SIQUEIRA, A. C. ; JAEGER, F. P.  & KRUEL, C. S. Família e Violência Conceitos, Práticas e Reflexões Críticas. Pag. 77 93. complementar
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SIQUEIRA, A. C. ; JAEGER, F. P. & KRUEL, C. S. Família e Violência Conceitos, Práticas e Reflexões Críticas. Pag. 77 93. complementar


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Capítulo V I 
VIOLÊNCIA COMO CATEGORIA : 
A EXPERIÊNCIA DA ORDEM 
' Hebe Signorini Gonçalves 
O ano de 2011 celebrou um aniversário: há cinco décadas, 
precisamente em 1961, Henry Kempe cunhou a expressão: síndrome 
da criança espancada {battered child syndrome). Diante do espanto 
dos membros da Academia Americana de Pediatria, seu presidente 
defendeu que todas as especialidades médicas, e a pediatria em parti-
cular, deveriam passar a considerar a hipótese de que algumas das 
injúrias observadas nos corpos de seus pequenos pacientes pudessem 
haver sido intencionalmente provocadas por seus pais. A ideia parecia, 
então, quase uma heresia: os pais, aliados primeiros da prática médica 
desde o berço da Puericultura e da Pediatria, eram naquela data desti-
tuídos do posto de cuidadores por excelência e provedores incondicio-
nais. Rasgava-se o mito do amor materno. 
Os muitos trabalhos que antecederam a definição da síndro-
me, assim como as primeiras publicações de Henry Kempe, referiam-
\u2022se a danos e injúrias físicas: conforme suas recomendações, os espe-
cialistas deveriam atentar para as fraturas, as queimaduras, os danos 
internos e outros signos visíveis a partir dos quais a síndrome poderia 
ser detectada. Com o passar dos anos, como salienta Helfer (1987), a 
expressão - cunhada nos anos 60 com a intenção de chamar a atenção 
para aspectos físicos de danos não acidentais - passou a incorporar 
78 
Hebe SÍRnorini Gonçalves 
outros eventos. Na década que se seguiu à fala inicial de Kempe, ou-
tras formas de injúria adentraram o território dos abusos contra a crian-
ça: as negligências, primeiro, em seguida os abusos psicológicos, e 
por último os abusos sexuais", todos agora referidos a formas que 
apresentam, ou não, sinais físicos, visíveis. Nas palavras de Helfer 
(1987, p. 61), "a síndrome descrita por Kempe tomou-se mais ampla e 
permitiu descrever nosso entendimento dos problemas agora reunidos 
sob a égide global de 'colapso dos processos de interação familiares'" 
(aspas no original). Foi assim que, nas cinco últimas décadas, saímos 
da injúria corporal como signo de abuso ao diagnóstico da falência da 
relação familiar. 
Quando a Organização Mundial de Saúde declarou, na Qua-
dragésima Nona Assembleia Mundial de Saúde de 1996, que passaria 
a considerar a violência como uma questão mundial de saúde pública, 
apontava para suas consequências sobre indivíduos, famílias, comuni-
dades e países. O Relatório Mundial sobre Violência em Saúde, publi-
cado em 2002 em resposta à solicitação daquela Assembleia, referia-
se à violência coletiva, à violência social, política e económica, à vio-
lência interpessoal nas famílias, entre parceiros ou entre membros que 
convivem na mesma comunidade, à violência autoinflingida... cada 
uma delas lida conforme sua natureza: física, sexual, psicológica, ne-
gligência económica ou patrimonial. Suas vítimas não eram mais ape-
nas as crianças, mas também os idosos e as mulheres, quando não 
grupos ou países inteiros. 
A perplexidade dos médicos diante do pronunciamento dc 
Henry Kempe nos anos 60 caiu no esquecimento e remete à memória 
de um tempo em que a violência não estava ali. Nos dias atuais, ao 
contrário, a violência parece habitar o cotidiano das cidades, seja nos 
espaços públicos seja nos espaços privados; hoje, quando a violência 
está aqui, somos conclamados a conhecê-la, na pretensão de dominá-
-la. Para dominá-la, o recurso tem sido seu esquadrinhamento pela via 
da classificação: a produção recente acerca da violência tem enfatiza-
do a identificação das muitas e variadas formas de sua manifestação, 
inserindo cada uma delas num quadro classificatório que visa destacar 
aproximações e diferenças, escrutinar seus autores preferenciais, apon-
1 
Segundo Hacking (2001), os abusos sexuais adentram o campo em 1977, co.n.. 
produto da reivindicação de militantes femmistas. 
I'iiniíliu e Violência: Conceitos. Práticas e Ref lexões Críticas 79 
tar a sintomatologia com a qual se quer dizer a priori quais suas víti-
mas potenciais. Produzimos nesse percurso uma taxionomia, uma no-
sografía e uma semiologia da violência. 
Nosografia, s.f: MED: tratado com descrição ou explicação das 
doenças. (Houaiss, 2001) 
Nosografia, s.f.: descrição ou classificação metódica das doenças. 
(Holanda, 1975) , , , 
Semiologia, s.f: 1. CL. MED: meio e modo de se examinar um do-
ente, esp. de se verificarem os sinais e sintomas; propedêutica, se-
miótica, sintomatologia. (Houaiss, 2001) 
Taxionomia, s.f: 1. Ciência da classificação. (Holanda, 1975) 
Voltamos a trilhar, assim, um velho caminho conhecido das 
ciências humanas, da psiquiatria e da psicologia: diante de questão 
que parece por demais vasta, extensa e complexa, escolhemos dissecar 
para compreender, dividir para classificar, estudar a minúcia porque a 
totalidade parece abrangente demais para dar-se a conhecer. Instala-se, 
no interior de um campo díspar e vasto, a experiência da ordem, sobre 
a qual Foucault (1990, p. 10/11) assim se refere: 
Os códigos fiindamentais de uma cultura (...) fixam, logo de entra-
da, para cada homem, as ordens empíricas com as quais terá de l i -
dar e nas quais se há de encontrar. Na outra extremidade do pen-
samento, teorias científicas ou interpretações de filósofos explicam 
por que há em geral uma ordem, a que lei geral obedece, que prin-
cípio pode justificá-la, por que razão é esta a ordem estabelecida e 
não outra. Mas, entre essas duas regiões tão distantes, reina um 
domínio que, apesar de ter sobretudo um papel intermediário, não é 
menos fundamental: é mais confuso, mais obscuro e, sem diivida, 
menos fácil de analisar. É aí que uma cultura, afastando-se insensi-
velmente das ordens empíricas que lhes são prescritas por seus có-
digos primários, instaurando uma primeira distância em relação a 
elas, fá-las perder sua transparência inicial (...) Assim, em toda cul-
tura, entre o uso do que se poderia chamar os códigos ordenadores 
e as reflexões sobre a ordem, há a experiência nua da ordem e de 
seus modos de ser. 
80 Hebe Signorini Gonçalves 
Este texto trata das experiências de ordenamento recentes no 
campo das violências. Sem dúvida, há trabalhos de valor que indagam 
a própria vastidão do campo; autores como Riffiotis (1995) já se inda-
garam da validade da aproximação de experiências díspares entre si, 
tomadas similares no rótulo de violentas que as une; ele se refere à 
violência como conceito-valise, cuja validade se perde justamente na 
abrangência das questões que abarca. Ainda que compartilhe dessas 
críticas, renuncio por ora a essas inquietações e admito, como exercí-
cio, que as experiências hoje englobadas sob o rótulo de violentas de-
finem um campo vasto; minha intenção com isso é, diante da amplitu-
de que aí está contida, empreender um primeiro esforço crítico dos 
esforços classificatórios e dos sentidos que eles produzem. 
TAXONOMIA, SEMIOLOGIA, NOSOGRAFIA: A 
EXPERIÊNCIA NUA DA ORDEM 
O esforço classificatório das violências coincide com seu in-
gresso no campo da saúde. Até então, nenhum dos textos que tratava da 
violência, a maior parte no campo das ciências humanas, deu-se a essa 
empreitada; desde aquele que é reconhecido como o primeiro tratado 
sobre violência - o Réflexions sur la violence, escrito por Georges Sorel 
em 1908 - , o tema foi preponderantemente abordado como fenómeno 
relacional e conectado aos códigos culturais da época. Foi o ingresso da 
violência no campo da saúde que trouxe a necessidade da categorização. 
Desde os primeiros trabalhos de Henry Kempe, o designativo child batte-
red syndrome apontava para uma forma de abuso que invocava o uso da 
força fisica e atingia, ferindo, o corpo fisico. A marca física deixa de ser 
signo necessário de identificação conforme outras