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O BRASIL E AS OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DA PAZ DAS NAÇÕES UNIDAS

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not be appropriate to try to establish a
universal model for the relationship between the United Nations
and regional organizations as their capacity for peacemaking and
peace-keeping varied considerably”129. Com efeito, apenas um terço
dos organismos consultados conta com mecanismos voltados para tratar
das questões de paz e segurança, muitas das quais se limitam, entretanto,
a lidar com os aspectos da diplomacia preventiva e de promoção da
128
 Nações Unidas, (1993), doc. S/25184 (Declaração Presidencial do CSNU) e doc. S/
25996 e add. 1 a 5. (Relatório do SGNU).
129
 Nações Unidas, (1995), doc. A/50/60-S/1995/1, parágrafos 87-88.
172 PAULO ROBERTO CAMPOS TARRISSE DA FONTOURA
paz. Há casos em que os instrumentos constitutivos dos acordos e das
entidades regionais, ao permitirem o desdobramento de missões de paz,
vedam a possibilidade do recurso ao emprego último da força como
meio para lidar com países faltosos. Finalmente, as alianças militares,
como a OTAN, dispõem de elevada capacidade militar dissuasória.
Dada a importância que o regionalismo vem assumindo no campo
das operações de manutenção da paz, convém resumir, na tabela a seguir, as
respostas recebidas pelo Secretariado da Organização após a mencionada
consulta de 1993, atualizando as informações com os dados disponíveis. A
tabela ilustra a grande variedade de organismos e arranjos regionais e sub-
regionais que têm atuado, nos últimos anos, no campo da paz e da segurança.
A SITUAÇÃO ATUAL E AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS 173
TABELA Nº 5
OS ORGANISMOS GLOBAIS, REGIONAIS E SUB-REGIONAIS
CONSULTADOS PELAS NAÇÕES UNIDAS
130
 São os seguintes os países que participam do Tratado de Segurança Coletivo: Armênia,
Belarus, Cazaquistão, Rússia, Tadjiquistão e Quirguízia. Em 1999, Azerbaijão, Geórgia e
Uzbequistão não renovaram o Tratado, sendo que Ucrânia , Moldávia e Turcomenistão
jamais aderiram ao instrumento.
174 PAULO ROBERTO CAMPOS TARRISSE DA FONTOURA
131
 São os seguintes os nove países interessados em ingressar na OTAN: Albânia, Eslovênia,
Eslovâquia, Bulgária, Estônia, Lutuânia, Letônia, Macedônia e Romênia.
A SITUAÇÃO ATUAL E AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS 175
Fonte: DPKO e MRE.
176 PAULO ROBERTO CAMPOS TARRISSE DA FONTOURA
Não consta da tabela das Nações Unidas o “Órgão sobre Política,
Defesa e Segurança” (OPDS) da Comunidade de Desenvolvimento da
África Austral (SADC) 132, por ter sido criado após a realização da
consulta em 1993. Esse órgão foi estabelecido pela Cúpula de Gaborone,
em junho de 1996, em Botsuana. Ele é composto de três níveis (Cúpula
de Chefes de Estado e de Governo, Comitê de Ministros e Comitê sobre
Política, Defesa e Segurança) e atua nas seguintes áreas: a) prevenção,
administração e resolução de conflitos; b) promoção da paz, manutenção
da paz e imposição da paz; c) cooperação para segurança e defesa; e d)
cooperação político-diplomática. Conta com a participação de países
com experiência nesse campo, tais como Zimbábue, Zâmbia, Namíbia,
e com a África do Sul, detentora de capacidade de mobilização logística
e recursos financeiros.
Embora simbolicamente o OPDS tenha-se reunido pela
primeira vez em Luanda, em outubro de 1996, para gestionar em
favor da paz em Angola, a estrutura operacional do órgão não estava
ainda estabelecida em 1999 devido às divergências que envolvem
seus dois maiores parceiros: Zimbábue, que advoga ampla autonomia
decisória, e África do Sul, que defende maior subordinação às
instâncias políticas superiores. Esse impasse fez com que seus
membros tivessem de reunir-se, sob a égide de outros órgãos da
SADC ou mesmo fora dele, para discutirem a situação política vivida
pelos países da Organização.
Não obstante essa desarticulação momentânea, África do Sul
e Botsuana lograram mobilizar uma missão de paz, ao abrigo da SADC,
para intervir no Reino do Lesoto entre setembro de 1998 e maio de
1999, a fim de conter distúrbios que estavam ameaçando a estabilidade
institucional do Governo lesotano recém-eleito — trata-se do primeiro
132
 A SADC foi criada em 17/8/92, em reunião realizada em Windhoek, na Namíbia. A
Comunidade é integrada por 14 Estados membros: África do Sul, Angola, Botsuana,
Lesoto, Maurício, Malaui, Moçambique, Namíbia, República Democrática do Congo,
Suazilândia, Seicheles, Tanzânia, Zâmbia, Zimbábue.
A SITUAÇÃO ATUAL E AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS 177
engajamento militar sul-africano na era pós-apartheid. Embora seja
verdade que a guerra civil que assola a República Democrática do Congo
(RDC) esteja sendo tratada por meio de iniciativas de mediação pessoais,
como as do Coronel Moammar Gadafi, da Líbia, do Presidente Benjamin
Mkapa, da Tanzânia, e do Presidente Frederick Chiluba, da Zâmbia, a
África de Sul já manifestou estar em condições de oferecer tropas para
compor uma força multinacional africana, que contaria com a presença
de países membros e não-membros da SADC, destinada a implementar
o acordo de paz celebrado em Lusaca, em 10/7/99, sobre a RDC133.
Essas iniciativas, somadas aos exercícios militares que vêm realizando
com os países vizinhos — Blue Crane e Blue Hungwe (vide páginas
188 e 189 para maiores e por menores) — e à consolidação do regime
democrático, com a eleição, sem distúrbios, de Thabo Mbeki para
substituir Nelson Mandela na presidência da África do Sul em junho de
1999, sugerem que o Governo de Pretória vai perdendo as inibições
iniciais e começa a assumir responsabilidades mais diretas nos assuntos
de paz e segurança regionais.
ORGANIZAÇÃO DO TRATADO DO ATLÂNTICO NORTE E DA
UNIÃO DA EUROPA OCIDENTAL
Por seus engajamentos nos assuntos afetos à manutenção da
paz e da segurança internacionais, conviria tratar mais detidamente da
Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN)134 e mencionar,
133
 O conflito na RDC assumiu dimensão regional, com a participação de tropas de pelo
menos seis países (Angola, Chade, Namíbia e Zimbábue, do lado do Governo de Kinshasa,
e Ruanda e Uganda, do lado do movimento rebelde). Há ainda outros países africanos
oferecendo apoio político, dando guarida às forças em luta e autorizando o trânsito de
armas em seus territórios. Em 10/7/99, foi assinado um acordo de paz entre os seis países
diretamente engajados no conflito. Contudo, os principais grupos rebeldes firmaram o
cessar-fogo somente em 31/8/99, trazendo, assim, uma esperança da paz para a RDC.
134
 A OTAN é integrada por 19 Estados Membros: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados
Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países-Baixos, Portugal, Reino
Unido, Grécia (desde 1952), Turquia (1952), Alemanha (1955), Espanha (1982), República
Tcheca (1999), Hungria (1999) e Polônia (1999).
178 PAULO ROBERTO CAMPOS TARRISSE DA FONTOURA
ainda que brevemente, a União da Europa Ocidental (UEO)135, alianças
de defesa que estão atualizando seus conceitos estratégicos de emprego
de forças.
Na OTAN, a reunião de Cúpula de Roma, de novembro de
1991, aprovou um novo “conceito estratégico” (chamado Alliance
Strategic Concept), para atualizar os objetivos da Organização diante
dos acontecimentos político-militares marcantes da última década.
Nesse contexto, o novo conceito estratégico enfatizou, entre outros
aspectos, as questões de “diplomacia preventiva e manejo bem-
sucedido de crises”136. O Conselho do Atlântico Norte adotou
posteriormente duas decisões significativas: em 4/6/92, em Oslo, foi
acordado que a Organização poderia participar, por meio de decisões
tomadas caso a caso, das atividades de apoio à paz (peace support
operations) que viessem a ser promovidas pela Conferência de
Segurança e Cooperação na Europa (CSCE), hoje Organização de
Segurança e Cooperação na Europa (OSCE); e, em 17/12/92, em
Bruxelas, foi adotada decisão equivalente para eventuais pedidos das
Nações Unidas. Na Declaração adotada na reunião de Cúpula da
OTAN em Bruxelas, em janeiro de 1994, seus Estados