do que imagens da realidade que podem ser entendidas 
em termos de uma cadeia de tipificações. Elas não encerram uma definição sólida; elas encobrem 
complexidade; a natureza complexa da realidade social só emerge quando os indivíduos são 
forçados , por meio das pressões de interação uns com os outros, ou na tentativa de fazer sentido 
de seus mundos, para mergulhar cada vez mais profundamente por tipificações novas ou 
modificadas que levam em conta ou que fazem sentido de suas situações. A complexa e tangível 
natureza da realidade 'lá fora', a partir deste ponto de vista, é um fenômeno socialmente 
construído de status intersubjetivo dúbio e tão transitório quanto o momento em que ele é visto. 
 
Deste modo, as organizações são vistas, de uma perspectiva fenomenológica, como construtos 
sociais; uma organização se posiciona como um conceito que significa diferentes coisas para 
diferentes pessoas. Como um conceito universal, seu status intersubjetivo é extremamente dúbio. 
Os teóricos de organizações são vistos como pertencendo a uma comunidade pequena e auto-
sustentada que acredita que as organizações existem em num sentido ontológico relativamente 
tangível e teorizam sobre elas. De um ponto de vista fenomenológico, os teóricos de 
organizações teorizam sobre conceitos que têm pouco significado para as pessoas fora da 
comunidade que pratica a teoria de organizações e sobre a limitada comunidade que os teóricos 
organizacionais pode tentar servir. 
 
Para os fenomenólogos, os teóricos de organizações sustentam seus empreendimentos pelo 
conluio com aqueles que tentam servir, ou, de maneira mais apropriada, aqueles que eles 
percebem que necessitam tornar suas atividades contabilizáveis. É por esta razão que a teoria de 
organizações contemporânea é acusadade ter um viés gerencial. Ela usa conceitos gerenciais a 
fim de construir suas teorias. Estes conceitos são usados como um 'recurso', embora, como 
sugere Bittner (1965), de um ponto de vista fenomenológico, elas poderiam proporcionar o 
'tópico' de analise. 
 
O desafio fenomenológico à teoria das organizações contemporânea é total e completo, 
porque a questão em disputa é de ontologia. Segue-se daí que todos os conceitos que o teórico 
organizacional se utiliza para construir sua visão sobre a realidade organizacional está aberto à 
crítica. Os conceitos de estrutura organizacional, satisfação no trabalho, clima organizacional, 
etc., são todos reificações que freqüentemente são confundidos com a realidade social. Se o 
95 
teórico de organizações reivindicasse que estes conceitos são meramente de valor heurístico, 
sugeria a questão de 'propriedade', e isto implicaria em conluio involuntário ou consciente. 
Muitas das pesquisas fenomenológicas que levamos em consideração neste capítulo podem ser 
entendidas como uma tentativa de demonstrar aos teóricos localizados dentro da ortodoxia 
funcionalista que eles estão super concretizando o mundo social. Os estudos que, por exemplo, 
demonstraram que os indivíduos criam as regras dentro de um contexto organizacional, 
negociam a natureza do 'crime' e deste modo, as 'estatísticas 'criminais, demonstram que para 
perceber a realidade em termos destas regras, estruturas e estatísticas é perceber o mundo em 
termos que tornam todo muito simples. O cerne da realidade social está no que Garfinkel (1967, 
p. 1) descreveu como 'aterrorizante indexicalidade' da vida cotidiana. A realidade não existe na 
superfície dos afazeres humanos, se oferecendo para estudo direta e continuadamente como o 
teórico de organizações funcionalista freqüentemente assume. A realidade social fica bem 
profunda dentro da rede de tipificações que os indivíduos, quando pressionados, convocarão para 
dar sentido à situação na qual eles se encontram. 
 
As implicações de uma verdadeira sociologia fenomenológica para as suposições ontológicas 
do paradigma interpretativo são completamente destrutiva no que tange a teoria de organizações 
contemporânea como ela é atualmente. O sociólogo fenomenologista e o teórico de organizações 
se ocupam de diferentes realidades sociais para todas as intenções e propósitos; eles vivem em 
mundos intelectuais diferentes. O teórico de organizações contemporâneo não pode construir 
suas teorias dentro do contexto do paradigma interpretativo. 
 
O que, então, o teórico de organizações contemporâneo pode aprender dos fenomenólogos? O 
que ele pode incorporar dentro das fronteiras do paradigma funcionalista? Parece que aqui há 
uma oportunidade de integração - um potencial que outros já tentaram explorar. Recordemo-nos 
do capítulo anterior que o interesse em integrar as perspectivas do idealismo e do positivismo era 
uma preocupação de muitos teóricos sociais nos últimos anos do século dezenove e inicio do 
século vinte. Isto foi um dos maiores problemas para o qual Dilthey e Weber se devotaram, por 
exemplo, e como já sugerimos, a teoria da ação social e certas variedades do interacionismo 
podem ser entendidas como resultados diretos deste interesse. Com muitos respeitos estas 
escolas de pensamento representam a reação funcionalista à visão idealista da realidade social 
que subjaz a perspectiva fenomenológica, e oferece espaço para ulterior desenvolvimento dentro 
da teoria organizacional. O livro de Silverman A Teoria das Organizações (1970), por exemplo, 
sugere uma possível linha de desenvolvimento. 
 
Claramente, há muito mais do que pode ser feito dentro do contexto do funcionalismo para 
explorar as implicações de se estudar a realidade social que é muito menos nítida, certa e sólida, 
e mais processual do que tem sido considerada até agora na teoria. Ha muito mais espaço para 
reconhecer o papel dos indivíduos em interpretar e sustentar pontos de vista particulares da 
realidade social do que é geralmente reconhecido. Há campo para adotar uma epistemologia, 
uma visão de natureza humana e uma metodologia em consonância com esta visão revisada do 
status ontológico do mundo social. Em resumo, a teoria de organizações contemporânea pode 
utilmente avaliar e reavaliar sua orientação básica com relação a suas suposições sobre cada um 
dos quatro elementos da dimensão subjetiva-objetiva de nosso esquema analítico.4 Tal ação 
poderia representar uma resposta que encontra o desafio fenomenológico no próprio terreno 
funcionalista. Esta seria uma resposta inadequada no que diz respeito ao fenomenologista. Em 
essência, o básico desafio da fenomenologia à teoria funcionalista é respeitar a natureza do 
mundo social e, para o fenomenólogo, isto é justamente impossível dentro dos limites da 
problemática funcionalista.5 
 
ABORDAGENS FENOMENOLÓGICAS AO ESTUDO DE SITUAÇÕES 
ORGANIZACIONAIS: PROBLEMAS E DILEMAS. 
 
Ao adotar o ponto de vista da sociólogo fenomenologista ao invés daquele do teórico de 
organizações funcionalistas, que implicações emerge da discussão e análise apresentada nas 
secções anteriores deste capítulo? Claramente, há muitos problemas para o sociólogo 
fenomenologista interessado no estudo da natureza das situações organizacionais, uma vez que é 
muitas vezes involuntariamente levado a reconhecer e concordar com aspectos dentro de uma 
dada situação que, se pressionada, seria forçada a negar. Muito temos feito por este ponto de 
vista em nossa discussão da 'oscilação ontológica' entre trabalho teórico e empírico. 
 
Pareceu que muitos destes problemas surgem porque os pesquisadores interessados não foram 
suficientemente explícitos sobre o que eles estavam tentando demonstrar. Ao focalizar sobre os 
quatro elementos da dimensão subjetiva-objetiva de nosso esquema analítico, não está claro se o 
trabalho empírico destes teóricos visam ilustrar uma visão particular da ontologia, para 
demonstrar a superioridade de uma abordagem particular à epistemologia e à metodologia, ou se 
meramente enfatizar o voluntarismo que eles vêem com caracterizando os afazeres humanos. 
Sem dúvida alguns dos estudos tentam atingir todos estes objetivos, embora seu sucesso seja 
questionável. 
 
Se o interesse do sociólogo fenomenologista é atacar o problema de ontologia, como requer 
sua perspectiva teórica, então é importante que ela seja explicito sobre o problema. É importante 
enfatizar que a realidade que seu trabalho mostra é fundamentalmente diferente da que é 
conceituada, por exemplo, pelo teórico funcionalista. Até onde ele se limita a ilustrar o 
movimento dentro das regras organizacionais ou se põe contra as origens da estrutura 
burocrática, como alguns dos estudos discutidos anteriormente mostraram ser assim, deste modo 
seu trabalho tende assegurar a existência básica da realidade na qual, por exemplo, a teoria 
funcionalista se baseia. A escolha de pesquisa de situações incomuns tais como Skid Row, que 
há muito tempo já foram removidas do domínio da vida diária pela maioria das pessoas, também 
tende a reafirmar o status de concretude da realidade cotidiana em situações que não são Skid 
Row. Se o fenomenólogo está interessado em atacar o problema ontológico, parece que seria 
necessário estudar situações em que as pessoas são tipicamente vistas como tendo relativamente 
pouca discrição na maneira em que moldam suas realidades. Até agora a pesquisa 
fenomenológica tem focalizado no que o teórico funcionalista tem visto como papeis de alta-
discrição, tais como aqueles de recepcionistas, promotores públicos, policiais, ginecologistas, 
etc. Os estudos fenomenológicos do que usualmente tem sido visto como situações de baixa-
discrição (característica, por exemplo, de uma linha de montagem) tende a ser evidente por sua 
ausência. 
 
A focalização sobre os problemas envolvidos aqui exigiriaque o sociólogo fenomenologista 
tomasse uma posição firme com relação ao preciso status dos conceitos de organização, 
hierarquia, regras burocráticas, etc., e sobre outras questões de origens inerentes a muitos dos 
trabalhos empíricos produzidos até então. Isto esclareceria se eles realmente teriam a intenção de 
contestar a ontologia realista que caracteriza a ortodoxia funcionalista, ou se eles estão 
meramente tentando ilustrar a complexa e voluntarística natureza das ações humanas e das 
impropriedades da epistemologia positivista e da metodologia nomotética no desenvolvimento 
de uma adequada compreensão deste processo. Isto os faria ficar face a face com as básicas 
suposições que subjacem o paradigma interpretativo, uma vez que seriam obrigados a serem 
específicos sobre o preciso status da realidade social e da forma que ela toma. Como já 
chamamos atenção em nossa discussão do trabalho de Silverman e seus colegas, a tentativa de 
lidar com uma realidade socialmente construída e socialmente sustentada que parece tão 
verdadeiramente 'real' tem introduzido uma nova dimensão em seu trabalho que está em 
consonância com a 'teoria crítica' dentro do paradigma do humanismo radical. A tentativa de 
manusear a presença aparente de padrão e de estrutura que se reflete na construção social da 
realidade tem levado a se focar nas questões ideológicas intimamente relacionadas com a 
dimensão regulação-mudança radical de nosso esquema analítico. A sociologia fenomenológica 
97 
característica do paradigma interpretativo está subscrita por pressupostos básicos que tendem à 
ordem nas questões sociais. Até onde esta ordem se reflete num padrão e estrutura que 
proporciona um contexto dentro do qual uma realidade é criada, é algo que necessita ser 
explicado. É precisamente este interesse que tem levado muitos teóricos sociais que desejam 
continuar a subscrever a perspectiva nominalista característica da tradição idealista a forjar 
quadros de referência alternativos. 
 
Como encontraremos no próximo capítulo, este interesse ficou muito mais refletido no 
trabalho de Hegel e no problema da relação dialética entre os mundos subjetivo e objetivo. Isto 
também se vê refletido no trabalho do jovem Marx, de Jean Paul Sartre e, mais recentemente, de 
Habermas. De maneiras diferentes eles têm procurado demonstrar que o mundo socialmente 
criado pode se tornar inteiramente real e determina uma estrutura que restringe as ações e 
orientações dos seres humanos, como se tivesse uma existência própria. Não queremos dizer 
aqui que a sociologia fenomenológica só pode ser mais desenvolvida dentro do contexto do 
paradigma do humanismo radical. Nossa intenção é colocar a questão que surge se os sociólogos 
fenomenologistas reconhecem a aparente presença de estrutura que se pendura no pano de fundo 
de suas correntes de trabalho. Ao confrontar o problema ontológico básico que isto envolve, eles 
esclarecerão a natureza de seus empreendimentos. Para aqueles que permanecem convencidos de 
que a realidade social é inteiramente criação de seres humanos autônomos envolvidos no fluxo 
da vida cotidiana, o problema será o de desenvolver epistemologias e metodologias adequadas 
para estudar a natureza de seus mundos. Para aqueles em que estrutura e padrão da realidade 
social aparecem como tão verdadeiramente 'real', a consideração da dimensão de poder inerente 
na habilidade do indivíduo criar sua realidade é a de provavelmente provar uma questão maior e, 
ao perseguir seu fim lógico, indubitavelmente buscará melhor reorientação na perspectiva 
teórica. Isto exigirá uma perspectiva que tem muito mais incomum com o humanismo radical do 
que com a sociologia da regulação que caracteriza o paradigma interpretativo. 
 
NOTAS E REFERÊNCIAS. 
 
1. Silverman, em defesa da VISÃO de Bittner, tem sugerido que ele use 'determinantes 
estruturais' num sentido muito específico (Silverman in McKinlay, 1975, p.282). 
 
2. NÃO consideraremos aqui o livro de Silverman 'Lendo Castaneda (1975 b), que busca 
prover uma análise etnometodológica de Castaneda (1970) e portanto não focaliza práticas 
dentro de contextos organizacionais. 
 
3. Confinaremos nossa discussão aqui às implicações da fenomenologia para as teorias 
características do paradigma funcionalista. Está claro que há também implicações para teorias 
localizadas em outros paradigmas. Infelizmente, vai alem do escopo de nosso propósito nos 
reportarmos a elas aqui. 
 
• 4. Para uma discussão de algumas das implicações epistemológicas e metodológicas 
da sociologia fenomenológica veja, por exemplo, Blumer (1969), Cicourel (1964), Douglas 
(1970 b). Muitos de seus argumentos são convenientemente juntados em Mennell (1974). 
 
5. Desejamos enfatizar aqui a questão levantada na noite 3 acima. A natureza do conceito 
de paradigma, como usado aqui, implica necessariamente que a legitimidade da visão de mundo 
refletida em um paradigma é fundamentalmente oposto às características dos outros três. 
BURREL & MORGAN 
Sociological Paradigms and Organizational Analysis. 
 
8. Humanismo Radical. 
 
Origens e Tradição Intelectual. 
 
As origens intelectuais do paradigma do humanismo radical podem ser rastreadas em 
retrocesso para os princípios do idealismo Germânico e da noção Kantiana de que a realidade 
última do universo é espiritual ao invés de material por natureza. 
 
O humanismo radical é fundamentado na noção de que o indivíduo cria o mundo em que ele 
vive. Os humanistas radicais não só tentam entender a natureza do processo de criação do mundo 
em que vivem, como também sujeitam-no à crítica, focalizando naquilo que vêem como o estado 
do homem essencialmente alienado. 
 
Esta crítica procede a partir de 2 avenidas de discurso. Uma delas está associada com a 
posição do idealismo subjetivo que deriva da mesma fonte da filosofia de Husserl e outros 
fenomenologistas. Embora as raízes da tradição do idealismo subjetivo possa ser rastreado 
retroativamente à filosofia de Kant ou antes, é no trabalho de Fiche (1762-1814) que ele primeiro 
recebe sua expressão mais explicita e coerente. Fiche foi um seguidor de Kant, e sua marca de 
idealismo subjetivo se apoiou no pressuposto de que a consciência do indivíduo é uma entidade 
criativa continuamente gerando uma perpétua corrente de idéias, conceitos e perspectivas, 
através dos quais um mundo externo à mente é criado. Do ponto de vista de Fitche, qualquer 
entendimento desta realidade criada envolveu o entendimento da natureza, estrutura e 
entendimento da mente consciente. Para Fitche, o mundo externo era para ser entendido em 
termos da projeção da consciência do indivíduo. Fitche viu os seres humanos como extanando 
suas experiências na forma de realidade que se reflete neles de volta, e através do que se tornam 
conscientes deles próprios e de ações. Esta perspectivas teve uma influência ampla na filosofia 
contemporânea e na teoria social através do trabalho de Husserl e de outros fenomenologistas. 
Sua influência é também evidente no trabalho de Sartre e seus seguidores dentro do movimento 
existencialista Francês. Em essência, eles têm radicalizado a perspectiva fenomenológica que 
caracteriza a posição idealista subjetivista, vendo o indivíduo aprisionado no modo de existência 
que ele cria. Ontologicamente, eles vêem o mundo como o produto da tomada de consciência 
individual, tomada de consciência esta vista como sendo projetada no exterior através de atos de 
intencionalidade, deste modo, criando-o. Dentro do humanismo radical, os subjetivistas 
focalizaram a patologia da intencionalidade e, assim, ao criar um mundo externo, o homem 
separar-se-ia do seu verdadeiro "Ser". 
 
A segunda avenida de discurso está baseada na tradição do idealismo objetivista, que recebeu 
sua mais antecipada e abrangente expressão no trabalho de Hegel. O sistema Helegiano de 
pensamentose apoiou no seu primeiro e mais significativo trabalho, A Fenomenologia da Mente, 
no qual investigava o status ontológico do conhecimento humano. Neste livro Hegel 
buscou demonstrar como o conhecimento passa através de uma série de formas de consciência 
até atingir um estado de "conhecimento absoluto" em que o indivíduo está de acordo com o 
"espírito absoluto" que permeia o universo. Para Hegel a realidade última se apóia no "espirito". 
Hegel apresenta os seres humanos como vivendo em um mundo caracterizado por uma constante 
interação entre a consciência individual e sua objetificação no mundo externo. Consciência e 
mundo externo são vistos como os dois lados da mesma realidade. Eles estão envolvidos em uma 
relação dialética em que cada um define e influência o outro. Para Hegel cada coisa é o seu 
próprio oposto. A verdade recai em ambos os lados de cada questão numa relação antagônica a si 
mesmo. Como um método de análise a dialética ressalta que há um antagonismo básico e 
conflito dentro tanto do mundo natural como do mundo social que, quando resolvido, leva a um 
99 
alto estágio de desenvolvimento. Este processo dialético é visto como um princípio universal, 
que gera progresso na direção de um estado de "conhecimento absoluto" em que a distinção 
entre sujeito e objeto é superada e a consciência humana toma consciência de sua situação dentro 
do "espirito absoluto". 
 
Tanto Hegel como Fitche viram a consciência do indivíduo como um ponto focal para o 
entendimento da natureza do mundo social. Contudo, enquanto em Fitche o indivíduo cria o seu 
mundo, em Hegel a consciência do indivíduo é subserviente a um padrão externo de razão 
universal que reflete a existência de uma força universal ou espírito acima e além do indivíduo. 
A consciência humana e a historia humana, para Hegel, devem ser entendidas em termos do 
desdobramento do espírito universal que conduzirá, com certeza, à sociedade perfeita. Em seus 
últimos anos, Hegel viu de modo crescente, a Prússia de seus dias, como uma encarnação do 
"espirito absoluto", a sociedade perfeita em que o indivíduo tornava-se subserviente do estado. 
 
A filosofia de Hegel assim tornou-se parceira de um credo político muito conservador, e tem 
sido submetida a uma ampla gama de interpretações. Logo de início surgiu uma profunda divisão 
entre os chamados "Hegelianos da Direita" que seguiam integralmente sua filosofia, e aqueles 
ditos de esquerda ou "jovens Heleginos", dentre estes, o jovem Marx (1818-1883) que, na 
essência, inverteu o sistema Hegeliano e o unificou com uma crítica da sociedade de seus dias. 
Ao fazê-lo, Marx assentou as bases para o desenvolvimento de humanismo radical nos moldes 
de um idealismo objetivista. Marx empregou a perspectiva histórica e o método dialético de 
Hegel dentro do contexto de uma filosofia que colocava o indivíduo como centro da cena em vez 
do "espirito absoluto". Marx, juntamente com outros "Jovens Helegianos", particularmente 
Fuerbach, argumentaram que não havia algo absoluto acima do homem. Eles argumentaram que 
a religião e o Estado eram criações do homem em vez de reflexo de qualquer "espirito absoluto". 
Eles enfatizaram que todas as objetivações encontradas no mundo social eram humanamentes 
criadas e apontaram para uma filosofia emancipatória que chamava a atenção para como os 
indivíduos, através da autoconsciência, poderiam criar e deste modo mudar a sociedade em que 
viviam. Marx, em particular, começou com a premissa de alienação do homem. Ele viu a 
sociedade de seus dias como dominando a experiência humana, as criações sociais objetificadas 
refletiam-se de volta no homem como uma força alienante, dominando seu ser e natureza 
essencial. Este ponto de vista está expresso com muita força nos Manuscritos Econômicos e 
Filosóficos (1844) em que Marx demonstrou como o sistema capitalista de produção se situava 
no coração da alienação do homem. Enquanto para Hegel a alienação era um fenômeno 
necessário no caminho da auto-realização e do "conhecimento absoluto", para Marx tornou-se 
um conceito casado a um ataque ao status quo e as falhas da totalidade do capitalismo. 
 
Mais tarde o trabalho de Marx mudou de uma perspectiva idealista para uma com raízes com 
uma interpretação mais realista da natureza do mundo social. No livro Ideologia Germânica 
(1846), escrito com Engels, buscou liquidar as contas com o idealismo Germânico, e este 
trabalho é freqüentemente visto como definindo a chamada "quebra epistemológica". Do ponto 
de vista do esquema analítico apresentado aqui isto significa que Marx parou com o humanismo 
radical, e começou a se mover na direção do estruturalismo radical. 
 
Somente a partir dos primeiros anos da década dos 20, quando Luckács, sob a influencia do 
neo-idealismo, buscou reenfatizar a influência de Hegel sobre Marx, e após a descoberta do 
Manuscritos Econômicos e Filosóficos, surgiu a teoria radical humanista crítica. O crescimento 
da teoria crítica juntamente com o existencialismo Francês, pode ser entendido em larga medida, 
como uma resposta de renovação do interesse pela tradição idealista que emergiu na virada do 
século vinte. 
 
A Estrutura do Paradigma. 
 
 O paradigma do humanismo radical compreende tanto a corrente subjetiva como objetiva 
do idealismo Germânico. Está também ai contido uma influência do solipsismo e uma categoria 
de pensamento anarquista derivado do Hegelianismo. Assim, pode-se dizer que o paradigma 
possuí 4 principais orientações: a) solipsismo; b) existencialismo Francês; c) individualismo 
anarquista; d) teoria crítica. 
 
Destas correntes, a mais desenvolvida é a teoria crítica. Dentro dela há 3 escolas de 
pensamento :a sociologia Lukácsiana: a sociologia Gramsciana e o trabalho da Escola de 
Frankfurt. 
 
Teoria Crítica. 
 
Pensamento sociólogo baseado no trabalho do Jovem Marx. É geralmente usada como 
sinônimo para o trabalho dos teóricos sociais da Escola de Frankfurt. Ha, todavia, 3 escolas de 
Pensamento discretas,. A Escola de Frankfurt possui muito do trabalho de Lukács que, por sua 
vez, possuí uma grande similaridade com o de Gramsci e, deste modo, há muita superposição. 
 
A teoria crítica é um ramo da filosofia social que busca operar simultaneamente nos níveis 
filosófico, teórico e prático. Ela se posiciona firmemente na tradição idealista crítica derivada da 
Crítica da Razão Pura de Kant; seus proponentes buscam revelar a sociedade pelo que ela é, a 
fim de desmascarar sua essência e modo de operação e lançar os fundamentos para uma 
emancipação humana através da mudança do social profundamente arraigado. 
 
Sociologia Lukacsiana. 
 
Lukács procurou desenvolver uma teoria crítica que oferecesse uma alternativa ao Marxismo 
ortodoxo de seus dias. Em essência, ele estava interessado em rever seus fundamentos sócio-
filosóficos, pela ênfase e restauração da forte influencia Hegeliana que caracterizou o trabalho de 
Marx depois da "quebra epistemológica”. Em particular, Lukács procurou desenvolver uma 
teoria revolucionária que colocasse forte ênfase no papel do proletariado e sua consciência de 
classe na superação da sociedade capitalista. 
 
Consciência de classe, foi central em Luckács, porque ele viu nela uma rota de escape do 
problema fundamental associado com a noção Helegiana de alienação. Um outro aspecto central 
em Lukács foi a noção de totalidade que se encontra na íntima conexão entre as dimensões 
objetivo e subjetivo dentro da realidade social, que são sintetizados dentro da consciência de 
classe do proletariado. O processo por meio do qual estas dimensões se tornavam falsamente 
discretas e diferenciadas, de modo a que não mais eram vistas como "idênticas", Lukács chamou 
de "reificação". Reificação, sem dúvida, se refere ao fato de que enquanto os homens em suas 
atividades produtivas do dia a dia criam seumundo social, estas atividades e o que resulta delas 
são vistas como divorciadas dos homens, como "coisas" objetificadas independentes. Enquanto a 
objetificação dos artefatos feitos pelo homem é provavelmente necessária e inevitável em todas 
as formas da vida social, tanto Lukács como Marx procuraram ressaltar os aspectos políticos 
restritivos da reificação e a barreira efetiva que ela promove à compreensão, pela classe 
trabalhadora, da totalidade em que eles vivem. Colocado de maneira mais simples, a alienação 
em Lukács na forma de reificação é algo a ser superado, desde que ela é a chave para a liberação 
de energias explosivas do proletariado, que são tão necessárias para a transformação e 
reconstrução da sociedade capitalista. 
 
Do ponto de vista ontológico a sociologia Lukacsiana invoca uma dialética onipresente, uma 
vez que os processos sociais são vistos consistir de "objetivo" agindo sobre o "subjetivo" e o 
"subjetivo" agindo sobre o "objetivo". Para Lukács, portanto, a natureza ontológica do mundo 
não é nem cruamente nominalista nem cruamente realista. 
101 
 
Do ponto de vista epistemológico Lukács toma uma posição interessante. Para ele o 
Marxismo é uma metodologia revolucionária. A revolução depende das ações da classe 
trabalhadora e das táticas desenvolvidas por seus líderes. Os Lukacsianos não são positivistas 
buscando leis gerais de desenvolvimento das sociedades; eles usam táticas e metodologias de 
revolta e revolução ressaltando o escopo da ação aberta ao proletariado. Eles indicam o aspecto 
voluntarista da vida dentro do capitalismo e não o aspecto determinista, continuamente 
apontando para a liberdade de escolha no tipo de consciência de classe que o proletariado aceita. 
Eles buscam mudar o mundo. Suas epistemologias e metodologia se misturam para formar um 
corpo de pensamento que visam métodos práticos para transformar radicalmente a sociedade 
aqui e agora. 
 
Sociologia de Gramsci. 
 
A influencia da sociologia de Gramsci cresceu muito nos meios acadêmicos do Ocidente 
desde o início dos anos 60. Sua "filosofia da práxis" representa Não só uma teoria social 
rigorosa, como também uma metodologia política para a classe operária. O Marxismo de 
Gramsci apresenta um humanismo radical crítico do capitalismo e também uma metodologia de 
alcançar sua Superação. Gramsci acreditava que o Marxismo de seus dias tinha perdido o elã 
revolucionário através da incorporação de noções positivistas e de um determinismo cru quase 
totalmente mecanicista que ignorava totalmente os aspectos voluntaristas práticos das 
potencialidades das classes trabalhadora radical. Ele sentia que o que se necessitava era uma 
verdadeira teoria dialética que transcendesse às clássicas antinomias filosóficas de voluntarismo 
- determinismo, idealismo - materialismo, subjetivo - objetivo. 
 
Esta "filosofia da práxis", esta verdadeira "teoria crítica" procurou introduzir no Marxismo 
ortodoxo a compreensão e a simpatia por um entendimento de fatores "superestruturais" dentro 
das sociedades capitalistas. Gramsci acreditava que poder e dominação no capitalismo se 
apoiavam não somente nos meios de coerção e opressão materialmente localizados, mas também 
dentro da consciência dos homens, pela "hegemonia ideológica". A classe que dita as regras, 
sempre busca legitimar seu poder através da criação e perpetuação de um sistema de crenças que 
enfatiza a necessidade de ordem, autoridade e disciplina, e conscientemente tenta castrar o 
protesto e o potencial revolucionário. Para Gramsci, foi precisamente na área da hegemonia 
ideológica nas escolas, famílias e fábricas que o capitalismo teve mais probabilidade de 
desenvolver e crescer o despercebido da classe que faz as regras, atacando e infiltrando a 
consciência do trabalhador individual. 
 
A sociologia de Gramsci é claramente orientada para ação e mudança radical. Para ele a 
realidade não existe por ela própria no estrito sentido materialista, mas existe numa relação 
histórica com os homens que a modificam. Sua posição reflete um idealismo objetivo na tradição 
da teoria crítica e do trabalho do jovem Marx. 
 
A Escola de Frankfurt. 
 
A Escola de Frankfurt ao clamar para si a propriedade da teoria critica, deve muito ao famoso 
ensaio de Horkheimer: Teoria crítica - Artigos Selecionados. Atualmente ela é usada como um 
título genérico para um bem conhecido grupo de acadêmicos ligados ao Instituto para Pesquisas 
Sociais, na Alemanha, dentre eles Horkheimer, Adorno, Benjamim, Fromm, Lowenthal, 
Marcuse, Habermas e muitos outros. A teria critica se desenvolveu em muitas direções. Baseada 
em fundamentos ontológicos e epistemológicos refletidos nas teorias dos "Jovens Hegelianos", 
dentre eles Marx, estes teóricos críticos forjaram uma perspectiva ampla que tem 
consistentemente objetivado revelar a natureza da sociedade capitalista pelo que ela é. Eles têm 
buscado revelar sua natureza subjacente e estabelecer as bases para a mudança social através de 
revolução da consciência. A perspectiva humanista radical tem criticado a ciência positivista, os 
modos de racionalidade, a tecnologia, o sistema legal, a unidade familiar, os padrões de 
burocracia, a linguagem, a arte, a música, a literatura, a personalidade autoritária e a psicanálise. 
Assim, a teoria crítica, na tradição de Frankfurt abarca uma filosofia crítica polimática dirigida 
para objetivos emancipatórios. Como no caso das sociologias Lukácsina e Gramsciana, 
desenvolveu-se em reação aos desenvolvimentos dentro do Marxismo ortodoxo, com sua ênfase 
no determinismo histórico, e na tendência geral em direção ao totalitarismo na URSS e na 
Alemanha Nazista. Desenvolveu-se também em reação à tradição positivista em geral, 
particularmente como refletido na sociologia do paradigma funcionalista. Em muitos aspectos, a 
teoria crítica inverte a problemática funcionalista. Vê-se isto claramente ilustrado nos debates 
filosóficos entre Adorno e Popper, e nos escritos de outros teóricos sociais. 
 
Aqui são destacados os trabalhos de Marcuse e Habermas. Marcuse tornou-se muito bem 
conhecido por seu ataque mordaz à natureza "unidimensional" da moderna sociedade 
tecnológica, particularmente a capitalista. Seu trabalho apóia-se na verdadeira tradição 
Hegeliana-Marxista de teoria crítica, e representa uma tentativa consciente de apresentar uma 
filosofia emancipatória com características positivistas da sociologia da regulação. Para Marcuse 
a fenomenologia é inadequada porque ignora o escopo e a influência do potencial humano; por 
outro lado o positivismo é inadequado porque possuí pressupostos falsos em relação a valores de 
neutralidade e de seu papel como instrumento de controle dos interesses do status quo. A 
contribuição especial de Marcuse reside em sua tentativa de incorporar as idéias e insight de 
Freud e Weber dentro da perspectiva Helegiana-Marxista característica de muito do paradigma 
humanista radical. 
 
Em Eros e Civilização Marcuse, seguindo Adorno e Fromm, busca desenvolver as ligações 
entre a personalidade humana e a totalidade em que ele está situado, tomando os conceitos 
Freudianos de "principio do prazer" e "principio da realidade" como seu ponto inicial de análise. 
Na perspectiva Freudiana a civilização se apóia na repressão dos impulsos internos do homem. 
Em uma sociedade civilizada o "principio da realidade" subjuga o "principio do prazer" e, como 
conseqüência, os homens pospõem a auto-gratificação no interesse da ordem social. Marcuse 
afirma que a escassez não é mais uma característica das sociedades modernas tecnologicamente 
avançadas, vez que elas são capazes de acabar com as deficiências de todos os tipos. A 
necessidade de reprimir os desejos instintivos em tal tipo de sociedade não é mais tão forte. 
Contudo, continua, e o nível de repressão que agora encontramos nos estados industriais 
avançados é a "repressãodo excedente"; restrição esta sobre e acima da qual é necessário manter 
a civilização. A repressão ao excedente, percebida e retida na psique e dando suporte ao sistema 
de produção, é vista por Marcuse como apoiando-se no centro da dominação psicológica do 
homem pelo, e de sua alienação dentro do, mundo moderno. Ele vê a emancipação humana a 
partir da ordem social dominante como se fazendo acontecer através da libertação da sociedade 
da repressão do excedente, portanto dando mais ênfase ao "principio do prazer" expresso através 
dos impulsos libidinais. 
 
Em O Homem Unidimensional Marcuse se desloca para uma posição mais Weberiana. Neste 
livro ele argumenta que a moderna sociedade é essencialmente totalitária, naquilo em que o 
aparato técnico de produção e distribuição impõe-se sobre a sociedade como um todo. Seus 
produtos e os indivíduos a que ostensivamente serve são moldados para atender a seus próprios 
requisitos internos. A tecnologia é vista como uma força política, um sistema de dominação que 
envolve novos e "mais agradáveis" meios de controle social e de coesão. A tecnologia produz a 
sociedade "unidimensional" em que há um nivelamento das diferenças e conflitos entre 
atualidade e potencialidade; em que as alternativas parecem ser crescentemente irrealistas; em 
que o sistema industrial parece ter uma lógica própria. Marcuse argumenta que 
afluência(riqueza) e a criação de falsas necessidades impedem o desenvolvimento de protesto 
radical contra a ordem estabelecida. A tomada de consciência é vista como sendo moldada e 
103 
controlada pela mídia. O estado de bem-estar e o "estados de guerra" são vistos como 
instrumentos para manter o nível de consumo necessário a sustentar uma "feliz" força de 
trabalho. 
 
O trabalho de Habermas (1970 a, 1970 b, 1971 a, 1971 b, 1972,1974 e 1976) impressiona por 
sua capacidade de utilizar idéias e conceitos concebidos a partir de uma variedade de 
perspectivas a serviço de um humanismo radical. Em essência, seu trabalho pode ser entendido 
como uma reação contra as deficiências da sociologia interpretativa e do positivismo 
sociológico. As diversas perspectivas são soldadas juntas em uma teoria crítica que, para 
Habermas, deve ser emancipatória, dialética (por transcender as antinomias sujeito-objeto, 
observador-observado, fato-valor) e hermenêutica em seu esforço para entender o mundo-
cultural em que significados subjetivos são locados. 
 
Habermas tem tentado mudar, dentro do Marxismo, a atenção para fora, de uma consideração 
da estrutura econômica do capitalismo, para alguns aspectos chave das sociedades pós-
capitalistas. Habermas tem enfatizado a estrutura de dominação inserida em nossa linguagem e 
no discurso do dia a dia. Para Habermas, a estrutura da linguagem, sua natureza e uso, 
proporciona uma chave com a qual se abrem muitos insights para as maneiras 
fundamentais de operação de diferentes formações sociais. 
 
Recentes desenvolvimentos em lingüística e em filosofia da linguagem ordinária demonstrou, 
para satisfação de Habermas, que hoje em dia o "problema de linguagem" tem substituído o 
tradicional "problema de consciência". A fim de lidar com estes desenvolvimentos, ele 
desenvolveu uma teoria de "competência comunicativa" que toma emprestado conceitos da 
hermenêutica para prover a ligação entre a macro-estrutura política e atos de discurso dentro de 
um contexto de interação simbólica. Habermas desenvolve o conceito de uma "situação de 
discurso ideal" em que é possível a interação simbólica desde que se chegue a um consenso 
genuíno entre as partes em comunicação e se reconheça como um consenso sem a operação de 
poder. Esta situação de discurso ideal contrasta-se com outra caracterizada pela "distorção 
comunicativa" em que se chega a um suposto consenso dentro de um contexto de distribuição 
desigual de poder. 
 
Nota: Esta posição de Habermas é bastante significativa. Não há dúvida que esta Situação de 
consenso genuíno pode proporcionar uma "Situação de discurso ideal" entre as partes, estando 
ausente as relações de poder que geralmente existem na sociedade de maneira desigual. Esta 
teoria de "competência comunicativa" de Habermas, pode ser fundamentada a partir dos 
conceitos de figura e fundo da psicologia da gestalt e do conceito de percepção da 
fenomenologia. Só se percebe o que é figura. não se percebe o fundo. A situação de consenso 
genuíno só pode acontecer de na relação eu-outro percebo o outro como figura e o outro 
também me percebe como figura. Temos aí uma situação igualitária desprovida de poder ou, 
pelo menos, que não se leva em consideração o poder. Tudo isto, por sua vez, tem a ver com o 
processo cognitivo, cujo conteúdo pode ser explicado pela "teoria de ação" de Argyris & Schon. 
Como veremos a seguir, Habermas toma outro caminho ao explicar a diferença entre "trabalho" 
e "interação". 
 
Habermas ilustra a diferença entre aquelas duas situações acima através dos conceitos de 
"trabalho" e "interação". Estes são vistos como sendo categorias de vida social 
fundamentalmente diferentes, com uma racionalidade proposital dominando a primeira, e uma 
interação simbólica a última. O trabalho é visto por Habermas como uma forma de ação social 
dominante dentro de uma sociedade capitalista industrializada, que enfatiza a importância do 
atingimento de objetivos, definido em termos das relações de meios e fins. O sistema desenvolve 
regras técnicas para guiar as ações e os modos de pensar, e coloca ênfase na aprendizagem de 
habilidades e qualificações. O "trabalho" é visto como uma forma de "distorção comunicativa" 
caracterizado por escolha assimétrica no uso de atos de discurso que refletem uma relação de 
poder desigual. 
 
"Interação", por outro lado, baseia-se na Ação comunicativa entre homens em que normas 
compartilhadas se desenvolvem e se refletem numa linguagem ordinária, intersubjetivamente 
compartilhada. "interação" inclui "labor" como parte coesiva e integral da vida social, visto 
como típico das sociedades pré-capitalistas. Dentro desta forma social há expectativas recíprocas 
sobre comportamentos, cuja violação atrai fortes sanções sociais. As normas e valores que 
governam as relações sociais são adquiridas através de internalização de papeis. A 
racionalização deste sistema de ação reside na "emancipação", na "individuação" e na "extensão 
de comunicação livre de dominação" (Habermas, 1971 b). interação é vista como baseada em 
situações de "discurso ideal" em que o homem é emancipado do "trabalho" e da dominação. A 
visão de Habermas é de um mundo pós-moderno baseado na "interação", com igual acesso 
aos atos de discurso concedidos a todos e uma igualdade de oportunidades dentro do discurso. 
Como Schroyer (1971) notou, na medida em a versão da teoria crítica de Habermas se baseia na 
liberação do potencial da linguagem auto-reflexiva, a nova forma de ciência crítica que ele 
advoga é essencialmente baseada na "patologia da comunicação". 
 
Nota: O que Habermas propõe coincide com o que acima chamamos a atenção. É sua visão 
sociológica de um problema psicossocial que está centrado na relação do individuo com o 
outro no mundo. Esta gestalt precisa ser entendida na sua totalidade e com suas nuances 
espaço-temporais. Só se pode conseguir a relação perceptiva figura-figura (eu-outro), a partir 
de um modelo-de-homem como o que venho defendendo Martins,(1987), ou seja, um ser-
autodeterminado-autêntico-e-autônomo que, numa relação-com-o-outro de maneira 
presentificada, aqui-e-agora("on line", como diz Argyris), pode definitiva e predominantemente 
manter a "interação" como percebida por Habermas. Embora implícito não está claro em 
Habermas este modelo de homem, e muito menos esta dimensão espaço-temporal aqui-e-agora, 
indispensável para o relacionamento genuíno. Há que se considerar também a parte do discurso 
que permeia a relação.Este é o aspecto que estamos trabalhando a partir de Argyris & Schón, 
no que eles vêem chamando de "teoria-de-ação" para significar que a ação discursiva é uma 
ação composta, ou seja, o discurso é informado por valores governantes que selecionam 
estratégias de ação através das quais o comportamento acontece (gestos, palavras articuladas, 
etc.). Assim, a liberação do potencial de linguagem auto-reflexiva de que nos fala Schroyer ao 
comentar sobre a teoria da "competência comunicativa" de Habermas, só faz sentido se 
entendido a partir de um processo social cuja dialética de interação conduza e ao mesmo tempo 
se apóie num modelo de homem como o acima referido e numa dimensão aqui-e-agora. 
 
A despeito da ênfase colocada na linguagem como foco para análise social, Habermas faz 
esforço para ligar sua teoria de competência comunicativa com os pressupostos fundamentais do 
materialismo histórico para torná-la adequada e efetiva. Em seus trabalhos mais recentes, 
contudo, em que lida com uma variedade de crises que afetam a sociedade moderna, ele vê como 
área crucial a estrutura legitimadora do sistema político (Habermas, 1976). Ele argumenta que 
uma crise econômica permanente não é mais possível dentro do capitalismo avançado por causa 
da penetrante intervenção do Estado. Portanto, a análise de Marx sobre a dependência das lutas 
de classes e de suas relações com as crises econômicas, está implicitamente desatualizada. Para 
Habermas, o problema chave dentro do capitalismo avançado é a "crise de legitimidade". 
 
Em resumo, tanto Marcuse como Habermas, demonstram como a teoria crítica na Escola de 
Frankfurt inverte o interesse e a problemática da teoria social regulativa, funcionalista tais como 
a racionalidade utilitária, a lógica da ciência, as funções positivas da tecnologia, e a neutralidade 
da linguagem. Eles buscam demonstrar que ciência, tecnologia, ideologia, e outros aspectos da 
superestrutura das formações sociais do capitalismo moderno devem ser entendidos em relação 
aos papeis que desempenham na sustentação e desenvolvimento do sistema de poder e 
105 
dominação que permeia a totalidade de sua forma social. A função de ambos foi a de influenciar 
a consciência das pessoas vivendo dentro dele (capitalismo), com vistas a uma eventual 
emancipação e na perseguição de formas alternativas de vida. 
 
O foco da teoria crítica nos aspectos "superestruturais" da sociedade capitalista é altamente 
significativo, naquilo que reflete a tentativa de teóricos trabalhando dentro da tradição a sair do 
"economicismo" do Marxismo ortodoxo e a elevar a preocupação Hegeliana a um papel de 
dialética das relações sociais. É através da dialética que os aspectos subjetivo da vida social 
podem ser reconciliados. A superestrutura da sociedade capitalista é de interesse fundamental 
para os teóricos, em parte porque é o meio pelo qual a consciência dos seres humanos é 
controlada e moldada para se ajustar aos requisitos da formação social como um todo. Ela se 
coloca na interface dos mundos subjetivo e objetivo. 
 
Para concluir segue-se os conceitos chave da teoria crítica e que também permeiam o trabalho 
do Jovem Marx.: 
 
Teoria Crítica: conceitos e orientações centrais. 
 
Totalidade. 
 
A noção de que qualquer entendimento da sociedade deve abarcar em sua inteireza os 
mundos objetivo e subjetivo que caracterizavam uma dada época. A totalidade abarca tudo; ela 
não tem fronteira. Um entendimento desta totalidade deve preceder um entendimento de seus 
elementos, uma vez que o todo domina as partes no sentido de uma abarcação total. 
 
Consciência. 
 
É a força que em última análise cria e sustenta o mundo social. A consciência é gerada 
internamente mas influenciada pelas formas que assume através do processo de objetificação e 
da dialética entre os mundos objetivo e subjetivo. 
 
Alienação. 
 
É o estado em que, em certas totalidades, uma cunha cognitiva é dirigida entre a consciência 
do homem e o mundo social objetificado, de modo que o homem o que São essencialmente as 
criações de sua própria consciência na forma de uma dominante realidade externa sólida. Esta 
cunha é a cunha da Alienação, que separa o homem de seu verdadeiro ser e impede-o de 
preencher suas potencialidades como ser humano. 
 
Crítica. 
 
Em suas críticas da sociedade contemporânea, os teóricos críticos focam nas formas e fontes 
de Alienação, que eles vêem como inibindo as verdadeiras possibilidades de um verdadeiro 
preenchimento humano. Os vários expoentes desta perspectiva abordam-na de diferentes 
maneiras, a vários níveis de generalidade. 
 
Lukács focaliza o conceito de reificação que dá uma solução sócio-filosófica aos 
problemas epistemológicos e práticos que o Marxismo enfrentava nos anos 20. 
 
Gramsci focaliza a noção de hegemonia ideológica como refletido um sistema de 
crenças entre o proletariado fomentado pela classe que dita as regras. Em sua 
visão, o sistema de crenças enfatiza a importância de ordem, autoridade e 
 disciplina, e foi propagado através de instituições tais como a família, a escola e 
o local de trabalho. 
 
Marcuse através da noção de homem unidimensional foca a atenção nas 
características alienantes que ele vê como sendo inseridas no crescimento da 
 racionalidade utilitária dentro das sociedades industriais avançadas. Em 
particular ele enfatiza o papel alienante da tecnologia, ciência e lógica. Estas 
suplementam outras forças identificadas com seu trabalho anterior relacionado 
com a excessiva repressão da libido e da manutenção de uma força de trabalho feliz 
 através da criação de riqueza e de falsas necessidades. 
 
Habermas focaliza o papel que a linguagem desempenha como uma força alienante 
em todos os aspectos da vida social. Sua teoria da competência comunicativa 
 busca um denominador comum na interação humana, seja verbal, produtiva ou 
outra, e busca mostrar como nas sociedades Ocidentais contemporâneas há um 
elemento de distorção comunicativa que reside no coração, e no nível mais básico da 
alienação do homem. 
 
Individualismo Anarquista. 
 
O Individualismo Anarquista advoga total liberdade individual destrambelhado de qualquer 
forma de regulação interna ou externa. Está intimamente associado a doutrina de Marx Stirner, 
cuja filosofia vai alem de Marx na sua rejeição a todas as instituições sociais. Stirner enfatizou a 
primazia da existência e rejeitou totalmente qualquer busca por leis universais governando a vida 
social. O conceito Hegeliano de liberdade individual dentro do controle do Estado é totalmente 
desprezada nesta perspectiva, que enfatiza a emancipação através da remoção do Estado e de 
suas armadilhas. 
 
O Estado, na visão de Stirner, foi o grande inimigo da liberdade humana, desde que 
representou uma coletividade reguladora que, ao desenfatizar a felicidade do indivíduo, 
significou tudo que ele rejeitou. 
 
O Existencialismo Francês. 
 
O existencialismo Francês reflete uma perspectiva filosófica firmemente situada na tradição 
do idealismo subjetivista derivado do trabalho de Fitche e Husserl. A fenomenologia e o 
existencialismo, embora dêem suporte mutuo um ao outro, suas orientações básicas são 
fundamentalmente distintas. Enquanto a fenomenologia existencial de Schutz focaliza a 
construção social do dia a dia como uma base de entendimento (quase sempre como um fim em 
si mesmo), o existencialismo de Sartre está interessado no entendimento da patologia de tais 
construções, com vistas a mudá-las.

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