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Conceitos fundamentais da história da arte

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Marcelo de Mello Rangel; Mateus Henrique de Faria Pereira; Valdei Lopes de Araujo 
(orgs). Caderno de resumos & Anais do 6º. Seminário Brasileiro de História da 
Historiografia – O giro-linguístico e a historiografia: balanço e perspectivas. Ouro Preto: 
EdUFOP, 2012. (ISBN: 978-85-288-0286-3) 
 
 
 
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“CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA HISTÓRIA DA ARTE” DE HEINRICH 
WÖLFFLIN: UMA ANÁLISE METODOLÓGICA 
Natasha de Castro
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Segundo Jörn Rüsen, uma análise metodológica de uma específica obra historiográfica 
pode ser feita com base em quatro etapas processuais inter-relacionáveis, a fim de dar sentido 
às perspectivas orientadoras do passado humano, transformando-as em História. Os processos 
são: carência, heurística, crítica e interpretação. 
A carência de orientação ocorre quando certas respostas previamente dadas se 
mostram insuficientes para a resolução de questões levantadas pelo sujeito. Esta crise servirá 
de motivação para a escolha do objeto que será investigado. A próxima etapa é a metodização 
heurística do conhecimento, ou seja, a formulação da pergunta fundamental que irá orientar a 
pesquisa histórica. Para dar sentido a esse questionamento, a crítica das fontes torna-se 
necessária. Ela regula o processo cognitivo a partir da coleta intersubjetivamente selecionada 
de documentos, dados (ou fatos) e informações pertinentes. Por fim, a interpretação constrói 
a inteligibilidade da narrativa, pois articula as informações obtidas através da crítica, 
transformando-as em História e, ao mesmo tempo, busca suplantar a carência inicial, 
respondendo à pergunta e desenvolvendo a hipótese lançada. 
Tendo como base as etapas descritas acima, o objeto escolhido para a elaboração de tal 
análise é o livro Conceitos Fundamentais da História da Arte, de Heinrich Wölfflin, lançado 
pela primeira vez em 1915. Tal obra é considerada um clássico da historiografia relacionada à 
arte, mais especificamente, à teoria estética moderna. Esta obra surgiu a partir da necessidade 
de se estabelecer uma base mais sólida às características estilísticas referentes à História da 
Arte. Para isso, Wölfflin faz uma análise pormenorizada de pinturas, desenhos, esculturas e 
obras arquitetônicas de grandes artistas renascentistas e barrocos, com o objetivo de mostrar a 
evolução interna dos estilos e definir categorias permanentes da arte. 
 Assim sendo, a carência de Wölfflin está relacionada a essa necessidade de 
elaboração de um constructo teórico mais solidificado, relativo às características de estilo na 
História da Arte. Para ele, existem estágios evolutivos da concepção visual que precisam ser 
levados em conta pelo historiador, para que este determine com maior precisão as 
 
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 Graduanda em História pela UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) – IC/CNPq 
Marcelo de Mello Rangel; Mateus Henrique de Faria Pereira; Valdei Lopes de Araujo 
(orgs). Caderno de resumos & Anais do 6º. Seminário Brasileiro de História da 
Historiografia – O giro-linguístico e a historiografia: balanço e perspectivas. Ouro Preto: 
EdUFOP, 2012. (ISBN: 978-85-288-0286-3) 
 
 
 
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transformações históricas e os tipos nacionais. O livro, por conseguinte, tem o objetivo de 
estabelecer tais diretrizes e formular conceitos correspondentes à evolução dos estilos 
correspondentes ao século XVI e o XVII, mais especificamente do período Renascentista 
(Arte Clássica) ao Barroco. 
 
“Seria ingênuo objetar-se que, em se aceitando a evolução como subordinada a um 
sistema de leis, se estaria também suprimindo a importância da individualidade 
artística. Assim como o corpo se estrutura a partir de leis absolutamente genéricas, 
sem que isso prejudique a forma individual, também o sistema de leis que governa a 
estrutura espiritual do homem não está em choque com a noção de liberdade. E parece 
óbvia a afirmação de que sempre vemos as coisas do modo como a queremos ver. 
Trata-se apenas de saber até que ponto esse querer do homem está subordinado a uma 
certa necessidade. [...]” (WÖLFFLIN, 2006: VIII) 
 
 Conceitos Fundamentais pretende conceituar o conjunto de elementos comuns entre 
indivíduos diferentes que, conforme sua união, representam uma geração específica. 
 Contudo, como traçar uma linha evolutiva entre o século XVI e o século XVII no 
tocante do estilo artístico? Essa é a heurística de Wölfflin, ou seja, a pergunta fundamental 
que orienta sua pesquisa. Para que isso seja possível, é necessário estabelecer uma unidade 
estilística dentro dos referentes séculos analisados. 
 O estilo individual do artista pode ser observado, principalmente, a partir dos mínimos 
detalhes, nos quais o sentimento formal e o temperamento de cada um deles são retratados. 
Por exemplo, “um ramo, ou o fragmento de um ramo, são suficientes para que possamos dizer 
se o autor é Hobbema ou Ruysdael” (WÖLFFLIN, 2006: 7). Como o ponto central do livro 
não é a análise de pontos isolados, deve-se entender que os indivíduos estão inseridos dentro 
de grupos maiores, ou seja, ao lado do estilo pessoal encontra-se o estilo da escola, o estilo do 
país, o estilo de raça
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 e outros. 
Épocas diferentes também produzem artes diferentes, visto que um estilo é fortemente 
condicionado por uma específica corrente cultural divulgada em certa época. Sendo assim, o 
estilo de raça e o individual mesclam-se em um estilo de época, “por mais que a paisagem de 
Rubens se ache intensamente impregnada pela personalidade deste mestre, [...] não podemos 
 
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 Termo utilizado pelo autor. 
Marcelo de Mello Rangel; Mateus Henrique de Faria Pereira; Valdei Lopes de Araujo 
(orgs). Caderno de resumos & Anais do 6º. Seminário Brasileiro de História da 
Historiografia – O giro-linguístico e a historiografia: balanço e perspectivas. Ouro Preto: 
EdUFOP, 2012. (ISBN: 978-85-288-0286-3) 
 
 
 
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admitir que ele tenha sido a expressão de um caráter nacional ‘permanente’ na mesma 
extensão em que foi a arte holandesa contemporânea” (WÖLFFLIN, 2006: 11). 
Segundo Wölfflin, o espírito de uma nova época exige uma nova forma de estilo. A 
transição do Renascimento para o Barroco é um exemplo bem elucidativo. O Renascimento 
italiano é caracterizado pelo ideal da proporção perfeita, do completo, limitado e concebível. 
Já o Barroco oferece o ideal do movimento, da emoção, aquilo que é mutável e ilimitado. O 
estilo é tido, portanto, como expressão do espírito de uma época, de uma nação e de um 
temperamento individual, a partir de suas considerações. 
No entanto, quais são as condições que determinam o estilo dos indivíduos, das épocas 
e dos povos? A expressão (temperamento, raça e época) e a qualidade de uma obra são 
insuficientes para resolver tal questão. É necessário um terceiro elemento: o modo de 
representação, isto é, as técnicas. Este é o ponto central da análise de Wölfflin. 
 
“O presente estudo ocupa-se da discussão das formas universais de representação. Seu 
objetivo não é analisar a beleza da obra de um Leonardo ou de um Dürer, e sim o 
elemento através do qual esta beleza ganhou forma. Ele também não tenta analisar a 
representação da natureza de acordo com o seu conteúdo imitativo, nem em que 
medida o naturalismo do séc. XVI difere daquele do séc. XVII, mas sim o tipo de 
percepção que serve de base às artes plásticas no decorrer dos séculos.” 
(WÖLFFLIN, 2006: 17) 
 
 Para simplificar o estudo, Wölfflin considera os séculos XVI e XVII como unidades 
de estilo, mas, ao mesmo tempo, atenta ao fato de que estes períodos não apresentam uma 
produção homogênea. Contudo, os estágios que antecederam o Renascimento
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