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UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS 
CURSO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS 
TEORIA DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS I – Prof.º Bruno Boti 
ACADÊMICO (A): Emily Rafany 
 
RESUMO PARA A P1 
REALISMO 
Surgimento das RI e narrativa dos debates 
As Relações Internacionais surgem e começam a se formar enquanto disciplina científica no início do 
século XX, inicialmente com preocupação de teorizar sobre a sociedade internacional e, sobretudo, sobre o 
fenômeno da guerra. 
A narrativa dominante dentro do campo estabelece a ocorrência de grandes debates teóricos e de 
vencedores. Se conta a história do campo através de uma série de batalhas entre teorias das quais saíram 
perdedores e vencedores. 
O primeiro debate é idealismo versus realismo no contexto do período entre guerras, sobretudo 
década de 1930. Esse debate é entre crença wilsoniana baseada na moral e na ordem jurídico-normativa, por 
um lado, e pensamento calcado na política (e balança) de poder (realpolitik), por outro. Esse debate é 
ontológico: enquanto um estuda como mudar o mundo para torná-lo mais pacífico o outro estudava os meios 
à disposição dos Estados para que pudessem garantir sua sobrevivência. E assim o realismo sai da 2ª. G.M. 
como grande vencedor (Morgenthau, 1948). 
Houve uma preocupação normativa de estudar o fenômeno da guerra e suas causas para evitar 
repetição. Edward Carr, 1939 (Vinte Anos de Crise) com essa preocupação normativa levou liberais a pensar 
em termos do dever ser em vez de como o mundo realmente funcionava (caracterização de 
utópicos/idealistas). Ele os caracterizava como sem instrumentos analíticos para perceber 2ª. G.M. Os 
realistas estavam sintonizados com as dimensões do poder e dos interesses. 
O Segundo debate (década de 1960) já é um debate metodológico entre tradicionalistas 
(compreensão mais histórica e filosófica, com aproximações com o direito) e cientificistas (behavioristas 
que buscavam se aproximar dos padrões científicos das ciências naturais – obsessão com mensuração, 
análises matemáticas e estatísticas). O 2º. Debate não é mais sobre o que estudar, mas como estudá-lo. 
Realistas científicos defendiam maior rigor científico e maior influência dos métodos das ciências exatas. 
Crítica à falta de rigor e metodologia subjetiva do realismo clássico. Isso se deve em grande medida à 
Guerra Fria: tomadores de decisão precisavam de maior grau de previsibilidade. 
 
 
O Terceiro debate é um debate interparadigmático entre realistas, liberais e marxistas. No Final dos 
anos 60/anos 70 houve desafios ao realismo e questionamento de suas premissas como a descolonização 
(temas que não político-militares) e novos atores não estatais (empresas multinacionais, Organizações 
Internacionais etc). Nesse debate há Críticas à separação doméstico/internacional, high/low politics (alta e 
baixa política) e à ênfase exagerada na questão da guerra em detrimento da cooperação e interdependência 
(temas econômicos, financeiros). 
Nessa fase acontece a 1ª. Onda do Transnacionalismo (71/72) e Teoria da Interdependência 
Complexa (77). Há então uma relativização do Estado como ator principal. 
O Quarto debate acontece a partir de finais dos anos de 1980. Correntes desse debate são: 
Construtivismo, feminismo, teoria crítica, pós-coloniais e pós-modernos (pós-positivistas) 
Mesmo com o surgimento de novas correntes o realismo e liberalismo continuam dominantes e com 
grande influência dentro das RI, porém posição relativa declinou. Boa parte dos avanços em originalidade e 
sofisticação das últimas décadas vieram de construtivistas e pós-positivistas. 
O que é teoria? 
Construção intelectual que nos ajuda a selecionar fatos e interpretá-los de modo a facilitar 
compreensão, explicação ou até predição/previsão de fenômenos. 
Os fatos e a realidade não falam por si sós. Para que possamos compreendê-los precisamos analisá-
los obrigatoriamente a partir de um marco teórico. Desse modo é como uma lente com a qual passamos a 
atribuir sentidos e significados à realidade. 
A teoria nos ajuda a ver ordem e coerência em um universo infinito de fatos e dados que, por si sós, 
não têm sentido algum. Os Paradigmas teóricos oferecem uma imagem do mundo e constituem guias 
explicativos sobre a realidade e para a pesquisa. 
A teoria é necessária e inescapável: é ela que nos diz em que devemos focar e o que devemos ignorar 
ao tentar atribuir sentido ao mundo que nos rodeia. Sem a teoria seríamos vítimas da avalanche de fatos 
Teorias não se tratam de uma suposta verdade absoluta, mas de sistemas conceituais que tornam 
inteligível a realidade, permitindo a construção de interpretações e explicações. 
As Relações internacionais não dispõem de um único paradigma, ou seja, de um único quadro 
explicativo geral. Há vários paradigmas, com premissas (pressupostos), explicações e métodos diferentes. 
Essa pluralidade é característica das Ciências Sociais. 
O Pluralismo teórico é positivo. Quadros conceituais alternativos incentivam novas explicações e 
interpretações, a depender dos temas e objetos de pesquisa específicos, alimentando novas linhas de 
investigação e maneiras produtivas de pensar. 
Finalidade das teorias em RI: “Formular métodos e conteúdos que permitam compreender a natureza e o 
funcionamento do sistema internacional”. E ainda: “explicar os fenômenos mais importantes da política 
mundial” 
Questões levantas ao longo dos debates teóricos analisados no curso: 
Ontologia: “do que é feito o mundo?” 
Epistemologia: “o que é o conhecimento? É possível alcançá-lo? qual a classe/tipo de conhecimento?” 
Método/Metodologia: “quais procedimentos/ferramentas de análise serão utilizados para a construção do 
conhecimento?” 
Há três grandes correntes/ Abordagens: Realista (estadocêntrica), Liberal (pluralista ou globalista) E 
marxista (globalista, radical ou estruturalista). 
 
Realismo 
É uma Filosofia política centrada em Maquiavel e Thomas Hobbes. Buscam estudar O mundo como 
ele é. Há um Pessimismo em relação à natureza humana a considerando Má. Acham que Só o poder pode 
opor-se ao poder (sem lugar para moral, ética, normas e Direito. 
Principais autores: E. Carr – “Vinte anos de crise 1919-1939”, Hans Morgenthau – “Política entre as 
Nações” , K. Waltz – “ Teoria da Política Internacional” e Mearsheimer – “Tragédia da Política das Grandes 
Potências” 
 Entre suas premissas centrais está o Estado como ator central das RI (unitário e racional), com o 
objetivo de manter sobrevivência (acumulação de poder é o mecanismo para tanto) em meio à ANARQUIA 
internacional. 
Modelo da bola de bilhar: Estados unitários impenetráveis e homogêneos (país enfrenta mundo 
exterior como unidade integrada e governo fala com uma única voz – diferenças internas não importam) em 
choque constante: não há normas ou regras pré-estabelecidas limitando a movimentação das bolas na mesa. 
 
 Há Duas possibilidades de ação: Individual (auto-ajuda) e alianças (equilíbrio/balança de poder). 
Os Estados tem a função de manter a estabilidade interna e a SEGURANÇA em relação às agressões 
externas. Nesse aMeio-ambiente hostil com ameaças constantes há uma preocupação constante com a 
sobrevivência. 
Estado (weberiano): monopólio do uso legítimo da força, com fronteiras e população definidos. 
ESTADO como ator unitário e racional que atua em defesa do interesse nacional (permanência/preservação 
do Estado como ator internacional). 
Há uma Divisão rígida entre âmbito interno e externo dos Estados: não importa a política interna. 
Metáfora do Estado como caixa-preta. 
Hierarquia de agendas: Há a ALTA/High Política (questões militares, poder em prol da segurança) e a 
Baixa/Low Política (economia, meio-ambiente e etc). 
O Poderpara o realismo são capacidades materiais tangíveis: Geografia, tecnologia, exército, 
recursos naturais, economia, população. 
Anarquia Internacional: Ausência de autoridade legítima no plano internacional. 
Há a Coexistência de múltiplos poderes soberanos em um “estado de natureza”: RI como estado de 
guerra de todos contra todos. 
A SEGURANÇA é como bem de soma ZERO (GANHOS RELATIVOS): um Estado só pode se 
sentir seguro em detrimento/prejuízo dos outros (que se sentirão inseguros). 
Balança ou Equilíbrio de Poder (por medo e insegurança perante outros Estados) – Dilema da 
Segurança: medo  Estado se prepara  gera insegurança nos outros  espiral de desconfiança e corrida 
armamentista. A Balança bem feita gera Estabilidade do Sistema Internacional. 
O SI pode ser Bipolar ou Multipolar, a unipolaridade é uma anomalia. 
1) Visão pessimista da natureza humana: o desejo de tirar vantagem sobre os outros e de evitar ser dominado 
é universal. Ser humano quer estar no comando e não ser explorado 
2) Relações Internacionais são conflituosas e esses conflitos são resolvidos por meio da guerra 
3) Importância da segurança nacional e da sobrevivência do Estado 
4) Anarquia internacional: falta de uma autoridade legítima e soberana no âmbito internacional que garanta a 
sobrevivência. Resultado é medo permanente e possibilidade eterna de conflito. 
5) Pouco apreço pelos valores morais, ética e justiça 
6) Impossibilidade de progresso: teoria válida para todas as épocas: fatos básicos da política internacional 
nunca mudam (Guerra do Peloponeso ocorreu 400 anos antes de Cristo, mas a dinâmica continua a mesma 
desde então) 
RI como reino da política de poder (realpolitik): uma arena de rivalidades, conflitos e guerras entre 
os Estados, envolvendo a luta e o desejo pelo poder. Essa luta e desejo pelo poder produzem um efeito 
colateral: medo de não sobreviver. 
Desigualdade de poder é inevitável e natural: nem todos terão as mesmas capacidades de dominar os 
outros e de se defender. Para garantir a sobrevivência, todos os Estados devem aceitar essa realidade de 
desigualdade e agir de maneira condizente. 
Há limites e constrangimentos à liberdade de ação dos Estados. O Tomador de decisões deve refletir 
com cuidado sobre o poder acumulado do seu Estado em comparação aos demais. 
O que está em jogo é a sobrevivência em um mundo extremamente perigoso e desigual. Não há 
espaço para moralidade e ética que pautam a vida privada das pessoas. O Comportamento estatal 
explicado pela natureza humana negativa e imutável. Apetites humanos egoístas por mais poder explicam a 
sucessão interminável de guerras: quadro incontornável. 
 
 
 
 
 
TUCÍDIDES 
Guerra do Peloponeso – Diálogo entre Melos e Atenas 
Expedição militar de Atenas contra a ilha de Melos durante a guerra do Peloponeso (Grécia antiga). 
Os Mélios eram colonos de Esparta até então neutros: recusavam-se a obedecer e a se aliar. 
Atenas queria que eles se rendessem: dimensão da força presente. Antes de usar a força, Atenas envia 
emissários levando propostas. 
Mélios: se não cedermos, haverá guerra, mas se nos deixarmos convencer, haverá servidão  
dimensão do poder 
Atenienses: pensem na sua própria salvação  questão da sobrevivência 
Atenas: os fortes exercem o poder e os fracos se submetem 
Deixem de lado o direito, a justiça e a moral: na política, prevalecem os interesses e a correlação de 
poder 
 Ética da responsabilidade: na política internacional, a sobrevivência está em jogo. Saber avaliar o que 
é possível, dadas as circunstâncias, e não se pautar por ética da convicção (vale só para indivíduos). Política 
é a arte do possível (Bismarck) e não tem nada a ver com justiça, certo/errado e princípios 
Atenas: é vantajoso que vocês se rendam 
Não sofrerão perdas e a dominação de Mélos aumentará o império e a segurança de Atenas 
Segurança e liberdade dependem da demonstração de força: os outros não atacam por medo (e não por 
suposta amizade ou porque seja errado atacar) 
Atenas: Rendição não é covardia 
Vocês têm que priorizar salvação e nós somos muito mais fortes. Não se preocupem com demonstrações de 
coragem e nem confiem na sorte, pois isso sairá caro 
Mélios: crença no favor divino, na justeza do seu povo e no socorro de Esparta 
Atenas: os homens mandam sempre que podem. É um impulso da natureza humana, uma lei eterna. 
Vocês agiriam como nós se tivessem a nossa força 
Guiar-se pelo interesse próprio é o caminho para garantir a segurança e não apelos à justiça, honra e moral 
No combate, é a superioridade de forças que faz a diferença e não quem está supostamente certo ou errado. 
Esparta sabe da sua desvantagem militar e não socorrerá Melos. 
Atenas: não tenham medo da humilhação 
Humilhação maior é escolher a guerra e a destruição inevitável 
Conselho: enfrente seus iguais, comporte-se em consideração aos mais fortes e trate os mais fracos com 
moderação 
Mélios decidiram se ater aos princípios 
Confiando na sorte, no favor divino e na ajuda de Esparta, recusaram a capitulação perante Atenas 
Atenas: vocês perderão tudo por serem irrealistas! 
Atenas atacou a ilha: mataram todos os mélios em idade militar e reduziram mulheres e crianças à 
escravidão 
Realismo 
Ideias centrais do diálogo meliano: sobrevivência, poder, força, medo, auto-interesse, visão negativa da 
natureza humana, prudência (e nunca justiça e moral) 
A luta e o desejo pelo poder são centrais na política internacional 
Tucídides: considerado o primeiro a tratar de um tema central para as RI: a guerra 
Melos não entendeu que era fraco 
MORGERTHAU 
Morgenthau (1904-1980), Refugiado judeu de origem alemã que foge dos horrores do nazismo e se 
estabelece nos Estados Unidos: condição de sobrevivente (visão trágica da história). Foi um Filósofo e 
jurista de formação e ainda um Personagem central para a institucionalização da disciplina de RI nas 
universidades americanas durante a Guerra Fria. Contribuiu para pensar, de maneira prescritiva, a 
hegemonia dos Estados Unidos no mundo contemporâneo. 
Ele Escreve primeiro tratado de teoria de Relações Internacionais – Política entre as Nações. O Livro 
atacava o consenso pacifista e a visão utópica de uma nova ordem mundial calcada na aliança entre Estados 
Unidos e União Soviética que havia prevalecido contra o nazi-fascismo. 
Procura Preparar formuladores de decisão e opinião pública para a Guerra Fria. 
Com o de Objetivo de apresentar teoria sobre política internacional. Teoria que seja empírica e 
pragmática e permita enxergar ordem e sentido perante os fenômenos observados. Entender a política 
internacional como ela é, de acordo com a sua natureza intrínseca, e não como as pessoas gostariam que ela 
fosse. 
Pensamento político sobre a natureza do homem, da sociedade e da política: 2 grandes escolas, 
segundo Morgenthau: Retidão da natureza humana permite alcançar ordem política racional e moral – 
crença no potencial positivo da razão do homem e na sua capacidade de progresso. Se não existe ainda essa 
ordem é por falta de conhecimento, caráter obsoleto das instituições sociais e depravação de certos 
indivíduos e grupos. Em vez de tentar reformar o mundo na direção de um ideal normativo (dever ser), 
melhor trabalhar com as forças inerentes à natureza humana. 
O mundo é formado por interesses contrários e opostos em choque e em conflito. Assim Não é 
possível a aplicação de princípios morais universais. No máximo, o que pode haver é um equilíbrio de 
interesses. 
Ele tem um duplo objetivo: tentar criar uma ciência que entendesse de maneira racional a ação do 
Estado no sistema internacional e prescrever padrões de comportamento a serem seguidos pelos Estados nas 
suas interaçõesexternas. (modelo importado das ciências naturais) 
Preocupação teórica com a natureza humana tal como ela se apresenta e com os processos históricos 
Apresenta seis princípios do realismo político: 
1) Primeiro princípio: a política internacional é governada e explicada por leis objetivas (como a lei da 
gravidade), que têm suas raízes na natureza/essência humana. Lei no sentido científico (e não 
jurídico), ou seja, relação constante entre fenômenos da natureza. 
 Há uma lei quando se observa uma regularidade, um padrão frente a um amplo conjunto de fatos. A 
lei vem da observação sistemática sempre regular e persistente de um fenômeno e daí se estabelece uma 
relação de causa e efeito que permite fazer previsões do tipo: presente X (natureza humana negativa), 
espera-se Y (conflito e luta pelo poder). 
Natureza humana leva indivíduos e Estados a se comportarem da mesma forma padronizada e regular 
(assim como os corpos se atraem). Essas leis são verdades que existem no mundo lá fora e uma boa teoria é 
aquela capaz de descobrir e acessar essas verdades sobre o mundo. 
Existem leis que regem a política assim como há leis que explicam a regularidade das forças da 
natureza na Física. Então é possível desenvolver uma teoria racional que desvende essas leis com base em 
provas e evidências empíricas. 
Isso difere de quem, com base na sua opinião e desejos sobre como o mundo deveria ser, faz juízos de 
valor descolados da realidade dos fatos. As leis produzem efeitos independentemente se as consideramos 
corretas ou não: são forças impessoais que estão fora do nosso alcance (não podem ser mudadas). Quem as 
desafia corre risco muito alto. 
Filiado ao positivismo: Formulação de leis gerais a partir de investigações empíricas, Métodos das 
ciências naturais/duras, Relações de causa e efeito: buscam descobrir regularidade tipo-lei, como na física 
newtoniana (se X, então Y), existência de verdade objetiva exterior ao investigador. 
Leis que são universais e se aplicam a todo e qualquer momento histórico, afinal de contas, a natureza 
humana é imutável e constante: é a mesma desde a Antiguidade de Tucídides. 
Para Morgenthau, explicação para comportamento dos Estados reside na natureza humana atemporal e 
imutável, que é egoísta, agressiva e direcionada à busca por dominação e à luta pelo poder, ultrapassando 
assim a razão e a moral. 
Ser humano nasce para buscar o poder e usufruir seus frutos. Há um Animus dominandi: desejo, ânsia 
humana pelo poder + natureza também egoísta e auto-interessada. 
Estados buscam espaço político seguro em que estejam livres do comando de outros e que possa servir 
de plataforma para projetar o poder sobre os outros (Estado independente). Essa ânsia pelo poder contribui 
para o conflito – a política é uma luta pelo poder sobre os homens. A Política internacional é vista como 
uma arena de interesses estatais em contradição. 
Importância de fazer a teoria na perspectiva do estadista 
“colocamo-nos na posição de um político que tenha de enfrentar certo problema de política externa, sob 
determinadas circunstâncias, e nos perguntamos quais seriam as alternativas racionais dentre as quais teria 
de escolher” (p. 6) 
2) Segundo princípio: Conceito de interesse definido em termos de poder: a política como uma esfera 
autônoma de ação e de entendimento (que não pode ser reduzida à economia [marxistas] ou moral 
[kantianos]). Experiência da história comprova esse pressuposto. 
Todos os Estados têm o mesmo objetivo: o poder (capacidade de se impor frente a outro contra a sua 
vontade). Essa é a racionalidade que move os Estados no campo da política: esse fio condutor, essa 
regularidade, permite construir a teoria. 
Duas falácias: preocupação com os motivos e com as preferências ideológicas dos políticos 
Motivos dos políticos são dados psicológicos ilusórios E bons motivos não necessariamente levam ao 
sucesso ou à qualidade das políticas. Muitos estadistas que queriam melhorar o mundo acabaram deixando-o 
pior (como Chamberlain, primeiro-ministro do Reino Unido: seguia bons motivos ao tentar apaziguar Hitler 
Queria paz e felicidade, mas contribuiu para guerra e destruição ao contrario de Churchill: foco no poder 
pessoal e nacional era menos universal e nobre, mas sua política externa foi muito superior ) 
Não importam os motivos de um político, mas sua capacidade intelectual e racional de entender os 
elementos essenciais da política e de aplicar isso na ação concreta. 
A Racionalidade é um instrumento central do processo político: capacidade cognitiva de entender as 
leis objetivas da realidade por meio do uso da razão. 
Preferências ideológicas e simpatias políticas e filosóficas  políticos devem pensar e agir em 
função do interesse nacional, deixando de lado desejos e valores pessoais. 
Devem Distinguir entre o desejável (dever ser) e aquilo que de fato é possível em determinadas 
condições de tempo e de lugar . 
Há Quatro fenômenos mentais negativos a serem evitados, pois levam a decisões equivocadas e nos 
afastam de uma leitura racional das leis da política entre as nações: 
1. Permanecer atrelado a modos obsoletos de pensar e agir que não acompanham as mudanças das 
realidades sociais: substituir por novos modos de pensar e agir que permitam leitura do novo 
contexto 
2. Interpretações que personificam os problemas sociais, identificando e demonizando pessoas 
como fonte do mal 
3. Recusa de enfrentar situações ameaçadoras, focando-se em aspectos ilusórios 
4. Crença na possibilidade infinita de mudança da realidade: crença de que nada é insolúvel com 
dose de boa vontade e intenções positivas 
 
(Parênteses: Instituições políticas, procedimentos diplomáticos e arranjos legais das relações internacionais 
pressupõem igualdade soberana de todos os Estados. Porém, a realidade é dominada por extrema 
desigualdade de poder entre os Estados. A Desigualdade é natural e inevitável ) 
Realismo: guia explicativo E prático para o estadista 
Elemento teórico: tornar a realidade compreensível por meio de construção mental teórica que mostra leis e 
racionalidade por trás da realidade política 
Elemento normativo: servir de guia para uma PE racional que minimiza riscos e maximiza vantagens, 
garantindo prudência e sucesso  PE boa é aquela que se foca nos elementos da racionalidade política que a 
teoria revela 
Importância da teoria na diferença entre foto e pintura (liga-se com a metáfora do mapa de Borges): a 
teoria é a pintura que prioriza e enfatiza apenas certos elementos da realidade, tirando excessos de 
informações da foto. Revela aquilo que de fato importa e que, a princípio, não pode ser visto imediatamente 
na foto  mostra a essência do fenômeno 
3) Terceiro princípio: Conceito de interesse definido como poder é universalmente válido e é a essência da 
política: isso independe do tempo e lugar (auto-interesse é fato básico da condição humana). Mas sua 
expressão e manifestação varia no tempo e espaço: interesses mudam de acordo com o contexto 
George Washington: o interesse constitui o princípio que tudo governa inútil denunciar a depravação da 
natureza humana, a realidade é esta. 
Weber: são os interesses que dominam de modo direto as ações dos homens. Porém, o tipo de 
interesse que prevalece em um determinado período histórico depende do contexto político e cultural (as 
metas que me movem a impor minha vontade e controlar o outro são de N tipos) 
O conteúdo do poder e a maneira como o poder é utilizado também variam a depender do ambiente 
político e cultural. Poder envolve tudo que tem a ver com o controle do homem sobre o homem: da violência 
desenfreada passando pela dominação psicológica e Estado democrático de Direito. Essas diferentes formas 
de poder sematerializam a depender do contexto. 
Mudança do mundo depende de alteração das forças perenes da natureza humana que moldaram o 
passado e moldarão o futuro. Não passa por aplicar ideal abstrato que desconsidera e não aceita leis da 
realidade política 
4) Quarto princípio: diferença entre ética política e a ética moral, individual e privada 
Há uma Tensão entre mandamento moral e exigências de uma ação política bem-sucedida. Indivíduo pode 
dizer “que se faça justiça, mesmo que o mundo pereça” Mas o Estado não tem esse direito porque precisa 
salvaguardar os seus cidadãos  em primeiro lugar vem a sobrevivência nacional. 
Líder político é responsável pelas pessoas do seu país que dependem dele, É responsável pela 
segurança e bem-estar delas. Deve fazer não aquilo que é o melhor em termos morais, mas sim obter o 
melhor desempenho dentro das circunstâncias reais. 
As circunstâncias concretas devem filtrar as condições morais: não pode aplicar de modo universal e 
abstrato – só se e quando o contexto permitir. Não se pode falar em moral sem antes garantir a prudência, a 
avaliação das consequências das várias alternativas das ações políticas  a prudência é a virtude suprema da 
política. 
Weber: 
Ética da convicção  indivíduo (a ação respeita a moral e os princípios éticos?) 
Ética da responsabilidade (política/dos resultados)  foco nas consequências, se conseguiu garantir 
sobrevivência 
O julgamento se dá frente ao sucesso ou fracasso e não envolve juízo sobre se estava certo ou errado. Há 
uma moral para a esfera privada e outra bem diferente para a pública. 
Ética política permite e exige ações não toleradas pela moralidade privada 
Únicos limites do Estado são as regras de prudência e de conveniência E não os imperativos morais 
Woodrow Wilson: Defensor de uma diplomacia aberta: nações deveriam seguir mesmos padrões de 
conduta dos indivíduos. 
Morgenthau: a defesa do interesse nacional justifica o uso de meios corrompidos: espionar, mentir, 
trapacear, roubar, cometer violações de direitos humanos e conspirar 
Tudo isso se justifica para livrar o povo de perigos desnecessários e para garantir a sobrevivência do Estado 
5) Quinto princípio: as aspirações de um Estado são particulares e não podem ser confundidas com 
princípios morais universais 
Tentação que todos os países sofrem de serem os portadores das noções de bem e mal 
Confundir um certo nacionalismo com posição de superioridade moral produz distorções de julgamento que 
destroem nações e civilizações  loucura política 
Contra a ideia de que países imponham suas ideologias sobre outros países  atividade perigosa que 
ameaça a paz e segurança internacionais 
Os EUA devem ser e agir como um modelo para o resto do mundo – Mito fundador (frase de puritano 
John Winthrop, 1630). Excepcionalismo, missão civilizatória, Destino Manifesto (séc. XIX) 
6) Sexto princípio: autonomia da esfera política (raciocinar em termos de interesse definido como poder)  
grande pergunta: de que modo uma política (um programa de ação) pode afetar o poder da nação? 
Economista pensa interesse definido como riqueza; Advogado pensa se as ações estão em 
conformidade com as normas legais; Moralista julga se as ações estão de acordo com os princípios morais. 
Cálculo político: Como a ação que planejo afetará os meus interesses? Qual a distribuição de poder 
prevalecente? Ela me autoriza a tomar essa ação? Que tipo de respostas dos outros Estados as minhas ações 
provavelmente despertarão? Como isso impactará meus interesses e a futura distribuição de poder? 
Se o Estado agirá ou não dependerá dessa leitura do cenário político A ação política deve se pautar 
por esses cálculos e não por considerações legalistas ou moralistas (o direito internacional permite? É 
moralmente certo fazer isso?). Levar em conta os interesses em jogo, a distribuição de poder e como a ação 
planejada impactará esses interesses e essa distribuição de poder. 
Defesa da emancipação de outras formas de pensamento e de desenvolvimento de uma ciência 
própria. 
Momento de afirmação da área de RI: especificidade justificava a necessidade de autonomia  há 
algo de diferente sobre o internacional que não se confunde com o objeto de pesquisa das outras Ciências 
Sociais. 
É claro que o homem real é mistura do homem econômico, político, moral, religiosa. Porém, para 
compreender qualquer uma dessas dimensões, é preciso tratar cada uma delas de acordo com as suas 
especificidades, focando na dimensão que nos interessa e abstraindo todas as demais como se ela fosse a 
única. 
Precisamos nos conscientizar sobre as profundas limitações e imperfeições humanas. Esse 
conhecimento pessimista sobre como os seres humanos são é único caminho possível. 
 A Boa ordem internacional é funcionamento eficaz da balança/equilíbrio de poder: dá garantia de 
ordem à descentralização do sistema. A Balança permite aos Estados o objetivo primordial da sobrevivência. 
Política internacional: natureza estática, atemporal, ahistórica: possibilidade mínima de mudança. 
Profundamente pessimista quanto a reformas morais e papel das instituições internacionais para alterar a 
natureza humana 
ARRON 
Raymond Aron (1905-1983) foi um Judeu que sobreviveu ao Holocausto e exilou-se em Londres no 
momento da ocupação alemã. Professor da Sorbonne e Sciences-Po: era reconhecido como principal 
especialista europeu de RI. 
Defensor de uma análise mais sociológica que leva em conta características, diferenças e interações 
entre os Estados, afastando determinismo e possibilidade de predição (contra esquematismo racional de 
autores como Morgenthau). Essa perspectiva sociológica alia o pensamento teórico, mais abstrato, 
abrangente e generalizante com um olhar histórico e processual que nunca elimina a incerteza e 
imprevisibilidade. 
Criou, na França, praticamente sozinho, uma disciplina autônoma de RI com influências da Ciência 
Política, Sociologia, História, Direito e Economia. 
Liberal à margem dos pensadores que se dividiam entre conservadores e marxistas. 
Defendia aliança com EUA, reconciliação com Alemanha e independência da Argélia (contra elites 
políticas francesas estatistas e antiamericanas). 
 
Inspirado pelas obras de Hobbes e Clausewitz. É atrelado à escola do realismo clássico, mas tem 
pontos de discordância importantes com realistas como Morgenthau. Apesar dessas diferenças concordava 
com a afirmação de que há uma diferença fundamental entre a política doméstica e a política internacional. 
E assim argumentava que essa diferença deveria ser a fundação das RI. 
Relações internacionais são, por definição, relações entre coletividades políticas organizadas 
territorialmente. Relações entre unidades políticas que, hoje, remetem aos Estados. Ao longo da história, 
essas unidades políticas abrangeram as cidades gregas, império romano, monarquias europeias, regimes 
democráticos etc. 
Atualmente, os Estados ocupam o papel de organizadores territoriais da vida política. Em outras 
épocas históricas, esse papel foi desempenhado por outras formas de unidades políticas (impérios antigos, 
cidades-Estado etc.). 
Cerne das relações internacionais se encontra nas relações interestatais, as quais apresentam 
característica que as diferencia de todas as outras relações sociais: desenvolvem –se à sombra da guerra, 
com alternância da guerra e paz. Para ele a paz é só a ausência de guerra. 
Há uma multiplicidade de centros autônomos de decisão e, como resultado, risco permanente da 
guerra, que impõe a necessidade de calcular os meios. 
Cada Estado reserva para si o monopólio da violência. De acordo com a definição de Weber todos os 
Estados se reconhecem reciprocamente e aceitam a legitimidade das guerras que fazementre si, há 
legalidade e legitimidade do recurso à força armada. 
Esse monstro terrível, o Estado, faz da guerra a continuação da política por outros meios 
(Clausewitz, objeto de estudos de Aron) 
A Política internacional é um choque constante de vontades, pois unidades soberanas não estão 
sujeitas a leis ou a um árbitro. 
 Os Estados, orgulhosos da sua independência e ciosos da sua capacidade de tomar decisões sozinhos 
só podem contar consigo mesmos! 
Já Sistema internacional é o conjunto constituído pelas unidades políticas que mantêm relações 
regulares entre si e que são suscetíveis de entrar numa guerra geral. 
Estrutura dos sistemas internacionais é sempre oligopolística. Só são membros integrais os atores 
principais que determinam como deve ser o sistema, muito mais do que são determinados por ele 
(desigualdade de poder na configuração da relação de forças). Há uma hierarquia entre os Estados 
determinada pelas forças que cada um é capaz de mobilizar. 
 
Num extremo estão as grandes potências e no outro os pequenos países. Grandes Estados querem 
modelar a conjuntura e os pequenos precisam se adaptar a essa conjuntura que não depende deles. 
Então há duas configurações típicas de configuração da relação de forças: multipolar e bipolar. Na 
multipolar há rivalidade diplomática entre um certo número de unidades políticas da mesma classe/porte. Há 
diversas combinações de equilíbrio e reversões de alianças são normas. Na Bipolar duas unidades políticas 
principais ultrapassam todas as outras em importância. 
Para Arron o equilíbrio geral do sistema só é possível com duas coalizões, pois todos os demais 
Estados obrigados a aderir a um campo ou outro. 
Ele não queria dizer que a guerra era sempre provável ou que situação sempre degenera para conflito 
militar, mas sim que é legítimo usar a violência para buscar os objetivos dos Estados. 
Há então dois personagens centrais: diplomata e soldado, que são representantes das coletividades a 
que pertencem. A Diplomacia e a estratégia são dois métodos complementares e opostos por meio dos quais 
Estados se relacionam. Enquanto a Diplomacia é a condução do intercâmbio com outras unidades políticas, 
a estratégia é comportamento relacionado com o conjunto das operações militares. Desse modo a Política 
externa é o reino do comportamento diplomático-estratégico, porém ambos são subordinados à política à 
busca de determinada concepção de interesse nacional de uma coletividade. 
O Embaixador fala em nome de uma unidade política, responsável pela atuação exterior de um 
Estado assim é a unidade política falando. Já o Soldado, no campo de batalha, representa a sua unidade 
política, leva seu semelhante à morte.Vivem e simbolizam as relações internacionais. 
Em tempos de paz, a política se vale dos meios diplomáticos, sem excluir possibilidade de recurso às 
armas (pelo menos como uma ameaça). Na guerra, a diplomacia não deixa de existir, há relações com 
aliados, neutros e mesmo frente ao inimigo, ameaçando com destruição ou possibilidade de paz. Nesse caso 
a Diplomacia serve como arte de convencer sem usar a força e a Estratégia como arte de vencer de modo 
mais direto, via violência. 
O comportamento do diplomata e do soldado não possui uma finalidade simples e intrínseca, um 
objetivo único, comparáveis aos do jogador de futebol (levar a bola ao gol do adversário) ou do agente 
econômico (melhor uso de recursos para atingir a sua satisfação máxima). 
Falta esse objetivo único que poderia ser expressos em uma fórmula matemática ou em um único 
modelo explicativo universal: só o estudo concreto revela, a partir das características específicas dos atores e 
dos processos históricos, qual o objetivo perseguido, a lógica do comportamento, seus cálculos de forças e a 
importância que concedem a seus conflitos. 
Relativa indeterminação na teoria de Arron (não há um único e inequívoco objetivo – contra noção 
de interesse nacional de Morgenthau): precisa olhar caso a caso, em cada processo específico, e não 
consegue formular uma teoria global e geral (abordagem sociológica e histórica que se afasta de 
Morgenthau). 
O fio condutor e ponto de partida da teoria das RI ao pensar o comportamento do diplomata e do 
estrategista é que, à luz do risco permanente da guerra e do ambiente de competição entre adversários em 
uma rivalidade incessante, ambos se reservam o direito de recorrer à ultima ratio: a violência. 
As RI não podem ser definidas pelas suas finalidades, que são muitas, O que diferencia as RI são os 
seus meios: uso da força, da violência. O Comportamento diplomático-estratégico não tem uma finalidade 
evidente, mas o risco da guerra sempre obriga a calcular as forças e os meios disponíveis, aí reside a 
singularidade da teoria de RI. 
A alternância entre a paz e a guerra é o que distingue a política internacional da política interna 
(doméstica) dos Estados. E ainda na Política interna há monopólio da violência nas mãos dos detentores da 
autoridade legítima, diz respeito à organização interna de uma coletividade e submete os indivíduos ao 
império da lei, envolve a vida em paz no interior dos Estados. A Política internacional admite a existência de 
uma pluralidade de centros de poder armado, remete à sobrevivência dos Estados diante da ameaça criada 
pela existência dos outros Estados, Os Estados ainda não deixaram o estado de natureza e alternam estados 
de guerra e de paz. 
Ética da responsabilidade: o governante é responsável, perante o povo, pelos seus atos, vitórias e 
derrotas. Não importam as suas boas intenções e se respeitou ou não virtudes que só podem ser exigidas dos 
indivíduos. A Lei da diplomacia e da estratégia é outra. 
O Sistema internacional é anárquico: não há nenhum poder central com monopólio do poder 
coercitivo, mas não é caótico: há uma lógica construída em termos de poder. As relações interestatais 
ocorrem alternando a paz e a guerra, e os Estados agem para preservar o monopólio da força dentro das suas 
fronteiras e salvaguardar sua liberdade de ação no cenário internacional perante os rivais. 
Guerra, segundo Clausewitz, é um ato de violência destinado a obrigar o adversário a realizar a nossa 
vontade. Ela Pressupõe choque de vontades – coletividades politicamente organizadas que querem se 
sobrepor umas às outras. Na guerra a violência é um meio, a finalidade é a imposição da nossa vontade. 
A Guerra é um ato político e instrumento da política: a serviço de objetivos fixados pela política. É 
Importante pesar custos e benefícios e de calcular os riscos e meios à disposição. 
Na política, homens aplicam seu poder sobre outros homens. Sendo o Poder de um indivíduo a 
capacidade de influir sobre a conduta ou sentimentos de outros indivíduos. Nas RI, poder é a capacidade que 
uma unidade política tem de impor sua vontade às demais. 
 
Poder político envolve relação entre os homens/Estados: não é um valor absoluto (requer o outro). 
Recursos/força militar, econômica, moral: podem ser mensurados objetivamente, diferentemente de 
poder. Poder: envolve relação humana com outros e não só contagem de materiais e instrumentos de força. É 
a aplicação dessa força em circunstância concretas e com objetivos determinados. 
Para Aron, conceito de Morgenthau de interesse nacional definido em termos de poder era muito 
nebuloso. Os objetivos do Estado não podiam ser reduzidos a uma fórmula assim tão simples. Havia outros 
Objetivos possíveis como segurança, poder, glória e ideias. Quatro objetivos heterogêneos que não podiam 
ser reduzidos a um único conceito: isso significaria distorcer a ação diplomático-estratégica. 
Se a rivalidade dos Estados é comparável a um jogo, o que está em disputa não pode ser designado 
por um único conceitoválido para todas as civilizações em todos os momentos históricos. Estados não 
querem apenas sobreviver e garantir a segurança. 
Dada a ausência de uma fórmula simples que permita prever os objetivos dos Estados e os seus 
comportamentos, o melhor que se pode fazer é tentar compreender os objetivos e motivações dos Estados a 
partir das evidências disponíveis. Arron alerta sobre os limites do que podemos esperar da teoria. A busca 
de generalizações teóricas não pode perder de vista as contingências/acasos/imprevistos da história. 
Ele faz ainda uma Classificação das organizações de poder: império (um Estado monopoliza o uso da 
violência legítima), Hegemonia (superioridade incontestável de força sem a degeneração dos dominados), 
Equilíbrio (distribuição de poder em que as forças não são suficientes para dominar umas às outras). 
E assim elas formam três tipos de paz: Equilíbrio (forças das unidades políticas em equilíbrio 
(balança de poder)), Hegemonia (unidades políticas dominadas por uma outra), Império (uma unidade 
política supera tanto as forças das demais unidades que elas perdem sua autonomia e tendem a desaparecer 
enquanto centros de decisão política) 
WALTZ 
Kenneth Waltz (1924-2013) foi autor de dois dos mais importantes livros de teoria de RI: O Homem, 
o Estado e a Guerra (1959) (contribuição das 3 imagens) e Teoria da Política Internacional (1979) 
(inaugura neorrealismo ou realismo estrutural). 
 Foi ainda Professor em Berkeley e Columbia, Veterano da 2ª. GM e da Guerra da Coreia e Sucessor 
paradigmático de Morgenthau. 
Em 79 repudia muitas das teses de 59: deixa de lado interações entre as 3 imagens para focar 
exclusivamente na estrutura anárquica do SI (não aborda primeira e segunda imagens). 
 
REALISMO 
Anarquia: política internacional é composta por Estados soberanos (Esses Estados não estão submetidos a 
nenhuma autoridade ou poder superior). Por serem soberanos possuem autoridade absoluta sobre seu 
território e povo e dispõem de independência internacionalmente . 
Mesmo que um Estado se una a uma organização internacional, como a ONU, isso não afeta a sua 
soberania e independência internacional. A Filiação do Estado às Ois é voluntária: podem abandoná-las se 
assim desejarem. 
Com base nesses elementos do realismo clássico, Waltz e demais realistas argumentam que os 
Estados se comportarão de maneira conflitiva. Embora guerras possam ser resolvidas de tempos em tempos, 
a sombra da guerra e a possibilidade de novos conflitos jamais poderão ser afastadas e superadas. 
A Questão por trás do surgimento das RI como disciplina acadêmica depois da 1ª. Guerra Mundial e 
a questão principal no livro de Waltz é: por que as guerras acontecem? Waltz diz que a A anarquia 
internacional é a causa permissiva da guerra. Anarquia se torna muito mais que o simples contexto dentro do 
qual os Estados conduzem seus negócios e atividades. Anarquia se torna a resposta à pergunta central do 
nosso campo de estudos. 
Em tempos de Guerra Fria, a explicação parecia se encaixar muito bem em cenário marcado pela 
disposição constante ao conflito entre os blocos capitaneados por EUA e URSS. Sem um governo mundial, 
formuladores de PE dos EUA precisavam estar preparados para confronto, aumentando suas defesas. 
Quando se fez essa pergunta, muitas respostas já existiam. As respostas podiam ser divididas em três 
categorias, chamadas de 3 imagens ou 3 níveis de análise:1) O indivíduo; 2) A organização interna do 
Estado; 3) O sistema de Estados. 
As causas da guerra devem ser encontradas nesses três níveis de análise. Nenhum deles sozinho é 
capaz de explicar por que as guerras ocorrem ou não. Ele Usa obras de filósofos políticos para ilustrar 
argumentos de cada uma dessas imagens. 
Na Primeira imagem o homem/indivíduo é o foco. Nela há um interesse pela natureza humana. 
Explicação de primeira imagem para a guerra: o lócus em que se encontram as causas da guerra está na 
natureza e comportamento do homem. A guerra é resultado do egoísmo, dos impulsos agressivos mal 
dirigidos, da estupidez humana. Eliminação da guerra depende da elevação e iluminação da natureza 
humana. E a Recorrência e repetição das guerras: resultado dessa maldade intrínseca e insuperável. 
 Essa Leitura que corresponde ao argumento de Morgenthau e outros autores do realismo clássico 
 
Para os Idealistas/liberais: crença na razão dos indivíduos e na possibilidade de aperfeiçoamento e 
progresso moral. O homem nem sempre se comporta mal. Alguns homens parecem possuir natureza boa: 
agem de maneira razoável para atingir bem comum. Se essa bondade puder ser universalizada, se todos os 
homens puderem acessar sua própria bondade, então todos começarão a se comportar bem e positivamente e 
assim os Conflitos e guerras serão superados. 
Waltz revisa essas explicações pessimistas e otimistas sobre a natureza humana e encontra vários 
problemas: Exagero na atribuição de importância causal, ou seja, as Explicações baseadas na natureza 
humana não dão conta de explicar as variações na presença ou ausência da guerra. 
Waltz chega à conclusão de que não é possível dizer que a natureza humana, sozinha, cause todas as 
guerras. A Natureza humana é muito complexa para que seja tão diretamente ligada às guerras como a única 
causa. 
A Segunda imagem diz respeito à organização interna do Estado. A insuficiência da natureza humana 
para explicar o fenômeno da guerra leva Waltz a examinar a organização política, social e econômica dos 
Estados. Agora colocam Peso da estrutura interna dos Estados para explicar comportamento externo. 
Se a natureza humana é inalterável, então não é possível diminuir ocorrência das guerras incidindo 
nesse fator. Só nos resta olhar para as instituições sociais e políticas domésticas que variam no tempo e 
espaço e tentar mudá-las para diminuir chances das guerras. Do mesmo modo, se argumentamos que a 
natureza humana pode ser mudada, ainda precisamos prestar atenção nessa organização política e social 
doméstica. São as interações com essas instituições que fariam a natureza humana se modificar 
Nessa esfera de análise Há Estados bons e Estados maus. Estados maus fazem guerras e Estados bons 
preservam a paz. São Estados democráticos pacíficos versus Estados autoritários agressivos. Incidência da 
guerra pensada como dependente do tipo de governo nacional. 
Os liberais, resgatando a importância do vínculo estabelecido por Kant e Wilson entre a organização 
política interna dos Estados e o seu comportamento na esfera internacional, enfatizam a importância da 
política doméstica para os resultados produzidos no sistema internacional. 
Kant 
República (equivalente das democracias de hoje): leis e decisões têm consentimento do povo 
A constituição republicana é funcionalmente pacífica porque é a única que expressa a vontade dos que 
assumem os encargos da guerra e que por isso, provavelmente, não serão favoráveis a ela  povo que sofre 
os efeitos da guerra não dará o seu consentimento. 
Paz perpétua: federação de repúblicas 
República: povo dá a si próprio as suas leis (precisa consentir) 
A constituição republicana - ou democrática - na ordem interna pode ter como consequência a paz no âmbito 
externo por ser determinada pela vontade daqueles que assumem o ônus da guerra e que, por isso, 
provavelmente, não irão querê-la. 
“Estados com executivos sensíveis a um corpo decisório, com competição política institucionalizada, e com 
a responsabilidade pela tomada de decisão difundida por múltiplas instituições ou indivíduos devem ser mais 
constrangidos em suas ações e, portanto, menos propensos a ingressar em conflitos”. Christopher Layne, 
1994 
Wilson 
Wilson: nações livres e democráticas teriam desubmeter suas políticas externas à aprovação da opinião 
pública que sempre rejeitaria a guerra 
Guerras e o protecionismo comercial: resultado de países não democráticos (maioria da população afetada 
negativamente não aprovaria essas políticas onerosas) 
Lênin 
Teoria do imperialismo 
Principal causa da guerra: necessidade dos Estados capitalistas de continuar a conquistar novos mercados 
para perpetuar seus sistemas econômicos domésticos 
O capitalismo no seu estágio supremo, que é o do imperialismo, conduz necessariamente a uma política 
agressiva e à guerra 
Para Waltz teóricos que trabalham com segunda imagem não têm consenso sobre o que é um Estado 
bom e nem sobre como transformar um Estado mau em bom. Ainda que houvesse esse consenso, nada 
garante que mundo de Estados bons seja pacífico: Estados bons podem às vezes fazer guerras. Mais uma 
vez, Waltz conclui que a segunda imagem é insuficiente. Deve-se Complementar com o nível internacional 
anárquico (terceira imagem): ambiente político internacional pesa muito na forma como o Estados se 
comportam. 
Na Terceira imagem ,Em uma situação de anarquia internacional, não há uma autoridade suprema 
equivalente a um governo internacional capaz de impedir os Estados de perseguir os seus interesses por 
meio do recurso à força. Guerras ocorrerão simplesmente porque não há nada para impedi-las. 
Há Possibilidade constante de guerra: não há órgão ou instância acima dos Estados a que possam 
recorrer a fim de obter proteção. Cada Estado é o juiz final da sua própria causa e pode usar a força a 
qualquer momento para buscar seus objetivos. 
Como qualquer Estado pode usar a força, todos os Estados devem estar constantemente preparados 
para se contrapor pela força ou pagar os custos da fraqueza. As circunstâncias em que os Estados vivem, 
dentro de um ambiente anárquico, impõem uma série de exigências e constrangimentos para o seu 
comportamento. 
Anarquia internacional também limita possibilidade cooperação entre os Estados. Ficam reféns dos seus 
auto-interesses egoístas em detrimento de interesses compartilhados e do que seria melhor para o sistema 
interestatal como um todo. Mas a estrutura anárquica do sistema dos Estados não leva diretamente o Estado 
A a atacar o Estado B: é apenas uma causa permissiva. 
Parábola da caçada ao cervo, de Rousseau 
5 homens famintos concordam em se juntar para caçar um cervo que satisfará a fome de todos, Mas daí 
aparece uma lebre, que só mata a fome de 1 homem: um dos homens quebra o acordo, pega a lebre, mata a 
sua fome, mas deixa o cervo escapar. Interesse imediato prevalece em detrimento da consideração pelos 
companheiros. Não há um líder ou autoridade para punir o caçador que abandona o acordo/pacto 
Assim a Anarquia internacional explica por que as guerras podem ocorrer, por que são uma 
possibilidade  causa permissiva. Os Fatores individuais e de organização dos Estados necessários para 
entender por quais motivos ocorrem de fato  causas imediatas. 
Se indivíduos e Estados não buscarem políticas agressivas ou não perseguirem interesses egoístas, 
não haverá guerra, ainda que a anarquia internacional permita a ocorrência de conflitos. Causas imediatas de 
todas as guerras são encontradas nos atos dos indivíduos ou nos atos dos Estados, porém Não basta 
aprimorar os homens ou os Estados, as outras unidades podem continuar a agir de forma predatória, pois no 
ambiente anárquico não há força que as impeça de se comportar dessa forma. 
Resumindo: para além da anarquia internacional, sempre se necessita de um elemento adicional de 
primeira ou segunda imagem para que a guerra se concretize, de fato. As três imagens precisam ser 
consideradas juntas. 
O Senhor das Moscas 
O filme “O Senhor das Moscas” conta uma história sobre a transição de uma ordem hierárquica para 
a anarquia. Sugere que a anarquia é o que permite que os conflitos ocorram e, ao mesmo tempo, aborda os 
temas de indivíduos bons e maus, “Estados” bons e maus. 
Filme baseado em romance de mesmo nome de 1954. O Cenário: 2ª. GM, durante bombardeios do 
Reino Unido pela Alemanha. Meninos sendo evacuados para a Austrália: avião cai em ilha deserta no 
oceano Pacífico e todos os adultos morrem. 
Dois mundos: mundo perdido da hierarquia e mundo da anarquia na ilha. Hierarquia: regras, razão, 
lei e ordem garantidos pela presença dos adultos. Filme é história sobre como os meninos se comportam em 
uma situação de anarquia, sem os adultos. 
No início tentam criar hierarquia dentro da anarquia: elegem Ralph como líder. A concha se torna 
símbolo de regras e direitos. Tudo parece transcorrer bem com divisão de tarefas. Como na parábola da caça 
ao cervo, Jack e seus caçadores se focam nos javalis selvagens (interesse egoísta) e negligenciam a fogueira 
no topo da montanha: avião passa e não os vê. 
Na anarquia da ilha, como diz Waltz, nada podia garantir aplicação das regras ou dos objetivos 
comuns. Hierarquia de Ralph rompida pelo desafio de Jack. Surgem duas sociedades distintas: 
resgate/fogueira vs. Sobrevivência/caçada. Quase todos os meninos se juntam a Jack: comida e proteção. 
Conflito mortal entre os dois grupos: Piggy é morto. Oficial da marinha chega para investigar 
incêndio causado para tirar Ralph da floresta: anarquia dá lugar à hierarquia 
As três imagens no filme 
 
KISSINGER 
Kissinger Nascido em 1923 na Alemanha em família judia foge com a família em 38 para os EUA. E 
Lutou na Segunda Guerra Mundial. Ocupou ainda posições de poder na diplomacia dos EUA entre 1969 e 
1977. De 1969 a 1975: Conselheiro Nacional de Segurança (presidentes Nixon e Ford) e De 1973 a 1977: 
Secretário de Estado. Em sua Passagem pelo governo fez Détente entre as superpotências, Abertura à China 
comunista, Cessar-fogo na guerra do Yom Kippur , Fim da Guerra do Vietnã. 
Primazia da política e do interesse nacional são centrais para a sua abordagem conceitual da política 
externa e da diplomacia como Foco na diplomacia europeia tradicional. 
Avesso ao idealismo liberal wilsoniano dos democratas e ao conservadorismo isolacionista de muitos 
republicanos. 
Ele buscou Destilar a essência imutável da política internacional a partir da análise de casos 
históricos e contemporâneos a fim de produzir conclusões gerais. Uma Aplicação prática das lições da 
história à ação política. 
Herdeiro da tradição clássica de teoria político-filosófica com grande carga histórica. As políticas 
externas dos Estados refletem o seu ambiente físico e seus recursos de poder, mas, antes de tudo, estão 
firmemente enraizadas no solo da história, pois a política presente é moldada pelo passado 
Visão filosófica trágica sobre a condição humana. Há muitos limites àquilo que a vontade humana 
pode mudar e os homens de Estado precisam lidar com o reino das necessidades, trabalhando com as 
circunstâncias possíveis colocadas. 
Entre lidar com o mundo como ele é ou atuar em função de como o mundo deveria ser, Kissinger 
recomenda a primeira opção. Assim o Conhecimento da história ilumina esse percurso: antídoto à tendência 
de achar que vivemos em um mundo inteiramente novo e completamente maleável/alterável. 
Kissinger faz uma Abordagem geopolítica e estratégica para a política internacional para Encaixar as 
necessidades dos tomadores de decisão. A partir dos Pressupostos de que os Estados são os atores centrais e 
suas ações são motivadas por preocupações com a segurança nacional. 
Principal preocupação da obra teórica e do seu trabalho no Estado é a estabilidade do sistema 
internacional e necessidade de ordem. Exercício do poder deve trazer consigo a responsabilidade de aceitar 
os limites da autocontenção 
Sua principal obra: Diplomacia (1994) se deu num contexto de fimda Guerra Fria (década de 1990) 
onde havia Desafio ideológico comunista e ameaça geopolítica soviético vencidos. Houve Triunfo da 
democracia liberal-representativa e dos livres mercados: nenhum sistema rival alternativo. Esperança de 
novos tempos, de uma nova ordem mundial wilsoniana (Cooperação, papel das Ois, do direito internacional, 
difusão da democracia e da paz, expansão do capitalismo, do livre comércio e dos livres mercados). 
Com a multiplicação do número de Estados e de sua capacidade de interagir, com base em quais 
princípios pode uma nova ordem mundial surgir? Conceitos wilsonianos substituirão o que um dia foi a 
política de contenção ao comunismo durante a Guerra Fria? 
Woodrow Wilson foi criador da visão de uma organização mundial universal, a Liga das Nações. 
Pressupostos do wilsonismo: Segurança coletiva; Converter rivais ao modelo estadunidense 
(excepcionalismo e universalidade dos valores dos EUA), Solução de disputas pela via legal, 
Autodeterminação dos povos. 
Pela Terceira vez no século XX em que tentavam refazer o mundo à sua imagem, com a aplicação 
dos valores internos dos EUA para o mundo inteiro (Wilson; Roosevelt/Truman: duas primeiras vezes) 
Por que não deu certo? Com Wilson havia a barreira do isolacionismo doméstico (EUA não 
ratificaram tratado de criação da Liga das Nações), com Truman: barreira do expansionismo stalinista-
soviético. 
Nos Anos de 1990: EUA eram a única superpotência indisputável, Mas o poder ficou mais difuso e 
diminuíram questões em que a força militar é relevante: capacidade dos EUA de usá-lo para moldar o 
mundo diminuiu. 
Forças da política internacional farão os EUA serem cada vez menos excepcionais. Poderio militar 
continuará sem rival por tempo considerável, mas de difícil projeção sobre imenso número de conflitos de 
pequena escala. 
EUA continuarão a ser por bom tempo maior economia e a mais poderosa, mas haverá maior 
competição econômica e difusão tecnológica entre rivais. Com o tempo, uma nação entre as outras e não 
mais superpotência incontrastável: ascensão de outros centros de poder (na época via especialmente Europa, 
Japão e China). 
O Mundo estava cada vez mais parecido com o sistema europeu de Estados dos séculos XVIII e 
XIX: 5 ou 6 potências maiores buscando seus interesses nacionais imediatos. 
Falta uma ameaça compartilhada de dominação como havia na Guerra Fria: principais Estados não 
veem ameaças à paz da mesma forma e não estão dispostos a incorrer nos mesmos riscos e custos para 
enfrentar as eventuais ameaças que veem em comum. A Ordem terá que vir do equilíbrio desses interesses 
competitivos. 
Kissinger analisa o antigo e longo diálogo na teoria e na prática diplomática entre as perspectivas da 
política externa pessimista do realismo e otimista do liberalismo. As duas perspectivas são legítimas e 
nenhuma delas deve ser ignorada. Conceitos wilsonianos não foram sucesso absoluto nem fracasso total. 
Entre seus Sucessos parciais: Plano Marshall, contenção do comunismo e defesa da liberdade na Europa, 
malfadada Liga das Nações que foi precursora da ONU. 
E seus Fracassos: adoção sem crítica da autodeterminação produziu desestabilização (rivalidades e 
ódios acumulados desaguaram); Liga das Nações sem mecanismo de sanção militar + Pacto Briand-Kellog: 
limites do direito internacional; busca da democracia pela política externa gerou desastres como Vietnã. 
Wilsonismo não foi sucesso absoluto nem fracasso retumbante, mas as bases preferidas para uma 
política externa bem-sucedida para os EUA são as do realismo. Apesar de a opinião liberal ser importante, a 
realista sempre será a primeira em importância porque é a melhor perspectiva sobre o problema central das 
RI: a guerra. 
Além disso, o excepcionalismo, base do wilsonismo, está se erodindo: cada vez mais difícil aplicar as 
suas orientações. Tentativa de criar ordem mundial baseada nos seus valores não dará conta do mundo pós-
Guerra Fria. 
Quais princípios devem então guiar a política externa dos EUA no século XXI? A Política externa 
dos EUA deve ser orientada por uma avaliação realista das reduzidas escolhas disponíveis e possíveis, 
inclusive para uma superpotência como os EUA, em um mundo diverso formado por muitos Estados 
independentes com diferentes interesses, culturas, ideologias políticas, sistemas de governo etc. 
Nos EUA há um impulso idealista e crença no potencial transformador da liberdade de ação humana, 
porém Kissinger sugere aprender a dosar e equilibrar essa esperança com avaliação prudente do que é 
possível e necessário. 
Os Estadunidenses sempre acharam a razão de Estado repugnante: afirmam lutar por princípios e 
ideais (não por interesses). Era um Doutrina da “esperança e possibilidade”. 
Kissinger tem um Foco histórico de compreensão e análise. Mudanças na natureza das unidades 
componentes do sistema internacional produzem turbulências e guerras. Por exemplo: Guerra dos Trinta 
Anos (guerras religiosas) (fim das sociedades feudais tradicionais e transição para o sistema de Estados) 
Revolução Francesa e guerras napoleônica (surgimento do Estado-nação, da ideia de nacionalismo: 
comunidades de língua e cultura), Guerras do século XX (fim dos impérios Habsburgo, Otomano, reação 
contra – e fim do – imperialismo europeu). 
Se o sistema internacional do século XXI ficará cada vez mais parecido com o sistema europeu de 
Estados dos séculos XVIII e XIX, precisamos buscar lições na diplomacia europeia clássica da política de 
poder desse período, anterior ao século XX. Principalmente em Figuras-chave como Richelieu e Metternich. 
No século XXI, defesa do interesse nacional pelo governo dos EUA terá de passar necessariamente 
pelo equilíbrio de poder. País precisará de sócios em várias regiões do mundo e nem sempre eles poderão ser 
escolhidos por considerações morais. 
Kissinger reconhece que, devido ao peso da tradição idealista-wilsoniana, os EUA não conseguem 
basear sua PE exclusivamente no equilíbrio de poder. Mas no século XXI terão que aprender que ele é 
fundamental, sabendo usá-lo: SI muito mais complexo que qualquer outro. EUA não podem vencer apenas 
pelo exemplo de suas virtudes e boas ações (sistema wilsoniano global impossível). 
Devem fazer avaliação cuidadosa das realidades e definir claramente o interesse nacional, valendo-se 
da razão de Estado e equilíbrio de poder. 
 
 
Cardeal Richelieu (1585-1642) foi Primeiro-Ministro da França de 1624 a 1642. Pai do moderno 
sistema de Estados. Sob seus auspícios, a razão de Estado substituiu o conceito medieval de valores morais 
universais como princípio operador da política externa francesa. 
Contexto histórico: império Habsburgo austríaco-espanhol tentava reviver a universalidade católica 
com destruição do protestantismo e tentativa hegemônica na Europa. Resultado: guerra dos Trinta Anos e 
paz de Westfália (1648). 
Como príncipe da Igreja Católica, Richelieu deveria ter apoiado a tentativa do imperador Ferdinando 
II, Habsburgo, de restabelecer a ortodoxia católica na Europa, Mas Richelieu colocou o interesse nacional 
francês acima de qualquer objetivo religioso. Percebeu que a tentativa dos Habsburgo de restabelecer a 
religião católica era uma jogada hegemônica e uma ameaça geopolítica à segurança da França, uma 
Manobra política para dominar Europa Central e reduzir França a status de segunda classe. 
Richelieu deu liberdade de culto para protestantes franceses e apoiou príncipes alemães protestantes 
e o rei protestante da Suécia contra os Habsburgo. 
São Atitudes que revelavam a busca de um equilíbrio de poder. Assim Richelieu apresenta um 
conceito central para os realistas: a raison d’état, a razão de Estado. O bem-estar do Estado justifica a 
utilização de qualquermeio necessário para a sua garantia. O interesse nacional suplantou a noção medieval 
de uma moralidade universal. 
Outra noção e prática central em Richelieu: o equilíbrio de poder. Substituiu a nostalgia da busca de 
uma monarquia universal com a consolidação da ideia de que cada Estado, na busca por seus interesses 
egoístas e pela conservação da sua autonomia e independência, contribuiria do seu modo para a segurança e 
o progressos de todos os outros  comportamentos individuais dos Estados que, agregados, levam à 
dinâmica do equilíbrio/balança. 
Assim Equilíbrio de poder é uma coalizão de Estados mais fracos se forma como contrapeso ao 
Estado mais forte. Requer atenção constante. 
Richelieu: Estado não recebe créditos por fazer o que é certo, Só são recompensados por serem fortes 
o bastante para fazer o que é necessário. 
Única época na história da política internacional em que houve período pacífico mais longo foi o da 
balança de poder. Quando uma nação se torna muito mais poderosa em comparação ao seu oponente em 
potencial, o perigo da guerra emerge. 
Mundo melhor e mais seguro com EUA fortes e com Europa, Rússia, China, Japão e outras eventuais 
potências se contrabalançando uns aos outros não por meio da competição, mas de um equilíbrio igual. 
Um ponto central para o conceito de estabilidade internacional de Kissinger: ordem precisa estar 
ancorada em princípio de legitimidade e balança de forças/equilíbrio de poder. Sistema internacional com 
ordem mais duradoura sem um grande guerra foi o pós-Congresso de Viena: combinava esses dois 
elementos. 
A Legitimidade aqui não tem nada a ver com justiça, É apenas a existência de um 
framework/marco/estrutura comum da ordem internacional que é aceito e compartilhado. Um Código 
internacional de condutas sobre o qual os atores concordam e que se dispõem a seguir, estipulando os 
objetivos e ferramentas permitidos para a política externa dos Estados. Ou seja, valores comuns que 
restringem aquilo que as nações podem exigir. 
Equilíbrio: caso alguma nação insista com suas exigências para além do aceitável, o equilíbrio 
funcionará como barreira. Esse framework coletivo não previne os conflitos, mas limita seu alcance e 
intensidade. 
Sempre que o status quo e o seu framework legitimador forem percebidos como opressores ou 
injustos por um Estado, como a Alemanha depois do tratado de Versalhes, esse Estado buscará minar essa 
ordem internacional e seus arranjos, tornando-se um poder revolucionário. 
Já em períodos revolucionários, como a Guerra Fria, sequer há um único framework legítimo: a 
própria natureza do sistema internacional estava em disputa (conflito só pode ser resolvido com derrota total 
de um dos lados). 
Congresso de Viena (1815): ordem duradoura de 40 anos. Fim com a Guerra da Crimeia (1854), mas 
mesmo depois houve 60 anos relativamente estáveis. Havia um Senso de valores e sentimentos comuns de 
legitimidade entre monarquias conservadoras e Equilíbrio de poder bem ajustado. Tinham o Objetivo inicial 
de conter França pós-Napoleão. 
A Tragédia do século XX não foi a devastação de 2 guerras mundiais seguida por 1 Guerra Fria, 
segundo Kissinger mas sim que a arte de conduzir a paz de maneira moderada e mutuamente aceita que 
tinha existido no século XIX, com o Concerto Europeu, pós-Congresso de Viena (1815), tenha sido 
esquecida. 
Rússia: apoiar não só a reforma democrática interna (projeto wilsoniano), mas também criar pesos e 
obstáculos à possível expansão russa. Já antecipava retorno das tensões da Rússia com vizinhos, com 
destaque para Ucrânia. 
EUA podiam descuidar da OTAN?Adequá-la para novo contexto e papel dos EUA na Europa: evitar 
excessos da Rússia e da Alemanha unificada. Junto com união europeia estendida, daria segurança para 
países do Leste Europeu (era favorável à inclusão deles na OTAN, o que ocorreria anos mais tarde). 
 
Presença militar dos EUA deveria continuar no sudeste asiático: equilibrar China e Japão, Japão: 
risco de nacionalismo reaparecer (ameaças da China, Coreia e Rússia), China: potência que mais cresce, 
com forte sentido de coesão nacional e força militar poderosa. Não tinha clareza sobre se maior ameaça seria 
da China, Rússia ou Islã fundamentalista. 
 
BULL – A ESCOLA INGLESA (CORRENTE INTERNACIONALISTA / DA SOCIEDADE 
INTERNACIONAL) 
Durante a Guerra Fria, uma escola de RI no Reino Unido apresentou duas diferenças fundamentais. 
Negação de qualquer distinção severa entre as visões realista e liberal (primeiro debate das RI) e Enfoque de 
pensamento tradicional em oposição aos behavioristas/cientificistas (segundo debate das RI). 
Vários dos seus principais teóricos não eram exatamente ingleses, mas da Austrália, Canadá e da 
África do Sul. Dois grandes expoentes: Martin Wight e Hedley Bull 
Teóricos da sociedade internacional: conceito-chave 
Reconhecem a importância do poder e o papel dos Estados Mas rejeitam que a política mundial seja 
estado de natureza hobbesiano desprovido de normas, regras e instituições internacionais comuns que a 
maioria dos Estados deve cumprir durante a maior parte do tempo. 
Poder e as leis (normas e regras comuns) estão presentes simultaneamente (poder e interesses 
nacionais + normas e instituições). De fato não há um governo mundial e prevalece a anarquia Mas a 
anarquia internacional é uma condição social e não antissocial: a política mundial é uma sociedade 
anárquica com instituições, normas e regras. 
Fazem então uma Associação de ideias realistas e liberais clássicas, uma alternativa a ambas. Há 
conflito e relações de poder, mas cooperação não pode ser ignorada. Vão por uma Via intermediária: nem 
otimismo liberal nem pessimismo realista. O Sistema de Estados é um conceito realista e ideia de sociedade 
de Estados remete ao liberalismo. 
Éticas da prudência e do interesse nacional (poder) + obrigação de cumprir regras e procedimentos 
internacionais (direito). 
Consideram ONGs e OIs como atores marginais e Subestimam relações transnacionais. Fazem ainda 
uma Abordagem histórica, legal e filosófica acerca das relações internacionais. Não buscam elaborar nem 
testar hipóteses para construir leis científicas de RI, nem tentar explicar as relações internacionais de modo 
científico: buscam entender e explicar. 
Problemas que envolvem questões humanas são repletas de valores, não é possível haver uma 
resposta científica neutra nem respostas gerais ou abstratas universais. 
 
Hedley Bull (1932-1985) Nascido em Sydney, fez carreira no país de origem e no Reino Unido. Foi 
Professor na Universidade Nacional Australiana, LSE e Oxford e Discípulo de Martin Wight. Seu livro “A 
Sociedade Anárquica” é considerado a melhor expressão da Escola Inglesa. E ainda Filósofo da política 
mundial que tentou elaborar uma teoria sistemática da sociedade internacional. 
Só é possível teorizar RI dentro do contexto de eventos e episódios históricos concretos. Projeto 
teórico de uma teoria normativa das RI baseada na filosofia de Grotius. 
Centralidade da ideia de sociedade internacional, da qual virá reflexão sobre a ordem internacional 
(ideia de ordem vinculada à existência da sociedade internacional). Para Bull a ordem é sim parte do registro 
histórico das relações internacionais. Os Estados modernos formaram e continuam a formar não só um 
sistema de Estados, mas também uma sociedade internacional. 
Essa Sociedade internacional é assentada em interesses, valores, regras e instituições que geram 
ordem, ou seja, arranjos de atividades internacionais destinados à consecução de certos objetivos bem 
definidos. 
Assim ele junta dois conceitos que aparentam ser contraditórios: sociedade e anarquia. Sociedade 
pressupõe existência de um grau mínimo de valorese referências comuns entre seus membros que gera certa 
ordem, a anarquia vista tradicionalmente como ausência de ordem. 
O Ponto de partida das relações internacionais: existência de Estados. Sendo Estado uma comunidade 
política independente com governo soberano, território e povo, detendo soberania interna (supremacia sobre 
todas as autoridades dentro daquele território) e soberania externa (independência frente às autoridades 
externas). 
Quem se encaixa nessa definição de Estado? No passado, cidades-Estado da Grécia Antiga, da Itália 
renascentista e os modernos Estados nacionais, mais recentemente. 
 Bull define Sistema de Estados/sistema internacional como dois ou mais Estados que têm suficiente 
contato entre si, com impactos recíprocos nas suas decisões, de tal forma que se conduzem como partes de 
um todo. Ou seja, é a junção de Contato regular e Interação que faz com que comportamento de cada um dos 
Estados tenha que ser levado em conta nos cálculos dos demais. 
Essa interação entre os Estados pode assumir a forma de cooperação ou de conflito, ou mesmo de 
neutralidade ou indiferença com relação aos objetivos de cada um. Essa interação pode abranger muitas 
atividades ou apenas 1 ou 2 delas. 
Existe uma sociedade de Estados/sociedade internacional quando um grupo de Estados, conscientes 
de certos valores e interesses comuns, consideram-se ligados por um conjunto comum de regras e participam 
de instituições comuns. 
Na sociedade internacinal há Percepção de interesses e valores comuns, ou seja, vínculo a certas 
regras no seu inter-relacionamento, tais como: a) respeitar independência de cada um; b) honrar acordos; e 
c) limitar uso recíproco da força e ainda cooperam para o funcionamento de instituições, tais como: 
procedimentos do direito internacional, maquinaria diplomática, costumes e convenções de guerra. 
(Sociedade internacional: Interesses, valores e regras comuns, com desenvolvimento de instituições 
compartilhadas). 
A Sociedade internacional pressupõe um sistema internacional, mas pode existir um sistema 
internacional que não seja uma sociedade internacional, 2 ou mais Estados podem ter contatos e interagir, 
mas sem interesses e valores comuns que os levem a perceber que estão sujeitos a um conjunto comum de 
regras e cooperando para funcionamento de instituições comuns. 
No Sistema internacional não há percepção de interesses ou valores comuns que confiram aos 
contatos e interações regulares uma perspectiva de permanência, não há regras sobre como interação deve 
prosseguir, não há tentativa de cooperar em instituições nas quais haja um interesse comum. 
A Ordem internacional é o padrão, arranjo das atividades internacionais que sustentam os 4 objetivos 
elementares de uma sociedade internacional: 1) Preservação do próprio sistema e da sociedade de Estados, 
2) Manter a soberania e independência dos Estados, 3) Manutenção da paz e 4)Três objetivos comuns a toda 
vida social (Expectativa de segurança contra a violência (proteção da vida); Garantia de cumprimento das 
promessas e acordos (verdade); Estabilidade na posse da propriedade) 
1) Garantir que a sociedade de Estados continue a ser a forma predominante da organização política 
mundial. Desafios podem vir de Estados dominantes ou com pretensões hegemônicas e imperialistas, 
atores supra-estatais, sub-estatais ou trans-estatais. Manter Estados como principais atores. 
 
2) Manter soberania e independência dos Estados. Estado que participa da sociedade internacional quer 
o reconhecimento da sua soberania externa e interna. Admite então direitos iguais à independência e 
soberania dos outros Estados. Esse Objetivo está subordinado à preservação da sociedade 
internacional: extinção de Estados individuais para garantir equilíbrio de poder ou limitação de 
soberania em esferas de influência ou criação de Estados tampões. 
 
 
3) Manutenção da paz: Que a ausência da guerra – e não uma paz permanente ou universal – seja a 
situação normal, rompida apenas em casos especiais e de acordo com princípios aceitos. Objetivo 
subordinado aos dois anteriores: pode ser apropriado fazer guerra para preservar SI + Estados 
insistem no direito à guerra para autodefesa e proteção de outros direitos 
 
4) Três objetivos de toda vida social: Limitação da violência, cumprimento das promessas e adoção de 
regras que regulam propriedade. Estados cooperam para manter monopólio da violência e negam a 
outros o direito de exercê-la + aceitam limitações ao seu próprio direito: pelo menos não matam 
enviados diplomáticos + aceitam que guerra deva ser justificada por uma causa que possa ser 
defendida em termos de regras comuns + adesão a regras que impõem limites à prática da guerra. 
Princípio do pacta sunt servanda: presunção de que acordos serão cumpridos se as coisas 
permaneceram como são (necessário para viabilidade da cooperação). Mútuo reconhecimento da 
soberania estatal deriva da noção de que certas populações e territórios pertencem ao patrimônio do 
respectivo governante 
Bull conceitua três tipos de ordem: Ordem na vida social (elemento essencial de todas as relações 
humanas), Ordem internacional (entre os Estados em um sistema ou sociedade de Estados) e Ordem mundial 
(entre a grande sociedade formada pela humanidade como um todo. Poderia ser alcançada por outras 
modalidades de organização política universal. Unidade primária são os seres humanos individuais. 
Aspiração cosmopolita ainda não existente). 
Na fase atual a ordem na política mundial ainda consiste na ordem interna – a ordem dentro dos Estados 
– e na ordem internacional – a ordem entre os Estados. A ordem depende de normas para que seja mantida e 
um fator importante tem sido o conjunto de regras no formato de lei internacional. 
Mas devemos levar em conta também as normas que não se expressam como regras do direito 
internacional. Há regras de ordem e coexistência que pertencem à esfera da política internacional como 
Equilíbrio de poder, direito internacional, diplomacia, guerra e papel das grandes potências (são as 
instituições da sociedade dos Estados). 
Ois são relevantes para manutenção da ordem, mas as causas fundamentais da ordem estão nas 
instituições acima descritas da sociedade internacional, surgidas muito antes das Ois e que continuariam a 
existir mesmo sem as Ois  instituições mais fundamentais e as Ois só contribuem para que elas operem 
melhor. 
Bull destaca ainda Três tradições doutrinárias e de pensamento em constante competição durante a 
história do moderno sistema de Estados. Hobbesiana (ou realista): política internacional como um estado de 
guerra. Kantiana (ou universalista): atuação de uma comunidade potencial de seres humanos para além das 
fronteiras dos Estados e Grociana (ou internacionalista): política internacional ocorre dentro de uma 
sociedade de Estados. 
 
Tradição hobbesiana 
 Guerra e disputa pelo poder entre os Estados 
 Conflito entre Estados: jogo de soma zero 
 Interesses de cada Estado excluem os de todos os outros 
 Paz é período de recuperação da última guerra e de preparação para a próxima 
 Só valem as regras da prudência e da conveniência: liberdade para Estado buscar suas metas 
 Direito internacional só será respeitado se for conveniente 
Tradição Kantiana 
 Conflito e solidariedade transnacionais superando as fronteiras dos Estados 
 Vínculos sociais transnacionais entre os seres humanos que existem em potência, mas que varrerão o 
sistema dos Estados quando aflorarem 
 Sociedade humana divida em dois campos: os que confiam na comunidade dos homens em outras 
bases e os seus opositores 
 Não há lugar para direitos de soberania 
 Grande comunidade humana cosmopolita ou luta revolucionáriada classe trabalhadora do mundo 
todo 
Tradição grociana 
 Política internacional em termos de uma sociedade internacional: posição intermediária 
 Estados são os principais atores e não os indivíduos ou classes sociais 
 Estados não vivem como gladiadores: há limite impostos a seus conflitos por regras e instituições 
mantidas em comum 
 Nem completo conflito nem harmonia de interesses de uma comunidade universal dos homens 
 O comércio – e não a guerra – é o que representa espírito dessa sociedade: intercâmbio econômico e 
social entre os Estados 
 Coexistência e cooperação 
 Tradição grociana: o elemento da sociedade internacional 
 Estados com certos interesses em comum mutuamente vinculados por regras e normas e cooperando 
por meio de instituições aceitas e utilizadas por eles 
Mais do que simples tradições de pensamento, essas 3 visões refletem 3 elementos que convivem na 
política internacional e competem entre si. O elemento grociano da sociedade internacional é só 1 dos 
elementos e compete sempre com os elementos do estado de guerra e da solidariedade ou conflito 
transnacionais. 
Elemento da sociedade internacional não é exclusivo ou necessariamente dominante: os outros 2 também 
são reais. Elementos de uma sociedade internacional sempre estiveram presentes e continuam a estar 
presentes no sistema internacional. O problema é que, muitas vezes, de maneira precária. 
Na maior parte do tempo, maioria dos Estados respeita regras básicas de coexistência, de respeito mútuo 
pela soberania, de cumprimento dos tratados e limitação do uso da violência. Na maior parte do tempo, 
também participa de instituições comuns: procedimentos do direito internacional, do sistema de 
representação diplomática, da aceitação do papel e responsabilidade especiais das grandes potência, das OIs. 
Mesmo no auge de uma grande guerra ou de um conflito ideológico, a ideia da sociedade internacional 
não desaparece. Por exemplo: 2ª. GM: aliados respeitavam regras da sociedade internacional entre si e frente 
países neutros + havia grupos dos 2 lados buscando negociar a paz + observavam convenções de Genebra 
sobre prisioneiros de guerra. Na GF: não interromperam relações diplomáticas, reconheciam suas 
soberanias, não repudiaram ideia de um direito internacional comum e não provocaram ruptura da ONU 
Muitos argumentam que não pode existir uma sociedade internacional em razão da anarquia, ou seja, da 
falta de um autoridade acima dos Estados. Para Bull a anarquia não anula a existência a sociedade 
internacional: sociedade anárquica. 
Três pontos fracos dos argumentos contra sociedade anárquica: 
1) sistema internacional moderno não se parece com o estado de natureza hobbesiano. Estados não 
investem todos os seus recursos na guerra, arruinando economia: gasto militar gera segurança e ajuda 
melhoria econômica. Ausência de governo mundial não impede interdependência econômica entre as 
nações. Noções de certo e errado e de propriedade estão sim presentes. Do estado de natureza hobbesiano, só 
se verifica disposição dos Estados de guerrear entre si. 
2) Temor de um governo supremo não é a única fonte possível de ordem - Há outros fatores que tornam 
homens capazes de uma coexistência social ordenada: interesse mútuo, sentido de de comunidade ou de 
vontade geral, hábito ou inércia. 
3) Estados são muito diferentes dos indivíduos. Pode até ser que indivíduos, sem governo, não consigam 
alcançar ordem, mas o mesmo não pode ser dito sobre a anarquia entre os Estados. Diferente do indivíduo, 
Estado não usa todas as energias na busca da segurança na anarquia, Não são vulneráveis a um ataque da 
mesma forma que indivíduos E nem todos são igualmente vulneráveis: diferença entre as grandes e 
pequenas potências. 
Porém, fato de que a sociedade internacional fornece certo elemento de ordem à política internacional 
não deve gerar complacência. Ordem é precária e imperfeita.

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