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LAPAROTOMIA EXPLORATÓRIA EM EQÜINOS: INDICAÇÕES E TÉCNICAS Dra. Robeta F. de Godoy-UNB

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LAPAROTOMIA EXPLORATÓRIA EM EQUINOS: INDICAÇÕES E TÉCNICAS
Profa. Roberta Ferro de Godoy
INTRODUÇÃO
A espécie eqüina apresenta peculiaridades anatômicas em seu aparelho digestivo, que a predispõe a alterações morfofisiológicas graves, responsáveis por dores abdominais violentas, sendo estas alterações conhecidas genericamente como cólica. A cólica compreende não uma só, mas várias afecções. Estas afecções promovem distúrbios neurocirculatórios graves que podem provocar a morte do animal. Assim, a cólica deve ser tratada como uma emergência, requerendo um atendimento imediato visando o alívio dos sintomas, enquanto se pesquisa a causa e institui-se um tratamento específico.
A cólica quando não tratada adequadamente é uma das maiores causas de óbito nos eqüinos. A ocorrência de cólica nos eqüinos é de 10 a 20 % e, se tratada, apenas 0,5% dos cavalos morrem devido a ela.
A pastagem constitui a alimentação natural do cavalo e, para tanto, seu aparelho digestório é adaptado, anatômica e fisiologicamente, para digerir alimentos volumosos. Com o advento da eqüinocultura, a alimentação do cavalo passou a ser “artificializada”, tornando-se muitas vezes insuportável para a capacidade funcional de seu aparelho digestório. “A maior causa de cólica nos eqüinos é o homem”. Outro agravante que o homem impôs ao cavalo é a estabulação, pois dizemos que animal encocheirado é sinônimo de cólica cirúrgica, uma vez que os animais que vivem em baia apresentam 40% de cólicas cirúrgicas, enquanto que nos de criação extensiva apenas 1% das cólicas são cirúrgicas.
A etiologia da cólica é múltipla e controvertida, porém existem alguns fatores predisponentes e determinantes para que o cavalo apresente a cólica. Um dos principais fatores predisponentes é a própria anatomia e fisiologia do sistema digestório dos eqüinos. As principais características predisponentes à cólica são:
-estômago pequeno em relação à grande capacidade digestiva total;
-o cavalo, devido a anatomia de seu estômago, não regurgita, nem vomita, nem eructa, o que dificulta o esvaziamento gástrico;
-intestino delgado longo, livre na cavidade abdominal, o que predispõe a torções e vôlvulos;
-o ceco e o cólon são órgãos que realizam a fermentação, estando sujeitos a acúmulo de gases;
-o cólon maior apresenta a flexura pélvica, um local de diminuição de diâmetro, local de possível compactação de alimentos de baixa qualidade e mal digeridos;
-baixo limiar de dor;
-o cavalo é adaptado ao pastejo constante, condição impossível de ser reproduzida na baia.
Dentre os fatores determinantes estão: alterações na quantidade e qualidade da alimentação, manejo (vermifugação e controle de ectoparasitas).
REVISÃO ANATÔMICA
*Estômago: 0,4 metro - 8 a 15 litros (Média 10L)
 	* Intestino Delgado: 20 metros - 50 litros
 	* Ceco: 1 metro - 30 litros
 	* Cólon maior: 3,5 metros - 70 litros
 	* Cólon menor: 3,5 metros - 20 litros
AVALIAÇÃO CLÍNICA E LABORATORIAL DO CAVALO COM CÓLICA
A semiologia completa deve ter início com a identificação do animal e anamnese para se conhecer o habitat, o paciente e suas particularidades.
3.1. Identificação
Apesar deste item incluir raça, pelagem, origem, devemos observar principalmente a idade e o sexo.
Animais em idade avançada freqüentemente apresentam deficiências dentárias que diminuem sua capacidade mastigatória e os impedem de triturar adequadamente os alimentos, levando a problemas digestivos.
Animais jovens sofrem principalmente com retenção de mecônio, úlceras gástricas (na época da desmama) e verminoses (Parascaris).
Quanto ao sexo, devemos atentar aos garanhões e sua predisposição às hérnias inguinais.
3.2. Anamnese
3.2.1. Manejo e alimentação
Qual é o regime de criação? Animais criados em regime de estabulação ou semi-estabulação adquirem hábitos alimentares diferentes, são mais estressados e adquirem vícios, estando sujeitos à condições que os predispõem às disfunções digestórias.
Qual é a alimentação? Aqui devemos primeiro questionar sobre o tipo do alimento concentrado, uma vez que rações pulverulentas (em pó) predispõem à sobrecarga gástrica mais que as rações peletizadas. Questionar a qualidade do volumoso, pois forragens com alto teor de fibra bruta podem causar compactações.
O questionamento da quantidade e freqüência oferecida rotineiramente e sobre se houve acesso a alimento concentrado ou volumoso em excesso nos traz informações importantes, pois a ingestão de alimentos em excesso pode causar sobrecarga gástrica ou compactação na flexura pélvica.
Devemos ainda perguntar se houve alterações no horário, na marca, no tipo de alimentação ou de pasto, pois estes fatores podem levar à uma ingestão excessiva e à uma sobrecarga gástrica.
Devemos também ficar atentos à mudanças de pessoal, períodos de festas, feriados e fins de semana, quando o animal pode receber alimentação em excesso para “compensar” o período em que não foi alimentado.
Como é feito o controle parasitário? A determinação de quando e como foi feita a última vermifugação permite avaliar as possibilidades ou não de parasitismo intestinal associado à cólicas. Enovelados de vermes podem causar obstruções. Strongylus vulgaris podem causar aneurisma da artéria mesentérica cranial e conseqüente isquemia intestinal. Vermifugações repetidas com ivermectina podem predispor à infestações por Anoplocephala perfoliata e conseqüentemente à intussuscepção ceco-cólica.
Foi realizado banho carrapaticida recentemente? Banhos carrapaticidas com amitraz podem determinar hipomotilidade e compactação na flexura pélvica. Organofosforados causam cólica espasmódica.
3.2.2. Característica da crise
Quando iniciou a cólica? Cólicas que duram dias ou semanas, normalmente ocorrem por alterações no intestino grosso.
Como iniciou a cólica? Cólicas de manifestação súbita com dor contínua e severa ocorrem na sobrecarga gástrica, por afecção do intestino delgado e por hérnias inguinais. Cólicas intermitentes e leves a moderada geralmente estão associadas a afecções do intestino grosso.
Quantas vezes o animal teve cólica? Animais que apresentam cólicas leves e intervaladas por um longo período e após meses ou anos apresentam uma crise mais forte, podem estar acometidos de úlceras gástricas, aneurisma por S. vulgaris ou hipertrofia de íleo.
O animal já foi operado de cólica? A laparotomia exploratória pode predispor à recidivas, devido às aderências pós-cirúrgicas.
Houve alguma atividade antes do início da cólica? A hérnia inguinal do garanhão geralmente se manifesta após a cobertura de uma égua.
Qual a intensidade e freqüência da dor? É muito importante saber se a dor é de caráter contínua ou intermitente (crises), se o grau de dor é severo, moderado ou leve.
Nas cólicas espasmódicas a dor tende a vir em formas de crises. Nas distensões gasosas e deslocamentos ou compactações simples de cólon maior a dor é suave a moderada, sendo muitas vezes intermitente.
Nas obstruções estrangulativas a dor quase sempre é contínua e severa.
Devemos saber se o animal rolou, cavou, suou, se jogou, se melhorou ou se piorou.
Perguntamos ainda se houve melhora súbita da dor. Esta ocorrência, após um quadro de dor contínua, pode estar relacionada à ruptura de vísceras (estômago, ceco ou cólon maior).
3.2.3. Administração de medicamentos
O veterinário deve sempre considerar a possibilidade do animal estar sob efeito de algum medicamento que tenha alterado seu estado clínico atual. Analgésicos e espasmolíticos produzem alívio no animal, podendo induzir a erros de avaliação da intensidade da dor.
Devemos averiguar: qual(is) medicamento(s) foram utilizados? Qual a quantidade? Quando foi administrado? Houve efeito?
Ainda devemos considerar a possibilidade do animal ter complicações pulmonares por administração de medicamentos por sondagem errada ou por “garrafadas”; ainda o animal pode ter sofrido ruptura de reto por lavagens intestinais com mangueira, por administração