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Silvia (tese) completa

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filhos. É 
fechado, então, lá dentro eles estão soltos, as crianças tem liberdade. Eu não vejo a 
cara do Caio. Lá ele não dá trabalho! Quando chega meia noite ele já vai se 
achegando. Todas as mães colocam os filhos para dormir, e o Caio não. A gente 
fica jogando e ele fica lá. Ele fica caindo, ele não reclama, não fala nada, fica lá! Eu 
falo: ‘Vai lá, deita com a sua tia, deixa eu jogar...’ que nada! Não vai sozinho, se eu 
não for com ele, ele não vai. 
S.: E aí você tem que ficar ou você espera ele dormir e sai? 
V.: Às vezes eu até falo eu vou voltar, mas aí eu já estou cansada e vou 
deitar, mas já aconteceu de eu voltar e ele acordar, aí ele vai chorando, sonado até 
onde eu estou. Ninguém se conforma, todo mundo fala com ele.... e aí ele fala que 
não gosta de dormir “eu não me sinto bem dormindo”. E esses dias que ele ficou lá, 
ele dormiu bem, pelo menos ele não acordou , não se assustou, não gritou. 
S.: Me conta essa história do Caio do começo. Como começou esse negócio 
de dormir? Ele dorme na sua cama? 
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V.: Dorme. Foi como eu te falei a culpa toda foi minha, da época em que o 
Luís trabalhava fora, o Caio nasceu, nós ficamos 40 dias na casa da minha mãe 
porque eu precisava trabalhar, depois de 7 dias eu já fui trabalhar, eu ia e voltava 
toda hora. Aí, nós fomos para casa, o Luís trabalhava à noite e eu peguei o berço do 
Caio e pus no meu quarto. Aí, tirei a grade que dava pro lado da minha cama e aí 
ele ficou durante anos. 
S.: Como é que você precisou disso? 
V.: Eu achava que eu ficava sozinha e ele podia me fazer companhia... e eu 
tinha preguiça, achava que estava frio e, para não levantar, eu o tinha bem 
pertinho.... 
S.: E isso ele era bem nenê? 
V.: Isso. Ele era bem nenê. 
S.: E aí? 
V.: Isso foi, foi para um ano. 
S.: E você nunca teve a idéia de tirar ele dali? 
V.: Não, eu falava ‘eu vou tirar’ e ele sempre precisando colocar alguma parte 
do corpo dele perto da gente. Então, ele colocava a mãozinha ou o pé perto da 
gente, aí ele dormia, mexia no cabelo. Aí o Augusto nasceu, quando ele nasceu o 
Caio tinha 2 anos e 8 meses, aí eu não quis fazer a mesma coisa com ele. Coloquei 
o bercinho do Augusto e comecei a falar para o Caio: “olha o seu irmão vai dormir 
sozinho, você dorme com ele, esse é o quarto de vocês dois...” Mas não tinha jeito, 
ele vinha para a cama toda noite ou senão nem ia. Aí nós mudamos para esse 
apartamento antes do Augusto fazer um ano. 
S.: Você já estava separada? 
V.: Não, já estava no fim, a gente perdeu o apartamento que a gente tinha, 
ele vendeu o apartamento para abrir um negócio e não deu certo, pra variar. Aí a 
gente mudou para esse apartamento e fiz o quarto bonito, mas... não tinha jeito, ele 
nem dormia lá. Não tinha jeito, então, eu já coloquei um colchão embaixo da minha 
cama, a noite é só puxar, ele dorme lá e acabou. 
S.: E o outro, (irmão) o que acha disso tudo? 
V.: Aí é que está. O outro falava: “ porque o Caio dorme com você e eu não 
posso?” Aí eu falava; “ porque você já é um homenzinho e já dorme na casa dos 
outros...”, mas não teve jeito, o outro também começou a vir, então agora estão os 
três. Então, dorme o Caio e eu na cama e o Augusto, no colchão, mas o Augusto 
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acha que de noite, como ele se mexe muito, ele cai no colchão, porque eu deixo ele 
dormir na minha cama e, depois, eu o coloco no colchão. 
S.: E aí, Vanessa? 
V.: (ri) Aí é horrível, né? Todo mundo no mesmo quarto! 
S.: O que você acha que você pode fazer? 
V.: (rindo) Eu não sei, então agora a minha tentativa é essa. 
S.: Como é que eles estão reagindo a esse papo de quarto novo? 
V.: Ele não fala nada, agora quando eu falo para ele, ele fica contente, então, 
não sei. Hoje ele viu toda essa movimentação e perguntou: “Você já comprou o 
colchão?” Eu falei: “ Isso é o de menos. Eu vou numa loja e compro.” “E se eu tiver 
muito medo?”. “Aí você vai pro meu quarto.” Como o apartamento tem três 
dormitórios ele quis o quarto dele em frente ao meu quarto, porque ele diz que se ele 
der dois passos vai estar dentro do meu quarto. Eu falo; “Tudo bem. Você quer esse 
quarto, vai ser esse quarto.” Então, agora vou esperar o quarto dele. 
S.: Quando você diz “tudo bem; você vai para a minha cama”, o que você 
acha que fica na cabeça dele? 
(............) 
V.: Eu acho que eu estou falando isso querendo dizer: tudo bem, eu não vou 
te forçar a isso. O Caio é uma criança que quando se propõe fazer uma coisa, ele 
até me surpreende. Um dos fatos também que deixou o Caio mais inseguro – foi 
quando ele largou a chupeta com 7 anos de idade, esse ano. Sabe, aquelas coisas 
de Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, eu nunca tentei, eu achava que a criança tem 
que largar no memento em que ela quiser e não eu ficar dizendo: “Olha quando o 
coelhinho, quando o Papai Noel,” quando não sei o que... eu não vou fazer isso. Eu 
explicava o tipo de dentição e os problemas que poderia acarretar, eu ia por esse 
lado, ele tem os dentes separados, mas a mordida perfeita. Mas até ele tinha 
vergonha, só usava a chupeta na hora de dormir. Mas não conseguia. Aí no Natal 
ganhou o vídeo game e só veio um controle, aí eu falei para ele: ‘Tudo bem, você 
quer outro controle, eu te compro, só que você tem que me dar a chupeta, eu te dou 
o vídeo game e você nunca mais põe uma chupeta na boca,” ele falou: “Tá bom mãe 
você pode comprar o controle que eu nunca mais vou colocar”. O Marco comprou o 
controle, colocou o controle, ele virou para mim e disse: pronto acabou a chupeta, e 
nunca mais colocou a chupeta na boca. 
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S.: Você vê que ele precisa de uma ajuda para crescer, se você deixasse 
essa chupeta por conta dele... 
V.: Tava até hoje. 
S.:... provavelmente estaria até hoje. Então parece que está pedindo para ser 
ajudado. 
V.: Isso realmente é uma coisa que ele precisa. Ele precisa de ajuda, ele quer 
se sentir mais dominado na situação da noite, realmente ele quer. 
S.: Que é mais forte do que ele. A impressão que me dá é que realmente é 
uma coisa que quase foi posta para ele. Por isso mesmo que ele não consegue 
manejar isso direito. Você disse: “ eu que comecei “ e eu acho que foi mesmo. 
V.: Com certeza! 
S.: Acho que você que tem que tirar também. Me ocorre agora uma coisa, se 
você diz para ele: “você pode vir para o meu quarto” será que não fica muito fácil? 
Ele corre e pronto. Nada muda. Quem sabe, você pode fazer uma outra proposta.... 
V.: Tipo? 
S.: Eu não sei... “se você ficar com medo, você me chama eu vou ao seu 
quarto, fico um pouco com você e depois cada um volta para o seu quarto”. Eu tenho 
a sensação que ele esta pedindo um limite para o próprio medo dele. O que você 
acha? 
V.: É...... 
S.: Como é que é pra você.... Porque, olha, criança pequena dormindo é a 
coisa mais gostosa que tem, não é? 
(Ambas riem, se entusiasmam e falam ao mesmo tempo.) 
V.: É ma-ra-vi-lho-so! 
S.: É quentinho.... uma mãozinha de criança... 
V.: Nossa! É uma delícia! 
S.: ...fofinho, molinho, cheirosinho, não é? 
V.: Que sossego!!! 
S.: Então, seus filhos ainda são pequenos... 
V.: O pequeno, então, é uma delícia! 
S.: ... como é para você, tirar isso tudo do seu quarto? 
V.: É, não sei........ Tenho que passar por essa experiência, mas eu gostaria 
muito. Sabe, é uma coisa que está me fazendo falta, ter a minha privacidade, dormir 
e acordar sozinha, ter um sono um pouco mais tranqüilo, que eu não tenho. Então, 
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eu queria ter uma coisa assim, vamos chamar de mais normal, ter o meu quarto, a 
minha liberdade.... 
S.: O Marco dorme lá às vezes? 
V.: Dorme. 
S.: E aí como faz? 
V.: No início, eu tinha medo que o Caio tivesse raiva dele, tipo: “Pôxa ele