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O ROMANCE ÚRSULA DE MARIA FIRMINA DOS REIS

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Cantos à beira-
mar e os romances Escrava e Gupeva, onde, além de casos de incesto,
aborda as relações entre os brancos e os índios em seu Estado. A paulista
Teresa Margarida da Silva e Orta é considerada a primeira brasileira a
escrever romances, mas, segundo os maranhenses, sua obra Aventuras de
Diófanes, escrita em 1752, foi publicada em Portugal e trata da mitologia
grega, um tema que nada tem a ver com o Brasil. Por isso, entendem, não ser
considerada a primeira. É uma tese que encontra apoio em vários círculos
intelectuais de outros Estados. Assim foi homenageada pelo governo do
Maranhão, que deu seu nome a uma rua de São Luís e mandou colocar uma
placa na antiga tipografia Progresso, onde em 1958 foi impresso Úrsula. F.,
em data ignorada, com certeza na terra natal.

Bibliografia: Cantos à beira-mar (poesias), A Escrava (romance), S.
Luis, ed. fac-similar de Úrsula, pelo governo maranhense, em 1975. Fontes:
Sacramento Blake, Dic. Bibliog. Bras. 6º vol. p. 232. Arquivo de O Estado
de São Paulo. Arqivo da Academia Maranhense de Letras, MA.
(MENEZES: 1978, p. 570-571)

 No terceiro, dirigido por Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza, há uma

brevíssima síntese acerca da autora e suas produções, como também algumas referências de

pesquisa:

REIS, Maria Firmina dos. ( São Luís, MA, 11 out. 1825 —
Gumarães, MA, 11 nov. 1917), romancista, poeta, professora, Pseud.: Uma
maranhense. BIBL.: Úrsula, 1859 (rom.); id. 1975 (ed. fac-sim., pref. De
Horácio de Almeida); Cantos à beira-mar (poes.); versos em parnaso
maranhense. S.d. p. 222-5. Colab.: Semanário maranhense, São Luís, MA,
1867-1868. REF: BLAKE Dic., VI, 232; Montello, Josué. A primeira
romancista brasileira. J. Brasil, 11 nov. 1975. ( v. II: p. 1357, 2001)

 O prólogo de Horácio de Almeida (ALMEIDA, Horácio: 1975, I-VII) traz preciosas

informações sobre sua pesquisa bibliográfica, no qual se percebe o esforço em rastear a

obra e a autora no âmbito da literatura nacional, porém sua tentativa de pensar o livro

Úrsula como obra literária apresenta alguns equívocos, como por exemplo, as afirmativas

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de que falta ao romance “o colorido das descrições” e de que “ as cenas acontecem sem

qualquer preparação psicológica”.

Tais afirmativas aparecem incertas em relação à estrutura da narrativa, porque as

descrições se constituem como recurso fundamental para a fixação espacial das

personagens e estas possuem o efeito psicológico nelas próprias (seja por via de traições,

vingança, até mesmo pela via cultural da diáspora), e tal efeito se estende ao leitor que se

choca com os relatos de Tancredo, Luiza B., Preta Suzana e com as reações enfurecidas de

Fernando P.; as personagens se sintonizam com a natureza descrita pela narrativa e os

acontecimentos decorrem da articulação do que se narra pela narradora e do que se narra

pelas próprias personagens, de forma tal que personagens e descrição se articulam,

intensamente, atingindo o leitor através de um efeito psicológico: exemplos são a descrição

que Preta Suzana faz de África no IX capítulo e a primeira parte do romance, em que a

narradora descreve o quadro natural cheio de significações e símbolos, logo no primeiro

capítulo da obra.

Horácio de Almeida motivado em saber qual o primeiro romance escrito no Brasil

por uma mulher funda a discussão de que Maria Firmina dos Reis teria sido a primeira

mulher brasileira a escrever e publicar um romance no país com suas cores locais. Essa

discussão foi retomada por inúmeros estudiosos, cada qual impondo sua perspectiva acerca

da primeira obra romanesca advinda da mão feminina. Citam-se as considerações de

Horácio, que são a mãe das discussões no Brasil acerca do pioneirismo de Maria Firmina

dos Reis e embora longas, vale a pena lê-las, pelo seu caráter histórico e bibliográfico,

segundo o lugar do romance Úrsula nas letras nacionais:

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As investigações feitas me levavam ao romance Úrsula, de Maria
Firmina dos Reis, dado a estampa em 1859. Antes, ninguém apontara outro.
O que vale, no caso, é romance e não tradução de romance, como fez Nísia
Floresta, em 1850, na relação que nos dá Sacramento Blake.

Também não entra aqui, em linha de cogitação, o romance de Tereza
Margarida da Silva e Orta — Aventuras de Diófanes — publicado em 1752,
porque esse romance, em verdade, não é brasileiro. Teresa nasceu em São
Paulo, de onde se retirou aos cinco anos de idade, levada por seus pais para
Portugal. Nunca mais voltou ao Brasil. O romance que lá escreveu e
publicou, enredado na fábula, foi, com efeito, o primeiro de mulher
brasileira, mas o que se quer é romance escrito no Brasil, com tema e cor
locais, saído da pena de uma mulher.

Neste caso está Úrsula. É o primeiro de autoria feminina, surgido no
Brasil, como o primeiro de autoria masculina, é O filho do pescador, de
Teixeira e Souza, publicado em 1843. (Ibdem)

Wilson Martins discorda dos argumentos de Horácio de Almeida e em um processo

enciclopédico afirma outras possibilidades de outras autoras terem publicado antes que a

maranhense, inclusive rebate a argumentação de Horácio de Almeida no que diz respeito a

Nísia Floresta, e nem cita qualquer valor da produção de Tereza Margarida da Silva e Orta,

no volume III de sua História da Inteligência Brasileira (1977, p. 94):

No Maranhão, Maria Firmina dos Reis (1825-1881), autora, também,
de A escrava, publicou o romance Úrsula, apontado incorretamente como o
primeiro do seu gênero escrito por mulher e impresso no Brasil ( cf. Anais
do Cenáculo Brasileiro de Letras e Artes, 1973, pp. 72 e s.) Antes dela (...)
seria preciso considerar Nísia Floresta, com Daciz, ou A jovem completa
(1847) e Dedicação de uma amiga (1850), ainda que excluíssemos da
competição, aliás sem maior interesse, A filósofa por amor, de Eufrosina
Barandas, no qual há páginas de ficção (1845), e Lição a meus filhos (1854),
de Ildefonsa Laura, que são dois contos em versos.

Temístocles Linhares nega a proposição de que Maria Firmina dos Reis tenha sido a

primeira mulher brasileira a publicar um romance no Brasil, ao contrário de Horácio de

Almeida, e seguindo a esteira de Wilson Martins. Seus argumentos são repetitivos, porque

como Martins, Temístocles nega a autora do Maranhão como primeira romancista brasileira

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e, diferentemente dele, legitima Teresa Margarida da Silva e Orta como primeira brasileira

a escrever romance. De qualquer forma, Temístocles difere tanto de Horácio de Almenda,

quanto do crítico paulistano:

O equívoco por parte dos maranhenses, estava em considerar a
autora a primeira romancista brasileira a tratar de tema brasileiro, excluindo
assim a primeira brasileira na ordem cronológica a escrever romance, a
santista Teresa Margarida da Silva e Orta, autora de Aventuras de Diófanes,
um romance que não se ocupava do Brasil e antes se preocupava com a
mitologia grega. (...) esse livro tinha de ser analisado à luz de sua simbologia
e nesta tanto entrava Portugal como o Brasil. Ainda, porém, que esse livro
fosse excluído ou deixado de lado, houve outra autora brasileira, e também
romancista, que se antecipou a Maria Firmina dos Reis, publicando nove
anos antes, em 1850 portanto, o romance Dedicação de uma amiga, de
autoria de Nísia Floresta, que antes ainda, em 1847, publicara um romance
didático, Daciz, ou A Jovem Completa.

Desse tipo de engano está referta a história de nossas literaturas
regionais, principalmente, de modo que sempre se impõe a correção.

Quanto propriamente os dois romances de Maria Firmina, não se
descobriu neles nada que pudesse chamar a atenção. Até há pouco tempo,
eles eram de muito difícil alcance, quando o Governo do Maranhão tomou a
iniciativa de republicá-los em um volume, mas a verdade