Parasitologia - Fernando Zanette
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Parasitologia - Fernando Zanette


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Parasitologia 3ª Fase \u2013 Fernando Netto Zanette \u2013 Med. UFSC 13.2 
 Tricomoníase 
 Conceito 
A tricomoníase se caracteriza como uma doença da via genitourinária 
provocada pelo parasita flagelado denominado Trichomonas vaginalis. Ela se 
enquadra como a doença sexualmente transmissível não viral mais frequente 
do mundo. Embora existam outros dois gêneros de Trichomonas que parasitam o 
ser humano \u2013 T. tenax, presente na cavidade bucal, e T. hominis, habitante do 
trato intestinal -, daremos enfoque apenas ao T. vaginalis, pelo fato dos outros 
dois não apresentarem patogenia sobre o homem. 
 Morfologia 
O Trichomonas vaginalis se apresenta como trofozoíta \u2013 única forma 
evolutiva existente, assim como em todos os tricomonadídeos \u2013 polimorfo, já que não possui, sob a membrana, 
estruturas de sustentação que o tornem rígido. O protozoário se apresenta, 
usualmente, elipsoide, piriforme ou oval. Ele possui bastante plasticidade, tendo 
a capacidade de formar pseudópodes, os quais são utilizados para capturar 
nutrientes e se fixar em partículas sólidas. Lembrando que não há forma cística. 
Essa espécie apresenta inúmeras estruturas que compõem o seu arcabouço: 
 Quatro flagelos anteriores livres - desiguais em tamanho -, 
membrana ondulante e a costa, que se originam de uma depressão no polo 
anterior chamada de complexo granular basal anterior (complexo citossomal ou 
blefaroplasto). A extremidade posterior da costa se mostra usualmente encoberta 
pelo segmento terminal da membrana ondulante. 
 Flagelo recorrente, fixado à margem livre da 
membrana ondulante. Esse flagelo fica voltado para trás, não 
chegando, no entanto, à extremidade posterior, e se estendendo 
somente ao longo dos dois terços anteriores do parasita; 
 Axóstilo, uma estrutura rígida e hialina que se proje-
ta através do centro do parasita, emergindo na extremidade posterior. 
O axóstilo se conecta anteriormente a uma pequena estrutura em 
forma de crescente, a pelta. 
 Aparelho parabasal associado a dois filamentos 
parabasais, ao longo dos quais se dispõe o golgiossomo; 
 Núcleo elipsoide próximo à extremidade anterior; 
 Retículo endoplasmático ao redor da membrana 
nuclear; 
 Ausência de mitocôndrias, apresentando, no entanto, 
 Classificação científica 
Filo Sarcomastigophora 
Classe Zoomastigophora 
Ordem Trichomonadida 
Família Trichomonadidae 
Subfamília Trichomonadinae 
Gênero Trichomonas 
Espécie T. vaginalis 
Trofozoítos de T. vaginalis 
Ilustração morfológica do T. vaginalis 
hidrogenossomos paraxostilares e paracostais; 
 Ciclo biológico 
O T. vaginalis localiza-se no trato genital feminino e na uretra e próstata do trato genital masculino, onde se 
replica por divisão binária longitudinal e produz a infecção. Por não apresentar forma cística, mostra-se incapaz 
de sobreviver no meio externo. 
 Fisiologia 
O T. vaginalis mostra-se um organismo anaeróbio 
facultativo. Cresce perfeitamente bem na ausência de oxigênio, 
em pH entre 5 e 7,5 e temperaturas de 20 e 40ºC. Utiliza, como 
fonte de energia, glicose, maltose, glicogênio, frutose e amido. 
Sendo desprovido de mitocôndrias, possui grânulos densos, os 
hidrogenossos, portadores da piruvato ferrodoxina-
oxidorredutase (PFOR), enzima capaz de transformar piruvato 
em acetato e liberar ATP e hidrogênio molecular. Ou seja, no 
T. vaginalis os hidrogenossomos se responsabilizam pela 
produção de energia. O T. vaginalis é capaz de manter em 
reserva o glicogênio e pode realizar a síntese de aminoácidos. 
 Transmissão 
Enquadrada como uma doença venérea, a tricomoníase 
se transmite por meio da relação sexual, com o parasita 
apresentando a capacidade de sobreviver por mais de uma 
semana sob o prepúcio do homem sadio após o coito com 
mulher infectada. O homem se mostra vetor da doença; com a 
ejaculação, os tricomonas presentes na mucosa da uretra se 
propulsionam à vagina pelo esperma. Atualmente, admite-se que a transmissão não sexual é rara, e pode ser aceita 
para explicar a tricomoníase em crianças, recém-nascidos, e virgens. Estima-se que de 2 a 17% das meninas 
recém-nascidas de mães infectadas por T. vaginalis podem adquirir infecção no trato urinário ou na vagina. 
 Patogênese 
O estabelecimento do T. vaginalis no sítio de infecção inicia com o aumento do pH, devido, essencialmen-
te, à redução concomitante de Lactobacillus acidophilus \u2013 responsáveis pelo pH vaginal ácido \u2013 e um aumento 
na proporção de bactérias anaeróbicas. 
Um contato inicial entre T. vaginalis e leucócitos resulta na formação de pseudópodes e fagocitose das 
células imunes nos vacúolos fagocítico do parasita. A interação parasita-hospedeiro se mostra um processo 
complexo, com a expressão dos genes que codificam proteinases e adesinas \u2013 fatores de virulência \u2013 sendo 
modulada por fatores externos relacionados ao hospedeiro, tais como os níveis de cálcio e ferro. Por esse motivo, 
enquanto o número de organismos na vagina diminui durante a menstruação os fatores de virulência mediados 
pelo ferro contribuem para a exacerbação dos sintomas nesse período. Juntamente a isso, o T. vaginalis pode se 
revestir de proteínas plasmáticas do hospedeiro, escapando do reconhecimento imune. 
 Patologia 
O T. vaginalis se enquadra como um dos principais patógenos do trato urogenital humano, estando associa-
do a sérias complicações de saúde, como: 
 Problemas relacionados à gravidez: a tricomoníase pode acarretar ruptura prematura de 
membrana, parto prematuro, baixo peso de recém-nascidos, endometrite pós-parto, natimortos e morte pré-
Esquematização do ciclo biológico da tricomoníase 
natal. A resposta inflamatória pelo parasita pode conduzir direta ou indiretamente a alterações na membrana fetal 
ou decídua. 
 Problemas relacionados à fertilidade: o risco de infertilidade se mostra quase duas vezes 
maior em mulheres com história de tricomoníase, pois a infecção destrói a estrutura tubária e danifica células 
ciliadas da mucosa tubária, inibindo a passagem de espermatozoides ou óvulos pela tuba uterina. 
 Transmissão do HIV: a infecção por T. vaginalis acarreta uma agressiva resposta imune celular 
local com inflamação do epitélio vaginal, o que induz a uma grande infiltração de leucócitos \u2013 incluindo as 
células alvo do HIV, com as quais ele pode se ligar e ganhar acesso. Além disso, o parasita frequentemente causa 
pontos hemorrágicos na mucosa, permitindo o acesso direto do vírus à corrente sanguínea. Em uma pessoa HIV 
positiva, de modo semelhante, a inflamação e os pontos hemorrágicos podem aumentar os níveis de vírus nos 
fluidos corporais e o número de linfócitos e macrófagos infectados pelo HIV presente na região genital. Acredita-
se que 24% das infecções pelo HIV se atribuem diretamente à tricomoníase. 
 Sintomatologia 
O T. vaginalis apresenta uma alta especificidade de localização, possuindo a capacidade de produzir 
infecção apenas no trato urogenital humano, como já postulado, pelo fato de não se instalar na cavidade bucal ou 
no intestino como os outros dois Trichomonas citados. 
 Mulher 
O espectro clínico da tricomoníase varia da forma assintomática ao 
estado agudo. O período de incubação varia de três a vinte dias após a 
infecção. O T. vaginalis infecta preferencialmente o epitélio do trato 
genital. Nas mulheres adultas, embora a exocérvice se mostre suscetível 
ao ataque do protozoário, em alguns poucos casos ele se encontra na 
endocérvice. Deve-se ressaltar que esse flagelado não causa corrimento 
endocervical purulento, podendo, no entanto, observar-se uma secreção 
cervical mucopurulenta em infecções genitais associadas a Neisseria 
gonorrhoeae, Chlamydia trachomatis ou herpes simples. 
A tricomoníase em si, por outro lado, provoca uma vaginite que se