Logo Passei Direto
Buscar

Capítulo introdutório de biologia celular e molecular que apresenta visão geral das células e da pesquisa celular, diferenças entre procariontes e eucariontes, origem e evolução, modelos experimentais, ferramentas laboratoriais, cultura de células animais e medicina molecular (vírus e câncer).

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

1 Uma Visão Geral das Células e da Pesquisa
Celular
2 A Química das Células
3 Fundamentos de Biologia Molecular
Parte I Introdução
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:341
A COMPREENSÃO DA BIOLOGIA MOLECULAR DAS CÉLULAS é uma área dinâ-mica de pesquisa que é fundamental para todas as ciências biológicas. Isto éverdade não somente do ponto de vista da pesquisa básica, mas também em
relação a um número crescente de aplicações práticas na medicina, agricultura e
biotecnologia. Especialmente com a conclusão da seqüência do genoma humano, o
progresso na biologia celular e molecular está abrindo novos horizontes na prática da
medicina. Exemplos notáveis incluem o desenvolvimento de novas drogas especifi-
camente direcionadas a interferir no crescimento de células cancerosas e no uso po-
tencial de células-tronco para substituir os tecidos danificados e tratar pacientes que
sofrem de doenças como diabetes, doença de Parkinson, doença de Alzheimer, lesões
na coluna vertebral e doenças cardíacas.
Em virtude de a biologia celular e molecular ser uma área de pesquisa de rápido
desenvolvimento, é relevante compreender sua base experimental, assim como o es-
tado atual do nosso conhecimento. Por essa razão, este capítulo abordará a maneira
como as células são estudadas e revisará algumas das suas propriedades básicas. A
apreciação das semelhanças e diferenças entre as células é de vital importância para a
compreensão da biologia celular. Portanto, a primeira parte deste capítulo discute
tanto a uniformidade quanto a diversidade das células atuais em termos da evolução
a partir de um ancestral comum. Por um lado, todas as células compartilham pro-
priedades fundamentais únicas que têm sido conservadas durante a evolução. Por
exemplo, todas as células utilizam o DNA como material genético, são circundadas
por membranas plasmáticas e usam os mesmos mecanismos básicos para o metabo-
lismo energético. Por outro lado, as células atuais desenvolveram uma grande varie-
dade de modos de vida. Muitos organismos, como bactérias, amebas e leveduras, são
constituídos de células isoladas que são capazes de se replicar independentemente.
Organismos mais complexos são compostos de uma coleção de células que funcio-
nam de uma maneira coordenada, com diferentes células especializadas para realizar
uma função determinada. O corpo humano, por exemplo, é composto por mais de
200 tipos de células diferentes, cada uma especializada para funções distintas, como
memória, visão, movimento e digestão. A diversidade exibida por esses vários dife-
rentes tipos de células é surpreendente; considere, por exemplo, as diferenças entre as
bactérias e as células do cérebro humano.
As semelhanças fundamentais entre diferentes tipos de células fornecem
um tópico único para a biologia celular, permitindo que os princípios básicos
A Origem e a Evolução das
Células 4
Células como Modelos
Experimentais 15
Ferramentas da Biologia
Celular 20
EXPERIMENTO-CHAVE: Cultura de
Células Animais 32
MEDICINA MOLECULAR: Vírus e
Câncer 35
Uma Visão Geral das Células
e da Pesquisa Celular
Capítulo 1
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:343
4 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
aprendidos a partir de experimentos com um tipo de célula sejam extrapolados e
generalizados para outros tipos de células. Vários tipos de células e organismos
são amplamente usados para estudar diferentes aspectos da biologia celular e
molecular. A segunda parte do capítulo discute algumas das propriedades dessas
células, que as fazem particularmente valiosas como modelos experimentais. Fi-
nalmente, é importante reconhecer que os progressos em biologia celular depen-
dem fortemente da disponibilidade de ferramentas experimentais que permitem
que os cientistas façam novas observações ou conduzam novos tipos de experi-
mentos. Este capítulo introdutório, portanto, é concluído com uma discussão de
alguns métodos experimentais usados para estudar as células, bem como com
uma revisão de alguns dos principais desenvolvimentos históricos que permiti-
ram a compreensão atual da estrutura e função celular.
A Origem e a Evolução das Células
As células são dividas em dois tipos principais, definidos pela presença ou não de
um núcleo. As células procarióticas (bactérias) não apresentam um envelope
nuclear; as células eucarióticas têm um núcleo, no qual o material genético está
separado do citoplasma. As células procarióticas geralmente são menores e mais
simples do que as células eucarióticas; além da ausência de núcleo, seus genomas
são menos complexos e elas não apresentam organelas citoplasmáticas ou um
citoesqueleto (Tabela 1.1). Apesar dessas diferenças, os mesmos mecanismos
moleculares básicos controlam a vida de ambas, procarióticas e eucarióticas, in-
dicando que todas as células atuais descendem de um ancestral primordial co-
mum. Como essa primeira célula se desenvolveu? Como evoluíram a complexi-
dade e a diversidade exibidas pelas células atuais?
A Primeira Célula
Provavelmente, a vida apareceu há pelo menos 3,8 bilhões de anos, aproximadamen-
te 750 milhões de anos após a Terra ter sido formada (Figura 1.1). Como a vida
originou-se e como a primeira célula surgiu são assuntos de especulação, uma vez
que esses eventos não podem ser reproduzidos em laboratório. Contudo, diversos
tipos de experimentos fornecem evidências importantes da direção de algumas eta-
pas do processo.
Foi por volta de 1920 que, pela primeira vez, sugeriu-se que moléculas orgâni-
cas simples, sob as condições que se imagina que existiam na atmosfera da Terra
primitiva, poderiam formar-se e espontaneamente polimerizar-se em macromolécu-
las. Supõe-se que, quando a vida se originou, a atmosfera da Terra tivesse pouco ou
nenhum oxigênio livre e, em vez disso, consistisse principalmente em CO2 e N2 e
quantidades menores de gases como H2, H2S e CO. Semelhante atmosfera fornece
condições redutoras nas quais moléculas orgânicas, dada uma fonte de energia como
TABELA 1.1 Células Procarióticas e Eucarióticas
Característica Procariotos Eucariotos
Núcleo Ausente Presente
Diâmetro de uma célula típica ≅ 1 µm 10-100 µm
Citoesqueleto Ausente Presente
Organelas citoplasmáticas Ausente Presente
Conteúdo de DNA (pares de bases) 1 × 106 a 5 × 106 1,5 × 107 a 5 × 109
Cromossomos Uma única molécula de Múltiplas moléculas de
DNA circular DNA linear
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:344
A CÉLULA / 5
a luz solar ou descargas elétricas, podem ser formadas espontaneamente. A formação
espontânea de moléculas orgânicas foi pela primeira vez demonstrada experimental-
mente na década de 1950, quando Stanley Miller (então um estudante de gradua-
ção) mostrou que a descarga de faíscas elétricas em uma mistura de H2, CH4 e NH3,
na presença de água, levava à formação de uma grande variedade de moléculas
orgânicas, inclusive de vários aminoácidos (Figura 1.2). Embora os experimen-
tos de Miller não tenham repetido precisamente as condições da Terra primitiva,
eles demonstraram claramente a possibilidade da síntese espontânea de molécu-
las orgânicas, fornecendo o material básico a partir do qual se originaram os
primeiros organismos vivos.
A próxima etapa na evolução foi a formação de macromoléculas. Tem sido
demonstrado que, sob as prováveis condições pré-bióticas, os blocos monoméricos
Bilhões de 
anos atrás
4
4,6
3
2
1
0
5
Presente
Organismos multicelulares 
Primeiros eucariotos
Primeiras células
Formação da Terra 
Fotossíntese
Metabolismo oxidativo
Figura 1.1 Escala de tempo da
evolução
A escala indica o tempo aproximado no
qual supõe-se que alguns dos principais
eventos na evolução das células tenham
ocorrido.
Resfria-
mento
Calor
Água
Moléculas 
orgânicas
Alanina
Ácido aspártico
Ácido glutâmico
Glicina
Uréia
Ácido lático
Ácido acético
Ácido fórmico
H2O
H2O
H2H2 CH4
CH4
NH3
NH3
Descarga 
elétrica
Eletrodo
Figura 1.2 Formação espontânea de moléculas orgânicas
O vapor de água circulou através de uma atmosfera composta de CH4, NH3 e H2, dentro da
qual faíscas elétricas foram liberadas. A análise dos produtos da reação revelou a formação de
uma variedade de moléculas orgânicas, incluindo os aminoácidos alanina, ácido aspártico, ácido
glutâmico e glicina.
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:345
6 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
formam, por polimerização espontânea, as macromoléculas. Por exemplo, o aqueci-
mento de misturas secas de aminoácidos resulta na polimerização para formar poli-
peptídeos. Contudo, a característica essencial da macromolécula a partir da qual a
vida evoluiu deve ter sido a capacidade de auto-replicação. Somente uma macromo-
lécula capaz de controlar a síntese de novas cópias de si própria poderia ser capaz de
reprodução e posterior evolução.
Dos dois tipos principais de macromoléculas informativas presentes atualmen-
te (ácidos nucléicos e proteínas), somente os ácidos nucléicos são capazes de contro-
lar sua auto-replicação. Os ácidos nucléicos podem servir de moldes para sua própria
síntese como resultado do pareamento específico de bases entre nucleotídeos com-
plementares (Figura 1.3). A etapa essencial no entendimento da evolução molecular
foi alcançada no início da década de 1980, quando foi descoberto nos laboratórios
de Sid Altman e Tom Cech que o RNA é capaz de catalisar várias reações químicas,
incluindo a polimerização de nucleotídeos. Estudos mais avançados ampliaram as
atividades catalíticas conhecidas do RNA, incluindo a descrição de moléculas de
RNA que controlam a síntese de uma nova fita de RNA a partir de um RNA-molde.
O RNA é, assim, tanto capaz de servir como molde quanto capaz de catalisar sua
própria replicação. Conseqüentemente, em geral é aceito que o RNA tenha sido o
sistema genético inicial, e supõe-se que a fase inicial da evolução química tenha sido
baseada nas moléculas de RNA auto-replicativas – um período da evolução conheci-
do como mundo de RNA. Então, interações ordenadas entre RNA e aminoácidos
evoluíram para o código genético atual, e o DNA finalmente substituiu o RNA
como material genético.
Presume-se que a primeira célula tenha originado-se da inclusão de RNAs auto-
replicativos em uma membrana composta de fosfolipídeos (Figura 1.4). Como dis-
cutido em detalhes no próximo capítulo, os fosfolipídeos são os componentes bási-
cos de todas as membranas biológicas atuais, incluindo as membranas plasmáticas de
células procarióticas e eucarióticas. A característica-chave dos fosfolipídeos que for-
mam as membranas é que eles são moléculas anfipáticas, significando que uma por-
ção da molécula é solúvel em água e a outra porção é insolúvel. Os fosfolipídeos têm
longas caudas de hidrocarbonetos insolúveis em água (hidrofóbica) ligadas a uma
cabeça com grupos fosfato solúvel em água (hidrofílica). Quando colocados na água,
os fosfolipídeos agregam-se espontaneamente em uma bicamada, com suas cabeças
com grupos fosfato na porção exterior em contato com a água e suas caudas de
hidrocarbonetos no interior em contato umas com as outras. Tais bicamadas de fos-
folipídeos formam uma barreira estável entre dois compartimentos aquosos – por
exemplo, separando o interior de uma célula do meio externo.
A inclusão do RNA auto-replicativo e de moléculas associadas em uma mem-
brana de fosfolipídeos poderia tê-los mantido, assim, como uma unidade, capaz de
auto-replicação e posterior evolução. A síntese de proteína controlada por RNA já
A
U
A
A
U
G
C
G
A
G
C
AU
A U
A
U
G C
GC
G C
A
U
G C
G
A
U
C
G
C
U
U
U
C
C
C
AU
A U
A U
U A
G C
GC
G C
A U
G C
GC
AU
A U
A U
U A
G C
GC
G C
A U
G C
GC
U
A
G
C
AU
A U
A U
U A
G C
GC
G C
A U
G C
GC
G
U
G
A
Figura 1.3 Auto-replicação do RNA
O pareamento complementar entre nucleo-
tídeos (adenina [A] com uracil [U] e guani-
na [G] com citosina [C]) permite que uma
fita de RNA sirva como molde para a sínte-
se de uma nova fita com a seqüência com-
plementar.
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:346
A CÉLULA / 7
poderia ter sido desenvolvida neste tempo, no qual a primeira célula poderia ser
constituída de um RNA auto-replicativo e das proteínas por ele codificadas.
A Evolução do Metabolismo
Em razão de as células terem originado-se em um mar de moléculas orgânicas, elas
eram capazes de obter alimento e energia diretamente do ambiente. Todavia, essa
situação é autolimitante, e por isso as células precisaram desenvolver seus próprios
mecanismos para geração de energia e síntese de moléculas necessárias para sua repli-
cação. A geração e a utilização controlada da energia metabólica são essenciais para
todas as atividades celulares, e as principais vias do metabolismo energético (discuti-
do em detalhes no Capítulo 2) são bastante conservadas nas células atuais. Todas as
células usam adenosina 5´-trifosfato (ATP) como fonte de energia metabólica para
controlar a síntese dos constituintes celulares e realizar outras atividades que exigem
energia, como o movimento (por exemplo, contração muscular). Presume-se que o
mecanismo usado pelas células para geração de ATP evoluiu em três etapas, corres-
pondentes à evolução da glicólise, fotossíntese e metabolismo oxidativo (Figura 1.5).
O desenvolvimento dessas vias metabólicas mudou a atmosfera da Terra, dessa forma
alterando o futuro curso da evolução.
Presume-se que na atmosfera anaeróbica da Terra primitiva as primeiras reações
de geração de energia envolviam a quebra de moléculas orgânicas na ausência de
Glicólise
Glicose Ácido lático
C6H12O6 2 C3H6O3 Geração de 2 ATP 
Fotossíntese
Glicose
6 CO2 + 6 H2O
C6H12O6 + 6 O2
C6H12O6 + 6 O2
Metabolismo oxidativo
Glicose
6 CO2 + 6 H2O Geração de 36-38 ATP 
Figura 1.5 Geração do metabolismo
energético
A glicólise é a hidrólise anaeróbica da
glicose para ácido lático. A fotossíntese
utiliza a energia da luz solar para fazer a
síntese de glicose a partir de CO2 e H2O,
com a liberação de O2 como subproduto. O
O2 liberado pela fotossíntese é usado no
metabolismo oxidativo, no qual a glicose é
quebrada em CO2 e H2O, liberando muito
mais energia que a obtida pela glicólise.
RNA
Cauda
hidrofóbica
Cabeça com 
grupo hidrofílico
Molécula de 
fosfolipídeo
Água
Água
Membrana de fosfolipídeo
Figura 1.4 Inclusão do RNA auto-
replicativo em uma membrana de
fosfolipídeos
Supõe-se que a primeira célula tenha sido
criada pela inclusão de RNA auto-replicati-
vo e moléculas associadas em uma membra-
na composta de fosfolipídeos. Cada molécu-
la de fosfolipídeo tem duas longas caudas
hidrofóbicas ligadas a uma cabeça hidrofíli-
ca. As caudas hidrofóbicas estão inseridas na
bicamada lipídica; as cabeças hidrofílicas es-
tão expostas à água em ambos os lados da
membrana.
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:347
8 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
oxigênio. Essas reações eram provavelmente reações semelhantes à glicólise atual – a
quebra anaeróbica da glicose para ácido lático com o ganho energético líquido de
duas moléculas de ATP. Além do uso do ATP como fonte de energia química intra-
celular, todas as células atuais realizam glicólise, o que é compatível com a noção de
que essas reações surgiram muito cedo na evolução.
A glicólise forneceu o mecanismo pelo qual a energia de moléculas orgânicas
pré-formadas (por exemplo, glicose) poderia ser convertida em ATP, o qual podia
então ser usado como fonte de energia para direcionar outras reações metabólicas.
Presume-se que a seguinte etapa evolutiva importante tenha sido o desenvolvimento
da fotossíntese, que permitiuàs células captar energia da luz solar e forneceu a inde-
pendência da utilização de moléculas orgânicas pré-formadas. A primeira bactéria
fotossintética, que surgiu há mais de 3 bilhões de anos, provavelmente utilizava
H2S para converter CO2 em moléculas orgânicas – uma via de fotossíntese ainda
utilizada por algumas bactérias. O uso de H2O como doador de elétrons e hidro-
gênio para a conversão do CO2 em componentes orgânicos evoluiu mais tarde e
teve a importante conseqüência de mudar a atmosfera da Terra. O uso de H2O
nas reações de fotossíntese origina, como produto secundário, o O2 livre; presu-
me-se que esse mecanismo tenha sido o responsável por tornar o O2 abundante
na atmosfera da Terra.
A liberação do O2, como conseqüência da fotossíntese, mudou o ambiente no
qual as células estavam em desenvolvimento, e presume-se que tenha levado ao de-
senvolvimento do metabolismo oxidativo. Alternativamente, o metabolismo oxida-
tivo pode ter evoluído antes da fotossíntese, com o aumento do O2 atmosférico,
fornecendo, então, uma forte vantagem evolutiva para os organismos capazes de usar
O2 nas reações produtoras de energia. Em ambos os casos, o O2 é uma molécula
altamente reativa, e o metabolismo oxidativo, usando esta reatividade, forneceu um
mecanismo para geração de energia a partir de moléculas orgânicas que é muito mais
eficiente que a glicólise anaeróbica. Por exemplo, a hidrólise completa da glicose em
CO2 e H2O rende energia equivalente a 36-38 moléculas de ATP, em contraste com
as 2 moléculas de ATP formadas pela glicólise anaeróbica. Com poucas exceções, as
células atuais usam reações oxidativas como principal fonte de energia.
Procariotos Atuais
Os procariotos atuais, que incluem todos os diversos tipos de bactérias, são divididos
em dois grupos – as arqueobactérias e as eubactérias – que divergiram precocemente
na evolução. Algumas arqueobactérias vivem em ambientes extremos, que atualmen-
te são raros, mas que poderiam ter sido predominantes na Terra primitiva. Por exem-
plo, os termoacidófilos vivem em fontes térmicas sulfurosas com temperaturas tão
altas quanto 80oC e pH tão baixo quanto 2. As eubactérias incluem as formas co-
muns das bactérias atuais – um grande grupo de organismos que vive em uma ampla
variedade de ambientes, incluindo solo, água e outros organismos (por exemplo,
patógenos humanos).
Muitas células bacterianas são esféricas, em forma de bastonete ou espirais,
com diâmetros de 1 a 10 µm. O conteúdo de DNA varia entre 0,6 milhão e 5
milhões de pares de bases, uma quantidade suficiente para codificar aproximada-
mente 5.000 proteínas diferentes. As cianobactérias são os maiores e mais comple-
xos procariotos, bactérias que desenvolveram a fotossíntese.
A estrutura de uma célula procariótica típica é ilustrada pela Escherichia coli
(E. coli), uma bactéria comum, habitante do trato intestinal dos humanos (Figura
1.6). A célula é um bastonete, com aproximadamente 1 µm de diâmetro e 2 µm de
comprimento. Como a maioria dos outros procariotos, a E. coli é circundada por
uma parede celular rígida composta de polissacarídeos e peptídeos. Dentro da
parede celular está a membrana plasmática, que é uma bicamada de fosfolipíde-
os e proteínas associadas. Enquanto a parede celular é porosa e facilmente pene-
trada por uma variedade de moléculas, a membrana plasmática fornece a separa-
Figura 1.6 Micrografia eletrônica de
E. coli
A célula é circundada pela parede celular,
dentro da qual está a membrana plasmática.
O DNA está localizado no nucleóide.
(Menge and Wurtz/Biozentrum, University
of Basel/Science Photo Library/Photo Rese-
archers, Inc.)
Membrana
plasmática
Parede
celular
Nucleóide
0,5 µ m
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:348
A CÉLULA / 9
ção funcional entre o interior da célula e o ambiente externo. O DNA da E. coli é
uma molécula circular única no nucleóide, o qual, em contraste com o núcleo dos
eucariotos, não é circundado por uma membrana que o separa do citoplasma. O
citoplasma contém aproximadamente 30.000 ribossomos (o local da síntese protéi-
ca), que contribuem para sua aparência granular.
Células Eucarióticas
Como as células procarióticas, todas as células eucarióticas são circundadas pela mem-
brana plasmática e contêm ribossomos. Entretanto, as células eucarióticas são muito
mais complexas e apresentam um núcleo, organelas citoplasmáticas e um citoesque-
leto (Figura 1.7). A maior e mais proeminente organela das células eucarióticas é o
núcleo, com um diâmetro de aproximadamente 5 µm. O núcleo contém a informa-
ção genética da célula, que nos eucariotos é organizada como uma molécula de DNA
linear, em vez de circular. O núcleo é o local da replicação do DNA e da síntese do
RNA; a tradução do RNA em proteínas ocorre em ribossomos no citoplasma.
Além do núcleo, as células eucarióticas apresentam no citoplasma uma varieda-
de de organelas circundadas por membranas. Essas organelas formam compartimen-
tos nos quais se localizam as diferentes atividades metabólicas. Em geral, as células
eucarióticas são muito maiores que as células procarióticas, freqüentemente tendo
um volume celular de, no mínimo, mil vezes maior. A compartimentalização causa-
da pelas organelas citoplasmáticas é que permite o funcionamento eficiente das célu-
las eucarióticas. Duas dessas organelas, as mitocôndrias e os cloroplastos, exercem
papel fundamental no metabolismo energético. As mitocôndrias, que são encontra-
das em quase todas as células eucarióticas, são os locais do metabolismo oxidativo e
são responsáveis pela geração da maior parte do ATP derivado da quebra de molécu-
las orgânicas. Os cloroplastos são os locais da fotossíntese e são encontrados somente
nas células de plantas e algas verdes. Os lisossomos e os peroxissomos também for-
necem compartimentos metabólicos especializados para a digestão de macromolécu-
las e várias reações oxidativas, respectivamente. Além disso, a maioria das células
vegetais contém grandes vacúolos que executam uma variedade de funções, incluin-
do a digestão de macromoléculas e a estocagem de produtos de excreção e nutrientes.
Devido ao tamanho e à complexidade das células eucarióticas, o transporte de
proteínas para seus destinos corretos é uma tarefa extremamente complexa. Duas
organelas citoplasmáticas, o retículo endoplasmático e o complexo de Golgi, são
dedicadas especificamente para a organização e o transporte de proteínas destinadas
à secreção, à incorporação à membrana plasmática e à incorporação aos lisossomos.
O retículo endoplasmático é uma extensa rede de membranas intracelulares, esten-
dendo-se a partir da membrana nuclear por todo o citoplasma. Ele funciona não
somente no processamento e transporte de proteínas, mas também na síntese de
lipídeos. As proteínas são transportadas em pequenas vesículas a partir do retículo
endoplasmático para o complexo de Golgi, onde são processadas e organizadas para
o transporte ao destino final. Além do papel no transporte de proteínas, o complexo
de Golgi serve como local da síntese de lipídeos e (em células vegetais) como local de
síntese de alguns polissacarídeos que formam a parede celular.
As células eucarióticas têm outro nível de organização interna: o citoesqueleto,
uma rede de filamentos protéicos que se estende por todo o citoplasma. O citoesque-
leto fornece a estrutura da célula, determinando o formato celular e gerando a orga-
nização do citoplasma. Além disso, o citoesqueleto é responsável pelos movimentos
da célula inteira (por exemplo, a contração das células musculares), pelo transporte
intracelular e pelo posicionamento das organelas e outras estruturas, incluindo o
movimento dos cromossomos durante a divisão celular.
Os eucariotos surgiram há pelo menos 2,7 bilhões de anos, seguindo em 1 a 1,5
bilhão de anos a evolução dos procariotos. Estudos das seqüências de DNA indicam
que as arqueobactérias e eubactérias são tão diferentesentre si quanto são dos euca-
riotos atuais. Portanto, um evento muito precoce na evolução parece ter sido a diver-
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:349
10 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
gência dos três grupos de descendentes a partir de um ancestral comum, originando
as atuais arqueobactérias, as eubactérias e os eucariotos. De forma interessante, mui-
tos genes de arqueobactérias são mais parecidos com os de eucariotos que com os de
eubactérias, indicando que as arqueobactérias e os eucariotos compartilham uma
linha evolutiva em comum e são mais proximamente relacionados um ao outro do
que qualquer um dos dois às eubactérias (Figura 1.8).
Uma etapa crítica na evolução das células eucarióticas foi a aquisição das organelas
subcelulares circundadas por membranas, permitindo o desenvolvimento das caracterís-
ticas complexas dessas células. Supõe-se que as organelas tenham sido adquiridas como o
resultado de uma associação de células procarióticas com eucariotos ancestrais.
A hipótese de que células eucarióticas evoluíram a partir de uma associação de sim-
biose com procariotos – endossimbiose – é bem sustentada pelos estudos de mitocôndri-
as e cloroplastos, os quais supõe-se terem evoluído a partir de bactérias que viviam em
células maiores. Ambos, mitocôndrias e cloroplastos, são similares às bactérias em tama-
nho, e como bactérias, reproduzem-se por divisão binária. E o mais importante, ambos,
mitocôndrias e cloroplastos, contêm seu próprio DNA, o qual codifica alguns dos seus
componentes. Os DNAs de mitocôndrias e cloroplastos são replicados cada vez que a
organela se divide, e os genes que eles codificam são transcritos dentro da organela e
traduzidos no ribossomo da organela. A mitocôndria e o cloroplasto contêm seus pró-
prios sistemas genéticos, que são diferentes do usado no genoma nuclear da célula. Além
disso, o ribossomo e o RNA ribossomal dessas organelas são mais proximamente relacio-
nados com os de bactérias do que com os codificados pelo genoma nuclear dos eucariotos.
Retículo 
endoplasmático
liso
Retículo 
endoplasmático
rugoso
Lisossomo
Célula animal
Mitocôndria
Núcleo
Nucléolo
Membrana plasmática
Complexo de Golgi
Centríolo
Citoesqueleto
Peroxissomo
Ribossomos
Figura 1.7 Estruturas das células
animais e vegetais
Tanto as células animais como as vegetais
são circundadas pela membrana plasmática
e contêm um núcleo, um citoesqueleto e
muitas organelas citoplasmáticas. As células
vegetais são também circundadas pela pare-
de celular e contêm cloroplastos e vacúolos
grandes.
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3410
A CÉLULA / 11
Mitocôndrias
Cloroplastos
ArqueobactériasCianobactérias
Outras
eubactérias Plantas Animais Protistas
Fungos
(leveduras)
Figura 1.8 Evolução das células
As células atuais evoluíram de um ancestral procarioto co-
mum por três linhas de descendência, dando origem às ar-
queobactérias, às eubactérias e aos eucariotos. As mitocôn-
drias e os cloroplastos originaram-se da associação por en-
dossimbiose de bactérias aeróbicas e cianobactérias com o
ancestral dos eucariotos, respectivamente.
Célula vegetal
Retículo 
endoplasmático
liso
Ribossomo
Retículo 
endoplasmático
rugoso 
Núcleo
Nucléolo
Mitocôndria
Vacúolo
Citoesqueleto
Peroxissomo
Cloroplastos
Complexo de Golgi
Membrana plasmática
Parede celular
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3411
12 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
A origem dessas organelas por endossimbiose é amplamente aceita, e supõe-se
que a mitocôndria tenha evoluído de bactérias aeróbicas e o cloroplasto, de bactérias
fotossintéticas, como as cianobactérias. A aquisição de bactérias aeróbicas poderia ter
fornecido a uma célula anaeróbica a capacidade de realizar reações de metabolismo
oxidativo. A aquisição de bactérias fotossintéticas poderia ter fornecido a indepen-
dência nutricional proporcionada pela habilidade de efetuar a fotossíntese. Dessa
maneira, essas associações por endossimbiose foram altamente vantajosas e foram
positivamente selecionadas pela evolução. Ao longo do tempo, a maioria dos genes
originalmente presentes nas bactérias foi, aparentemente, incorporada no genoma
nuclear da célula, e somente poucos componentes da mitocôndria e do cloroplasto
ainda são codificados pelos genomas das organelas.
O Desenvolvimento dos Organismos Multicelulares
Muitos eucariotos são organismos unicelulares que, como as bactérias, consistem em
somente uma única célula capaz de auto-replicação. Os eucariotos mais simples são as
leveduras. As leveduras são mais complexas que as bactérias, porém menores e mais sim-
ples que as células de animais e plantas. Por exemplo, a comumente estudada levedura
Saccharomyces cerevisiae tem aproximadamente 6 µm de diâmetro e seu DNA contém
12 milhões de pares de bases (Figura 1.9). Entretanto, outros eucariotos unicelulares são
células muito mais complexas, algumas contendo tanto DNA quanto as células humanas
(Tabela 1.2). Eles incluem organismos especializados para realizar uma grande variedade
de ações, incluindo a fotossíntese, o movimento e a captura e ingestão, como alimento, de
outros organismos. Por exemplo, a Amoeba proteus é uma célula grande e complexa. Seu
volume é de mais de 100.000 vezes o de uma E. coli e seu comprimento excede 1 mm,
quando a célula está totalmente estendida (Figura 1.10). As amebas são organismos com
alta mobilidade que usam extensões citoplasmáticas, chamadas de pseudópodos, para
mover e para englobar outros organismos, incluindo bactérias e leveduras, como alimen-
tos. Outros organismos eucariotos unicelulares (como algas verdes) contêm cloroplastos e
são capazes de realizar fotossíntese.
Os organismos multicelulares evoluíram a partir de eucariotos unicelulares há,
pelo menos, 1,7 bilhão de anos. Alguns eucariotos unicelulares formam agregados
multicelulares que parecem representar uma transição evolutiva entre células indivi-
duais e organismos multicelulares. Por exemplo, as células de muitas algas (como a
alga verde Volvox) associam-se umas com as outras para formarem colônias multice-
TABELA 1.2 Conteúdo de DNA
das Células
Organismo Conteúdo haplóide
de DNA
(milhões de pares de bases)
Bactérias
Mycoplasma 0,6
E. coli 4,6
Eucariotos unicelulares
Saccharomyces cerevisiae 12
(Levedura)
Dictyostelium discoideum 70
Euglena 3.000
Plantas
Arabidopsis thaliana 125
Zea mays (milho) 5.000
Animais
Caenorhabditis elegans 97
(nematóide)
Drosophila melanogaster 180
(mosca-da-fruta)
Galinha 1.200
“Zebrafish”* 1.700
Camundongo 3.000
Humano 3.000
* N. de R.T. Zebrafish é um peixe usado como
modelo experimental e recebe o nome comum
no Brasil de “paulistinha”. Ver página 19.
Figura 1.9 Micrografia eletrônica de varredura do Saccharomyces cerevisiae
Cor artificial foi adicionada à micrografia. (Andrew Syed/Science Photo Library/Photo Researchers, Inc.)
5 µm
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3412
A CÉLULA / 13
Figura 1.10 Micrografia ótica de
Amoeba proteus
(M.I. Walker/Photo Researchers, Inc.)
0,2 mm
lulares (Figura 1.11), que se supõe terem sido os precursores evolutivos das plantas
atuais. O aumento da especialização celular direcionou a transição de agregados co-
loniais para verdadeiros organismos multicelulares. A contínua especialização celular
e a divisão de tarefas entre as células do organismo levaram à complexidade e diver-
sidade observadas entre os diferentes tipos de células que compõem as plantas e os
animais atuais, incluindo os seres humanos.
As plantas são compostas por uma menor variedade de tipos celulares que os
animais, mas cada tipo diferente de célula vegetal é especializado para realizar uma
função específica necessária para o organismo como um todo (Figura 1.12). As célu-
las das plantas são organizadasem três principais sistemas de tecidos: tecido de sus-
tentação, tecido dérmico e tecido vascular. O tecido de sustentação contém as células
do parênquima, que realizam a maioria das reações metabólicas das plantas, incluin-
do a fotossíntese. O tecido de sustentação também contém dois tipos de células
especializadas (célula do colênquima e célula do esclerênquima), que são caracteriza-
das pelas grossas paredes celulares e fornecem o suporte estrutural para a planta. O
tecido dérmico cobre a superfície da planta e é composto de células epidérmicas,
formando uma camada de proteção e permitindo a absorção de nutrientes. Final-
mente, diversos tipos de células alongadas formam o sistema vascular (o xilema e o
floema), que é responsável pelo transporte de água e nutrientes por toda a planta.
As células encontradas nos animais são consideravelmente mais diversificadas
que as das plantas. O corpo humano, por exemplo, é composto por mais de 200
tipos diferentes de células que geralmente são consideradas os componentes de cinco
tipos principais de tecidos: tecido epitelial, tecido conectivo, sangue, tecido nervoso
Figura 1.11 Colônia de alga verde
Células individuais de Volvox formam colô-
nias, nas quais centenas ou milhares de cé-
lulas estão incorporadas em uma matriz ge-
latinosa. (Cabisco/Visuals Unlimited.)
Figura 1.12 Micrografias óticas de
células representativas de plantas
(A) Células do parênquima, que são respon-
sáveis pela fotossíntese e por outras reações
metabólicas. (B) Células do colênquima,
que são responsáveis pela sustentação e
apresentam paredes celulares espessas. (C)
Células da epiderme na superfície de uma
folha. Poros pequenos (estômatos) são flan-
queados por células especializadas chamadas
de células-vigia. (D) Elementos dos vasos e
traqueídeos são células alongadas que são
organizadas uma de ponta para a outra para
formar os vasos do xilema. (A, Jack M.
Bastsack/Visuals Unlimited; B, A. J. Karpo-
ff/Visuals Unlimited; C, Alfred Owczarzak/
Biological Photo Service; D, Biophoto Associ-
ates/Science Source/Photo Researchers Inc.)
(B)(A)
50 mm
(D)(C)
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3413
14 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
e músculo (Figura 1.13). As células epiteliais formam camadas que cobrem a super-
fície do corpo e recobrem os órgãos internos. Há muitos tipos diferentes de células
epiteliais, cada um especializado para uma função específica, incluindo proteção (a
pele), absorção (por exemplo, as células da mucosa do intestino delgado) e secreção
(por exemplo, as células da glândula salivar). O tecido conectivo inclui ossos, cartila-
gens e tecido adiposo, cada um formado por diferentes tipos de células (respectiva-
mente, osteoblastos, condrócitos e adipócitos). O tecido conectivo frouxo, que intercala
Figura 1.13 Micrografias óticas de
células animais representativas
(A) Células do epitélio da boca (uma grossa
camada multicelular), do ducto biliar e do
intestino. (B) Fibroblastos são células do te-
cido conectivo, caracterizados por sua for-
ma alongada. (C) Eritrócitos, granulócitos,
linfócitos e monócitos no sangue humano.
([A]i e [A]ii, G. W. Willis/Biological Photo
Service; [A]iii, Biophoto Associates/Photo
Researchers, Inc.; B, Don W. Fawcett/Visu-
als Unlimited; C. G. W. Willis/Biological
Photo Service.)
(A)i Boca
Eritrócito
(B)
(A)ii Ducto biliar (A)iii Intestino
(C)
Granulócito
Linfócito Monócito
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3414
A CÉLULA / 15
as camadas epiteliais e preenche os espaços entre órgãos e tecidos do corpo, é forma-
do por outro tipo de célula, o fibroblasto. O sangue contém vários tipos diferentes
de células, que funcionam no transporte do oxigênio (células vermelhas ou eritróci-
tos), nas reações inflamatórias (granulócitos, monócitos e macrófagos) e na resposta
imunológica (linfócitos). O tecido nervoso é composto pelas células nervosas, ou neu-
rônios, que são altamente especializadas para transmitir sinais através do corpo. Vários
tipos de células sensoriais, como as células dos olhos e dos ouvidos, são mais especializa-
dos para receberem sinais externos do ambiente. Finalmente, vários diferentes tipos de
células musculares são responsáveis pela produção da força e do movimento.
Claramente, a evolução dos animais envolveu o desenvolvimento de uma con-
siderável diversidade e especialização no nível celular. A compreensão dos mecanis-
mos de controle do crescimento e de diferenciação em tal grupo complexo de células
especializadas, originadas a partir de um único ovo fertilizado, é um dos principais
desafios que se apresentam à biologia celular e molecular contemporânea.
Células como Modelos Experimentais
A evolução das células atuais a partir de um ancestral comum tem importantes im-
plicações para a biologia celular e molecular como uma ciência experimental. Já que
as propriedades fundamentais de todas as células foram conservadas durante a evolu-
ção, os princípios básicos aprendidos com experimentos feitos com um tipo de célula
são geralmente aplicáveis para outras células. Por outro lado, em razão da diversidade
das células atuais, muitos tipos de experimentos podem ser mais facilmente realiza-
dos em um tipo de célula do que em outro. Vários tipos diferentes de células e
organismos são comumente usados como modelos experimentais para estudar diver-
sos aspectos da biologia celular e molecular. As características de algumas dessas célu-
las que as tornam de particular utilidade como modelos experimentais são discutidas
nas seções seguintes.
E. coli
Em virtude da sua simplicidade relativa, células procarióticas (bactérias) são modelos
ideais para o estudo de diversos aspectos fundamentais da bioquímica e da biologia
molecular. A espécie de bactéria mais amplamente estudada é a E. coli, que tem sido,
há muito tempo, o organismo favorito para pesquisa dos mecanismos básicos da
genética molecular. A maioria dos nossos conceitos atuais de biologia molecular –
incluindo nossa compreensão da replicação do DNA, do código genético, da expres-
são gênica e da síntese protéica – deriva dos estudos com essa modesta bactéria.
A E. coli tem sido especialmente útil para os biólogos moleculares, tanto por
sua relativa simplicidade, como pela facilidade com que pode ser reproduzida e estu-
dada em laboratório. O genoma da E. coli, por exemplo, consiste em aproximada-
mente 4,6 milhões de pares de bases e contém cerca de 4.000 genes. O genoma
humano é quase mil vezes maior (aproximadamente 3 bilhões de pares de bases) e
pensa-se que contenha 30-40.000 genes (ver Tabela 1.2). O pequeno tamanho do
genoma da E. coli (que foi completamente seqüenciado em 1997) fornece óbvia
vantagem para a análise genética.
Experimentos de genética molecular são facilitados pela rápida multiplicação
da E. coli em condições laboratoriais bem definidas. Em condições ótimas de cultu-
ra, a cada 20 minutos a E. coli divide-se. Além disso, uma população clonal de E. coli,
na qual todas as células derivam da multiplicação de uma única célula, pode ser
facilmente isolada como uma colônia crescendo em meio semi-sólido contendo ágar
(Figura 1.14). Uma vez que colônias de bactérias contendo 108 células podem ser
cultivadas em apenas uma noite, a seleção de variantes genéticas de uma cepa de E.
coli – por exemplo, mutantes que são resistentes a um antibiótico como a penicilina – é
fácil e rápida. A facilidade com que esses mutantes podem ser selecionados e analisa-
dos foi essencial para o sucesso dos experimentos que definiram os princípios básicos
da genética molecular, discutidos no Capítulo 3.
Figura 1.14 Colônias de bactérias
Fotografia de colônias de E. coli crescendo
na superfície de um meio contendo ágar.
(A. M. Siegelman/Visuals Unlimited.)
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3415
16 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
A mistura de nutrientes naqual a E. coli divide-se mais rapidamente inclui
glicose, sais e vários compostos orgânicos, como aminoácidos, vitaminas e precurso-
res de ácidos nucléicos. Entretanto, a E. coli também pode crescer em um meio
muito mais simples, contendo somente sais, uma fonte de nitrogênio (como a amô-
nia) e uma fonte de carbono e energia (como a glicose). Nesse meio, a bactéria cresce
um pouco mais lentamente (com o tempo de divisão de aproximadamente 40 minu-
tos), pois ela deve sintetizar todos os seus aminoácidos, nucleotídeos e outros com-
postos orgânicos. A habilidade da E. coli de realizar estas reações de biossíntese em
um meio definido simples tornou-a extremamente útil para a elucidação das vias
bioquímicas envolvidas nestes processos. Assim, o rápido crescimento e as exigências
nutritivas simples da E. coli têm facilitado muito os experimentos fundamentais em
biologia molecular e bioquímica.
Leveduras
Embora as bactérias sejam um inestimável modelo para o estudo de muitas proprie-
dades conservadas das células, elas, obviamente, não podem ser utilizadas para estu-
dar aspectos da estrutura celular e funções que sejam exclusivas dos eucariotos. As
leveduras, os eucariotos mais simples, apresentam diversas vantagens experimentais
semelhantes às da E. coli. Conseqüentemente, as leveduras têm sido um modelo essencial
para estudos de muitos aspectos fundamentais da biologia celular de eucariotos.
O genoma da levedura mais freqüentemente estudada, Saccharomyces cere-
visiae, consiste em 12 milhões de pares de bases de DNA e contém aproximada-
mente 6.000 genes. Apesar do genoma da levedura ser cerca de três vezes maior
do que o da E. coli, ele é muito mais manejável do que o genoma dos eucariotos
mais complexos, como o dos humanos. Mesmo com sua simplicidade, a célula
da levedura apresenta as características típicas das células eucarióticas (Figura
1.15): ela contém o núcleo isolado pela membrana nuclear, seu DNA genômico
é organizado em 16 cromossomos lineares e seu citoplasma contém um citoes-
queleto e organelas subcelulares.
As leveduras podem ser facilmente cultivadas em laboratório e podem ser estu-
dadas por muitas das técnicas de genética molecular que são utilizadas com a E. coli.
Apesar das leveduras não se replicarem tão rapidamente quanto as bactérias, elas
dividem-se freqüentemente, a cada 2 horas, e podem ser facilmente cultivadas em
colônias a partir de células isoladas. Conseqüentemente, as leveduras podem ser uti-
lizadas para uma variedade de manipulações genéticas semelhantes àquelas que po-
dem ser feitas com bactérias.
Essas características têm feito da célula de levedura a célula eucarionte mais
abordável pelo ponto de vista da biologia molecular. Leveduras mutantes têm sido
importantes para o entendimento de muitos processos fundamentais em eucariotos,
incluindo a replicação do DNA, a transcrição, o processamento do RNA, a organiza-
ção protéica e a regulação da divisão celular, que serão discutidos nos capítulos se-
guintes. A unidade da biologia celular e molecular tem ficado mais clara pelo fato de
que os princípios gerais da estrutura e função celular, que têm sido revelados pelos
estudos das leveduras, aplicam-se a todas as células eucarióticas.
Dictyostelium discoideum
O Dictyostelium discoideum é um fungo aquático que, como as leveduras, é um
eucarionte unicelular relativamente simples. O genoma do Dictyostelium é aproxi-
madamente dez vezes maior que o da E. coli – mais complexo que o genoma das
leveduras, porém consideravelmente mais simples que o genoma dos eucariotos su-
periores. Além disso, o Dictyostelium pode ser facilmente cultivado em laboratório e
é suscetível a uma variedade de manipulações genéticas.
Sob condições de alimentação farta, o Dictyostelium vive como uma ameba
unicelular, alimentando-se de bactérias e leveduras. Ele é uma célula com grande
mobilidade, e essa propriedade tem feito do Dictyostelium um importante modelo
Figura 1.15 Micrografia eletrônica de
Saccharomyces cerevisiae
(David Scharf/Peter Arnold, Inc.)
2 µ m
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3416
A CÉLULA / 17
para estudos dos mecanismos moleculares responsáveis pelo movimento das células
animais (Figura 1.16). Por exemplo, a introdução no Dictyostelium de mutações es-
pecíficas tem revelado o papel de vários genes envolvidos na mobilidade celular.
Uma característica interessante adicional do Dictyostelium é a habilidade de
células isoladas agregarem-se em estruturas multicelulares. Se um suplemento ade-
quado de alimento não é fornecido, as células associam-se para formar uma estrutura
vermiforme chamada de lesma, cada uma contendo até 100.000 células que funcio-
nam como um indivíduo. Por esse motivo o Dictyostelium parece estar no limite
entre organismos unicelulares e multicelulares, e fornece um importante modelo
para estudos de sinalização celular e interação célula-célula.
Caenorhabditis elegans
Os eucariotos unicelulares Saccharomyces e Dictyostelium são importantes modelos
para estudos de células eucarióticas, mas a compreensão do desenvolvimento de or-
ganismos multicelulares requer a análise experimental de plantas e animais, organis-
mos que são muito mais complexos. O nematóide Caenorhabditis elegans (Figura
1.17) possui várias características importantes que o transformam em um dos mode-
los mais usados para estudos de desenvolvimento e diferenciação celular dos animais.
Embora o genoma do C. elegans (aproximadamente 100 milhões de pares de
bases) seja maior que o dos eucariotos unicelulares, ele é mais simples e mais mani-
pulável que o genoma da maioria dos animais. A seqüência completa já foi determi-
nada, revelando que o genoma do C. elegans contém aproximadamente 19.000 genes
– quase três vezes o número de genes das leveduras, e a metade do número de genes
dos humanos. Biologicamente, o C. elegans é um organismo multicelular relativa-
mente simples: os vermes adultos são compostos de somente 959 células somáticas e
1.000 a 2.000 células germinativas. Além disso, o C. elegans pode ser facilmente
cultivado e submetido a manipulações genéticas em laboratório.
A simplicidade do C. elegans tem permitido que o curso do seu desenvolvimen-
to seja observado em detalhes por observação microscópica. Essas análises definiram
a origem embrionária e a linhagem de todas as células de um verme adulto. Estudos
genéticos também têm identificado várias das mutações responsáveis por anormali-
dades do desenvolvimento, permitindo o isolamento e a caracterização de genes es-
senciais que controlam o desenvolvimento e a diferenciação do nematóide. De gran-
de importância, genes similares também têm sido encontrados em animais comple-
xos (incluindo humanos), fazendo do C. elegans um importante modelo para estudos
do desenvolvimento animal.
Drosophila melanogaster
Como o C. elegans, a mosca-da-fruta Drosophila melanogaster (Figura 1.18) tem sido um
organismo-modelo essencial em biologia do desenvolvimento. O genoma da Drosophila
é de tamanho similar ao do C. elegans, embora o genoma da Drosophila contenha apenas
Intestino
OvosFaringe Reto Ânus
Ovário
Vulva
1 mm
Figura 1.16 Dictyostelium discoideum
Estas fotografias mostram o movimento de
duas amebas durante o tempo de 40 segun-
dos. (Cortesia de David Knecht, University
of Connecticut.)
Figura 1.17 Caenorhabditis elegans
(De J. E. Sulston e H. R. Horvitz, 1977.
Dev. Biol. 56:110.)
10 µm
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3417
18 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
cerca de 14.000 genes. Além disso, a Drosophila pode ser facilmente mantida e reprodu-
zida em laboratório, e o seu curto ciclo reprodutivo (aproximadamente 2 semanas) a
transformou em um organismo extremamente útil para experimentos genéticos. Muitos
conceitos fundamentais da genética – como a relação entre genes e cromossomos – foram
derivados de estudos com Drosophila no iníciodo século XX (ver Capítulo 3).
Extensas análises genéticas da Drosophila têm revelado muitos genes que con-
trolam o desenvolvimento e a diferenciação, e os atuais métodos de biologia molecu-
lar têm permitido que as funções desses genes sejam analisadas em detalhes. Conse-
qüentemente, os estudos em Drosophila têm levado a surpreendentes avanços na
compreensão dos mecanismos moleculares que controlam o desenvolvimento ani-
mal, particularmente com respeito à formação do plano do corpo de organismos
multicelulares complexos. Como com o C. elegans, existem genes e mecanismos si-
milares em vertebrados, validando o uso da Drosophila como um importante modelo
experimental na biologia do desenvolvimento contemporânea.
Arabidopsis thaliana
O estudo da biologia molecular e do desenvolvimento em plantas é uma área ativa e
em expansão de considerável importância econômica, bem como de interesse inte-
lectual. Uma vez que os genomas de plantas apresentam uma complexidade compa-
rável com a dos genomas dos animais (ver Tabela 1.2), um modelo ideal para estudos
com plantas deveria ser um organismo relativamente simples com algumas das carac-
terísticas vantajosas do C. elegans e da Drosophila. A pequena planta com flor Arabi-
dopsis thaliana (Figura 1.19) atende a esse critério, sendo amplamente usada como
um modelo para o estudo da biologia molecular das plantas.
A Arabidopsis é notável pelo seu genoma de somente cerca de 120 milhões de
pares de bases, que contém aproximadamente 15.000 genes diferentes – uma com-
plexidade semelhante à do C. elegans e da Drosophila. Além disso, a Arabidopsis é
relativamente fácil de ser cultivada em laboratório, e métodos para manipulações
genéticas moleculares dessa planta já foram desenvolvidos. Esses estudos têm permi-
tido a identificação dos genes envolvidos em vários aspectos do desenvolvimento em
plantas, como o desenvolvimento das flores. A análise desses genes aponta para mui-
tas similaridades, mas também diferenças notáveis, entre os mecanismos que contro-
lam o desenvolvimento das plantas e dos animais.
Vertebrados
Os animais mais complexos são os vertebrados, incluindo o homem e outros mamíferos.
O genoma humano tem aproximadamente 3 bilhões de pares de bases – cerca de 30 vezes
maior que o genoma do C. elegans, da Drosophila e da Arabidopsis – e contém 30-40.000
genes. Além disso, o corpo humano é composto de mais de 200 diferentes tipos de células
especializadas. Essa complexidade torna difícil estudar os vertebrados pela perspectiva da
biologia celular e molecular, mas muito do interesse das ciências biológicas origina-se do
desejo da compreensão do organismo humano. Além disso, o entendimento de muitas
questões de importância prática imediata (por exemplo, na medicina) deve ser baseado
diretamente em estudos sobre tipos celulares humanos (ou proximamente relacionados).
Um importante meio de estudar células humanas e de outros mamíferos é cultivar
células isoladas, de forma que possam ser manipuladas em condições laboratoriais contro-
ladas. O uso de cultura celular tem permitido o estudo de muitos aspectos da biologia
celular de mamíferos, incluindo experimentos que têm elucidado os mecanismos da re-
plicação do DNA, da expressão gênica, da síntese e do processamento protéico e da
divisão celular. Além disso, a habilidade de cultivar células em meios quimicamente defi-
nidos tem permitido o estudo dos mecanismos de sinalização que controlam o cresci-
mento e a diferenciação normal dentro do organismo inteiro.
As propriedades especializadas de algumas células altamente diferenciadas têm
feito delas modelos importantes para estudos de aspectos específicos da biologia ce-
lular. Células musculares, por exemplo, são altamente especializadas para suportar
Figura 1.18 Drosophila melanogaster
(Darwin Dale/Photo Researchers, Inc.)
Figura 1.19 Arabidopsis thaliana
(Jeremy Burgess/Photo Researchers, Inc.)
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3418
A CÉLULA / 19
contração, produzindo força e movimento. Em virtude dessa especialização, as célu-
las musculares são um modelo essencial para o estudo de movimento celular no nível
molecular. Outro exemplo é fornecido pelas células nervosas (neurônios), que são
especializadas para conduzir sinais eletroquímicos a grandes distâncias. Em huma-
nos, os axônios das células nervosas podem ter mais de um metro de comprimento,
e alguns invertebrados, como a lula, têm neurônios gigantes com axônios com mais
de 1 mm de diâmetro em largura. Em razão de suas estruturas e funções altamente
especializadas, esses neurônios gigantes têm sido um modelo importante para estu-
dos sobre o transporte de íons através da membrana plasmática e sobre o papel do
citoesqueleto no transporte das organelas citoplasmáticas.
O sapo Xenopus laevis é um modelo importante para estudos do desenvolvi-
mento inicial dos vertebrados. Os ovos do Xenopus são células extraordinariamente
grandes, com o diâmetro de aproximadamente 1 mm (Figura 1.20). Já que os ovos se
desenvolvem fora do corpo materno, todos os estágios do desenvolvimento a partir do
ovo até o girino podem ser facilmente estudados no laboratório. Além disso, os ovos de
Xenopus podem ser obtidos em grande número, facilitando as análises bio-
químicas. Por causa dessas vantagens técnicas, o Xenopus tem sido ampla-
mente utilizado em estudos da biologia do desenvolvimento e tem propor-
cionado descobertas importantes dos mecanismos moleculares que contro-
lam o desenvolvimento, a diferenciação e a divisão celular em embriões.
O “zebrafish” (paulistinha) (Figura 1.21) possui numerosas vanta-
gens para estudos genéticos do desenvolvimento de vertebrados. Esse
pequeno peixe é facilmente mantido em laboratório e reproduz-se rapi-
damente. Além disso, o embrião desenvolve-se fora da mãe e é transpa-
rente, fazendo com que os estágios iniciais do desenvolvimento possam
ser observados facilmente. Métodos poderosos têm sido desenvolvidos
para facilitar o isolamento de mutações que afetem o desenvolvimento
do “zebrafish”, e vários milhares dessas mutações têm sido identificados.
Por ser um vertebrado de fácil estudo, o “zebrafish” é um promissor pon-
to de conexão para a análise das diferenças entre os humanos e os siste-
mas invertebrados mais simples, como o C. elegans e a Drosophila.
Dentre os mamíferos, o camundongo é o mais adequado para análises
genéticas, que serão facilitadas pela conclusão recente da seqüência genômi-
ca deste organismo. Apesar das dificuldades técnicas em estudar a genética do camundon-
go (comparada, por exemplo, com a genética da levedura ou Drosophila) serem grandes,
muitas mutações que afetam o desenvolvimento do camundongo têm sido identifi-
Figura 1.20 Ovos do sapo Xenopus
laevis
(Cortesia de Michael Danilchik e Kimberly
Ray.)
1 mm
(A)
(B)
Figura 1.21 “Zebrafish”
(A) Um embrião com 24 horas. (B) Um
peixe adulto. (A, cortesia de Charles Kim-
mel, University of Oregon; B, cortesia de S.
Kondo.)
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3419
20 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
cadas. Mais importante, avanços recentes na biologia molecular têm permitido a
produção de camundongos transgênicos, nos quais genes mutantes específicos são
introduzidos nas linhagens germinativas do camundongo, fazendo com que seus
efeitos no desenvolvimento ou em outros aspectos da função celular possam ser estu-
dados no contexto do animal completo. A adequação do camundongo como modelo
para o estudo do desenvolvimento humano é indicada não apenas pelas similarida-
des dos genomas humanos e de camundongo, mas também pelo fato de que mutações
em genes homólogos resultam em defeitos semelhantes no desenvolvimento de ambas as
espécies (Figura 1.22); um defeito de pigmentação fornece excelente exemplo.
Ferramentas da Biologia Celular
Como em todas as ciências experimentais, a pesquisa em biologia celular depende de
técnicas laboratoriaisque possam ser usadas para estudar a estrutura e a função celular.
Avanços muito importantes na compreensão das células têm sucedido diretamente o
desenvolvimento de novas técnicas, que permitiram novos meios de investigação. O exa-
me das metodologias experimentais disponíveis para a biologia celular é essencial para a
compreensão tanto da situação atual como do direcionamento futuro dessa área de avan-
ço rápido da ciência. Algumas das importantes técnicas de uso comum da biologia celular
são descritas nas seções seguintes. Outros métodos experimentais, incluindo os métodos
bioquímicos e de biologia molecular, serão discutidos em capítulos posteriores.
Microscopia Ótica
Já que a maioria das células é muito pequena para ser vista a olho nu, o estudo das células
depende fortemente do uso de microscópios. Na realidade, a descoberta das células resul-
tou do desenvolvimento do microscópio: Robert Hooke inventou o termo “célula” após
suas observações de um pedaço de cortiça com um microscópio ótico simples, em 1665
(Figura 1.23). Usando um microscópio que aumentava os objetos cerca de 300 vezes seu
tamanho real, Antony van Leeuwenhoek, por volta de 1670, foi capaz de observar uma
grande variedade de tipos celulares diferentes, incluindo espermatozóides, glóbulos ver-
melhos e bactérias. A proposta da teoria celular por Matthias Schleiden e Theodor Schwann,
em 1838, pode ser vista como o nascimento da biologia celular contemporânea. Estudos
microscópicos de tecidos de plantas por Schleiden e de tecidos animais por Schwann
Figura 1.22 O camundongo como
modelo para o desenvolvimento do
homem
Uma criança e um camundongo apresen-
tam defeitos de pigmentação semelhantes
como resultado de mutações no gene neces-
sário para a migração normal dos melanóci-
tos (as células responsáveis pela pigmenta-
ção da pele) durante o desenvolvimento do
embrião. (Cortesia de R. A. Fleischman, Ma-
rkey Cancer Center, University of Kentucky.)
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3420
A CÉLULA / 21
levaram às mesmas conclusões: todos os organismos são compostos por células. Pouco
tempo após, foi reconhecido que as células não são formadas de novo, mas originam-se
somente por divisão de células preexistentes. Conseqüentemente, em razão das observa-
ções feitas com o microscópio ótico, a célula foi reconhecida como a unidade fundamen-
tal de todos os organismos vivos.
O microscópio ótico permanece como um instrumento básico dos biólogos celula-
res, com aperfeiçoamentos técnicos permitindo a crescente visualização de detalhes da
estrutura celular. Os microscópios óticos atuais são capazes de ampliar objetos até mil
vezes. Já que a maioria das células tem entre 1 e 100 µm de diâmetro, elas podem ser
observadas por microscopia ótica, como também o podem algumas das organelas subce-
lulares maiores, como núcleo, cloroplastos e mitocôndrias. Entretanto, o microscópio
ótico não é suficientemente poderoso para revelar detalhes finos da estrutura celular, já
que a resolução – a habilidade de um microscópio de distinguir objetos separados por
distâncias pequenas – é mais importante do que a ampliação. Imagens podem ser amplia-
das tanto quanto desejado (por exemplo, por projeção em uma tela grande), mas a ampli-
ação não aumenta o nível dos detalhes que podem ser observados.
O limite da resolução do microscópio ótico é de aproximadamente 0,2 µm;
dois objetos separados por uma distância menor que essa aparecem como uma única
imagem, em vez de serem distinguidos um do outro. Esse limite teórico da microsco-
pia ótica é determinado por dois fatores – o comprimento de onda (λ) da luz visível
e a convergência ótica das lentes microscópicas (abertura numérica, NA) – de acordo
com a seguinte equação:
Resolução = 0,61λ
 NA
O comprimento de onda da luz visível é de 0,4 a 0,7 µm, de modo que o valor de λ
é fixado em aproximadamente 0,5 µm para o microscópio ótico. A abertura numéri-
ca pode ser considerada como o tamanho do cone de luz que entra nas lentes do
microscópio após passar através da amostra (Figura 1.24). Isto é dado pela equação:
NA= η sen α
onde η é o índice de refração do meio através do qual a luz passa entre a amostra e a
lente. O valor de η para o ar é de 1,0, mas pode ser aumentado para um máximo de
Figura 1.23 A estrutura celular da
cortiça
Uma reprodução do desenho de Robert
Hooke de uma fina lâmina de cortiça obser-
vada em um microscópio ótico. As “células”
que Hooke observou eram na verdade so-
mente as paredes celulares remanescentes
das células que já tinham morrido.
Figura 1.24 Abertura numérica
A luz é focalizada na amostra pelas lentes do
condensador e então coletada pelas lentes
da objetiva do microscópio. A abertura nu-
mérica é determinada pelo ângulo do cone de
luz que entra nas lentes da objetiva (α) e pelo
índice de refração do meio (geralmente ar ou
óleo) entre as lentes e a amostra.
Amostraα
Luz 
Lentes do condensador
Lentes da 
objetiva
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3421
22 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
aproximadamente 1,4 pelo uso de uma lente para óleo de imersão, quando a amostra
é vista através de uma gota de óleo. O ângulo α corresponde à metade do compri-
mento do cone de luz recebido pela lente. O valor máximo de α é 90o, sendo seno
α = 1, de modo que o maior valor possível para a abertura numérica é 1,4.
Portanto, o limite teórico para a resolução do microscópio ótico pode ser calcu-
lado como segue:
Resolução = 0,61 x 0,5 = 0,22 µm
 1,4
Microscópios capazes de atingir esse nível de resolução já podiam ser feitos no
fim do século XIX; portanto, aprimoramentos nesse aspecto da microscopia ótica
não devem ser esperados.
Vários tipos diferentes de microscopia ótica são rotineiramente usados para
o estudo de vários aspectos da estrutura celular. O mais simples é a microscopia
de campo claro, no qual a luz passa diretamente através da célula e a capacidade
de distinguir diferentes partes da célula depende do contraste resultante da ab-
sorção da luz visível pelos componentes celulares. Em muitos casos, células são
coradas com corantes que reagem com proteínas e ácidos nucléicos com o obje-
tivo de aumentar o contraste entre as diferentes partes da célula. Antes da colo-
ração, as amostras em geral são tratadas com fixadores (como álcool, ácido acéti-
co ou formaldeído) para estabilizar e preservar suas estruturas. A análise de teci-
dos fixados e corados pela microscopia de campo claro é o método-padrão para a
análise de amostras de tecidos em laboratórios de histologia (Figura 1.25). En-
tretanto, esses procedimentos de coloração matam as células e, portanto, não são
adequados para muitos experimentos, nos quais a observação de células vivas é
desejável.
Sem coloração, a passagem direta da luz não fornece contraste suficiente
para distinguir muitas partes da célula, limitando a utilização da microscopia de
campo claro. Entretanto, variações do microscópio ótico podem ser usadas para
aumentar o contraste entre as ondas de luz que passam através de regiões da
célula de densidades diferentes. Dois dos métodos mais comuns para visualiza-
ção de células vivas são a microscopia de contraste de fase e a microscopia de
contraste de interferência diferencial (Figura 1.26). Ambos os tipos de micros-
copia usam sistemas óticos que convertem variações de densidade ou espessura
Figura 1.25 Micrografia de campo
claro de tecido corado
Secção de um tumor benigno de rim. (G.
W. Willis/Biological Photo Service.)
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3422
A CÉLULA / 23
entre partes diferentes da célula em diferenças no contraste que podem ser vistas
na imagem final. Na microscopia de campo claro, estruturas transparentes (como
o núcleo) têm pouco contraste porque absorvem pouca luz. Entretanto, a luz
tem a velocidade reduzida pela passagem nessas estruturas de tal forma que sua
faseé alterada, comparada à luz que passa através do citoplasma que circunda o
núcleo. A microscopia de contraste de fase e a de contraste de interferência dife-
rencial convertem essas diferenças na fase para diferenças no contraste, desse
modo produzindo melhores imagens de células vivas não-coradas.
O poder do microscópio ótico foi consideravelmente expandido pelo uso
de câmaras digitais e computadores para análise e processamento das imagens.
Os sistemas eletrônicos de análise e processamento de imagens podem melhorar
substancialmente o contraste das imagens obtidas com o microscópio ótico, per-
mitindo a visualização de pequenos objetos que de outro modo não seriam de-
tectados. Por exemplo, a microscopia de contraste de interferência diferencial
intensificada por vídeo permite a visualização do movimento das organelas atra-
vés dos microtúbulos, que são filamentos protéicos do citoesqueleto com um
diâmetro de apenas 0,025 µm (Figura 1.27). Entretanto, esta amplificação não
ultrapassa o limite teórico da resolução do microscópio ótico, de aproximada-
mente 0,2 µm. Então, embora o realce pelo vídeo permita a visualização dos
microtúbulos, eles aparecem como imagens borradas de pelo menos 0,2 µm de
diâmetro e um microtúbulo individual não pode ser distinguido de um feixe de
estruturas adjacentes.
A microscopia ótica tem sido usada no nível de análise molecular por méto-
dos de marcação de moléculas específicas, e assim elas podem ser visualizadas no
interior das células. Genes ou RNA transcritos específicos podem ser detectados
por hibridização com sondas de ácidos nucléicos com seqüências complementa-
res, e proteínas podem ser detectadas pelo uso de anticorpos apropriados (ver
Capítulo 3). Tanto sondas de ácidos nucléicos como anticorpos podem ser mar-
cados com uma variedade de substâncias que permitem sua visualização no mi-
croscópio ótico, tornando possível determinar a localização de moléculas especí-
ficas dentro de células individuais.
A microscopia de fluorescência é um método muito sensível e amplamente
usado para o estudo da distribuição intracelular de moléculas (Figura 1.28). Um
corante fluorescente é usado para marcar a molécula de interesse dentro de células
fixadas ou vivas. O corante fluorescente é uma molécula que absorve luz em um
comprimento de onda e emite luz em um segundo comprimento de onda. Essa
fluorescência é detectada pela iluminação da amostra com luz no comprimento de
onda que excita o corante fluorescente, seguida do uso de filtros adequados para
detectar o comprimento de onda específico que o corante emite. A microscopia de
fluorescência pode ser usada para estudar diferentes moléculas dentro das células.
Uma aplicação freqüente é a marcação direta de anticorpos contra uma proteína
específica com corante fluorescente, fazendo com que a distribuição intracelular da
proteína possa ser determinada.
Um avanço importante e recente na microscopia de fluorescência foi o uso da
proteína fluorescente verde (GFP), do inglês Green Fluorescent Protein, de uma me-
dusa para visualizar proteínas dentro de células vivas. A GFP pode ser fusionada a
2,5 µm
Figura 1.26 Observação microscópica de células vivas
Micrografias de células humanas obtidas com microscopia de (A) campo claro, (B) contraste de fase e (C)
contraste de interferência diferencial. (Cortesia de Mort Abramowitz, Olympus, America, Inc.)
Figura 1.27 Microscopia de contraste de interferência diferencial intensificada por vídeo
O processamento eletrônico de imagem permite a visualização de microtúbulos individuais. (Corte-
sia de E. D. Salmon, University of North Carolina, Chapel Hill.)
50 µm
(A)
(B)
(C)
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3423
24 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
qualquer proteína de interesse, pelo uso de técnicas-padrão de DNA recombinante,
e então a proteína ligada à GFP pode ser introduzida nas células e detectada por
microscopia de fluorescência, sem necessidade de fixar e corar a célula, como seria
preciso para a detecção de proteínas com anticorpos. Devido à sua versatilidade, o
uso de GFP se tornou extremamente difundido em biologia celular e tem sido em-
pregado para acompanhar a localização e os movimentos de uma ampla variedade de
proteínas dentro de células vivas (Figura 1.29).
A microscopia confocal combina a microscopia de fluorescência com a aná-
lise eletrônica de imagens para obter imagens com contraste e detalhes aumenta-
dos. Um pequeno ponto de luz, usualmente emitido por um laser, é focado na
amostra, em uma profundidade específica. A luz fluorescente emitida é coletada
por um detector com uma câmera de vídeo. Entretanto, antes da luz emitida
alcançar o detector, ela deve passar através de uma abertura capilar (chamada de
abertura confocal) precisamente colocada no ponto onde a luz emitida, a partir
da profundidade escolhida na amostra, aproxima-se do foco (Figura 1.30). Con-
seqüentemente, somente a luz emitida a partir do plano de foco é capaz de atin-
gir o detector. Uma varredura da amostra gera uma imagem bidimensional do
Figura 1.28 Microscopia de
fluorescência
(A) A luz passa através de um filtro excita-
tório para selecionar o comprimento de
onda da luz (por exemplo, azul) que excita
o corante fluorescente. Um espelho dicróico
reflete a luz excitada para baixo para atingir
a amostra. A luz fluorescente emitida pela
amostra (por exemplo, verde) passa através
do espelho dicróico e por um segundo filtro
(o filtro barreira) para selecionar o compri-
mento de onda da luz emitida pelo corante.
(B) Microscopia fluorescente de uma célula
de pulmão na qual o DNA é corado em
azul e os microtúbulos no citoplasma são
corados em verde. (Conly S. Rieder/Biolo-
gical Photo Service.)
(A) (B)
Amostra 10 µm
Lentes da objetivaFiltro excitatório
Ocular
Filtro barreira
Espelho dicróico
Luz fluorescente
Figura 1.29 Microscopia de
fluorescência de uma proteína
marcada com GFP
Uma proteína mitocondrial fusionada à
GFP foi introduzida em células humanas
em cultura e visualizada por meio da mi-
croscopia de fluorescência. (Courtesy of BD
Biosciences Clontech.)
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3424
A CÉLULA / 25
plano de foco, uma imagem muito mais precisa que a obtida com a microscopia de
fluorescência padrão (Figura 1.31). Além do mais, uma série de imagens obtidas de
diferentes profundidades pode ser usada para a construção de uma imagem tridi-
mensional da amostra.
A microscopia de excitação multifóton é uma alternativa para a microscopia
confocal que pode ser usada em células vivas. A amostra é iluminada com um com-
primento de onda de luz que, para excitar o corante fluorescente, necessita da absor-
ção simultânea de dois ou mais fótons (Figura 1.32). A probabilidade de dois ou
mais fótons simultaneamente excitarem o corante fluorescente só é significativa no
ponto da amostra acima do qual o feixe do laser é focado, de modo que a fluorescên-
cia só é emitida a partir do plano de foco da luz emitida. Essa excitação altamente
localizada fornece automaticamente uma resolução tridimensional, sem a necessida-
de da passagem da luz emitida através de uma abertura capilar, como na microscopia
confocal. Além do mais, a excitação localizada minimiza os danos à amostra, permi-
tindo imagens tridimensionais de células vivas.
Microscopia Eletrônica
Em razão do limite da resolução do microscópio ótico, a análise de detalhes da estru-
tura celular requer o uso de técnicas microscópicas mais potentes – por exemplo, a
microscopia eletrônica, que foi desenvolvida na década de 1930 e foi usada pela
primeira vez para análise de amostras biológicas por Albert Claude, Keith Porter e
George Palade durante os anos de 1940 e 1950. O microscópio eletrônico pode
Figura 1.31 Micrografia confocal de
células humanas
Microtúbulos e filamentos de actina são co-
rados com corantes fluorescentes vermelho
e verde,respectivamente. (K.G Murti/Vi-
suals Unlimited.)
Detector
Em foco
Amostra
Fora de foco
Luz fora de
foco é impe-
dida de al-
cançar o
detector
Luz 
fluorescente
emitida
Luz em foco
alcança o
detector
Abertura
confocal
Figura 1.30 Microscopia confocal
Um fino feixe de luz é focado na amostra em uma profundidade específica, e a luz fluorescente emi-
tida é coletada por um detector. Antes de atingir o detector, a luz fluorescente emitida pela amostra
passa através de uma abertura confocal colocada no ponto onde a luz emitida a partir da profundi-
dade escolhida da amostra entra em foco. Como resultado, somente a luz emitida no foco da pro-
fundidade escolhida da amostra é detectada.
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3425
26 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
alcançar uma resolução muito maior que a obtida pelo microscópio ótico porque o
comprimento de ondas dos elétrons é menor do que o da luz. O comprimento de
onda dos elétrons em um microscópio eletrônico pode ser tão curto quanto 0,004
nm – cerca de 100.000 vezes menor que o comprimento de onda da luz visível.
Teoricamente, esse comprimento de onda poderia permitir uma resolução de 0,002
nm, mas tal resolução não pode ser obtida na prática, porque a resolução é determi-
nada não somente pelo comprimento de onda, mas também pela abertura numérica
das lentes microscópicas. A abertura numérica é um fator limitante para a microsco-
pia eletrônica porque as propriedades inerentes das lentes eletromagnéticas limitam
seu ângulo de abertura em cerca de 0,5 grau, correspondente a aberturas numéricas
de cerca de 0,01. Então, sob condições ótimas, a capacidade de resolução do micros-
cópio eletrônico é de aproximadamente 0,2 nm. Além do mais, a resolução que pode
ser obtida com amostras biológicas é também limitada pela perda inerente de con-
traste da amostra. Conseqüentemente, para amostras biológicas, o limite prático da
resolução do microscópio eletrônico é de 1 a 2 nm. Embora essa resolução seja muito
menor que a predita simplesmente pelo comprimento de onda dos elétrons, ela represen-
ta um aumento de mais cem vezes na capacidade de resolução do microscópio ótico.
Dois tipos de microscopia eletrônica – transmissão e varredura – são amplamente
utilizados para estudar as células. Em princípio, a microscopia eletrônica de transmissão
é similar à observação de células coradas com o microscópio de campo claro. As amostras
são fixadas e coradas com sais de metais pesados, que fornecem contraste através da dis-
persão de elétrons. Um feixe de elétrons é passado através da amostra e focado para formar
uma imagem em uma tela fluorescente. Elétrons que encontram um íon de metal pesado
quando passam através da amostra são defletidos e não contribuem para a imagem final,
de maneira que áreas coradas da amostra aparecem escuras.
Amostras para serem examinadas por microscopia eletrônica de transmissão
podem ser preparadas por coloração negativa ou positiva. Na coloração positiva, os
tecidos da amostra são cortados em secções finas e corados com sais de metais pesa-
dos (como tetraóxido de ósmio, acetato de urânio e citrato de chumbo) que reagem
com lipídeos, proteínas e ácidos nucléicos. Esses íons de metais pesados ligam-se a
uma variedade de estruturas celulares, que conseqüentemente aparecem escuras na
imagem final (Figura 1.33). Um procedimento alternativo da coloração positiva pode
ser usado também para identificar macromoléculas específicas dentro da célula. Por
exemplo, anticorpos marcados com metais pesados eletrodensos (como partículas de
ouro) são freqüentemente usados para determinar a localização subcelular de proteí-
nas específicas com o microscópio eletrônico. Esse método é similar ao uso de anti-
corpos marcados com corantes fluorescentes na microscopia de fluorescência.
A coloração negativa é útil para a visualização de estruturas biológicas intactas,
como uma bactéria, organelas subcelulares isoladas e macromoléculas (Figura 1.34).
Nesse método, a amostra biológica é depositada sobre um filme de suporte, e um
Excitação de dois fótons Fóton
Amostra
contendo
fluoróforos
Fluoróforo
Fluoróforo
excitado
Pulso de laser
Figura 1.32 Microscopia de excitação
de dois fótons
A absorção simultânea de dois fótons é ne-
cessária para excitar o corante fluorescente.
Isso somente ocorre no ponto da amostra
no qual a luz é focada, de modo que a luz
fluorescente é emitida apenas a partir de
uma profundidade escolhida da amostra.
5 µm
Figura 1.33 Coloração positiva
Micrografia eletrônica de transmissão de
um polimorfonuclear corado positivamen-
te. (Don W. Fawcett/Visuals Unlimited.)
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3426
A CÉLULA / 27
corante de metal pesado é seco ao redor da sua superfície. A amostra não-corada é
coberta por um filme de corante eletrodenso, produzindo uma imagem na qual a
amostra aparece clara contra um fundo escuro corado.
O sombreamento metálico é outra técnica usada para visualizar a superfície de
estruturas subcelulares isoladas ou macromoléculas com o microscópio eletrônico de
transmissão (Figura 1.35). A amostra é coberta com uma fina camada de um metal
vaporizado, como a platina. O metal é borrifado sobre a amostra em um ângulo tal que
as superfícies da amostra em frente da fonte das moléculas de metal vaporizado são mais
cobertas do que as outras. Esse revestimento diferencial cria um efeito de sombra,
dando à amostra uma aparência tridimensional nas micrografias eletrônicas.
A preparação de amostras por criofratura, em combinação com o sombrea-
mento metálico, tem sido particularmente importante nos estudos da estrutura de
membranas. Amostras são congeladas em nitrogênio líquido (a -196ºC) e então que-
bradas com uma lâmina não-cortante. Freqüentemente, esse processo divide a bica-
mada de lipídeos, revelando a face interior da membrana celular (Figura 1.36). A
amostra é então recoberta com platina, e o material biológico é dissolvido com áci-
do, produzindo uma réplica metálica da superfície da amostra. O exame dessas répli-
cas no microscópio eletrônico revela muitas alterações na superfície, corresponden-
do às proteínas que atravessam a bicamada de lipídeos. Uma variação da criofratura
é chamada de esboço por congelamento, que permite, além das faces internas, a
visualização das superfícies externas das membranas celulares.
O segundo tipo de microscopia eletrônica, a microscopia eletrônica de varredura,
é usado para dar uma imagem tridimensional das células (Figura 1.37). Na microscopia
eletrônica de varredura, o feixe de elétrons não passa através da amostra. Em vez disso, a
Figura 1.34 Coloração negativa
Micrografia eletrônica de transmissão de fi-
lamentos de actina corados negativamente.
(Cortesia de Roger Craig, University of
Massachusetts Medical Center.)
Figura 1.35 Sombreamento metálico
Micrografia eletrônica de filamentos de ac-
tina/miosina do citoesqueleto preparados
por sombreamento metálico. (Don W. Fa-
wcett, J. Heuser/Photo Researchers, Inc.)
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3427
28 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
Fosfolipídeos
Proteínas
(A) (B)
superfície da célula é coberta com um metal pesado, e um feixe de elétrons é usado para
varrer a superfície da amostra. Elétrons que são dispersos ou emitidos a partir da superfí-
cie da amostra são detectados para gerarem uma imagem tridimensional conforme o feixe
de elétrons move-se através da célula. Uma vez que a resolução da microscopia eletrônica
de varredura é de somente 10 nm, seu uso é geralmente restrito ao estudo de células
inteiras em vez de organelas subcelulares ou macromoléculas.
Fracionamento Subcelular
Embora o microscópio eletrônico permita visualização detalhada da estrutura celular, a
microscopia sozinha não é suficiente para definir as funções dos vários componentes de
células eucarióticas. Para respondera muitas das questões concernentes às funções das
organelas subcelulares, tem sido necessário isolar as organelas de células eucarióticas de
modo que possam ser utilizadas para estudos bioquímicos. Isso é geralmente realizado
por centrifugação diferencial – um método desenvolvido primariamente por Albert Clau-
de, Christian de Duve e seus colegas nas décadas de 1940 e 1950 para separar componen-
tes da célula com base em seus tamanhos e densidades.
A primeira etapa no fracionamento subcelular é a ruptura da membrana plas-
mática sob condições em que não ocorra a destruição dos componentes internos da
célula. Diversos métodos são usados, incluindo sonicação (exposição a sons de alta
freqüência), trituração com homogeneizadores mecânicos ou tratamento com mace-
radores de alta velocidade (liquidificadores). Todos esses procedimentos quebram a
membrana plasmática e o retículo endoplasmático em pequenos fragmentos, en-
quanto deixam intactos outros componentes da célula (como núcleo, lisossomos,
peroxissomos, mitocôndrias e cloroplastos).
A suspensão de células rompidas (chamada de lisado ou homogenato) é então
fracionada em seus componentes por uma série de centrifugações em uma ultracen-
trífuga, que roda amostras em velocidades muito grandes (acima de 100.000 rpm)
para produzir forças até 500.000 vezes maiores que a gravidade. Essa força leva os
componentes celulares a moverem-se em direção ao fundo do tubo da centrífuga e
formarem um sedimento (um processo chamado de sedimentação) em uma veloci-
dade que depende do seu tamanho e densidade, com as estruturas maiores e mais
pesadas sedimentando-se mais rapidamente (Figura 1.38). Geralmente, o homoge-
5 µm
Figura 1.37 Microscopia eletrônica de
varredura
Micrografia eletrônica de varredura de
um macrófago. (David Phillips/Visuals
Unlimited.)
Figura 1.36 Criofratura
(A) A criofratura divide a bicamada de lipídeos,
deixando as proteínas associadas a uma das duas
metades da membrana. (B) Micrografia de mem-
brana plasmática criofragmentada de duas células
adjacentes. Proteínas que atravessam a bicamada
de lipídeos aparecem como partículas dentro das
membranas (seta). (Don W. Fawcett/Photo Rese-
archers, Inc.)
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3428
A CÉLULA / 29
Centrifugar
a 800 × a gravidade
(10 min)
Centrifugar sobrenadante
a 15.000 × a gravidade
(10 min) 
Centrifugar sobrenadante
a 100.000 × a gravidade
(60 min)
Centrifugar sobrenadante
a 200.000 × a gravidade
(3 horas)
Citosol
Ribossomos 
sedimentados
Fragmentos da membrana
plasmática e retículo
endoplasmático
sedimentados
Mitocôndrias, 
lisossomos e 
peroxissomos
sedimentados
Suspensão de
células rompidas contendo
componentes subcelulares,
como lisossomos, peroxissomos
e fragmentos da membrana
Núcleos 
sedimentados
Figura 1.38 Fracionamento subcelular
As células são lisadas e os componentes subcelulares são separa-
dos por uma série de centrifugações com velocidades crescentes.
Após cada centrifugação, as organelas que se sedimentaram no
fundo do tubo são recolhidas. O sobrenadante é novamente
centrifugado em uma velocidade maior para sedimentar as orga-
nelas seguintes em tamanho.
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3429
30 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
nato celular é primeiro centrifugado a uma baixa velocidade, na qual sedimentam
apenas as células não-lisadas e a maior estrutura subcelular – o núcleo. Então, uma
fração enriquecida de núcleos pode ser recuperada do sedimento da centrifugação a
uma baixa velocidade enquanto os outros componentes celulares permanecem no
sobrenadante (a solução remanescente). O sobrenadante é então centrifugado a uma
maior velocidade para sedimentar as mitocôndrias, os cloroplastos, os lisossomos e
os peroxissomos. A recentrifugação do sobrenadante em velocidade ainda mais alta
sedimenta fragmentos da membrana citoplasmática e o retículo endoplasmático. Uma
quarta centrifugação, com velocidade ainda mais alta, sedimenta os ribossomos, dei-
xando somente a porção solúvel do citoplasma (o citosol) no sobrenadante.
As frações obtidas pela centrifugação diferencial correspondem a preparações
enriquecidas, mas ainda não-puras, de organelas. Um grau maior de purificação pode
ser obtido por centrifugação em gradiente de densidade, na qual as organelas são
separadas por sedimentação através de um gradiente de uma substância densa, como
a sacarose. Na centrifugação por velocidade, o material de partida é colocado no
topo do gradiente de sacarose (Figura 1.39). Partículas de diferentes tamanhos sedi-
mentam através do gradiente em taxas diferentes, movendo-se como bandas defini-
das. Após a centrifugação, a coleta das frações individuais do gradiente permite uma
Partículas de sedimentação lenta
Partículas de 
sedimentação lenta
Gradiente 
de sacarose
Partículas de sedimentação rápida
Partículas de 
sedimentação rápida
Centrifugar Partículas de diferentes tamanhos 
sedimentam como bandas definidas.
A amostra é colocada no topo
de um gradiente de sacarose.
Coletar as frações
do gradiente.
Figura 1.39 Centrifugação de velocidade em um gradiente de densidade
A amostra é colocada no topo de um gradiente de sacarose e as partículas de tama-
nhos diferentes sedimentam através do gradiente como bandas definidas. As partícu-
las separadas são coletadas em frações individuais do gradiente, que podem ser obti-
das simplesmente furando o fundo do tubo de centrifugação e coletando-se as gotas.
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3430
A CÉLULA / 31
resolução suficiente para separar organelas de tamanhos semelhantes, como mito-
côndrias, lisossomos e peroxissomos.
A centrifugação de equilíbrio em gradientes de densidade pode ser usada para
separar componentes subcelulares com base nas suas densidades de flutuação, inde-
pendentemente de seu tamanho ou forma. Neste processo, a amostra é centrifugada
em um gradiente contendo alta concentração de sacarose ou cloreto de césio. Em vez
de serem separadas com base na velocidade de sedimentação, as partículas da amos-
tra são centrifugadas até atingirem uma posição de equilíbrio, na qual sua densidade
é igual à da solução de sacarose ou cloreto de césio. Essas centrifugações de equilíbrio
são úteis na separação de diferentes tipos de membranas e são suficientemente sensí-
veis para separar macromoléculas que são marcadas com diferentes isótopos. Um
exemplo clássico, discutido no Capítulo 3, é a análise da replicação do DNA através
da separação de moléculas de DNA contendo isótopos pesados e leves de nitrogênio
(15N e 14N) por centrifugação de equilíbrio em gradiente de cloreto de césio.
Crescimento de Células Animais em Cultura
A habilidade de estudar células depende muito de quão facilmente elas podem ser
cultivadas e manipuladas em laboratório. Apesar do processo ser tecnicamente mais
difícil do que cultivar bactérias ou leveduras, uma grande variedade de células de
animais e plantas pode ser cultivada e manipulada em cultura. Esses sistemas de
cultivo de células in vitro têm permitido que os cientistas estudem o crescimento e a
diferenciação celular, bem como efetuem manipulações genéticas necessárias para a
compreensão da estrutura e função dos genes.
As culturas de células animais são iniciadas pelo isolamento de células a partir
de pedaços de tecidos e, a seguir, as células são adicionadas em placas de cultivo
contendo meio nutritivo. A maioria dos tipos de células animais, como fibroblastos
e células epiteliais, adere-se e cresce na superfície plástica das placas usadas para cul-
tivo de células (Figura 1.40). Embriões e tumores são freqüentemente usados como
material de partida, já que eles contêm células de crescimento rápido. Particular-
mente, fibroblastos de embriões crescem muito bem em cultura e como conseqüên-
cia são um dos tipos mais amplamente estudados de células animais.Entretanto, sob
condições apropriadas, muitos tipos de células especializadas também podem crescer
em cultura, permitindo que suas propriedades diferenciadas possam ser estudadas
em um ambiente experimental controlado. As células-tronco embrionárias são um
exemplo particularmente interessante. Essas células são estabelecidas em cultura a
partir de embriões precoces e mantêm sua capacidade de diferenciar-se em todos os
tipos de células presentes em organismos adultos. Conseqüentemente, as células-
tronco embrionárias desempenham um papel importante no estudo das funções de
muitos genes no desenvolvimento do camundongo, assim como oferecem a possibi-
lidade de contribuir para o tratamento de doenças humanas, fornecendo uma fonte
de tecidos para transplantoterapias.
Os meios de cultura necessários para a propagação de células animais são muito
mais complexos que o meio mínimo suficiente para sustentar o crescimento de bac-
térias e leveduras. Os primeiros estudos de cultura celular utilizavam meios compos-
tos de componentes indefinidos, como plasma, soro e extratos de embrião. Um im-
portante avanço foi feito em 1955, quando Harry Eagle descreveu o primeiro meio
definido que sustentava o crescimento de células animais. Além de sais e glicose, os
meios usados para cultivo de células animais contêm vários aminoácidos e vitaminas,
que as células não podem sintetizar. O meio de crescimento para a maioria das célu-
las animais em cultura também inclui soro, que serve como fonte de fatores de cres-
cimento necessários para estimular a divisão celular. Vários fatores de crescimento
têm sido identificados. Eles servem como reguladores essenciais para o crescimento e
a diferenciação de células em organismos multicelulares, fornecendo sinais pelos quais
células diferentes comunicam-se entre si. Por exemplo, uma importante função
dos fibroblastos da pele no animal intacto é a proliferação quando for necessário
10 µm
Figura 1.40 Células animais em cultura
Micrografia eletrônica de varredura de fi-
broblastos humanos aderidos à superfície de
uma placa de cultura. (David M. Phillips/
Visuals Unlimited.)
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3431
32 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
EXPERIMENTO-CHAVE
Cultura de Células Animais
O Contexto
As primeiras culturas de células envol-
veram o crescimento de células a partir
de fragmentos de tecidos que foram
apoiados em coágulos de plasma – um
sistema de cultura que estava muito dis-
tante do necessário para análises experi-
mentais. No final da década de 1940,
um grande avanço foi o estabelecimen-
to de linhagens celulares que cresciam a
partir de células isoladas aderidas à su-
perfície de placas de cultura. Mas essas
células eram ainda cultivadas em meios
indefinidos que consistiam em uma
combinação variada de soro e extratos
embrionários. Por exemplo, uma linha-
gem de célula de câncer humano am-
plamente usada (chamada de células
HeLa) foi estabelecida inicialmente em
1952 pelo crescimento em um meio
contendo plasma de galinha, extrato de
embrião bovino e soro de cordão umbi-
lical humano. O uso desse meio de cul-
tura complexo e indefinido torna im-
possível a análise das necessidades es-
pecíficas para o crescimento de células
animais. Harry Eagle foi o primeiro a
resolver esse problema, mediante a
realização de uma análise sistemática
dos nutrientes necessários para sus-
tentar o crescimento de células ani-
mais em cultura.
Os Experimentos
Eagle estudou o crescimento de duas li-
nhagens de células estabelecidas: células
HeLa e uma linhagem de fibroblasto de
camundongo chamada de células L. Ele
foi capaz de cultivar essas células em
um meio contendo uma mistura de
sais, carboidratos, aminoácidos e vita-
minas, suplementado com proteínas de
soro. Variando sistematicamente os
componentes desse meio, Eagle foi ca-
paz de determinar os nutrientes especí-
ficos necessários para o crescimento ce-
lular. Além dos sais e da glicose, esses
nutrientes incluem 13 aminoácidos e
várias vitaminas. Também foi necessária
uma pequena quantidade de proteínas
de soro. O meio básico desenvolvido
por Eagle está descrito na tabela anexa,
uma cópia do seu artigo de 1955*.
O Impacto
O meio desenvolvido por Eagle é ain-
da o meio básico usado para cultura
de células animais. Seu uso tem per-
mitido aos cientistas o cultivo de uma
ampla variedade de células sob condi-
ções experimentais definidas, que tem
sido essencial para estudos do cresci-
mento e da diferenciação de células
animais, incluindo a identificação dos
fatores de crescimento presentes no
soro – atualmente sabe-se que inclu-
em polipeptídeos que controlam o
comportamento das células indivi-
duais no animal intacto.
Harry Eagle
Nutrition Needs of Mammalian Cells in Tissue Culture
Harry Eagle
National Institutes of Health, Bethesda, MD
Science, Volume 122, 1955, pages 501-504
Table 4. Basal media for cultivation of the HeLa cell and mouse fibroblast (10 )
L-Amino acids* Vitamins‡
Miscellaneous(mM ) (mM )
Arginine 0.1 Biotin 10-3 Glucose 5mM§
Cystine 0.05 (0.02)† Choline 10-3 Penicillin 0.005%#
Glutamine 2.0 (1.0)|| Folic acid 10-3 Streptomycin 0.005%#
Histidine 0.05 (00.2)† Nicotinamide 10-3 Phenol red 0.0005%#
Isoleucine 0.2 Pantothemic acid 10-3 ________________________
Leucine 0.2 (0.1)† Pyridoxal 10-3
Lysine 0.2 (0.1)† Thiamine 10-3 For studies of cell nutrition
Methionine 0.05 Riboflavin 10-4 Dialyzed horse serum, 1%†
Phenylalanine 0.1 (0.05)† ____________________ Dialyzed human serum, 5%
Threonine 0.2 (0.1)† Salts§ ________________________
Tryptophan 0.02 (0.01)† (mM ) For stock cultures
Tyrosine 0.1 ____________________ Whole horse serum, 5%†
Valine 0.2 (0.1)† NaCl 100 Whole human serum, 10%
KCl 5
NaH2PO4 . H2O 1
NaHCO3 20
CaCl2 1
MgCl2 0.5
* Conveniently stored in the refrigerator as a single stock solution containing 20 times the indicated concentration of
each amino acid.
† For mouse fibroblast.
‡ Conveniently stored as a single stock solution containing 100 or 1000 times the indicated concentration of each vitamin;
kept frozen.
§ Conveniently stored in the refrigerator in two stock solutions, one containing NaCl, KCl, NaH2PO4, NaHCO3, and glucose
at 10 times the indicated concentration of each, and the second containing CaCl2 and MgCl2 at 20 times the indicated
concentration.
|| Conveniently stored as a 100mM stock solution; frozen when not in use.
# Conveniently stored as a single stock solution containing 100 times the indicated concentrations of penicillin, streptomycin,
and phenol red.
*N. de T. Esta tabela foi mantida em inglês em função de seu valor histórico.
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3432
A CÉLULA / 33
reparar danos resultantes de um corte ou ferimento. A divisão é induzida por um
fator de crescimento liberado por plaquetas durante a coagulação sangüínea, es-
timulando, desse modo, a proliferação de fibroblastos na região próxima ao teci-
do lesado. A identificação de fatores de crescimento específicos tem tornado pos-
sível a cultura de uma variedade de células em meio sem soro (meio no qual o
soro é substituído por fatores de crescimento específicos necessários para a pro-
liferação das células em questão).
As primeiras culturas celulares estabelecidas a partir de um tecido são chamadas
de culturas primárias (Figura 1.41). As células em uma cultura primária geralmente
crescem até cobrirem a superfície da placa de cultura. Então, elas devem ser removi-
das da placa e colocadas em uma nova placa com menor concentração de células para
formar uma cultura secundária. Este processo pode ser repetido muitas vezes, mas a
maioria das células normais não pode ser crescida em cultura indefinidamente. Por
exemplo, fibroblastos humanos normais geralmente podem ser cultivados por 50 a
100 duplicações da população, após o que eles param de crescer e morrem.Em
contraste, células-tronco embrionárias e células deriva-
das de tumores com freqüência proliferam indefinida-
mente em cultura e são chamadas de linhagens de célu-
las imortalizadas ou permanentes. Além disso, uma va-
riedade de linhagens de células imortalizadas de roedo-
res tem sido isolada a partir de culturas de fibroblastos
normais. Em vez de morrerem, como a maioria das suas
companheiras, algumas poucas células dessas culturas
continuam a proliferar indefinidamente, formando li-
nhagens celulares como as derivadas de tumores. Essas
linhagens de células permanentes têm sido muito úteis
para vários tipos de experimentos porque fornecem uma
fonte contínua e uniforme de células que podem ser
manipuladas, clonadas e indefinidamente propagadas
em laboratório.
Mesmo sob condições ótimas, o tempo de divi-
são das células animais com maior capacidade de cres-
cimento é ao redor de 20 horas – dez vezes maior que
o tempo de divisão das leveduras. Conseqüentemen-
te, experimentos com células animais cultivadas são
mais difíceis e mais demorados que os com bactérias
e leveduras. Por exemplo, o crescimento de uma co-
lônia visível de células animais a partir de uma única
célula demora uma semana ou mais, ao passo que
colônias de E. coli ou leveduras demoram uma noite
para crescerem a partir de uma única célula. Contu-
do, manipulações genéticas de células de animais em
cultura têm sido indispensáveis para a compreensão
da estrutura e função celular.
Cultura de Células Vegetais
Células vegetais também podem ser cultivadas em meios
contendo moléculas reguladoras de crescimento adequa-
das. Em contraste com os fatores de crescimento poli-
peptídicos que regulam a proliferação da maioria das
células animais, os reguladores de crescimento das células vegetais são moléculas
pequenas que podem passar através da parede da célula vegetal. Quando providos de
misturas adequadas dessas moléculas reguladoras do crescimento, muitos tipos de células
vegetais proliferam em cultura, produzindo uma massa de células indiferenciadas, cha-
mada de calo (Figura 1.42). Figura 1.41 Cultura de células animais
Tecido
Suspensão de
células
Meio líquido
Cultura 
primária
Um pedaço de tecido é 
dissociado em uma suspensão
de células individuais.
As células são colocadas
em uma placa de cultura
com meio nutritivo.
As células da cultura primária aderem-se
à placa e crescem até cobrirem a
superfície da placa de cultura.
Cultura
secundária
As células podem ser então removidas 
da placa de cultura e replaqueadas em
uma concentração menor para formar
uma cultura secundária.
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3433
34 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
É notável que muitas células vegetais sejam capazes de
formar qualquer um dos diferentes tipos de células e teci-
dos, essencialmente necessários para regenerar uma planta
inteira. Conseqüentemente, sob apropriadas manipulações
de nutrientes e de moléculas reguladoras de crescimento,
células vegetais indiferenciadas em cultura podem ser indu-
zidas a formar uma variedade de tecidos da planta, incluí-
das raízes, troncos e folhas. Em muitos casos, até uma plan-
ta inteira pode ser regenerada a partir de uma única célula
em cultura. Além do interesse teórico, a capacidade de pro-
duzir uma nova planta a partir de uma única célula que te-
nha sido manipulada em cultura torna fácil a introdução de
alterações genéticas em plantas, fornecendo importantes pos-
sibilidades para a engenharia genética na agricultura.
Vírus
Vírus são parasitas intracelulares que não podem replicar por si próprios. Eles
reproduzem-se pela infecção de uma célula hospedeira e pela usurpação da ma-
quinaria celular para produzir mais partículas virais. Nas formas mais simples, os
vírus são compostos somente do ácido nucléico genômico (ou DNA ou RNA)
circundado por uma capa protéica (Figura 1.43). Os vírus são importantes na
biologia celular e molecular porque fornecem sistemas simples que podem ser
usados para investigar as funções das células. Pelo fato de a replicação viral de-
pender do metabolismo da célula infectada, estudos dos vírus têm revelado mui-
tos aspectos fundamentais da biologia celular. Estudos de vírus que infectam
bactérias contribuíram substancialmente para nossa compreensão acerca dos me-
canismos básicos da genética molecular, e experimentos com vírus de vegetais
(vírus do mosaico do tabaco) foram os primeiros a demonstrarem o potencial
genético do RNA. Vírus de animais têm fornecido sondas especialmente úteis
para a investigação de várias atividades das células eucarióticas.
O crescimento rápido e o genoma de pequeno tamanho tornam as bactérias
excelentes alvos para experimentos na biologia molecular, e os vírus bacterianos (bac-
teriófagos) simplificam ainda mais o estudo da genética bacteriana. Um dos mais
importantes bacteriófagos é o T4, que infecta e replica em E. coli. A infecção com
uma única partícula de T4 leva à formação de aproximadamente 200 partículas vi-
rais filhas em um período de 20 a 30 minutos. A célula inicialmente infectada rompe
(lise), liberando as partículas virais no meio, onde elas podem infectar novas células.
Figura 1.42 Cultura de células vegetais
Uma massa indiferenciada de células vegetais
(um calo) crescendo em um meio sólido.
(John N. A. Lott/Biological Photo Service.)
(B)(A)
50 nm
DNA Proteínas do capsídeo
Figura 1.43 Estrutura de um vírus de
animal
(A) A partícula do papilomavírus contém
uma pequena molécula de DNA circular re-
coberta por uma capa protéica (o capsídeo).
(B) Micrografia eletrônica de partículas de
papilomavírus humano. Foi adicionada colo-
ração artificial. (B, Linda Stannard/Science
Photo Library/Photo Researchers, Inc.)
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3434
A CÉLULA / 35
MEDICINA MOLECULAR
Vírus e Câncer
A Doença
O câncer é um grupo de doenças ca-
racterizado pela proliferação descon-
trolada de células. O crescimento de
células animais normais é cuidadosa-
mente regulado para atingir as neces-
sidades de um organismo completo.
Em contraste, as células cancerosas
crescem de um modo não-regulado,
acabando por invadir e interferir
com a função de tecidos e órgãos
normais. O câncer é a segunda das
causas mais comuns de morte (após
as doenças cardíacas) nos Estados
Unidos. Aproximadamente um em
cada três norte-americanos desenvol-
verá câncer em algum momento de
sua vida e, apesar dos grandes avanços
no tratamento, aproximadamente um
em cada quatro norte-americanos
morrerá dessa doença. O entendi-
mento das causas do câncer e o desen-
volvimento de métodos mais efetivos
para o seu tratamento representam
um dos principais objetivos da pes-
quisa médica.
Bases Celulares e Moleculares
Sabe-se que o câncer resulta de mu-
tações nos genes que normalmente
controlam a proliferação celular. Os
principais indícios que levaram à
identificação desses genes surgiram
de estudos de vírus que causam cân-
cer em animais, o protótipo dos
quais foi isolado por Peyton Rous
em 1911. Rous descobriu que sarco-
mas (cânceres dos tecidos conjunti-
vos) em galinhas poderiam ser
transmitidos por um vírus, agora
conhecido por vírus do sarcoma de
Rous, ou RSV. Uma vez que o RSV
é um retrovírus com um genoma de
somente 10.000 pares de bases, ele
pode ser alvo de análises molecula-
res com muito mais facilidade que o
genoma complexo das galinhas ou
de células de animais. Finalmente,
esses estudos levaram à identificação
de um gene causador de câncer (on-
cogene) carregado pelo vírus, e à
descoberta de genes relacionados em
células normais de todas as espécies
de vertebrados, inclusive humanos.
Agora, sabe-se que alguns cânceres
humanos são causados por vírus;
outros resultam de mutações em ge-
nes celulares normais semelhantes
ao primeiro oncogene identificado
no RSV.
Prevenção e Tratamento
Os cânceres humanos que são causa-dos por vírus incluem o cervical e ou-
tros cânceres anogenitais (papilomaví-
rus), câncer hepático (vírus das hepa-
tites B e C) e alguns tipos de linfomas
(vírus de Epstein-Barr e vírus linfo-
trópico das células T humanas). Jun-
tos, esses cânceres induzidos por vírus
representam cerca de 20% da inci-
dência mundial de câncer. Em princí-
pio, esses cânceres poderiam ser pre-
venidos por vacinação contra os vírus
responsáveis, e um considerável avan-
ço nessa área foi feito pelo desenvolvi-
mento de uma vacina eficaz contra o
vírus da hepatite B.
Outros cânceres humanos são cau-
sados por mutações em genes de células
normais, a maioria delas ocorrendo du-
rante a vida do indivíduo, em vez de se-
rem herdadas. Estudos em vírus causa-
dores de câncer têm levado à identifica-
ção de muitos dos genes responsáveis
por cânceres não-induzidos por vírus e
à compreensão dos mecanismos mole-
culares responsáveis pelo desenvolvi-
mento de câncer. Os principais esforços
atuais são direcionados para o uso de
tais informações sobre a biologia celular
e molecular dos cânceres no desenvolvi-
mento de novos métodos para o seu
tratamento.
Realmente, a primeira droga re-
sultante de engenharia genética eficaz
no tratamento de um câncer humano
(a droga STI-571, discutida no capí-
tulo 15) foi desenvolvida contra um
gene muito semelhante ao oncogene
do RSV.
Referência
Rous, P. 1911. A sarcoma of the fowl
transmissible by an agent separable
from the tumor cells. J. Exp. Med.
13:397-411.
O tumor transplantável de onde foi isolado o vírus do sarcoma de Rous.
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3435
36 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
Em uma cultura de bactérias crescendo em meio com ágar, a replicação do T4 leva à
formação de uma área clara de células lisadas (uma placa) na camada de bactérias
(Figura 1.44). Justamente pelo fato de as partículas virais infecciosas serem fáceis de
cultivar e testar, mutantes virais – por exemplo, vírus que crescerão em uma cepa de
E. coli, mas não em outra – são facilmente isolados. Assim, o T4 é manipulado muito
mais facilmente que a E. coli para estudos de genética molecular. Além do mais, o
genoma do T4 é 20 vezes menor que o da E. coli – aproximadamente 0,2 milhão de
pares de bases – facilitando ainda mais as análises genéticas. Outros bacteriófagos
têm genomas ainda menores – o mais simples consiste em moléculas de RNA de
somente 3.600 nucleotídeos. Por isso, os vírus bacterianos têm fornecido sistemas
experimentais extremamente práticos para a genética molecular. São basicamente os
estudos desses vírus que têm levado à elucidação de muitos princípios fundamentais
da biologia molecular.
Por causa da grande complexidade do genoma das células animais, os vírus têm
sido mais importantes nos estudos das células animais do que nos estudos das bacté-
rias. Muitos vírus de animais replicam-se e podem ser observados pela formação de
placas em culturas de células, parecido com o que fazem os bacteriófagos. Além do
mais, os genomas dos vírus de animais são similares em complexidade aos dos vírus
bacterianos (variando aproximadamente de 3.000 a 300.000 pares de bases), de modo
que os vírus de animais são mais manipuláveis que suas células hospedeiras.
Existe muita diversidade nos vírus de animais, cada um contendo ou DNA ou
RNA como material genético (Tabela 1.3). A maioria dos vírus com genomas de RNA
replica-se mediante síntese de novas cópias do RNA de seus genomas, a partir de moldes
de RNA nas células infectadas. Contudo, uma família de vírus de animais – os retrovírus
– contém genoma de RNA nas suas partículas virais, mas sintetiza uma cópia de DNA do
seu próprio genoma nas células infectadas. Esses vírus fornecem um bom exemplo da
importância dos vírus como modelos, porque os estudos dos retrovírus foram os primei-
ros a demonstrarem a síntese de DNA a partir de RNA – um modo fundamental de
transferir informações genéticas e que agora se sabe ocorrer em todas as células eucarióti-
cas. Outros exemplos nos quais os vírus de animais forneceram importantes modelos para
investigação de suas células hospedeiras incluem estudos de replicação de DNA, transcri-
ção, processamento do RNA e transporte e secreção de proteínas.
É particularmente notável que infecções de alguns vírus de animais, em vez de
matarem as células hospedeiras, convertem uma célula normal em uma célula cancerosa.
Estudos desses vírus carcinogênicos, primeiramente descritos por Peyton Rous em 1911,
não somente têm fornecido bases para nossa atual compreensão do câncer no nível da
biologia celular e molecular, mas também têm levado à elucidação de muitos mecanismos
moleculares que controlam o crescimento e a diferenciação das células animais.
Figura 1.44 Placas de bacteriófagos
Placas de T4 são visíveis na camada de E.
coli. Cada placa surge pela replicação de
uma única partícula viral. (E.C.S. Chen/Vi-
suals Unlimited.)
TABELA 1.3 Exemplos de Vírus de Animais
Tamanho do genoma (mi-
Família de vírus Membro representativo lhares de pares de bases)
Genoma de RNA
Picornavírus Vírus da poliomielite 7-8
Togavírus Vírus da rubéola 12
Flavivírus Vírus da febre amarela 10
Paramixovírus Vírus do sarampo 16-20
Ortomixovírus Vírus da gripe 14
Retrovírus Vírus da imunodeficiência humana 9
Genoma de DNA
Hepadnavírus Vírus da hepatite B 3,2
Papovavírus Vírus do papiloma humano 5-8
Adenovírus Adenovírus 36
Herpesvírus Vírus herpes simples 120-200
Poxvírus Vírus da varíola 130-280
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3436
A CÉLULA / 37
RESUMO
A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DAS CÉLULAS
A Primeira Célula: Todas as células atuais, tanto procarióticas como eucarióti-
cas, são descendentes de um único antepassado. Supõe-se que a primeira célula
tenha surgido há pelo menos 3,8 bilhões de anos, como resultado da inclusão de
um RNA auto-replicativo em uma membrana de fosfolipídeos.
A Evolução do Metabolismo: As primeiras reações para a geração de energia me-
tabólica foram uma forma de glicólise anaeróbica. A fotossíntese então evoluiu,
seguida pelo metabolismo oxidativo.
Procariotos Atuais: Os procariotos atuais são divididos em dois grupos, as ar-
queobactérias e as eubactérias, que divergiram cedo na evolução.
Células Eucarióticas: As células eucarióticas, que são maiores e mais complexas
que as células procarióticas, contêm um núcleo, organelas citoplasmáticas e um
citoesqueleto. Supõe-se que elas tenham surgido a partir da associação simbióti-
ca de procariotos.
O Desenvolvimento dos Organismos Multicelulares: Os eucariotos mais simples
são organismos unicelulares, como as leveduras e as amebas. Os organismos mul-
ticelulares evoluíram a partir da associação entre eucariotos unicelulares, e a divi-
são das funções levou ao desenvolvimento dos muitos tipos de células especiali-
zadas que formam os animais e vegetais atuais.
CÉLULAS COMO MODELOS EXPERIMENTAIS
E. coli : Em razão da sua simplicidade genética e facilidade de estudo, bactérias
como a E. coli são particularmente úteis para a pesquisa de aspectos fundamen-
tais da bioquímica e biologia molecular.
Leveduras : Sendo as células eucarióticas mais simples, as leveduras são mo-
delos importantes para o estudo de vários aspectos da biologia celular de
eucariotos.
Dictyostelium discoideum: O eucarionte unicelular Dictyostelium discoideum é
amplamente usado para análises experimentais do movimento celular.
Caenorhabditis elegans: O nematóide Caenorhabditis elegans é um organismo
multicelular simples que serve como um modelo importante na biologia do de-
senvolvimento.
Drosophila melanogaster: Em virtude da extensa análise genética, estudos da
mosca-da-fruta Drosophila têm levado a grandes avanços no entendimento do
desenvolvimento animal.
Arabidopsis thaliana: A pequena planta com flor Arabidopsis é amplamente usada
como modelo para estudos da biologia molecular e do desenvolvimentode plantas.
Vertebrados : Muitos tipos de células de vertebrados podem crescer em cultura,
onde podem ser estudados em condições controladas. Tipos de células especiali-
PALAVRAS-CHAVE
células procarióticas, células eu-
carióticas, mundo de RNA, fos-
folipídeos, anfipática, hidrofóbi-
ca, hidrofílica
adenosina 5’-trifosfato (ATP),
glicólise, fotossíntese, metabolis-
mo oxidativo
arqueobactérias, eubactérias, cia-
nobactérias, Escherichia coli (E.
coli), parede celular, membrana
plasmática, ribossomo
núcleo, mitocôndria, cloroplasto,
lisossomo, peroxissomo, vacúolo,
retículo endoplasmático, comple-
xo de Golgi, citoesqueleto, en-
dossimbiose
levedura, Saccharomyces cerevisi-
ae, pseudópodo, célula epitelial,
fibroblasto, eritrócito, granulóci-
to, monócito, macrófago, linfóci-
to, neurônio
Dictyostelium discoideum
Caenorhabditis elegans
Drosophila melanogaster
Arabidopsis thaliana
Xenopus laevis, “zebrafish”, ca-
mundongo transgênico
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3437
38 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
Perguntas
1. Quais são as características fundamen-
tais que todas as células vivas comparti-
lham na terra? Cite pelo menos três.
2. O que os experimentos de Stanley
Miller mostraram sobre a formação de
moléculas orgânicas?
3. Que tipo de macromolécula é capaz
de controlar sua auto-replicação?
4. Por que se pensa que a evolução da
fotossíntese tenha favorecido a evolu-
ção subseqüente do metabolismo oxi-
dativo?
5. Por que a formação de uma mem-
brana plasmática semipermeável ao re-
dor de um grupo de macromoléculas
que se auto-replicam foi um passo tão
importante na origem da vida?
6. Discuta as evidências de que as mito-
côndrias e os cloroplastos se originaram
de bactérias que foram incorporadas
pelo precursor das células eucarióticas.
7. Que resolução pode ser obtida com
um microscópio óptico, se a amostra for
visualizada através de ar, em vez de através
de óleo? Considere que o comprimento
de onda da luz visível é de 0,5 µm.
zadas, como os neurônios e as células musculares, fornecem modelos úteis para
investigar aspectos particulares da biologia celular. O sapo Xenopus e o “zebra-
fish” são modelos importantes para estudos do desenvolvimento inicial dos ver-
tebrados, e o camundongo é uma espécie de mamífero adequada para análises
genéticas.
FERRAMENTAS DA BIOLOGIA CELULAR
Microscopia Ótica: Uma variedade de métodos é usada para visualizar as células
e estruturas subcelulares e para determinar a localização intracelular de molécu-
las específicas pelo uso do microscópio ótico.
Microscopia Eletrônica: A microscopia eletrônica, com uma resolução que é apro-
ximadamente cem vezes maior que a da microscopia ótica, é usada para análise
de detalhes da estrutura celular.
Fracionamento Subcelular: As organelas das células eucarióticas podem ser isola-
das para análises bioquímicas por centrifugação diferencial.
Crescimento de Células Animais em Cultura: A propagação de células animais
em cultura tem permitido estudos dos mecanismos que controlam o crescimento
e a diferenciação celular.
Cultura de Células Vegetais: Células vegetais em cultura podem diferenciar-se
para formar células especializadas e, em alguns casos, podem regenerar plantas
inteiras.
Vírus: Os vírus fornecem um modelo simples para estudos da função celular.
resolução, microscopia de campo
claro, microscopia de contraste
de fase, microscopia de contraste
de interferência diferencial, mi-
croscopia de contraste de inter-
ferência diferencial intensificada
por vídeo, microscopia de fluo-
rescência, proteína verde fluores-
cente (GFP), microscopia confo-
cal, microscopia de excitação
multifóton
microscopia eletrônica de
transmissão, sombreamento
metálico, criofratura, esboço
por congelamento, microscopia
eletrônica de varredura
centrifugação diferencial, ultra-
centrífuga, centrifugação em
gradiente de densidade, centri-
fugação por velocidade, centri-
fugação de equilíbrio
células-tronco embrionárias,
cultura primária, linhagem de
células imortalizadas
calo
bacteriófago, retrovírus
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3438
A CÉLULA / 39
8. Que vantagem o uso da proteína
verde fluorescente (GFP) tem sobre o
uso de anticorpos marcados com fluo-
rescência, no estudo da localização e
do movimento de uma proteína nas
células?
9. Identifique as diferentes característi-
cas das propriedades das organelas que
permitem a separação, em um gradien-
te de sacarose, pela centrifugação por
velocidade e pela centrifugação de equi-
líbrio.
10. As leveduras têm sido usadas como
um modelo para o estudo de muitos
aspectos da biologia das células eucarió-
ticas. Por que elas não são um modelo
apropriado para a análise dos movimen-
tos de células animais?
11. Por que a capacidade de cultivar célu-
las-tronco embrionárias é importante?
12. Qual a diferença entre culturas ce-
lulares primárias e linhagem de células
imortalizadas?
Referências e Leituras Adicionais
A Origem e a Evolução das Células
Andersson, S. G. E., A. Zomorodipour, J. O.
Andersson, T. Sicheritz-Ponten, U. C. M. Al-
smark, R. M. Podowski, A. K. Naslund, A.-
S. Erksson, H. H. Winkler and C. G. Kur-
land. 1998. The genome sequence of Ricket-
tsia prowazekii and the origin of mitochon-
dria. Nature 396: 133-140. [P]
Brocks, J. J., G. A. Logan, R. Buic k and R. E.
Summons. 1999. Archean molecular fossils
and the early rise of eukaryotes. Science 285:
1033-1036. [P]
Bult, C. J. and 39 others. 1996. Complete ge-
nome sequence of the methanogenic Archa-
eon, Methanococcus jannaschii. Science 273:
1058-1073. [P]
Cech, T. R. 1986. A model for the RNA-cat-
alyzed replication of RNA. Proc. Natl. Acad.
Sci. USA 83:4360 4363. [P]
Crick, F. H. C. 1968. The origin of the genetic
code. J. Mol. Biol. 38: 367-379. [P]
Darnell, J. E. and W. E Doolittle.1986. Specu-
lations on the early course of evolution. Proc.
Natl. Acad. Sci. USA 83: 1271-1275. [P]
Doolittle, W. F. 1999. Phylogenetic classificati-
on and the universal tree. Science 284: 2124-
2128. [R]
Gesteland, R. F., T. R. Cech e J. F., Atkins (eds.).
1999. The RNA World. 2nd ed. Plainview,
NY: Cold Spring Harbor Laboratory Press.
Gilbert, W. 1986. The RNA world. Nature
319:618. [R]
Johnston W.K., P.J. Unrau, M.S. Lawrence,
M.E. Glasner and D.P. Bartel. 2001. RNA-
catalysed RNA polymerization: accurate and
general RNA-templated primer extension.
Science 292: 1319–1325. [P]
Joyce, G. F. 1989. RNA evolution and the ori-
gins of life. Nature 338: 217-224. [R]
Knoll, A. H. 1992. The early evolution of euka-
ryotes: A geological perspective. Science 256:
622-627. [R]
Margulis, L.1992. Symbiosis in Cell Evolution.
2nd. ed. New York: W. H. Freeman.
Miller, S. L. 1953. A production of amino acids
under possible primitive earth conditions.
Science 117: 528-529. [P]
Mojzsis, S. J., G. Arrhenius, K. D. McKee-
gan, T. M. Harrison, A. P. Nutman and C.
R. L. Friend. 1996. Evidence for life on
Earth before 3,800 million years ago. Na-
ture 384:55-59. [P]
Orgel, L. E. 1998. The origin of life – a review
of facts and speculations. Trends Biochem. Sci.
23: 491-495. [R]
Pace, N. R.1997. A molecular view of microbi-
al diversity and the biosphere. Science 276:
734-740. [R]
Shixing, Z. and C. Huineng. 1995. Mega-sco-
pic multicellular organisms from the 1700-
million-year-old Tuanshanzi formation in the
Jixian area, north China. Science 270: 620-
622. [P]
Woese C. R., O. Kandler and M. L. Wheelis.
1990. Towards a natural system of organis-
ms: Proposal for the domains Archae, Bacte-
ria, and Eucarya. Proc. Natl. Acad. Sci. USA
87: 4576-4579. [P]
Células como Modelos Experimentais
Adams, M.D., and 194 others. 2000. The ge-
nome sequence of Drosophila melanogaster.
Science 287: 2185–2195. [P].Blattner, F.R., G. Plunkett III., C. A. Bloch, N.
T. Perna, V. Burland, M. Riley, J. Collado-
Vides, J. D. Glasner, C. K. Rode, G. F.
Mayhew, J. Gregor, N. W. Davis, H. A. Ki-
rkpatrick, M. A. Goeden, D. J. Rose, B. Mau
and Y. Shao. 1997. The complete genome
sequence of Escherichia coli K-12. Science
277: 1453 1462. [P]
Botstein, D., S. A. Chervitz and J. M. Cherry.
1997. Yeast as a model organism. Science 277:
1259-1260. [R]
Goffeau, A. and 15 others. 1996. Life with 6000
genes. Science 274: 546-567. [P]
Hamilton, B. A. and W. N. Frankel. 2001. Of
mice and genome sequence. Cell 107:13–
16.[R]
Hogan, B., R. Beddington, F. Costantini and
E. Lacey. 1994. Manipulating the Mouse Em-
bryo. 2nd. ed. Plainview, NY: Cold Spring
Harbor Laboratory Press.
International Human Genome Sequencing
Consortium. 2001. Initial sequencing and
analysis of the human genome. Nature
409:860–921.[P]
Maliga, P., D. F. Klessig, A. R. Cashmore, W.
Gruissem and J. E. Varner (eds.). 1995. Me-
thods in Plant Molecular Biology. Plainview,
NY: Cold Spring Harbor Laboratory Press.
Meyerowitz, E. M. 2002. Plants compared to
development. Science 295: 1482–1485. [R]
Neidhardt, F. C., R. Curtiss III., J. L. In-
graham, E. C. C. Lin, K. B. Low Jr., B.
Magasanik, W. Reznikoff, M. Riley, M.
Schaechter and [H. E. Umbarger (eds.).
1996. Escherichia coli and Salmonella: Ce-
llular and Molecular Biology. 2nd. ed. Wa-
shington, DC: ASM Press.
Sive, H. L., R. M. Grainger and R. M. Harland
(eds.). 1999. Early Development of Xenopus
laevis: A Course Manual. Plainview, NY: Cold
Spring Harbor Laboratory Press.
The Arabidopsis Genome Initiative. 2000. Analy-
sis of the genome sequence of the flowering
plant Arabidopsis thaliana. Nature 408: 796–
815. [P]
The C. elegans Sequencing Consortium. 1998.
Genome sequence of the nematode C. ele-
gans: A platform for investigating biology.
Science 282: 2012-2018 [P]
Thisse, C. and L. I. Zon. 2002. Organogenesis—
heart and blood formation from the zebrafish
point of view. Science 295:457-462. [R]
Venter, J. C. and 273 others. 2001. The sequence
of the human genome. Science 291:1304-
1351. [P]
Ferramentas da Biologia Celular
Bowers, W. E. 1998. Christian de Duve and the
discovery of lysosomes and peroxisomes.
Trends Cell Biol. 8: 330-333 [R]
Cairns, J., G. S. Stent and J. D. Watson (eds.).
1992. Phage and the Origins of Molecular Bi-
ology. Plainview, NY: Cold Spring Harbor
Laboratory Press.
Chalfie, M. 1995. Green fluorescent protein.
Photochem. Photobiol. 62: 651–656. [R]
Claude, A. 1975. The coming of age of the cell.
Science 189: 433-435. [R]
De Duve, C.1975. Exploring cells with a cen-
trifuge. Science 189: 186-194. [R]
Eagle, H. 1955. Nutrition needs of mammalian
cells in tissue culture. Science 235: 442-447.
[P]
Flint, S. J., L. W. Enquist, R. M. Krug, V. R.
Racaniello and A. M. Skalka. 1999. Princi-
ples of Virology: Molecular Biology, Pathoge-
nesis, and Control. Washington, DC: ASM
Press.
Graham, J. and D. Rickwood (ed.). 1997. Sub-
cellular Fractionation: A Practical Approach.
New York: Oxford University Press.
Kam, Z., E. Zamir and B. Geiger. 2001. Pro-
bing molecular processes in live cells by quan-
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3439
40 / GEOFFREY M. COOPER • ROBERT E. HAUSMAN
titative multidimensional microscopy.
Trends Cell Biol. 11: 329–334. [R]
Lacey, A. J. (ed.) 1999. Light Microscopy in
Biology: A Practical Approach. New York:
Oxford University Press.
Palade, G. 1975. Intracellular aspects of the
process of protein synthesis. Science 189:
347-358. [R]
Piston, D. W. 1999. Imaging living cells and
tissues by two-photon excitation microsco-
py. Trends Cell Biol. 9: 66-69 [R]
Porter, K. R., A. Claude and E. F. Fullam. 1945.
A study of tissue culture cells by electron mi-
croscopy. J. Exp. Med. 81: 233 246. [P]
Rous, P. 1911. A sarcoma of the fowl transmis-
sible by an agent separable from the tumor
cells. J. Exp. Med. 13:397411. [P]
Salmon, E. D. 1995. VE-DIC light microscopy
and the discovery of kinesin. Trends Cell Biol.
5:154 158. [R]
Spector, D. L., R. Goldman and L. Leinwand.
1998. Cells: A Laboratory Manual. Plainview,
NY: Cold Spring Harbor Laboratory Press.
Tsien, R. Y. and A Miyawaki. 1998. Seeing the
machinery of live cells. Science 280: 1954-
1955. [R]
01-celula-3ed-cap01.p65 9/7/2007, 13:3440

Mais conteúdos dessa disciplina