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Kang e Stahlhoefer   IECLB Globalizacao e Justica Economica  2010 12 05 FINAL titulo novo

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Igreja, Globalização e Justiça Econômica: uma visão brasileira e 
evangélico-luterana 
Thomas Hyeono Kang1 
 Alexander de Bona Stahlhoefer2 
05/12/2010 
1. INTRODUÇÃO 
A globalização impõe muitos desafios à humanidade. A dependência e a interligação cada vez 
maiores entre pessoas e países, causadas pelo progresso tecnológico e pela redução de custos 
de transporte, trazem benefícios, mas também problemas que antes não eram tão 
significativos. As igrejas não estão alheias a esses fenômenos, uma vez que a globalização 
também afeta seus membros no dia-a-dia das comunidades. Além disso, quando esses 
fenômenos atingem negativamente a vida de pessoas, sejam elas cristãs ou não, as igrejas são 
desafiadas a agir, amparadas pela fé em Cristo Jesus e pelas implicações éticas que são trazidas 
por essa fé. 
A globalização econômica é resumidamente o processo de expansão mundial dos mercados. 
Esse fenômeno tem consequências boas e ruins. As rápidas mudanças causadas pela expansão 
dos mercados trazem dificuldades, requerendo respostas também rápidas daquelas pessoas 
que se preocupam com a dignidade humana. Mas também trazem benefícios, que precisam, 
no entanto, atingir a todas as pessoas. No debate sobre a globalização, diversas posições 
entram em conflito. Pessoas que, de forma intransigente, defendem posições pró-mercado 
dirão que a expansão da globalização é sempre benéfica em todos os aspectos. O mercado é 
então tratado quase como uma entidade divina que traz apenas benefícios. Por outro lado, 
os/as anti-globalizantes costumam condenar a expansão global dos mercados, não enxergando 
as potenciais vantagens que essa expansão pode porventura trazer. As duas posições são os 
extremos do espectro político. Que papel a Igreja de Jesus Cristo pode ter nesse debate? 
Nossa proposta é refletir acerca desse tema, chamando atenção para a necessidade do 
desenvolvimento econômico ser centrado nas pessoas. A globalização pode vir a ser benéfica 
para a vida das pessoas, desde que as pessoas tenham poder político ou voz para lutar contra 
as injustiças que podem surgir. Mais do que expansão do PIB per capita, uma concepção de 
desenvolvimento com justiça deve levar em conta as capacitações das pessoas, a qualidade 
dos serviços de saúde e educação fornecidos pelos governos, as liberdades políticas, o 
tratamento dado às pessoas com deficiência, pobres, mulheres, negros, indígenas e outros/as. 
A Igreja deve apontar para Cristo e para o próximo ou a próxima, que são alvos do amor de 
Deus. Assim, a Igreja cumpre seu papel profético na sociedade. 
1.1. O papel da ética 
 
1 Professor substituto do Departamento de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande 
do Sul (UFRGS) e Mestre em Economia pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da Univesidade de São 
Paulo (IPE-USP). Representante da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) na Comissão 
das Igrejas em Assuntos Internacionais (CCIA) do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). 
2 Bacharel em Teologia pela Faculdade Luterana de Teologia (FLT) da Igreja Evangélica de Confissão 
Luterana no Brasil (IECLB) e Missionário da Missão Evangélica União Cristã (MEUC) em Timbó/SC. Ex-
presidente do Conselho Nacional da Juventude Evangélica (CONAJE) da IECLB. 
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A Igreja, que é o Corpo de Cristo, deve se solidarizar com seus membros, mas também com 
toda a Criação de Deus. Embora haja polêmicas em relação ao papel da Igreja em assuntos 
políticos e econômicos, não podemos deixar de considerar o papel que a ética cristã teve, tem 
e pode ter na nossa sociedade – inclusive em assuntos políticos e econômicos. 
Por outro lado, muitos economistas não veem necessidade de considerações éticas no que se 
refere ao mercado, uma vez que, de acordo com eles, o mercado soluciona quase todos os 
problemas existentes. Entretanto, sabemos que sem qualquer tipo de ética, o próprio sistema 
de mercado não teria florescido. Muitas das instituições nasceram da necessidade de garantir 
que as trocas pudessem ser realizadas no mercado: a formação cultural específica que uma 
economia forja supõe necessariamente uma ética, a qual surge porque os próprios agentes 
têm incentivos individuais para desenvolver um sistema de normas que gere confiabilidade 
mútua. Embora possamos dizer que a confiança não é um valor em si, mas um pressuposto da 
mecânica econômica, é um exagero afirmar que apenas dos vícios privados advêm os 
benefícios públicos em um sistema de mercado, como sugeriu a famosa fábula de Mandeville e 
alguns trechos da obra de Adam Smith.3 
A confiança entre as partes de um contrato, por exemplo, foi um aspecto ético muito 
importante para que os mercados pudessem florescer em um ambiente seguro. Embora a 
confiança, como já afirmamos, possa ser entendida como um pressuposto da mecânica 
econômica ao invés de um valor ético dentro de uma economia capitalista, a confiança foi um 
dos fatores que não estava presente durante a última crise econômica. Ou seja, o capitalismo 
necessita de certa ética para que progrida. Mas não precisamos somente de uma ética que 
permita o funcionamento do mercado. Como Igreja, nosso papel é discutirmos uma 
perspectiva ética distinta que leve em consideração as vidas das pessoas no processo e 
acreditamos que a ética cristã tem contribuições a fazer nesse tema. Guiados por nossa fé, 
acreditamos que a ética cristã pode contribuir principalmente no que se refere à participação 
das pessoas mais pobres na economia e às consequências que podem atingi-las no processo de 
geração e distribuição de riqueza. 
O clamor advindo das vítimas do processo de globalização nas últimas décadas, principalmente 
durante a onda daquilo que se chamou de neoliberalismo, não deve ser ignorado. Esse clamor 
pode ser encontrado no documento do AGAPE, que expressa com indignação as injustiças e as 
dores que atingiram a população mais pobre em muitos países durante as últimas décadas. Em 
certas partes do texto, nota-se o emocionado grito pedindo pela mudança de todo o sistema. 
Tais considerações devem ser respeitadas, principalmente por nós, membros de uma igreja 
latino-americana e de compromisso ecumênico, firmemente alicerçada em sua 
confessionalidade. A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil esteve presente nos 
momentos de opressão política e econômica no seu próprio país e também não pode deixar de 
se solidarizar com seus vizinhos latino-americanos, também vítimas de pobreza e opressão. 
Todavia, uma nova terra ainda é um ideal a ser imaginado. Embora o capitalismo tenha 
causado enormes mazelas, o socialismo também não foi bem sucedido, como mostra a história 
do século XX. Esse é um debate polêmico, mas um sistema melhor que o socialismo e o 
 
3 MANDEVILLE, B. (1924) The Fable of the Bees; or private vices, publick benefits (1732), Oxford: Oxford 
University Press; SMITH, A. (1976). An Inquiry Into the Nature and the Causes of the Wealth of Nations 
(1776), Oxford: Oxford University Press. Ver também uma compilação sobre o tema em GIANNETTI, E. 
(2007), Vícios Privados, Benefícios Públicos? A Ética na Riqueza das Nações, São Paulo: Companhia das 
Letras. Smith, embora chamasse atenção para o potencial benéfico do sistema impessoal de mercado, 
não acreditava, como popularmente se diz, que uma economia ou sociedade prescinde de ética. Ver 
SMITH, A. (2010), The Theory of Moral Sentiments (1759). London: Penguin. Agradecemos também às 
contribuições de Valério Schaper neste tema da confiança como pressuposto da mecânica do sistema. 
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capitalismo talvez ainda esteja por vir. Não obstante o que cada um pense acerca de sistemas 
econômicos, a urgência no combate à pobreza e à destituição que afligem milhões de pessoas 
no planeta não pode esperar pelo