A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
36 pág.
Livro Texto   Unidade II

Pré-visualização | Página 4 de 12

Cauquelin (2005) nos diz que há um “estado contemporâneo” para o sistema da arte e que “esse 
sistema não é mais o que prevaleceu até recentemente; ele é o produto de uma alteração de estrutura 
de tal ordem que não se podem mais julgar nem as obras, nem a produção delas de acordo com o 
antigo sistema” (CAUQUELIN, 2005, p. 15). Assim, faz-se necessário compreender primeiro o sistema “do 
passado”, ou seja, o sistema da arte moderna, para então perceber como o sistema atual da arte traz 
reverberações, respostas e novidades, distinguindo-se do anterior.
5.4.1 Regime de consumo ou arte moderna
Segundo Cauquelin (2005), a sociedade moderna formula-se durante a transição de um 
regime industrial para um regime de consumo, em meados do século XIX. Essa sociedade ficou 
70
AR
TV
 -
 R
ev
isã
o:
 C
ar
la
 -
 D
ia
gr
am
aç
ão
: F
ab
io
 -
 2
0/
01
/2
01
6
Unidade II
marcada pelo valor do progresso – científico, tecnológico e social –, pela ideia do trabalho 
que possibilita o acesso à propriedade e pelo aumento da importância da educação e das boas 
maneiras – que garantirá oportunidades num futuro próximo –, desenhando assim o esquema 
produção-distribuição-consumo, que passará a ser o esquema vigente de organização dessa 
sociedade. O seu culminar pode ser explícito no termo criado pelo escritor francês Guy Debord: 
“a sociedade do espetáculo”. 
O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social 
entre pessoas, mediatizada por imagens […] O espetáculo, compreendido 
na sua totalidade, é simultaneamente o resultado e o projeto do modo 
de produção existente. Ele não é um complemento ao mundo real, um 
adereço decorativo. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas 
as suas formas particulares de informação ou propaganda, publicidade 
ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo 
presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente 
da escolha já feita na produção, e no seu corolário — o consumo. A 
forma e o conteúdo do espetáculo são a justificação total das condições 
e dos fins do sistema existente. O espetáculo é também a presença 
permanente desta justificação, enquanto ocupação principal do tempo 
vivido fora da produção moderna. [...] A sociedade que repousa sobre a 
indústria moderna não é fortuitamente ou superficialmente espetacular, 
ela é fundamentalmente espetaculista. No espetáculo da imagem da 
economia reinante, o fim não é nada, o desenvolvimento é tudo. O 
espetáculo não quer chegar a outra coisa senão a si mesmo. [...] Na 
forma do indispensável adorno dos objetos hoje produzidos, na forma 
da exposição geral da racionalidade do sistema, e na forma de setor 
econômico avançado que modela diretamente uma multidão crescente 
de imagens-objetos, o espetáculo é a principal produção da sociedade 
atual (DEBORD, 2010, p. 38-42, grifo do autor).
Há, portanto, uma grande máquina industrial, espetacular, que produz não apenas mercadorias, mas 
também novas formas de consumo e mercado. Até então, na História, não se havia desenvolvido uma 
sociedade estruturada no regime de consumo, por isso sua distinção gera também a sua nomeação.
 Saiba mais
Guy Debord criou o filme A Sociedade do Espetáculo em 1967, feito a 
partir de excertos do livro que leva o mesmo nome. Nele, você poderá ter 
acesso às ideias-chave do autor, apresentadas de maneira resumida.
A SOCIEDADE do espetáculo. Dir. Guy Debord. França, 1974. 90 min.
71
AR
TV
 -
 R
ev
isã
o:
 C
ar
la
 -
 D
ia
gr
am
aç
ão
: F
ab
io
 -
 2
0/
01
/2
01
6
ARTES VISUAIS MODERNISMO E ATUALIDADES
Cauquelin (2005) situa o início da arte moderna por volta dos anos 1860, marcada pela recusa, 
por parte dos artistas, à hegemonia representada pela Academia e pelos salões anuais – o principal 
deles, o Salão de Paris. A Academia era a instituição que legitimava ou deixava de legitimar os artistas, 
concedendo prêmios e gerando encomendas. Essa situação surge a partir do desenvolvimento 
industrial, em que:
O enriquecimento da classe burguesa provoca uma afluência de compradores 
potenciais, ao mesmo tempo que os pintores reivindicam um estatuto menos 
rigidamente centralizador, menos autoritário – liberando-os da imposição do 
Salão de Paris, com seu júri reconhecendo o mérito das obras, ou excluindo 
das paredes pintores que não agradam. Reinvindicação de um sistema mais 
livre, mais maleável, do direito à exposição (CAUQUELIN, 2005, p. 34)
Em resposta, obteve-se a descentralização dos salões; porém, ainda assim, seria necessário 
que de alguma forma as produções artísticas fossem legitimadas diante de um público comprador, 
garantindo-lhes reputação e a venda das obras: criou-se o mercado independente, configurado na 
relação “marchand-crítico”. Portanto, a legitimação permanecia necessária, mas, com o crescente 
aumento da demanda de obras artísticas e com o aumento do número de artistas, fazia-se imperativo 
criar uma alternativa que desse uma resposta ao problema.
 Observação
Marchand é a figura responsável por negociar e vender as obras de 
arte. A figura do “crítico” de arte surge com a tarefa de “acompanhar com 
seus comentários – apresentar, apoiar ou vituperar – determinado artista 
ou determinada exposição”, fabricando a opinião e contribuindo para “a 
construção de uma imagem da arte, do artista, da obra ‘em geral’ – e de 
determinado artista ou grupo de artistas ao qual se ligará especialmente” 
(CAUQUELIN, 2005, p. 37-38). Assim, o crítico fará a vez do júri dos salões, 
promovendo alguns artistas para renegar outros. Como fica o artista nesse 
cenário? “O artista se isola de um sistema que lhe garantia a segurança, 
tornando-se uma figura marginal. Submetido às flutuações do mercado – 
devidas em boa parte à concorrência, ao número crescente de artistas, ele 
se aflige por sua sobrevivência e se coloca na dependência de marchands e 
críticos” (CAUQUELIN, 2005, p. 46).
À espera da legitimação e das novas encomendas vindas do mercado, o artista aparentemente autônomo 
em sua produção vê-se dependente do sistema de consumo. Posicionar-se em grupo permite que ele seja 
mais facilmente consumido do que se permanecer sozinho, uma vez que “um produto único atrai menos 
consumidores do que uma constelação de produtos da mesma marca” (CAUQUELIN, 2005, p. 47). 
Por conta disso, às vezes as singularidades dos artistas eram construídas por meio de biografias 
relatando extravagâncias e excentricidades, reafirmando a ideia do “espetáculo”. Contudo, o sistema 
72
AR
TV
 -
 R
ev
isã
o:
 C
ar
la
 -
 D
ia
gr
am
aç
ão
: F
ab
io
 -
 2
0/
01
/2
01
6
Unidade II
de consumo quer manter o seu ritmo e garantir a continuidade de produção e possibilita que o artista 
permaneça intacto como produtor, afastado de uma ideia de comercialização, para que sua credibilidade 
com o público fique inabalável.
Os consumidores desse sistema de arte distinguem-se entre colecionadores, diletantes e público. Os 
colecionadores são os grandes burgueses e aristocratas esclarecidos, agentes ativos do mercado que costumam 
consumir variedade e qualidade. Por vezes, suas obras – as coleções – acabam tornando-se tesouro público por 
meio de uma doação, fazendo a memória do colecionador permanecer para a posteridade. Os diletantes são 
aqueles que compram por prazer e na intenção de fazer um bom negócio. 
O público é formado pelos observadores passivos, que consomem as obras com o olhar e ajudam 
a disseminá-la por meio de boatos, transformando a imagem do artista e da obra. Porém, esse público 
se recusava a levar a sério as obras de vanguarda. Eles estranhavam a vanguarda – a arte moderna 
– tal como nós estranhamos hoje a arte contemporânea. Eles abordavam a vanguarda, julgando-a e 
olhando-a, com os

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.