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JUSTIÇA E RECONHECIMENTO EM FRASER

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Justiça e reconhecimento em Nancy Fraser: interpretação teórica das 
ações afirmativas no caso brasileiro
Walace Ferreira
RESUMO: Este artigo procura relacionar a teoria da justiça e do reconhecimento da 
autora norte-americana Nancy Fraser com as ações afirmativas desenvolvidas no caso 
brasileiro. Para isso, demonstro os pontos principais de Fraser, para quem a justiça nos 
dias de hoje requer tanto a redistribuição de bens e riquezas sociais, como do 
reconhecimento valorativo-cultural das diferenças. Em seguida, demonstro o conceito
de ações afirmativas e como essa política tem sido desenvolvida na sociedade brasileira 
como resposta às desigualdades sociais e raciais. Por fim, estabeleço a relação teórica 
entre as ações afirmativas e a teoria fraseana.
Palavras-chave: Nancy Fraser; justiça e reconhecimento; ações afirmativas; Brasil.
ABSTRACT: This paper relate the theory of justice and recognition of north-american 
author Nancy Fraser with affirmative action developed in Brazilian case. For this 
purpose, I try to show the main points of Fraser. For this author, justice today requires 
redistribution of goods and social wealth, recognition and evaluative-differences. Then, 
I demonstrate the concept of affirmative action and how this policy has been developed 
in Brazilian society as a answer to inequalities social and racial groups. Finally, I 
establish the theorical relationship between affirmative action and the theory fraseana.
Keywords: Nancy Fraser; justice and recognition; affirmative action; Brazil.
Introdução
Numa sociedade capitalista parece impróprio descartar os interesses em 
distribuição material como potencial elemento motivador dos membros interessados na 
reivindicações de direitos.
Em sua teoria, a autora norte-americana, Nancy Fraser, defende que as demandas 
por reconhecimento são relativamente recentes na sociedade contemporânea, fazendo 
parte de uma evolução da sociedade capitalista, uma época chamada por ela de “era pós-
socialista”. No entanto, as demandas dos movimentos sociais por reconhecimento de 
identidades culturais é precisamente a minimização das questões referentes às 
desigualdades econômicas, numa ordem social globalizada e marcada por injustiças 
econômicas. Com isso, a tese de Fraser é de que a justiça nos dias de hoje requer tanto a 
redistribuição dos bens e das riquezas sociais, como do reconhecimento valorativo-
cultural das diferenças.
O que buscarei fazer, neste artigo, é mostrar como esta teoria fraseana faz sentido 
no caso de se pensar algumas medidas que têm sido incorporadas no Brasil com vistas à 
 
 Mestre em Sociologia/IUPERJ e doutorando em Sociologia IESP/UERJ. Ex-professor de Ciências 
Sociais da UERJ e, atualmente, professor substituto de Sociologia do Colégio Pedro II. E-mail: 
walaceuerj@yahoo.com.br.
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redução de desigualdades, ou seja, com a argumentação de busca por justiça social. 
Seria o caso das políticas das ações afirmativas enquanto ações voltadas para grupos
específicos que se encontram em posição desprestigiada socioeconomicamente por 
razões históricas. Aqui, tratarei especificamente do caso dos negros1 enquanto foco de 
algumas ações afirmativas.
1. A teoria do reconhecimento em Nancy Fraser
Colocando-se como uma das principais pensadoras da teoria do reconhecimento2, 
Fraser (2002) salienta que a luta por reconhecimento tornou-se paradigmática de 
conflito político no fim do século XX. Entende que demandas por reconhecimento das 
diferenças alimentam a luta de grupos mobilizados sob importantes bandeiras, como da 
nacionalidade, etnicidade, raça, gênero e sexualidade. Argumenta que nesses conflitos, 
da “era pós-socialista”, identidades grupais substituem interesses de classe como 
principal incentivo para mobilização política. Dessa forma, aponta que disputas por 
reconhecimento acontecem em um mundo de desigualdade material exacerbada, na 
renda e posse de propriedades, no acesso a trabalho assalariado, na educação, no 
cuidado da saúde e no lazer. 
Numa interpretação crítica do que vem acontecendo, a autora salienta que as 
reivindicações por justiça social apontam cada vez mais para uma subdivisão em dois 
tipos. No primeiro estariam as reivindicações de ordem redistributivas, as quais 
defendem uma busca por distribuição mais justa dos recursos e das riquezas. Já no 
segundo tipo estariam as chamadas “políticas de reconhecimento”, em que a meta 
principal visa um mundo que acolha amistosamente as diferenças, “um mundo onde a 
 
1 Aqui existe uma ponderação relevante: negros no país não são minoria, como os grupos para quem são 
pensados esses tipos de política de reconhecimento, mas compõem parte considerável da população. 
Somando pretos e pardos, para usar a referência do IBGE, chegamos a quase metade da população 
brasileira.
2 Fraser traça relevante debate teórico na seara da teoria do reconhecimento com Axel Honneth. Tanto ela 
quanto Honneth desejam colocar a categoria do reconhecimento como central para a reconstrução de um 
pensamento crítico em relação às lutas sociais contemporâneas, teorizando o lugar da cultura no 
capitalismo e pensando padrões de justiça. Honneth, seguindo a tradição hegeliana, defende que o 
reconhecimento intersubjetivo é a condição para o desenvolvimento de uma identidade positiva 
necessária para a participação na esfera pública. Fraser, ao contrário, deseja enxergar o reconhecimento 
não como uma categoria central da Sociologia e da Psicologia Moral baseada na idéia de que o 
reconhecimento está ligado à auto-realização individual, mas, sim, como uma questão essencialmente de 
justiça. Ao contrário de Honneth, ela segue a tradição kantiana, daí querer mostrar, portanto, que a 
categoria do reconhecimento pode ser mais bem explicada de acordo com um padrão universal de justiça.
Quem tiver interesse, pode ver: HONNETH, Axel. Luta por Reconhecimento – A gramática moral dos 
conflitos sociais. São Paulo. Ed. 34, 2003.
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assimilação nas normas culturais majoritárias ou dominantes não seja mais o preço que 
se tenha de pagar por igual respeito” (Fraser, 2002, p. 7).
Nesse sentido, o discurso acerca de justiça social, antes centrado na distribuição, 
hoje se encontraria, na opinião da autora, dividido entre reivindicações por 
redistribuição, de um lado, e reconhecimento, de outro.
1.1. Integração entre redistribuição e reconhecimento na sociedade atual
Na medida em que Fraser pretende integrar redistribuição e reconhecimento em 
uma estrutura única, a principal tarefa para a teoria social passa a ser a de entender as 
relações entre distribuição e reconhecimento na sociedade contemporânea. Isso significa 
teorizar as relações entre a ordem do status e a estrutura de classe no capitalismo 
globalizante da modernidade tardia. Quanto a essa questão diz a autora:
“Uma abordagem adequada terá de admitir a complexidade total dessas 
relações, tratando, tanto da diferenciação entre classe e status, como das 
interações causais entre eles, acolhendo a mútua irredutibilidade de 
distribuição e reconhecimento, assim como seu entrelaçamento na prática” 
(Fraser, 2002. p. 12).
A ordem cultural da sociedade atual não apresenta fronteiras nitidamente 
demarcadas. Devido a fatores como as migrações de massa, diásporas, cultura de massa 
globalizada e esferas públicas transnacionais, é impossível demarcar precisamente onde 
termina uma cultura e onde começa outra. Ambas encontram-se internamente 
hibridizadas. Além disso, a ordem cultural da sociedade contemporânea é 
institucionalmente diferenciada, em que uma multiplicidade de instituições regula uma 
multiplicidade de arenas de ação segundo padrões distintos de valores culturais. Nossa 
sociedade também tem uma