Elementos para uma psicologia no pensamento de Soren Kierkeggard
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Elementos para uma psicologia no pensamento de Soren Kierkeggard


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ISSN 1808-4281
Estudo s e Pesqu isa s em Psicologia
Ri o de Jan eiro
v. 12
n. 2
p. 572-596
2012
ARTIGOS
Elementos p ara uma psicol ogia no pensamento de
Søren Kierkegaard
Elements for a Psycho logy on Sør en Kierkegaard’s T hought
Marcos Ricardo Janzen*
Uni versi dad e Federa l d o Ri o Grand e do Sul , Port o Al egr e, Ri o Gran de d o Su l, Bra sil
Adriano Holanda**
Uni versi dad e Federa l d o Paran á, C uri ti ba, Pa raná, B rasi l
RESUMO
Este a rti go abo rda o exi sten ciali smo v ivi do de Sör en K ierkeg aard , e a pont a
algumas questões importantes para uma relação com a psicologia. Iniciando
com sua biografia, de vasta importânci a para o entendimento de sua obra, o
presen te a rti go perpa ss a os tr ês está gios dema rcad os por K ierk egaa rd q ue
deli nei am o a gir do i ndi vídu o, a sabe r, o estági o est éti co, o ét ico e o
reli gioso. En tão, a n oçã o de in divíd uo para o autor será e smi uçada , qu esit o
centra l pa ra a rel açã o en tre Ki erk egaard e a Psi col ogi a. Na seq uên cia , temas
caros ao autor, como a verdade objetiva e a verdade subjetiva, assim como
a ang ústi a e o deses per o serã o trata dos d e mod o a pod er no s forn ecer
possívei s rel ações com a psi cologi a e o faz er p sicol ógi co, relações essa s que
podem os i nferi r atra vés d os t emas q ue m arcam o em preen di mento
kierkeg aa rdi a no.
Palavr a s-chave: Kierkegaard, Psicologia, Subjetividade.
ABSTR ACT
Thi s arti cle a pproa che s to t he l ived exist enci ali sm of S ören Ki erkega ard , an d
indicates some important matters for a relation with Psychology. Starting
with his biography, that is of vast importance to understand his works, this
presen t arti cl e per pa sses th e th ree st ages d eli mi ted by Kierk egaar d th at
guide the acting of the individual, to know, the esthetic, the ethic and the
religious stages. Then, the notion of individual for the author is detailed, a
centra l key for t he rel at ion between Ki erkega ard and P sychol ogy. F ol lowi ng ,
dear matters to the author, such as objective and subjective truth, as well
as anguish and despair are treated i n such a way that al lows us to establi sh
relationships with psychology and the psychological doing, these
relationships that we could infer through the themes that mark the
kierkeg aa rd ian undertaking.
Keywords: Ki erkegaard , Psychology, Subjecti vit y.
Marcos Ri cardo Jan zen, Ad rian o Holan da
Elem entos para uma psi colog ia n o pensa men to d e Sør en Ki erkeg aa rd
Estud. p esqui . psi col., R io d e Janei ro, v. 12, n. 2, p. 572-596, 2012. 573
1 Introdução
Sören Kierkegaard (1813-1855) fo i antes de tudo um e scrito r,
publican do diversa s obr as no século XIX. Com um e stilo marcado por
metáforas e profundamente sarcástico , não esc reveu s obre o mundo,
nem elabo rou um sistema e xplicativo deste ; preocupo u-se com a vida
humana, a e xistência e com o ser -existente , ou seja, tr abalh ou com
temas existenciais, tais como o dese spero, a fé, o amor, a angústia, a
ironia e outros.
Podemos considera r Kierke gaard como o funda dor da filoso fia da
existê ncia (WAH L, 19 49 [1947 ], p.3), mes mo que o s manuais de
filosof ia trad iciona lmente apontem -no ao lado de Nietszche como
um dos “pais” ou um dos precursor es das filosofias da existência
(JOLIVET , 196 1; RE ALE; ANTI SERI, 199 0). Seu pr incipa l ob jetivo não
era construir uma filosofia que buscasse uma essência, como em
Platão, Spinoz a e He gel (WAHL , 194 9 [19 47], p.2), mas s im disco rre r
acerca da existência concr eta (FEIJOO; PROTASIO, 201 1) e com a
temática do tor nar-se cr istão, visto que ele mesmo afirma que toda a
sua obra se relaciona com o cr istianismo e com um tornar-se cr istão
(KIERKEG AARD, 2 002 , p.24). Pe nsador es da e xistência q ue vie ram
após Kierkegaard, como Jaspers, Heidegger e Sartre construíram, no
entanto, uma filoso fia exis tencial pro priame nte d ita, e cer tamente
foram infl uenciados pelo “pa i” do exis tencialismo .
Jean WAHL (1949 [1947]) faz um contraste entre as concepções
clássicas de filosofia, como e ncontradas em Platão, Spinoza e Hegel
em relação à filosofia da existência de Kierkegaard1. E m termo s
gerais, os filósofos buscavam ir acima da esfera do tornar-se a ser e
encontra r uma verd ade uni versal e eterna, po r meio da raz ão. WAH L
(1949 [1947]) considera Hegel como o último desses filósofos,
ademais, ele nos di z:
Hegel acredi ta va em u ma razão u ni versal . El e nos c onta que
nossos p ensamen tos e sentim entos tê m sig nificad o
uni camen te porqu e cad a p ensamen to, cada se nti ment o, está
amarrado à nossa personalidade, a qual tem significado
apenas porque t em u m l uga r na hi stóri a e no e stad o, em
uma época específica na evolução da Idéia universal. Para
comp reend er qu al quer coi sa q ue acont ece e m nossa vid a
int erior dev em os ir à t otal id ade qu e é o nosso eu, da li à
totalidade maior que é a espécie humana e fin alm ente à
totalidade que á a idéia absoluta (WAHL, 1949 [1947], p. 3).
É essa concepção que Kierke gaard veio a contradizer. Kierke gaard
propôs a noção de que a ver dade está na subje tivid ade, que a
existência verdadei ra é alcançada pel a intensidade do s entimento
(WAHL, 1 949 [1947 ], p. 4). Essa subj etivida de é a s ubje tividad e do
Indivíduo , pe la qual e le ataca o sistema he gelia no (RE ALE;
Marcos Ri cardo Jan zen, Ad rian o Holan da
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Estud. p esqui . psi col., R io d e Janei ro, v. 12, n. 2, p. 572-596, 2012. 574
ANTISERI, 1990, p.240). “A existência corresponde à realidade
singular , ao Indi víduo (o que Ar istótel es já e nsinou); e la permanec e
de fora e de qualquer forma não coincide co m o conce ito [...]. Um
homem singu lar ce rtamente não tem existê ncia co nceitual”
(KIERKEG AARD c itado por R EALE; A NTISER I, 1990 , p.2 41). Ess a
pode se r uma das ma iores co ntribuiçõ es de Kier kegaard à psicolog ia,
de proc urar “fo car em nossa irrepe tível e insubsti tuível si ngularida de”
(REALE; ANTI SERI, 199 0, p.24 1). Afina l, “o s istema não conseg ue
engaiola r a exis tência ” (REAL E; ANTI SERI, 1 990 , p.241), faze ndo
com que o elemento central de sua pr oposta se ja a e xistência
concr eta, a “vi da me sma” (FEI JOO; PR OT ASIO, 2 011 , p. 13).
Para a compr eensão da sua obra , que ele cons idera ser uma
exposição cristã, não é ne cessário ser cristão, mas nunca se deve
esquecer o local de onde tais palavras foram ditas (KIERKEG AARD,
2006 [1849], p.13). Em seu pensamento fica claro que as “ciências
imparcia is”, ou a quela s que não têm o método existencia l, não
podem ser consideradas como sér ias, sendo farsa e vaidade. Oposto
às “ciências impar ciais” está o indivíduo, que na terminolog ia de
Kierkegaard, ousa ser ele próprio, é perante De us, isolado e m seu
esfor ço e respo nsabilidade, u m exis tente .
Entre as diversas f ormas de existênc ia que Kierke gaard enumera, o
ápice é aquela viv ida pelo indiv íduo c ristão. “ A difer ença e ntre o
homem natural e o cristão é o semelhante à da criança e do adulto”
(KIERKEG AARD, 2 00 6 [184 9], p.16 ). Aquilo que faz a cria nça tre mer
não faz o adulto tr eme r, pois a crianç a vive e m ignor ância, como o
homem na tural. Ser c ristão é para Kier kegaard, sob uma
perspe ctiva teo lógica a for ma por e xce lência de exis tir. “ Ser cristão
é sê-lo co mo espír ito, é a in quietu de mais e levada d o es pírito, é a
impaciênc ia da ete rnidade, é te mor e tr emor contínuo
(KIERKEG AARD, citado por R EALE; AN TISER I, 199 0, p.2 38).
Reale e Antiseri (1990, 2005) aferem que o pensamento de
Kierkega ard é um pens amento es sencialmente r eligio so: “é a defes a
da existê ncia do Ind ivíduo, e xistê ncia que só se to rna autêntica
diante da transcend ência de Deus”.
Para um au tor que viveu pou co (até os 42 anos), es creve u muito :
seus escritos foram or ganizados em 22 volumes e mais cinco mil
páginas de diários , to talizando mais de 10 mil pá ginas. T endo nascido
em uma peque na cidade provinc iana, no centro in tele ctual da
Escandinávia, teve algumas aulas com Schelling, o que lhe causo u
muito inter esse. Re spondeu a He gel, tentando de monstr ar que a
vida, ou a e xistênci a, não po de se r restrita por um s istema . Foi esta
defesa da categoria da “vida”, em contraste com a valorização do
“raciona l”, que c oloco u Kierkegaa rd na vang uarda do deba te
existe ncialis ta.
Em meio a r evoluç ões, Kier kegaard e ra famoso em sua épo ca na
Dinamarca. O alcance de sua obra, no entanto, não ficou limitado ao