Prévia do material em texto
1 LÓGICA FORMAL E LÓGICA DIALÉTICA Fonte principal: FURLAN, Adriana. A lógica formal e a lógica dialética, os conteúdos e objetivos pedagógicos no ensino de História e Geografia. Organizado por Vivian Fiori Para a aula de Geografia o professor solicita que decore os nomes das capitais e rios mais importantes do Nordeste do Brasil. Para isso usa diferentes estratégias, tais como, um mapa em branco para que coloque os nomes das capitais e dos rios; faz chamada oral para verificar o quanto conseguiu absorver de informações e na prova coloca um mapa para que identifique corretamente as capitais e os rios. Em um telejornal é apresentado, por vários dias, uma notícia sobre um fato que teve lugar em um país distante e é mostrada uma visão unilateral (única) sobre os acontecimentos. Desta forma, o fato apresentado em tal emissora leva a crer que as coisas aconteceram daquela forma. Dessa forma, a maneira como somos treinados a pensar (na vida escolar e cotidiana) definirá muitas de nossas atitudes e ações perante a sociedade na qual vivemos e, se atuarmos como professores, perante nossos alunos também. O ato de ensinar é reflexo da forma como entendemos o mundo e das escolhas que fazemos. 2 O PENSAMENTO HUMANO Se considerarmos que pensar é algo inerente ao ser humano, não podemos concordar com que os professores são responsáveis por nos ensinar a pensar. Mas podemos considerar que os professores são responsáveis por direcionar nosso pensamento ou, ainda, por fazer-nos pensar em determinadas direções. O que fica para nossa vida adulta, da nossa passagem pela escola, além de conhecimentos adquiridos, é uma forma de pensar e agir sobre o mundo. O QUE É CONHECER? Segundo Lefebvre: “o conhecimento é um fato: desde a vida prática mais imediata e mais simples, nós conhecemos objetos, seres vivos, seres humanos.” Esse conhecimento é prático, social e histórico. A partir de nossas experiências cotidianas, conhecemos os objetos e seres e interagimos com eles. A forma como nos relacionamos com eles acontece através de nossos sentidos, e esse relacionamento é, em grande parte, orientado pelas regras sociais que imperam na sociedade em que estamos inseridos. Esse conhecimento que adquirimos é histórico, pois desenvolve-se e aprimora-se ao longo do tempo, de geração em geração; é adquirido e conquistado. Conhecimento Determinado? Na escola, somos levados a ter, todos, a mesma relação com os objetos e seres, uma vez que o conhecimento a ser adquirido será determinado pelos professores (via livro didático, programas de governo, entre outros) e nossas características individuais serão colocadas em segundo plano (ou em outro mais abaixo). A forma como História e Geografia serão trabalhadas pelo professor determinará um tipo de relação com os fatos históricos e geográficos que conheceremos e tipos específicos de raciocínios que desenvolveremos. Quando, em uma aula de História, somos levados a decorar nomes de heróis, datas e fatos importantes sobre a história nacional ou internacional, desenvolvemos um tipo de raciocínio semelhante àquele desenvolvido em aulas de Geografia nas quais temos que decorar capitais de estados e nomes de rios, por exemplo. 3 REPRODUÇÃO DO CONHECIMENTO Essa forma de transmissão de conhecimento - como se este fosse uma verdade absoluta, na qual há somente o certo ou o errado, o falso ou o verdadeiro, em que não há possibilidade de questionamentos (uma vez que está no livro ou foi dito pelo professor!) - desenvolverá um raciocínio em que a dúvida não tem espaço e o aluno se tornará um mero reprodutor de discursos previamente prontos e tidos como verdadeiros. Lógica Formal: A lógica formal [...] determina através do puro pensamento as regras de seu emprego correto, ou seja, as regras gerais da coerência, do acordo do pensamento consigo mesmo. (Por exemplo: é uma regra de todo pensamento coerente que ele não deve ser destruído por uma contradição). (LEFEBVRE, 1991, p. 81). DECORAR, REPRODUZIR... A reprodução desses fatos com seus heróis e datas tornaram-se mais importantes do que conhecer o processo e verificar se há outras formas de se analisar esses acontecimentos. Decoramos isso, repetimos e devolvemos na prova para “tirar uma boa nota”. LÓGICA FORMAL A lógica formal é a lógica da aparência, uma vez que o fato dado não será questionado e isso mantém-nos somente no nível da informação sobre o fato ou objeto. 4 Essa é a única possibilidade de se trabalhar em sala de aula? Esse é o único tipo de raciocínio que podemos desenvolver em nossos alunos? Se partirmos do princípio de que nem sempre existiu ser humano neste planeta (de acordo com as descobertas arqueológicas feitas até hoje), o que temos, hoje, é nada mais, nada menos que criações humanas. Mesmo eventos naturais são explicados pelos seres humanos e essas explicações mudam com o tempo, a cada vez que mudam as ideias das pessoas e as sociedades. O TIPO DE LÓGICA Unindo a lógica com o conhecimento, temos que o que será conhecido de um objeto ou ser dependerá da relação que eu estabelecer com ele em função do tipo de raciocínio que eu desenvolver: se me relacionar com a aparência, estarei dentro da lógica formal e, se buscar a essência das coisas, estarei agindo na lógica dialética. CONTEÚDOS X TIPO DE RACIOCÍNIO Portanto, não só os conteúdos que escolhemos para trabalhar em sala de aula, mas também o tipo de raciocínio que desenvolvemos nos alunos serão o pano de fundo na relação ensino-aprendizagem e no aluno/adulto que estamos contribuindo para formar. 5 OS CONTEÚDOS O fato é que a maioria dos conteúdos que aprendemos na escola nós esquecemos. Então surge uma dúvida: se é para esquecer, por que tenho que aprender? AS CIÊNCIAS E SEU OLHAR Ao longo do tempo, a ciência especializou-se, na medida em que as sociedades foram se tornando mais complexas. Não há um mundo do historiador, do geógrafo, do químico, do físico, do biólogo e de tantos outros. O mundo é um só; o que temos é um olhar diferenciado para cada fenômeno e questões específicas sobre cada olhar, que serão respondidas de acordo com a especificidade de cada área do conhecimento. Por exemplo: para um historiador, a questão fundamental é: quando? Para um geógrafo, a questão é: onde? E associada a essa questão básica, estão outras que levam a compreender os fatos no tempo (História) ou sua distribuição no espaço (Geografia). Vejamos um exemplo citado por Pereira (1994): Os professores de geografia [não só eles, pois se trata de um fato comum entre as disciplinas que compõem as grades curriculares (...)] há muito deixaram de pensar em objetivos a serem atingidos por determinados conteúdos. O meio (conteúdo) se transformou em fim. 6 Aprendemos que o conteúdo, por si mesmo, é somente informação e não produz, por si só, algum tipo de raciocínio. É o professor que, de posse desse conteúdo, o utilizará para formar um certo tipo de raciocínio na mente do aluno e, dependendo da lógica de pensamento que em este se pautar (formal ou dialética), o conteúdo ganhará status de somente conteúdo (nível da informação) ou ferramenta para formação de pensamentos (objetivo pedagógico). RELAÇÃO ENSINO-APRENDIZAGEM A razão de existir da relação ensino-aprendizagem é mais profunda do que a simples transmissão de conteúdos (informações). Essa relação pressupõe a consciência do papel que ela desempenha na vida do educando e da sociedade. O que leva à necessidade de consciência por parte do professor de que ele está construindo formas distintas de pensar em seus alunos, dependendo de como ele conduzirá o processo na relação ensino-aprendizagem. Se a preocupaçãoprimordial for com os conteúdos (e somente com ele), ficaremos perseguindo a lógica formal e contribuiremos para manter a ordem das coisas (na sociedade) com elas estão, ou seja, produzindo cidadãos com pequena capacidade de questionamento e aceitando as imposições e regras estabelecidas. DESENVOLVIMENTO DE RACICÍNIO O primeiro passo é termos clareza de que o tipo de treino que fizermos com nossos alunos (treino mental, desenvolvimento de pensamentos e raciocínios) é o que ficará para as suas vidas, pois aí está a base de sua formação (e não de sua informação – nossos alunos adquirem informações, cada dia mais e mais, na TV, na internet entre outros meios). 7 COMPARTIMENTAÇÃO DO CONHECIMENTO Vejamos um caso: muitos de nossos alunos (pequenos, especialmente) acreditam que o leite vem do supermercado. Mesmo sabendo que existem fazendas com vaquinhas, caminhões que transportam o leite e que este é embalado em outro lugar (uma fábrica), são incapazes, geralmente, de estabelecer tais relações, ou seja, de relacionar fazenda – transporte – fábrica – supermercado. Por quê? Porque estão submetidos, na sala de aula, a aprender “em partes, o saber compartimentado” e dificilmente fazem a junção, pois não adquiriram a habilidade de relacionar. QUESTIONANDO... Para se treinar essa habilidade, devemos incitar a dúvida com perguntas tais como: Por quê? Explique. Justifique. De que forma? Conforme esta visão... Conforme a outra visão... Assim, o importante não é responder às questões levantadas, mas, sim, ensinar o aluno a perguntar; buscando mais do que uma forma de ver os fatos. AVALIAÇÃO O processo de avaliação também deverá ser repensado, pois medir o conhecimento de algo dado e pronto (perguntas e respostas sobre o que foi dado como conteúdo da aula) é mais fácil do que verificar de que forma as habilidades estão sendo apreendidas. PLANEJANDO A AULA • Estas deveriam ser as primeiras perguntas que todos nós, professores, faríamos em nosso planejamento (nossa primeira aula): O que eu quero com este aluno que ficará sob minha responsabilidade por um período X ou Y? • Qual será minha contribuição para a formação deste indivíduo que atuará nesta sociedade em que vivemos? • Quais habilidades desenvolverei neste aluno neste momento e nos próximos? E, em um segundo momento: Como atingirei estes objetivos? Aqui entram as estratégias de ensino, a didática e os conteúdos que serão desenvolvidos. 8 O conteúdo deverá estar “a serviço” de algo maior, que chamamos de objetivos pedagógicos, e ser utilizado como ferramenta em sala de aula. Desta forma, se não cumprirmos todo o extenso planejamento que propusemos ou que somos forçados a seguir, não ficaremos frustrados, desde que as habilidades que nos propusemos desenvolver nos alunos sejam alcançadas.