A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
186 pág.
Ventura, M. Direitos H e Saúde

Pré-visualização | Página 42 de 50

relevantes levados 
em consideração pelos projectos de água e saneamento. 
Aquando da implementação dos projectos de abasteci-
mento de água os Forum Locais, os Comités de Desen-
volvimento da Comunidade e os Comités de Água foram 
capacitados em matérias sobre a planificação, monitoria, 
supervisão de fontes de água, manutenção e reparação de 
fontes de água incluindo adopção de práticas saneamento 
do meio e de higiene.
Contudo, as experiências de campo revelam que na 
prática, o grau de consciencialização por parte das co-
munidades de sua importância no processo de tomada de 
decisões que as afectam permanece relativamente baixo. 
Existe uma discrepância entre os conhecimentos que ad-
quirem por parte das diferentes intervenientes e formas de 
disseminação de conhecimentos e as práticas no quotidiano 
no desempenho das actividades de água e saneamento. O 
processo de tomada de certas responsabilidades, a título de 
exemplo, operação, reposição e manutenção das fontes de 
água está sendo interiorizado de forma lenta. Verifica-se a 
não colaboração por parte de alguns membros dos Comités de 
Água e os líderes comunitários em assuntos importantes que 
dizem respeito ao bem-estar de todos membros da comunidade. 
Constata-se igualmente a não transparência na gestão dos fun-
dos bem como o desinteresse, irresponsabilidade e abandono por 
parte de alguns dos membros dos Comités de Água. Apesar de 
constatado o baixo grau de participação, a sensibilização não está 
sendo levada a cabo de forma contínua e sistemática, de modo a 
despertar a comunidade do seu papel no processo decisório bem 
como na tomada de responsabilidades atribuídas à mesma.
Concordando com Becker et al (2004), grande parte dos progra-
mas que trabalham na perspectiva de empoderamento comunitário, 
adoptam uma perspectiva institucional, focalizada em questões ligadas 
à prevenção de doenças e a mudança de comportamentos, na qual o 
empoderamento é visto apenas como instrumental. No caso específico, 
as limitações em termos de autoestima, coesão social, fortalecimento 
das redes e a fraca participação dos membros pode estar associada aos 
conflitos de interesses e divergências de opiniões entre as elites locais e 
as comunidades no processo de tomada de decisões sobre os problemas 
da comunidade; a fraca articulação entre as autoridades e líderes comu-
Rehana Dauto Capurchande Comunidades locais na Promoção da Saúde: reflexões em torno da implementação de medidas de 
descentralização no sector rural de águas e saneamento em Moçambique
141
nitários10 e; a não transparência na gestão dos fundos 
de maneio das actividades de água.
No que se refere às actividades relacionadas com 
a garantia da correcta utilização da fonte, manutenção 
de rotina da fonte, promoção da limpeza colocam-se 
ainda alguns obstáculos que resultam das atitudes, 
comportamentos e maneiras de ser e pensar dos actores 
intervenientes. A observação permitiu-nos constatar que 
na maioria das fontes de água, o utilizador não adopta 
práticas seguras de promoção de higiene junto às fontes 
de água. Ademais, nos projectos de água a mulher tem 
sido considerada o actor social principal de forma que se 
procura incorporar a sua representatividade e participação 
no planeamento, gestão e manutenção das actividades de 
água e promoção da saúde. Em particular no meio rural 
os papéis de género encontram-se bem definidos sendo a 
mulher a responsável por percorrer as distâncias que sepa-
ram o local de residência e as fontes dispersas de água bem 
como pela conservação, limpeza dos utensílios domésticos e 
os reservatórios de água. 
Nos projectos de água, não obstante se tenha observado 
o princípio de género em termos de representatividade nos 
Comités de Gestão de Água, porém, a participação e envol-
vimento das mulheres na tomada de decisões revela-se mais 
fraca comparativamente à dos homens. As mulheres assumem 
mais um papel de auscultação e encontram-se menos investidas 
de poderes de decisão. Constituem-se como principais obstáculos 
os factores de natureza sócio-cultural que inibem a participação 
na esfera pública e lhes confere um lugar quase que exclusivo na 
esfera doméstica.
Dentro dos Comités de Água não existem mecanismos unifor-
mes e institucionalizados de selecção para a representatividade dos 
membros dos Órgãos dos Comités de Água. A selecção varia de con-
texto, sendo mais comum a selecção por voto e na base do consenso 
dos membros da comunidade. Concorrem como critérios a idoneidade, 
a confiança, o interesse, preocupação e envolvimento activo por parte 
dos actores pelos assuntos que dizem respeito à comunidade. 
Existem grupos de manutenção das fontes cujos membros eleitos 
assumem a responsabilidade de operação das fontes de água; reparam 
10 Semelhantes conclusões são referidas no estudo sobre os mecanismos de participação comunitária no con-
texto da Governação Local em Moçambique. O estudo acrescenta ainda a fraca capacidade de resposta dos 
governos distritais em relação às prioridades definidas pelos conselhos locais; a fraca capacidade de monitoria 
por parte dos conselhos locais na execução dos Planos Económicos e Sociais dos distritos, entre outros, (coope-
ração Suíça, s/d)
Rehana Dauto Capurchande Comunidades locais na Promoção da Saúde: reflexões em torno da implementação de medidas de 
descentralização no sector rural de águas e saneamento em Moçambique
142
pequenas avarias tais como, substituição da bomba e 
varetas; definem modalidades e formas de gestão e de 
prestação regular das contas e; informam regularmente 
às autoridades distritais sobre a situação de abastecimen-
to de água. Alguns Comités de Água adoptaram como 
estratégia para aumentar a receita dos fundos de água, 
o aumento da taxa de cobrança para um grupo especí-
fico de utilizadores, os artesãos locais11. Um dos grandes 
obstáculos enfrentados pelos Comités de Gestão de Água, 
relaciona-se com a gestão das fontes e transparência na 
gestão dos fundos. Por um lado, manifestam-se as dificulda-
des de reparação das fontes com base em recursos locais em 
tempo curto e, por outro lado, as limitações do sector privado 
local para responder as demandas: o que tem contribuído 
para que membros da comunidade aumentem o percurso das 
distâncias para ter acesso à água.
Não obstante as comunidades estejam representadas e 
participem nas diferentes etapas dos projectos de água bem 
como o processo de organização observe o estipulado pelos 
dispositivos legais que privilegiam uma abordagem da base 
para o topo, permanecem zonas de penumbra no que se refere 
a representatividade, participação, funcionamento e legitimida-
de. Para além dos factores já mencionados, ainda concorrem: 
o papel desempenhado pelas elites locais na medida em que 
influenciam, apoiam e decidem sob que iniciativas devem ser 
tomadas em consideração; a falta de um diálogo mais aberto 
que permita aos membros dos Comités de Gestão de Água a se 
empoderarem de poderes decisórios e; a fraca consciencialização, 
por parte da comunidade e, reconhecimento de si próprios como 
actores principais no desenvolvimento local. 
Práticas de Saneamento na Comunidade
Nos finais da década 70 e início da década 80 houve uma me-
lhoria das práticas de saneamento nas zonas rurais como resultado 
das campanhas de saneamento cujo slogan era “Cada Família uma 
Latrina”. O desencadear da guerra civil na década 8012, que asso-
lou sobretudo as zonas rurais constituiu um dos constrangimentos e 
fracassos das campanhas de saneamento: o que levou a redução dos 
índices de cobertura de saneamento. 
11 São indivíduos da comunidade que disseminam técnicas de uso de tecnologias rudimentares, com base em 
material local a ser utilizado nos projetos de água bem como os de contrução de latrinas melhoradas. 
12 Este conflito surge após a guerra de libertação que culminou com