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UNIVERSIDADE PAULISTA UNIP SILVANI DOS SANTOS VIEIRA ABRIGO DE ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL: Estudo de caso para implantação na Região Sudoeste de Goiânia GOIÂNIA 2017 SILVANI DOS SANTOS VIEIRA ABRIGO DE ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL: Estudo de caso para implantação na Região Sudoeste de Goiânia Trabalho final de graduação (TFG) para obtenção do título de graduação em Arquitetura e Urbanismo apresentado à Universidade Paulista – UNIP. Orientador: Juliane Calvet GOIÂNIA 2017 SILVANI DOS SANTOS VIEIRA ABRIGO DE ACOLHIMENTO INSTITUCIONAL: Estudo de caso para implantação na Região Sudoeste de Goiânia Trabalho final de graduação (TFG) para obtenção do título de graduação em Arquitetura e Urbanismo apresentado à Universidade Paulista – UNIP. Aprovado em: __/__/__ COMISSÃO EXAMINADORA ___________________________________________________ Prof. Juliane Calvet – Orientador Universidade Paulista – UNIP ___________________________________________________ Prof. Convidado Universidade Paulista – UNIP ___________________________________________________ Prof. Convidado Externo Universidade Paulista – UNIP “Tudo tem seu apogeu e seu declínio... É natural que seja assim; todavia, quando tudo parece convergir para o que supomos o nada, eis que a vida ressurge, triunfante e novas folhas, novas flores, na indefinida bênção do recomeço” (Chico Xavier) RESUMO Os abrigos de acolhimento institucional, conhecidos, antigamente, como orfanatos, são instituições que acolhem e fornecem os cuidados necessários à criança e jovem que estão sob medida protetiva. Esses locais são importantes meios de reinserção dos seus usuários na família de origem, ou de inclusão em família substitutiva, quando há a necessidade. Além disso, os abrigos devem promover a socialização, bem como o desenvolvimento físico e psicológico dos acolhidos em suas dependências. Dessa forma, a estrutura física dos edifícios deve ser pensada de maneira minuciosa, se atendo à análise de todos os aspectos relevantes para abrigar esses jovens e também atuar como agente transformador do futuro de cada um deles. Sendo assim, o presente estudo tem como objetivo analisar a evolução histórica dos abrigos de acolhimento institucionais, atrelada aos projetos arquitetônicos dos mesmos. Além disso, o trabalho apresenta também o intuito de delinear o eixo condutor do projeto arquitetônico de um Abrigo de Acolhimento Institucional a ser implantado na Região Sudoeste de Goiânia. Palavras-chave: Acolhimento institucional, Abrigo, Arquitetura social. ABSTRACT Institutional shelters, formerly known as orphanages, are the ones that consume and provide the necessary care for children and young people who are protected. These sites are significant means of reinsertion of their users into the family of origin, or of inclusion in a substitutive family, when there is a need. In addition, the shelters promote a socialization, as well as the physical and psychological development of the hostages in their dependencies. In this way, a physical structure of buildings must be thought through in detail, it is an analysis of all aspects relevant to young people and also update as a transforming agent of the future of each one of them. Therefore, the present study has the objective of analyzing a historical evolution of institutional shelters, linked to the architectural projects of the same. In addition, the work also presents the concept of delineating the guiding axis of the architectural project of an Institutional Shelter to be implanted in the Southwest Region of Goiania. Keywords: Institutional shelter, Shelter, Social architecture. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 - Roda dos expostos da Basílica da Misericórdia, em Lisboa .......................... 20 Figura 2 - Linha do tempo: criação das primeiras Rodas dos expostos no Brasil .......... 22 Figura 3 - Linha do tempo: principais mudanças favoráveis às crianças e aos adolescentes ocorridas no Brasil entre 1822 e 1899 ....................................... 23 Figura 4 - Linha do tempo: principais mudanças favoráveis às crianças e aos adolescentes ocorridas no Brasil entre 1927 e 1990 ....................................... 25 Figura 5- Fotografia de Asilos dos Expostos e da grande quantidade de crianças atendidas ........................................................................................................ 37 Figura 6 - Motivos de ingresso de crianças e adolescentes em abrigos no Brasil ............. 41 Figura 7 - Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt .............. 43 Figura 8 - Planta de Situação do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt .......................................................................................... 44 Figura 9 - Planta Baixa Esquemática do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt ............................................................................. 46 Figura 10 - Planta do 1º Pavimento do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt ........................................................................................ 46 Figura 11 - Planta do 2º Pavimento do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt ........................................................................................ 47 Figura 12 - Planta do 3º Pavimento do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt ........................................................................................ 48 Figura 13 - Planta do 4º Pavimento do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt ........................................................................................ 48 Figura 14 - Planta do 5º Pavimento do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt ........................................................................................ 49 Figura 15 - Planta do 6º Pavimento do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt ........................................................................................ 50 Figura 16 - Corte do edifício Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt, ilustrando o sistema de camadas ................................................ 51 Figura 17 - Vistas da fachada principal do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt e do Anel Viário, conhecido como Le Périphérique ................................................................................................. 52 Figura 18 - Vista da fachada principal do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt ........................................................................... 53 Figura 19 - Ambiente Interno do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt: à esquerda móveis planejados e à direita escadaria centra ........................................................................................................... 54 Figura 20 - Pátio central do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt ..................................................................................................... 54 Figura 21 - Ambiente Interno do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt: à esquerda fachada e à direita Hall de entrada .............. 55 Figura 22 - Casa de Acolhimento para Menores / CEBRA ............................................... 55 Figura 23 - Planta de Situação da Casa de Acolhimento para Menores / CEBRA ............ 56 Figura 24 - Planta Térreo Esquemáticada Casa de Acolhimento para Menores / CEBRA ......................................................................................................... 57 Figura 25 - Planta do 1º Pavimento da Casa de Acolhimento para Menores / CEBRA ... 58 Figura 26 - Croqui de estudo para concepção da forma do edifício .................................. 59 Figura 27 - Demonstração da adequação à tipologia formal das residências já existentes na região onde se localiza a Casa de Acolhimento de Menores / CEBRA ....................................................................................................... 60 Figura 28 - Vista da fachada da Casa de Acolhimento de Menores / CEBRA, ilustando o jogo de volumes e alturas .......................................................................... 61 Figura 29 - Vista da fachada da Casa de Acolhimento de Menores / CEBRA, ilustando o jogo na altura dos peitoris .......................................................................... 61 Figura 30 - Vista da fachada da Casa de Acolhimento de Menores / CEBRA, ilustrando os materiais usados ...................................................................................... 62 Figura 31 - Croquis mostrando diferentes usos nos sotãos .............................................. 63 Figura 32 - Mapa da localização de Goiânia .................................................................... 68 Figura 33 - Comércios, Praças e Área residencial do bairro ............................................. 69 Figura 34 - Dados Populacionais por bairros da Região Sudoeste de Goiânia, no ano de 2012 ........................................................................................................ 70 Figura 35 - Mapa da localização do bairro Moinho dos Ventos, localizado na Região Sudoeste de Goiânia .................................................................................... 71 Figura 36 - Trajeto do bairro Moinho dos Ventos até a Praça Cívica ................................ 72 Figura 37 - Principais Vias de Acesso ao bairro Moinho dos Ventos ................................ 72 Figura 38 - Evolução urbana do setor Moinho dos Ventos ............................................... 73 Figura 39 - Predominância de uso residencial no setor Moinho dos Ventos ..................... 74 Figura 40 - Predominância de uso residencial no Setor Moinho dos Ventos .................... 74 Figura 41 - Delimitação da área do entorno do Abrigo de Acolhimento Institucional ........ 75 Figura 42 - Localização da Área de implantação do Projeto ............................................. 75 Figura 43 - Distância entre a área escolhida e os principais equipamentos de ensino, saúde e transporte ........................................................................................ 76 Figura 44 - Mapa de hierarquia viária ............................................................................... 77 Figura 45 - Mapa de Fluxo Viário ..................................................................................... 78 Figura 46 - Mapa de Uso e Ocupação do Solo ................................................................. 79 Figura 47 - Mapa de Gabarito .......................................................................................... 80 Figura 48 - Mapa de Cheios e Vazios Urbanos ................................................................ 81 Figura 49 - Mapa de Infraestrutura Urbana ...................................................................... 82 Figura 50 - Mapa de Infraestrutura Urbana ...................................................................... 82 Figura 51 - Mapa de Infraestrutura Urbana ...................................................................... 83 Figura 52– Mapa de Insolação e Ventilação .................................................................... 85 LISTA DE TABELAS LISTA DE SIGLAS APM - Área Pública Municipal ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente Fórum DCA - Fórum Permanente da Criança e do Adolescente FUNABEM - Fundação Nacional do Bem-estar do Menor FUNCAD - Fundação da Criança e do Adolescente e da Integração do Deficiente Físico IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada LBA - Legislação Brasileira de Assistência MPGO - Ministério Público de Goiás ONU - Organização das Nações Unidas SEPLAM - Secretaria Municipal de Planejamento Urbano SUAS - Sistema Único de Assistência Social UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância ZPA - Zona de Proteção Ambiental SUMÁRIO INTRODUÇÃO .................................................................................................... 14 Objetivos ............................................................................................................ 16 1 REVISÃO DE LITERATURA ........................................................................... 17 1.1 A evolução histórica do abandono e dos abrigos .............................. 17 1.1.1 O abandono e o surgimento dos primeiros abrigos no mundo ......... 17 1.1.2 O abandono e o surgimento dos primeiros abrigos no Brasil ........... 21 1.1.3 O abandono e o surgimento dos primeiros abrigos em Goiás e Goiânia .............................................................................................. 28 1.2 A conquista do Estatuto da Criança e do Adolescente .................... 34 1.3 Principais diferenças entre Orfanatos/Internatos e Abrigos ........... 36 1.4 Principais tipos de entidades de acolhimento .................................. 37 1.4.1 Abrigo de Acolhimento Institucional .................................................. 38 1.5 Motivos de ingresso de crianças e adolescentes em abrigos de acolhimento institucionais no Brasil ................................................. 40 2 ESTUDO DE CASO ......................................................................................... 43 2.1 Maison d’Accueil de l’enfance Eleanor Roosevelt ........................... 43 2.1.1 O Projeto ........................................................................................... 44 2.1.2 Análise Projetual ............................................................................... 45 2.1.3 Concepção Formal ........................................................................... 50 2.1.4 Compatibilidade Formal .................................................................... 51 2.1.5 Ambiente Interno .............................................................................. 53 2.1 Casa de Acolhimento para Menores .................................................. 55 2.1.1 O Projeto ........................................................................................... 56 2.1.2 Análise Projetual ............................................................................... 57 2.1.3 Concepção Formal ........................................................................... 59 2.1.4 Compatibilidade Formal .................................................................... 60 3 PROPOSTA CONCEITUAL ............................................................................ 64 3.1 Conceito Arquitetônico ....................................................................... 64 3.1.1 Eixo Condutor ................................................................................... 65 4 ESTUDO DO LUGAR ...................................................................................... 66 4.1 Caracterização de Goiânia .................................................................. 66 4.1.1 Históricode Goiânia ......................................................................... 66 4.1.2 Localização de Goiânia .................................................................... 67 4.2 Caracterização do Setor Moinho dos Ventos .................................... 68 4.2.1 Histórico do Setor Moinho dos Ventos ............................................. 68 4.2.2 Localização do Setor Moinho dos Ventos ........................................ 71 4.2.3 Leitura da Paisagem Urbana do Setor Moinho dos Ventos .............. 73 4.2.4 O Terreno ......................................................................................... 75 4.3 Elementos Construídos (Morfologia Urbana) ................................... 77 4.3.1 Traçados das Ruas ........................................................................... 77 4.3.2 Fluxos ............................................................................................... 78 4.3.3 O Edifício .......................................................................................... 78 4.3.4 Gabarito ............................................................................................ 80 4.3.5 Cheios e Vazios ................................................................................ 80 4.3.6 Infraestrutura Urbana ........................................................................ 81 4.4 Elementos Naturais (Geomorfológico) .............................................. 82 4.4.1 Topografia ......................................................................................... 82 4.4.2 Vegetação e Hidrografia ................................................................... 83 4.4.3 Insolação e Ventos ........................................................................... 83 REFERÊNCIAS .................................................................................................. 86 INTRODUÇÃO Os abrigos institucionais surgem como uma das principais alternativas de proteção às crianças e adolescentes em situação de risco ou vulnerabilidade social. Diante disso, os menores acolhidos necessitam estar sob os cuidados de uma instituição que não apena lhes abrigue, por meio de uma estrutura física adequada, mas que também lhes garantam a assistência necessária para o desenvolvimento físico, psicológico e social. Sendo assim, para atender esses objetivos, as instalações estruturais desses abrigos se assemelham às de uma residência e a equipe técnica que atuam junto aos menores é composta por profissionais capacitados para esse tipo de intervenção. Dessa forma, toda a estrutura dos abrigos institucionais é determinada para proteger a integridade física e psicológica das crianças e adolescentes acolhidos. Apesar de toda a estruturação dos abrigos de acolhimento institucionais ser voltada para o melhor atendimento ao menor acolhido, todos os esforços durante o período de amparo são voltados para a reintegração desses jovens às suas famílias de origem ou, como última opção, a inserção dessas crianças e adolescentes em famílias substitutivas. No caso específico do município de Goiânia notamos algumas dificuldades de reintegração dos jovens às suas famílias de origem. Isso porque a cidade possui apenas um abrigo municipal, localizado na Região Norte da cidade, não sendo capaz de atender, efetivamente, a previsão do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) sobre a necessidade de crianças acolhidas manterem o contato com a família, a fim de preservarem o convívio familiar. Para que esse contato seja mantido é necessário que as crianças sejam encaminhadas para unidades próximas de suas residências, a fim de facilitar o relacionamento com a família de origem.[1: O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) foi sancionado pela Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, e dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente.] Existem, ainda, mais 13 abrigos institucionais em Goiânia, os quais são vinculados à igreja e sobrevivem por meio de trabalhos realizados na comunidade. Ainda assim, essas instituições não são suficientes para atender a demanda geral da capital goiana. Diante dessa realidade, se mostra crucial a implantação de novos abrigos de acolhimento institucionais espalhados por Goiânia. Contudo, o presente estudo escolheu como local de proposição para a elaboração de um projeto de abrigo institucional, a Região Sudoeste da cidade de Goiânia. Isso porque a região escolhida conta com a estrutura de acolhimento de apenas um abrigo, o Ministério Filantrópico Terra Fértil, que atende, somente, meninos em situação de risco, vítimas de abusos, exploração sexual e usuários de drogas. Além disso, a Região Sudoeste é considerada uma das mais populosas de Goiânia, sendo composta, em sua maioria, por famílias de baixo poder aquisitivo, o que aumenta as chances dos menores dessas famílias serem abandonados ou negligenciados pelas mesmas. Frente a esses fatos e dados, percebe-se a extrema importância da implantação de um abrigo na região escolhida. Dessa forma, o presente estudo propõe um projeto de entidade de acolhimento, no qual o espaço arquitetônico das casas seja utilizado em prol das crianças e jovens institucionalizados. Para tal, insere o desenho do espaço como mediador das relações sociais e psicológicas, já que no período em que passam pelo abrigo, em geral, apresentam marcas profundas marcadas, sobretudo, pela carência de uma estrutura familiar. Portanto, o apoio adequado pode diminuir a chance dessas crianças serem marginalizadas, por meio da exposição à situação de rua ou pelo ingresso precoce no mercado de trabalho, sendo privados, dessa forma, do seu direito a infância. Neste contexto, torna-se pertinente assumir a adoção de uma abordagem interdisciplinar, que permita relacionar os fatores sociológicos envolvidos neste cenário com a sua influência na arquitetura. O plano de trabalho adotado nesse estudo se estrutura em cinco capítulos, divididos da seguinte forma: no primeiro capítulo, foi realizada a Revisão de Literatura; no segundo capítulo, há a apresentação de dois estudos de caso de abrigos institucionais; no terceiro capítulo, há a apresentação da proposta conceitual; no quarto capítulo, há a realização dos estudos de leitura do espaço, no qual se desenvolvem todas as análises do sitio de intervenção e do seu entorno, abordando edifícios preexistentes, topografia local, clima e ventos, e; no quinto capítulo, há a concepção do projeto, especificando o partido arquitetônico e as diretrizes especificas, tais como programa de necessidades, quadro síntese, setorização e fluxogramas. Objetivos O objetivo geral desse trabalho foi elaborar o projeto arquitetônico de um Abrigo de Acolhimento Institucional, a ser implantado na Região Sudoeste de Goiânia. Especificamente, os objetivos desse estudo foram: Abordar a evolução histórica do abandono, bem como o surgimento dos primeiros abrigos no mundo, no Brasil, e, mais especificamente, em Goiás e em Goiânia; Apresentar as principais conquistas alcançadas com a elaboração e aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente, no que se refere aos direitos da criança e do adolescente; Diferenciar orfanatos e internatos de abrigos de acolhimento institucionais; Apresentar os principais tipos de entidades de acolhimento, enfatizando o abrigo institucional; Elencar os principais motivos que resultam no ingresso das crianças e adolescentes em abrigos no Brasil; Realizar o estudo de caso dos abrigos Maison d’Accueil de l’enface Eleanor Roosevel e Casa de Acolhimento/CEBRA, promovendo a análise de suas funções, bem como as tecnologias e formas aplicados no projeto arquitetônico dos mesmos; Apresentar a proposta conceitual, abordando os traçados condicionantes e as diretrizes para a elaboração do projeto arquitetônico de um Abrigo de Acolhimento Institucional; Realizar os estudos de leitura do espaço, bemcomo as análises do sitio de intervenção e do seu entorno; Conceber o projeto arquitetônico do Abrigo de Acolhimento Institucional. 1 - REVISÃO DE LITERATURA 1.1 - A evolução histórica do abandono e dos abrigos 1.1.1 - O abandono e o surgimento dos primeiros abrigos no mundo O abandono de crianças e adolescentes, apesar de, atualmente, ainda ser um assunto muito noticiado na mídia, não é uma prática recente. Esse tipo de atitude, na verdade, se insere na sociedade desde a origem das civilizações humanas e se estende até os dias atuais. No entanto, algumas sociedades, sobretudo, aquelas cuja cultura é vinculada ao protestantismo, não reportaram, ao longo da sua evolução, práticas de abandono. Dessa forma, segundo Rodrigues (2015), o abandono de crianças é um fenômeno observado desde a antiguidade, sendo que as primeiras ocorrências dessa prática se deram nas civilizações gregas e romanas e se estenderam durante a Idade Média, Moderna e Contemporânea. Ainda segundo o mesmo autor, a prática do abandono não foi observada em países protestantes, já que esses têm como doutrina a noção de responsabilidade pelos seus atos diante de Deus e da sociedade. Além disso, países Africanos, asiáticos e áreas indígenas primitivas também não reportaram o abandono de crianças, sendo esse tipo de atitude praticamente inexistente nessas sociedades (RODRIGUES, 2015). Na Grécia e em Roma antigas, os aspectos religiosos não se preocupavam com a formação da família, nem ao menos com a relação afetiva e com os direitos da criança dentro do seio familiar. Nesse sentido, a família era vista como uma entidade associada à religião, e não como uma associação natural. Diante disso, Coulanges (2003) expõe que a religião era uma forma de ditar regras, sendo responsabilidade do patriarca da família a detenção do poder absoluto e a transferência dessas regras aos demais membros da instituição familiar. Dessa forma, não existia relação afetiva entre os componentes da família e toda a relação era construída baseada na religião. O pai é chefe supremo da religião doméstica; determina todas as cerimônias do culto como entende, ou antes, como vira seu pai praticar. Ninguém na família lhe nega essa supremacia sacerdotal. A própria cidade e os seus pontífices nada podem alterar no seu culto. Como sacerdote do lar, o pai não reconhece superior hierárquico algum (COULANGES, 2003, p.90). Sendo assim, todos os membros da casa deviam atender diretamente as ordens do pai da família. Além disso, ainda segundo Coulanges (2003), nessas civilizações antigas era outorgada ao chefe de família a autoridade máxima sobre os filhos, sendo dele a decisão e o direito de rejeitar, expor, vender como escravos ou até mesmo matar os filhos recém-nascidos, principalmente, os que nasciam com alguma deformidade. No caso de morte de crianças com deficiência, a justificativa é que os bebês que nasciam com alguma malformação poderiam trazer maus agouros para a comunidade e para a família (COULANGES, 2003). O direito de reconhecer o filho ao nascer, ou de o rejeitar. Este direito é dado ao pai tanto nas leis gregas como nas romanas. Por mais bárbaro que seja, este direito não era bastante para poder participar-se no círculo chefe e a iniciação no culto. Enquanto o filho não estiver associado à religião doméstica, nada representará para seu pai (COULANGES, 2003, p.91). Por meio da observação cultural das civilizações gregas e romanas antigas no que diz respeito à família, se torna fácil a compreensão do fenômeno de abandono de crianças nessas sociedades, principalmente, explicado, pela ausência de laços afetivos entre pai e filhos. Percebe-se, ainda, que a infância não era entendida como uma categoria especifica, não existindo, nessas sociedades, a diferença entre crianças e adultos. Dessa forma, as crianças eram vistas como adultos em miniaturas, e eram obrigadas a cumprir as ordens do pai, que não diferenciava tarefas. De acordo com Coulanges (2003), nas civilizações antigas os filhos eram considerados uma ferramenta de trabalho e tudo que eles conseguiam com o seu trabalho era considerado do pai. Além disso, os filhos podiam ser vendidos a qualquer momento como escravo para outras famílias ou ainda serem entregues a oficiais. As crianças que eram entregues a esses oficiais passavam a ser consideradas propriedade do Estado. Dessa forma, esses jovens eram militarizados desde muito cedo, sendo toda a sua educação condicionada aos oficiais aos quais eles foram entregues (COULANGES, 2003). Apesar de o modelo familiar adotado pela Grécia e Roma antigas ter sido adotado por muito tempo, durante a Idade Média começaram a ocorrer as primeiras mudanças na forma de tratar as crianças no seio familiar. Nessa época houve a expansão do Cristianismo e, atrelado a ela, o início do reconhecimento dos direitos das crianças, por meio da defesa do direito à dignidade para todos, inclusive para os menores (AMIN, 2010). Diante dessa mudança na estrutura familiar, Amin (2010) aponta que, não apenas a expansão religiosa, mas também a influência e o poder que a religião detinha sobre os sistemas jurídicos durante a Idade Média, inseriu na sociedade uma nova forma de pensar os valores educacionais. Dessa forma, tinha início os pensamentos voltados para a defesa do direito à dignidade para todos, inclusive aos órfãos e as viúvas. Nesse novo contexto de direito, as relações familiares foram fortalecidas, adotando, sobretudo, o respeito aos pais por meio da aplicação prática do quarto mandamento expresso pelo Cristianismo, que determina que se deve “Honrar pai e mãe” (Amin, 2010). Foi, principalmente, graças a esse fortalecimento das relações familiares que o abandono de crianças advindas de uniões reconhecidas pela sociedade e pela Igreja se tornou menos observado na sociedade cristã da Idade Média. Além disso, a inserção de penas corporais e espirituais aos pais que abandonavam ou expunham seus filhos também auxiliou na redução do número de abandonos nesse período. Contudo, crianças concebidas fora do casamento eram discriminadas e, muitas vezes, abandonadas. Essa diferença observada no tratamento dado às crianças nascidas dentro e fora do matrimônio se deve à concepção adotada pela Igreja Católica, detentora da hegemonia religiosa da época. Segundo a Igreja, o matrimônio é um sacramento, ou seja, algo sagrado, por isso as crianças que nasciam fora do casamento eram consideradas, pela Igreja, como um atentado contra a instituição sagrada. Diante disso, filhos espúrios, adulterinos ou sacrílegos deviam permanecer à margem da sociedade. Dessa forma, frente à posição contrária da Igreja sobre as crianças nascidas fora do matrimônio, houve o aumento na quantidade de abandonos. Devido a esse crescimento a Igreja Católica foi obrigada a criar os primeiros orfanatos e monastérios, ficando os padres e freiras encarregados da responsabilidade de criar e educar esses órfãos. À medida que o abandono de crianças espúrias aumentava, crescia também esse modelo de assistência as crianças abandonadas na Europa (MORAES, 2004). Como o abandono nesse período era uma prática comumente aplicada aos recém-nascidos advindos do adultério, surge na Europa medieval a Roda dos expostos (Figura 1), elemento de madeira com forma cilíndrica, que era fixado junto ao muro dos hospitais ou orfanatos e tinha o objetivo de diminuir o infanticídio. De acordo com Valdez (2002), a Roda foi criada em Roma em 1203, pelo Papa Inocêncio III, que ficou muito comovido quando pescadores jogaram a rede e retiraram vários bebês mortos do rio, vítimas do infanticídio. Dessa forma, a Roda dos expostos tinha o objetivo de resguardar a identidade das pessoas que entregavam as crianças e, sobretudo, salvar a vida de inúmeros recém-nascidos, que estariam sentenciados a morte sem a existência dela (VALDEZ, 2002). Figura 1 - Roda dos expostos da Basílica da Misericórdia, em Lisboa Fonte: Blog da família católica.[2: Disponível em: < http://blogdafamiliacatolica.blogspot.com.br/2012/09/ressurgimento-na-europa-da-roda-dos.html>.Acesso em: 25 de abril de 2017.] As crianças que eram deixadas nessas Rodas recebiam os primeiros cuidados, eram vestidas, passavam pelas amas de leite, eram batizavam, registradas, e após esses cuidados eram encaminhadas para famílias que não tinham filhos. Apesar de serem acolhidas por uma família, essas crianças não eram asseguradas por lei e não podia receber herança da família receptiva (LEITE, 1991). Em Portugal e em suas colônias, a assistência oferecida às crianças era regulamentada pelas Ordenações Manuelistas de 1521 e, posteriormente, foi confirmada pelas Ordenações Filipinas de 1603. De acordo com essas legislações, todas as Câmaras municipais teriam que arcar com as despesas oriundas da criação dos enjeitados até que eles completassem sete anos de idade (LEITE, 1991). Ainda que os primeiros abrigos de acolhimento tenham surgido na Grécia e em Roma antigas, por meio da intervenção do Estado junto às crianças abandonadas pelos pais, parece ter sido na Europa medieval que a preocupação com a assistência dada a essas crianças aumentou. Graças à atuação da Igreja, as crianças rejeitadas pelas famílias de origem passaram a ser acolhidas e inseridas em famílias sem filhos. Mesmo assim, não há, até esse momento histórico, a percepção de que os abrigos são lugares de transformação e desenvolvimento físico, psicológico e social para essas crianças e jovens. Dessa forma, os abrigos atuavam, até então, somente com o intuito de diminuir o número de infanticídios, sem, de fato, inserir esses jovens no ambiente social. 1.1.2 O abandono e o surgimento dos primeiros abrigos no Brasil A cultura brasileira, bastante influenciada pelos portugueses, também herdou dos seus colonizadores a prática de abandonar crianças. Essas crianças abandonadas na colônia, quando não morriam, eram, geralmente, abrigadas por famílias locais para serem usadas como servos. Corroborando isso, MARCÍLIO (2003) expõe que o abandono de crianças no Brasil foi, de fato, uma influência trazida por Portugal, atrelado, principalmente, à dificuldade de inserir na colônia o modelo europeu de família monogâmica e indissolúvel. Dessa forma, houve o crescimento da miséria, da exploração e da marginalização, já que era normal ver crianças brancas e mestiças perambulando e pedindo esmolas nas ruas, ou vivendo entocadas nos matos próximos das vilas. Além disso, graças à omissão de ajuda a essas crianças, muitas morriam e outras eram assumidas ou agregadas, como descrito a seguir: [...] a maioria dos bebês que iam sendo largados acabavam por receber a compaixão das famílias que os encontravam. Elas criavam os expostos por espírito de caridade, mas também, em muitos casos, calculando utilizá-los, quando maiores, como mão-de-obra suplementar, fiel, reconhecida e gratuita (MARCÍLIO, 2003, p.55). O abandono de crianças não foi, contudo, a única forma de abuso praticada contra os direitos da criança na colônia portuguesa. Com a chegada dos Jesuítas no Brasil, ainda no período colonial, houve a retirada de várias crianças indígenas de suas tribos, com o intuito principal de facilitar o processo de colonização das terras brasileiras. Segundo Baptista (2006), os jesuítas resolveram investir na educação e na catequese das crianças indígenas, já que elas eram consideradas “almas menos duras”. Surgem, então, ainda no período colonial, a casa dos muchachos, que foi a primeira forma de abrigo e se estruturava como internatos educacionais. Essa casa abrigava as crianças indígenas tiradas das suas tribos, além de também acolher órfãos e enjeitados vindos de Portugal, que aprendiam, rapidamente, a língua nativa, e tornavam-se importantes auxiliares no trabalho de conversão (BAPTISTA, 2006). Bem como a prática do abandono de crianças foi inserida no Brasil por meio de uma herança portuguesa, as primeiras iniciativas de assistência às crianças abandonadas também foram trazidas de Portugal. De acordo com Baptista (2006), o Brasil, durante o período colonial, seguiu a tendência europeia, implantando as Rodas dos expostos, as quais foram utilizadas no período Imperial e abolidas no período Republicano (Figura 2). Figura 2 - Linha do tempo: criação das primeiras Rodas dos expostos no Brasil Fonte: Elaborada pela autora, por meio dos dados dispostos em BAPTISTA (2006). Graças à implantação das Rodas dos expostos e, posteriormente, das Santas Casas, as crianças vítimas de abandono passaram a ser institucionalizadas e, assim, cada vez menos crianças eram deixadas nas ruas. De acordo com Marcílio (2003), esse modelo de assistência às crianças abandonadas esteve sempre associado às misericórdias, no qual o sentido do trabalho é a caridade cristã. Dessa forma, por meio da intervenção da Igreja, o objetivo principal dessas Rodas era diminuir o número de infanticídios e de abortos (MARCÍLIO, 2003). Contudo, devido à precariedade dos serviços prestados a essas crianças, muitas não resistiam e vinham a óbito, como exposto no trecho a seguir: A quase totalidade desses pequenos expostos nem chegava à idade adulta. A mortalidade dos expostos, assistidos pela roda, pelas câmaras ou criados em famílias substitutas, sempre foi a mais elevada do todos os seguimentos sociais do Brasil -incluindo neles os escravos (MARCÍLIO, 2003, p.55). A partir de 1822 a percepção da infância e da adolescência no Brasil passou por várias mudanças (Figura 3), resultando em melhorias no que se refere aos direitos infantis. Figura 3- Linha do tempo: principais mudanças favoráveis às crianças e aos adolescentes ocorridas no Brasil entre 1822 e 1899 Fonte: Elaborada pela autora, por meio dos dados dispostos em BAPTISTA (2006). Em 1822, com a Proclamação da República no Brasil, a situação das crianças no país foi tomando novos rumos. Isso porque a política e a economia pressionaram a sociedade para que os problemas de pobreza e de abandono de crianças fossem enfrentados e resolvidos. Segundo Baptista (2006), ideias como as que afirmam que o aumento populacional afeta negativamente o desempenho econômico, e que a pobreza aumentava o número de crianças abandonadas, fizeram surgir iniciativas públicas e privadas para mudar esse cenário. Dessa forma, a institucionalização passou a ser maciça, e assim, as crianças que não tinham o apoio familiar, como as abandonadas e órfãs, também começaram a ser abrigadas, sendo assumidas como problemas sociais (BAPTISTA, 2006). Alguns anos depois, em 1828, foi promulgada a Lei dos Municípios, que favoreceu as Câmaras Municipais ao desobriga-las da responsabilidade de custear os gastos das crianças abandonadas, como era previsto desde 1521 e 1603, respectivamente, como herança das Ordenações Manuelistas e Ordenações Filipinas implantadas por Portugal no Brasil. Dessa forma, a responsabilidade de cuidar dessas crianças recaiu sobre as Santas Casas de Misericórdia, que passaram a ser controladas pelo Estado, o que resultou na diminuição da sua autonomia e do seu caráter criativo (BAPTISTA, 2006). Segundo Marcílio (2003), as casas de recolhimento, que antes acolhiam somente bebês passam a receber também crianças a partir dos 3 anos de idade, quando deixavam as amas-de-leite, as quais permaneciam até os 7 anos, quando eram procuradas formas para coloca-las em casas de família. Surge, então a Casa de Recolhimento dos Expostos, uma instituição complementar à Roda, responsável por cuidar das crianças entre 3 e 7 anos. Apesar do avanço, contudo, não havia ainda nenhum tipo de preocupação com a questão educacional e profissionalizante dessas crianças. Dessa forma, fica claro que a preocupação dessas instituições era ligada apenas a questões econômicas e políticas e não com o desenvolvimento social, físico e psicológico dessas crianças (MARCÍLIO, 2003). Em contrapartida a essas iniciativas governamentais, a Lei do Ventre Livre, promulgada em 1871, gerou o aumento da pobreza e da miséria, o que resultou em mais crianças abandonadas e, consequentemente, no aumento da procura por abrigos ou orfanatos, como eram conhecidos na época. Com expõem Rizzini e Pilotti(2009), como consequência do aumento da pobreza, crianças negras e mestiças acabaram se juntando àquelas já em situação de abrigamento, provenientes de famílias pobres e filhos de prostitutas. Diante dessa situação, vemos que o abrigo de órfãos e crianças abandonadas se tornou uma prática muito comum nesse período histórico no Brasil. As entidades cuidadoras dessas crianças eram mantidas, em sua maioria, por instituições religiosas e auxiliados por donativos e, por vezes, pela intervenção do Poder Público. Somente em 1899, com a criação do Instituto de Proteção e Assistência à Infância, é que médicos higienistas e juristas passam a se preocupar com a questão das superlotações nos abrigos, motivados, sobretudo, pelo risco de contágio de doenças infectocontagiosas (RIZZINI; PILOTTI, 2009). Mesmo que em 1899 algumas mudanças já pudessem ser observadas na forma de acolher as crianças abandonadas e órfãs, foi somente a partir de 1920 que as transformações sociais mais profundas puderam ser vistas nesse cenário. Nesse período o Brasil vivenciou uma profunda crise econômica, na qual passou por momentos de grandes transformações sociais, políticas, econômicas e demográficas. Além disso, o processo de industrialização, a concentração urbana das populações e o aumento do índice de pobreza colocaram a criança e o adolescente abandonados, bem como os menores infratores, em evidência (BAPTISTA, 2006). Todas essas transformações exigiram respostas sobre as questões sociais que vinham se configurando, já que as instituições filantrópicas que eram responsáveis pelo atendimento de adolescentes não queriam mais acolher jovens incriminados judicialmente. Dessa forma, o Estado começa a ser pressionado para criar instituições de regime prisional no Brasil, para atender esses menores infratores, bem como para elaborar leis para proteção e assistência à infância. Ao que tudo indica, essa pressão, de fato, surtiu efeito, já que houve a criação de instituições de acolhimento a menores infratores, bem como a implementação de ações voltadas à proteção e assistência à infância (Figura 4). Figura 4 - Linha do tempo: principais mudanças favoráveis às crianças e aos adolescentes ocorridas no Brasil entre 1927 e 1990 Fonte: Elaborada pela autora, por meio dos dados dispostos em BAPTISTA (2006). Nesse período, uma das primeiras mudanças ocorridas foi a criação do Código Mello Matos, em 1927, que ficou conhecido por esse nome em referência ao seu idealizador, o primeiro juiz de menores do país, José Cândido de Albuquerque Mello Mattos. Segundo Rizzini e Rizzini (2004), esse código visava estabelecer diretrizes claras para o tratamento da infância e da juventude excluídas, regulando os principais problemas como trabalho infantil, tutela e pátrio poder, delinquência e liberdade vigiada. Esse código dava ao juiz total poder, deixando o destino de muitas crianças e adolescentes a mercê do julgamento e da ética do juiz (RIZZINI; RIZZINI, 2004). Dessa forma, o Código Mello Matos foi considerado extremamente excludente, já que a maioria das crianças negras, pobres e sem estudo eram, geralmente, consideradas delinquentes pelos juízes. A partir da criação do Código Mello Matos, o assunto sobre menor abandonado e menor delinquente passou a ter mais visibilidade, estando, desde então, sempre em pauta e, consequentemente, alcançando várias conquistas (RIZZINI; PILOTTI, 2009). De acordo com essa autora, várias leis que beneficiavam as crianças foram criadas nesse período. Em 1934, por exemplo, a Constituição Federal proibiu o trabalho de crianças e adolescentes menores de 14 anos, e, em 1940, a maioridade penal foi elevada para 18 anos. Ainda sobre essas importantes conquistas a autora cita a criação da Legislação Brasileira de Assistência (LBA), a criação do Fundo das Nações Unidas para a Infância no Brasil (UNICEF), a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a criação da Fundação Nacional do Bem-estar do Menor (FUNABEM) e a criação da Pastoral do menor (RIZZINI; PILOTTI, 2009). Todas essas conquistas, no entanto, contribuíram para o aprofundamento do mal-estar reinante em relação às condições subumanas em que se encontrava a maior parte da população infantil e jovem do Brasil. Isso porque, como Baptista (2006) expôs, nesse período era comum as famílias internarem seus filhos em idade escolar, com o intuito de garantir a formação profissional das crianças e jovens. Além disso, a maior parte das mães que trabalhavam como domésticas e dormiam no serviço também mandavam seus filhos para esses abrigos, chamados de orfanatos na época (BAPTISTA, 2006). Ainda durante esse período outro fato que merece destaque é que os próprios responsáveis legais podiam entregar as crianças em abrigos caso achassem que não conseguiam suprir as necessidades básicas das mesmas. Esperava-se, dessa forma, que, com a inserção das crianças e jovens de famílias empobrecidas nos abrigos, a condição de vida dos mesmos se tornasse melhor. Além disso, havia também a possibilidade de intervenção por parte do Estado junto às famílias, retirando as crianças e jovens do lar de origem, quando o mesmo não apresentava condições financeiras para o acolhimento. Diante de qualquer uma dessas situações a criança ou o adolescente era mandado para os abrigos e não tinham mais contato com os seus pais e familiares (RIZZINI; PILOTTI, 2009). Essa possibilidade dada ao Estado de intervir junto à família se mostrou um tanto quanto problemática, como mostra o trecho abaixo: O mito criado em torno da família das classes empobrecidas serviu de justificativa para a violenta intervenção do Estado neste século. Com o consentimento das elites políticas da época, juristas delegaram a si próprios o direito de suspender, retirar e restituir o Pátrio Poder, sempre que julgassem uma família inadequada para uma criança (RIZZINI; PILOTTI, 2009, p. 25). O Ano Internacional da Criança, 1979, foi também o ano da aprovação do Novo Código de Menores, que reconhecia os menores infratores e abandonados em uma mesma situação de irregularidade. Segundo Baptista (2006), essa “situação irregular” englobava todas as crianças e não fazia distinção entre as abandonadas e as infratoras, já que em ambos os casos esses jovens estavam à margem da sociedade. Além disso, por meio desse Código houve a ampliação, ainda que de maneira sensível, do poder dos juízes. A década de 80 teve grande importância na história da criação de instituições voltadas ao atendimento de crianças abandonadas, o que levou o país a novos caminhos. Como exposto por Rizzini e Rizzini (2004), as discussões sobre a necessidade de melhorias para os orfanatos e internatos ganharam força quando as rebeliões e denúncias dos movimentos criados pelas próprias crianças internadas passaram a ser veiculadas pela imprensa. Além da pressão exercida pela imprensa, outros fatos importantes auxiliaram na exposição da necessidade de intervenção junto aos abrigos, dentre os quais citam-se: o fortalecimento da cultura democrática, a pressão dos movimentos sociais e os vários estudos que mostravam os prejuízos da institucionalização para o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes (RIZZINI; RIZZINI, 2004) Foi por meio dessa repercussão que se tornou possível a Criação do Fórum Permanente de Defesa da Criança e do Adolescente (Fórum DCA). Além disso, em 1987, houve a criação da Secretaria do Menor do Estado de São Paulo e, logo em seguida, foi instalado o SOS Criança. Esse serviço de prestação de socorro funcionava 24 horas por dia, atuando como uma espécie de triagem, por meio da qual era analisado se a criança ou o adolescente seria encaminhado a um abrigo. Em seguida, em 1988, a Constituição Federal do Brasil recebeu a inclusão do art. 277, que dispõe sobre os direitos das crianças e adolescentes (RODRIGUES, 2015). Além disso, outra conquista junto ao Poder Legislativo foi a sanção da Lei nº 8069, de 13 de julho de 1990, também conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente -ECA (BRASIL, 1990). O ECA é um importante instrumento pormeio do qual são garantidos os direitos e a proteção integral da criança e do adolescente, como resultado de uma gestão participativa entre o Estado e a sociedade (SANTOS, 2007).[3: A sigla “SOS” é conhecida como o código universal de socorro. Ela é utilizada para alertar alguém sobre uma situação de perigo de vida, sobre a qual é necessária intervenção para se garantir a preservação da vida.] Uma das conquistas mais recentes obtidas no Brasil a favor da melhoria dos abrigos de acolhimento institucional foi a criação do manual de “Orientações Técnicas: Serviço de Acolhimento de Crianças e Adolescentes” (BRASIL, 2009a). Esse manual foi aprovado em junho de 2009, durante a 11ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). De acordo com o manual, é preciso unir esforços para garantir o direito das crianças e dos adolescentes de usufruir da convivência familiar comunitária. Dessa forma, até mesmo a denominação dada aos locais de acolhimento passa por modificações, deixando de ser chamado de abrigo e passando a ser chamar Serviço de Acolhimento. Além disso, essas instituições governamentais e não-governamentais, que prestam proteção às crianças e aos adolescentes em situação de risco à integridade emocional e física, passam a integrar o Sistema Único de Assistência Social. Para tanto é necessário que essas instituições sigam as exigências do ECA, tanto para a sua construção quanto para o seu funcionamento (RODRIGUES, 2015). Diante de todas essas mudanças e intervenções vemos então ocorrer a evolução do modelo de abrigo de acolhimento institucional inserido no Brasil. Essa evolução caminha rumo à percepção desses locais como transformadores sociais da realidade das crianças e jovens que são acolhidas em suas dependências. Isso porque, finalmente, se percebe que tanto os jovens abandonados quanto os menores infratores eram inseridos à margem da sociedade, resultando no aumento dos problemas sociais vividos. Dessa forma, o poder público e a sociedade civil parecem compreender a necessidade de reinserir esses jovens na comunidade e também de auxiliar no desenvolvimento físico e psicológico dos mesmos, os tirando, assim, da marginalização à qual estavam condicionados. 1.1.3 O abandono e o surgimento dos primeiros abrigos em Goiás e Goiânia Assim como os demais estados do Brasil, Goiás também passou por grandes problemas ligados às crianças e aos adolescentes durante a sua origem, porém em quantidades menos expressivas. Isso pode ser explicado pelo fato de Goiás ter a maior parte da sua população formada por índios, os quais não têm como costume a prática de abandonar seus filhos. Além disso, os índios, em geral, mantem boas relações como suas crianças, cuidando com muito zelo delas, o que também justifica o baixo número de abandono de crianças e adolescentes no estado. No entanto, outras formas de abuso contra os direitos infantis foram observadas em Goiás, representados, principalmente, pela prática da separação familiar. Nesses casos, muitas vezes os pais davam as crianças para que outras famílias as criassem. Dessa forma, eles não expunham a criança ao abandono, mas ainda assim era um abuso contra o direito de permanecer na família de origem (VALDEZ, 2002). Outra prática muito comum nesse período era a adoção de crianças ou pessoas com limitações especiais, os chamados “bobos”, para que ficassem por conta dos afazeres domésticos. Sobre isso Valdez (2002) expõe que as crianças ou adolescentes que tinham mobilidade reduzida ou necessidades especiais, serviam como empregados. A mesma autora ainda diz ser uma tradição da época dar um “bobo” como presente de casamento. Essas pessoas seriam, então, responsáveis por inúmeras tarefas, como a realização de serviços domésticos, a responsabilidade de buscar água e lenha, a obrigação de lavar, passar, levar recados, sendo, assim, considerados serviçais de estimação (VALDEZ, 2002). Ainda sobre abusos contra os direitos das crianças, Valdez (2002) relata que nesse período as crianças negras também eram adotadas como filhas, como uma forma de caridade. No entanto, essas crianças acabavam sofrendo vários tipos de violência doméstica e maus tratos, sendo, em muitos casos, agredidos até a morte. Apesar de ser uma prática que nos remete à escravidão, abolida em 1888, era comum vermos pessoas adotando crianças negras para que elas fossem babás de seus filhos mesmo em 1920, como mostra Monteiro Lobato em seu livro intitulado “Negrinha”: Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo (LOBATO, 2000). Não distante da realidade ocorrida no Brasil e abordada na seção anterior, em Goiás muitas crianças indígenas foram tiradas de suas tribos para serem educadas e catequisadas pelos padres da Companhia de Jesus. Além disso, o governador Dom José de Almeida incentivava os moradores da capital goiana a receberem esses índios para serem educados em seus lares. Dessa forma, não foge à realidade da época dizer que essas crianças indígenas eram pegas como se fossem animais de estimação, sendo dadas de presente e mantidas aprisionadas pelas famílias da capital goiana (VALDEZ, 2002). Diante de todos esses problemas envolvendo crianças e adolescentes em Goiás e na então capital do estado, surge a necessidade de pensar medidas assistencialistas que visem a proteção e a integração desses jovens junto à sociedade. Dessa forma, surge, em 1871, o primeiro internato, conhecido como Colégio Isabel, que além da função de catequizar também tinha a função de civilizar as crianças indígenas (BRETAS, 1991). De acordo com o mesmo autor, a catequização era realizada em duas etapas, sendo a primeira voltada para a alfabetização e a segunda com caráter profissionalizante. No caso da segunda etapa, os meninos aprendiam o ofício de mecânico, ferreiro, carpinteiro e também algumas noções sobre agricultura, e as meninas eram ensinadas a trabalhar com agulhas e como o tear. No entanto, como o autor expõe no trecho a seguir, nenhuma dessas etapas deram certo no caso das crianças indígenas, que abandonaram as aulas para ir observar as embarcações: O de que os pequenos índios gostavam, sim, era ir para junto dos barcos ancorados nos barrancos dos rios, maiores muitas vezes do que suas pequeninas canoas. Rodeavam a nado seus cascos, subiam para bordo, frequentavam todas as suas dependências internas, tocando em tudo com ingênua e espontânea admiração (BRETAS, 1991 p. 385). Graças a essa falta de interesse demonstrada pelas crianças indígenas, o Colégio Isabel durou apenas 5 anos, não conseguindo se estabelecer. Dessa forma, em 1876, esse colégio passa a funcionar junto à fazenda Dumbazinho, continuando a catequizar as crianças indígenas e as ensinando a criar gado. Ainda assim, não apresentou êxitos consideráveis, servindo, sobretudo, como uma forma de garantir a dominação do território junto às margens dos rios Araguaia e Tocantins. Como o Colégio Isabel não conseguiu atingir os seus objetivos, foi instalada, em 1877, a Companhia de Aprendizes de Militares. Essa Companhia objetivava abrigar os desamparados da capital, com a intenção de utilizá-los no serviço militar. Além disso, é possível notar também a percepção social da causa, já que por meio da sua atuação a Companhia estaria ajudando a educar os meninos abandonados ou de famílias pobres (VALDEZ, 2002). Como Bretas (1991) aborda, esse modelo de colégio era regulamento pelo Decreto 6.304, de 12 de setembro de 1876, e tinha como função a educação de menores para servirem como soldados. Dessa forma, a decisão de implantar Companhias de Aprendizes Militares e Artífices em Goiás foi recebida com alegria pelo governo provincial, já que era julgava necessário aumentar o contingente de soldados na região, pois o número de jovens que sealistavam era insuficiente para manter o serviço militar. Além disso, essas Companhias também cuidavam da educação da população, o que também agradava o governo. Contudo, mesmo esse modelo de Colégio já sendo adotado em outras partes do Brasil, ao ser implantado em Goiás causou medo para as famílias, uma vez que as crianças podiam ser levadas à força para essas companhias (BRETAS, 1991). Dessa forma, muitas famílias fugiram da região, como mostra o trecho a seguir: Milhares e milhares de famílias, em todo o Império, as quais possuindo filhos na idade de prestar esse serviço fugiam apavoradas, embrenhando-se com seus filhos pelas matas, para bem longe, até onde pudessem escapar das vistas dos caçadores de recrutas (BRETAS,1991, p. 393). Essas instituições praticavam o que ficou conhecido como “caça a meninos”, por meio da qual os meninos eram levados à força durante festas e reuniões populares. Além de serem levados à força, de acordo com Valdez (2002), no quartel esses jovens recebiam muitos castigos, o que tornou a instituição impopular na sociedade, e resultou no seu declínio após 14 anos de atuação. Dessa forma, as Companhias de Aprendizes Militares e Artífices foram extintas, dando lugar a outros modelos institucionais de acolhimento, que obedeciam novas experiências pedagógicas. Surgem, então, as chamadas Colônias Agrícolas para órfãos, também conhecidas como Colônias Orfanológicas. Essas colônias seguiam os mesmos sistemas dos orfanatos, sendo os internos mantidos sob controle. Contudo, eram localizadas em áreas rurais, alegando-se para isso, sobretudo, o melhor controle higiênico (LAGO; MOZZER; VALDEZ, 2015). A primeira instituição desse modelo instalada em Goiás foi a Colônia Blaziana, fundada em 1881, em Luziânia. Essa colônia ensinava as primeiras letras e também era responsável por transmitir a doutrina cristã para quarenta colonos que apresentam de 7 anos a 18 anos. Além da Colônia Blaziana, as Colônias Macedina, localizada no Rio Bonito, e de São Vicente, localizada no Rio Araguaia, também tiveram destaque nesses moldes. Contudo, a Colônia Macedina se diferenciava da Blaziana por não serem destinadas aos colonos, mas sim aos índios. Além disso, a Colônia de São Vicente, inicialmente, tinha como função catequizar os índios, mas passou a atender os filhos de cristãos, oferecendo a eles o ensino de primeiras letras, bem como das práticas agropastoris (VALDEZ, 2002). A nova capital de Goiás, construída em 1933, também registrou e ainda registra problemas relacionados ao desrespeito dos direitos das crianças e dos adolescentes. Apesar de a construção de Goiânia ser posterior à promulgação do Código Mello Matos, que já assegurava alguns direitos às crianças e aos adolescentes, diversas situações de abandono e negligência foram observadas na cidade. Um dos casos mais emblemáticos vivenciados na capital foi abordado por Costa e Correia (1995), que relatam a experiência subumana que mais de 80 pessoas, a maioria crianças, viviam na época. De acordo com esses autores, o Lago das Rosas, parque mais antigo de Goiânia, localizado nos bairros Centro e Oeste, era tomado por crianças em situação de rua, que viviam uma vida de miséria e eram constantemente submetidos a violências advindas de policiais e traficantes. Além disso, como Costa e Correia (1995) fazem questão de divulgar, essas crianças sobreviviam com muito menos recursos do que os animais expostos no Zoológico de Goiânia, localizado no mesmo parque. Como Costa e Correia (1995) expõem, o Governo do Estado de Goiás e a Prefeitura de Goiânia atuavam em parceria, dividindo a tarefa de cuidar dessas crianças. Dessa forma, a Prefeitura desenvolvia, na época, o Programa Cidadão 2000, trabalhando com a Proteção Especial, por meio do oferecimento dos seguintes recursos: educadores de rua, pessoal especializado que fazia a abordagem das crianças e adolescentes em situação de rua; unidades de referência, casas destinadas à recreação e educação desses jovens; encaminhamento de volta às famílias; casas noturnas (pousadas), divididas em masculinas e femininas, eram destinadas ao abrigo dessas crianças e adolescentes durante a noite, e; SOS Criança, programa de proteção integral, que garantia o atendimento de emergência e podia ser acionada por telefone por meio do número 1407. Enquanto isso, o Estado mantinha a Fundação da Criança e do Adolescente e da Integração do Deficiente Físico (FUNCAD), responsável pelo oferecimento de programas preventivos para a faixa etária de 0 a 14 anos; pela realização de atividades educacionais, que objetivavam fixar as crianças na família e na comunidade, e; pela manutenção dos Centros Sociais de Aprendizagem e Projetos de Erradicação da Mendicância, que prendiam os aliciadores de menores e encaminhavam as crianças para as unidades do Estado (COSTA; CORREIA, 1995). A implantação desses programas só foi vivencia graça à existência anterior do ECA, que, nesse período, já estava em vigor e tinha como eixo condutor projetos voltados ao desenvolvimento e amparo à criança e ao adolescente, garantindo, assim, a cidadania às crianças em situação de rua. Notamos então que, de fato, nesse momento do desenvolvimento histórico de Goiás e também de Goiânia, já havia o reconhecimento da importância e da necessidade da atuação dos agentes públicos junto às crianças e adolescentes abandonados e menores infratores, tirando-as das ruas e as reinserindo na sociedade. De acordo com lista lançada em janeiro de 2016, pelo Ministério Público de Goiás (MPGO), a cidade de Goiânia conta com 14 instituições de acolhimento à criança e adolescente, sendo 3 Centros de Internação e 11 Entidades de Acolhimento (MPGO, 2016). Das Entidades de Acolhimento a única mantida pelo município é o Residencial Professor Niso Prego, antigo Abrigo Sol Nascente, que, em 2015, foi relocado do setor Pedro Ludovico, para o setor Goiânia 2 (MÁXIMO, 2016). A justificativa da mudança de local foi atribuída à falta de espaço para atender a grande demanda. Até a época da realocação o abrigo era filantrópico e vinculado à igreja, contudo, após a mudança, ele passou a ser municipal. A Unidade de Atendimento conta com dois ambientes administrativos e três casas, que, ao todo, têm capacidade de acolher até 60 crianças (MÁXIMO, 2016). Os dois espaços administrativos, são compostos pelos seguintes ambientes: [...] salas para coordenação geral, secretaria, serviço social, psicologia, enfermagem, almoxarifado e acolhimento, além de cozinha, refeitório coletivo, lavanderia, almoxarifados e banheiros. A unidade conta ainda com portaria, estacionamento, pátio para recreação, central de gás e depósito para lixo externo (MÁXIMO, 2016). Além dos espaços administrativos, os espaços residenciais são divididos da seguinte forma: as crianças de 0 a 6 anos ficam em uma das casas, que conta com “quatro suítes, três banheiros sociais, cozinha, almoxarifado, sala de TV, brinquedoteca, sala de administração e área externa” (MÁXIMO, 2016); as crianças de 0 a 12 anos ficam separadas por sexo (meninas em uma casa e meninos em outra), e essas casas contam com “quatro quartos, dois banheiros, sala de TV/estar, cozinha, sala de coordenação, sala para educadores, sala para apoio escolar e área externa” (MÁXIMO, 2016). Diante da organização dos espaços das três casas de acolhimento dessa instituição é possível perceber que a função desse residencial não é apenas acolher os jovens, mas também oferecer à criança um ambiente que possibilite o desenvolvimento cognitivo, físico e psicológico do acolhido. 1.2 A conquista do Estatuto da Criança e do Adolescente O período imediatamente posterior à instituição da Constituição Federal de 1988 foi marcado pela consolidação das mudanças ocorridas em diversas leis, inclusive naquelas que se referiam às crianças e adolescentes. Essas mudanças acabaram por coroar, de maneira significativa, o ordenamento jurídico brasileiro, traçando novos caminhos para as questões sociais do país. Diante disso, esse novo caminho tinha como principal característica a participaçãoda família, da sociedade e o Estado como garantidores desse sistema, como exposto no art. 4º do ECA, citado a seguir: E dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária (BRASIL, 1990). De acordo com Ishida (2016), com a criação do ECA, a forma de intervenção proposta frente a questões ligadas aos direitos da criança e do adolescente passou por diversas modificações, sobretudo no que diz respeito à atuação da família junto a esses menores. Portanto, um dos principais objetivos advindos dessas modificações é a garantia de acesso aos direitos fundamentais das crianças e adolescentes, para que haja o desenvolvimento pleno desses indivíduos como cidadãos. Dessa forma, uma das grandes modificações foi a compreensão da importância da convivência familiar e comunitária no desenvolvimento da criança, como está disposto no art. 19 do ECA, citado a seguir: Toda criança ou adolescente tem direito a ser criado e educado no seio da sua família e, excepcionalmente, em uma família substituta, assegurada a conivência familiar e comunitária, em ambiente livre da presença de pessoas dependentes de substâncias entorpecentes (BRASIL,1990). Com base no ECA, as famílias são reconhecidamente fundamentais no desenvolvimento da criança e do adolescente, tendo prioridade na proteção dos mesmos, e, por isso, devem ser amparadas pelas políticas públicas para suprir as necessidades básicas dos menores. Diante dessa compreensão, foram criados programas de apoio às famílias, cujo o principal intuito é a garantia da permanência desses jovens no seio familiar, ou, quando eles já tiverem sido retirados da família, a sua reinserção, dentro do menor tempo possível, no convívio do lar de origem ou substitutivo. Por meio da atuação desses programas pode-se evitar que haja o afastamento desses jovens do convívio familiar e comunitário. Contudo, quando esse afastamento do lar de origem é realmente necessário, o ECA resguarda às crianças e adolescentes o direito de serem acolhidos em um lugar digno para o seu desenvolvimento (BRASIL, 1990). Diante disso, fica claro que um dos principais objetivos do ECA é garantir a preservação da convivência familiar. Graças a isso, as ações previstas por esse Estatuto, no que diz respeito ao acolhimento de crianças e adolescentes, mostram um posicionamento legal contrário à maneira de atuação das antigas instituições que retiravam as crianças de suas famílias de origem quando era constatado a carência de recursos financeiros. Esse posicionamento fica explícito por meio do art. 23 do ECA, que determina que “ [...] a falta ou carência de recursos materiais não constitui motivo suficiente para a perda ou a suspensão do poder familiar” (BRASIL, 1990). Ainda nesse artigo é citado que, caso não haja fator motivador para a retirada da criança de sua família de origem, ela deve permanecer na mesma, devendo essa família ser apoiada por meio da inclusão em programas de auxílio governamentais (BRASIL, 1990), já mencionados anteriormente. Dessa forma, por meio da criação do ECA, as crianças deixam de ser caçadas e aprisionadas e passam a recebem a devida atenção por parte da família, da sociedade e do Estado. Isso porque, como expõe Rodrigues (2015) em seu estudo, a substituição do Código de menores de 1979, que dava ao Estado total poder de intervenção junto às crianças, mantendo-as em internatos e casas de custódia, provocou a intensificação dos cuidados, atenção e proteção destinada às crianças e adolescência que vivem em situação de rua, de abandono ou cometeram algum tipo de infração. Diante disso fica claro que a elaboração do ECA foi, com certeza, a mais importante conquista dos direitos das crianças e adolescentes no Brasil. Isso porque, como aponta Santos (2007), a criação desse Estatuto, levou à ruptura do ideal de sociedade adulto-centrada, na qual as crianças e adolescentes são inferiores aos adultos. Além disso, de acordo com Marcílio (2003), as mudanças vividas após a Constituição Federal de 1988 proporcionaram condições formais para a revisão das políticas públicas a favor da infância e da juventude, voltando-as para todas as crianças que delas necessitem. Dessa forma, as mudanças trazidas pelo ECA resguardam todas as crianças e adolescentes, independente da sua classe social, raça, etnia, sexo e religião. Contudo mesmo com essas mudanças trazidas pelo ECA, muito ainda deve ser feito para que as crianças e adolescentes em situação de acolhimento sejam reintegradas na família de origem ou inseridas em uma família substituta, sem que para isso hajam grandes perdas. Como expõe Rizzini (2007), para que o acolhimento prestado às crianças e adolescentes acompanhem as constantes mudanças que suas práticas demandam é necessário que os profissionais que atuam garantindo o direito à proteção de crianças e adolescentes estejam em constante processo de capacitação. Essa capacitação deve envolver todos os agentes que trabalham na garantia dos direitos das crianças e do adolescentes no Brasil, como os técnicos do judiciário, os dirigentes e educadores dessas instituições. Possibilitando, assim, que hajam intervenções, quando necessário, junto aos princípios, objetivos e ações do ECA, a fim de adequar o Estatuto à realidade vivenciada pelas crianças e adolescentes da sociedade. 1.3 Principais diferenças entre Orfanatos/Internatos e Abrigos Antes da criação do ECA, as instituições que acolhiam crianças e adolescentes eram conhecidas como orfanatos ou internatos. Essas instituições eram grandes e fechadas e não era permitido à criança e ao adolescente ter contato com o mundo externo (Figura 5). Dessa forma, não se tinha o controle da quantidade de crianças que eram abrigadas nessas instituições, mas sabe-se que elas eram sempre lotadas. Além disso, ficava subentendido que todos os menores que estavam nessas instituições eram delinquentes, por isso muitas vezes a punição era tida como um método de disciplina (OLIVEIRA, 2006). Contudo o primeiro passo para mudança foi dado, com o Estatuto da Criança e do Adolescente em 1990, e os orfanatos passaram a ser abrigos temporários. De acordo com as Orientações Técnicas: Serviço de Acolhimento de Crianças e Adolescentes, os abrigos não podem atender muitas crianças ao mesmo tempo, permitindo, dessa forma, a integração dessas crianças à comunidade (BRASIL, 2009a). Segundo o ECA, a principal diferença entre orfanatos/internatos e abrigos está no tempo de permanência das crianças nessas entidades, bem como na quantidade de crianças atendidas. Diante disso, Oliveira (2006) expõe que os abrigos institucionais atendem grupos pequenos de crianças, que permanecem em suas dependências por, no máximo, 2 anos. Dessa forma, há a priorização do retorno desse jovem para a família, além do apoio necessário para que esses jovens vivam em meio a sociedade. Figura 5 - Fotografia de Asilos dos Expostos e da grande quantidade de crianças atendidas Fonte: Baptista (2006). 1.4 Principais tipos de entidades de acolhimento A diferença entre os tipos de entidades de acolhimento, é a forma como cada uma atua, com o intuito de garantir o melhor atendimento às crianças e aos adolescentes que necessitam ser abrigados. De acordo com as Orientações Técnicas: Serviço de Acolhimento de Crianças e Adolescentes, a determinação do tipo de abrigo ao qual será encaminhada uma determinada criança que está sob medida protetiva, é feita por meio de uma pesquisa (BRASIL, 2009a). Essa pesquisa analisa toda a história da criança, bem como o seu perfil, e, só então, após essa triagem minuciosa, é feito o encaminhamento dos menores à entidade que melhor se adeque e cumpra o papel de abrigar e assegurar o atendimento às necessidades dessas crianças e adolescentes, como está disposto no ECA. Aindasegundo as Orientações Técnicas: Serviço de Acolhimento de Crianças e Adolescentes, as entidades de acolhimento à criança e adolescente são classificadas em: Abrigo Institucional, oferece um serviço de acolhimento emergencial, que visa a reinserção dessas crianças na família de origem e na sociedade; Casa Lar, que tem características físicas parecidas como as do Abrigo Institucional, mas atende menos crianças e tem uma equipe que mora na instituição; Abrigo República, presta serviço de apoio para os jovens recém emancipados que se desligaram do Abrigo Institucional (BRASIL, 2009a). 1.4.1 Abrigo de Acolhimento Institucional O abrigo de acolhimento institucional é o tipo mais comum de abrigo para os quais as crianças e os adolescentes são destinados, principalmente, graças às suas características emergenciais e de transitoriedade. Esse tipo de entidade de acolhimento oferece abrigo provisório a crianças e adolescentes, que tiveram seus direitos violados, e precisam ser afastados do convívio familiar, por meio de medida protetiva de acolhimento institucional. Conforme estabelecido no art. 101 do ECA, os menores são afastados por ordem judicial, quando constatado abandono, ou quando as famílias ou responsáveis estão, temporariamente, impossibilitados de cumprir suas obrigações de cuidados e proteção (BRASIL, 1990). Diante dessas situações, essas crianças são, então, encaminhadas ao abrigo institucional, local no qual será acolhida até que a haja a possibilidade de retornar à família de origem. Além do acolhimento desses menores, nas situações mencionada acima, as famílias recebem todo apoio necessário, passando por um acompanhamento por meio do qual se espera alcançar a reinserção dessa criança em seu lar de origem no menor tempo possível. Contudo, caso esse acompanhamento não obtenha sucesso, essas crianças são encaminhadas para famílias substitutas, que cuidarão de garantir o acolhimento, a segurança e o desenvolvimento físico, psicológico e social dos menores. O uso do termo “acolhimento institucional” é recente, tendo sido inserido por meio da Lei nº 12.010, de 03 de agosto de 2009, em substituição à palavra “abrigamento” (BRASIL, 2009b). De acordo com Rodrigues (2015), esse novo termo caracteriza uma medida excepcional e provisória, buscando a reintegração desses jovens em suas famílias de origem ou em famílias substitutas, dentro do menor tempo possível. No trecho a seguir, o autor expõe essa mudança no uso do termo: Anteriormente a essa lei, as instituições governamentais e não governamentais que constituíam a rede de proteção em situação de risco à integridade emocional e física de crianças e adolescentes, que os acolhiam, em situações de excepcionalidade e provisoriedade, se chamavam abrigos. Posteriormente, já com o Manual de Orientações Técnicas em vigência, elas passaram a se chamar serviço de acolhimento que integram os Serviços de Altas Complexidades do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e devem se pautar, sobretudo, pelos pressupostos do Estatuto da Criança e do Adolescente (RODRIGUES, 2015, p. 54). Para melhorar o atendimento às crianças e adolescentes que necessitam de acolhimento institucional, foi estabelecido um conjunto de princípios, que visa regulamentar e qualificar o trabalho realizado pelos serviços de acolhimento institucional. Esses princípios estão dispostos no art. 92 do ECA, como é mencionado a seguir: Art. 92. As entidades que desenvolvam programas de acolhimento familiar ou institucional deverão adotar os seguintes princípios: I - preservação dos vínculos familiares e promoção da reintegração familiar; II - integração em família substituta, quando esgotados os recursos de manutenção na família natural ou extensa; III - atendimento personalizado e em pequenos grupos; IV - desenvolvimento de atividades em regime de coeducação; V - não desmembramento de grupos de irmãos; VI - evitar, sempre que possível, a transferência para outras entidades de crianças e adolescentes abrigados; VII - participação na vida da comunidade local; VIII - preparação gradativa para o desligamento; IX - participação de pessoas da comunidade no processo educativo (BRASIL,1990). Além dos princípios dispostos no ECA, o manual de Orientações Técnicas: Serviço de Acolhimento para Crianças e Adolescentes também determina regras para o funcionamento dessas entidades, visando o oferecimento de cuidados e condições favoráveis ao desenvolvimento saudável das crianças e dos adolescentes (BRASIL, 2009a). Essas regras foram pensadas com o intuito de garantir o bom funcionamento da infraestrutura física e promover o acolhimento devido às crianças e adolescentes que necessitam do amparo dessas entidades. Dessa forma, sobre a estrutura física dos abrigos de acolhimento institucional, o referido manual de Orientações Técnicas destaca a necessidade de garantia de espaços privados e próprios para o desenvolvimento da criança e do adolescente. Além disso, para que haja esse desenvolvimento, esses ambientes devem ser aconchegantes e seguros, trazendo características arquitetônicas do local no qual está situado, além de ser localizado em áreas residenciais. Nota-se, por meio dessas regras, que há um apreço pela preservação da privacidade, motivo pelo qual, não é permitido que haja a instalação de placas indicativas que caracterizem o local como uma instituição de acolhimento. Ainda sobre a infraestrutura física, o acolhimento por quarto é feito, idealmente, com 4 crianças ou adolescentes, não podendo, no entanto, ultrapassar o número de 6 menores por quarto. Além disso, deve-se prever espaços específicos para a guarda de objetos pessoais de cada criança e adolescente de maneira individual, garantindo que esses menores sejam tratados como cidadãos individuais (BRASIL, 2009a). Com relação à postura adotada pelos profissionais que atuam no abrigo institucional, o manual de Orientações Técnicas destaca que ela deve ser acolhedora, sobretudo, na chegada, quando esses jovens ainda estão se adaptando à nova realidade. Diante disso, é esperado que esses profissionais atuem apresentando as dependências físicas da instituição, bem como os educadores, os cuidadores e as outras crianças e adolescentes acolhidas pela entidade. É importante, ainda, que se tenha o cuidado de não separar crianças e adolescente que tenham algum vínculo familiar, como por exemplo, irmãos. Além de tudo isso, é importante que haja a organização de todos os registros sobre a história de vida e o de desenvolvimento de cada um dos menores acolhidos pela instituição. Para tal, é necessário manter prontuários atualizados semanalmente, que relatem o motivo do acolhimento, a rotina e a situação de saúde dos menores, bem como apresentem registros fotográficos do tempo em que esses jovens foram acolhidos na entidade (BRASIL, 2009a). 1.5 Motivos de ingresso de crianças e adolescentes em abrigos de acolhimento institucionais no Brasil Apesar de acompanharmos uma série de transformações históricas, no que diz respeito às formas de acolhimento institucional, as motivações que resultam no abandono e, consequentemente, na necessidade desse acolhimento de crianças e adolescentes não têm mudado. Segundo Rizzini e Pilotti (2009), desde a instalação das primeira Rodas dos expostos no Brasil, que ocorreram no século XVIII, a principal causa do abandono de crianças no Brasil é a pobreza. Em 1927, após a elaboração do Código de Mello Matos, as famílias mais pobres passaram a abandonar seus filhos nos internatos e orfanatos da época, na esperança de que lhes fosse garantido educação de qualidade e a certeza de profissionalização. Apesar da elaboração do ECA ter provocado grandes mudanças no que diz respeito aos direitos da criança e do adolescente na sociedade brasileira, principalmente no que se refere à atuação da família frente ao desenvolvimento desses menores, a falta de recursos financeiros continua sendo a maior causa de abandono no país (Figura 6). Segundo levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada(IPEA) junto aos abrigos para crianças e adolescentes da Rede de Serviços de Ação Continuada, a maior parte (24,2%) dos menores abrigados foram acolhidos por dificuldades financeiras da família, seguido por abandono pelos pais ou responsáveis (18,9%) e em decorrência de violência doméstica (11,7%), sendo os agressores pessoas da família ou os responsáveis por esses jovens (IPEA, 2003). Figura 6 - Motivos de ingresso de crianças e adolescentes em abrigos no Brasil Fonte: IPEA (2003). Diante desses dados vemos que, ainda que o art. 23 do ECA deixe claro que somente a falta ou carência de recursos materiais não pode motivar a suspensão do poder familiar sobre a criança e o adolescente, esse ainda é a maior causa de ingresso em instituições de acolhimento. Além disso, situações de negligência, violência, abuso sexual, maus tratos e exploração do trabalho infantil, são motivadores secundários da entrada de crianças e adolescente nesse tipo de instituição. Dessa forma, notamos que as famílias desses memores em situação de acolhimento passam, em geral, por diversas dificuldades para suprir as necessidades básicas de seus filhos, aumentando, assim, o abandono de jovens e adolescentes na sociedade brasileira. 2 ESTUDOS DE CASO O estudo de caso tem como objetivo a análise de projetos relevantes, por meio dos quais haverá o direcionamento para uma proposta conceitual. Diante disso, buscasse projetos que tenham relevância para a análise. No caso específico desse trabalho, ambos os estudos de caso são relevantes cada um a seu modo. No primeiro caso que será apresentado, notamos a contemplação de novas propostas para o acolhimento institucional, já que o arquiteto utilizou o “Sistema de Camadas”, que, além de resolver problemas de insolação, possibilita a criação de um jardim privativo na unidade superior. Enquanto isso, o segundo caso foi escolhido devido à semelhança da função desempenhada pela instituição e pelo projeto que se concebe ao final desse trabalho. 2.1 Maison d’ Accueil de I’enface Eleanor Roosevelt – Abrigo Intitucional O Abrigo Institucional Maison d’Accueil de I’enface Eleanor Roosevelt, localizado em Paris, na França, é um centro residencial de emergência para crianças e adolescentes (Figura 7). Esse abrigo tem como objetivo garantir a proteção e o aconchego, bem como assegurar que os seus direitos básicos, como a educação e a vida, sejam usufruídos pelos menores acolhidos. Figura 7 - Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt Fonte: Archdaily.[4: Disponível em: <http://www.archdaily.com.br/br/733949/centro-de-bem-estar-para-criancas-e-adolescentes-em-paris-slash-marjan-hessamfar-and-joe-verons-architectes-associes> Acesso em: 25 de março de 2017. ] Esse centro de emergência tem a importante função de atuar com o intuito de garantir a reinserção das crianças e adolescentes em suas famílias de origem. Diante disso, essa instituição é um lugar de transição, no qual os laços familiares não são cortados, mas sim incentivados, por meio de uma supervisão calma e compromissada dos cuidadores. 2.1.1 - O Projeto O Maison d’ Accueil de I’enface Eleanor Roosevelt, está localizado próximo a importantes vias de acesso como a Avenued du Dr Gley, Rua Poul Meurice e o Viaduto Bd Périphérique (Figura 8). O projeto foi executado pela agência Marjan Hessamfar e Jóe Verons Arquitetos associados, criada em 2004, na França. Os donos dessa agência são formados pela Escola Nacional Superior de Arquitetura e Paisagem de Bordeaux e se tornaram conhecidos, mundialmente, após vencerem o concurso para o Jardim de Infância Jean-Jaurés Cenon Girode. Figura 8 - Planta de Situação do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt Fonte: Modificada pela autora - Archdaily.[5: Citada anteriormente.] 2.1.2 Análise Projetual O Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enfance Eleanor Roosevelt ocupa uma área total de 5211.00 m² e está localizado no Portes des Lilas, em Paris, na França. Essa instituição contém um programa de necessidades, apresentando função de habitacional, social e médica, berçário, cozinha, pátio interno, sanitários, sala de jantar, jardins, área externa, quarto individual, quarto coletivo, sala de visita, sala técnica, quarto coletivo. Contudo, o edifício enfrenta duas grandes limitações: o núcleo do lote é voltado para o norte, e o seu programa arquitetônico é muito extenso, não facilitando a acomodação com as plantas principais da zona de desenvolvimento. Diante disso, essas limitações poderiam ter se transformado em um erro grave de projeto, resultando na falta de luminosidade na parte interna do prédio. No projeto do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enfance Eleanor Roosevelt, a organização dos espaços se dá de forma muito complexa. De acordo com a ideia dos arquitetos, cada pavimento é compreendido como um setor ou uma unidade, tendo seu próprio uso especifico e suas próprias normas e regulamentos de saúde e segurança. Diante disso, no térreo estão localizados os espaços de atendimento voltados para a parte de socialização tanto dos moradores quanto das famílias das crianças e adolescentes acolhidas. Como disposto a seguir, as salas de tratamento e cuidados de saúde, localizadas nesse e também no 4º pavimento, foram projetadas de acordo com a classificação U, atendendo, dessa forma, o código francês de normas para instalações relacionadas a saúde (Figura 9). No primeiro pavimento, o arquiteto se preocupou em locar os serviços básicos de atendimento às crianças e adolescentes, bem como os serviços de cozinha, refeitório e vestiários, que atende os funcionários, a biblioteca, a despensa, as oficinas e o ateliê (Figura 10). Figura 9 - Planta Baixa Esquemática do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[6: Citada anteriormente.] Figura 10 - Planta do 1º Pavimento do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[7: Citada anteriormente.] No segundo pavimento, há o início dos espaços com função de moradia. Esse pavimento é dividido em três unidades, que atendem crianças de doze a dezoito anos e são separadas por idade. Há, então, nesse pavimento os quartos individuais, os quartos adaptados, o escritório educador, a sala de jantar, a sala de jogos, a sala de esportes, a sala de aula, a midiateca, a lavandaria educacional e o escritório (Figura 11). Figura 11 - Planta do 2º Pavimento do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[8: Citada anteriormente.] Os arquitetos demonstraram preocupação também com a disposição dos quartos por idade, já que as acomodações das crianças menores estão em andares mais altos, enquanto os quartos dos adolescentes foram projetados nos primeiros andares. Estrategicamente, colocando os jovens nos pavimentos mais baixos há a indução de socialização dos mesmos na sociedade. Além disso, no 3º pavimento os quartos são coletivos e divididos em unidades de acordo com o sexo (Figura 12). Os arquitetos se preocuparam ainda com a possibilidade de que cada unidade tivesse o funcionamento independente. Para tal, cada pavimento apresenta seus próprios serviços de apoio, como: a equipe educativa, a sala de jantar e os espaços de lazer conforme idade (Figura 13). Figura 12 - Planta do 3º Pavimento do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt 2 Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[9: Citada anteriormente.] Figura 13 - Planta do 4º Pavimento do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[10: Citada anteriormente.] A creche está localizada no 5º pavimento, seguindo o proposto pelos arquitetos sobre a acomodação de criançasmais novas em pavimentos superiores e adolescentes em andares mais baixos. Além disso, essa creche foi projetada de acordo com o código francês de padrões para instalações de ensino (Figura 14). Dessa forma, todo o 5º pavimento é voltado para o atendimento de bebês e crianças de e 0 a 3 anos, que dependem de uma atenção especial. Figura 14 - Planta do 5º Pavimento do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[11: Citada anteriormente.] No 6º e último pavimento, os arquitetos propõem a inserção da função de habitação, projetando, praticamente, um andar residencial de um apartamento (Figura 15). Mesmo diante de toda complexidade organizacional proposta pelo projeto arquitetônico, o centro de emergência garante às crianças e adolescentes acolhidos mais privacidade e conforto. Essas conquistas podem ser explicadas, dentro da arquitetura do abrigo, por meio da separação por faixa etária, o que promove a redução da chance de marginalização e isolamento desses menores, já que os mesmos se socializam, sobretudo, dentro do grupo no qual está inserido. Além disso, a possibilidade de que cada uma das unidades tenhas as suas respectivas áreas de lazer, com atividades desenvolvidas, propriamente, para cada grupo distinto, também amplia a possibilidade de sucesso desse Abrigo Institucional. Figura 15 - Planta do 6º Pavimento do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[12: Citada anteriormente.] 2.1.3 Concepção Formal Com o intuito de solucionar o problema da falta de luminosidade, os arquitetos usaram formas geométricas simples e uma estrutura em L. Além disso, foram criados terraços em todos os pavimentos destinados ao lazer das crianças e adolescentes acolhidos. Esses terraços foram posicionados para a fachada norte, apresentando diferentes níveis e volumes. Notasse, então, que o sistema adotado nessa instituição é conhecido como “Sistema em camadas”, e tem como objetivo aprimorar a entrada de luz natural e garantir vistas panorâmicas no centro do edifício. Portanto, para aproveitar a luz solar, os arquitetos propuseram posicionar os edifícios em torno de jardins fechados, com duas das principais paredes de fachadas para o sul e para o oeste (Figura 16). Dessa forma, os arquitetos inseriram um estilo contemporâneo à estrutura física do abrigo, usando-se do jogo de volumes nas diferentes camadas criadas no edifício, pensando, sobretudo, no bem-estar dos acolhidos e usando técnicas de aproveitamento de bens naturais, que nos remete à sustentabilidade. Figura 16 - Corte do edifício Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt, ilustrando o sistema de camadas Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[13: Citada anteriormente.] 2.1.4 Compatibilidade Formal O Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt está inserido em um bairro consolidado, que apresenta uma baixa densidade de edifícios. Além disso, a entidade de acolhimento se adequa perfeitamente às características arquitetônicas do entorno e aproveita bem as características topográficas do terreno, o que fez com que a construção se encaixasse adequadamente na paisagem local (Figura 17). Figura 17 - Vistas da fachada principal do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt e do Anel Viário, conhecido como Le Périphérique Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[14: Citada anteriormente.] A fachada possui concreto branco, parede de madeira com revestimento metálico, grades de cor dourada, e persianas decoradas com ferro preto em todas as fachadas tendo como função a proteger os quartos do sol e dar maior privacidade aos menores acolhidos. (Figura 18). Com o intuito de garantir a separação dos ambientes internos em diferentes andares foi necessário inserir na construção um certo grau de flexibilidade. Diante disso, os arquitetos utilizaram pilares, vigas e pisos de concreto para constituir os sistemas estruturais. Figura 18 - Vista da fachada principal do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[15: Citada anteriormente.] 2.1.5 Ambiente Interno Os arquitetos também foram responsáveis por configurar o interior do edifício, demonstrando que o cuidado com o ambiente interno também é fundamental. Diante da proposta de criar uma casa acolhedora, protegida e que resguardasse os laços familiares, os arquitetos optaram por fazer uma grande escadaria central, tida como o foco principal da construção (Figura 19). Além disso, o mobiliario, em grande parte, é feito sob medida aumentando a sensação de aconchego e conforto nesses ambientes. Os jardins plantados e a área destinada a esporte localizadas entre as alas perpendiculares do edifício, abrigam um pátio central, que tem a função de promover o lazer, bem como a contemplação. Enquanto isso, os terraços situados nos diferentes níveis do telhado descem em direção ao pátio central oferecendo ambiente ao ar livre (Figura 20). Figura 19 - Ambiente Interno do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt: à esquerda móveis planejados e à direita escadaria centra Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[16: Citada anteriormente.] Figura 20 - Pátio central do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[17: Citada anteriormente.] A entrada principal fica na rua Paul Meurice e dá acesso a um átrio luminoso onde está localizada a recepção com decoração em madeira. Além disso, há corredores que conectam ao lobby para escritórios, salas de espera, salas de reuniões e instalações de saúde localizadas no piso térreo (Figura 21). Figura 21 - Ambiente Interno do Abrigo Institucional Maison d’ Accueil de l’enface Eleanor Roosevelt: à esquerda fachada e à direita Hall de entrada Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[18: Citada anteriormente.] 2.2. Casa de Acolhimento para Menores / CEBRA A Casa de Acolhimento para Menores/CEBRA, acolhe crianças e adolescentes em situação de risco, que estão sob medida protetiva em caráter judicial necessitando de moradia temporária. Diante disso, a intenção dos arquitetos foi de criar uma casa que tivesse a maior semelhança possível com uma residência comum, oferecendo, assim, um ambiente acolhedor e familiar (Figura 22). Figura 22 - Casa de Acolhimento para Menores / CEBRA Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[19: Disponível em: <http://www.archdaily.com.br/br/760562/casa-de-acolhimento-para-menores-cebra > Acesso em: 20 de março de 2017.] 2.2.1 O Projeto A Casa de Acolhimento para Menores / CEBRA, está localizada em um bairro tranquilo, residencial, próximo à BR-165, importante via de ligação a outras cidades, e entre as ruas Strandgards Alle e Strandgards 3 (Figura 23). Instalado em Kerteminde, Dinamarca, a Casa de Acolhimento apresenta uma função importante na reinserção de crianças e adolescentes de volta as suas famílias de origem e na sociedade. Para cumprir essa função de maneira mais efetiva, a entidade conta com espaços bem pensados para o conforto e bem-estar dos menores acolhidos. A estruturação física do local é composta por: administração, quartos, banheiros, espaços para socialização geral, salas de atividades, residência pessoal, sala comum geral, lavandaria, vestiários e gabinete de apoio. O projeto foi executado em 2014 pelo o escritório CEBRA, com parceria do engenheiro Soren Jensen e o projeto Paisagístico de PK3. Esse escritório ficou conhecido por realizar uma arquitetura de vanguarda bastante provocante. Figura 23 - Planta de Situação da Casa de Acolhimento para Menores / CEBRA Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[20: Citada anteriormente.] 2.2.2. Análise Projetual O abrigo conta com uma área total de 1500.0 m², divididaem quatro residência que são ligadas e se comunicam entre si. Essas divisões se baseiam de acordo com as necessidades e com a idade. As unidades articulam-se por meio de uma unidade central, que fica localizada nos espaços administrativos. Enquanto isso, os espaços de lazer comum, garantem à criança e ao adolescente a possibilidade de brincar, ler, estudar, ver filmes e descobrir os seus pequenos recantos (Figura 24). Figura 24 - Planta Térreo Esquemática da Casa de Acolhimento para Menores / CEBRA 11 Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[21: Citada anteriormente.] A forma de distribuição dos espaços foi proposital, e permite às crianças e jovens escolher o ambiente em que quer estar, dependendo de cada situação. Dessa forma, o menor acolhido tem a liberdade de escolher se quer estar em um ambiente coletivo, para socializar com os outros habitantes e equipe técnica, ou, podem ficar sozinhos em um ambiente mais íntimo. Os arquitetos tiveram a preocupação em criar essa dualidade nessa instituição, o que se torna fundamental para essas crianças, já que garante a elas o poder de escolha. Dessa forma, os espaços onde eles se sentem mais à vontade são fundamentais, bem como os espaços coletivos são indispensáveis para o estabelecimento de vínculos afetivos e para o desenvolvimento da integração social entre os mesmos. Os quartos da unidade são unicamente individuais, e integrados ao quarto uma pequena sala e banheiro, assim encontram mais privacidade. Os arquitetos criaram uma variação volumétrica eliminando a ideia de longos corredores, e inserindo áreas comuns de socialização entre as crianças, adolescentes e o pessoal que trabalha na unidade. Dessa forma, no 1º pavimento estão localizados os serviços básicos oferecidos aos moradores como a cozinha geral, a lavandaria, a sala comum geral, bem como a parte de serviços oferecidos ao pessoal trabalhador da unidade como: a sala do pessoal, o vestiário, a administração e o gabinete de apoio (Figura 25). Nesse pavimento, a divisão dos espaços segue o conceito de privacidade, mas também expõe espaços comum para a socialização, localizado, sobretudo, nas salas de atividades. Figura 25 - Planta do 1º Pavimento da Casa de Acolhimento para Menores / CEBRA Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[22: Citada anteriormente.] A divisão dos espaços destinados as crianças foi feita levando em conta às diferentes faixas etárias dos residentes. Dessa forma, as unidades com crianças menores ficam localizadas voltadas para o jardim e apresentam fácil acesso as áreas de jogos. Enquanto que as unidades destinadas aos adolescentes são voltadas para a rua, para incentivar o maior contato com a cidade, sendo, de certa forma, um convite aos mais velhos a se integrarem no meio social que o envolve. 2.2.3 Concepção Formal Para desenvolver o conceito formal da casa os arquitetos responsáveis pensaram em desenhos infantis. Dessa forma, a ideia principal de casa, bem como o é para uma criança quando ela desenha, segue o padrão de casa com telhado de duas águas, retangular, com uma chaminé. Então, baseando, sobretudo, nos desenhos de crianças eles usam formas básicas das típicas casas dinamarquesas como ponto de partida inicial. Porém, o projeto tem suas particularidades, por meios das quais é possível observar uma brincadeira com as alturas e volumes das edificações demonstrado no croqui de estudo para a concepção da forma do edifício exposto a seguir (Figura 26). Figura 26 - Croqui de estudo para concepção da forma do edifício Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[23: Citada anteriormente.] Nota-se, então, diante do conceito formal, uma arquitetura de vanguarda, que usou diferentes alturas da edificação, criando espaços funcionais, dando mais comodidade e privacidade as crianças e ao pessoal que trabalha na unidade. 2.2.4 Compatibilidade Formal A Casa de Acolhimento para Menores / CEBRA tem como objetivo implantar uma nova forma de abrigar crianças e adolescentes, de modo que não se sintam presos, mas sim acolhidos como se fossem suas próprias casas. Para alcançar esse objetivo, os arquitetos fizeram o projeto da entidade o mais próximo possível de uma casa tradicional, sem deixar de seguir a tipologia formal das residências já existente na região (Figura 27). Figura 27 - Demonstração da adequação à tipologia formal das residências já existentes na região onde se localiza a Casa de Acolhimento de Menores / CEBRA Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[24: Citada anteriormente.] Como já mencionado, os arquitetos trabalham o volume e altura das edificações. Dessa forma, apesar de serem apenas quatro residências, a movimentação que o arquiteto propõe dá a impressão de várias residências, deixando o projeto com aspectos contemporâneos (Figura 28). Figura 28 - Vista da fachada da Casa de Acolhimento de Menores / CEBRA, ilustando o jogo de volumes e alturas Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[25: Citada anteriormente.] Os arquitetos se preocuparam ainda com as aberturas dos edifícios, trazendo a mesma perspectiva de altura e volume para os peitoris das aberturas, otimizando, dessa forma, a ventilação cruzada nos ambientes internos (Figura 28). Além disso, os arquitetos se atentaram também para a importância de numerar os ambientes, com o intuito de melhorar a organização, facilitando a identificação de cada ambiente (Figura 29). Figura 29 - Vista da fachada da Casa de Acolhimento de Menores / CEBRA, ilustando o jogo na altura dos peitoris Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[26: Citada anteriormente.] No que diz respeito aos materiais utilizados, o arquiteto faz o uso de madeira nas fachadas, tijolo aparente e vidro, que dá uma característica contemporânea, deixado o edifício em evidencia em meio aos outros (Figura 30). Figura 30 - Vista da fachada da Casa de Acolhimento de Menores / CEBRA, ilustrando os materiais usados Fonte: Modificado pela autora - Archdaily.[27: Citada anteriormente.] Outra característica marcante desse projeto são os sótãos, que se modificam em suas formas e volumes de acordo com o bloco, e assim, os usuários podem desfrutar desses espaços para realizar diferentes funções, tanto de maneira individual como em grupos (Figura 31). Esses sótãos são amplamente usados, sendo muitas vezes aproveitados pela administração, pelo pessoal que trabalha na unidade ou até mesmo pelas crianças e adolescentes acolhidos. Figura 31 - Croquis mostrando diferentes usos nos sotãos Fonte: Archdaily.[28: Citada anteriormente.] 3 PROPOSTA CONCEITUAL O presente capítulo tem como objetivo apresentar a proposta conceitual, abordando os traçados condicionantes e as diretrizes para a elaboração do projeto arquitetônico de um Abrigo de Acolhimento Institucional. Diante disso, notasse a relevância desse projeto, já que essa é uma importante instituição de preservação dos direitos da criança e adolescente. Além do mais, como está disposto no art. 87 do ECA, é necessário que haja a intervenção do Estado junto a famílias que, comprovadamente, não têm condições de proteger a criança e adolescente (BRASIL, 1990). Frente a essa realidade, a proteção e a garantia de todos os demais direitos da criança e do adolescente passam a ser responsabilidade dessas instituições de acolhimento. Dessa forma, o projeto proposto para o edifício do Abrigo Institucional, que tem como função o acolhimento de crianças e adolescentes, busca, por meio de características arquitetônicas, a funcionalidade dos espaços e a contribuição de forma a garantir que esses jovens se sintam realmente protegidos e acolhidos, como se estivessem inseridos, de fato, no aconchego de um lar. Portanto, o projeto deve prever áreas individualizadas, bem como áreas de convivência, que busquem a integração familiar por meio de visitas, e a promoção da inserção comunitária na entidade, evitando, dessa forma, que esses indivíduos sejam excluídos dasociedade. 3.1 Conceito Arquitetônico Arquitetura contemporânea, é uma mistura de todos os movimentos, tendências e tecnologia construtivas, por meio da qual se observa o aprimoramento de todas as escolas arquitetônicas, e consequentemente a melhoria nas questões funcionais. De acordo com Ghirardo (2009), a principal característica contemporânea é a busca constante de novas tecnologias industriais, como: concreto armado, aço laminado e o uso de vidros em grandes dimensões. O autor destaca também outra vertente da arquitetura Contemporânea, considerada minimalista, na qual a simplicidade é exaltada. A geral, a arquitetura Contemporânea faz o uso de linhas retas, concreto puro e aparente, muito branco e cores neutras. Além disso, sugere a “arquitetura vernacular”, que faz o uso de recursos técnicos e materiais regionais, em busca de conforto e aliado a estética (GHIRARDO, 2009). O minimalismo, surgiu no início do século XX, assim como as vanguardas artísticas e arquitetônicas, em resposta aos excessos decorativos, simbólicos e de linguagem, trazidos, sobretudo, pelo ecleticismo pós-moderno, que apresenta uma forte tendência à abstração e à simplificação. Diante disso, o minimalismo pode ser enxergado como uma tendência pós-modernista, que teve suas experiências mais evidente desenvolvidas pelo arquiteto Mies Van Der Rohe (MONTANER, 1994, 2002). Contemporâneo é uma referência a arquitetura reconhecida como um movimento onde os métodos tradicionais de construção e recursos de ornamentação são utilizados. Como resultado, temos o uso de novos elementos, novas formas construtivas e tecnologias. Muitas obras remetem ao modernismo, com linhas retas, claridade, vãos livres, e o uso de pilotis. De acordo com Ghirardo (2009), o estilo Contemporâneo não nega o passado, na verdade, andam juntos, porém buscando sempre uma transformação. Diante disso, o principal foco é a junção de estilos, por meio da qual há a otimização de vários estilos, sendo, então, possível dar mais funcionalidade aos projetos. O conceito adotado para o Abrigo Institucional será o de “aconchego”, no qual o edifício terá a função de amparar, conceder bem-estar, um conforto e acolhimento a esses jovens que são vítimas de maus tratos e humilhações, muitas vezes, dentro de sua própria família. A noção de emergência não deve ser vivenciada pelas crianças que precisam se sentir seguras, este será um lugar onde, finalmente, elas poderão sentir essa segurança. Também é fundamental que todo esforço seja feito para garantir que suas necessidades educacionais sejam garantidas continuamente. Diante de tudo isso, a intenção é projetar um abrigo por meio do qual essas crianças tenham o aconchego de um lar, com privacidade nos momentos que se precisem e atividades de socialização interna e com a sociedade sempre que possível. 3.1.2 Eixo Condutor O eixo condutor para o projeto foi concebido por meio dos estudos de casos apresentado anteriormente. No primeiro estudo de caso Maison d’ Accueil de I’enface Eleanor Roosevelt, poderá ajudar devido ao seu programa de necessidade, que funciona como um local de emergência e também como um local de acolhimento a crianças e adolescentes afastadas de suas famílias. Nesse sentido, o arquiteto se preocupou em criar ambientes que possibilitam a boa convivência por meio de áreas reservadas para o lazer, cultura e educação. Além disso, os arquitetos também pensaram na importância de inserir as crianças e adolescentes em grupos que tenham, aproximadamente, a mesma faixa etária. Este projeto terá grande importância quanto às características funcionais, acessos, pátios internos, que proporcionam aos usuários áreas destinadas a socialização. O segundo estudo de caso, Casa de Acolhimento de Menores foi escolhido por reunir fatores considerados essenciais para a elaboração do projeto que será proposto. O principal fator observado nesse caso foi o fato dos arquitetos terem implantado o abrigo com a forma e característica de uma residência comum. Portanto, o projeto proposto seguirá a mesma ideia, já que detalhes como esses ajudam no desenvolvimento psicológico das crianças e adolescentes acolhidas. Além do que, o programa de necessidades e os espaços para recreação também influenciaram no projeto proposto. 4 ESTUDO DO LUGAR 4.1 Caracterização de Goiânia 4.1.1 Histórico de Goiânia Goiânia recebeu fortes influências europeia em sua construção, no governo de Getúlio Vargas, sua principal ideia era construir não só uma nova forma de organização política, mas também as bases para um estado moderno. Com isso, a construção de Goiânia é feita com o que tinha de mais avançado nas técnicas urbanísticas e arquitetônicas da época. De acordo com Amaral (2015), a ideia era acabar com as tendências antigas e com tradições da região, e assim romper com características do passado e dos antigos habitantes. No dia 24 de outubro de 1933, foi lançada a pedra fundamental em Goiânia por Pedro Ludovico Teixeira. Segundo Amaral (2015), o desenvolvimento da região seria uma forma de libertar a sociedade das antigas heranças tradicionais, de cidade colonial e políticas oligárquicas. Diante disso, o governo de Getúlio era considerado o “governo revolucionário” que daria, com a mudança da capital, um passo à frente na instalação do progresso no interior do Brasil. O Urbanista Atílio Correa Lima foi contratado para projetar a nova capital de Goiás. Segundo Amaral (2015), o Arquiteto escolheu como modelo o palácio de Versailles, e usou o “pé de pato “como referência a esse modelo, onde era formado por três grandes avenidas que partem de um edifício principal. Dessa forma, afirma-se que a principal ideia do urbanista era tornar o palácio o centro dominante de Goiânia e que representava a nova forma de governar de Getúlio Vargas, em oposição às antigas oligarquias já que Goiânia estaria sendo criada no começo do Estado novo. Na década de 50 com a campanha “Marcha para Oeste” fez com que Goiás crescesse em ritmo acelerado. Esse momento foi marcado pela instalação de muitas indústrias e empresas na capital. De acordo com Castilho (2012), nesse período, Goiás passou por grandes transformações políticas, econômicas e sociais o que refletiu no planejamento espacial da cidade, logo a cidade que foi planejada para 50 mil habitantes começou a se expandir e hoje chega a 1,3 milhão de habitantes espalhados em vários setores que nasceram com a expansão imobiliária. Um desses setor é o Setor Moinho dos Ventos escolhido para implantação do Abrigo Institucional. 4.1.2 Localização de Goiânia A cidade de Goiânia foi fundada em 1933, com o intuito principal de promover a transferência da capital de Goiás. Graças à época da sua fundação, Goiânia é considerada um dos símbolos da Revolução de 1930, fazendo referência à Era Vargas, já que teve em Getúlio um de seus apoiadores. A ideia de transferir a capital de Goiás já existia a algum tempo, contudo, só se tornou, de fato, aplicável após à adoção do Dr. Pedro Ludovico Teixeira como interventor do estado de Goiás. A partir de então deu-se a construção da nova sede do Governo de Goiás (AMARAL, 2015). Apesar de ser considerada uma cidade jovem já possui importantes índices populacionais. De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Goiânia é a segunda cidade mais populosa do Centro-Oeste, sendo superada apenas por Brasília. A população estimada de Goânia é de 1.412,364 habitantes. Além disso, ela é considerada a sexta maior cidade do Brasil em extensão territorial, contando com 256,8 km² (Figura 32). Figura 32 - Mapa da localização de Goiânia Fonte: Modificado pela autora - Google Earth.[29: Disponível em: <https://earth.google.com/web/@-16.73132755,-49.3453399,825.61501066a,2245.68601202d,35y,0h,45t,0r/data=ClQaUhJMCiUweDkzNWVmNjRhODIzYmJkODE6MHhmOGI1NDg0NGJiMTVlZGE5GSkdUUYBuzDAIVN7bCY6rEjAKhFNb2luaG8gZG9zIFZlbnRvcxgCIAEoAg>. Acesso em: 15 de maio de 2017.] Por ser considerado um dos maiores centros financeiros do Brasil, tem grandes referenciaisna saúde, atividades imobiliárias e na administração pública, o que a deixa entre as capitais que mais geram empregos no Brasil. Segundo o IBGE, em resposta a isso tem havido um alto fluxo migratório de populações de baixa renda e escolaridade para Goiânia. A maioria dessas populações vem das Regiões Norte e Nordeste do país, na esperança de alcançarem melhores empregos e condição de vida. No entanto, esse processo migratório tem trazido como consequência diversos problemas sociais. De acordo com Luiz Alberto Gomes de Oliveira, em seu artigo sobre Desenvolvimento Econômico de Goiânia, Goiânia ainda possui problemas sociais ligados à existência crianças em situação de rua, ao alto índice de desemprego, à carência de infraestrutura, à segregação social e à marginalidade, principalmente nas regiões Noroeste e Sudoeste da cidade.[30: Disponível em: <http://www.imb.go.gov.br/pub/conj/conj3/03.htm>. Acesso em 16 de maio de 2017.] 4.2 Caracterização do Setor Moinho dos Ventos 4.2.1 Histórico do Setor Moinho dos Ventos A prefeitura de Goiânia não possui dados históricos do setor, já que o mesmo ainda é recente, não tendo mais que 10 anos. De acordo com a Secretária Municipal de Planejamento Urbano (SEPLAM), estão sendo elaborados documentos referentes à região, que logo estão disponíveis para consulta. No entanto, como até o presente momento esses documentos não foram disponibilizados, as informações trazidas nessa seção do trabalho, foram obtidas através dos ambientes eletrônicos do site do IBGE e do Instituto Mauro Borges, bem como de artigos de jornais. O setor Moinho dos Ventos é considerado um bairro planejado, já que houve, durante a sua divisão a separação de áreas definidas para moradia, lazer, comércio, educação e preservação ambiental. Esse tipo de bairro tem ganhado cada vez mais espaço em Goiânia, pois acelera a ocupação e leva infraestrutura e desenvolvimento para regiões periféricas. Uma das vantagens do bairro planejado é a ocupação ser feita com planejamento urbano, pensando na ocupação e nos impactos futuros e, geralmente, obedecendo a padrões urbanísticos para a ocupação ordenada. O bairro foi projetado com características de uma cidade compacta e integrada, que incentiva o uso misto, deixando já estabelecido as áreas destinadas ao comércio e moradia. Dessa forma, o bairro se estrutura de forma equilibrada, garantindo a oferta de emprego e a moradia, e consequentemente, fortalecendo o comercio local (Figura 33). Figura 33 - Comércios, Praças e Área residencial do bairro Fonte: Modificado pela autora - Google Earth.[31: Citado anteriormente.] Observa-se que os comércios estão distribuídos em avenidas importantes, como a Avenida Ville (Anel Viário), na Avenida São Luiz, na Avenida Eli Alves Forte. Enquanto, as áreas residenciais são localizadas no centro dessas avenidas e as áreas destinadas a praças locadas próximo as áreas residenciais. A Região Sudoeste, onde se encontra a área destinada ao projeto do Abrigo Institucional, apresenta altos índices populacionais, já que é considerada uma das regiões que mais cresce em Goiânia. Segundo a SEPLAM (2012), a região hoje encontra-se em uma área de interesse social, onde novos bairros foram implantados na localidade, inclusive o setor Moinho dos Ventos, bairro de implantação do Abrigo de Acolhimento Institucional (Figura 34).[32: Disponível em: <http://www.goiania.go.gov.br/shtml/seplam/anuario2012>. Acesso em 03 de maio de 2017.] Figura 34 - Dados Populacionais por bairros da Região Sudoeste de Goiânia, no ano de 2012 Fonte: Modificado pela autora - SEPLAM.[33: Citado anteriormente.] Analisando o gráfico é possível notar que o número de habitantes, mesmo em bairros mais novos da Região Sudoeste, já está se aproximando dos bairros mais antigos. É o caso, por exemplo, dos bairros Celina Park, que foi o primeiro bairro planejado de Goiânia, que já ultrapassou o número de habitantes do setor Novo Horizonte. Contudo, por se tratar de bairros suburbanos a situação socioeconômica é mais baixa do que nas regiões centrais. 4.2.2 Localização do Setor Moinho dos Ventos O setor Moinho dos Ventos está localizado na região Sudoeste de Goiânia (Figura 35), região que encontrasse em desenvolvimento, principalmente depois da implantação do mais novo parque da cidade, o Parque Linear Macambira Anicuns. Esse parque ajudou no processo de adensamento da região, por meio da construção de habitações de alta densidade, como condomínios horizontais para classe média baixa, e, também no aumento de investimentos na infraestrutura, por meio da duplicação de rodovias, por exemplo. Figura 35 - Mapa da localização do bairro Moinho dos Ventos, localizado na Região Sudoeste de Goiânia Fonte: Modificado pela autora - Google Earth.[34: Citado anteriormente.] O bairro está inserido dentro de uma região de importantes acessos dentro da capital, o que deixa torna o bairro ligado de maneira satisfatória aos grandes centros de Goiânia. Garantindo, dessa forma, a maior oferta de empregos, de acesso à educação, saúde e lazer. Além disso, o bairro dista do Centro de Goiânia, mais especificamente, da Praça Cívica, em cerca de 14 km (Figura 36). Com relação às vias de acesso ao bairro Moinho dos Ventos, destacam-se como as principais a Avenida Ville (Anel Viário), a Avenida Vereda dos Buritis, a Avenida Moinho dos Ventos e a GO-060 (Figura 37). Figura 36 - Trajeto do bairro Moinho dos Ventos até a Praça Cívica Fonte: Modificado pela autora - Google Maps.[35: Disponível em: < https://www.google.com.br/maps/place/Moinho+dos+Ventos,+Goi%C3%A2nia+-+GO/@-16.7313172,-49.3497173,16z/data=!3m1!4b1!4m5!3m4!1s0x935ef64a823bbd81:0xf8b54844 bb15eda9!8m2!3d-16.7304882!4d-49.3455246>. Acesso em: 15 de maio de 2017.] Figura 37 - Principais Vias de Acesso ao bairro Moinho dos Ventos Fonte: Modificado pela autora - Google Earth.[36: Citados anteriormente.] 4.2.3 Leitura da Paisagem Urbana do Setor Moinho dos Ventos A analise da paisagem se faz fundamental para entender quando os elementos e os jogos urbanos provocam impactos, principalmente, de ordem visual e emocional. De acordo com (CULLEN, 1993), a paisagem urbana é a arte de tornar coerente e organizado visualmente, o emaranhado de edificios, ruas e espaços que constituem o ambiente urbano. A paisagem urbana do setor Moinho dos Ventos tem passado por mudanças constantes. Dessa forma, desde o seu lançamento até hoje, o bairro tem passado por transformações que ocorreram na paisagem onde o setor está localizado. A implantação desse setor se deu em uma área já bastante adensada, somente a área específica do bairro estava, de fato, desocupada. Com a criação do bairro, as características de zona rural passaram a dar lugar as características urbanas, e assim, dia pós dia novas construções e novos empreendimentos foram tomando conta da região (Figura 38). Figura 38 - Evolução urbana do setor Moinho dos Ventos. Fonte: Modificado pela autora - SEPLAM.[37: Citado anteriormente.] A paisagem do setor Moinho dos Ventos é caracterizada pela predominância de edifícios residenciais de até 2 pavimentos. Contudo, o bairro apresenta em seu layout áreas especificas para o uso residencial, possibilitando a criação de edifícios com até 10 pavimentos. Além disso, como já mencionado anteriormente, o bairro é dividido ainda em áreas destinadas ao comércio, o que garante a ele características de uso misto bem visíveis (Figura 39). Figura 39 - Predominância de uso residencial no setor Moinho dos Ventos Fonte: Registro da autora (2017). Além da paisagem edificada, o setor conta ainda com a Praça Moinho dos Ventos, um espaço destinado a encontros dos moradores do próprio setor e também de bairros vizinhos. Essa praça foi implantada entre dois condomínios, o Ventana e o Mistral, localização em ponto estratégico para o melhor uso da praça (Figura 40). Figura 40 - Predominância de uso residencial no Setor Moinho dos Vento Fonte: Registro da autora (2017). A composição da paisagemdo entorno imediato da área escolhida para a implantação do abrigo, é composta por edificações residenciais e também por um pavimento de área verde, já que a área está localizada próximo a zona de preservação ambiental do Córrego Taquaral (Figura 41). Em seu entorno, com distância de até 2 km, há a presença de condomínios verticais, praça, áreas verdes, e edifícios comercias, tais como farmácias, supermercados, restaurantes, academias etc. Dessa forma, nota-se que há uma facilitação para a consolidação do Abrigo de Acolhimento Institucional proposto para a região. Figura 41 - Delimitação da área do entorno do Abrigo de Acolhimento Institucional Fonte: Modificado pela autora - Google Earth.[38: Citado anteriormente.] 4.2.4 - O Terreno A área escolhida tem três frentes, a testada noroeste voltada para Rua MDV-44, a testada sudeste posicionada para Rua MDV-46, e a testada sudoesta para a Rua MDV-48, apresentado área total de 10.392m². A Área Pública Municipal (APM) 14 é uma área pública municipal, destinada ao desenvolvimento da criança e do adolescente, fazendo limite com a APM-15 destinada a uma escola de 1º Grau e com a APM-13 destinada a escola de 2º Grau (Figura 42). Figura 42 - Localização da Área de implantação do Projeto Fonte: Modificado pela autora - Google Maps.[39: Citado anteriormente.] A escolha da área para o abrigo foi pensada seguindo orientações técnicas para o funcionamento, que prevê a construção de um Abrigo Institucional. Segundo essas regras, o Abrigo de Acolhimento Institucional deve ser inserido em áreas residenciais e que atenda a região em que está inserido. Contudo, o entorno é um fator determinante no bom desempenho da instituição. Em vista disso na definição do recorte espacial, a localização da área foi definida a partir dos seguintes critérios: Estar localizado em áreas residencial, para que haja participação da comunidade no dia-a-dia da instituição; Apresentar em seu entorno equipamentos de comercio, serviços, para garantir a integração dos usuários à sociedade; Estar próximo a equipamentos suporte como escolas e hospitais. O setor Moinho dos Ventos está localizado próximo de bairros bem consolidados como Celina Park, Novo Horizonte, Rio Formoso, Vila Boa, Cachoeira Dourada, e que serão importantes para assegurar o desenvolvimento social dos menores abrigados que serão atendidos pelo Abrigo Institucional. Além disso, nesses setores estão localizados equipamentos de saúde, ensino e lazer (Figura 43). Figura 43 - Distância entre a área escolhida e os principais equipamentos de ensino, saúde e transporte Fonte: Modificado pela autora - Google Maps.[40: Citado anteriormente.] Esses equipamentos são de extrema importância para a melhor consolidação do Abrigo Institucional, e estão localizados em uma distância de até 3 km da área de implantação do abrigo. Além desses equipamentos mostrados na figura 42, a região conta também com shopping, clube e parques nas suas proximidades. 4.3 Elementos Construídos (Morfologia Urbana) 5.3.1 Traçado das Ruas O bairro Moinho dos Ventos apresenta acessos e avenidas importantes, além do grande fluxo de trânsito, que contribui para a melhor mobilidade na região. A hierarquia viária presente na área em estudo é composta por três tipos de vias: a via expressa, as vias coletoras e as vias locais. Cerca de 200 metros de distância da área temos a Via Expressa de 3º Categoria, a Avenida Ville, também conhecida como Anel Viário. A mesma distância é observada para o acesso as Vias Coletoras, que recebem o trafego das vias locais e o direciona para as vias de categoria superior. Dentre essas vias destacam-se a Avenida Bafim, a Avenida Vereda dos Buritis e a Avenida Moinho dos Ventos. As principais ruas locais nasceram com o planejamento do bairro. Diante disso, o traçado dessas ruas liga o setor aos bairros vizinhos (Figura 44). Figura 44 - Mapa de hierarquia viária Fonte: Modificado pela autora - SEPLAM.[41: Citado anteriormente.] 4.3.2 Fluxos Os fluxos observados na área em estudo, mostram que o a Avenida Ville (Anel Viário) recebe a maior quantidade de veículos e é classificado como fluxo intenso. Essa avenida é uma das mais importantes vias da capital, responsável por tirar o trânsito pesado de dentro da cidade. Além disso, essa via também recebe um fluxo grande de carros dos setores próximos a rodovia, se mostrando, então, uma via importante para a mobilidade na capital. As avenidas Veredas dos buritis e Moinho dos Ventos recebem fluxos moderado e as ruas e avenidas locais recebem um fluxo leve (Figura 45). Figura 45 – Mapa de Fluxo Viário Fonte: Modificado pela autora - SEPLAM.[42: Citado anteriormente.] 4.3.3 O Edifício As Leis Complementares nº 171, de 29 de maio de 2007 e nº 302, de 30 de dezembro de 2016, e a Lei nº 8.617, de 09 de janeiro de 2008, estabelecem para a área de estudo a existência de Habitação Unifamiliar, Geminada, Seriada e Coletiva, com altura de 6 metros liberado, desde que respeitem os Índices de Controle de Captação de Água Pluvial e os Índices Paisagísticos, dispostos conforme o art. 128 e 128-A, da Lei Complementar nº 246, de 29 de abril de 2013.[43: Lei Complementar nº 171, de 29 de maio de 2007. Dispõe sobre o Plano Diretor e o processo de planejamento urbano do Município de Goiânia e dá outras providências. Diário Oficial n° 4.147, de 26 de junho de 2007.][44: Lei Complementar nº 302, de dezembro de 2016. Dispõe sobre o Código de Obras e Edificações do Município de Goiânia.][45: Lei nº 8.617, de 09 de janeiro de 2008. Dispõe sobre a regulamentação do controle das atividades não residenciais e dos parâmetros urbanísticos estabelecidos para a Macrozona Construída, conforme art. 72, da Lei Complementar n° 171, de 29 de maio de 2007 – Plano Diretor de Goiânia e dá outras providências.][46: Lei Complementar nº 246, de 29 de abril de 2013. Altera a Lei Complementar nº 171, de 29 de maio de 2007, que Dispõe sobre o Plano Diretor e processo de planejamento urbano do Município de Goiânia e dá outras providências.] Diante dos padrões liberados e de acordo com levantamento feito na região, a edificação do setor vem acontecendo em ritmo acelerado. Por meio desse levantamento observou-se ainda a predominância do uso residencial, com até dois pavimentos no entorno imediato da área. Além disso, na Avenida Ville, na Avenida Eli Alves Forte e na Avenida São Luiz, há a predominância de uso comercial. Ainda existe uma grande quantidade de vazios urbanos na região, porém o investimento do setor imobiliário vem contribuido muito para o adensamento, que já conta com varios projetos de condominios para o setor, inclusive em construção (Figura 46). Figura 46 – Mapa de Uso e Ocupação do Solo Fonte: Modificado pela autora - SEPLAM.[47: Citado anteriormente.] Após visita ao local foi observado que a maioria das edificações obedecem a legislação vigente para o uso do solo, levando em conta que a área em estudo está localizada próximo a Zona de Proteção Ambiental (ZPA) III, não foi observado nenhuma edificação avançando o limite da área de preservação permanente. 4.3.4 Gabarito Com relação à altura das edificações da área em estudo foi observado que todas as elas estão em conformidades com a lei que estabelece a altura máxima de 6 metros de altura. Além disso, o setor apresenta áreas especificas para o adensamento com altura de até 10 pavimentos, localizadas após o Anel Viário, onde já estão construídos alguns condomínios (Figura 47). Figura 47 - Mapa de Gabarito Fonte: Modificado pela autora - SEPLAM.[48: Citado anteriormente.] 4.3.5 Cheios e Vazios O mapa de cheios e vazios é especifico para se obter uma percepção da potencialidade do bairro em termos de adensamento. Dessa forma, a partir do levantamento realizado foi possível perceber que o bairro tem um grande número de lotes vagos, principalmente na região da segunda etapa, onde se localiza a área escolhida para a construção do Abrigo (Figura 48). Ainda assim, a segundaetapa já está passando por um processo de adensamento acelerado, o que levará a região a uma rápida ocupação. Figura 48 - Mapa de Cheios e Vazios Urbanos Fonte: Modificado pela autora - SEPLAM.[49: Citado anteriormente.] 5.3.6 Infraestrutura Urbana Conforme levantamento realizado na área em estudo sobre a infraestrutura urbana do bairro, notamos que o mesmo apresenta infraestrutura básica. Dessa forma, as ruas são pavimentadas com asfalto, o bairro conta com iluminação pública, água tratada e pontos de ônibus. Contudo, a segunda etapa do bairro, onde está localizada a área para a construção do Abrigo de Acolhimento Institucional, não conta com rede de captação de água pluvial e nem esgoto (Figura 49). Figura 49 - Mapa de Infraestrutura Urbana Fonte: Modificado pela autora - SEPLAM.[50: Citado anteriormente.] 4.4 Elementos Naturais (Geomorfológico) 4.4.1 Topografia A área que será usada para a implantação do Abrigo de Acolhimento Institucional está localizada a 807.000 metros acima do nível do mar, apresentando uma declividade de 5 metros no sentido do Córrego Taquaral, de sul para norte (Figura 50). Figura 50 - Mapa de Infraestrutura Urbana Fonte: Modificado pela autora - SEPLAM.[51: Citado anteriormente.] 4.4.2 Vegetação e Hidrografia Com relação à hidrografia e à vegetação, a área conta com a ZPA do Parque Solar Bougainville II, com 7.522 m², apresentando como vegetação remanescente as Veredas, caracterizadas, principalmente, pela presença de alguns buritis (Figura 51). Contudo, essa vegetação encontra-se descaracterizada pelo desmatamento à qual foi submetida. Além disso, foi observado também a presença de ocupações irregulares, sendo uma dessas áreas destinada ao descarte irregular de lixo. Além do mais, a vegetação da área não se limita à encontrada nas proximidades do Córrego Taquaral, uma vez que existe também a presença de vegetação nos canteiros das avenidas e em algumas áreas destinadas a praças, onde população fazem o uso desses espaços. Figura 51 - Mapa de Infraestrutura Urbana Fonte: Modificado pela autora: Disponível em SEPLAM .[52: Citado anteriormente.] 4.4.3 Insolação e Ventos Goiânia encontrasse numa região de alta altitude, importante fator de influência para o clima. Segundo classificação climática de Koppen–Geiger, o clima predominante de Goiânia é tropical com estação seca, divididos em duas estações bem definidas no ano: Verão Úmido (de outubro a abril) ou período chuvoso e Inverno Seco (de maio a setembro) ou período seco. Durante o período chuvoso o índice pluviométrico é de aproximadamente 1.570 milímetros anuais, sendo dezembro o mês de maior precipitação (268 mm) e junho o de menor (7mm). Durante o período seco, a umidade do ar enfrenta períodos críticos de junho a setembro e extremo em agosto (CARDOSO; MARCUZZO; BARROS, 2014). A temperatura média em Goiânia é de 23,2ºC, com média mínima de 17,7ºC e a máxima de 29,8ºC (FARIAS, 2012). Contudo, de acordo com Farias (2012), regiões com maior densidade de urbanização apresentam, em geral, maior estresse térmico e hídrico, transmitindo maior desconforto térmico para a população. Graças à variação de temperatura vivenciada em determinadas localidades em detrimento de outra, é preciso avaliar de forma específica as condições influenciadoras da temperatura na área escolhida para implantar o Abrigo de Acolhimento Institucional. Dessa forma, levando em conta que regiões mais afastadas do centro da cidade, como é o caso da região sudoeste, apresentam temperaturas, significativamente, mais baixas com relação ao centro da cidade (Figura 52). Com relação aos ventos de Goiânia, a análise foi feita observando a divisão climática. Dessa forma, notasse que, enquanto no verão os ventos são de primeira predominância e vêm, sobretudo, do norte; no inverno a predominância primária vem do leste e a secundária do sul (Figura 52). Essas mudanças estão relacionadas com a atuação das frentes frias na capital. Contudo, a velocidade média dos ventos varia entre 2,5 e 3,5 m/s, sendo considerados fracos e necessitando de intervenções no projeto que auxiliem no aproveitamento desses ventos (FERNANDES, 2002). Bem como a temperatura, os ventos também são influenciados por fatores condicionantes do meio, principalmente por barreiras naturais e construídas, que podem diminuir ainda mais a velocidade dos ventos, prejudicando a otimização no aproveitamento dos mesmos. Não há, contudo, na área escolhida para a implantação do Abrigo de Acolhimento Institucional, barreiras que possam impedir o aproveitamento otimizado dos ventos. Figura 52 - Mapa de Insolação e Ventilação Fonte: Modificado pela autora - Disponível em SEPLAM.[53: Citados anteriormente.] REFERÊNCIAS AMARAL, C. V. L. Planos de Goiânia: a construção da cidade moderna na perspectiva urbanística. In: CAIXETA, E. M. M. P.; ROMEIRO, B. (Eds.). . Interlocuções na arquitetura moderna no Brasil: o caso de Goiânia e de outras modernidades. Goiânia: Editora UFG, 2015. p. 43–91. AMIN, A. R. Evolução Histórica do Direito da Criança e do Adolescente. In: ALMEIDA, J. DE; ALMEIDA, J. L. DA S. (Eds.). . 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