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RADIOFREQUÊNCIA A radiofrequência (RF) constitui-se num recurso terapêutico que utiliza ondas eletromagnéticas de alta frequência para produzir calor em nível cutâneo e subcutâneo. Seu mecanismo de ação (vibração das moléculas de água) transforma a energia eletromagnética em energia térmica. O equipamento de RF emite sua energia através de eletrodos específicos montados numa ponteira de aplicação e, dependendo da tecnologia empregada na fabricação, os equipamentos se apresentam com dois tipos de ponteira: bipolar, que possui dois eletrodos ativos na própria ponteira de aplicação (Figura 14.46); e monopolar, em que há somente um eletrodo ativo na ponteira, e o outro, o passivo (dispersivo), é colocado numa região plana do corpo, próximo da área-alvo (evitar áreas com proeminências ósseas) (Figura 14.47). Há também equipamentos de ponteira monopolar com apenas um eletrodo emissor, sem eletrodo dispersivo (padrão indutivo) (Figura 14.48). Quanto ao processo de aquecimento, encontramos no mercado dois tipos de equipamento: resistivo e capacitivo. Os resistivos possuem eletrodos metálicos que ficam em contato direto com a pele da cliente durante a aplicação (acoplamento direto-resistivo) (Figura 14.49). Nos equipamentos com padrão capacitivo, os eletrodos são metálicos, mas estão isolados, não ocorrendo contato direto com a pele (acoplamento capacitivo) (Figura 14.48). Em nossa prática clínica, verificamos que ambos os tipos de equipamentos são eficientes para a produção de calor e podem ser utilizados para o tratamento do FEG. FIGURA 14.47 – Modelo de equipamento de radiofrequência que possui ponteiras monopolares com eletrodo dispersivo (equipamento Spectra, fabricado pela Tone Derm Paganin e Cia). FIGURA 14.48 – Modelos de ponteira encontrada em equipamentos capacitivos (ponteiras do equipamento Hooke, fabricado pela Ibramed Ind. Bras. Equip. Médicos). FIGURA 14.49 – Equipamento de radiofrequência que utiliza processo de aquecimento resistivo (equipamento Hertix, fabricado pela KLD Biosistemas) O equipamento de RF é considerado termoterapêutico, e a passagem das ondas eletromagnéticas pelo tecido pode gerar três fenômenos decorrentes do aumento da temperatura: • Vibração iônica: o aumento da temperatura é gerado quando os íons presentes nos tecidos submetidos à RF geram fricção e colidem entre os tecidos adjacentes. • Rotação das moléculas dipolares: a alta frequência faz as moléculas de água vibrarem e colidirem entre os tecidos adjacentes, gerando calor. • Distorção molecular: moléculas e átomos eletricamente neutros, ao serem submetidos à RF, não apresentam movimentação, o que gerará uma conversão mínima de energia elétrica em calor. A terapia por RF é um tratamento não invasivo, no qual os benefícios são diversos. Ao passar pelos tecidos e elevar a temperatura tissular, a RF faz com que o organismo promova uma vasodilatação, melhorando o trofismo tissular, a reabsorção de líquidos, o que leva a um ganho nutricional, a uma melhor oxigenação local e a um aumento da drenagem venosa, melhorando a reabsorção de catabólitos e diminuindo edemas. A temperatura elevada também promove a remodelação de fibras de colágeno e um depósito de novas fibras (neocolagenase), e, consequentemente, aumento da espessura e da densidade do tecido epitelial, minimizando a flacidez e deformidades na pele. Esse é um dos efeitos indicados para o FEG em que há associação com flacidez tissular local. Fitzpatrick et al. relataram a eficiência da RF em promover o incremento do colágeno em 83 clientes com flacidez facial. Esses clientes, com fototipo de pele de 2 a 4 e com idades entre 35 e 70 anos, foram expostos ao tratamento com a RF durante 6 meses, objetivando melhora das rugas ou da flacidez de pele periorbital. Como resultado, 92,8% dos indivíduos apresentaram melhora visível ou permaneceram iguais, 50% dos indivíduos relataram melhora e satisfação com o tratamento. No FEG, esse recurso terapêutico também é indicado para diminuição da camada de gordura imediatamente subcutânea, que normalmente está associada ao aspecto da casca de laranja. Nesse caso, a alta temperatura é utilizada para causar um trauma térmico na membrana adipocitária, inutilizando o adipócito para armazenar triglicerídeos, diminuindo a quantidade de gordura subcutânea. Segundo alguns autores, o aumento da temperatura no tecido adiposo subcutâneo, após a aplicação de uma corrente de RF, depende muito do tipo de gordura subcutânea presente na área-alvo de tratamento. O efeito está relacionado a diferentes condutividades elétricas através de vias específicas dentro (triglicerídeos em adipócitos) e fora (matriz extracelular) das células, assim como a diferentes tipos de células de gordura hipertróficas e hiperplásicas. Sendo assim, resultados da aplicação de RF em procedimentos de contorno corporal são fortemente dependentes da estrutura morfológica da gordura subcutânea. Jimenez-Lozano et al. relataram que a arquitetura dos septos fibrosos pode afetar o campo elétrico estático dentro de gordura subcutânea. Há maior absorção de energia elétrica nos filamentos dos septos fibrosos do que na gordura propriamente dita, e isso favorece o fluxo de densidade de corrente elétrica (Figura 14.52). Ao atingir o estado estacionário térmico, os septos fibrosos contribuem para aumentar o aquecimento seletivo de tecido adiposo subcutâneo, que mostra retração em razão da resposta termoelástica. Suárez construiu um modelo computacional com os seguintes objetivos: • determinar o aquecimento seletivo dos tecidos cutâneo e subcutâneo com RF, considerando-se duas condições de densidade espacial de septos fibrosos dentro do tecido subcutâneo: baixo (celulite grau 2,5) e alto (celulite grau 0, ou seja, a pele lisa); • analisar o efeito da densidade e orientação dos septos fibrosos sobre a resposta termoelástica durante o aquecimento local com RF; • quantificar os danos térmicos induzidos em ambas as estruturas dos tecidos subcutâneos após aquecimento com RF. Os resultados mostraram que uma maior densidade de septos fibrosos aumenta a força do campo elétrico para favorecer o fluxo de corrente elétrica e, consequentemente, aumenta a poder de absorção dentro do tecido subcutâneo. O aquecimento e os danos térmicos foram maiores nessa zona, com uma região de danos aproximadamente uma vez e meia maior do que em locais com baixa densidade de septos (Figura 14.52). Com esse estudo, autor concluiu que é importante incluir a real característica anatômica do tecido subcutâneo ao modelá-lo por aquecimento com RF para estimar com precisão os danos térmicos após o aquecimento com RF, a fim de avaliar a correta dosimetria utilizada. Em virtude desses conceitos, recomendamos que se dê preferência ao uso da ponteira monopolar no tratamento da celulite, por atingir camadas mais profundas, principalmente em afecções com graus mais avançados. Entretanto, entendemos que outros tipos de ponteiras (bi, tri, tetrapolar etc.) também são capazes de produzir efeitos no tratamento da celulite, principalmente quando associadas a outros recursos, como vacuoterapia/endermoterapia. Para a aplicação da RF, recomendamos a higienização do local a ser tratado com álcool a 70% e a delimitação da área com umlápis dermográfico (para melhor visualização da aplicação). Pode-se usar, como meio acoplante da ponteira, gel comum ou glicerina/vaselina, de acordo com o tipo de equipamento e ponteira escolhida para o tratamento (ver recomendações do fabricante) (Figura 14.50). FIGURA 14.50 – Aplicações de radiofrequência com meio acoplante à base de glicerina. O controle de temperatura pode ser feito de duas formas: pela sensação subjetiva de calor referida pela cliente e com um termômetro de infravermelho. Recomendamos a adoção das duas formas para maior segurança no tratamento. Quanto à sensação de calor informada pela cliente, podem-se adotar quatro níveis: • Nível 1: calor fraco. • Nível 2: quente. • Nível 3: muito quente. • Nível 4: calor insuportável. Na prática, o nível 2 é utilizado para fibroses e/ou endurecimento tecidual, e o nível 3, para estímulo de colágeno e ação sob a gordura subcutânea. Alertamos para se evitar o nível 4, pelo alto risco de queimadura. Tendo em vista que a sensação de calor referida não é a mesma em todas as pessoas, e pelo fato de ocorrerem casos de alteração de sensibilidade, recomendamos, a fim de prover maior segurança ao procedimento, o uso do termômetro de infravermelho ou de câmera termográfica (Figura 14.51). Quanto à temperatura no tratamento do FEG, pode-se alcançar uma temperatura de 37 °C a 38 °C em casos de FEG compacto e edematoso, mantendo-se por cerca de 5 minutos; para o FEG flácido, pode-se alcançar de 41 °C a 43 °C, mantendo-se por cerca de 5 minutos, se o objetivo for tratar somente a flacidez da pele envolvida no quadro do FEG. No entanto, segundo Trelles et al., a temperatura ideal para ação no tecido adiposo gira em torno de 42 °C, por cerca de 10 a 12 minutos. Por isso, recomendamos que se utilize por, pelo menos, 10 minutos se o objetivo for tratar também a gordura subcutânea na área acometida (Quadro 14.2). Tendo em vista que temperaturas acima de 40 ºC podem estimular a produção de colágeno nas traves fibróticas, com possível piora do quadro, recomendamos o uso, logo em seguida (“pele quente”), da vacuoterapia (como mencionado anteriormente neste capítulo). Quanto à periodicidade, recomendamos duas a três vezes por semana, em dias alternados, dependendo da temperatura adotada (Quadro 14.2). FIGURA 14.51 – Uso do termômetro de infravermelho durante a aplicação da radiofrequência em coxa (a) e imagem visualizada com câmera termográfica após o tratamento em região glútea (b). FIGURA 14.52 – Ressonâncias magnéticas de alta resolução in vivo da pele de duas mulheres correspondentes com duas condições de densidade de septos fibrosos: (a) baixa densidade (celulite grau 2,5); e (b) alta densidade (celulite grau 0, pele lisa) (as linhas escuras correspondem aos septos fibrosos dentro do tecido subcutâneo) (Fonte: Mirrashed et al., 2004103); a distribuição de temperatura no tecido subcutâneo após aquecimento com radiofrequência para duas condições de densidade de septos fibrosos: (c) baixa densidade de septos fibrosos atingiu 48,12 ºC e (d) alta densidade de septos fibrosos atingiu 49,27 ºC. A “marcação” (Ω = 1) corresponde ao limite de danos térmicos, assim, podemos notar que quanto maior a densidade de septos fibrosos, maior será a ação da radiofrequência sobre o tecido tratado (Fonte: Suárez, 2014) Entre as contraindicações, existem as absolutas e as relativas. Como contraindicação absoluta, recomendamos não se aplicar quando houver marca-passo cardíaco e/ou cerebelar (pode haver alteração no funcionamento); gravidez, principalmente antes dos três primeiros meses (há risco de malformação fetal); câncer e metástase (pode haver agravamento do caso), bem como infecções sistêmicas. As contraindicações relativas são: varizes, flebites e tromboflebites (pode haver intenso quadro de dor se a afecção estiver na área-alvo); osteossíntese (pode haver aquecimento do metal caso a aplicação ocorra em ossos superficiais e/ou com a ponteira monopolar); endopróteses (somente sobre articulações com a ponteira monopolar e o eletrodo dispersivo em posição contraplanar); glândulas (caso sejam atingidas, poderá haver alteração em seu funcionamento); alteração de sensibilidade (a cliente pode não conseguir informar o nível de calor sentido e pode haver queimaduras); infecções locais (pode haver disseminação do agente infeccioso); e clientes que fazem uso de vasodilatadores.