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Livro Texto   Unidade II

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– estes últimos sempre 
atentos ao que acontece ao redor do mundo, importando e exportando informação. Assim, a crítica, que 
na arte moderna incorporava o juiz legitimador do circuito, sendo figura única e insubstituível, passa a 
ficar dispersa com o início da atuação dos profissionais da publicidade. 
O crítico começa a desempenhar diversos papéis, como curador, escritor ou expert. Na verdade, 
todas as funções ficam diluídas entre todos os atores, e poderíamos dizer que quase todos nesse sistema 
podem exercer a função de todos. 
Mais uma vez, como fica o papel dos artistas nesse regime? Bem, diversos são os produtores que têm 
os artistas e suas obras como seus objetos. Por isso, Cauquelin (2005) afirma que artistas e obras são 
elementos constitutivos das redes de comunicação, ao mesmo tempo que são os seus produtos. 
Ao vermos uma obra de arte contemporânea, estamos vendo a arte contemporânea no seu conjunto, 
pois ela carrega consigo todo o sistema que a legitima como tal. Por vezes, o artista é valorizado de 
acordo com o reconhecimento que obteve dentro da rede, contabilizando o número de exposições, se 
pertence ao acervo de museus e coleções, se há artigos e catálogos produzidos com sua obra, por fim, 
medindo o seu grau de visibilidade. 
O artista deve estar ao mesmo tempo em toda parte. Esse é o princípio da saturação e nominação 
que o faz ser absorvido pela rede, estar em circulação ao mesmo tempo que se diferencia. O artista passa 
a desempenhar um papel complexo e contraditório, em que:
O artista que entra ou “é posto” na rede é obrigado a aceitar suas 
regras se quiser permanecer nela. Ou seja, renovar-se e individualizar-se 
permanentemente, sob pena de desaparecer dentro do movimento 
perpétuo de nominação que mantém a rede em ondas. Mas essa exigência 
de renovação e de individualização contradiz constantemente outra 
exigência: a da repetição, da redundância. Com efeito, para que sua obra 
sature a rede e seja mostrada em toda parte ao mesmo tempo, é preciso 
que seja reconhecida por um signo de identidade. É preciso, então, que se 
repita. Que faça eco de si mesma. Entre inovação e repetição obrigatória 
instala-se então uma espécie de desgaste, não de seu talento – estamos 
supondo que o artista o tenha –, mas de sua exposição cegante, exaustiva, 
sobre a qual nenhuma exibição ou operação de descoberta pode mais 
ser feita. […] Estratagemas de toda sorte entram então em ação […]. De 
artista ele pode passar a curador de “exposição”, ou seja, produtor dessa 
vez, agente de sua própria publicidade, assegurando assim um bloqueio 
completo (CAUQUELIN, 2005, p. 77-78).
Os consumidores da rede, os destinatários de todas essas informações, são os próprios gestores da 
rede, aqueles produtores do artista e da obra, pois consomem a arte depois de tê-la fabricado. 
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Mais uma vez existe o bloqueio da rede, em que aquele que insere o elemento, criando conexões e 
repercussão, legitima-o e atribui-lhe valor – monetário e artístico –, fazendo-o porque será ele mesmo 
a consumi-lo, comprando e revendendo obras e artistas numa circularidade infinita. 
Já o público, que Cauquelin chama de “cidadãos comuns”, “é convidado ao espetáculo e não 
tem como não aquiescer” (CAUQUELIN, 2005, p. 79). O público não consegue julgar esteticamente 
as obras, mas deve entender que aquilo é arte contemporânea, fato comprovado pelo valor da 
obra e da cotação. 
O lugar de exposição, museu ou galeria, reafirma a dúvida de que o que está exposto é arte. Assim, 
o continente prevalece sobre o conteúdo: são a exposição e o lugar que afirmam “isto é arte”, e não as 
obras. A rede legitima-se, protegendo-se contra qualquer intempérie.
E sobre a realidade de segundo grau e simulação? A arte contemporânea é a sua imagem, corresponde 
ao sistema de comunicação, e não a um dado objetivo. Cauquelin (2005, p. 81) pergunta-nos: “a arte 
continua sendo o que era ‘antes’, ligada a critérios estéticos, ou cedeu lugar a uma realidade que não 
tem mais nada a ver com o gosto, o belo, o gênio, o único, ou o conteúdo crítico?”. Responde: “a 
realidade da arte contemporânea se constrói fora das qualidades da própria obra, na imagem que ela 
suscita dentro dos circuitos de comunicação”.
Assim, aqueles que tentam julgar a arte contemporânea a partir de critérios anteriores, fora 
do sistema de comunicação, veem-se deslocados e sem saber como agir diante dos novos valores. 
Os critérios do passado são “estéticos”, mas a arte contemporânea caracteriza-se pelo “artístico”. 
A autora difere os dois termos, “estético” e “artístico”, em que “estética é o termo que convém 
ao domínio de atividade onde são julgadas as obras, os artistas e os comentários que suscitam” 
(CAUQUELIN, 2005, p. 82). 
Em sua preocupação com o artístico, alguns artistas deixam para o espectador decifrar a mensagem 
contida na obra, tornando-a estética perante os olhos alheios. A obra, na medida que vai sendo decifrada, 
torna-se bonita ou feia pelo julgamento dos espectadores. Sem uma forma definida, o abstrato entra 
como elemento principal das esculturas contemporâneas.
A obra de Felícia Leiner, por exemplo, polonesa radicada no Brasil desde 1927, caracterizou-se 
no início pela representação de figuras. Mais tarde, a escultora aderiu à tendência abstrata em 
suas obras, criando projetos destinados a grandes espaços externos, como a Praça da Sé, na 
capital paulistana. Há uma grande quantidade de esculturas da artista espalhadas nos arredores 
dos jardins externos do auditório de Campos do Jordão, convivendo harmoniosamente com o 
paisagismo realizado ali.
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ARTES VISUAIS MODERNISMO E ATUALIDADES
Figura 33 – Pássaros (1976), monumento de Felícia Leiner. Praça da Sé, São Paulo
A estética insiste em valores ditos “reais”, substanciais ou, ainda, essenciais da arte. Podemos 
comparar essa definição ao estado da arte moderna como imediata, tal como discutimos anteriormente. 
Já “artístico” delimita o campo das atividades da arte contemporânea. Será considerada artística 
qualquer obra que for exibida no campo definido como domínio da “arte”. Portanto, será sempre o 
próprio sistema da arte, por meio do regime de comunicação, a reconhecer aquilo que colocará em 
circulação, nomeando-o ou não de arte.
5.4.3 Marcel Duchamp: um artista no regime de comunicação
Para exemplificar os desencadeamentos da arte contemporânea a partir do regime de comunicação, 
Cauquelin nos apresenta três personalidades da arte como “embreantes”. 
São “figuras singulares, de práticas, de ‘fazeres’, que primeiramente desarmonizam, mas que 
anunciam, de longe, uma nova realidade” (CAUQUELIN, 2005, p. 87). São pessoas que anteveem uma 
nova realidade, um novo estado das coisas. 
A autora aponta Marcel Duchamp, Andy Warhol e Leo Castelli como embreantes do regime de 
comunicação. Partilharemos, por meio da transcrição de alguns trechos, a análise que Cauquelin tece à 
figura de Marcel Duchamp, por considerarmos que representa uma boa síntese daquilo que acabamos 
de ver.
O embreante Marcel Duchamp (1887-1968)
O fenômeno Duchamp tem de interessante o fato de sua influência sobre a arte 
contemporânea crescer à medida que passam os anos. De um lado, o número de trabalhos 
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que lhe são dedicados é cada vez mais importante; de outro, ele é a referência, explícita ou 
não, de numerosos artistas atuais. Por quê? Porque esse artista – que declarava não sê-lo 
– parece expressar o modelo de comportamento singular

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