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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ – UESPI
CAMPUS PROF. ANTONIO GIOVANNI ALVES DE SOUSA
DISCIPLINA: DIREITO CONSTITUCIONAL I
PROFESSORA: ANDREIA MARREIRO BARBOSA
ALUNO: ANTONIO EDVAR DE SOUSA FARIAS
PIRIPIRI, JANEIRO DE 2018. 
HUNT, Lynn. A invenção dos direitos humanos: uma história. Tradução de Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. (285 p.)
O livro, ora analisado, é fruto de atenciosa e paciente de pesquisa digna de um garimpador incansável de bibliografias e com o auxílio de conferências proferidas nos EUA e outros países. A autora de A invenção dos direitos humanos: uma história Lynn Avery Hunt busca através 	de obra responder-se algumas perguntas apresentadas na introdução, entre elas:[1: Originalmente, foi publicado sob o título Inventing human rights - A history em 2007 nos EUA. Antes de publicá-lo, outros escritos já haviam sido lancados pela historiadora, tais como: A Nova História Cultural (1992)][2: A professora da cadeira de História Moderna da Europa da UCLA – Universidade da Califórnia, Los Angeles – foca seus estudos e pesquisa em temas como a Revolução Francesa, Analise de Gênero, História Cultural. Seus livros foram traduzidos para mais de uma dezena de idiomas mundo afora.]
Como é que esses homens, vivendo em sociedades construídas sobre a escravidão, a subordinação e a subserviência aparentemente natural, chegaram a imaginar homens nada parecidos com eles, e em alguns casos também mulheres, como iguais? Como é que a igualdade de direitos se tornou uma verdade "autoevidente" em lugares tão improváveis? (p. 17) 
Lynn expõe um parodoxo pelo qual Thomas Jefferson – senhor de escravos – e Lafayette – aristocrata francês – aparecem como os pioneiros na defesa dos “direitos do homem” sem qualquer tipo de distinção. Um dos focos de Hunt, centra-se em saber como a “autoevidência" dos direitos humanos foi estatuída. Eis sua tese: “para que os direitos humanos se tornassem autoevidentes, as pessoas comuns precisaram ter novas compreensões que nasceram de novos tipos de sentimentos” (p. 33). Um desses “novos sentimentos” certamente passa pela experiência da empatia, pela qual um europeu pode tentar se coloca no lugar de um escravo, por exemplo, que foi condenado a morrer esquartejado por determinado crime. 
Assim, este teria uma certa noção da crueldade que foi imposta a seu próximo, provavelmente em desequilíbrio com o agravo cometido. Ademais, possuiria uma maior consciência de justiça e ao lado de alguns de seus pares empreenderia uma luta pelo fim de penas cruéis contra quem quer que fosse. Isso está delineado na primeira parte do artigo 8º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789):[3: Observe-se que a acolhida de penas mais brandas está em consonância com a condição digna e cidadã que toda pessoa – ou todo homem - detém ao nascer. ]
“Apenas punições estrita e obviamente necessárias podem ser estabelecidas pela lei ” p. 226
Já no terceiro capítulo de sua obra - “Eles deram um grande exemplo” – Hunt, de início, oferece ao leitor a definição - do famoso Dicionário Oxford - do que vem a ser declaração. Em seguida, a autora esclarece de que forma o vocábulo supracitado, no período da segunda metade do século XVIII, detinha uma significação menos suplicante como o termo “bill” ou um conceito mais jovem que “carta”. Ou melhor, conforme sua pena, declaração “tinha um ar menos mofado e submisso” (p. 114) que os outros documentos postulatórios de pedidos. Ademais, no começo do uso do termo, ele estava associado a soberania, e estendê-lo a todos seria uma forma de demonstrar o tamanho das mudanças suscitadas pelas Revoluções. [4: A derrubada da Monarquia Francesa e a Independência das treze Colônias foram influenciados pelo Iluminismo em voga no século XVIII. Issomem resposta aos governos absolutistas empreendidos após o fim do sistema feudal.]
Como já mencionado acima, a abolição da tortura na Declaração Francesa representou um novo arranjo do conceito de justiça, punição e lei forjado nos primeiros passos da Revolução Burguesa de 1789. Conforme, a escritora, o artigo 24, do decreto de 8-9 de outubro de 1789, “abolia todas as formas de tortura e também o uso de um banco baixo e humilhante (a sellette) para o interrogatório final do acusado perante os seus juízes. ” (p. 137) [5: Este documento traz os novos procedimentos que deveriam ser seguidos durante um processo criminal e assegurava uma maior chance de defesa para o acusado e salvaguarda de suas garantias.]
No lugar da tortura, a Assembleia Nacional considerou mais justas a prisão, a restrição do direito de ir e vir e o uso dos trabalhos forçados (p. 139). Até acerca da pena de morte, optou-se por um meio de execução da pena mais célere, no caso, a guilhotina – privilégio, agora, “concedido” a todos. Para isso, penas como o suplício da roda, esquartejamento, a queima na fogueira, etc. foram deixadas para trás em um passado negro, mas que não deveria ser esquecido a fim de que tais crueldades não tivessem espaço na nova sociedade desenhada após 1789.
Por seu turno, no capítulo quatro - Isso não acabará nunca – a escritora se debruça sobre as consequências das declarações na Europa Ocidental e América desde os últimos anos do conturbado século XVIII ou como alguns historiadores preferem conotar: Século das Luzes. Dessa vez, há um enfoque sobre as minorias sociais, tais como os grupos religiosos minoritários (no caso, os judeus), os negros (incluindo-se os livres e os ainda escravos), mulheres, profissões estigmatizadas pela sociedade (ator, carrasco), entre outros. Isso porque Ninguém pôde antever:
“(...) que grupos iam aparecer na discussão, quando surgiriam ou qual seria a decisão sobre o seu status. Porém, mais cedo ou mais tarde tornou-se claro que conceder direitos a alguns grupos (aos protestantes, por exemplo) era mais facilmente imaginável do que concedê-los a outros (as mulheres). (p. 150)
De início, os direitos a liberdade de expressão e de confissão religiosa se estendia apenas aos cristãos, isto é, católicos e protestantes. Contudo, dar direitos civis – ao casamento, por exemplo - e políticos aos protestantes e negligenciar a comunidade judaica, a princípio, pareceu uma certa contradição em relação a qualidade universal inerente aos “direitos do homem”. Falar em A, suscitaria também B, embora “a lógica do processo não movia os acontecimentos necessariamente adiante, mas em longo prazo era essa a tendência ” (p. 150). 
Porém, não se via, a título de exemplo, como unânime a cidadania dos judeus da região da Alsácia (p. 155-159), haja vista que eles, em tese, representariam uma nação judaica dentro do território francês contando até com um sistema de Justiça próprio – situação que não ocorria com os judeus espanhóis do Sul. O reconhecimento da cidadania destes fez com que a pressão aumentasse para que os judeus alsacianos pudessem também ser chamados oficialmente de cidadãos franceses. Embora isso não significasse o fim do preconceito, já delineou o primeiro passo para o alcance da igualdade de condições de vivência em sociedade para os judeus.
Conforme a Declaração de Independência nos EUA os negros [livres] da França não detinham um status igualitário com o homem branco, dono de terras e dono de escravos. Contudo, num espaço de apenas cinco anos após o fim do Absolutismo em Versalhes, todo negro francês era considerado livre. A abolição da escravatura e a extensão de alguns direitos aos negros, levada até as colônias sob possessão francesa não foi garantida por tanto tempo.[6: Em 1792, os negros libertos tiveram seus direitos políticos reconhecidos e dois anos depois, a escravidão foi abolida. Isso foi um ato pioneiro e uma das consequências da Revolução empreendida em 1789.]
Segundo Hunt, em “ 1802, Napoleão enviou uma imensa força expedicionária da França para capturar Toussaint-Louverture e restabelecer a escravidão nas colônias francesas. ” (p. 167). A ação do Imperador atrasou em 40 anos a abolição completa da escravidão nas colônias francesas.Mostra de que os interesses econômicos fazem com que direitos e garantias democráticas sejam ameaçadas constante pela ambição de quem concentre sua vida em lucrar.[7: Toussaint-Louverture, um ex-escravo, tornou-se o líder da revolta de escravos levada a cabo em 1793 no Haiti e que levou a Proclamação de uma República Negra na ilha de Saint Domingue, até então colônia Francesa.]
Ao contrário do que aconteceu com a causa negra que contava com o apoio dos Amigos dos Negros, nenhuma associação ou organização civil prestou assistência organizada ou se preocupou-se com mais atenção a situação da mulher. Ainda porque as mulheres não formavam um grupo perseguido, mas um segmento social negligenciado e rebaixado a condição subalterna por conta do sexo e respeitando uma milenar tradição cultural patriarcal (p. 169). Os direitos femininos se restringiam ao divórcio (1792), ou seja, havia uma grande barreira social na admissão da condição cidadã do público, historicamente, destinado a cuidar do lar. 
Tal situação sofre uma ruptura quando a ativista Olympe de Gouges escreve a “chocante” e ousadíssima Declaração dos Direitos da Mulher, reivindicando o fim da restrição de direitos as mulheres e a, consequente, promoção da igualdade entre “cidadãos e cidadãs”. Porém, tal atitude levou a feminista a guilhotina a fim de que as outras jovens vissem que um levante feminista era uma rebeldia imperdoável no meio social da época. Havia, entretanto, um forte trunfo para as mulheres: a liberdade de imprensa. Isso fez com que Constance de Salm e Mary Wollstonecraft – na Inglaterra - pudessem escrever em favor de suas companheiras. 
Apenas no século XX – um hiato de 100 anos desde De Gouges – a conquista do voto foi possível ao público feminino. No Brasil, somente em 2010, o Cargo da Presidência foi ocupado por uma mulher. Nos Estados Unidos, Hillary Clinton, candidata democrata, possivelmente por interferência russa nas eleições do ano passado, quase leva o cargo de Presidente e se tornaria a mulher mais poderosa em toda a história da humanidade.
A leitura da obra de Hunt mostra um panorama histórico importante na compreensão de que modo se deu a origem dos direitos humanos até chegar aos dias atuais. Ademais, é útil na análise e debate de qual o papel da mulher no cenário político nacional e mundial. Por vezes, declarar não significa que o direito vai ser visto, por si, na realidade, pois o que está expresso, por exemplo, no artigo 5º da CF de 1988: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (...) ”, não encontra respaldo suficiente e satisfatório no mundo fático. 
Ou seja, a aplicabilidade do dito em uma Constituição ou em uma Declaração de Direitos passa pelo sentimento fraterno - conforme insinuado pela autora ao fim da introdução de seu livro. Por meio dele, todos se enxergam como participes de uma mesma sociedade e com responsabilidade igual na vigilância e exercício dos direitos dispostos em documento formal. Isso para que a história iniciada por Hunt tenha novos episódios felizes na trajetória humana.

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