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Aula 2. O que o Professor tem a ver com isso

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televisão, como faço para comer, se
conheço as cores etc. Uma delas comentou que eu devo ter muita facilidade para
andar no escuro. Quiseram testar a bengala, o que provocou um alvoroço na
turma. Mostraram-me os pontinhos do braile e sabiam para que servem.
Certa vez, ao retornar de Natal para Belo Horizonte, no avião, eu lia uma
revista em braile, o que despertou a curiosidade de duas crianças que viajavam
ao meu lado. Era uma garota de doze anos que também lia um livro e seu irmão
de 6 anos. Durante uma demorada escala em Recife, elas fizeram perguntas
sobre o braile e eu procurei explicar de forma simples e didática com uma breve
demonstração. Elas se empolgaram, decidiram escrever seus nomes e, juntas,
conseguimos esta proeza. A garota quis ir além e escreveu seu nome em braile
na capa do livro que lia. Depois, pediu-me para ditar as letras do alfabeto porque
ela queria mostrar ao pai o que aprendeu no avião.
Estas experiências ilustram a dimensão lúdica do sistema braile e a plasti-
cidade da percepção infantil para incorporar e naturalizar a diferença. A projeção
do sistema braile e a interação das crianças cegas e não cegas contribuem para
a desmistificação da deficiência, a formação de princípios éticos, o exercício de
cooperação e solidariedade, entre outros valores que possibilitam a eliminação
de preconceitos e atitudes discriminatórias no presente e no futuro”.
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Muitas vezes, temos dúvidas a respeito de quais estratégias utilizar para
melhor proporcionar o aprendizado de nossos alunos. Veja algumas soluções
adotadas pela professora Mara; elas podem inspirar outras idéias e alternativas, de
acordo com sua realidade.
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A utopia possível 
Por Mara Cassas 14
“Recebi um aluno com Síndrome de Down em classe, que tinha completa-
do nove anos no início de 2003 e cursou a primeira série numa outra escola
comum. A classe era pequena, tinha apenas 10 alunos e duas professoras. Ele
estava em processo de alfabetização, na fase alfabética e conhecia algarismos
até 15 e contava até 10, respeitando a seqüência.
Ao realizar o planejamento eu ia, sempre que possível, em busca de uma
estratégia que possibilitasse o envolvimento de todos os alunos e na hora de fazer os
registros pensava na melhor maneira de atender o aluno em processo de inclusão.
Numa aula da disciplina de Português havia uma atividade que deveria ser
realizada no livro didático. O objetivo era estudar um novo gênero textual que é
Tirinhas em quadrinhos e suas características tais como o uso de balões para
indicar diálogos, fala de narrador, expressões dos personagens etc. Para que
houvesse maior envolvimento do aluno, eu trouxe para a classe uma cestinha
com vários gibis da Turma da Mônica, cujos personagens faziam parte da tirinha
do livro. Proporcionei um tempo para que todas as crianças escolhessem um gibi,
fossem para o fundo da classe, se espalhassem pelo chão e se divertissem com
sua leitura. Esperei que o aluno em questão escolhesse uma delas, visse sozinho
a história e depois pedisse que alguém lhe contasse. Em seguida alguns
contaram suas histórias, inclusive ele e depois retornamos às carteiras para fazer
as atividades propostas pelo livro. Oralmente fui fazendo adaptações das
atividades do livro, solicitei que as respostas fossem dadas de acordo com as
histórias dos gibis que eles haviam lido. Dessa forma, foi mais interessante para
o aluno em processo de inclusão, que se envolveu e deu respostas adequadas
levando-se em conta suas dificuldades, e para toda classe que ficou mais
interessada. A leitura dos gibis proporcionou um envolvimento maior.
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14CASSAS,Mara Rosana. Utopia Possível.[artigo online]. Disponível em <http://www.saci.org.br/?modulo=akemi&para-
metro=10702>. A autora é pedagoga e não possui especialização na área da deficiência.
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Os objetivos propostos para essa atividade foram atingidos, o aluno
participou, envolveu-se e trabalhou com o conteúdo apresentado. Interagiu com
todos os seus colegas, pois todos leram e compartilharam suas histórias e
conteúdos com os demais.
Numa outra atividade, também de Português, o objetivo era que os alunos
trabalhassem com outro gênero textual: cartas. O assunto iniciava-se pela
necessidade do uso de selo para o envio de cartas. O planejamento tinha por
base o uso do livro didático. Também, para maior envolvimento do aluno em
questão, solicitei que as crianças trouxessem objetos de coleções de casa. Os
alunos trouxeram várias coleções tais como papel de carta, tampinhas de Coca-
Cola, cartões de telefone, mas o mais freqüente foi mesmo coleção de selos. O
aluno também trouxe sua coleção de casa. Utilizei um selo que um dos alunos
trouxera e o imprimi, fazendo parte de uma das atividades para a classe trabalhar.
O envolvimento de todos foi maior e o dele foi total, pois o conteúdo ficou mais
interessante.
As aulas de Ciências eram planejadas de uma forma que houvesse um
maior envolvimento dos alunos como um todo. Eu apresentava os conteúdos
planejando várias estratégias onde pudesse contemplar as diferentes
capacidades dos alunos. Apresentava textos apenas no final do planejamento
para sistematizar o que foi trabalhado durante o processo. Havia experimentos no
laboratório, na classe ou no pátio, jogos e também trabalhos em grupo onde os
alunos deveriam fazer cartazes colocando pesquisas, gravuras ou fazendo
desenhos.
Dessa forma todos contribuíram de acordo com suas capacidades naquilo
que tinham mais facilidade. Uns escreviam, outros desenhavam e outros
pintavam ou recortavam. Os conteúdos, sempre que possível eram trabalhados
utilizando diferentes estratégias para que envolvessem a todos os alunos, então
esses conteúdos eram apresentados de forma lúdica e acadêmica para a
sistematização.
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Um dos temas trabalhados em Ciências foi sobre o Meio Ambiente. Além de
textos apresentei filmes, excursão e aula no laboratório. Montei um jogo com
dados e os alunos faziam o percurso onde todos tinham que caminhar de acordo
com o número obtido nos dados e com as regras de cada número.
Esse mesmo tipo de jogo foi utilizado no desenvolvimento do planejamento
de Estudos Sociais para o estudo das Regras de Trânsito.
Não houve necessidade de se mudar a disposição das carteiras, pois sem-
pre achei importante dispor a classe em duplas ou trios para que todos tra-
balhassem juntos. Essas duplas iam sendo alteradas com uma certa periodici-
dade, para que no final do ano todos os alunos tivessem trabalhado com todos os
seus colegas da classe. Sempre que possível, também planejo tarefas para
serem realizadas em grupo. Esses grupos também não são fixos.
O objetivo era fazer com que todos os alunos aprendessem a trabalhar com
todos os colegas, respeitando as características individuais de cada um, aceitan-
do-os como são.
Como tive a oportunidade de fazer alterações no planejamento já existente
tendo como objetivo atender a todos, foi possível atingir os objetivos propostos.
Estas eram algumas características desse aluno em fase de inclusão, no
início do ano: 
• Circulava muito pela escola, ficava pouco em sala de aula;
• Preferia brincar a estudar;
• Cansava-se facilmente das atividades da classe; 
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• Em classe circulava muito, mexia com todos os colegas e era
resistente às regras; 
• Não gostava de trabalhar em grupo; 
• Usava somente o preto nos desenhos; 
• Encontrava-se na fase alfabética; 
• Não entendia a mensagem das frases; 
• Elaborava pequenas frases orais; 
• Não conseguia registrar essas frases; 
• Invertia letras e números; 
• Necessitava de muito espaço para a escrita; 
• Possuía traçado irregular; 
• Necessitava contar um a um. Voltava sempre ao início da contagem; 
• Reconhecia e relacionava quantidade até

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