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ANEMIA FERROPRIVA A anemia por deficiência de ferro é considerada a deficiência nutricional mais prevalente em todo mundo. Pode causar a redução da capacidade de trabalho em adultos e impactar no desenvolvimento mental e motor em crianças e adolescentes. Principais causas: Em adultos: • Ingestão insuficiente de ferro: dieta vegetariana desbalanceada, baixo nível socioeconômico. • Perda de sangue crônica: períodos menstruais intensos, doenças crônicas que envolvam sangramento (úlceras, pólipos ou tumores intestinais), hemorragias decorrentes de traumatismos. • Aumento das necessidades diárias: gestação, amamentação, crescimento na adolescência, exercícios competitivos. Em crianças: • Prematuridade e baixo peso ao nascer. • Ingestão insuficiente de ferro; amamentação exclusiva após os 6 meses de idade, introdução do leite de vaca, como principal alimentação, antes dos 12 meses, ausência ou baixa ingestão de carne, alta ingesta de leite de vaca. Além das causas citadas, a deficiência de transporte e/ou absorção de ferro podem contribuir com o aparecimento da anemia. Patogenia e apresentação clínica: A deficiência de ferro caracteriza por depleção progressiva dos estoques de ferro do organismo podendo ser dividida em três estágios distintos: Estágio 1: Depleção dos estoques de ferro. Neste estágio, os níveis de hemoglobina estão normais e os níveis de ferritina estão baixos. Estágio 2: Eritropoese ineficaz. Tanto os níveis de ferritina como de hemoglobina apresentam-se diminuídos. Estágio 3: Anemia. Os níveis de hemoglobina estão tão baixos que o sangue é incapaz de oxigenar suficientemente as células. Os principais sintomas incluem palidez severa, fadiga e taquipnéia. A citomorfologia dos glóbulos vermelhos apresentam-se microcíticas e hipocrômicas. Com os estoques de ferro deficientes, a hemoglobinização do eritrócito é comprometida levando o organismo a um estado de hipóxia. As células justaglomerulares do rim, sensíveis à baixa tensão de oxigênio, produzem a eritropoietina que estimula os precursores eritróides na medula óssea aumentando sua produção. Como o departamento de reprodução (responsável pelas divisões mitóticas dependentes da presença de ácido fólico e vit. B12) está normal, ocorrerá hiperplasia da série eritróide com aumento das divisões mitóticas e presença de células microcíticas. O departamento de maturação (responsável pela hemoglobinização da célula e, portanto na participação do ferro) está deficiente resultando em hemoblobinização anormal e presença de eritrócitos hipocrômicos. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL O diagnóstico laboratorial da anemia ferropriva é realizado através do hemograma e confirmado através de testes bioquímicos para avaliar os níveis de ferro e ferritina. A extensão sanguínea mostra glóbulos vermelhos microcíticos e hipocrômicos, o grau de microcitose e hipocromia varia com a gravidade da anemia. Pode-se observar presença de ovalócitos e hemácias em alvo (codócitos ou leptócitos). Os índices hematimétricos; VCM, HCM e CHCM estão baixos. O RDW está aumentado. O número de reticulócitos é baixo ou normal (eritropoese ineficaz), mas aumenta após o tratamento com suprimento de ferro. O ferro sérico está diminuído. O teste diagnóstico mais adequado é a dosagem de ferritina sérica. Pacientes com uma concentração baixa de ferritina (<25 ng/mL) apresentam alta probabilidade de estarem com deficiência de ferro. Outra alteração laboratorial que ocorre é o aumento da transferrina, proteína carreadora do ferro. A quantidade de ferro disponível para se ligar a estas moléculas está reduzida causando uma diminuição da saturação da transferrina (% da relação do ferro sérico e a capacidade total de ligação do ferro) e um aumento na capacidade de ligação total do ferro (TIBC). Outras anemias cursam também com microcitose e hipocromia, portanto faz-se necessário o diagnóstico diferencial. A anemia das doenças crônicas (infecção ou inflamação), anemia sideroblástica e talassemias, são exemplos comuns e diferenciam-se da anemia ferropriva por apresentarem os estoques de ferro (ferritina) aumentados ou normais. TRATAMENTO A terapia dietética não tem valor algum quando empregada na correção da anemia ferropriva, devido à baixa biodisponibilidade do ferro nos alimentos. Em compensação, os preparados contendo ferro em sua forma ferrosa (Fe+2) são prontamente absorvidos pelo TGI. A dose recomendada para a correção da anemia ferropriva é de 60mg de ferro elementar (o que equivale a 300mg de sulfato ferroso) três a quatro vezes ao dia. A absorção do sulfato ferroso é melhor quando administrado de estômago vazio. 1-2h antes das refeições, de preferência associado à vitamina C ou ao suco de laranja. Os efeitos colaterais gastrointestinais do ferro oral são bem conhecidos e incluem náuseas, vômitos, desconforto epigástico e diarreia. ANEMIA MEGALOBLÁSTICA Constituem anemias decorrentes da deficiência dos fatores de reprodução da eritropoese (folato ou vit. B12). Principais causas da deficiência de folato: Dieta pobre; pacientes idosos; gestações repetidas; alcoolismo; síndrome de má absorção (sprue); medicamentos antagonistas de folato (metotrexate); medicamentos anticonvulsivantes (barbitúricos); requerimento endógeno aumentado (anemias hemolíticas, leucemias). Principais causas da deficiência de vitamina B12: Deficiência de absorção ((ausência de FI fator intrínseco= anemia perniciosa), gastrectomia, cirurgia bariátrica); difilobotríase; deficiência de proteínas de transporte (transcobalamina); dieta pobre (vegetarianos); medicamentos anticonvulsivantes e quimioterápicos. Patogenia e apresentação clínica: A anemia megaloblástica ocorre devido à deficiência de folato e/ou vitamina B12 fatores importantes para síntese de DNA e responsáveis na eritropoese, pelo departamento de reprodução. A deficiência de ácido fólico é mais comum e está geralmente associada à ingestão inadequada, gravidez ou cirrose hepática, a deficiência de B12 relaciona-se na maioria dos casos com alteração da absorção. A deficiência de síntese do DNA acarreta retardamento na maturação do núcleo das células. A eritropoese ocorre com menor numero de divisões mitóticas, e como estas tem função de diminuir o tamanho e aumentar o número de células, encontraremos menor número de glóbulos vermelhos e células macrocíticas no sangue periférico. A síntese de RNA e a maturação do citoplasma não são afetadas resultando geralmente em policromasia (glóbulos vermelhos de coloração azul acinzentada) ou hipercromia relativa. Nestes casos a queda do número de glóbulos predomina sobre a queda da taxa de hemoglobina, fator agravante para percepção do quadro anêmico, pois os sintomas típicos (palidez, cansaço) tendem a aparecer tardiamente. A deficiência de vitamina B12 ou folato pode ocorrer por longos períodos antes do aparecimento de qualquer sinal ou sintoma clínico, desencadeando uma deficiência crônica que, se mantida, pode levar a manifestações neuropsiquiátricas irreversíveis, através de provável aceleração da desmielinização neuronal. Sua manifestação varia de estados mais brandos até condições muito severas. De maneira geral, esta desordem se manifesta por um quadro clássico caracterizado por anemia megaloblástica associada a sintomas neurológicos com frequente aparecimento da tríade fraqueza, glossite e parestesias. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL A análise do esfregaço de sangue periférico mostra: Anisocitose, predominando a macrocitose (com macrócitos geralmente ovais); policromasia; presença de neutrófilos hipersegmentados (pleocariócitos); corpúsculos de Howell-Jolly e/ou anéis de Cabot; leucopenia (2000 a 4000/mm3) e presença de bastonetes gigantes; plaquetopenia. (50000 a 150000/mm3). O VCM e o RDW estão aumentados, o HCM e CHCM ligeiramente aumentados ou normais. Observa-se reticulopenia absoluta e assincronia de maturação núcleo-citoplasmáticana medula óssea (as alterações megaloblásticas ocorrem em todas as séries hematopoéticas). Devido à eritropoese ineficaz e o índice de morte dos precursores eritropoéticos (hemólise) na medula óssea, testes como dosagem de LDH1 e LDH2 (lactato desidrogenase do eritrócito) e bilirrubina têm importância no diagnóstico. O diagnóstico confirmatório pode ser realizado a partir do doseamento sérico da vit. B12 e do ácido fólico, sendo o último também dosado no eritrócito. Utilizam-se também como diagnóstico os valores séricos ou urinários de homocisteína e de ácido metilmalônico, dois componentes da via metabólica da cobalamina. Níveis elevados de ácido metimalônico também podem ser causados por deficiência de vitamina B12 e vitamina B6 ou a presença de defeitos genéticos afetando uma ou mais das enzimas envolvidas nos processos metabólicos de conversão da homocisteína. TRATAMENTO Na grande maioria dos pacientes com deficiência de cobalamina o problema está na má absorção dessa vitamina. Assim, a via de administração tradicional é a parenteral. A vitamina B12 é prescrita sob a forma de cianocobalamina ou hidroxicobalamina. A deficiência de folato é tratada com terapia de reposição, na dose usual de 1-5mg/dia por via oral. Se o problema estiver na absorção, doses de até 15mg/ dia podem ser utilizadas sendo rara a necessidade do folato parenteral. ANEMIA PERNICIOSA A anemia perniciosa (doença de Addison- Biermer) é uma doença autoimune, com destruição imune das células parietais da mucosa gástrica. A destruição das células parietais resulta na baixa produção de ácido clorídrico e fator intrínseco necessário para a absorção da vitamina B12 (fator extrínseco). Pode estar associada a outras doenças autoimunes, como tireoidite, vitiligo, hipoparatireoidismo e doença de Addison. Na criança: A anemia perniciosa na criança pode ser devida a: • Doença autoimune • Produção deficiente de transcobalamina II. A primeira é uma forma semelhante à do adulto e associada a outras doenças autoimunes. A segunda é uma doença caráter autossômico recessivo, com produção alterada, quantitativa ou qualitativa, da transcobalamina II sem evidência de mecanismo imune. Em ambas encontra-se a anemia megaloblástica e dosagem baixa de vitamina B12. O quadro clínico se instala lenta e progressivamente. A sintomatologia é variável, dependendo o grau de anemia. É mais comum na idade adulta, depois dos 50 anos. O diagnóstico, às vezes, é feito pelo quadro clínico de anemia intensa, com palidez, fraqueza, dispneia, presença de quelite, glossite (língua lisa ou careca), temperatura pouco elevada sem processo infeccioso e sintomas de neuropatia periférica, leve icterícia, sufusões hemorrágicas. No exame físico, é comum hepatoesplenomegalia discreta. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL Muitas vezes, o diagnóstico da anemia perniciosa é feito antes de se estabelecer o quadro clínico devido ao encontro de macrocitose, no exame de sangue periférico, em pessoas de idade entre 40 e 60 anos. Nos casos sintomáticos, além do quadro clínico sugestivo encontra-se anemia macrocítica, leupenia e plaquetopenia. A medula óssea mostra megaloblastose e células de Tmepka-Brown (metamielócitos de grande tamanho). Deve-se dosar a vitamina B12 e fazer o teste de Shilling. Este consiste em se administrar a vit. B12 radioativa por via oral e dosar a quantidade absorvida. Em seguida repete-se a administração da vit. B12 marcada e ligada ao fator intrínseco (FI). Na anemia perniciosa não há absorção da vitamina B12 isolada, mas ocorre absorção normal da vitamina B12 ligada ao FI. TRATAMENTO O tratamento é feito pela administração da vitamina B12 por via parenteral. A dose suficiente é de 2 a 5 µg de cianocobalamina ou hidroxicobalamina para corrigir a megaloblastose. O esquema terapêutico consiste em se fazer 100 µg por via muscular diariamente por duas a três semanas. A manutenção do tratamento se faz com as doses de 1000 µg por semana durante um mês e depois a mesma dose cada mês, sempre usando via muscular. Na deficiência congênita de transcobalamina II, deve-se fazer o tratamento continuado com vitamina B12 por toda vida. ANEMIA DE DOENÇA CRÔNICA A ADC constitui uma síndrome clínica caracterizada por anemia leve ou moderada que persiste por mais de um ou dois meses e frequentemente acompanha doenças infecciosas, inflamatórias, traumáticas e neoplásicas. Tem como aspecto peculiar a combinação de um quadro bioquímico caracterizado pela baixa concentração de ferro no soro apesar das abundantes quantidades de ferro nos depósitos de armazenamento dos macrófagos. Etiologia e patogenia: Pelo menos três mecanismos diferentes contribuem para ADC: Diminuição da sobrevida dos glóbulos vermelhos: Neste caso o processo inflamatório/infeccioso associado à anemia leva a um estado de hiperatividade do sistema mononuclear fagocitário que contribui para remoção precoce dos eritrócitos circulantes e uma diminuição da sobrevida de destes para 80 a 90 dias. Resposta medular inadequada: A liberação de citocinas inflamatórias (IL-1, IL-6, TNFα, e IFNɣ) pelos macrófagos ativados atua inibindo a proliferação dos precursores eritrocitários e a produção de eritropoietina causando supressão da eritropoese. Distúrbio do metabolismo do ferro: Características demonstram um bloqueio na reutilização do ferro que permanenece na forma de depósito. Tal fato está associado ao aumento da síntese de lactoferrina promovido pela IL-1. A lactoferrina se liga ao ferro com maior avidez que a transferrina principalmente em pH baixo sendo captada e retida pelos macrófago dificultando a mobilização do ferro de depósito e consequentemente a eritropoese. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL O hemograma mostra anemia leve ou moderada com hematócrito geralmente entre 25 e 35%. Os eritrócitos são na maioria dos casos normocíticos e normocrômicos, podendo ser observada microcitose e hipocromia. Tipicamente os reticulócitos estão normais ou reduzidos. A gravidade da anemia está correlacionada à atividade da doença de base. A leucocitose e aumento do VHS (velocidade de hemossedimentação) também podem estar presentes. O perfil do ferro crusa com: ferro sérico, capacidade total de ligação do ferro e saturação de transferrina baixos, receptor solúvel da tranferrina normal, ferro medular alto e ferritina plasmática aumentada. Outros achados laboratoriais incluem aumento das “proteínas de fase aguda” como fibrinogênio, ceruloplasmina, haptoglobina, proteína C reativa, C3 e proteína amilóide A. TRATAMENTO Como geralmente a ADC é leve ou no máximo moderada, o tratamento deve enfocar apenas a doença base. Nos casos incomuns de anemia grave (hematócrito < 25%), afastando-se a ferropenia e outras causas de anemia, o tratamento deve ser realizado com eritropoietina recombinante, de modo a evitar as hemotransfusões repetidas. A resposta costuma ser muito boa. Lembramos que o tratamento com eritropoietina deve ser acompanhado de reposição de ferro parenteral, pois aumenta importantemente seu consumo. ANEMIA SIDEROBLÁSTICA A anemia sideroblástica representa um grupo de desordens heterogênicas que possuem em comum, além da anemia, depósitos de ferro nas mitocôndrias dos eritroblastos. Essas desordens são causadas por um distúrbio da síntese do grupamento heme, sem haver carência de ferro. Deficiências enzimáticas ou defeitos mitocondriais podem prejudicar a síntese do heme. Consequentemente ocorre prejuízo na síntese de hemoglobina, causando anemia e hipocromia; e acúmulo de ferro na mitocôndria. A anemia sideroblástica pode ser hereditária ou adquirida. A forma hereditária pode ser causada por herança ligada ao X, herança autossômica dominante ou síndrome de Pearson. Já a forma adquirida pode ser idiopática pura, associada à mielodisplasia, doenças mieloproliferativas e quimioterapia, alcoolismo, drogas, deficiência de cobre e hipotermia. DIAGNÓSTICOLABORATORIAL O paciente apresenta juntamente com a anemia, microcitose e hipocromia, um dismorfismo eritrocitário. Como há um estímulo à absorção intestinal de ferro, ele se acumula no organismo, com isso há aumento do ferro sérico com ferritina sérica normal ou alta. Deve-se suspeitar de anemia sideroblástica quando houver hipocromia (hemácias pouco coradas pelo ferro) com ferro sérico (sanguíneo) alto, saturação de transferrina e ferritina elevadas. Essas alterações também podem ocorrer nas talassemias, devendo ser realizado uma eletroforese de hemoglobina para diferenciar as causas. O diagnóstico de anemia sideroblástica só é confirmado através do mielograma, quando é encontrado mais de 15% de eritroblastos do tipo sideroblastos em anel. TRATAMENTO O tratamento inicial objetiva tratar a anemia e corrigir ou prevenir a hemocromatose. A anemia hereditária, na grande maioria dos casos, é tratada com reposição de doses suprafisiológicas de piridoxina (vitamina B6), na dose entre 100-200mg/dia durante 3 meses. A anemia adquirida idiopática não costuma responder a nenhum tratamento. Pacientes com baixa necessidade de hemotransfusões e níveis séricos de eritropoetina abaixo de 200U/ml respondem à administração de eritropoetina recombinante. O paciente com hemocromatose deve ser acompanhado pela dosagem da ferritina sérica. Se estiver maior que 500ng/ml e anemia leve, está indicada a flebotomia repetida para reduzir o ferro corporal. Porém, se a anemia for moderada ou grave, está indicado o quelante de ferro desferoxamina, por via parenteral. A esplenectomia (remoção cirúrgica do baço) é contraindicada pelo alto risco de eventos tromboembólicos no pós-operatório. HEMOGLOBINOPATIAS ANEMIA FALCIFORME OU DREPANOCITOSE A doença falciforme é uma hemoglobinopatia hereditária comum que ocorre primariamente em indivíduos de ascendência africana. A hemoglobina é uma proteína tetramérica composta por dois pares de cadeias de globina, cada uma com seu próprio grupo heme. Eritrócitos adultos normais contêm principalmente HbA (α2β2), juntamente com pequenas quantidades de HbA2 (α2δ2) e hemoglobina fetal (HbF;α2γ2). A doença falciforme é causada por uma mutação pontual no sexto códon da β-globina que provoca a substituição de um resíduo de glutamato por um resíduo de valina. As propriedades fisioquímicas anormais da resultante hemoglobina falciforme (HbS) são responsáveis pela doença. As moléculas de HbS sofrem polimerização quando desoxigenadas. Inicialmente o citosol eritrocitário é convertido de um líquido de fluxo livre para um gel viscoso à medida que são formados agregados de HbS. Com a desoxigenação contínua, as moléculas de HbS agregadas são montadas em fibras em formas de agulhas longas no interior dos eritrócitos, produzindo uma forma distorcida em forma de foice ou de folha de azevinho. A presença de HbS é subjacente às principais manifestações patológicas: (1) crise hemolítica, (2) crise vaso-oclusiva (3)crise aplástica e (3) lesão de tecidos. Crise hemolítica: reflete uma anemia intensa decorrente da hemólise. A sequestração súbita de sangue pelo baço ocorre principalmente em crianças com desidratação ou acidose metabólica, caracteriza-se por choque hipovolêmico e esplenomegalia. Os múltiplos infartos esplênicos podem levar a hipoesplenia ou a uma autoesplenectomia nos pacientes com a doença. Crise vaso-oclusiva: ocasionada pela obstrução dos vasos sanguíneos devido ao acúmulo de eritrócitos falcizados causando lesão tecidual. O paciente apresenta dores abdominais, ósseas e articulares acompanhadas de febre e icterícia. Estas crises podem ser precipitadas pôr infecções, desidratação e estresse. Crise aplástica: associada geralmente a uma infecção caracteriza-se por insuficiência da medula óssea devido à hiperatividade compensadora exibindo um quadro anêmico grave acompanhado de reticulopenia. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL A triagem pode ser feita através do teste de solubilidade (ditionito de sódio) ou de falcização (metabisulfito de sódio). Estes exames estão baseados na mistura de uma amostra de sangue comum reagente que consome oxigênio, induzindo o afoiçamento. O hemograma normalmente revela anemia na maioria das vezes normocrômica e normocítica, além de sinais indiretos de hemólise caracterizados por hiperbilirrubinemia e reticulocitose. Geralmente observa-se leucocitose com neutrofilia moderada não necessariamente relacionada à infecção e trombocitose. A plaquetopenia pode ocorrer em quadros de sequestro esplênico. O esfregaço de sangue mostra anisopoiquilocitose com células afoiçadas e policromasia, podendo aparecer eritroblastos em diferentes graus de maturação. A eletroforese de hemoglobina em agarose com pH alcalino estabelece o diagnóstico diferencial. Pacientes com anemia falciforme (homozigotos) apresentam cerca de 2 a 20% de Hb F e 2 a 4% de Hb A2. O restante é Hb S. A Hb A1 não é detectada a menos que o paciente tenha sido transfundido nos últimos meses. TRATAMENTO Não há tratamento específico para a doença falciforme, porém medidas gerais e preventivas no sentido de minimizar as consequências da anemia crônica, crises de falcização e susceptibilidade às infecções são fundamentais na terapêutica destes pacientes. Estas medidas incluem boa nutrição, profilaxia, diagnóstico e terapêutica precoce, manutenção de boa hidratação e evitar condições climáticas adversas. As transfusões de sangue devem ser evitadas e utilizadas em casos de falência cardíaca, nas crises aplásticas ou em acidente vascular cerebral. O uso de antibióticos e anti-inflamatórios podem amenizar as dores e os quadros infecciosos. Drogas como a hidroxiuréia (HU) têm sido utilizadas com a finalidade de aumentar a produção de Hb F em pacientes com anemia falciforme, apresentando resultados promissores. Os análogos do butirato também são utilizados como agentes estimuladores da expressão do gene gama da globulina. O uso destas drogas é questionável, pois apesar do efeito benéfico com aumento da Hb F, estas além de efeitos colaterais, podem também predispor o paciente a uma neoplasia. O transplante de medula óssea alogênico pode ser indicado, utilizando como doador um irmão compatível que não seja afetado pela doença. ESTIGMA FALCIFORME OU TRAÇO FALCÊMICO É uma condição presente em indivíduos portadores da doença falciforme, ou seja, o defeito genético se caracteriza pela presença da HbS na forma heterozigota (HbA/HbS). O portador não apresenta alterações clínicas e hematológicas evidentes. A Hbs em concentrações inferiores a 50% nos eritrócitos, não cristaliza in vivo, o risco de falcização é pequeno, as crises nestes indivíduos podem ocorrer em situações onde a tensão de oxigênio é muito baixa a exemplo de voos em cabines não pressurizadas, anemias extensas e casos de anestesia geral no período de hipóxia. O estigma apresenta anomalia globular sem expressão clínica e, portanto não deverá doar sangue; em casos de matrimônio onde ambos os pais são heterozigotos, deverá ser feito um aconselhamento genético, evitando problemas futuros. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL Uma grande variedade de testes qualitativos e quantitativos permite a detecção da Hb AS. Entre os testes qualitativos, está o teste de solubilidade, no qual as hemácias são lisadas e a Hb S é reduzida pelo ditionito de sódio; por ser insolúvel, ela forma polímeros de deoxi-Hb S com esse reagente e turva a solução, enquanto que as soluções contendo outras hemoglobinas permanecem. Outro teste qualitativo é o de falcização, este teste utiliza o metabissulfito de sódio como substância redutora, a qual em contato comas hemácias extrai o oxigênio, levando as hemácias com Hb S a assumir o formato de foice, verificado pela observação das hemácias ao microscópio. Vários outros testes são comercializados na forma de “kit”, entre eles o teste de gel-centrifugação, que se baseia no mesmo princípio da falcização“in vitro”, utiliza agente redutor e cartão com gel que retêm as hemácias falcizadas, ficando estas suspensas no microtubo após a centrifugação. TALASSEMIAS As talassemias constituem um grupo heterogêneo de desordens moleculares que refletem uma síntese diminuída de hemoglobina. A maioria dos defeitos reside na substituição de uma única base do DNA resultando na deficiência de transcrição do RNA ou em um RNA mensageiro instável. O defeito genético pode envolver 5 processos: • Uma mutação na região do “intron” (local do gene que não é codificado) acarretando uma alteração na quebra (‘’slicing”) do RNA total para RNA mensageiro diminuindo sua produção. • Uma mutação na região promotora diminuindo a expressão do gene da globina. • Depleção total ou parcial do gene resultante de um defeito no crossing over. • Uma mutação na região terminal da cadeia adicionando aminoácidos e instabilizando a molécula. • Uma mutação do tipo ”nonsense” inserindo um códon terminal precoce durante a síntese da cadeia polipeptídica. Em todos os casos ocorre diminuição da síntese de uma das cadeias de globina (ɑ ou β), as demais cadeias com síntese normal, não encontram seus pares e formam tetrâmeros geralmente instáveis que precipitam no interior da célula formando os corpúsculos de Heinz. Os corpúsculos de Heinz constituem alterações estruturais dos glóbulos vermelhos que se ligam ao citoesqueleto da membrana provocando hemólise extravascular através da ligação de antígenos específicos e remoção pelo sistema mononuclear fagocitário – SMF. A hemólise acarreta uma anemia de grau intenso devido a menor quantidade de hemoglobina disponível, consequentemente ocorre hiperplasia medular que resulta na presença de células jovens (reticulócitos e eritroblastos) circulantes e expansão do tecido eritróide associada à deformações ósseas. β-TALASSEMIAS β-Talassemia major A talassemia β homozigótica pode ser dividida em β+ (deficiência acentuada da produção de cadeias β) e β° (ausência de produção de cadeias β). A patogenia consiste na formação de tetrâmeros instáveis de cadeias a que precipitam e induzem a hemólise. Não existindo cadeias β, não encontramos HbA (α2 β2), com exceção dos casos onde a deficiência é parcial e o padrão eletroforético caracteriza-se por aumento dos níveis de HbF (α2ɣ2) entre 40 e 90%. A HbA2 (α2 δ2) pode estar normal ou ligeiramente aumentada. A anemia é severa e do tipo microcítica e hipocrômica com VCM e HCM baixos. A morfologia eritrocitária se caracteriza pelo achado de anisocitose, células em alvo, policromasia, pontilhado basófilo e eritroblastos. O exame físico revela alterações revela alterações ósseas, como a osteoporose e protuberância do crânio. Hepatomegalia e esplenomegalia são frequentes e o indivíduo geralmente apresenta icterícia. Para garantir a sobrevivência dos pacientes é necessário o uso de transfusões regulares desde a infância, com a finalidade de manter os níveis de hemoglobina adequados, reduzir as deformidades ósseas e esplenomegalia. Tratando-se de indivíduos poli transfundidos e com hemólise frequente, o uso de quelantes de ferro deve ser indicado para evitar a hemocromatose. β-Talassemia minor Os pacientes são geralmente assintomáticos e o diagnóstico pode ser feito de modo casual. A concentração da hemoglobina varia de 10 a 13g/dL e o número de glóbulos vermelhos é discretamente elevado caracterizando uma “policitemia hipocrômico”. O VCM está entre 61 e 73fL (microcitose), o HCM entre 20 e 24 pg (hipocromia), e podem ser observados eritrócitos com pontilhado basófilo; portanto embora sem expressão clínica, existe anomalia globular. A HbA2 está aumentada variando de 3 a 7% podendo ou não existir discreto aumento de HbF. Por apresentarem uma discreta anemia são por vezes diagnosticados erroneamente como deficiência de ferro. O pontilhado basófilo, quando observado, é relevante, pois não aparece na anemia ferropriva. Porém para tal observação, o sangue não deve ser conservado com EDTA antes da extensão da lâmina. α-TALASSEMIAS Hidropisia Fetal A forma mais grave de α-talassemia é causada pela deleção de todos os quatro genes de α-globina. No feto, as cadeias de γ- globina em excesso formam tetrâmeros (hemoglobina de Bart) que possuem uma afinidade tão elevada pelo oxigênio que fornecem pouca quantidade para os tecidos. A sobrevida no início do desenvolvimento é decorrente da expressão das cadeias ζ, uma globina embrionária que é pareada com as cadeias γ para formar um tetrâmero ζ2γ2 Hb funcional. Os sinais de sofrimento fetal geralmente são evidentes no 3° trimestre de gravidez. No passado, a anoxia tissular grave provocava a morte intrauterina ou logo após o nascimento; com a transfusão intrauterina, muitos desses bebês atualmente são salvos. O feto apresenta palidez intensa, edema generalizado e hepatoesplenomegalia maciça semelhante à observada na doença hemolítica do recém-nascido. Existe uma dependência vitalícia de transfusões sanguíneas para sobrevivência, com o risco associado de sobrecarga de ferro. O transplante de medula óssea pode ser curativo. α-Talassemia homozigótica (Doença de HbH) Na infância nota-se a presença da Hb Bart (tetrâmeros de γ= γ4) que são substituídos gradativamente pela HbH (tetrâmeros de β). Nesta fase a HbH pode variar de 5 a 40% e é visualizada através da presença de corpúsculos de inclusão (Heinz) em extensões preparadas a partir da incubação do sangue “in vitro” com o azul de metileno novo. HbH possui uma afinidade extremamente elevada por oxigênio e, portanto, não é útil para o fornecimento de oxigênio, causando uma hipóxia dos tecidos desproporcional ao nível de hemoglobina. Adicionalmente, a HbH está propensa à oxidação, o que causa sua precipitação e a formação de inclusões intracelulares que promovem o sequestro eritrocitário e a fagocitose no baço. A anemia é moderadamente severa com esplenomegalia e icterícia. A anemia é microcítica e hipocrômica com presença de pontilhado basófilo. A utilização de transfusões repetidas induz ao aumento da concentração de ferro no organismo, podendo ocasionar hemossiderose, considerada fatal se não controlada. Portanto deve ser feito o uso de quelantes de ferro e a dosagem de ferro sérico e ferritina com a finalidade de melhorar o prognóstico do paciente. A esplenectomia pode ser útil em pacientes cujo sequestro de eritrócitos pelo baço é significante, pois visa diminuir a necessidade de transfusões uma vez que aumenta a vida média do eritrócito. α-Talassemia heterozigótica (Traço de α-Talassemia) É causado pela deleção de dois genes de α-globina de um único cromossomo (α/α −/−), ou pela deleção de um gene α-globina de cada um dos dois cromossomos (α/− α/) (Tabela 14-3). O primeiro genótipo é mais comum nas populações asiáticas, o último em regiões da África. Os dois genótipos produzem deficiências quantitativas semelhantes de α-globina e são clinicamente idênticos, porém apresentam implicações diferentes para os filhos dos indivíduos afetados, que apresentam um risco de α-talassemia clinicamente significativa (doença HbH ou hidropisia fetal) apenas quando um dos pais apresenta o haplótipo −/−. Como resultado, a α-talassemia sintomática é relativamente comum em populações asiáticas e rara em populações negras africanas. O quadro clínico no traço de α-talassemia é idêntico ao descrito para β-talassemia minor, ou seja, eritrócitos pequenos (microcitose), anemia mínima ou ausente e ausência de sinais físicos anormais. Os níveis de HbA2 estão normais ou baixos. Portadores silenciosos Está associado à deleção de um único gene de α-globina, que causa uma redução pouco detectável na síntese de cadeia de α- globina. Esses indivíduos são completamente assintomáticos, porém apresentam discreta microcitose. DIAGNÓSTICO DAS TALASSEMIAS • Identificação do paciente: idade, histórico, origem étnica e usode determinadas drogas; • Avaliação clínica: observar alterações ósseas, esplenomegalia, hepatomegalia, hemossiderose, má oclusão, palidez ou icterícia da pele e mucosas; • Estudo Laboratorial: Diminuição de glóbulos vermelhos, Ht e Hb. Aumento de reticulócitos. Presença de hemácias em alvo (leptócitos). VCM e HCM diminuídos. Presença de corpúsculos de Heinz. Dosagem de HbF aumentada nas beta talassemias. Eletroforese de Hemoglobina: Observar HbH, HbBart nas α-talassemias, HbA2 e HbF nas β- talassemias. Curva de fragilidade osmótica desviada para esquerda. Dosagem de ferro sérico e ferritina geralmente aumentados. Dosagem de bilirrubina geralmente aumentada. TRATAMENTO DAS TALASSEMIAS A talassemia minor não demanda tratamento específico. Em certas circunstâncias (na gravidez, por exemplo), a suplementação com acido fólico pode trazer benefícios para os portadores da doença. A talassemia intermediária pode requerer a indicação de transfusões de sangue com a finalidade de aumentar a oferta de glóbulos vermelhos. Portador de talassemia major necessita de transfusões de sangue regulares e de medicamentos para retirar o excesso de ferro que se acumula em determinados órgãos (terapia quelante do ferro). O transplante de medula óssea também pode constituir uma solução terapêutica nesses casos. * Ainda não se conhece a cura para a talassemia, mas há opções de tratamento que tornam possível controlar a doença; * O aconselhamento genético para os portadores dos genes alterados da talassemia é a única forma de os pais estimarem o risco de gerar um filho com a doença; * Quanto mais cedo for detectado o problema e iniciado o tratamento, maiores serão as chances de a criança com talassemia major chegar à vida adulta. HEMOGLOBINOPATIA C O defeito genético consiste na substituição do ácido glutâmico pela lisina na posição 6 da cadeia β, trata-se portanto de uma mutação pontual que altera a estrutura primária da cadeia da globina. O esfregaço do sangue periférico mostra grande quantidade de células em alvo. A maioria das pessoas com esta doença (homozigótica CC) apresenta uma anemia hemolítica moderada e uma esperança média de vida normal. Na idade adulta podem apresentar esplenomegalia (aumento do tamanho do baço), litíase biliar (pedras na vesícula) e alterações na retina. Na maioria dos casos não é necessário nenhum tratamento específico. Se surgirem algumas complicações, os doentes devem consultar um médico especialista. PERSISTÊNCIA HEREDITÁRIA DE HEMOGLOBINA FETAL Ocorre ausência de síntese de cadeias beta e desrepressão completa do gene gama. Na eletroforese de Hb encontramos quase que só HbF. Constitui um caso de β-talassemia onde os sintomas clínicos são mais brandos. Também pode ser encontrada associada à anemia falciforme minimizando a sintomatologia clínica dos pacientes. ANOMALIAS DE MEMBRANA ESFEROCITOSE HEREDITÁRIA (EH) Este distúrbio hereditário é causado por defeitos intrínsecos do esqueleto da membrana eritrocitária que tornam os eritrócitos esferoides menos deformáveis e vulneráveis ao sequestro esplênico e à destruição. A EH é causada por diversas mutações que provocam insuficiência dos componentes do esqueleto da membrana. Como resultado dessas alterações, o ciclo de vida dos eritrócitos afetados diminui em média para 10 a 20 dias a partir dos 120 dias normais. As mutações patogênicas mais comumente afetam a anquirina, banda 3, a espectrina ou banda 4.2, as proteínas envolvidas na primeira das duas interações de fixação, supostamente porque esse complexo é particularmente importante na estabilização da bicamada lipídica Os eritrócitos EH jovens têm forma normal, porém a deficiência do esqueleto de membrana reduz a estabilidade da bicamada lipídica, provocando perda dos fragmentos de membrana conforme os eritrócitos envelhecem na circulação. A perda da membrana em relação ao citoplasma “força” as células a assumirem o menor diâmetro possível para um determinado volume, ou seja, uma esfera. A severidade da doença varia, em alguns pacientes as manifestações são tão leves que a doença é assintomática, sendo o processo anêmico muito leve ou mesmo ausente, daí o difícil diagnóstico. Porém existem pacientes, onde o curso da anemia está associado a crises severas que caracterizam-se por febre, náuseas, dor abdominal, debilidade e palidez, podendo ou não estar associada a crises de cólica biliar devido a formação de cálculos decorrentes do excesso de bilirrubina. A anormalidade mais comum no exame físico é a esplenomegalia. A hepatomegalia quando ocorre é geralmente leve, a icterícia e a palidez podem ser leves ou evidentes dependendo do paciente. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL A anemia geralmente é moderada, e os níveis de hemoglobina situam-se entre 7 a 12g/dl podendo ocorrer uma queda brusca (3 a 4 g/dl) durante as crises, ou apresentarem-se normais se o processo hemolítico for plenamente compensado. O VCM está geralmente normal ou reduzido, como resultado da presença de pequenos esferócitos e grandes hemácias jovens (reticulócitos). O CHCM está aumentado na maioria dos pacientes, pois a hemoglobina está densamente localizada nos microesferócitos que perderam área superficial mais do que conteúdo celular. As células apresentam-se microcíticas e densas, mostrando-se hipercoradas no esfregaço (não possuem a zona central mais clara), pode aparecer uma moderada anisocitose, e a poiquilicitose raramente é acentuada. Os reticulócitos estão aumentados (5 a 25%), podendo desaparecer durante uma crise aplástica. O ferro sérico está normal ou um pouco elevado, a bilirrubina indireta está normal ou um pouco elevada, a bilirrubina indireta está aumentada (entre 1 a 4mg/dl), mostrando icterícia de vários graus. O Teste de Coombs Direto é negativo. A fragilidade osmótica dos eritrócitos em soluções salinas hipotônicas está aumentada e constitui um parâmetro específico para o diagnóstico da esferocitose. O teste da autohemólise que consiste em incubar as células em seu próprio plasma durante 48 horas à 37°C; mede a integridade metabólica da célula e é positivo na esferocitose sendo corrigido pela adição de glicose. TRATAMENTO A esplenectomia constitui o tratamento mais indicado para este tipo de anemia, através dela consegue-se resultados benéficos e duradouros. A sobrevida dos glóbulos vermelhos aumenta, os esferócitos persistem, a Hb e o Ht chegam a níveis normais, diminuindo o número de reticulócitos e a icterícia. Nas crianças com idade inferior à 5 anos, a esplenectomia deve ser evitada devido ao aumento da susceptibilidade às infecções. As transfusões quando necessárias ocorrem apenas nos episódios de crises. ELIPTOCITOSE HEREDITÁRIA As hemácias apresentam forma elíptica em mais de 70% das células eritróides. O defeito tem transmissão autossômica dominante e raramente apresenta expressão clínica. O diagnóstico é efetuado pela morfologia eritrocitária do paciente e de seus familiares. Caracteriza-se também por uma deficiência de associação de algumas proteínas do citoesqueleto. Nos indivíduos heterozigotos, o defeito é leve e o eritrócito adquire forma elíptica. Nos homozigotos a instabilidade da membrana pode gerar fragmentação da célula resultando em acentuada poiquilocitose no esfregaço. Estes eritrócitos são frágeis à incubação in vitro à temperatura de 46°C, daí o nome Piropoiquilocitose hereditária. A acantocitose se caracteriza por células espiculadas, ocorre em pacientes com deficiência ou ausência de β lipoproteínas podendo ocasionar problemas neurológicos. HEMOGLOBINÚRIA PARAXÍSTICA NOTURNA (HPN) A hemoglobinúria paroxística noturna (HPN) é uma doença que resulta de mutações adquiridas no gene do grupo A de complementação de fosfatidilinositol glicano (PIGA), uma enzima essencial para a síntese de algumas proteínas de superfície celular. As células do sanguena HPN apresentam deficiência de três proteínas ligadas ao GPI que regulam a atividade do complemento: (1) o fator de aceleração de decadência ou CD55; (2) o inibidor de membrana de lise reativa ou CD59; e (3) a proteína de ligação C8. Desses fatores, o mais importante é o CD59, um potente inibidor da C3 convertase que impede a ativação espontânea da via de complemento alternativa. Eritrócitos, plaquetas e granulócitos deficientes destes fatores ligados ao GPI são anormalmente susceptíveis a lise ou lesão por complemento. Em eritrócitos, isso se manifesta por hemólise intravascular, que é causada pelo complexo de ataque membranoso C5b-C9. A hemólise é paroxística e noturna em apenas 25% dos casos; hemólise crônica sem hemoglobinúria dramática é mais típica. A tendência de lise dos eritrócitos à noite é explicada pela discreta diminuição do pH sanguíneo durante o sono, o que aumenta a atividade do complemento. A anemia é variável, porém geralmente leve a moderada em severidade. A perda do ferro heme na urina (hemossiderinúria) eventualmente provoca deficiência de ferro, que pode se exacerbar se não for tratada. Trombose é a principal causa de morte relacionada à doença em indivíduos com HPN. Aproximadamente 40% dos pacientes sofrem de trombose venosa, frequentemente envolvendo as veias hepáticas, portais ou cerebrais. A disfunção plaquetária decorrente da ausência de algumas proteínas ligadas ao GPI contribui para o estado pró-trombótico, assim como a absorção de NO pela hemoglobina livre. As manifestações começam a se agravar mais frequentemente na 3ª e 4ª década, sendo que a severidade da anemia varia desde um processo clinicamente benigno até um processo letal. Normalmente os doentes se queixam de um cansaço excessivo, apresentam coloração amarelada da pele variável devido à icterícia. A hemoglobinúria e continua hemossiderinúria resultam em perda de ferro que é variável para cada paciente. Quando as complicações mais sérias incluem-se a trombose, aplasia medular e infecção. E comum ocorrer infecções parcialmente atribuídas à leucopenia ou à defeitos funcionais dos leucócitos. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL Na maioria dos pacientes, a anemia é severa estando a Hb em torno de 6g/dL. Comumente os glóbulos vermelhos são macrocíticos, podendo apresentar-se hipocrômicos e microcíticos quando a parda de ferro é significativa. Pode ocorrer uma moderada poiquilocitose é comum à presença de policromatofilia e reticulocitose. Os glóbulos brancos e as plaquetas estão geralmente diminuídos exibindo leucopenia e trombocitopenia no hemograma. A urina apresenta quantidade elevadas de urobilinogênio, e o ferro é excretado sob forma de hemossiderina, que pode ser pesquisada no sedimento urinário. Em 1930 foi demonstrado por Jordon, Ham e Dacie que as células da HPN sofrem lise em soro humano acidificado na presença de complemento. O efeito da acidez no processo hemolítico foi utilizado para explicar a ocorrência de hemoglobinúria à noite. Durante o sono, o centro respiratório encontra-se deprimido e o dióxido de carbono é retido, acidificando o meio induzindo a hemólise. A ligação do eritrócito deficiente com o complemento ativado leva a formação de buracos na membrana resultando em hemólise intravascular espontânea ou induzida por infecção, transfusão e exercício físico. Diagnóstico diferencial: a) hemólise intravascular indefinida como hemoglobinúria; b) pancitopenia associada à hemólise; c) deficiência de ferro persistente e principalmente associada à hemólise; d) evidência de tromboses venosas intra-abdominais; e) dor abdominal, cefaleia e cansaço em presença de hemólise crônica; f) provas laboratoriais específicas; • Pesquisa de hemossiderina na urina; • Teste de hemólise em sacarose (verifica a sensibilidade das hemácias ao complemento em meio de baixa força iônica). • Teste de Ham (verifica a sensibilidade das hemácias ao complemento em soro acidificado). • Técnica de aglutinação de anticorpos anti-DAF e anti-MIRL em microcolunas de gel; • Imunofenotipagem para CD55 e CD 59. TRATAMENTO O tratamento é ainda discutível, a esplenectomia não é eficaz, o uso de corticoides reduz a ativação do complemento e controla os episódios de hemólise. As transfusões podem ser valiosas, porém, deve-se utilizar hemácias lavadas já que o plasma fresco pode acelerar o processo hemolítico (isoanticorpos). Em muitos casos são utilizados anticoagulantes para prevenir a trombose. O transplante de medula óssea é indicado nos casos de HPN associados à hipoplasia ou aplasia medular grave. ENZIMOPATIAS DEFICIÊNCIA DE G6PD Trata-se de uma anemia hemolítica desencadeada repentinamente por infecções graves ou ingestão de agentes oxidantes como; sulfonamidas, antimaláricos, naftalina, ácido nalidíxico e em latas doses de acetaminofen, AAS e vitamina K sintética. A deficiência de G6PD é um traço recessivo ligado ao cromossomo X, provocando maior risco de doença sintomática em homens. Existem mais de 250 variantes da G6PD que podem ser detectadas laboratorialmente pela diferente mobilidade eletroforética ou menor atividade enzimática. Nos indivíduos caucasianos, a variante mais frequente é a do Mediterrâneo, atingindo de 1% a 2% dos italianos; nestes a anemia quando desencadeada apresenta um quadro clínico bastante grave. A hemólise pode ocorrer após ingestão de fava- favismo. Nos negros dos EUA é comum a variante Africana (A) com prevalência entre 12% a 15%; esta apresenta manifestações clínicas mais leves, sendo comum a crise hemolítica aguda provocada pela ingestão de primaquina durante a profilaxia da malária. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL Uma das provas de triagem consiste na pesquisa de corpúsculos de Heinz por incubação com o corante cristal violeta ou azul de cresil brilhante. O esfregaço pode apresentar células mordidas ou burr cells decorrentes da fagocitose do corpúsculo de Heinz. O teste de redução da metahemoglobina é de fácil execução e apresenta boa sensibilidade. Nos casos de deficiência de G6PD, a presença de metahemoglobina é de fácil execução e apresenta boa sensibilidade. Nos casos de deficiência de G6PD, a presença de metahemoglobina e ausência de NADPH impedem a redução do azul de metileno, que não se torna incolor. Outro teste qualitativo é chamado teste do ascorbato-cianeto, este mede a desnaturação oxidativa da hemoglobina. A deficiência pode ainda ser avaliada quantitativamente através de imunofenotipagem com anticorpos anti-G6PD marcados ou ensaio imunoenzimático. A avaliação dos resultados deve ser criteriosa nos episódios de crise onde a população de eritrócitos afetados pode ser mascarada pela presença do alto índice de reticulócitos que contém maior quantidade da enzima. TRATAMENTO Crianças deverão fazer acompanhamento anualmente até completar 18 anos quando será analisada à necessidade de tratamento especializado. Deverão fazer exames laboratoriais prévios a consulta de rotina. Pacientes sintomáticos relacionados à doença de base farão acompanhamento semestral com exames laboratoriais prévios. Os pacientes adultos assintomáticos não necessitam de tratamento especializado. Receberão orientação sobre a doença como risco de hemólise por infecções e uso de substâncias (medicamentos oxidantes alimentos e outros) e o Manual explicativo sobre a doença com: o anexo das substâncias que devem ter uso evitado ou restrito. Evitar hemólise por substâncias. Evitar infecções; Transfusões quando sintomáticos e hemoglobina <10g/dl; Vacinação calendário vacinal regular e Hepatite A (se marcador negativo). DEFICIÊNCIA DE PIRUVATO QUINASE É uma anemia hemolítica transmitida de modo autossômico recessivo. A deficiência de piruvato quinase é um dos defeitos enzimáticos mais comuns dos eritrócitos. A enzima piruvato quinase cataliza a conversão de fosfoenolpiruvato em piruvato, sendo essa uma das duas reações glicoliticas nos eritrócitos queresultam na produção de ATP. Alterações nessa enzima levam a uma discrepância entre a energia necessária para os eritrócitos e a capacidade de geração de ATP, produzindo uma lesão irreversível da membrana e resultando em distorção celular, rigidez e desidratação. Isso leva a destruição precoce dos eritrócitos pelo fígado e baço. As principais características clínicas da deficiência de piruvato quinase são esplenomegalia, anemia hemolítica não esferocítica hereditária, cuja severidade varia de anemia discreta compensada à anemia severa, e icterícia. A piruvato quinase é codificada pelo gene PKLR e mutações neste gene podem ter como alvo regiões distintas da proteína, inclusive interfaces de domínio e sítios catalíticos e alostéricos, que têm efeitos variáveis natermo estabilidade da enzima, na eficiência e nas propriedades reguladoras. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL O melhor recurso para o diagnóstico constitui a dosagem da enzima. A auto-hemólise é corrigida “in vitro” por ATP e não por glicose. A fragilidade osmótica dos eritrócitos está próxima do normal. A presença de esferócitos na extensão sanguínea,sugere a realização do teste de Cooms direto utilizado para perquisa de anticorpos ligados ao eritrócito. Na deficiência de PQ o teste de Cooms é negativo. TRATAMENTO Na deficiência de piruvato quinase moderada a grave, a esplenectomia melhora a hemólise, embora a melhora possa não ser tão acentuada quanto à observada em doenças como a esferocitose hereditária. Depois da esplenectomia, muitas vezes ocorre uma “reticulocitose paradoxal” (às vezes com uma contagem de 50 a 70%), apesar de uma melhora na anemia. Este achado notável é considerado devido à sobrevida melhorada dos reticulócitos deficientes em piruvato quinase, os quais têm que depender da fosforilação oxidativa mitocondrial para geração de ATP e por essa razão são suscetíveis ao “condicionamento” esplênico acelerado e hemólise extravascular no ambiente hipóxico dos cordões esplênicos.