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Protozoários coccídeos intestinais – os emergentes Diferente dos demais parasitos que estudamos até agora no módulo 1, todos pertencentes ao Filo Sarcomastigophora, os protozoários emergentes fazem parte do Filo Apicomplexa. Mas o que isso tem a ver? Isso quer dizer que, em determinadas fases da vida, eles possuem no pólo anterior de seu corpo alongado, estruturas celulares especiais que formam o complexo apical, destinado à sua fixação e penetração nas células dos organismos hospedeiros. Também são os primeiros estudados até então que são parasitos intracelulares obrigatórios e apresentam um ciclo biológico onde se alterna a reprodução assexuada e a sexuada. O ciclo de vida desses parasitos é monoxênico e pode ser explicado da seguinte maneira: 1. Ciclo assexuado ou Esquizogônico: O esporozoíta, forma delgada e móvel, dotada de complexo apical, abandona o esporocisto e invade as células do epitélio digestivo (e outras células) do organismo do hospedeiro e torna-se um parasito intracelular (isso tudo sendo facilitado pela ingestão de esporos que estavam presentes na água e alimentos contaminados). Ali sofre modificações morfológicas (inclusive perda do complexo apical) e seu núcleo passa por um processo de multiplicação que resulta no esquizonte. Depois, o citoplasma também se divide e dá origem a elementos filhos uninucleados, dotados de complexo apical (merozoítos). O processo é chamado de reprodução esquizogônica ou esquizogonia. Estes invadirão outras células e iniciarão o processo novamente. 2. Ciclo sexuado ou Esporogônico: Os merozoítos produzidos por reprodução assexuada também podem encaminhar-se para um processo de reprodução sexuada (esporogonia). Estes se diferenciam em células especializadas (gametócitos) e aqueles que produzem gametas masculinos chamam-se microgametas e os que se transformarão em gametas femininos são os macrogametas. Ocorre a cópula e formam um ovo ou zigoto, que logo encista e passa a se chamar oocisto. Os protozoários emergentes discutidos aqui pertencem a Classe Coccidia e todos apresentam as características citadas acima. Os gêneros que iremos abordar são: Cystoisospora (C. belli), Cryptosporidium (C. parvum, C. hominis) e Cyclospora (Cyclospora cayetanensis). 1. Cystoisospora A cistoisosporose humana é mais frequente em regiões quentes, onde as condições de higiene são precárias. O homem se infecta mediante a ingestão de oocistos esporulados em água e alimentos contaminados. Na luz do intestino delgado, os esporozoítas (formas encurvadas, em forma de banana, e de extremidades afiladas, numa das quais se encontra o complexo apical) são liberados e invadem as células epiteliais da mucosa, onde se multiplicam por esquizogonia. Assim que as células parasitadas se rompem, os merozoítas invadem outras células. Por fim, parte dos merozoítas evoluem para gametócitos e darão origem aos oocistos. Os oocistos são ovais/elípticos, com extremidades afuniladas. São eliminados nas fezes sem esporular ou parcialmente esporulados. O processo de esporulação ocorre no meio ambiente, entre um e três dias, dependendo das condições climáticas, quando se tornam infectantes. A esporulação pode ser rápida, ocorrendo em menos de 24h, à uma temperatura de 30°-37°C. Patologia e Clínica A patogenia da cistoisosporose envolve alterações na mucosa do intestino delgado, que resulta na síndrome da má absorção. As principais alterações microscópicas são atrofia das vilosidades e hiperplasia das criptas devido à destruição das células epiteliais. A eosinofilia é frequente nos casos de cistoisosporose. Os indivíduos infectados pelo C. belli geralmente são assintomáticos, apresentando apenas um quadro de febre e diarreia autolimitante, com cura espontânea a sem necessidade de medicação. Porém, em indivíduos imunodeficientes, o C. belli produz, eventualmente, uma diarreia debilitante e de curso prolongado que pode levar à morte. A presença de cistos unizoicos extraintestinais em linfonodos mesentéricos e traqueobroqueais, baço, fígado e mucosa intestinal (geralmente em pacientes imunodeficientes) constituem, provavelmente, a causa de recidivas da infecção frequentemente observada. Esses cistos podem ser resistentes ao tratamento. Diagnóstico Encontro de oocistos não esporulados ou parcialmente esporulados nas fezes. Se utiliza métodos de concentração (flutuação em solução saturada de sacarose e flutuação em sulfato de zinco) e existe a questão da intermitência de eliminação (semelhante aos outros parasitos que foram estudados até agora). São facilmente evidenciados nas preparações coradas (técnica de safadrina-azul de metileno ou ainda auramina-rodamina). Os oocistos também exibem autofluorescência quando utilizados filtros para a luz ultravioleta. P.S: A presença de cristais de Charcot-Leyden nas fezes indica infecção por C. belli (ainda devido à questão da eosinofilia). Tratamento Sulfametoxazol-trimetropim. Outros: metronidazol, sulfadiazina-pirimetamina. Pirimetamina – de escolha quando o paciente é alérgico às sulfas. Com relação à profilaxia, como eu já disse antes, sabendo a forma de transmissão, a profilaxia se torna até intuitiva. Já a epidemiologia, saber que é mais frequente na América Central, África tropical e Sudeste Asiático. 2. Cryptosporidium Esse é o que eu irei dar mais atenção, porque ele é o principal mesmo. Baixa especificidade → C. parvum em espécies distintas. C. hominis como espécie que infecta o ser humano. Essas duas espécies são as que apresentam a maior relevância e ocorrência, pois são responsáveis por numerosos surtos de criptosporidiose de transmissão hídrica em vários países. Morfologia Desenvolvem-se, preferencialmente, nas microvilosidades de células epiteliais do TGI (mas podem ser encontrados em outras partes do corpo: trato respiratório, vesícula biliar, ductos pancreáticos, esôfago e faringe). O conteúdo das organelas secretórias do complexo apical (roptrias, micronemas, grânulos densos, microtúbulos) participam na adesão, invasão e formação do vacúolo parasitóforo, bem como da reorganização do citoesqueleto da célula hospedeira. Os oocistos do Cryptosporidium são pequenos, esféricos ou ovóides e contêm 4 esporozoítos livres no seu interior quando eliminados nas fezes. Não há presença de esporocistos. Multiplicação assexuada (merogonia): ocorre duas gerações de merontes que produzem oito merozoítos (tipo I) e quatro merozoítos (tipo II). Merozoíto tipo II dará origem ao micro ou macrogamonte, que dão origem ao micro e macrogameta, respectivamente. Multiplicação sexuada (gametogonia): citada lá no começo do resumo. Dois tipos de oocistos são formados: um de parede espessa que é eliminado nas fezes, e outro de parede delgada, que se rompe no intestino delgado, e é responsável pelos casos de autoinfecção. Transmissão Pessoa a pessoa (em ambientes de grande aglomeração, por contato direto ou indireto); animal a pessoa; ingestão de água e alimentos contaminados por oocistos. Patogenia e Sintomas Mais frequente em imunodeficientes (apenar de ser relativamente frequente em imunocompetentes também). A patogenia é influenciada por vários fatores que incluem idade, resposta imune e associação a outros patógenos. As alterações provocadas nas células epiteliais pelo protozoário interferem nos processos digestivos que resultam na síndrome da má absorção, decorrentes da perda da área de absorção e diminuição do transporte de nutrientes. Os achados histológicos na criptosporidiose mostram atrofia das vilosidades, hiperplasia e achatamento das criptas. Há produção de neuropeptídios e citocinas inflamatórias, as quais explicam sintomas como dores nas articulações.Sintomas como esse, além de cefaleia e dor ocular (sintomas não relacionados ao TGI) são registrados com maior frequência entre os portadores de infecção por C. hominis do que por C. parvum. Em indivíduos imunocompetentes: diarreia aquosa, com duração de um a 30 dias, anorexia, dor abdominal, náusea, vômitos, flatulência, febre baixa e dor de cabeça. Quadro clínico geralmente benigno e autolimitante. Em crianças, os sintomas são mais graves e pode ser acompanhado de desidratação. Em imunodeficientes: diarreia aquosa que perdura por meses, refratária a qualquer antimicrobiano e acentuada perda de peso, além de mortalidade elevada. Em portadores de HIV pode ocorrer ainda: colite, apendicite aguda, pancreatite, cirrose hepática e pneumopatias. O Cryptosporidium é considerado como um dos responsáveis pela diarreia de verão e dos viajantes em várias partes do mundo. Diagnóstico Feito pela demonstração de oocistos nas fezes, em material de biópsia intestinal ou em material obtido de raspado da mucosa. Nas fezes: métodos de concentração, como a flutuação em solução saturada de sacarose (Sheather) ou formol-éter (Ritchie), ou emprego de métodos especiais de coloração, como o Ziehl-Neelsen modificado, Kinyoun modificado, safranina-azul de metileno, Giemsa ou auramina e suas associações. Também pode ser utilizado o PCR e técnicas imunológicas como ELISA e IFI. Tratamento Antimicrobianos (Paramomicina, Roxitromicina, Espiramicina) e Nitazoxanida. 3. Cyclospora cayetanensis Estudar morfologia Patogenia, sintomatologia, tratamento e profilaxia são bem parecidos com o Cryptosporidium sp., eu não achei esse conteúdo nos livros, então procurem ler os slides. Diagnóstico diferencial com o C. parvum: tamanho do oocisto /ácido-resistência-variável / necessidade de esporulação. IMPORTANTE! Eu tirei essa tabela dos slides da professora. Lembrem desses detalhes básicos: Ana Carolina Almeida Monitora de Parasitologia Básica