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A ludicidade na educação: uma atitude pedagógica Maria Cristina Trois Dorneles Rau Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Série Dimensões da Educação O selo DIALÓGICA da Editora Ibpex faz referência às publicações que privilegiam uma linguagem na qual o autor dialoga com o lei- tor por meio de recursos textuais e visuais, o que torna o conteúdo muito mais dinâmico. São livros que criam um ambiente de intera- ção com o leitor – seu universo cultural, social e de elaboração de conhecimentos –, possibi- litando um real processo de interlocução para que a comunicação se efetive. Dimensões da Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. A ludicidade na educação: uma atitude pedagógica Maria Cristina Trois Dorneles Rau 2ª ed. rev., atual., ampl. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Conselho editorial Dr. Ivo José Both Drª. Elena Godoy Dr. Nelson Luís Dias Dr. Ulf Gregor Baranow Editor-chefe Lindsay Azambuja Editor-assistente Ariadne Nunes Wenger Editor de arte Raphael Bernadelli Análise de informação Silvia Kasprzak Revisão Filippo Mandarino Capa e ilustração da capa Denis Kaio Tanaami Projeto gráfico Frederico Santos Burlamaqui Iconografia Danielle Scholtz Avenida Vicente Machado, 317 – 14° andar Centro – CEP 80420-010 – Curitiba – PR Fone: [41] 2103-7306 www.editoraibpex.com.br editora@editoraibpex.com.br Informamos que é de inteira responsabilidade da autora a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a prévia autorização da Editora Ibpex. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei nº 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Código Penal. Foi feito o depósito legal. Esta obra é utilizada como material didático nos cursos oferecidos pelo Grupo Uninter. Rau, Maria Cristina Trois Dorneles A ludicidade na educação: uma atitude pedagógica [livro eletrônico] / Maria Cristina Trois Dorneles Rau. – Curitiba: Ibpex, 2013. – (Série Dimensões da educação) 2 Mb ; PDF Bibliografia. 978-85-417-0029-0 1. Aprendizagem perceptivo-motora 2. Atividades criativas 3. Capacidade motora em crianças 4. Crianças – Desenvolvimento 5. Educação pré-escolar 6. Jogos educativos – Atividades I. Título. II. Série. 13-00720 CDD-371.397 1ª edição, 2013. Índices para catálogo sistemático: 1. Jogos e atividades: Educação 371.397 2. Ludicidade: Educação 371.397 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Apresentação .........................................................................................................11 Organização didático-pedagógica ................................................................19 Introdução .............................................................................................................21 1 As bases teóricas da educação lúdica ................................................25 1.1 Ludicidade: um novo olhar para a formação do educador ............................................................. 25 1.2 A ludicidade na educação ...................................................... 30 1.3 A função lúdica e educacional do jogo .............................. 32 1.4 A atitude pedagógica do professor na utilização da ludicidade como recurso pedagógico .................................. 38 1.5 O jogo, o brinquedo e a brincadeira na educação .......... 43 1.6 A função educacional da ludicidade ................................... 61 2 A ludicidade no desenvolvimento do ser humano e as implicações para a prática educativa ............................................ 79 2.1 O lúdico enquanto linguagem simbólica .......................... 79 2.2 Brinquedos e brincadeiras considerando as diferentes culturas ..................................................................... 86 Sumário Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 2.3 O papel do jogo e da brincadeira no desenvolvimento e na aprendizagem para a criança da educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental ............................... 90 2.4 Contribuições de Vygotsky .................................................... 95 2.5 O lúdico como recurso pedagógico direcionado ao diagnóstico do processo de aprendizagem infantil ......101 2.6 O lúdico como recurso pedagógico direcionado às áreas de desenvolvimento e aprendizagem .....................109 2.7 A infância, o brincar, a cultura e a subjetividade ..........112 2.8 O lúdico como recurso pedagógico direcionado à alfabetização e à aprendizagem das diferentes áreas do conhecimento..................................................................... 116 2.9 O lúdico como recurso pedagógico direcionado ao desenvolvimento psicomotor ..............................................124 3 A ludicidade para além da prática na escola: uma questão de atitude ........................................................................141 3.1 Jogos educativos ......................................................................146 3.2 Jogos de regras .........................................................................150 3.3 Jogos cooperativos ..................................................................161 3.4 Jogos tradicionais ....................................................................164 3.5 Dinâmicas de grupo ...............................................................1714 As práticas pedagógicas do lúdico na educação ..........................185 4.1 Brincar e educar na educação .............................................191 4.2 A ludicidade e o movimento na educação ......................194 4.3 Brinquedoteca: um espaço essencial à saúde física, emocional e intelectual do educando ...............................209 Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Considerações finais ...........................................................................................225 Referências.............................................................................................................229 Bibliografia comentada.....................................................................................235 Apêndice ..................................................................................................................237 Respostas .................................................................................................................241 Sobre a autora .......................................................................................................245 Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. É assim que se brinca... Cada jogo tem suas regras. Mas cada grupo de crianças as interpreta, cria e recria a seu modo. Vou explicar as regras do jogo. Cabe a você traduzi-las... Adriana Friedmann (1996) Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Nesta obra, pensamos a ludicidade no sentido de sistematizar conheci- mentos teóricos e práticos centrais para a utilização do lúdico como recurso pedagógico pelos professores da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental. Tendo como ponto principal o enten- dimento sobre as necessidades e os interesses do educando e do edu- cador no processo ensino e aprendizagem, a abordagem sobre o lúdico na educação está fundamentada aqui nas concepções teóricas e práti- cas de autores de grande expressão na área educacional, enfocando as concepções de ludicidade, infância, educação, sociedade, bem como a apresentação sobre a classificação dos jogos, o papel do educador e a organização de espaços e materiais. O objetivo é tratar de questões relativas à ludicidade como ati- tude pedagógica do professor de educação infantil e anos iniciais do Apresentação Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 12 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au 12 ensino fundamental, considerando o educando um sujeito ativo e refle- xivo no processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, a obra aponta também aspectos sobre o desenvol- vimento e a aprendizagem das crianças do primeiro nível da educação básica, enfocando suas características, necessidades e interesses, e dos anos iniciais do ensino fundamental, abordando a ludicidade como um dos recursos pedagógicos a serem utilizados pelo professor que busque possibilidades metodológicas que atendam às especificidades do pro- cesso de ensino-aprendizagem das diferentes áreas de conhecimento, por meio de recursos pedagógicos, aliados à expressão lúdica, também necessária às crianças dessa faixa etária. Assim, as discussões apresentadas nesta obra pretendem que você, profissional da educação, reflita a respeito da concepção de lu- dicidade e sua relação com o desenvolvimento e o processo de ensino- -aprendizagem da criança de 0 a 10 anos, ou, mais especificamente, a criança da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamen- tal. Para isso, é fundamental que o educador identifique a sua própria concepção sobre a ludicidade e sua relação com a cultura, a infância, a sociedade, a educação e seus desafios e avanços teóricos, práticos, polí- ticos, ideológicos, tecnológicos. Nessa perspectiva, o conteúdo desta obra visa significar e am- pliar a visão existente sobre a ludicidade e dialogar com todos que parti- cipam direta ou indiretamente da educação dessas crianças e acreditam poder mediar a construção do conhecimento sistematizado pela escola pelo currículo, observando o desenvolvimento da autonomia e da criti- cidade. Diálogo importante também para os que percebem a expressão da atual sociedade na voz e na corporeidade dos educandos e por isso têm objetivos educacionais e não medem esforços para alcançá-los. O título dado a esta obra aponta para a intenção de promover uma reflexão crítica e consciente por parte do educador que utilizar o lúdico como recurso pedagógico. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 13 M aria C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a 13 Elaborada inicialmente para uma defesa de dissertação de mes- trado em educação, esta obra conserva qualidades significativas, como o estudo atento do referencial teórico e os resultados da pesquisa-en- sino realizada, ob a orientação da professora Dr.ª Pura Lúcia Oliver Martins, orientadora da dissertação, e da professora Dr.ª Joana Paulin Romanowski, que apontou diversas possibilidades reflexivas no tema pesquisado. A pesquisa foi feita com diretoras, pedagogogas, psicólogas e professoras que atuam em escolas públicas e privadas na educação bá- sica em diferentes estados brasileiros; assim foram definidos os suportes teóricos, as classificações de jogos mais utilizados em suas funções lú- dicas e educativas, consistindo então em uma abordagem que surgiu de experiências vivenciadas no cotidiano educacional brasileiro. Os estudos sobre a concepção de ludicidade por parte de pro- fessores de educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental referidos neste livro levam em consideração a ligação existente entre o ensino, a formação acadêmica e a formação pedagógica. O que foi observado inicialmente é a existência de uma enorme lacuna no que diz respeito ao estudo sobre o lúdico como recurso pedagógico enquanto assunto tratado durante a formação inicial do educador. Assim, a perspectiva aqui apresentada trata o lúdico como uma possibilidade pedagógica em consonância com a orientação metodoló- gica do trabalho docente na educação infantil e anos iniciais do ensi- no fundamental. A ludicidade como atitude pedagógica, nesse sentido, justifica-se por considerar que o educador que pesquisar, conhecer e vivenciar as diversas abordagens da ludicidade na educação considera que o conhecimento pode ser construído com base no universo infantil, que se desvenda e avança à medida que a criança, o jovem e o adulto ampliam seu repertório cultural e social. Agora, na segunda edição, o tema é amadurecido, já que no decorrer de três anos continuei a pesqui- sa, o estudo e as práticas sobre a ludicidade na educação. Nesse sentido, trago a inclusão de conteúdos, reflexões e sugestões práticas que podem auxiliar os educadores na utilização da ludicidade como recurso pe- dagógico para o processo de ensino-aprendizagem nas instituições de educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 14 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Assim, a ludicidade possibilita a reflexão quando se pensa no sujeito autônomo e reflexivo, no que diz respeito às relações sociais em que estiver inserido e na sua função educativa, capaz de estabelecer re- lações significativas com o meio, utilizando a cognição e a criatividade na solução de problemas e tornando-se o que Friedmann (1996) des- creve como um adulto saudável. Nessa perspectiva, o professor, ao estudar a ludicidade em seus aspectos teóricos e práticos, terá a possibilidade de utilizá-la como re- curso pedagógico voltado a uma práxis no processo de ensino-aprendi- zagem. Para que isso ocorra verdadeiramente, é preciso que a ludicida- de, em suas funções lúdica e educativa, seja repensada constantemente pelo educador, observando as necessidades e os interesses de seu grupo de educandos, a reflexão sobre o que faz, por que o faz e a relação com os diferentes instrumentos pedagógicos e as várias linguagens utiliza- das. A reflexão do educador poderá apontar caminhos que atendam às exigências das novas situações educativas. O lúdico utilizado pelo professor em sala de aula torna-se, então, um meio para a realização dos objetivos educacionais, e o aluno, ao praticá-lo, não se limita à sua ação livre, iniciada e mantida pelo prazer de jogar, mas participa ativamente do processo de construção do conhecimento. O presente livro foi organizado em quatro capítulos, que bus- cam discutir o significado de questões relativas ao lúdico na formação do educador: os conceitos de jogo, brinquedo e brincadeira, o desen- volvimento e a aprendizagem infantil e sua relação com o lúdico como recurso pedagógico. São apresentadas ainda as classificações dos jogos que têm maior expressão no cotidiano escolar e, por fim, as práticas lú- dicas na educação, abordadas à luz da psicomotricidade, além da mon- tagem da brinquedoteca. O primeiro capítulo, intitulado As bases teóricas da educação lúdi- ca, tem por objetivo levar o leitor a refletir sobre sua formação no que tange ao lúdico como recurso pedagógico. Nessa perspectiva, quando os professores entendem o significado das experiências lúdicas vivencia- das por crianças e alunos da educação básica, podem, na formação lúdi- ca, conhecer-se como pessoa, reconhecer suas potencialidades e limites, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 15 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a lidar com seus obstáculos e desafios e ter objetivos claros sobre a im- portância do jogo e do brinquedo para a vida do ser humano em todas as suas fases. Para tratarmos desse aspecto, examinaremos aspectos da ludicidade na educação, abordando a função lúdica e educacional do jogo. Nesse contexto, enfocaremos a atitude pedagógica do professor na utilização da ludicidade como recurso pedagógico com base na concei- tuação do jogo, do brinquedo e da brincadeira na educação e sua relação com a aprendizagem. Por fim, a reflexão sobre a teoria como expressão da prática objetiva identificar como o professor pode ensinar brincando. O segundo capítulo tem como título O lúdico no desenvolvimen- to do ser humano e as implicações para a prática pedagógica e promove a apresentação sobre as concepções e as práticas concernentes ao lúdico na educação, ao desenvolvimento e à aprendizagem infantil, buscando ampliar os conceitos de jogo, brinquedo e brincadeira. Para abordarmos o lúdico como recurso pedagógico, definiremos algumas categorias: o lúdico enquanto linguagem simbólica; os brinquedos e as brincadeiras, considerando as diferentes culturas; o lúdico como recurso pedagógico direcionado para o diagnóstico do processo de aprendizagem infantil; o lúdico como recurso pedagógico direcionado às áreas de desenvolvi- mento e aprendizagem; o lúdico como recurso pedagógico direcionado à alfabetização e à aprendizagem das diferentes áreas de conhecimento e o lúdico como recurso pedagógico direcionado ao desenvolvimento psicomotor. O terceiro capítulo – A ludicidade para além da prática na escola: uma questão de atitude – traz a classificação dos jogos em seis categorias, que podem servir como referencialpara a educação atual. Outras classi- ficações poderiam ser incluídas, por serem relevantes ao debate que se propõe aqui, porém é preciso priorizar as aproximações entre os jogos e interesses dos educadores e dos educandos, e esse foi o critério que levou à seleção adotada nesta obra. O quarto capítulo aborda as práticas pedagógicas com a ludici- dade na educação tornando-se por base o desenvolvimento psicomo- tor que destaca o movimento como forma de expressão humana. Os Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 16 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au conceitos e as práticas têm por objetivo levar o leitor à reflexão de como o educando pode ser estimulado a partir das brincadeiras e jogos e não propiciar receitas prontas para um trabalho de reprodução. Nessa perspectiva, a brinquedoteca vem ao encontro da ideia de representação de papéis, de imitação, de aprendizagens autônomas, frente à diversidade cultural existente no universo da educação. O objetivo desta obra, contudo, é levar o leitor a refletir sobre o brincar como um eixo fundamental no desenvolvimento e na aprendi- zagem do ser humano. Para tanto, resgatar jogos, brincadeiras e brin- quedos que fazem parte da infância traz a possibilidade de se rever sentimentos, sensações, diferentes culturas e linguagens, entre outros aspectos que podem contribuir para esse estudo. Pensando nisso, bus- camos chamar a atenção para o resgate da cultura infantil por meio do lúdico, já que atualmente muitas discussões têm se referido de certa ma- neira à perda de valores nas famílias, nas comunidades e na sociedade como um todo. Nesse sentido, problematizar tal questão é fundamental para a sistematização dos saberes escolares, pois o conhecimento cons- truído na escola parte da realidade na qual as crianças estão inseridas. Essa realidade, social com certeza, também é afetiva, cognitiva e motora, e é necessário um caminho que leve a criança à sua formação integral. Pensar sobre a escola, a educação, a sociedade e a cultura supõe assumir o princípio de que o homem, sujeito de todos esses aspectos, está em evolução, que nos remete à construção e transformação de hábitos, ne- cessidades e questionamentos que a ciência tem se mostrado eficiente em atender e responder. Nesse contexto, a reflexão sobre o modo de brincar das gerações atuais aponta distinções em relação às anteriores, e isso ocorre porque o homem é um ser histórico, tem desejos e interesses que variam ao lon- go do tempo e, nesse sentido, busca diferentes formas de expressá-los para ser compreendido. Assim, pretendo que as reflexões e discussões organizadas sobre a formação lúdica sejam um incentivo ao educador pesquisador, problematizador, questionador e ludicamente vivo na per- manente intenção de fazer parte do processo de construção do conhe- cimento da criança. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 17 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Com efeito, aponto o lúdico como um dos recursos que possibi- litam a utilização, ao mesmo tempo, de diferentes tipos de linguagem e, por esse e outros aspectos, facilita a apropriação de significações e con- ceitos por parte do educando na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental. Assim, considerar a ludicidade como recurso pedagógico requer que você, educador, debruce-se diante das diversas brincadeiras infantis e das suas relações com o aporte teórico, explore recursos e materiais, organize objetivos e elabore espaços e ambientes que favoreçam as ações educativa e recreativa. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Organização didático-pedagógica Esta seção tem a finalidade de apresentar os recursos de aprendiza- gem utilizados no decorrer da obra, de modo a evidenciar os aspectos didático-pedagógicos que nortearam o planejamento do material e como o aluno/leitor pode tirar o melhor proveito dos conteúdos para seu aprendizado. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Simplificando... Nesta seção você conta com um recurso que auxi- lia na fixação do que já foi apresentado no capítulo, facilitando o aprendiza- do e a memorização do conteúdo. Pare e pense Aqui, nesta seção, faze- mos com que você reflita sobre algumas questões pertinentes durante todo o capítulo. Síntese Você conta nesta seção com um recurso que irá instigá-lo a fazer uma reflexão sobre os conteú- dos estudados, de modo a contribuir para que as conclusões às quais você chegou sejam reafirmadas ou redefinidas. Indicações culturais Ao final do capítulo, a autora lhe oferece algumas indicações de livros, filmes ou sites que podem ajudá-lo a refletir sobre os conteúdos estudados, permitindo o aprofunda- mento em seu processo de aprendizagem. Atividades de autoavaliação Com estas questões obje- tivas, você mesmo tem a oportunidade de verificar o grau de assimilação dos conceitos examinados, motivando-se a progre- dir em seus estudos e a preparar-se para outras atividades avaliativas. Atividades de aprendizagem Aqui você dispõe de ques- tões cujo objetivo é levá-lo a analisar criticamente um determinado assunto e a aproximar conhecimentos teóricos e práticos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s erre pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. A atual perspectiva sobre a infância, a educação e a sociedade vem apon- tando um universo distinto no que diz respeito às formas de expressão de valores, interesses, ensino e aprendizagem. Nesse sentido, a ludici- dade, área que trata dos jogos, dos brinquedos e das brincadeiras, tem levado os profissionais da educação a estimular a sua prática como for- ma de proporcionar a aprendizagem e o desenvolvimento infantil. No Brasil, muitos estudiosos sobre a ludicidade há algumas décadas vêm apontando o jogo como um instrumento pedagógico muito significati- vo e de grande valor social, oferecendo, assim, diferentes possibilidades educacionais. Paralelo a esse estudo está a discussão sobre os recursos e as metodologias que possam atender a uma demanda de educandos in- seridos em um contexto social, econômico e tecnológico diverso. Nesse sentido, organizamos esta obra com o objetivo de sistematizar ideias consideradas centrais para a utilização do lúdico como recurso pedagó- gico pelo professor da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental. As discussões iniciais pretendem que você reflita sobre sua formação no que diz respeito ao lúdico, levando-o a identificar em si mesmo, na lembrança de suas experiências lúdicas em diferentes con- textos, no significado que as brincadeiras tiveram para você, enquanto criança e aluno da educação básica, tanto nas instituições de educação infantil como nas escolas de ensino fundamental é também importan- te que você busque quais conceitos e práticas foram construídas com Introdução Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 22 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au a ludicidade durante a sua formação inicial. Nessa perspectiva, tem- -se como objetivo possibilitar a compreensão de que a formação lúdica permite ao futuro educador ter uma visão clara sobre a importância do jogo, do brinquedo e da brincadeira para a vida da criança em idade escolar que, para os níveis de ensino a que serão formados, atendem de 0 a 10 anos, abordando as necessidades e os interesses do educando e do educador no processo ensino e aprendizagem. Assim, na tentativa de explicitar a ludicidade como uma atitude pedagógica, o texto deste livro irá apresentar a concepção de lúdico como recurso pedagógico na educação, de modo a evidenciar as apro- ximações entre o lúdico, o desenvolvimento e a aprendizagem infantil, convidando você a rever e repensar os conceitos e as práticas sobre a lu- dicidade na educação. Nesse contexto, trata-se de apontar a ludicidade como um conhecimento indispensável ao profissional da educação para que construa sua prática pedagógica considerando as diferentes realida- des socioeconômicas e culturais nas quais estão inseridos os seus edu- candos, de maneira consciente, autônoma, criativa, crítica e reflexiva. As reflexões sugeridas com base em um denso referencial teó- rico sobre a ludicidade têm como objetivo pensar o lúdico como re- curso pedagógico utilizado de forma significativa para o educando, uma vez que as concepções de educação atuais, pensadas e sistema- tizadas com base na Constituição Brasileira (1988a), no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990b) e, principalmen- te, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN nº 9.394/1996c), incentivam a prática de jogos e brincadeiras na escola como um meio de propor- cionar a aprendizagem e o desen- volvimento infantil. Os conceitos abordados e discutidos são fundamentados a Para ler a Constituição (1988) na íntegra, acesse o site: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ constituicao/constitui%C3%A7ao.htm>. ba Para ler a Lei nº 8.069/1990 na íntegra, acesse o site: <http://www.planalto.gov.br/ccivil/LEIS/ L8069.htm>. ca Para ler a Lei nº 9.394/1996 na íntegra, acesse o site: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ LEIS/l9394.htm>. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 23 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a por autores de efetiva atuação e expressão nacional e internacional e que relacionam o lúdico à realidade educacional brasileira. Nessa perspectiva, a classificação dos jogos que apresentamos foi concebida tomando-se por base discussões e reflexões surgidas das práticas desenvolvidas por professores que atuam na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, considerando seu conhecimento inicial, prático, vivenciado e fortalecido por uma necessidade de am- pliação. Questões como a organização de conteúdos que contemplem metodologias e linguagens interessantes aos educandos, a significação histórica e cultural da ludicidade na educação e na sociedade, a elabo- ração, a confecção e o desenvolvimento de práticas e recursos lúdicos, dúvidas, sucessos e fracassos fizeram parte do cenário que possibilitou a construção e o pensamento sobre o lúdico como recurso pedagógico. Assim, pretendemos estabelecer relações entre os referenciais teóricos e o lúdico na ação pedagógica do professor em sala de aula, considerando que essa área ainda tem muito que ser valorizada e por isso não se esgota aqui, mas acreditando que com estudo, pesquisa e atitude é possível empregar a ludicidade no processo de construção de conhecimento, fazendo dos jogos grandes colaboradores na prática pe- dagógica do professor da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o pelo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Neste capítulo, objetivamos apresentar a ludicidade como uma atitude pedagógica na prática do professor de educação infantil e anos inicias do ensino fundamental. Traz a você, ainda, as concepções teóricas da área em questão, procurando demonstrar como a formação lúdica pode fazer parte do currículo de formação superior. 1.1 Ludicidade: um novo olhar para a formação do educador Muitos profissionais da área educacional utilizam a ludicidade como um recurso pedagógico, pois a utilização de recursos lúdicos, como jo- gos e brincadeiras, auxilia a transposição dos conteúdos para o mundo do educando. Nesse sentido, a ludicidade, como elemento da educação, também é passível de demonstrar a evolução humana com base em suas interações sociais, culturais e motoras, pois o homem sempre teve em seu repertório as linguagens do brincar. Assim, a ludicidade na educa- ção dá sequência aos estudos teóricos sobre esse tema, enfocando como este pode fazer parte do currículo escolar, a partir da conceituação sobre o jogo, o brinquedo e a brincadeira. O seu olhar para essa abordagem 1 As bAses teóricAs dA educAção LúdicA Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 26 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au deve ser o de alguém que se insere no ato de brincar, procurando perce- ber, identificar e ampliar seus conhecimentos práticos, teóricos e táticos sobre o tema. Nessa perspectiva, desejo a todos os que puderem dia- logar com o texto elaborado para o estudo da ludicidade na educação que possam se envolver, de maneira lúdica, às vezes subjetiva, às vezes objetiva, clara ou reflexiva, de maneira a resgatar a cultura existente nos jogos. Entre as questões que mo- bilizam os educadores, encontra-se a organização de propostas para a formação profissional fundadas na estreita articulação entre teoria e prática. Pesquisas têm apontado que, atualmente, há uma constan- te necessidade de a escola trabalhar conteúdos programáticos com apli- cabilidade prática, correspondendo aos anseios de um aluno que hoje é mais questionador. Assim, os pro- fessores não têm poupado esforços para buscar metodologias que sejam significativas e atendam aos in- teresses e às necessidades não apenas de seus alunos, mas também de todos os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. No entanto, estudos revelam que, desde há muito, ocorrem problemas na formação desses professores, no sentido de identificar a relação dialética existente entre os aspectos acadêmicos que possibilitam uma relação de inte- ração entre a prática que cada professor irá desenvolver baseando-se na realidade educacional em que for atuar e a teoria, que se funda na concepção de educação, de criança e de sociedade da própria instituição educacional. Nesse sentido, Santos (1997, p. 12) aponta que “a falta de cla- reza do perfil profissional se reflete nos currículos, tornando os cur- sos fragmentados e distantes da prática pedagógica desenvolvida nas O seu olhar para essa abordagem deve ser o de alguém que se insere no ato de brincar, procurando perceber, identificar e ampliar seus conhecimentos práticos, teóricos e táticos sobre o tema. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 27 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Ilustração: Andre Figueiredo Muller escolas”. Para a autora, a formação acadêmica em nível universitário, na maioria das vezes, limita-se a um grupo de disciplinas teóricas que não guardam relação com a prática na qual aqueles profissionais irão atuar. O que você espera encontrar no curso de Pedagogia? Qual relação entre a teoria e a prática você pretende construir em seus estudos? Pare e pense Ao refletir sobre tais questões, saiba que quando se trata da for- mação do professor da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental, uma questão tem ocupado os meios educacionais, seja na academia, seja nas escolas desses níveis de ensino: é o lúdico como recurso e/ou método de ensino. Desse modo, ao participar de encontros educacionais e possi- bilitar discussões sobre o lúdico com professores, constata-se que estes se referem à importância de jogos e brincadeiras de que participaram quando em formação inicial, evidenciando elementos pertinentes ao lúdico como uma possibilidade de formação pessoal e pedagógica nas graduações e nas licenciatu- ras na área da educação, apesar de poucos mencionarem a presença do lúdico nesse contexto. Nessa perspectiva, os estu- dos de Santos (1997, p. 14) defi- nem bem essa questão: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 28 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au A formação lúdica se assenta em pressupostos que valo- rizam a criatividade, o cultivo da sensibilidade, a busca da afetividade, a nutrição da alma, proporcionando aos futuros educadores vivências lúdicas, experiências corporais, que se utilizam da ação, do pensamento e da linguagem, tendo no jogo sua fonte dinamizadora. Você se lembra da última vez em que brincou? Você se divertiu? Em que contexto estava, quais as pessoas envolvidas, que objetos faziam parte desse cenário? Pare e pense Provavelmente, ao retomar essas lembranças, você irá perceber o quanto foi prazerosa a sensação que lhe possibilitou tal momento. A ludicidade tem como característica lidar com as emoções e por isso traz à tona sentimentos de alegria, companheirismo e cooperação, mas também evoca sentimentos de medo, ansiedade e frustração. Por isso, a ludicidade é uma possibilidade pedagógica que, fortalecida pelos dife- rentes tipos de linguagem, como a música, a arte, o desenho, a drama- tização, a dança, entre outros, torna significativo os conceitos a serem trabalhados. Em resumo, Santos (1997, p. 14) afirma que, “quanto mais o adulto vivenciar sua ludicidade, maior será a chance de este profissional trabalhar com a criança de forma prazerosa”. Neste momento, talvez você esteja pensando sobre qual o tempo e o espaço disponibilizados para o lúdico em sua vida. Quantas vezes você se pegou brincando e inventando passatempos e histórias para aliviar as tensões do cotidiano?Pare e pense Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 29 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Ilustração: Andre Figueiredo Muller Você deve ter percebido que, apesar de relaxar por um momento, havia a necessidade e até a cobran- ça por parte da sociedade em voltar rapidamente à realidade, como se estivesse negando a sua responsa- bilidade. Assim, um dos mitos que o estudo da ludicidade desmistifica nesta disciplina objetiva é o de que a brincadeira é apenas um passa- tempo, algo tido como não sério e, assim, desprovido de qualquer possibilidade de aprendizagem para o educando dos anos iniciais do ensino fundamental, já que os conteúdos apresentados nesse nível de ensino são sistematizados de forma dife- rente aos da educação infantil. Contudo, optamos por iniciar as discussões propostas nesta obra por essas reflexões, na tentativa de pensar so- bre a ludicidade na formação inicial do educador. Em conversas observadas por educa- dores que participam de cursos de capacitação na área da educação, muitas vezes percebe-se que a grande maioria gostaria de encontrar metodologias que fossem explícitas, como bu- las de remédio, com indicações e contraindicações. Nesse sentido, na educação, muitas vezes entendemos que a melhor maneira de contri- buir para analisar e transformar o processo de ensino-aprendizagem seria encontrar uma fórmula que minimizasse o desinteresse, a falta de concentração, a indisciplina e as dificuldades de aprendizagem dos alunos, temas que constantemente preocupam os educadores. Nesse caso, uma alternativa seria dar ênfase à busca de pistas que auxiliem a modificar a atuação pedagógica no contexto do nosso sistema de ensino, indo, contudo, além da crítica: atuar pedagogicamente com força para a mudança, encontrar formas de agir com os próprios meios, tomando Brincar é coisa séria! Isso envolve uma atitude por parte do adulto, seja ela nos momentos planejados ou livres, seja durante a atuação pedagógica voltada à aprendizagem significativa. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 30 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au como ponto de partida as partes e não o todo, enfrentando o desafio de educar com criatividade e responsabilidade, descobrindo maneiras mais interessantes de lidar com a realidade. Logo de início, já aponto algumas questões fundamentais para você, que pretende se utilizar desses recursos – os jogos, os brinquedos e as brincadeiras – no seu cotidiano escolar. A prática pedagógica por meio da ludicidade não pode ser considerada uma ação pronta e aca- bada que ocorre a partir da escolha de um desenvolvimento de jogo retirado de um livro. A ludicidade na educação requer uma atitude pe- dagógica por parte do professor, o que gera a necessidade do envolvi- mento com a literatura da área, da definição de objetivos, organização de espaços, da seleção e da escolha de brinquedos adequados e o olhar constante nos interesses e das ne- cessidades dos educandos. Nessa perspectiva, visando à discussão acerca da ludicidade na formação do educador que irá atu- ar na educação infantil e nos anos iniciais, apresentaremos a seguir as ideias dos principais autores que focalizam o lúdico, em uma interlocução que se faz necessária para es- clarecer conceitos e concepções usualmente comentadas. 1.2 A ludicidade na educação De acordo com Costa (2005, p. 45), “a palavra lúdico vem do latim ludus e significa brincar. Nesse brincar estão incluídos os jogos, brin- quedos e brincadeiras e a palavra é relativa também à conduta daquele que joga, que brinca e que se diverte”. Por sua vez, o jogo possibilita a aprendizagem do sujeito e o seu pleno desenvolvimento, já que conta A prática pedagógica por meio da ludicidade não pode ser considerada uma ação pronta e acabada que ocorre a partir da escolha de um desenvolvimento de jogo retirado de um livro. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 31 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a com conteúdos do cotidiano, como as regras, as interações com objetos e o meio e a diversidade de linguagens envolvidas em sua prática. Desse modo, com base no pressuposto de que a prática pedagógica possa pro- porcionar alegria aos alunos no processo de aprendizagem, o lúdico deve ser levado a sério na escola, proporcionando-se o aprender por meio do jogo e, logo, o aprender brincando. Podemos deduzir, assim, que a formação lúdica do professor favorece essa prática. O entendimento do jogo como recurso pedagógico passa pela concepção de que a função educacional da escola é ensinar e que por isso esta tem objetivos edu- cacionais a atingir; o alu- no, nesse sentido, faz parte da elaboração e orientação rumo a esses objetivos, para chegar à construção de seu próprio conhecimento. Assim, qualquer ati- vidade dirigida e orienta- da visa a um resultado e possui finalidades pedagó- gicas, portanto, a ludicidade como recurso pedagógico tem objetivos educacionais a atingir. Nessa perspectiva, utilizado em sala de aula, o jogo torna-se en- tão um meio para a realização dos objetivos educacionais, e ao educan- do, ao praticá-lo nesse contexto, deve ser garantida a ação livre, iniciada e mantida unicamente pelo prazer de jogar é atrelada aos objetivos edu- cacionais sistematizados pelo educador. Tais questões têm trazido à tona dis- cussões em torno da apropriação do jogo pela escola, especialmente do jogo educa- tivo. Diversos autores, entre eles Tizuko Morchida Kishimoto (2008)a, estudiosa so- bre os jogos educativos, defendem que estes A ludicidade se define pelas ações do brincar que são organizadas em três eixos: o jogo, o brinquedo e a brincadeira. Ensinar por meio da ludicidade é considerar que a brincadeira faz parte da vida do ser humano e que, por isso, traz referenciais da própria vida do sujeito. a Kishimoto (1994, 2008, 2010) é uma autora estudiosa da ludicidade e o faz à luz da realidade educacional brasileira; assim, sugiro a leitura de suas obras referenciadas neste livro e tambéma pesquisa de outros títulos e sites da internet voltados à educação. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 32 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au surgiram na Roma e na Grécia antigas, quando havia a produção de doces em forma de letras destinados ao aprendizado das letras. Ao en- contro desse fundamento, Ariès (1981, p. 77) argumenta que “a prática de unir o jogo aos primeiros estudos justifica o nome ludus atribuído às escolas de instrução elementar, semelhante aos locais destinados à prá- tica de exercícios de fortalecimento do corpo e do espírito nessa época”. Já há mais de uma década, as pesquisas desenvolvidas por Kishimoto (2008) apontam a diferença entre o jogo e o material pe- dagógico e trazem a reflexão condizente à utilização do jogo educativo em sala de aula, garantido pela sua função lúdica: a de ser escolhido voluntariamente pelo educando ou um meio para alcançar um objetivo. Nas palavras da autora (2008, p. 26), há uma característica do jogo que deve ser levada em consideração: [...] controle interno: no jogo infantil, são os próprios jo- gadores que determinam o desenvolvimento dos aconteci- mentos. Quando o professor utiliza um jogo educativo em sala de aula, de modo coercitivo, não oportuniza aos alunos liberdade e controle interno. Predomina, neste caso, o ensi- no, a direção do professor. Nessa perspectiva, é importante que o educador tenha clara essa diferenciação, pois muitas vezes o jogo é utilizado com o objetivo de ensinar sem que o professor tenha claro o que realmente pretende esti- mular em relação ao processo ensino e aprendizagem. 1.3 A função lúdica e educacional do jogo O significado atual do jogo na educação, segundo Kishimoto (2008), sinaliza a existência de divergências em torno do jogo educativo, que estaria relacionado concomitantemente a duas funções. Para a auto- ra (2008), a primeira seria a função lúdica do jogo, expressa na ideia de que sua vivência propicia a diversão, o prazer, quando escolhido Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 33 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a voluntariamente pela criança. A segunda seria a função educativa, quan- do a prática do jogo leva o sujeito a desenvolver seus saberes, seus co- nhecimentos e sua apreensão de mundo. O equilíbrio entre as duas funções seria então o objetivo do jogo educativo. Nessa perspectiva, a organização do espaço, a seleção dos brinquedos e a interação entre os educandos refletem na ação voluntária da criança e a ação pedagógica do professor. A ludicidade utilizada como recurso pedagógico em ambiente de ensino traz o prazer como um referencial das ações dos educandos. Mas será que é sempre assim? Será que ensinar por meio da ludicidade sempre dá certo ou apresenta algumas dificuldades? Quais seriam elas e como enfrentá-las? Você se lembra quando, em alguma série do ensino fundamental, houve uma disciplina em que você parecia ser um “extraterrestre” e a professora parecia falar uma língua muito diferente da sua? Pare e pense Toda vez que um conteúdo novo estava para ser iniciado em sua educação básica, você elaborava novas expectativas. Na tentativa de superar a dificuldade, você prestava atenção a tudo que a professo- ra explicava. No início tudo ia bem, as suas habilidades cognitivas de atenção e concentração o ajudavam, mas no decorrer das explicações parecia que algo acontecia dentro de você e tudo explodia, parecendo não ter significado algum. Logo, você experimentava uma sensação de frustração, medo, ansiedade. A aprendizagem requer a significação das informações para que se torne conhecimento. Assim, sempre que se aprende algo novo há um universo de significações que passam pela área cognitiva, afetiva, motora e social. Por exemplo: para aprender a contar é necessário que o Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 34 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au sujeito encontre um sentido. É preciso que as funções cognitivas, como o raciocínio lógico, possibilitem a elaboração da soma. A linguagem dos números também precisa ser decodificada. Veja quantas relações você precisa fazer! Pare e pense Assim, como toda aprendizagem, o jogo também evoca proble- mas e a necessidade de sua superação. Nem sempre estarão todos pre- parados para jogar; haverá di- ficuldades cognitivas, motoras, afetivas e sociais. Nessas condi- ções, em se tratando da utiliza- ção da ludicidade como recurso pedagógico, é importante refle- tir sobre quais dificuldades po- dem ser enfrentadas quando se desenvolve algum tipo de jogo com os alunos em sala de aula. Atualmente, existe um grande número de livros descrevendo jogos para estimular conheci- mentos específicos, identifican- do objetivos e recursos. Ocorre muitas vezes que, à primeira vista, essas atividades lúdicas parecem interessantes, po- rém, ao desenvolvê-las em sala, acontecem interações que não são esperadas e com as quais não se sabe lidar, como os con- flitos cognitivos e emocionais. Jogar também passa por esse processo. Quando você entra na ação do jogo, elabora metas (seus objetivos), prepara estratégias (sua ação cognitiva e motora no jogo), escolhe caminhos (elabora hipóteses), brinca de “faz de conta” (vivencia papéis), raciocina e enfrenta desafios (tenta superar os obstáculos), vivencia emoções e conflitos (alegria, ansiedade), organiza o pensamento (supera os problemas, percebe erros e acertos), e sintetiza (compreende resultados, vencendo ou perdendo). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 35 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n aed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Para a superação das dificuldades é preciso que você, educador, tenha conhecimento sobre as classificações dos jogos que possibilitam identificar quais tipos atendem aos objetivos elaborados de acordo com as necessidades dos alunos e do planejamento pedagógico; como orga- nizar um ambiente rico e dinamizador de interações, como lidar com conflitos afetivos nas relações entre os educandos e como observar os avanços e as dificuldades explicitadas em momentos de jogos por meio da escuta das falas orais e corporais, pois o corpo também fala. Figura 1.1 – Ludicidade: ações do brincar função educacional brincar direcionado função lúdica LudicidAde brincar livre Com efeito, nos últimos anos vem havendo significativo au- mento do número de autores que recomendam a adoção do jogo na escola, considerando as funções lúdica e educativa. Campagne, citado por Kishimoto (1994), por exemplo, sugere critérios para uma adequada escolha de brinquedos de uso escolar, de modo a garantir a essência do jogo. Segundo a autora (1994, p. 113), a seleção do jogo precisa considerar: I) o valor experimental que visa permitir a exploração e manipulação; II) o valor da estruturação para dar suporte à construção da personalidade infantil; III) o valor da relação que busca colocar a criança em contato com seus pares e adultos, com objetos e com o ambiente em geral para propiciar o estabelecimen- to de relações; IV) valor lúdico ao avaliar se os objetos possuem as qualida- des que estimulam o aparecimento da ação lúdica. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 36 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Para Campagne, citado por Kishimoto (1994, p. 113), a atuação do professor incide sobre a valorização das características e das possi- bilidades dos brinquedos e sobre possíveis estratégias de exploração. O docente, nesse sentido, pode oferecer informações sobre diferentes for- mas de utilização dos brinquedos, ampliando o referencial infantil. É importante que os brinquedos oferecidos às crianças reconheçam e valorizem os aspectos culturais da própria região, explorando suas ori- gens, seus materiais, sua estética e sua história. É necessário entender que a utilização do lúdico como recurso pe- dagógico na sala de aula pode constituir-se em um caminho possível que vá ao encontro da formação integral das crianças e do atendimento às suas necessidades. Ao se pensar em atividades significativas que respondam às necessidades das crianças de forma integrada, articula-se a realidade sociocultural do educando ao processo de construção de conhecimento, valorizando-se o acesso aos conhecimentos do mundo físico e social. Ao destacar a importância do papel da educação em relação à sociedade, os estudos de Friedmann (1996, p. 43) revelam que mui- tas vezes as atividades desenvolvidas na escola acontecem de forma fragmentada: “uma hora para o trabalho com a coordenação motora, outra para a expressão plástica, outra para o brincar orientado pelo professor e assim por diante”. Friedmann (1996, p. 54) argumenta que a escola é um elemento de transformação da sociedade, sua função é contribuir, junto com outras instâncias da vida so- cial, para que essas transformações se efetivem. Nesse sen- tido, o trabalho da escola deve considerar as crianças como seres sociais e trabalhar com elas no sentido de que sua integração seja construtiva. A educação é um processo historicamente construído, e o edu- cador possui um papel nesse processo, devendo estimular o educando Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 37 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a a buscar sua identidade e a atuar de forma crítica e reflexiva na socie- dade. O enfoque atual ofertado aos jogos infantis incentiva educadores e pesquisadores da educação a valerem-se desses instrumentos em sua prática como recurso pedagógico para promover a aprendizagem e o desenvolvimento infantil. Nas palavras de Kishimoto (2008, p. 37), O jogo é um instrumento pedagógico muito significativo. No contexto cultural e biológico é uma atividade livre, ale- gre, que engloba uma significação. É de grande valor social, oferecendo inúmeras possibilidades educacionais, pois fa- vorece o desenvolvimento corporal, estimula a vida psíquica e a inteligência, contribui para a adaptação ao grupo, pre- parando a criança para viver em sociedade, participando e questionando os pressupostos das relações sociais tais como estão postos. Conforme a autora anteriormente citada (2008, p. 63), o lúdi- co é um instrumento de desenvolvimento da linguagem e do imagi- nário, vinculado aos tempos atuais como “um meio de expressão de qualidades espontâneas ou naturais da criança, um momento adequa- do para observar esse indivíduo, que expressa através dele sua natureza psicológica e suas inclinações”. Tal concepção mantém o jogo à margem da atividade educativa, mas sublinha sua espontaneidade. Ainda segundo a autora, se o objetivo é formar seres criativos, críticos e aptos para tomar decisões, um dos requisitos é o en- riquecimento do cotidiano infantil com a inserção de contos, lendas, brinquedos e brincadeira. Para que isso se torne realidade no contexto escolar, faz-se necessário refletirmos sobre a formação lúdica dos professores da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 38 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Ilustração: Andre Figueiredo Muller Nesse sentido, Santos (1997) defende que a formação lúdica va- loriza a criatividade, o cultivo da sensibilidade e a busca da afetividade. O adulto que vivencia atividades lúdicas revive e resgata com prazer a alegria do brincar, potencializando a transposição dessa experiência para o campo da educação por meio do jogo. 1.4 A atitude pedagógica do professor na utilização da ludicidade como recurso pedagógico Brincar propicia o trabalho com diferentes tipos de linguagens, o que facilita a transposição e a repre- sentação de conceitos elaborados pelo adulto para os educandos. Educar, nessa perspectiva,é ir além da transmissão de informações ou de colocar à disposição do educando apenas um caminho, limitando a escolha ao seu próprio conhecimento. Segundo Costa (2005, p. 21), “Educar é aju- dar a pessoa a tomar consciência de si mesma, dos outros e da sociedade, oferecendo ferramentas para que o outro possa escolher, entre muitos caminhos, aquele que for compatível com seus valores, com sua visão de mundo e com as circunstâncias adversas que cada um irá encontrar”. Por que ensinar brincando? Pare e pense Pensar na ludicidade como recurso pedagógico envolve ques- tões sobre as quais os temas trabalhados nas disciplinas acadêmicas e Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 39 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Ilustração: Andre Figueiredo Muller pedagógicas possibilitam a articulação entre a teoria e a prática. Nesse sentido, Mialaret (1991) aponta para a ligação existente entre o ensino, a formação acadêmica e a formação pedagógica do educador. Segundo o autor (1991, p. 12), “a prática na aula pode ser esclarecida pelos prin- cípios teóricos e melhorada pelos resultados da investigação. A teoria pedagógica só pode erguer-se a partir de uma prática conhecida e refle- tida”. Desse ponto de vista, cabe ao educador conhecer a possibilidade da utilização de diferentes recursos pedagógicos em consonância com a orientação metodológica do seu trabalho. Como a vivência da ludicidade auxilia o professor na sua prática pedagógica? Pare e pense O lugar da práxis pedagógica na escola de educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental reflete a relevância do conhecimen- to teórico e prático do professor que atua em sala de aula como forma de sistematizar o conhecimento no processo de ensino- aprendizagem do educando. Nessa perspectiva, é fundamental que o professor estabeleça uma ponte en- tre a sua própria concepção de ludicidade, com base em suas vivências, e o conheci- mento construído a partir de um sólido re- ferencial teórico. O exemplo a seguir tem como objetivo explicitar com maior clare- za a necessidade de estudo sobre a ludicidade como recurso pedagógico em sala de aula. Antunes (2003) constrói uma analogia para explicar seu entendimento de que o pro- fessor, ao utilizar o lúdico, deve ter domínio Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 40 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au sobre o assunto. O autor conta a história de um professor que, em descanso em sua chácara no final de semana, vivencia uma crise de gota e é estimulado a procurar o curan- deiro local, que utiliza ervas para o tratamento e age diferentemente do médico, que se vale do conhecimen- to produzido pela ciência através da medicina, fundamentado em uma base científica sistematizada. O professor que inventa jo- gos estaria para a educação como o benzedor está para a medicina, ou seja, o professor, nesse caso, utiliza- ria métodos de prática e não métodos sistematizados. A reflexão sobre a prática lúdica refletida e sistematizada requer a atitude do professor em relação à pesquisa. A educação e a escola, atualmente, vêm refletindo as mudanças sociais. É fácil perceber como os educandos, desde cedo, no berçário, até os anos iniciais, demonstram em suas atitudes, pensamentos e intera- ções modos que refletem como a juventude está colocada na sociedade. Essas crianças e adolescentes são frutos das diversas condições sociais e econômicas e que nem sempre foram agradáveis de se conviver. Nesse sentido, por terem de lidar com conflitos afetivos, diferenças de valores sociais, entre outros aspectos, percebe-se que apresentam dificuldades nas relações com o outro. Observa-se nessa realidade que esses alunos, desde a mais tenra infância, precocemente são inseridas em situações que requerem responsabilidade, como ajudar a cuidar de irmãos mais novos, enfrentar as ruas, regras e vivências familiares. O mais preocu- pante é que essas crianças ainda não têm experiência suficiente para entender, refletir e resolver conflitos. Você, como educador, deve buscar o conhecimento sobre o que faz e sobre por que motivo o faz, visando ao domínio dos instrumentos pedagógicos para melhor adaptá-los às exigências das novas situações educativas. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 41 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Crianças agressivas, limitadas no que diz respeito à relação consigo e com o outro, privadas culturalmente, afetivamente e economicamente, expressam-se com rigidez, medo e ansiedade no ambiente escolar. Nesse contexto, a escola também não consegue realizar a sua função de ensinar porque, muitas vezes, fragmentada em seus saberes, ainda com uma vi- são de educação compensató- ria – agora também em relação às privações que sofrem seus edu- candos – não dá conta de signi- ficar suas experiências, proble- matizar e estimular seus alunos à pesquisa, à autonomia e à solução de problemas. A sistematização dos conteúdos feita pelos professores em sala de aula não reflete o co- nhecimento de mundo (em constante transformação) trazido pelos educandos, continuando assim com metodologias focadas no resultado final, na nota, que leva à aprovação ou à reprovação. A questão que mais envolve a problemática do processo de ensino-aprendizagem hoje na visão dos professores passa por como ensinar essa geração que se encontra tão envolta em necessidades afetivas, sociais, motoras e lin- guísticas e ao mesmo tempo tão vazia em habilidades que promovam a reflexão e a construção do conhecimento. Como ensinar por meio da brincadeira? Pare e pense Nesse contexto, em relação ao conhecimento sobre a ludicidade, o educador que optar por utilizar os jogos e as brincadeiras como recur- so pedagógico pode partir da reflexão sobre como o lúdico está presente no cotidiano infantil. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s ema pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 42 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Assim, é preciso que delimitemos esforços para garantir à crian- ça um espaço que possibilite a ação lúdica, ou seja, um ambiente no qual ela tenha a oportunidade de escolher os jogos, os materiais e o modo de explorar e criar suas brincadeiras. Nessa perspectiva, Santos (1997, p. 12) lembra que “a ludicidade é uma necessidade do ser humano em qualquer idade e não pode ser vista apenas como diversão”. Tais discussões estão presentes na percep- ção de muitos educadores preocupados em organizar o trabalho peda- gógico na sala de aula, de modo atraente e problematizador. Nesse sentido, quando refletem sobre as possibilidades de inter- venção e de ensino com a utilização do lúdico, os educadores sempre relatam experiências em que estão presentes sentimentos e posiciona- mentos que evidenciam a relação entre educador e educando, adulto e criança. Nessa perspectiva, se o educador souber observar as perguntas que seus alunos fazem, a maneira como exploram objetos e brinquedos, ele irá perceber que existem inúmeras possibilidades de intervenção du- rante as atividades pedagógicas desenvolvidas na sala de aula. A ludici- dade como prática pedagógica requer estudo, conhecimento e pesquisa por parte do educador. O que considerar ao pensar nas necessidades e interesses dos educandos nas brincadeiras? Pare e pense Figura 1.2 – Interação da criança com o lúdico Estímulo neuro-sensório motor Descobertas – Socialização Integração com a natureza Criança Brincadeiras Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 43 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Segundo Moyles (2002), esses aspectos são relevantes nas brincadeiras das crianças em situações de aprendizagem. Para a au- tora, as crianças de educação infantil e anos iniciais do ensino funda- mental necessitam de companheiros de brincadeiras, espaços, mate- riais e objetos para brincar, valorização das pessoas que fazem parte do processo, oportunidade para brincar em pares, grupos ou sozinhas, tempo suficiente para exploração dos materiais, para expor o que fi- zerem (utilizando a linguagem oral, escrita ou corporal), tempo para continuar o que fizeram, experiências para aprofundar o que sabem e o que podem vir a saber, estímulo para fazer e aprender mais e opor- tunidades lúdicas planejadas e espontâneas. Como já apontamos anteriormente, brincar é importan- te para a aprendizagem, é coisa séria! Assim, você pode construir seus próprios saberes sobre a atitude pedagógica com a ludicidade tomando por base as leituras, reflexões abordadas e sugestões de referências contempladas neste livro, mas também de suas próprias anotações quando em momentos de prática com jogos. Você pode utilizar as dificuldades encontradas na prática para ser o ponto de partida de sua construção, pois o educador também está em cons- tante aprendizagem e, nesse sentido, é na leitura que ele encontrará respostas aos problemas enfrentados no cotidiano escolar. 1.5 o jogo, o brinquedo e a brincadeira na educação É comum relacionarmos os termos jogo, brinquedo e brincadeira a alguns termos como regras, objetos, imaginação etc. Para a compreensão sobre os jogos na educação, leia a seguir o exemplo de uma aula envolvendo a ludicidade como recurso pedagógico: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 44 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au exemplo A professora Maria escolheu o primeiro dia do mês de março para ini- ciar um trabalho com jogos com a sua turma de 2º ano do ensino fun- damental. O objetivo do trabalho é estimular a consciência corporal por meio de atividades lúdicas. Ao iniciar a aula, a professora explicou aos educandos que o jogo não é apenas uma prática lúdica, um passatempo, mas que por meio dele pode-se construir conhecimentos específicos. Falou também que existem vários tipos de jogos e que hoje iriam par- ticipar de jogos classificados como de regras e que envolveriam as rela- ções sociais por meio da prática da competição. A professora perguntou a seguir quais jogos os educandos co- nheciam e ouviu muitas histórias interessantes sobre suas experiências. Algumas envolviam sucesso, outras frustração, mas uma coisa todos concordavam: jogar é divertido. As atividades começaram com a professora Maria explicando que o jogo se chamava Estafeta do peixe. Logo, as crianças perguntaram o que significava estafeta e lhes foi explicado que este é um termo usado para demonstrar a ação dos mensageiros que levam mensagens e do- cumentos a diferentes lugares. Um dos meninos falou que era como o trabalho do seu primo, que era office boy em uma empresa. Após as trocas, foi solicitado que todos fizessem um desenho pequeno de um peixe em uma folha sulfite, utilizando lápis e canetas coloridas. Assim que todos terminaram, foram para o pátio da escola, onde a atividade seguiu. A professora falou que para jogar precisavam formar duas equi- pes e perguntou como poderiam fazer a divisão. As ideias apresentadas pelos educandos para definir quem escolheria as equipes foram muitas; os dois melhores corredores da turma escolheriam, o primeiro e o úl- timo aluno da chamada, um menino e uma menina etc. Após muitas ideias ficou decidido que fariam duas filas intercalando meninos e me- ninas por ordem de tamanho até que as equipes estivessem organizadas. Assim, a uma distância de aproximadamente três metros de cada fila, foram colocadas duas cadeiras à frente. Os peixes de cada equipe fo- ram colocados na cadeira à frente de sua fila. A professora explicou que o jogo seria competitivo, pois todos deveriam se esforçar ao máximo para vencer e que apesar de serem adversários, no momento deveria haver a cooperação dentro de cada equipe, pois não adiantaria o esforço de apenas alguns participantes. A professora explicou que ao sinal do Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P enal. 45 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a apito o primeiro aluno de cada fila deveria dirigir-se à cadeira e tentar pegar um peixinho de papel com o auxílio de um canudo de plástico e colocar na bacia ao lado, que estava cheia de farinha colorida com anilina azul. A equipe que terminasse primeiro seria a vencedora. Logo que colocasse o peixe na bacia, o participante deveria voltar a sua equi- pe e tocar na mão do próximo colega, que iria continuar a brincadeira. Ninguém poderia sair antes que o colega voltasse; essas foram as regras apresentadas. Todos participavam com alegria e entre uma rodada e outra a pro- fessora pedia que todos percebessem sua respiração, o ritmo mais rápido, qual parte do corpo estava sendo exigida para respirar, correr, pegar e manipular. Após algumas vezes em que as crianças brincaram, a pro- fessora convidou-os a formar um círculo e conversar sobre o que perce- beram na prática da atividade. Quase todos deram seu relato sobre as emoções, partes do corpo envolvidas, dificuldades, estratégias e regras. Aliás, sobre as regras, decidiram que a ansiedade da espera da vez era muito grande e assim iriam diminuir a distância entre as fileiras e o local onde ficavam os peixes. Já davam suas sugestões quando a professora teve a ideia de aproveitar essa questão para problematizar na aula de matemática. Então, imaginou como foi a aula, o espaço e as interações dos educandos? Será que jogo e brincadeira é a mesma coisa? Pare e pense Aproveite esse momento e anote quais palavras lhe vêm à mente quando você pensa em jogos. Faça isso antes de ver o quadro a seguir! Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 46 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Quadro 1.1 - Elementos existentes no jogo, no brinquedo e na brincadeira Jogo Brinquedo Brincadeira Regras Objeto Imaginação Competição Faz de conta Cooperação Socialização Lazer Lazer Cognição Cognição Socialização Interação Imaginação Regras Dirigido Espontânea Imagens: Clipart, Ingimage e Photos To Go. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 47 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Compare as palavras que você escreveu para os jogos com as apresentadas no quadro. Você poderá ter encontrado ideias diferentes ou paralelas a essas. Você consegue perceber se existe relação entre os termos apontados, se eles se referem à mesma ideia de jogo, brinquedo e brincadeira, se possuem o mesmo sentido? Pare e pense Partindo da reflexão sobre essas ideias, vamos à análise sobre a ação e o significado do jogo, do brinquedo e da brincadeira, abordando seus conceitos, suas concepções, seus significados e suas diferenças, ten- do como referência os estudos de Kishimoto (2008). Inicialmente, é necessário entender que o termo lúdico remete às ações do brincar que se manifestam por toda a existência humana, apresentando então características de lazer e manifestando-se como uma forma de expressão da evolução humana. Isso porque os jogos e as brincadeiras se modificam de geração para geração, refletindo as transformações sociais. Acrescentemos que o lúdico se manifesta por meio do jogo, do brinquedo e da brincadeira, termos que, conceitualmen- te, apresentam diferenças. Vamos entender agora o que significa jogo e quais são as suas principais características? Pare e pense No que diz respeito à definição de jogo, os estudos feitos por Kishimoto (1994, p. 4) o definem como “uma ação voluntária da crian- ça, um fim em si mesmo, não pode criar nada, não visa um resultado final [sic]. O que importa é o processo em si de brincar que a criança se impõe”. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 48 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au No jogo, as situações se carac- terizam por um quadro no qual a rea- lidade interna predomina sobre a ex- terna. O sentido habitual é modificado por um novo, colocando a imaginação em ação; há o prazer e a alegria, “as crianças estão mais dispostas a bus- car novas combinações de ideias e de comportamentos em situações de jogo do que em outras atividades não re- creativas” (Kishimoto, 1994, p. 15). O jogo só pode ser jogo quando escolhi- do livre e espontaneamente pela crian- ça; caso contrário, é trabalho ou ensino. Já o brinquedo, definido por Kishimoto (1994), é entendido sempre como um objeto, suporte da brincadeira ou do jogo, quer no sentido concreto, quer no ideológico. Historicamente, o brinquedo como objeto não pertence a uma categoria única, apresentando várias manifestações, como a confecção com materiais perecíveis, esquecidos, como raminhos, raízes, vegetais, e também objetos do mundo doméstico, que passam a ter sentido de brinquedo quando incide sobre eles a função lúdica. Para Kishimoto (1994), o brinquedo é suporte da brincadeira quando serve a uma atividade espontânea, sem intencionalidade inicial, que se desenvolve de acordo com a imaginação da criança. O jogo é suporte quando atende, além da imaginação, a uma prática lúdica que possui um sistema de regras que ordenam as ações. Ao observarmos os objetos utilizados pelas crianças, como brinquedos, percebemos que elas manifestam suas preferências. Por exemplo: um bebê explora todo e qualquer objeto, primeiro levando-o à boca, produzindo sons, tentando encaixar, formando torres, entre ou- tras ações. Na idade inicial da criança, é relevante que o adulto a ajude nessa exploração, pois, assim, ela perceberá mais facilmente texturas, formas, cores e tamanhos. Para Kishimoto (1994), o jogo possui como característica marcante a existência de regras, tem sua realização em um tempo e espaço definidos, possuindo uma condição histórica e geográfica e uma sequência na própria atividade. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a Edit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 49 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Qualquer objeto pode ser considerado um brinquedo? Não. Um objeto é considerado um brinquedo quando atende à função lúdica, que significa propiciar momentos de diversão, de brincadeira ou de jogo, atendendo a suas características conceituais. O cuidado com essa ideia passa pela reflexão de que nem tudo o que se vê ou pega pode se transformar em brinquedo. Isso só ocorre quando há a ação lúdica. Pare e pense Atualmente, há uma grande variedade de materiais que servem de recursos para a confecção de brinquedos com caixas de leite que, hi- gienizadas, podem transformar-se, por exemplo, em uma miniboca de palhaço. Uma garrafa pet pode se transformar em um bilboquê, caixas de remédios podem se transformar em miniatura de móveis para a casa das bonecas etc. O que dizer então dos brinquedos de nossos avós? Pare e pense Bonecas eram feitas de espiga e palha de milho. Um pano en- rolado virava um bebê que era acarinhado nos braços carinhosos das crianças. E as tábuas velhas da casa recebiam rodas e se transformavam em carrinhos de rolimã. Bons tempos, você deve estar pensando. A diversidade de materiais ofertados em diferentes épocas sempre possibilitou que as brincadeiras das crianças fossem ricas em imaginação. Os brinquedos, nesse contexto, nada mais são do que a imaginação colocada em prática, uma rica exploração sensorial, motora, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 50 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au simbólica e cultural. Expressões culturais que demonstram o signi- ficado da vida de cada criança, de sua família e da sua comunidade. Manifestações regionais que expressam o folclore por meio da imitação dos adultos, das roupas, das cantigas cantaroladas ao vento enquanto desenham com um graveto na areia. O brinquedo atende à evolução histórica do sujeito em toda a sua existência, compondo uma sinfonia de notas alegres, cantantes e vivas! E a brincadeira? O que a conceitua e quais são suas principais características? Pare e pense A brincadeira, por sua vez, encontra fundamento na fala de Kishimoto (1994), quando é apontada como uma atividade espontâ- nea da criança, sozinha ou em grupo. Ela constrói uma ponte entre a fantasia e a realidade, o que a leva a lidar com complexas dificuldades psicológicas, como a vivência de papéis e situações não bem compreen- didas e aceitas em seu universo infantil. A brincadeira na infância leva a criança a solucionar conflitos por meio da imitação, ampliando suas possibilidades linguísticas, psicomotoras, afetivas, sociais e cognitivas. Nessa perspectiva, a brincadeira infantil possibilita à criança a imitação de diferentes papéis, comumente de seu cotidiano, ação que facilita a expressão de sentimentos e relações que estabelece com as pessoas do seu meio. A imitação também é um elemento que garante à criança experimentar atitudes que, se fossem realizadas de forma verda- deira, muitas vezes poderiam colocá-la em situação de risco, como nas brincadeiras de cozinhar, dirigir, consertar móveis e aparelhos eletrôni- cos. Quando brinca de faz de conta, a criança age e enfrenta desafios, organiza o pensamento e elabora suas regras, o que facilita a transposi- ção do mundo adulto para o seu universo. Kishimoto (2008) destaca quatro tipos de brincadeiras na ação lúdica das crianças: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 51 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a • as educativas (caracterizada pela ação lúdica com fins pedagógicos); • as tradicionais; • as de faz de conta; • as de construção. Ainda segundo a mesma autora (2008, p. 36): ao permitir a ação intencional (afetividade), a construção de representações mentais (cognição), a manipulação de objetos e desempenho de ações sensório-motoras (físico) e as trocas nas interações (social), o jogo contempla várias formas de re- presentação da criança ou suas múltiplas inteligências, con- tribuindo para a aprendizagem e o desenvolvimento infantil. Nesse sentido, a brincadeira educativa aborda a integração das áreas de desenvolvimento e aprendizagem, o que se acredita ser impor- tante para o futuro educador saber. Mesmo quando o professor organiza seus objetivos priorizando uma determinada área de desenvolvimento a ser estimulada, ele deve observar que outras áreas estão interligadas; nesse sentido, atingir os objetivos propostos significa observar a criança em sua totalidade. As brincadeiras tradicionais, abordadas por Kishimoto (2008), são elementos que perpetuam a manifestação livre e espontânea da cul- tura popular e têm por objetivo estimular diferentes formas de relações sociais e o prazer de brincar. Interessante também é a fala da autora (2008, p. 38) sobre a origem das brincadeiras: “Não se conhece a origem da amarelinha, do pião, das parlendas, das fórmulas de seleção. Seus criadores são anônimos. Sabe-se, apenas, que provem [sic] de práticas abandonadas por adultos de fragmentos de romances, poesias, mitos e rituais religiosos.” A perspectiva desses tipos de brincadeiras remonta à ideia do brincar por prazer, do brincar afetivo que constitui as relações de ami- zade, de família, mesmo em grupos em que as crianças tenham culturas Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 52 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au e costumes diferentes. A brincadeira socializa por colocar em questão a diversidade cultural e social, por trazer símbolos e concepções de ma- neiras distintas, mas que dialogam entre si e, assim, tornam-se signifi- cativas aos olhos de quem delas participa. O terceiro tipo de brincadeira, proposto por Kishimoto (2008), encontra seus alicerces na representação de papéis e tem como condiçãoa presença da situação imaginária. Os temas expressados pelas crianças nas brincadeiras de faz de conta são parte integrante de seu mundo social e nele estão incluídos a família, o currículo e as interações com os colegas da escola, pares que trazem diferentes aspectos do cotidiano de cada um, que se inter-relacionam, ampliando a socialização. Para Kishimoto (2008, p. 39), “a importância dessa modalidade de brincadeira justifica-se pela aquisição do símbolo”. É alterando o significado dos objetos, de situações, é criando novos significados que se desenvolve a função simbólica, o elemento que garante a racionalida- de ao ser humano. Ao brincar de faz de conta a criança está aprendendo a criar símbolos. As experiências lúdicas do educando, inseridas no seu cotidiano, fazem parte de seu desenvolvimento integral no que concerne à ne- cessidade de movimento, de criação e recriação, de percepção do meio ao explorar objetos e representar papéis. Todas essas vivências identifi- cam as áreas sensório-motora, afetiva, cognitiva e social. Esses aspectos são ampliados nas brincadeiras de construção, a quarta modalidade abordada pela autora. Para Kishimoto (2008, p. 40), esses jogos são importantes por “enriquecer a experiência sensorial, es- timular a criatividade e desenvolver habilidades da criança”. Os jogos de construção fazem parte das brincadeiras há décadas, na forma de tijolinhos, que são montados e desmontados continua- mente e, assim, abordam o desenvolvimento afetivo e intelectual. Esses jogos foram elaborados por Fröebel, afirma Kishimoto (2008, p. 40), que destaca que “não se trata de manipular livremente tijolinhos de construção, mas de construir casas, móveis ou cenários para as brinca- deiras simbólicas”. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 53 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Para a autora (2008), a construção nos jogos é um elemento importante para a abstração do mundo real e nesse sentido é necessário considerar a fala e a ação da criança, que muitas vezes expressa com- plicadas relações de seu cotidiano. Dessa forma, enquanto constrói, a criança possibilita ao educador perceber suas representações mentais, o que se refere ao seu mundo exterior e interior. Vamos ver se você compreendeu corretamente os aspectos abordados sobre o jogo, o brinquedo e a brincadeira. 1. O que caracteriza o jogo? O jogo é caracterizado pela presença de regras que sistematizam as ações dos sujeitos envolvidos, mas a imaginação coloca à disposição de seus participantes a possibilidade de modificá- las de acordo com suas necessidades e seus interesses. 2. Qual a diferença entre o jogo e a brincadeira? A brincadeira, ao contrário do jogo, caracteriza- se por iniciar pela imaginação e despir-se de intencionalidade na ação. Mas a regra se faz necessária no decorrer da brincadeira para organizar os conflitos sociais e afetivos que possam vir a fazer parte do cenário. 3. Vamos pensar em um exemplo de jogo e de brincadeira? Descreva, por exemplo, o jogo da amarelinha que você conhece aí na sua região. Descreva também quais as brincadeiras preferidas na sua infância que envolviam a representação de papéis, como brincar de casinha, imitar a profissão do pai, da tia etc. Pare e pense Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 54 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au A continuidade do estudo sobre a ludicidade será apresentada a seguir com base nas contribuições sobre a conceituação do jogo nas abordagens teóricas de Piaget e Vygotsky. Piaget (1976) propõe quatro sucessivos sistemas de jogo: • o jogo de exercício; • o jogo simbólico; • o jogo de regras; • o jogo de construção. As concepções de Piaget e Vygotsky sobre o lúdico serão analisadas em maior profundidade no segundo capítulo. Saiba Seguindo uma orientação cognitiva, o autor analisa o jogo in- tegrado à vida mental e caracterizado por uma particular orientação do comportamento, que ele denomina de assimilação. Para Piaget, cada ato de inteligência é definido pelo equilíbrio entre assimilação e acomodação. Na assimilação, o sujeito incorpora eventos, objetos ou situações dentro das formas de pensamento, que constituem estruturas mentais organizadas. Na acomodação, as estruturas mentais existentes reorgani- zam-se para incorporar novos aspectos do ambiente externo. Durante o ato de inteligência, o sujeito adapta-se às exigências do ambiente exter- no, enquanto, ao mesmo tempo, mantém sua estrutura mental intacta. O brincar, nesse caso, é identificado pela primazia da assimilação sobre a acomodação, ou seja, o sujeito assimila eventos e objetos ao seu eu e às suas estruturas mentais. Para propiciar a compreensão da teoria de Piaget sobre os jo- gos, seria interessante observarmos crianças em situações lúdicas, como bebês explorando objetos do seu cotidiano, crianças de 3 ou 4 anos Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 55 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a imitando as ações da mãe ou do pai, crianças de 6 a 10 anos brincando em grupo em praças e parques, na manipulação de objetos e brinque- dos. É possível observar também se o ambiente parece organizado de maneira adequada, se há situações em que se revelam a prática do jogo simbólico envolvendo a imaginação em ação e como ocorrer a interação do adulto que acompanha essa criança. O tangran possibi- lita muitas atividades que envolvem o raciocínio, a atenção, a percepção de for- mas e a organização espacial. Um jogo foi desenvolvido com as suas peças, chamado de quadrados quebrados, que será utilizado para exempli- ficar e ilustrar a fase de jogos de regras (Aronson, 1979). O jogo foi desenvolvido por Elliot Aronson (1979), que publicou um trabalho inovador sobre a aprendizagem cooperativa. O método, intitulado aprendizagem quebra- -cabeça, incentiva a criança a cooperar para alcançar suas metas. Tem como objetivos estimular a comunicação não verbal, mostrar como o comportamento pode influenciar na solução final do problema, incen- tivar o trabalho em equipe,a comunicação interpessoal, a sensibilização para objetivos comuns, a compreensão do trabalho cooperativo em re- lação ao competitivo, o que envolve as regras. O jogo é desenvolvido com a participação de cinco jogadores e um juiz observador. Os materiais utilizados são cinco triângulos, um quadrado e um paralelogramo, totalizando sete peças. O jogo dura em média 20 minutos, mais 30 deixados para o debate. É entregue um envelope contendo três conjuntos das peças do tangram para montar quadrados. O juiz tem a função de passar as instruções dizendo que a tarefa do grupo é formar 5 quadrados de igual tamanho. A tarefa só Ilu st ra çã o: A nd re F ig ue ire do M ul le r Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 56 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au estará completa quando cada jogador tiver diante de si um quadrado perfeito, do mesmo tamanho dos quadrados dos outros membros do grupo. São explicadas as regras do jogo: não pode haver conversa, sinais ou qualquer outra forma de comunicação entre os participantes; todos podem passar peças diretamente a outros jogadores, mas não podem pegar peças dos outros; é permitido passar todas as peças de seu qua- drado, mesmo que já esteja formado. A prática desse jogo possibilita a reflexão sobre as regras no jogo e sobre como elas são estabelecidas, acatadas ou não, além da expressão de conflitos e de todas as características das situações vivenciadas pelas crianças nos jogos. Figura 1.3 – Quadrados quebrados Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 57 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Saiba A perspectiva de Vygotsky (1984) em relação à valorização do fator social mostra que, no jogo de papéis, a criança cria uma situação imaginá- ria, incorporando elementos do contexto cultural adquiridos por meio da interação e da comunica- ção. A noção central é a de que se constitui uma zona de desenvolvimento proximal, em que se diferencia o nível atual que a criança alcança com a solução dos problemas independentes do nível de desenvolvimento potencial marcado pela me- diação do adulto. O jogo é o elemento que irá estimular o desenvolvimento dentro da zona de desenvolvimento proximal. Lev Vygotsky (1896-1934) foi um psicólogo bielo- -russo, pioneiro na área sobre o desenvolvimento intelectual da criança, que ele afirmava ocorrer em função das interações sociais e condições de vida. Lev Vygotsky (1896-1934) Ilu st ra çã o: M ar ce lo L op es As divergências entre Piaget e Vygotsky sobre o jogo infantil têm base em aspectos conceituais. Embora Vygotsky (1984) tenha enfatizado a existência do gesto de apontar como o nascimento da atividade simbólica, alguns de seus seguidores, como Elkonin, citado por Kishimoto (1994), identificam o nascimento do símbolo a partir do processo de interiorização. É essa definição de simbolismo que cria a diferença de interpretação entre autores piagetianos e vygotskyanos. Vygotsky (1984) defende que as necessidades e os motivos da criança podem ser levados em conta pelos teóricos do jogo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 58 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au O jogo “é essencialmente desejo satisfeito”, originado dos “dese- jos insatisfeitos” da criança, que se tornam afetos generalizados. Nessa perspectiva, Vygotsky (1984, p. 64) define como característica do jogo o fato de que, nele, “uma situação imaginária é criada pela criança. O brincar da criança é a imaginação em ação. O jogo é o nível mais alto do desenvolvimento na educação pré-escolar e é por meio dele que a criança move-se cedo, além do comportamento habitual na sua idade.” Para Vygotsky (1984), a ideia de brincar origina-se na imagina- ção criada pela criança, em que desejos impossíveis podem ser realiza- dos, reduzindo a tensão e, ao mesmo tempo, constituindo uma maneira de acomodação a conflitos e frustra- ções da vida real. Vygotsky (1984, p. 64) afirma que “brincar leva a criança a tornar-se mais flexível e a buscar al- ternativas de ação. Enquanto brinca, a criança concentra sua atenção na ati- vidade em si e não em seus resultados e efeitos. Permitir brincar às crianças é uma tarefa essencial do educador”. Segundo Oleques (2009), As crianças, desde pequenas, estruturam seu espaço e o seu tempo utilizando objetos, bem como desenvolvem a noção de causalidade, chegando à representação e, final- mente, à lógica. As crianças ficam mais motivadas a usar a inteligência, pois querem jogar bem; assim, esforçam-se para superar obstáculos, tanto cognitivos quanto emocio- nais. Estando mais motivadas durante o jogo, ficam tam- bém mais ativas mentalmente. Para Piaget (1976), o jogo é fundamental para o desenvolvimen- to cognitivo, pois, ao representar situações imaginárias, a criança tem a possibilidade de desenvolver o pensamento abstrato. Isso acontece porque novos relacionamentos são criados no jogo entre significados, objetos e ações. Na atividade lúdica, a criança expressa sua personalida- de, o que contribui para a evolução da imagem do corpo. Sobre o jogo, Piaget (1976) destaca a construção do conhecimento, principalmente nos períodos sensório- motor e pré-operatório. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 59 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Ainda segundo Piaget (1976), nessa perspectiva, por meio da prática pedagógica do jogo o professor pode conhecer as expressões da personalidade do educando, porque, nessa atividade lúdica, a criançase liberta de situações difíceis; as situações e os objetos representados e as ações não são o que aparentam ser. A propósito, Santos (1997) observa que, apesar de haver inú- meras pesquisas e reflexões teóricas a respeito do processo educacional e da formação de educadores, ainda não existem disciplinas nos cursos de formação superior na área da Educação que contemplem especifica- mente o trabalho com a subjetividade. Para a autora, o desenvolvimento de conteúdos que abordem o lúdico como uma proposta metodológica e sua relação com as possibilidades de intervenção pedagógica poderia vir a ser uma proposta inovadora no processo de transformação dos saberes profissionais que os professores trazem de seus modelos. Porém, alguns aspectos precisam ser refletidos na prática peda- gógica da ludicidade nas instituições de educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental. Kishimoto (2010), em seu artigo intitulado Escolarização e brin- cadeira na educação infantil, faz uma crítica à tentativa de adoção do brincar livre nas instituições, enfocando que isso não ocorre verdadei- ramente porque tais instituições não atribuem valor cultural aos brin- quedos, ou seja, existem saberes escolares que desconsideram elemen- tos culturais de um país ou região, ocorrendo pouca interação criança/ criança e criança/adulto por meio da brincadeira. Segundo a autora (2010), Grandes espaços internos e externos, como salões, salas e corredores sempre vazios, são utilizados para as ditas brinca- deiras livres, que, pela ausência de objetos ou cantos estimu- ladores, favorecem correrias, empurrões. Alguns exemplares de brinquedos, geralmente doados, por sua quantidade e na- tureza, impedem a elaboração de qualquer temática de brin- cadeira, regra que prevalece nas instituições. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 60 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Ainda segundo Kishimoto (2010), “a concepção de brincar, como forma de desenvolver a autonomia e a criatividade das crianças, requer um uso livre de brinquedos e materiais que permita a expressão dos projetos criados pelas crianças”. A autora enfatiza, também, o lugar dos brinquedos no imaginá- rio dos professores como objetos culturais carregados de valores consi- derados inadequados. Esse tipo de entendimento demonstra a existên- cia de pré-concepções relacionadas à classe social e está vinculado ao modo como o brincar é visto nas instituições de educação infantil. O jogo, para ser utilizado como recurso pedagógico, precisa ser contextualizado significativamente para o aluno por meio da utilização de materiais concretos e da atenção à sua historicidade. Isso, segundo Kishimoto (2010), porque apenas “a produção de objetos não reflete a riqueza do mundo cultural e natural, o imaginário infantil não reflete a riqueza folclórica”. Nessa perspectiva, conforme Santos (1997), a formação lúdica permite ao futuro educador conhecer-se melhor, explorar e descobrir os seus limites, possibilitando-lhe formar uma visão clara sobre o jogo e o brinquedo na vida da criança. Assim, criar um espaço, nos currículos de formação docente, que aborde o lúdico como práxis educativa escolar, pode ser uma alterna- tiva por meio da qual o educador conheça a realidade do seu grupo de crianças, seus interesses e necessidades, comportamentos, conflitos e dificuldades e que, paralelamente, constitua um meio de estimular os desenvolvimentos cognitivo, social, linguístico e cultural, propiciando aprendizagens específicas. Embora saibamos que a questão não se esgota aqui, pois, ape- sar das reflexões teóricas a respeito da formação do educador que fi- zemos, há muito que ser repensado, podemos sintetizar os elementos que podem auxiliar o professor a apropriar-se do jogo enquanto prática pedagógica. Nesse sentido, são elementos fundamentais dos saberes sobre a ludicidade: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 61 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a • o conhecimento teórico sobre o lúdico; • a observação do aluno em situações lúdicas; • a escolha de brinquedos e objetos culturais adequados; • a definição de objetivos; • a organização do ambiente lúdico de modo que favoreça as interações criança/criança, criança/adulto e criança/objetos; • a observação criteriosa da prática lúdica em relação aos obje- tivos propostos. 1.6 A função educacional da ludicidade Os profissionais que buscam metodologias criativas para desenvolver seu trabalho na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fun- damental vêm observando que as crianças aprendem quando brin- cam, pois a ludicidade envolve as habilidades de memória, atenção e concentração, além do prazer da criança em participar de ativida- des pedagógicas de maneira dife- rente e divertida. > o lúdico como recurso pedagógico A abordagem feita sobre a ludici- dade na educação até aqui aponta essa ferramenta como recurso pe- dagógico que pode ocupar um es- paço na educação básica, atenden- do a necessidades e interesses do educando e do educador no processo de ensino-aprendizagem. Um dos aspectos que justifica a ludicidade na educação básica seria justamente a possibilidade de utilização de recursos pedagógicos que venham ao encontro dos diferentes estilos de aprendizagem encontrados em sala de aula, o que atualmente é um grande desafio para o professor da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 62 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Assim, fica evidente o pa- pel das interações desenvolvidas no ensino das diferentes áreas de conhecimento, fato que se soma à ideia de que qualquer atividade para a criança e com a criança tem um sentido educativo. Por exem- plo: o olhar estabelece confiança, manifesta carinho e compreensão; o toque da mão do adulto pode dar segurança ou medo e esses elementos não são desvinculados dos con- teúdos da proposta pedagógica, que, por sua vez, não são conhecimen- tos abstratos, desvinculados de situações de vida, e não são elaborados pela criança unicamente com base em sua transmissão oral no contexto do ensino formal.São interiorizados pela criança em um processo inte- rativo, no qual entram em jogo a iniciativa, a ação e a reação, a pergunta e a dúvida, a busca de entendimento. Simplificando Organizando as ideias: • A ludicidade como recurso pedagógico ocupa um espaço no processo ensino e aprendizagem, atendendo às necessidades e aos interesses do educando e do educador no processo de ensino-aprendizagem. • É ncessária a utilização de recursos pedagógicos que consi- derem os diferentes estilos de aprendizagem dos educandos. • A ludicidade auxilia o educador no desafio de ensinar. • Qualquer atividade para a criança e com a criança tem um sentido educativo. • A proposta pedagógica possui conhecimentos abstratos vin- culados a situações cotidianas dos educandos. • A aprendizagem tem como objetivo a linguagem corporal, além da linguagem oral. A ludicidade na educação é um dos elementos que vem sendo discutido por muitos autores e educadores no universo acadêmico no Brasil e no mundo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 63 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a • No jogo, o educando desenvolve a iniciativa, a ação e a rea- ção, a pergunta e a dúvida, a busca do entendimento dos conteúdos para além da escola. • São fatores considerados nas atitudes pedagógicas do edu- cador na prática do jogo: definição dos objetivos, escolha de jogos adequados ao momento educativo. • Na ludicidade, o educando se torna sujeito ativo do processo de construção do conhecimento. Contudo, a questão não se restringe apenas a esses aspectos. As abordagens apresentadas até aqui destacam que, ao se utilizar o lúdi- co como recurso pedagógico, como apontam Lopes (2002) e Almeida (2005), a proposta é ir além do jogo, do ato de jogar para o ato de antecipar, preparar e confeccionar o próprio jogo antes de jogá-lo, am- pliando, desse modo, a capacidade do jogo em si e atingindo outros objetivos, como profilaxia, exercício, desenvolvimento de habilidades e potencialidades e também terapia de distúrbios específicos de aprendi- zagem das crianças. Assim, na tentativa de se revelar a aprendizagem do educando com os jogos, as brincadeiras e a exploração de brinquedos, é preciso ficar atento à observação do contexto que envolve a ação das crianças durante a prática pedagógica da ludicidade. Essa observação envolve a duração e o envolvimento das crianças nos jogos e evoca a possibilidade de estimular suas potencialidades, como a criatividade, a autonomia, a criticidade e a expressão ao desenvolver diferentes formas de lingua- gem e também os aspectos cognitivos, afetivos e sociais. Por que o professor de educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental precisa estudar para brincar, ao desenvolver propostas pedagógicas com as crianças? Pare e pense Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 64 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Para responder a essa pergunta é necessário ressaltarmos dois importantes aspectos. O primeiro é o conhecimento teórico sobre o lúdico, que diz respeito ao entendimento sobre as concepções dos au- tores, à estrutura e à classificação dos jogos, ao papel do educador e à organização dos espaços e dos materiais. O segundo refere-se ao lúdi- co na educação, envolvendo questões relativas ao desenvolvimento e à aprendizagem infantil com base na ação lúdica da criança e da prática como expressão da teoria. Como vimos anteriormente, as contribuições de Piaget (1976) e Vygotsky (1984) levam os professores a compreender as atividades lúdicas como parte da vida da criança. O entendimento sobre a relação entre jogo de exercício sensório-motor, jogo simbólico, jogo de regras e o jogo de construção como um processo contínuo e ao mesmo tempo inter-relacionado, propicia a compreensão sobre os processos de desen- volvimento e aprendizagem infantil. Saiba Jean Piaget (1896-1980) estudou biologia na Suíça, e mais tarde dedicou-se à área de Psicologia, Epistemologia e Educação. Escreveu mais de 50 livros que são conheci- dos mundialmente. Jean Piaget (1896-1980) O mesmo acontece em relação aos estudos de Vygotsky (1984), no que se refere à zona de desenvolvimento proximal, conceito formu- lado pelo autor para explicar o que um educando é capaz de fazer com o auxílio de pessoas mais experientes. Para o autor, o jogo, nessa pers- pectiva, é um elemento que atua na zona de desenvolvimento proximal, Ilu st ra çã o: M ar ce lo L op es Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 65 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a As abordagens enfocadas nesta obra em relação à ludicidade na educação passam também por questões sociais e culturais que circundam as relações humanas e variam ao longo do tempo. e o professor é o mediador no processo de construção do conhecimento da criança. Esse conceito possibilita a compreensão sobre o papel das interações sociais no desenvolvimento e na aprendizagem infantil. Nessa perspectiva, ao pensarmos em proposições práticas para o tratamento do lúdico como recurso pedagógico, deve haver a preocupa- ção com a escolha das atividades, principalmente com o que o jogo pode proporcionar na intervenção do processo de ensino-aprendizagem, e não apenas com o tipo de jogo. Ou seja, devemos fazer o exercício de analisar possibilidades de intervenção tomando por base as necessidades dos alu- nos. Por exemplo: com jogos de expressão, inicialmente, há a preocupação em estimular potenciais como a linguagem, que seria um requisito para qualquer interação da criança com o meio. Os professores podem con- siderar também que, no contexto escolar, muitos aspectos podem ser trabalhados por meio da confecção e da aplicação de jogos selecionados, com objetivos como: aprender a lidar com a ansiedade, refletir sobre limi- tes; estimular a autonomia, desen- volver e aprimorar as funções neu- ro-sensório motoras, desenvolver a atenção e a concentração, ampliar a elaboração de estratégias, estimular o raciocínio lógico e a criatividade. Assim, aspectosreferentes ao espaço e aos materiais característicos de cada jogo são elementos que podem ajudar a definir qual o jogo mais adequado para a ação educativa a que o professor se propõe. Tais abordagens apontam as relações sociais que os educandos expressam na escola, nesse sentido, como os professores se sentem de- safiados a encontrar caminhos que identifiquem as necessidades desses sujeitos sociais em relação a metodologias de ensino. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 66 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Nesse contexto, segundo Friedmann (1996), há algumas déca- das pesquisas têm demonstrado que o recém-nascido tem recebido cui- dados e estímulos diferentes das gerações anteriores. Isso ocorre porque houve uma significativa mudança nos hábitos e nas atitudes dos adultos, o que produziu alterações em todo o desenvolvimento infantil. Esse processo de transformação também foi percebido de forma significativa nas leis que regem a educação básica há uma década. Com base na Constituição Federal de 1988, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN nº 9.394/1996) e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, Lei nº 8.069/1990), muitas mudanças ocorre- ram na educação infantil e nas escolas de ensino fundamental no Brasil. Entre os avanços obtidos com a mudança na legislação, destaca-se a ne- cessidade de formação dos educadores que atuam com crianças de 0 a 6 anos e também nos anos iniciais do ensino fundamental. Tal exigência, no âmbito da formação, submete a educação infantil a outro olhar, uma nova perspectiva, que traz a articulação entre o educar e o cuidar. A estratégia da LDBEN engloba decisões como a de atribuir à creche e à pré-escola o mesmo objetivo de desenvolvimento integral do ser humano. Entretanto, existem diferenças entre os cuidados com uma criança de 3 meses e os cuidados com outra de 4 anos. A educação de um bebê e a da criança pequena tem dimensões de conteúdos e formas de relacionamento diversas daque- las trabalhadas com as crianças de três a 5 anos. Nessa perspectiva, o brincar contempla diferentes e im- portantes aspectos que contribuem para a educação da criança em uma perspectiva global. O trabalho pedagógico na educação infantil, atualmente, re- quer uma abordagem diferente. Isso A criança é mentalmente hiperestimulada pela agitação da era tecnológica. Em decorrência dessa realidade, surgem contradições que se revelam nas discussões sobre as brincadeiras na vida da criança. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 67 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a ocorre porque a criança, desde cedo, é exposta a um número maior e diversificado de estímulos cerebrais que, por sua vez, provocam reações diferentes. Pesquisas têm evidenciado o aluno como um sujeito que apresenta um desenvolvimento intelectual, afetivo e social precoce. Isso se deve ao fato de ele estar inserido em um contexto familiar e educa- cional diverso do observado em décadas anteriores. Estudos também revelam que a criança, atualmente, apresenta diferentes formas de an- siedade, receios e insegurança. Por vezes é emocionalmente imatura e nas situações de ensino-aprendizagem apresenta curto período de con- centração (Friedmann, 1996). Desse modo, podemos questionar sobre quem é o educador de hoje e que tipo de trabalho ele está executando. Apesar de a maioria dos professores concordar com os avan- ços da tecnologia, observando as devidas precauções, esses profissio- nais situam os jogos e os brinquedos eletrônicos como parte integrante dos interesses das crianças atualmente. Por outro lado, destacam que, muitas vezes, a ausência de jogos e brincadeiras tradicionais na vida cotidiana escolar e familiar faz com que muitas crianças apresentem dificuldades motoras, afetivas e sociais. Nessa perspectiva, analisando a escola, a metodologia e o papel do educador, percebemos, ainda, que as possíveis intervenções no pro- cesso de ensino-aprendizagem dos alunos por vezes ficam divididas no que diz respeito às ações pedagógicas que propiciariam ao educando a oportunidade de um pleno desenvolvimento da criança. Segundo os estudos de Almeida (2004), o processo de cons- trução do saber por meio do jogo como recurso pedagógico ocorre porque, ao participar da ação lúdica, a criança inicialmente estabelece metas, constrói estratégias, planeja, utilizando, assim, o raciocínio e o pensamento. Durante o jogo ocorrem estímulos, obstáculos e motiva- ções, momento em que a criança antecipa resultados, simboliza ou faz de conta, analisa as possibilidades, cria hipóteses e com esse processo constrói o saber. O educador, nesse contexto, possui o papel de media- dor no processo de ensino-aprendizagem. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 68 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Ao encontro dessa proposta, Moyles (2002) descreve que “o brincar é um processo no caminho da aprendizagem, mas um processo vital e influenciável [...]”. Refletindo: Nesse sentido, a utilização do lúdico como recurso pedagógico não deve se esgotar em momentos direcionados apenas a brincadeiras, mas o brincar, planejado ou espontâneo, pode fazer parte do currículo em diferentes áreas de conhecimento, como a tecnologia, as ciências, a matemática, as línguas, a educação física, a arte, a geografia, a história, entre outras. É importan- te que o adulto, educador, professor, considere a motivação, as interações, a atenção e a concen- tração, a competição e a cooperação, a reflexão, a autonomia e a diversão, que, segundo a autora, “não podem ser determinados dentro da fron- teira de um assunto”. Por serem elementos da subjetividade dos educandos, são esses aspectos que definem como o sujeito irá aprender. Pare e pense > ensinar brincando: a teoria como expressão da prática É da reflexão sobre as abordagens acerca da ludicidade na educação que resulta a teoria como expressão da prática, sendo então necessário que ocorra um movimento no sentido de vincular as concepções sobre o lú- dico à sua utilização como recurso pedagógico. É quando a brincadeira fica séria, faz sentido e ordena os múltiplos significados do imaginárioda criança. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 69 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Nessa perspectiva, o lúdico como recurso pedagógico revela que os educandos, na maioria das vezes, percebem suas capacidades e suas dificuldades. Cabe ao educador identificar tais capacidades de forma a propiciar a integração de todas as áreas de desenvolvimento e aprendi- zagem dos alunos. As palavras de Fernández (2001, p. 37) apontam a relação entre a aprendizagem e o brincar de maneira cativante: Aprender é apropriar-se da linguagem, é historiar-se, re- cordar o passado para despertar-se ao futuro; é deixar-se surpreender pelo já conhecido. Aprender é reconhecer-se, admitir-se. Crer e criar. Arriscar-se a fazer dos sonhos tex- tos visíveis e possíveis. Só será possível que as professoras e professores possam gerar espaços de brincar-aprender para seus alunos quando eles simultaneamente construírem para si mesmos. É nessa perspectiva que o lúdico é um importante recurso peda- gógico para a definição de ações pedagógicas adequadas a serem estu- dadas em cursos de formação de professores. Com efeito, a utilização de jogos e brincadeiras em diferentes situações educacionais é um meio para estimular as aprendizagens específicas dos alunos. síntese • A ludicidade na formação dos educadores pode articular a relação entre a teoria e prática. O jogo como recurso peda- gógico tem objetivos educacionais a atingir: o aluno e seu processo de aprendizagem fazem parte da elaboração e orientação desse objetivo para chegar à construção de seu conhecimento. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 70 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au • A ludicidade na educação aborda as ações do jogo, do brin- quedo e da brincadeira. • O significado atual do jogo na educação, segundo Kishimoto (2008), atende a duas funções: a função lúdica do jogo, expressa na ideia de que sua vivência propicia a diversão, o prazer, quando escolhido voluntariamente pela criança, e a função educativa, quando a prática do jogo leva o sujeito a desenvolver seus saberes, seus conhecimentos e sua apreensão de mundo. O equilíbrio entre as duas fun- ções seria então o objetivo do jogo educativo. • Brincar pode ensinar porque propicia o trabalho com dife- rentes linguagens, o que facilita a significação de conceitos elaborados pelo adulto para os educandos. • O brinquedo, definido por Kishimoto (2008), é entendido sempre como um objeto, suporte da brincadeira ou do jogo, quer no sentido concreto, quer no ideológico. • A brincadeira, definida por Kishimoto (2008), é apontada como uma atividade espontânea da criança, sozinha ou em grupo. Ela constrói uma ponte entre a fantasia e a realidade, o que a leva a lidar com complexas dificuldades psicológicas, como a vivência de papéis e situações não bem compreendi- das e aceitas em seu universo infantil. • O jogo é caracterizado pela presença de regras que sistemati- zam as ações dos sujeitos envolvidos, mas a imaginação coloca à disposição de seus participantes a possibilidade de modificá- -las de acordo com suas necessidades e interesses. • A brincadeira, ao contrário do jogo, caracteriza-se por iniciar pela imaginação e despir-se de intencionalidade na ação. Mas a regra se faz necessária no decorrer da brincadeira para orga- nizar os conflitos sociais e afetivos que possam vir a fazer parte do cenário. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 71 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a • Embora saibamos que a questão não se esgota aqui, pois, ape- sar das reflexões teóricas a respeito da formação do educador que fizemos, há muito que ser repensado. Podemos sintetizar os elementos que podem auxiliar o professor a apropriar-se do jogo enquanto prática pedagógica: conhecimento sobre o lúdico, observação de situações lúdicas, escolha de brinque- dos e objetos culturais, definição de objetivos, organização do ambiente, avaliação dos objetivos propostos. indicações culturais BRASIL. Ministério da Educação. Fundação Joaquim Nabuco. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br>. Acesso em: 10 mar. 2010. Trata-se de um site sobre jogos e brincadeiras populares, com sugestões de atividades. MOYLES, J. R. A excelência do brincar. Porto Alegre: Artmed, 2006. Essa obra destaca o brincar em diversas culturas e sua relação com o currí- culo escolar. Atividades de autoavaliação Leia o conteúdo deste capítulo para responder às questões que seguem. Faça anotações individuais e questionamentos que irão auxiliá-lo na compreensão do tema abordado. 1. O entendimento do jogo como recurso pedagógico passa pela noção de que, se a escola tem objetivos a atingir e o aluno busca a cons- trução de seu conhecimento, qualquer atividade dirigida e orientada visa a um resultado e possui finalidades pedagógicas. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 72 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Considerando a afirmação anterior, identifique qual alternativa aponta o jogo utilizado em sala de aula como um meio para a reali- zação dos objetivos educacionais: a) O jogo educativo faz com que o aluno, ao praticá-lo, manifeste sua ação livre, iniciada e mantida pelo prazer de jogar. b) O jogo educativo faz com que o aluno, ao praticá-lo, não ma- nifeste sua ação livre; assim, o brincar é desvinculado do prazer de jogar. c) Apenas o jogo recreativo propicia ao aluno a manifestação de sua ação livre, iniciada e mantida pelo prazer de jogar. d) Tanto o jogo educativo quanto o jogo recreativo não apresentamcompromisso com a manifestação de sua ação livre, iniciada e mantida pelo prazer de brincar. 2. Leia atentamente a afirmação a seguir: Kishimoto (1994, 2008, 2010) concebe o jogo como um instrumen- to pedagógico muito significativo. Essa ideia encontra expressão na(s) seguinte(s) afirmação(afirmações): I. No contexto cultural e biológico, o jogo é uma atividade livre e alegre que engloba uma significação. II. No contexto cultural e social, o jogo não deve considerar ex- pressões corporais ou enfatizar os brinquedos industrializados. III. O jogo facilita a socialização, pois a criança participa em grupo, vivencia regras e interage com o outro. IV. A escolha de brinquedos industrializados empobrece o de- senvolvimento corporal, pois não leva ao questionamento dos pressupostos das relações sociais. Assinale a opção correta: a) I e III estão corretas. b) I e II estão corretas. c) I e IV estão corretas. d) Apenas IV está correta. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 73 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a 3. Entre os itens a seguir, quais correspondem às ações que definem o lúdico como recurso pedagógico? a) O jogo deve vir pronto para a criança jogar, e não ser confeccio- nado por ela, sobrando, assim, mais tempo para o jogo dirigido. b) De acordo com Almeida (2004), a proposta é ir além do jogo, do ato de jogar para o ato de antecipar, preparar e confeccionar o próprio jogo antes de jogá-lo. c) A capacidade do jogo em si deve ser ampliada para outros objetivos, como profilaxia, exercício, desenvolvimento de habili- dades e potencialidades da criança. d) O jogo serve somente como terapia de distúrbios específicos de aprendizagem das crianças. 4. Na tentativa de revelar a aprendizagem ocorrida com base no lúdico como recurso pedagógico, o professor pode estar atento a determi- nados aspectos: I. O lúdico requer observação do contexto que envolve a ação das crianças durante a prática pedagógica do jogo. II. Essa observação envolve a duração e o envolvimento das crian- ças nos jogos. III. A observação por parte do professor evoca a possibilidade de estimular as potencialidades infantis, como a criatividade, a au- tonomia, a criticidade e a expressão, ao desenvolver diferentes formas de linguagem, e também os aspectos cognitivos, afetivos e sociais. IV. O professor pode observar, mas não deve considerar aspectos como a forma de linguagem utilizada. Os itens corretos estão expressos na alternativa: a) I e II. b) II e III. c) I e IV. d) I, II e III. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 74 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au 5. Assinale (V) quando a afirmação for verdadeira e (F) quando for falsa em relação ao texto a seguir: A brincadeira encontra fundamento na fala de Kishimoto (1994, 2008, 2010), quando é apontada como uma atividade es- pontânea da criança, sozinha ou em grupo. A criança constrói uma ponte entre a fantasia e a realidade, o que a leva a lidar com comple- xas dificuldades psicológicas, como a vivência de papéis e situações não bem compreendidas e aceitas em seu universo infantil. Essa concepção de brincadeira corresponde às seguintes ideias: )( A brincadeira na infância leva a criança a solucionar conflitos cognitivos ou afetivos, ampliando, assim, suas possibilidades linguísticas, psicomotoras, afetivas, sociais e cognitivas. )( A brincadeira infantil possibilita à criança a imitação de di- ferentes papéis de seu cotidiano; porém, tal ação desfavorece a expressão de sentimentos e relações que estabelece com as pessoas do seu meio. )( Quando a criança imita as atitudes dos adultos na brincadei- ra, suas expressões facilitam a interação entre a fantasia e a realidade. )( A imitação dos papéis adultos pela criança na brincadeira reve- la a indissociação entre a fantasia e a realidade, pois, se as ações que imita fossem realizadas de forma verdadeira, enfrentaria obstáculos e riscos, como nas brincadeiras de cozinhar, dirigir, consertar móveis e aparelhos eletrônicos. )( Fazendo de conta, a criança age enfrentando desafios, organiza o pensamento, elabora suas regras, o que facilita a transposição do mundo adulto para o seu universo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 75 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Atividades de aprendizagem Questões para reflexão O significado atual do jogo na educação, segundo Kishimoto (1994, 2008, 2010), sinaliza a existência de divergências em torno do jogo educativo, que estaria relacionado concomitantemente a duas funções. A primeira seria a função lúdica do jogo, expressa na ideia de que sua vivência propicia a diversão, o prazer, quando escolhido voluntariamen- te pela criança. A segunda seria a função educativa, quando o jogo leva o sujeito a desenvolver seu saber, seus conhecimentos e sua apreensão de mundo. O equilíbrio entre as duas funções seria então o objetivo do jogo educativo. Com base na leitura do trecho anterior, reflita: 1. Quais relações os professores podem estabelecer entre jogos recre- ativos e educativos quanto aos objetivos e à organização do espaço e dos materiais? 2. Quais seriam as divergências e as proximidades em relação a esses aspectos? Atividades aplicadas: prática Atividade 1 Procedimentos: 1. Planejamento de uma apresentação com multimeios com base na produção de um texto reflexivo sobre o capítulo 1. Para ampliar a reflexão, entreviste crianças de diferentes idades e professores para saber sobre suas brincadeiras preferidas, os brin- quedos que possuem e os que gostariam de ter e os lugares em que gostariam de brincar. Relacione os resultados da entrevista com o assunto do capítulo 1. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rime e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 76 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Nessa etapa, observe os seguintes passos: a) formar uma equipe de quatro pessoas (escolha um coordenador da equipe e um relator que anotará todo o processo de planeja- mento e elaboração da apresentação); b) em conjunto, escolher um título para sua apresentação; c) definir os objetivos que vocês querem alcançar; d) escolher os meios (texto impresso, gravador de áudio-cassete, videogravador e aparelho de TV, retroprojetor) e o material (pa- pel, caneta para transparência, transparência, fita de áudio, fita de vídeo) a serem utilizados; e) cada integrante deve registrar por escrito as ideias e as dúvidas que tiver sobre o tema; f ) definir, em conjunto, quais os pontos que cada um vai pesquisar e dividir as tarefas para cada membro da equipe; g) o grupo deve estabelecer um horário para a reunião e apresen- tar os resultados da pesquisa individual e da tarefa de cada um, assim como a integração das tarefas; h) elaborar a apresentação integrando os textos produzidos. 2. Elaboração da apresentação A equipe deve: a) utilizar os meios, os materiais e o texto produzido após a pesquisa; b) organizar e integrar os textos (escrito, sonoro e visual); c) redigir o roteiro baseado na reunião dos diferentes textos. 3. Apresentação Nessa fase final, é necessário: a) apresentar o trabalho às demais equipes; b) solicitar aos colegas que façam uma avaliação oral e por escrito do trabalho, indicando seus limites e pontos positivos; Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 77 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a c) recolher a avaliação; d) anexar a avaliação dos colegas ao texto que o relator do grupo vem construindo e juntar ao portfólio do grupo. Atividade 2 Redação do relatório sobre o planejamento e a elaboração da apresen- tação e a avaliação do material didático (apresentação em PowerPoint) com multimeios. Tomando por base trabalho realizado, escreva um relatório re- gistrando como foram o planejamento e a elaboração da apresentação, comentando quais foram as dificuldades encontradas, as superações e as constatações positivas. Indique quais objetivos foram definidos e os resultados encontrados. Se houve apresentação, faça uma síntese da avaliação dos colegas. Finalize o relatório apresentando suas considera- ções sobre o projeto. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. No capítulo anterior, apresentamos as concepções teóricas sobre a lu- dicidade na educação, apontando seus conceitos, objetivos e atitudes que possibilitam a prática educativa na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental. A continuidade e o aprofundamento sobre a ludicidade vem agora, neste capítulo, identificá-la no desenvolvimento e na aprendizagem infantil. Nessa perspectiva, consideraremos os es- tudos de Piaget e Vygotsky. Atualmente, muitas são as contribuições de estudiosos e autores da ludicidade na educação. Assim, a escolha dos trabalhos de Kishimoto (1994, 2008) e Friedmann (1996) atende à necessidade de se explicitar a ludicidade com transparência e lealdade à realidade brasileira. Nesse sentido, espero que todos os que se inserirem na cultura lúdica possam dispor de seu conhecimento teórico e prático em uma perspectiva dialética de construção do conhecimento sobre o ato de brincar e suas potencialidades metodológicas. 2.1 o lúdico enquanto linguagem simbólica Estudos e pesquisas desenvolvidos por Kishimoto (2008) afirmam que o brinquedo nem sempre satisfaz a criança. 2 A LudicidAde no desenvoLvimento do ser humAno e As impLicAções pArA A práticA educAtivA Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 80 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Existem brincadeiras nas quais as atividades desenvolvidas não pare- cem agradáveis para a criança, como, por exemplo, aquelas em que se busca o resultado como interesse. O prazer não é, pois, uma característica que de- fine a brincadeira. Em relação ao imaginário, é necessário observar que, em situações de jogos infantis, a imaginação é explícita, e as regras são ocultas; nos jogos do adulto, é o inverso: as regras são explícitas, e a imaginação é oculta. Kishimoto (2008) define o jogo de faz de conta como aque- le que deixa evidente a presença da situação imaginária. Surge com o aparecimento da representação da linguagem, por volta dos 2 a 3 anos, quando a criança começa a modificar o significado dos objetos, a ex- pressar suas fantasias e a assumir papéis existentes no contexto social. Tais brincadeiras permitem também a expressão de regras implícitas que se materializam nos temas das brincadeiras. Ao contrário dos jogos recreativos, a escassa prática de jogos de faz de conta na escola indica que ainda se proporcionam poucos mo- mentos de livre expressão para as crianças. Os relatos de professores em diferentes contextos escolares so- bre experiências com o lúdico apontam que muitos conhecem os recur- sos utilizados na prática do jogo de faz de conta, porém desconhecem os estudos teóricos que fundamentam esse tipo de jogo, bem como sua importância para o desenvolvimento e a aprendizagem infantil. Muitas vezes, enquanto brincam, as crianças imitam o cotidiano por meio da expressão das relações familiares e escolares. Nessas situ- ações, é provável que os professores fiquem surpresos ao descobrirem algumas características da personalidade em seus alunos que até então desconheciam, esclarecendo-se possivelmente determinadas reações, interações e comportamentos.Estudos e pesquisas desenvolvidos por Kishimoto (2008) afirmam que o brinquedo nem sempre satisfaz a criança. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 81 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Assim, no sentido de orientar a prática pedagógica do brincar na educação infantil, os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (RCNEI) apontam que trabalhar com o jogo é levar a criança à possibilidade de expressar-se e descobrir o mundo, estabele- cendo relações com ele a fim de obter segurança (Brasil, 1997). Sendo o jogo um instrumento pedagógico que pode ser abordado em diferentes áreas do conhecimento, sugerimos aqui ir além das práticas motoras. Estudos comprovam que o importante é fazer com que o educando interaja com diferentes culturas, vivencie experiências motoras funda- mentais e as identifique historicamente dentro de seu contexto social. A reflexão sobre a inclusão do jogo de faz de conta nas propostas pedagógicas escolares pode vir a ser de grande importância no cenário educacional e justifica-se, segundo estudiosos da área, por estar relacio- nado à aquisição do símbolo, pois é alterando o significado dos objetos, das situações e criando novos significados que se desenvolve a função simbólica, elemento que garante a racionalidade ao sujeito. Ao brincar de faz de conta, a criança aprende a criar símbolos. Para Vygotsky (1984), a criança pequena, com idade inferior a 3 anos, envolve-se em situações em que prevalece a exploração do objeto (mordendo-os, desmontando-os, batendo uns contra os outros), e não em situações imaginárias, porque nem sempre a sua ação corresponde ao significado do brinquedo, já que por vezes ele perde sua força deter- minadora. Já as crianças de 4 a 6 anos representam diferentes situações, independentemente do que o objeto verdadeiramente possibilita: um toco de madeira pode ser um carrinho; um tecido enrolado pode ser um bebê, e a criança faz de conta que o faz dormir. Assim, Vygotsky destaca a percepção de significados dados à brincadeira pelas crianças. No brinquedo, segundo Kishimoto (2000, p. 62), “uma ação substitui outra ação, assim como um objeto substitui outro objeto”. Brincar é uma atividade que procura representar o real e que tem propósitos que justificam o jogo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 82 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Segundo Vygotsky (1984, p. 118): A criança começa com uma situação imaginária, que é uma reprodução da situação real, sendo a brincadeira muito mais a lembrança de alguma coisa que realmente aconteceu, do que uma situação imaginária nova. À medida que a brin- cadeira se desenvolve, observamos um movimento em di- reção à realização consciente de seu propósito. Finalmente surgem as regras que irão possibilitar a divisão do trabalho e o jogo na idade escolar. Nesse sentido, os jogos de expressão, como os de faz de conta, auxiliam no controle emocional da criança. Daí a importância de ser finalizado de maneira positiva. No jogo, o indivíduo pode revelar seus sentimentos, seus bloqueios e suas frustrações. O resultado desse tipo de atividade é que a criança vai adquirir, pouco a pouco, autoconfiança e melhor conhecimento de suas possibilidades e limites, com frequência impostos pela presença da outra criança com quem ela pode aprender a cooperar durante o jogo. Com efeito, a atividade lúdica estimula a autonomia e a socialização, condição de uma boa relação com o mundo. E as diferenças individuais? Pare e pense Um dos aspectos a ser repensado na escola é o que pode se cha- mar de diversidade, que aponta inicialmente as diferenças culturais, re- ligiosas, sociais, econômicas etc. Estas já são muito conhecidas no ce- nário escolar por todos os profissionais que atuam na educação. Porém, os professores lidam diariamente com as sutilezas da diversidade, que nesse sentido envolve a cultura e suas crenças, seus valores e seus con- flitos. De repente, o professor que estava acostumado com a sua turma com dificuldades de atenção e desinteresse no processo de aprendiza- gem encontra na sua sala educandos que apresentam outros aspectos Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 83 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a muitas vezes diversos daqueles que fizeram parte dos conteúdos, mes- mo que ocultos, da sua formação pedagógica. Entre esses elementos estão os que vêm de outros países e que trazem consigo o desafio de comunicar-se em uma língua diferente. Sabe-se que juntamente com a língua de cada país vem a sua ideologia, a sua maneira de pensar e viver. A disciplina, termo que resiste a uma rigidez no comportamen- to, embora os valores tenham se modificado, é um dos elementos que mais diferenciam os educandos na sala de aula. Acho interessante, para não dizer decepcionante, quando ouço algum professor ou professora declarar tranquilamente que está satisfeito porque em dado dia o aluno, que vou chamar de Juca, não compareceu à aula. Além disso, a profes- sora ainda afirma abertamente que nesse dia ela conseguiu desenvolver os conteúdos com maior qualidade, tranquilidade e diz em termos dis- tintos que se sentiu competente. O professor desabafa seus sentimentos em relação ao aluno sem nenhuma culpa, termo que não costumo uti- lizar, pois acredito que as pessoas têm responsabilidade sobre os con- textos nos quais estão inseridos, mas que no momento interpreto como pertinente. É desestimulador quando vejo tal cena, comum na sala de professores, em diálogos que mais parecem terapias de grupo, sem que- rer reduzir tal técnica a um falatório inconsistente. É desanimador! Não apenas pelo desabafo do professor, cujas razões eu compreendo, já que a educação atualmente está desvalorizada por falta de vontade política. Lamento também pelo educando, que procura encontrar um espaço de integração e formação na escola, mesmo que inconscientemente. A esse respeito, Rego (1998, p. 51) já abordava que: além das frequentes constatações acerca da precariedade das instituições de educação infantil e educação básica por parte dapopulação de modo geral, nas últimas décadas uma série de pesquisas não só atesta a falência do sistema de ensi- no nacional, como também procura analisar os diferentes fatores envolvidos nessa problemática, assim como buscar alternativas que contribuam para a solução dessa situação. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 84 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Como a citação de Rego (1998) aponta, essa questão já vem de longa data; o que não é novidade é que ela ainda delineia muitos aspectos a serem refletidos na educação atual. Nessa perspectiva, é importante salientar que a escola tem como função social proporcionar o desenvolvimento e a aprendizagem do educando com a integração de diferentes áreas: a social, a cognitiva, a afetiva e a motora. Contudo, vejo que não basta criticar; é necessário que a educação se posicione frente ao questionamento: O que fazer com as diferenças existentes no contexto escolar? Como a ludicidade pode auxiliar na prática pedagógica do educador, nesse contexto? Pare e pense Entendo que para se responder a esse questionamento é ne- cessário que o professor reveja seus próprios valores e que relação eles têm com a concepção de educação adotada na escola. A concepção adotada pelo educador passa por aquilo que ele já sabe, destacando aqui seu modo de vida, sua formação acadêmica e pe- dagógica, sua formação pessoal, e por aquilo que ele precisa saber, dos conhecimentos que ele precisa construir para que possa dimensionar o seu trabalho com o educando. Nesse momento, necessito estabelecer uma ponte com os aspectos apontados até aqui e sua relação com a lu- dicidade. Lembrando que, no capítulo 1, foi abordado o tema “a ludici- dade na formação do educador”, que pretendeu apontar um novo olhar, considerando esse período inicial da vida profissional do professor. Não seria foco deste texto trazer a discussão sobre a pedagogia, mas é importante e singular que o leitor procure estabelecer relações entre a ludicidade e as disciplinas de Fundamentos da Educação, Filosofia, Psicologia e Sociologia, estudados no curso. Assim, responder à questão sobre como lidar com a diversidade na escola traz à tona alguns elementos que dinamizam o trabalho peda- gógico com a ludicidade, que serão abordados a seguir: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 85 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Como a ludicidade pode favorecer o desenvolvimento da autonomia? Pare e pense A brincadeira que envolve a representação de papéis considera o sujeito como um todo, pois coloca em ação pensamentos, imaginação, raciocínio, memória, sentimentos, resolução de conflitos etc. Assim, o brincar constitui-se em uma atividade que coloca à dis- posição do educador e do educando questões do cotidiano que envol- vem as relações sociais. O resgate da memória da infância, suas relações familiares, a visão que a criança tem de sua própria vida são conteúdos férteis para a análise das necessidades afetivas das crianças, pois ao re- presentar papéis ela dispõe de elementos que, se não explicam, pelo menos deixam transparentes determinados comportamentos e atitudes. Vamos então retomar a fala do professor que ficou satisfeito por poder desenvolver o seu trabalho com competência apenas quando pôde demonstrar à turma os seus conceitos e preconceitos sobre como devem se expressar um professor e seus alunos em situação de apren- dizagem, à sua maneira. Ora, a turma desse professor tem um cenário que é composto por ele, seus recursos, tempos e espaços e, obviamente, todos os seus personagens. Nesse contexto, o aluno que esteve fora do palco escolar prova- velmente deixou de interagir com o grupo e, dessa forma, a dinâmica não foi a mesma. Os próprios colegas deixaram de estabelecer as re- lações do grupo no qual estão inseridos e o aluno deixou de aprovei- tar situações para refletir sobre suas atitudes. Nesse sentido, perdem todos. O professor poderia buscar alternativas metodológicas que viessem ao encontro das necessidades de seus educandos, despir-se de seu olhar pessoal e observar o seu aluno como um sujeito que necessita ampliar as áreas psicomotora, afetiva e social, para que possa dar uma chance à cognição. Assim é que apontamos a formação do educador e Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 86 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au estimulamos o estudo dos fundamentos da educação, da psicologia, da filosofia e da sociologia. Acreditamos que o aporte teórico dessas áreas vão ao encontro das diferentes abordagens metodológicas enunciadas nas áreas de conhecimento. 2.2 brinquedos e brincadeiras considerando as diferentes culturas Inicio esta abordagem convidando o leitor a retomar a conceituação so- bre os termos que definem o lúdico – o jogo, o brinquedo e a brincadeira, conforme o Quadro 1.1, apresentado no capítulo 1, com o objetivo de ampliar tais conceitos, aproximando-os de questões referentes ao de- senvolvimento e à aprendizagem infantil. Ao estabelecer relações entre as experiências vividas com o lúdico na infância e as abordagens teóri- cas enfocadas neste livro, podem surgir para o leitor identificações com os elementos que constituem seus saberes sobre o jogo, o brinquedo e a brincadeira. Assim, o objetivo é proporcionar a leitura do capítulo e pro- mover a ampliação da concepção de jogo, em que se privilegiam as regras como determinantes da ação da criança – sem esquecer que a imaginação é um elemento indispensável no contexto da ludicidade infantil. Lembrando que a característica principal do jogo é a presença de regras, porém, se não atenderem às necessidades e aos interesses do grupo, essas regras podem ser repensadas e modificadas para que se constituam em elementos de união e não de segregação. Já na brincadeira o elemento que aparece inicialmente é a ima- ginação, a ação livre e espontânea, a presença da representação de seu cotidiano. A criança expressa as relações culturais, afetivas e sociais nas quais está envolvida, vivencia e troca de papéis e posições e, nesse sen- tido, faz acordos em uma tentativa de organizar a ação lúdica. Ne nh um a p ar te de stapu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 87 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Qual é o significado do brinquedo na ação lúdica da criança e na sua utilização como recurso pedagógico? Pare e pense Para tal reflexão, vale pensarmos inicialmente sobre qual a dife- rença entre as duas situações descritas a seguir: • utilização de um livro de literatura infantil para estimular a expressão corporal e lúdica da criança e a bola para estimular o desenvolvimento da lateralidade; • utilização de um livro de literatura infantil para contação de história e utilização da bola para brincadeiras livres e espontâneas. Na primeira situação, o livro pode ser considerado um recurso lúdico e a bola um recurso para a ação pedagógica em uma aula de psicomotricidade; na segunda, o livro é suporte de uma ação pedagó- gica relacionada à literatura infantil, e a bola passa a ser suporte de brincadeiras. O que diferencia as duas situações é a identificação do objeto de estudo em cada área de conhecimento envolvida. Quando o livro é su- porte de ações lúdicas espontâneas, de brincadeiras, ele passa a ser um recurso lúdico, um brinquedo e, quando suporte da literatura, torna-se um material didático. Porém, nas duas situações, há como objetivo pro- piciar aprendizagens específicas. No caso da bola, evidentemente, trata- -se de um brinquedo, até por sua significação cultural, mas é também um recurso pedagógico da disciplina de educação física que trabalha com a psicomotricidade. Os estudos de Kishimoto (2008, p. 17) mostram que, “no Brasil, termos como jogo, brinquedo e brincadeira ainda são empregados de forma indistinta”. Cada contexto social constrói uma imagem de jogo conforme seus valores e seu modo de vida, que se expressam por meio da linguagem. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 88 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au O que mais podemos saber sobre o brinquedo? Pare e pense Kishimoto (2008) define brinquedo como termo indispensável para compreender esse campo. Diferindo do jogo, o brinquedo supõe uma relação íntima com a criança, na qual não há um sistema de regras para sua utilização. Segundo a autora (2008, p. 18): Uma boneca permite à criança várias formas de brincadeiras, desde a manipulação até a realização de brincadeiras como mamãe e filhinha. O brinquedo estimula a representação, a expressão de imagens que evocam aspectos da realidade. Ao contrário, jogos como xadrez e de construção exigem o de- sempenho de certas habilidades definidas por uma estrutura preexistente no próprio objeto e suas regras. Admitimos que o brinquedo represente certas realidades, posto que representar é estabelecer uma correspondência com alguma coisa e evocá-la, mesmo que ali não esteja presente o objeto. Nesse sentido, Kishimoto (2008, p. 18) afirma: “Pode-se dizer que um dos objetivos do brinquedo é dar à criança um substituto dos objetos reais, para que possa manipulá-los”. Desse ponto de vista, o brinquedo não reproduz apenas objetos, mas uma totalidade social. Existe um mundo imaginário criado pelos desenhos animados, pelos contos de fadas, pelas histórias e pelos seria- dos televisivos, representando realidades imaginárias. Nesse contexto, os brinquedos representam personagens em forma de bonecos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 89 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Segundo Brougère, citado por Kishimoto (2008), no campo dos jogos define-se que cada pessoa pode entendê-los de diferentes modos. Encontramos na literatura específica da área três níveis de diferenciação. O primeiro nível revela o jogo como um resultado de um siste- ma linguístico que funciona dentro de um contexto social e denota o sentido que cada sociedade lhe atribui. Brougère, citado por Kishimoto (2008), define um segundo nível, conceituando o jogo como um sistema de regras, o que se constituiria na sua característica principal. Segundo a autora, são as regras de um determinado jogo que o diferenciam de outros tipos de jogos, como no caso do jogo de caçador e de bola ao túnel. O objeto bola é o mesmo, mas o sistema de regras define o que fazer, o espaço, as relações etc. No terceiro nível, ainda segundo Brougère (citado por Kishimoto, 2008), destaca-se o objeto, que é o suporte do jogo. Por meio desse ob- jeto, o jogo potencializa a ação lúdica da criança, podendo-se, assim, estabelecê-lo como recurso pedagógico ou como recreação. Considerando essa variação no modo de empregar o jogo e como resultado de pesquisas sobre o uso de jogos, brinquedos e brin- cadeiras com fins pedagógicos, Kishimoto (2008, p. 37) aponta a rele- vância desses elementos como recursos pedagógicos para situações de ensino e aprendizagem e de desenvolvimento infantil. A fim de ampliar as concepções sobre o lúdico e começar a com- preendê-lo dentro de um contexto na aprendizagem, é fundamental pensarmos sobre o papel do educador na organização de situações de ensino que possibilitem ao aluno tomar consciência do significado do conhecimento a ser construído. Esse papel está relacionado ao uso do jogo como recurso pedagógico no momento da elaboração da ativi- dade de ensino, ao considerar o aluno no plano afetivo, cognitivo, os objetivos e os elementos culturais capazes de colocar o pensamento da criança em ação. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 90 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au 2.3 o papel do jogo e da brincadeira no desenvolvimento e na aprendizagem da criança da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental Para ampliar a compreensãosobre os conceitos de jogo, brinquedo e brincadeira, apresentaremos a seguir as abordagens teóricas de Piaget (1976) e Vygotsky (1984) sobre as relações entre o jogo, o desenvol- vimento e a aprendizagem. A escolha dos dois epistemólogos consis- te em compreender a contribuição de seus estudos para a educação. Certamente pela consistência de seus trabalhos como psicólogos, mui- tos educadores, como Kishimoto (1994, 2008) e Friedmann (1996), apontam seus estudos como fundamentos que dão base a concepções pedagógicas. Suas teorias, embora distintas em alguns pontos, descre- vem claramente a concepção de ludicidade no desenvolvimento e na aprendizagem ou na aprendizagem e no desenvolvimento dos nossos educandos em situações pedagógicas. Como Piaget descreveu as situações de jogos? Pare e pense Os estudos de Piaget (1976) sobre desenvolvimento e aprendi- zagem destacam a importância do caráter construtivo do jogo no de- senvolvimento cognitivo da criança. O autor (1976, p. 76) esclarece: O ser humano possui um impulso para o jogo e verificou este impulso lúdico já nos primeiros meses de vida, na for- ma do chamado jogo de exercício sensório-motor; do se- gundo ao sexto ano de vida, esse impulso lúdico predomina sob a forma de jogo simbólico para se manifestar, a partir da etapa seguinte, através da prática do jogo de regras. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 91 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Segundo Piaget (1976, p. 78), “essas três formas básicas de ati- vidade lúdica caracterizam a evolução do jogo para a criança, de acordo com a fase do desenvolvimento em que aparecem”. Porém, é preciso salientar que essas modalidades podem coexistir de formas paralelas no adulto. A primeira forma é definida como jogo de exercício sensório- motor. A atividade lúdica surge sob a forma mais simples de movi- mento, dependendo, para sua realização, apenas do amadurecimento do aparelho motor. Piaget (1976, p. 80) afirma o seguinte: Quase todos os esquemas sensório-motores dão lugar a um exercício lúdico. Esses exercícios motores consistem na repetição de gestos e movimentos simples, com um valor exploratório: nos primeiros meses de vida, o bebê estica e recolhe os braços e pernas, agita as mãos e os dedos, toca os objetos e os sacode, produzindo ruídos ou sons. Esses exercícios têm valor exploratório porque a criança os realiza para explorar e exercitar os movimentos do próprio cor- po, seu ritmo, cadência e desembaraço, ou então para ver o efeito que sua ação vai produzir. É o caso das atividades em que a criança manipula objetos, tocando, deslocando, su- perpondo, montando e desmontando. Movimentando-se, a criança descobre os próprios gestos e os repete em busca de efeitos. Os exercícios sensório-motores reaparecem após os 2 anos, durante a infância e mesmo no adulto, ou, ainda, segundo o mesmo autor (1976, p. 80) “sempre que um novo poder ou uma nova capaci- dade são adquiridos”. Por exemplo, aos 5 ou 6 anos, a criança realiza esse tipo de jogo ao pular com um pé só ou tentando saltar dois ou mais degraus da escada; aos 10 ou 12 anos, tenta andar de bicicleta sem segurar no guidão. Já no adulto, ocorre quando, por exemplo, o indivíduo acaba de adquirir um carro ou som e diverte-se fazendo funcionar o aparelho ou passeando no carro, com a finalidade de obter prazer em exercer os seus novos poderes (Piaget, 1976). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 92 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au A segunda forma de atividade lúdica proposta por Piaget é o jogo simbólico. A atividade lúdica se manifesta sob a forma de jogo simbólico, ou de ficção, imaginação e imitação, no período de 2 a 6 anos. É a fase na qual ocorre a transformação de objetos no que se refere ao seu significado, como no caso do uso de um cabo de vassoura como se fosse um cavalo. É quando também a criança se propõe ao desempenho de papéis, como no brincar de papai e mamãe, professor e aluno etc (Piaget, 1976). O jogo simbólico se desenvolve com base em esquemas sensó- rio-motores, os quais, à medida que são compreendidos, começam a ser imitados e representados. Para o autor (1976), sua função é satisfazer o eu por meio de uma transformação do real em função dos desejos: ao brincar de boneca, a criança refaz sua própria vida, corrigindo-a à sua maneira, e revive todos os prazeres e conflitos, resolvendo-os, compen- sando-os, ou seja, completando a realidade por meio da ficção. Assim, o autor aponta que esse tipo de jogo tem a função de assimilar a realidade por meio da liquidação de conflitos, da compen- sação de necessidades não satisfeitas ou da simples inversão de papéis. Piaget destaca que é o caminho para um mundo de faz de conta, que possibilita à criança a realização de sonhos e fantasias, revela conflitos interiores, medos e angústias, aliviando a tensão e as frustrações. Nesse sentido, para Piaget (1976), o jogo simbólico é uma for- ma de assimilação do real e um meio de autoexpressão, pois, quando a criança brinca de casinha ou de escola, representando papéis, está, ao mesmo tempo, criando novas cenas e imitando situações reais por ela vivenciadas. Os jogos de regras constituem a terceira forma de atividade lú- dica da criança, para Piaget. O autor (1976) destaca que esse tipo de jogo começa a manifestar-se por volta dos 5 anos, mas desenvolve-se na fase que vai dos 7 aos 12 anos, predominando durante toda a vida do indivíduo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 93 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a 93 Segundo Piaget (1976, p. 81): Os jogos de regras são jogos de combinações sensório- motoras (corridas, jogos com bolas) ou intelectuais (cartas, xadrez), em que há competição dos indivíduos (sem o que a regra seria inútil) e regulamentados quer por um códi- go transmitido de geração em geração, quer por acordos momentâneos. Na concepção desse estudioso, o jogo de regras caracteriza- se por ser regulamentado por leis que asseguram a reciprocidade dos meios empregados. A quarta forma é abordada no jogo deconstrução, que o autor define como jogos que possibilitam a reconstrução do real, o que pode ocorrer com um objeto, um fato, cenário ou acontecimento. Esse tipo de jogo reflete os aspectos da vida social em que estão inseridas as re- lações de trabalho. Assim, o educando, ao participar dessas atividades, lida com questões como a percepção do meio enfocada nos jogos de exercício sensório-motor, o faz de conta que lida com as cenas cotidia- nas, a reflexão sobre as regras que regulam e limitam as relações sociais. O que o jogo possibilita para o futuro do educando? Pare e pense Na perspectiva de Piaget sobre o jogo, a criança que brinca e explora objetos livremente aos 2 anos de idade lida com as questões do prazer e considera que a aprendizagem não é um peso, mas um mo- mento de satisfação, de desenvolvimento da autonomia. A prática do jogo simbólico para a criança de 4 anos pode significar uma gama de identificação de papéis e suas relações afetivas e sociais, que certamente Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 94 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au servirão de base, de modelo para lidar com as situações do mundo adul- to no trabalho e na sociedade. As regras refletidas darão ao futuro adul- to a possibilidade de se ver em situações que envolvem limites, o que irá ajudá-lo na construção de um sujeito solidário e cooperativo. A cria- tividade e a imaginação estimuladas no jogo de construção propiciam a vivência do cotidiano que o sujeito deverá enfrentar quando adulto. Nesse contexto, Piaget (1976) defende o jogo como um elemen- to que contribui para o desenvolvimento cognitivo da criança, desta- cando o papel da assimilação nesse processo. Quadro 2.1 – Níveis ou modalidades para as atividades lúdicas Tipos de jogos Sentimento ou habilidade desenvolvida Faixa etária Jogo de exercício sensório-motor Prazer em exercer novos poderes. 0 a 2 anos Jogo simbólico Imitação de papéis, resolução de conflitos. 2 a 6 anos Jogo de regras Construção de limites. 6-7 anos Jogo de construção Preparação para as relações sociais e do trabalho. A partir dos 11 anos Fonte: Com base em Piaget, 1976. Como podemos perceber, os estudos de Piaget (1976) apontam para a compreensão do processo de desenvolvimento infantil por meio do lúdico. Logo, aprofundar os conhecimentos relativos às contribui- ções do autor leva o educador a entender e ampliar conceitos funda- mentais sobre o lúdico na aprendizagem da criança. Quais são as contribuições de Vygotsky para o estudo da ludicidade na vida da criança? Pare e pense Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 95 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a 2.4 contribuições de vygotsky Já no que diz respeito aos estudos de Vygotsky (1984), o jogo é conside- rado um estímulo à criança no desenvolvimento de processos internos de construção do conhecimento e no âmbito das relações com os outros. O autor, que se aprofundou no estudo do papel das experiências sociais e culturais com base na análise do jogo infantil, afirma que no jogo a criança transforma, pela imaginação, os objetos produzidos socialmente. Vygotsky (1984) aponta, tam- bém, que toda atividade lúdica da criança possui regras. A situação ima- ginária de qualquer tipo de brinque- do já contém regras que demonstram características de comportamento, mesmo que de maneira implícita. Para ele, o jogo é o nível mais alto do desenvolvimento no pré-escolar e é por meio dele que a criança se move cedo, além de desenvolver o compor- tamento habitual na sua idade. Nesse sentido, o autor des- taca que o jogo é fundamental para o desenvolvimento cognitivo, pois o processo de vivenciar situações imaginárias leva a criança ao desen- volvimento do pensamento abstrato, quando novos relacionamentos são criados no jogo entre significações e interações com objetos e ações. Frequentemente, no cotidia- no infantil, observamos crianças re- presentando situações que descrevem O jogo propicia interações e atua na zona de desenvolvimento proximal, possibilitando à criança vivenciar situações que a levam a comportamentos além dos habituais. Para a criança de 0 a 3 anos o objeto se sobrepõe ao significado. A criança precisa ver, tocar e manipular os objetos. Para a criança de 4 a 6 anos o significado se sobrepõe ao objeto. A criança vivencia papéis e situações do seu cotidiano por meio das brincadeiras. Enfim, o jogo é ação colocada em prática. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 96 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au suas relações com os outros. Por exemplo: quase toda criança acompa- nha um adulto fazendo café. Ao tentar imitar essa ação, a criança vai além do que vivenciou quando da observação do adulto, pois não ape- nas representa toda a ação de passar o café, mas também o serve, ofere- ce outros alimentos, pergunta se está agradando, estabelecendo, assim, um diálogo significativo no meio social. Com as teorias de Piaget (1976) e Vygotsky (1984), entende- mos que é necessário refletir sobre o papel do professor ao utilizar o lú- dico como recurso pedagógico, que lhe possibilita o conhecimento so- bre a realidade lúdica de seus alunos, bem como sobre seus interesses e suas necessidades. Paralelamente, no processo de ensino-aprendizagem o jogo deve ser visto como um meio de estimular o desenvolvimento cognitivo, social, afetivo, linguístico e psicomotor e de propiciar apren- dizagens específicas. Assim, ao utilizar o jogo como recurso pedagógico na escola, o educador deve considerar a organização do espaço físico, a escolha dos objetos e dos brinquedos e o tempo que o jogo irá ocupar em suas ati- vidades diárias. Esses aspectos são definidos como requisitos práticos fundamentais para o trabalho com o lúdico como recurso pedagógico. Os estudos aqui apresentados apontam que a atual perspectiva sobre os jogos infantis pode levar educadores e pesquisadores da edu- cação a incentivarem a prática do jogo como forma de proporcionar a aprendizagem e o desenvolvimento infantil. Uma vez fazendo parte do planejamento escolar, os jogos deixariam de possuir um caráter secun-dário e passariam a ser pedagogicamente aceitos. Por que o jogo pode ensinar? Pare e pense A prática pedagógica contextualizada com os jogos, além de con- tribuir para a adaptação dos educandos ao grupo e ao meio, prepara-os Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 97 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a para viver em sociedade e questionar os pressupostos das relações sociais tais como estão colocadas. Nesse sentido, atende às concepções peda- gógicas atuais que propõem formar sujeitos reflexivos, que problemati- zem as questões sociais e as transformem com criticidade e tolerância. Contudo, a reflexão do futuro educador que irá atuar na educa- ção infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental deve passar pela ideia de que o trabalho pedagógico nesses níveis de ensino atualmente enfrenta um grande desafio, que é o resgate das diferentes linguagens relacionadas ao conhecimento estético-sensorial-expressivo, verbal e não verbal, para se contrapor aos processos de escolarização que priori- zam unicamente a aprendizagem das letras e dos números. De acordo com essa perspectiva, Junqueira Filho (2005) destaca a separação exis- tente entre a educação infantil e os anos iniciais do ensino fundamen- tal no que diz respeito ao processo de ensino-aprendizagem, pois as áreas de conhecimento são reconhecidas quando a criança entra nos primeiros anos escolares e isso se percebe porque a metodologia utiliza- da reforça as atividades como elemento principal na sistematização do conhecimento. As linguagens e o brincar encontram muitas barreiras para articularem as práticas pedagógicas do professor em sala de aula. Assim, o entendimento sobre os aspectos favorecidos pelo lúdi- co como recurso pedagógico vem ao encontro da necessidade de simbo- lização das vivências cotidianas pela criança, facilitando que diferentes linguagens, verbais e não verbais, socializadas e ideologizadas, trans- formem-se em um instrumento do pensamento. Os estudos apontados anteriormente destacam o homem como um sujeito que interpreta o mundo a partir da subjetividade do pensamento em suas relações afe- tivas e cognitivas, construídas dentro de um contexto cultural e social. Entende-se que o pensamento é formado por relações e que o homem pensa por meio de símbolos, construídos nas relações dialéticas com o mundo cultural, social e físico. Ao tratar desse assunto, Vygotsky (1984) defende que a criança necessita de tempo e espaço para identificar e construir sua própria realidade e o faz por meio da prática da fantasia. O autor sustenta que a imaginação em ação, ou o brinquedo, é a primeira interação da criança Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 98 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Ilustração: Andre Figueiredo Muller no âmbito cognitivo que lhe permite ultrapassar a dimensão perceptiva motora do comportamento. Na infância, a utilização das linguagens expressivas subjetivas dá forma às vivências cotidianas e as transforma em pensamento, em uma construção dialética, sistematizando os pro- cessos psicológicos elementares em processos complexos. A criança, ao passar por esse processo, apropria-se da cultura, tornando-se parte dela. É a representação simbólica que possibilita a interiorização do mundo. Qual é a importância das brincadeiras no ambiente escolar? Pare e pense Nessa perspectiva, ao observarmos as crian- ças em momentos livres, fica evidente que o jogo está presente na escola, independente da mediação do professor. Porém, quando a expressão lúdica da criança é mediada de maneira a intervir no seu pro- cesso ensino e aprendizagem, essa expressão pode garantir seu direito a uma educação que respeite seu processo de construção do pensamento, permitindo-lhe a vivência nas linguagens expressivas do jogo como ins- trumento simbólico da leitura e da escrita de mundo. Assim, a utilização do lúdico como recurso pedagógico, apoiado nas dimensões reflexiva e esté- tica da construção do conheci- mento infantil, possibilita ao educador a melhoria do traba- lho pedagógico em sala de aula. Ao trabalhar com o lú- dico como recurso pedagógico, podemos observar ainda o quanto a experiência escolar tem influên- cia na imagem que a criança faz de si Realmente, brincar é coisa séria! Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 99 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a mesma, sendo, pois, muito importante que o professor esteja preparado para lidar com as mais variadas situações, sem causar danos à criança que pretende ajudar. Na realidade, o que percebemos é que, muitas ve- zes, diante das mínimas dificuldades e por não saber como resolvê-las, os educadores encaminham os alunos para especialistas. Nesse contexto, a capacitação adequada do professor contribui- ria para que muitas dificuldades pudessem ser sanadas no âmbito da escola, configurando um processo educativo de qualidade e facilitador de uma aprendizagem significativa. Como organizar o espaço e o ambiente para os jogos e as brincadeiras? Pare e pense Os estudos de Kishimoto (2008) apontam a necessidade da cria- ção de espaços como sala de jogos e outros locais que permitam às crian- ças ter mais liberdade e possibilidades diferentes nos seus movimentos. As áreas de jogos exteriores podem ser anexas a salas de atividade na escola, influenciando favoravelmente a sensibilidade da criança. Os es- paços livres das escolas, como áreas de jogo e pátios de recreação, podem ser organizados de modo que sua disposição não perturbe o aprendi- zado nem a circulação fácil entre esses espaços e as salas de atividades. Brincar, brincar... Como o jogo pode ser planejado e quando o jogo pode ser espontâneo? Pare e pense A passagem da atividade espontânea à atividade planejada ocorre graças à existência de um ambiente adequado, no qual a criança possa atender à sua necessidade de movimento, bem como investir na ativi- dade de exploração de objetos, brinquedos e espaço. As brincadeiras Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca ção p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 100 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au permitem à criança uma forma de exploração mais centrada nas quali- dades do objeto. Essa forma de atenção acontece, inicialmente, definin- do-se melhor as condições exteriores do espaço em que se desenvolve a ação. A criança sente quando brinca com seu corpo, descobre suas ca- racterísticas corporais e estabelece relações coerentes entre as diferentes partes de seu corpo na relação vivida no espaço. A criança o percebe e o representa, o que lhe permite ampliar o universo de explorações dos aspectos imitativos e simbólicos. A criança, principalmente de 0 a 5 anos, quando na educação infantil, tem a possibilidade de prolongar a experiência sensorial e perceptiva, permitindo-lhe associar um símbolo verbal a objetos e brinquedos, o que desenvolve a área perceptivo-mo- tora, assim como no domínio do espaço (Kishimoto, 2008). Já a criança de 6 a 11 anos, ou mais especificamente a criança que está nos anos iniciais do ensino fundamental, utiliza de todos esses procedimentos para construir sua aprendizagem. Criativa, gosta de ati- vidades inovadoras; curiosa, necessita de explorar objetos, problematizar, utilizar diferentes recursos tecnológicos para responder às suas inves- tigações. Lida com suas emoções, expressando-as por meio de gestos, posturas e da linguagem falada e escrita. Gosta de desenhar, o que a faz interagir com o seu universo simbólico, representando assim cená- rios do cotidiano familiar, escolar e social. Porém, muitas vezes essas crianças ainda apresenta insegurança, o que demonstra ao lidar com re- gras, e nesses momentos é fundamental a mediação do adulto, apoiando, questionando, escutando e ajudando a refletir sobre suas atitudes, seus conceitos, seus preconceitos e suas consequentes ações perante si e ao outro (Friedmann, 1996). Nesse sentido, você, educador, ao organizar o espaço e os mate- riais utilizados para os jogos, pode propiciar uma ação educativa ade- quada às necessidades da criança. Tal ação possibilita que as dificul- dades escolares na área da leitura, da escrita e do cálculo possam ser diminuídas e não tenham consequências negativas para a criança. A seguir, apresentaremos as diferentes concepções sobre o lúdi- co como recurso pedagógico à luz dos trabalhos de Kishimoto (2008) e Friedmann (1996). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 101 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a 2.5 o lúdico como recurso pedagógico direcionado ao diagnóstico do processo de aprendizagem infantil Os estudiosos da área da ludicidade definem o lúdico como recurso que propicia o diagnóstico do processo de aprendizagem infantil como uma maneira de o professor perceber o educando em uma perspectiva cognitiva, afetiva, psicomotora e social. A propósito, Friedmann (1996, p. 70), em seus estudos, destaca a importância do lúdico como recurso pedagógico por meio do qual “o educador pode conhecer a realidade lúdica dos seus alunos, seus interesses e necessidades, comportamentos, conflitos e dificuldades”. Atualmente, porém, percebemos que tal concepção se manifesta na escola de forma fragmentada. Em conversas com professores em diferentes contextos, como cursos de capacitação, encontros e simpósios, e mesmo nos intervalos dialogados das salas dos professores, estes quase sempre declaram que gostariam de utilizar a ludicidade como recurso pedagógico, porém não o fazem e, quando o fazem, encontram dificuldades no encaminha- mento. As dificuldades referidas se referem a quais jogos utilizar, como organizar ambiente e recursos, quanto tempo e, principalmente, como observar as situações expressas durante a prática de jogos e brincadeiras. O que, como e para que fazer a observação dos educandos em momentos lúdicos? Pare e pense Inicialmente, é importante ressaltar que praticamente todos os educadores realizam em seu cotidiano atitudes espontâneas de observa- ção e o fazem mentalmente ou por escrito. É comum vermos professores com seus caderninhos ou até pedaços de papéis em seus bolsos, fazen- do anotações de comportamentos, falas dos alunos, que darão margem a diferentes propostas pedagógicas. Existe no mercado até literatura Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 102 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au específicab, escrita com base na observação dos edu- candos, feitas por seus professores, atentos aos seus interesses e desenvolvimento. O desenvolvimento integral do educando considera a integra- ção das áreas cognitiva, afetiva, sensório-motora e social. Nesse sentido, seria importante refletirmos criticamente sobre a tendência de focalizar a aprendizagem cognitiva como se esta fosse separada de todos os outros aspectos que fazem parte do sujeito. A própria LDBEN nº 9.394/1996, em seu art. 29, destaca a in- tegração das áreas de desenvolvimento e aprendizagem quando aponta que “a educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complemen- tando a ação da família e da comunidade”. Assim, mesmo as aprendizagens específicas planejadas devem considerar as dificuldades e os potenciais dos educandos e, nessa pers- pectiva, utilizar metodologias que ampliem as linguagens, consideran- do seus diferentes estilos de aprendizagem. No mesmo sentido, para o ensino fundamental, a LDBEN, em seu art. 32, propõe que esse nível de ensino tenha por objetivo: Art. 32. O ensino fundamental obrigatório, com duração de 9 (nove) anos, gratuito na escola pública, iniciando-se aos 6 (seis) anos de idade, terá por objetivo a formação básica do cidadão, mediante: I – o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo; II – a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade; III – o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitu- des e valores; IV – o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedadehumana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social. [...] ba Como o livro de Madalena Freire (1983), A paixão de conhecer o mundo. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 103 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Com efeito, o trabalho pedagógico do professor de educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental deve considerar o papel das interações no processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, o educando aprende com sua interação com o meio, por meio da maneira como entende e expressa as diferentes linguagens, seja corporal, oral ou escrita. Assim, quando o educando apresenta algum tipo de dificuldade de aprendizagem em uma área de conhecimento, o educador pode bus- car metodologias e recursos pedagógicos que o auxiliem na significação dos conteúdos. Portanto, a não aprendizagem, ou seja, quando o edu- cando apresenta dificuldades de aprendizagem em alguma área, é um aspecto integrante do processo de ensino-aprendizagem. Nessa perspectiva, a ludicidade como recurso pedagógico favo- rece o processo anteriormente citado, por contar com a utilização de diferentes maneiras de expressão, linguagens e por considerar diversas possibilidades de ação e estratégias, tentativas e maior aceitação do erro. Nessa perspectiva, de acordo com Almeida (2004), quando participa de um jogo, a criança elabora e reelabora suas atitudes, organiza estra- tégias e pensamentos, utiliza o raciocínio e a memória. Expressa seus sentimentos de alegria na vitória e frustração na perda, sozinha e junto aos seus colegas, fortalece-se emocionalmente ao lidar com suas rea- ções emocionais, desenvolvendo o autoconhecimento, a autonomia e a perseverança. Friedmann (1996), ao propor o jogo como um recurso de análise das características de comportamento, individual e em grupo, aponta a ludicidade como facilitadora da organização do pensamento e para a aprendizagem de elaboração de estratégias. Para a autora, as atitudes e os comportamentos observados durante as ações lúdicas da criança ressaltam a importância do jogo espontâneo como ponto de partida. Nesse sentido, ela afirma (1996, p. 71) que “o jogo espontâneo é livre e nele a criança tem prazer: ela estabelece a vontade de brincar, como, quando, com quem e durante quanto tempo”. Assim, propiciar a prática do jogo espontâneo no contexto edu- cacional possibilita ao docente fazer um diagnóstico do comportamento Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 104 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au do grupo em geral ou dos alunos individualmente e, ainda, perceber em que nível de desenvolvimento se encontra. Quando se conhecem os valores, as ideias, os interesses, as necessidades e os conflitos das crian- ças em situações de brincadeira espontânea, é possível construir esse quadro de informações. Nessa mesma perspectiva, Moyles (2002) aponta a brincadei- ra espontânea como um ponto de partida no qual o professor poderá alicerçar o seu trabalho lúdico voltado para a aprendizagem. A autora descreve alguns questionamentos que o professor deverá fazer para uti- lizar a ludicidade como recurso pedagógico. Entre esses questionamentos, destacam-se ainda, segundo Moyles (2002, p. 117): O que eu vou oferecer? Por que estou oferecendo isso, espe- cificamente? De onde as crianças estão partindo? Que con- ceitos constituem a base do meu tópico? Que habilidades eu espero que as crianças adquiram? Que áreas do currículo será possível cobrir? Qual será minha abordagem? Tarefas, atividades, brincar livre/brincar dirigido? Que observações devo fazer de cada criança, dos grupos, da classe? Que re- gistros precisarei manter? Desse ponto de vista, entendemos que, por meio do jogo, é possível estudar o comportamento infantil, o que requer estudos bá- sicos dos referenciais teóricos da psicologia. Ressalto ainda que, para a realização de um bom trabalho pedagógico, é preciso conhecer bem os alunos, isto é, observá-los antes, durante e depois da realização do jogo. Os estudos de Friedmann (1996, p. 70), nessa perspectiva, re- velam também que a vivência do jogo espontâneo pela criança permite que o professor faça observações específicas, pois por meio de um ro- teiro proposto, o educador tem elementos para realizar um exame glo- bal do jogo analisado, em que predominam elementos como atividades cognitivas e evidências do comportamento social, da afetividade e de aspectos psicomotores e da linguagem. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 105 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Ao encontro dessa ideia, Miranda (1984) enfatiza a obser- vação das crianças durante o jogo, destacando a utilização de um mé- todo objetivo de estudo psicológi- co, ou seja, uma observação sobre os movimentos, a socialização, a interpretação da criança, suas pre- ferências, seus interesses e seu entu- siasmo. Segundo o autor, a criança, nesse momento, está despreocupa- da, livre, e seu comportamento e suas aptidões são espontâneos. Ela está expressando sua personalidade, que é um dos melhores elementos para propiciar a realização de um estudo completo. As informações obtidas com base na análise do jogo espontâneo permitem definir, por meio de uma escolha criteriosa, os jogos mais apropriados a cada grupo. Atualmente, os pesquisadores da área da ludicidade revelam em seus debates que o jogo espontâneo tem pouquíssimo espaço na atua- ção pedagógica na escola, pois é significativo o número de educadores que encontram dificuldades em obter espaço e materiais adequados para essa prática. Mesmo assim, tais estudiosos entendem que esses educadores reconhecem no jogo espontâneo um momento importante na observação das relações estabelecidas pelas crianças em diferentes contextos. Reconhecem, ainda, a prática do jogo espontâneo como um meio facilitador da expressão da autonomia, da criatividade, da experimentação, da pesquisa e de aprendizagens específicas. Você poderá elaborar uma ficha de ob- servação lúdica dos seus alunos para utilizar na prática de jogos e brincadeiras.c Winnicott (1975, p.89) também defende a prática do jogo espontâneo como a verdadeira forma de expressão ao considerar que: “é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre seu eu”. ca No final desta obra (ver Apêndice) serão apresentados alguns aspectos a serem observados em relação ao desenvolvimento e aprendizagem dos educandos, porém é impor- tante que ao elaborar a ficha sejam considerados os elementos ligados à realidade educacional de cada instituição e grupos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 106 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au A prática pedagógica com jogos também precisa de materiais adequados a cada tipo de atividade. Nesse sentido, o jogo espontâneo pode seguir alguns exemplos de materiais e organização de espaços nos quais o educador irá adequar as necessidades do seu grupo de crianças. Bolas de borracha número 10, bolas de vôlei leves, cabos de vassoura, arcos, colchonetes, saquinhos de areia, cordas individuais e coletivas, cones plásticos, pneus, elásticos, aparelho de caixas de papelão (sapatos, camisas, fósforos, pasta de dente), tesoura, fita adesiva, cola, barbante, papel-bobina, tintas, massinha, argila, papel-sulfite, canetas e lápis coloridos, revistas e jornais usados, papel-crepom de cores variadas, livros com histórias infantis, fantoches e garrafas plásticas descartáveis, alfabeto móvel, pedaços de tecidos, revistas e jornais usados, balões de diferentes tamanhos, pedaços de madeira ou de plástico, troncos inteiros ou cortados pela metade, bambus, cordões de diferentes tamanhos, cordas de pular, fantasias, quebra-cabeças, jogos de encaixe, jogos de montar, jogos de mesa etc. Pare e pense Para brincar de forma espontânea, sozinha ou acompanhada, a criança precisa de tempo e espaço adequados. Atualmente, dependen- do da localidade onde as crianças residem, estas se tornam cada vez mais limitadas nos seus movimentos. Nesse sentido, o espaço reserva- do ao brinquedo, seja na sala de jogos ou de aula, cantos pedagógicos, quadras ou parques, deve possibilitar às crianças liberdade para os seus movimentos e suas expressões. As áreas externas também são ricas em elementos e objetos que possibilitam a brincadeira espontânea. A ex- ploração das noções topológicas e sensoriais favorece a criatividade e a sensibilidade da criança. Esses espaços não necessitam de uma grande Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 107 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a estrutura, pois a forma simples em que podem ser organizados, ocu- pados por materiais brutos, leva a criança a desenvolver a organização de seu próprio espaço e elaborar seus próprios recursos de jogo. Assim, os espaços livres nas escolas podem ser enriquecidos com troncos de árvores, bancos, cai- xas de areia e recipientes com água. Assim, no berçário, você pode planejar atividades espontâ- neas para aproximadamente 20 a 30 minutos; no maternal, o tempo pode aumentar para 30 a 40 minutos. No pré-escolar e anos iniciais do ensino fundamental, o tempo pode variar de 40 a 60 minutos. O importante é que você tenha flexibilidade e sensibilidade para não impor um tempo muito extenso quando a brin- cadeira já se tornou desinteressante e os educandos estão dispersando e se entediando, o que é facilmente percebido pelas suas expressões faciais e corporais ou, ao contrário, terminar a brincadeira quando a criança está em pleno processo criativo. O que fazer com os aspectos observados na prática espontânea? Pare e pense As brincadeiras espontâneas trazem conteúdos significativos para o processo de ensino-aprendizagem. Assim, o educador poderá escolher os jogos seguintes com base no que foi mais interessante para o seu grupo. A escolha criteriosa de jogos dirigidos pode atender às ne- cessidades observadas em relação ao desenvolvimento afetivo, cognitivo, O tempo destinado às brincadeiras livres também deve ser pensado com base na observação dos interesses, das necessidades e das características sociais, psicomotoras e cognitivas de cada grupo de crianças. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 108 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au social e motor. Os registros podem ser organizados em forma de pare- cer para as avaliações diagnósticas e fazer parte do processo de avalia- ção como um todo. As dificuldades dos alunos poderão ser discutidas nos conselhos de classe, observando possíveis sugestões para interven- ção no processo de desenvolvimento e aprendizagem e também serem apresentadas aos pais para que identifiquem características paralelas quando em situações de brincadeiras fora do contexto escolar. Simplificando Você, educador, deve: • Ter atitudes espontâneas e sistematizadas de observação (an- tes, durante e depois da realização do brincar espontâneo, em diferentes contextos). • Observar a integração das áreas de desenvolvimento e aprendi- zagem, se a criança estiver com problemas de saúde, provavel- mente irá ter dificuldades em alguma área. • Utilizar a brincadeira espontânea como um ponto de partida em que o professor poderá alicerçar o seu trabalho lúdico voltado para a aprendizagem. • Elaborar uma ficha de observação lúdica para ter clareza e obje- tividade sobre os aspectos a serem observados. • Planejar espaço, tempo e a seleção dos materiais a serem utilizados. • Avaliar as observações de maneira diagnóstica dos interesses, dificuldades e potencialidades dos educandos para a elaboração dos próximos planejamentos, considerando não apenas os alunos, mas todos os envolvidos no processo e aprendizagem. Contudo, tendo como suporte teórico os estudos de Friedmann (1996), ao observar seus alunos, o professor verifica que, por meio de atividades lúdicas, eles começam a organizar suas relações emocionais: conhecem melhor seu corpo e suas possibilidades e compreendem as relações sociais envolvidas nos jogos. A ampliação das habilidades Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od erá s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 109 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a fundamentais, a independência e a autonomia são critérios importan- tes na definição dos objetivos e no acompanhamento dos progressos e das dificuldades encontradas pelas crianças. Na avaliação do seu papel profissional, o professor considera sua capacidade de criar diferentes situações para o desenvolvimento motor, cultural, político e social dos seus alunos. 2.6 o lúdico como recurso pedagógico direcionado às áreas de desenvolvimento e aprendizagem Em relação às áreas de desenvolvimento e aprendizagem, os estudos de Ferreira (2001) apontam que toda criança tem características próprias e o professor não pode esquecer que essas são as portas de entrada de seu desenvolvimento. Essas características são identificadas nas áreas cognitiva, afetiva, social, linguística e psicomotora. Cada área, embora específica, relaciona-se profunda e integralmente com todas as outras. Assim, a fim de poder estimular os alunos adequadamente, você, professor, precisa conhecer em que ponto está o seu desenvolvimento. Ferreira (2001, p. 13) apresenta cinco características básicas do desen- volvimento que o professor precisa conhecer: i) não se dá por acaso ou automaticamente. Precisa de estímulos; ii) o desenvolvimento das áreas é simultâneo; iii) se uma área fica prejudicada em seu desenvolvimento, pode prejudicar o desenvolvimento das outras; iv) o desenvolvimento se dá na interação da criança com o meio; v) a criança é autora do seu próprio desenvolvimento, mas precisa de mediador cuja principal figura é o professor. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 110 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au O lúdico como recurso pedagógico direcionado às áreas de de- senvolvimento e aprendizagem pode ser muito significativo no sentido de encorajar as crianças a tomar consciência dos conhecimentos sociais que são desenvolvidos durante o jogo, os quais podem ser usados para ajudá-las no desenvolvimento de uma compreensão positiva da socie- dade e na aquisição de habilidades. Nessa perspectiva, Cória-Sabini (2004) ressalta que é impor- tante associar os conhecimentos à cultura e ao meio social dos estudan- tes e que não podem ser utilizadas situações descontextualizadas para desafiá-los. Para a autora (2004, p. 19), Os fatores externos participam da formação das crianças ao tornarem significativos os problemas propostos pelo pro- fessor. Assim, esses problemas, em vez de serem um mero objeto a conhecer, tornam-se instrumentos de análise da própria vivência dos alunos. Nesse caso, cabe ao professor renunciar ao controle da aprendizagem, como geralmente é feito por meio de conhecimentos pontuais que acabam sendo cobrados nas avaliações. Com efeito, a construção do conhecimento por parte da criança tem sido abordada de maneira redutora, atribuindo a poucas variáveis a responsabilidade pelo processo de aprendizagem da criança. É impor- tante percebermos no aluno toda a sua singularidade, sua especificida- de, para que seja possível atender as suas necessidades específicas. É a percepção dessas especificidades que irá organizar o processo, e não um modelo universal, com uma concepção preestabelecida do processo de desenvolvimento do sujeito. É assim que o lúdico pode ser visto como um recurso facilitador da aprendizagem para as crianças. Nessa mesma linha de raciocínio os jogos podem ser aplicados como desafios cognitivos, não bastando ape- nas constatar se certas habilidades foram desenvolvidas de acordo com os objetivos propostos pelo educador, mas também adequar as propos- tas aos interesses dos alunos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 111 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a No processo de desenvolvimento infantil, a linguagem, for- ma de representação verbal, é fundamental. Referindo-se a essa área, Friedmann (1996) ressalta que, por meio da linguagem, é possível desenvolver a memória, a imaginação, o raciocínio e a criatividade. Ressaltemos ainda que a linguagem é o meio básico de comunicação social do sujeito; porém, até que a criança a desenvolva, é por meio do jogo que ela expressa seus pensamentos e sentimentos. Assim, a utilização do lúdico como recurso pedagógico direcio- nado às áreas de desenvolvimento e aprendizagem supõe que, para uma adequada intervenção pedagógica, fazem-se necessários conhecimen- tos sobre as áreas de desenvolvimento e aprendizagem, como a neuro- -sensório motora, a afetiva, a social e a da linguagem. Nessa perspectiva, Ferreira (2001, p. 15) destaca que “avaliar o perfil neurosensório-motor é perceber como está o desenvolvimento do sistema nervoso, do sistema sensorial, do sistema motor, não separada- mente, mas em sua interligação”. As áreas afetiva e social interligadas à neurosensório-motora abordam a relação da criança com o meio, destacando seus sentimen- tos em relação à família, à escola e a todos os ambientes em que está inserida. São vários os seus condicionantes, desde a cultura, o perfil socioeconômico, os valores sociais, religiosos etc. Considerando que a atualidade define relações conflituosas nas famílias, a escola muitas vezes vem a ser um palco para a expressão de sentimentos de inferiori- dade, violência, falta de diálogo, entre tantas dificuldades existentes na sociedade. A linguagem é entendida fundamentalmente como a capacida- de de comunicação; no entanto, é extremamente flexível e criativa. Mas você já parou para pensar por que os bebês não nascem falando? O ser humano é totalmente dependente ao nascer, mas apresenta alguns reflexos que são ligados à sobrevivência, como a sucção, a preensão, en- tre outros. Os bebês não nascem falando porque seus cérebros ainda não estão completamente formados. Porém, não são apenas os aspectos biológicos que proporcionam o desenvolvimento da fala, mas também Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex. A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 112 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au a interação dos pequenos com o meio. Nesse sentido, o adulto tem um papel importante nesse processo ao organizar os estímulos que serão ofertados aos bebês e às crianças pequenas na educação infantil e logo em seguida no ensino fundamental (Bassedas; Huguet; Solé, 2006). Mas a linguagem conta apenas com a fala, com a oralidade? Pare e pense Sabemos que, além da fala, o ser humano se expressa por meio de gestos, utilizando a expressão corporal e a facial. Assim, o brincar tem um papel definitivo no que diz respeito ao desenvolvimento das di- ferentes formas de linguagem, a ludicidade como um todo, não apenas por meio dos jogos e das brincadeiras, mas também por meio da música, da arte, do desenho, da escultura, da pintura, da dança etc. Nessa perspectiva, Costa (2001) destaca que a linguagem atende à vontade de saber; assim, a criança encontra o significado social da lin- guagem. Segundo a autora (2001, p. 33), “Quando descrevem, explicam, desenham ou contam coisas, quando variadas textualidades falam sobre pessoas, lugares ou práticas [...]”. 2.7 A infância, o brincar, a cultura e a subjetividade Como defino em diferentes momentos neste livro, a infância está longe de ser um tempo de brincadeira, de liberdade de movimento, de desco- bertas e de identificação de um mundo voltado às necessidades e inte- resses das crianças. A brincadeira muitas vezes expressa a versão que o adulto passa à criança e, nesse sentido, a vemos expressando gestos, falas, pensamentos do mundo adulto de forma indistinta, sem consciência. É o que se percebe na maneira como os pequenos gesticulam, dançam, imitam papéis e relações masculinas e femininas, vestem-se etc. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 113 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Qual a importância da linguagem no processo de interação social da criança com o meio em que vive? Como está sendo constituída a sua subjetividade? Pare e pense Tais questões nos remetem à reflexão de que a cultura, há déca- das, vem sendo modificada pelas relações sociais com que o sujeito se depara, impostas por ideologias dominantes advindas de uma parte do mundo, materialista, individualista e desconectada da natureza. Assim, atualmente há a cultura da magreza, a do corpo, a do trabalho, a da feminilidade e a da masculinidade. Afinal, quais conceitos e concepções se constroem com as crianças a respeito da identidade e da subjetividade? Pare e pense A resposta a essa pergunta vem da abordagem de Costa (2001), quando descreve que há uma mudança no modo de vida das pessoas comuns, na qual ocorre a inter- secção entre os aspectos da vida pública e privada. Nesse sentido, a subjetividade, característica que distingue os sujeitos na sua forma de pensar, de agir e de interpre- tar e agir sobre o meio, torna-se frágil, pois expressa muitas vezes formas de abnegação da própria identidade em nome de um sta- tus invisível. A brincadeira muitas vezes expressa a versão que o adulto passa à criança e, nesse sentido, a vemos expressando gestos, falas, pensamentos do mundo adulto de forma indistinta, sem consciência. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 114 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Assim, o brincar como forma de linguagem precisa resgatar a corporeidade e o autoconhecimento com a exploração de movimentos, espaços; precisa encontrar tempo para explorar objetos com texturas simples e naturais, para criar. Possibilitar uma prática voltada à cons- trução da identidade corporal, afetiva, motora e social não significa, po- rém, não identificar as condições atuais nas quais a criança está inserida, como a tecnologia e seus recursos, que envolvem a emancipação das necessidades cotidianas de alimentação, sono, atividades físicas, lazer, mas de perceber a contemporaneidade desses recursos em constante diálogo com o passado. Assim, a brincadeira de casinha, antes feita com objetos da pró- pria natureza e que expressavam o papel feminino de uma mãe cuida- dosa e afetiva, pode claramente dialogar com a brincadeira que utili- za objetos que representam a evolução tecnológica dos implementos utilizados na cozinha e que demonstram que aquela mãe, além das características mencionadas, também possui um papel profissional no mercado de trabalho. Nas palavras de Costa (2001, p. 44), “O sujeito urdido nas tra- mas da linguagem e da cultura é o sujeito dos tempos pós-modernos; tempos nem piores, nem melhores do que outros, tempos apenas dife- rentes, outros tempos”. Figura 2.1 – Modelo espiral de aprendizagem e desenvolvimento O educando, ao aprender, conta com a integração entre as áreas sen- sorial, cognitiva, afetiva, motora e social. O meio, a família, a escola, a sociedade, os objetos, os grupos contemplam a espiral de aprendi- zagem e desenvolvimento. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 115 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Para Macedo (1997), os conteúdos abordados no jogo estabele- cem inúmeras relações e, nesse sentido, enfatizam o aspecto da estrutu- ra, da relação, da forma sobre o conteúdo. Trabalhar com o lúdico como recurso pedagógico direcionado às áreas de desenvolvimento e aprendi- zagem desenvolve relações que fazem parte de todo o currículo escolar. Macedo (1997) destaca as relações que podem ser exploradas nos jogos com o objetivo de ensino: • Relações sociais: as jogadas apresentam diferentes combina- ções que são estimuladas no sujeito com base nas interações com o outro. • Relações espaciais: ocorrem por meio da demarcação de es- paços, que simulam ruas, cidades, distâncias, lados, posições e deslocamentos, espaço topológico. • Relações lógicas: ocorremna elaboração de estratégias e arti- culação de jogadas, evitando contradições, observação de boas e más jogadas em função das regras, das interações com o espaço e com o outro. • Relações psicológicas: são trabalhadas nas questões que envol- vem o perder ou ganhar, competir, admirar o adversário (que foi capaz de pensar melhor certa jogada), cooperação, com- petição, solidariedade, desenvolvimento da relação professor- -aluno baseada no respeito, na confiança, na aprendizagem. É o aprender com o outro; ganhar é tão possível quanto perder. • Relações matemáticas: o jogo possibilita o educando a fazer junções, separações, bijeções, associações, relações abstratas, problematizar, construir relações quantitativas ou lógicas bem como aprender a raciocinar e demonstrar, questionar o como e o porquê de determinadas respostas certas ou erradas. • Ciências físicas e naturais: jogar estimula a construção de um sistema de pesquisa, de observação, percepção dos fenômenos da vida e da natureza. Trabalha com hipóteses, testagem de variações, observação do desenvolvimento da partida, riscos, produção de conhecimento comparável ao método científico. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 116 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au • Linguagem: o jogo possui um sistema de códigos com base em suas regras e nas interações que lhes são permitidas, apon- tando as estruturas lexicais, gramaticais. Jogar é comparável a produzir um texto – é necessário interpretar para tomar de- cisões, conferir significações, atribuir um sentido aos diferen- tes momentos da partida, coordenar ataque e defesa, ordenar logicamente as jogadas. Assim como o texto, o jogo possui início, meio e fim. 2.8 o lúdico como recurso pedagógico direcionado à alfabetização e à aprendizagem das diferentes áreas do conhecimento A concepção do lúdico como um recurso pedagógico direcionado à alfabetização e à aprendizagem das diferentes áreas do conhecimento destaca-se com expressão entre as questões da prática pedagógica de professores, por estar ligada às questões do conhecimento e da aprendi- zagem. Nessa perspectiva, a ludicidade tem sido um dos temas favoritos de teóricos e pesquisadores. Friedmann (1996, p. 72), em seus estudos, analisa o jogo como meio de estimular o desenvolvimento de determi- nadas áreas ou de, igualmente, promover aprendizagens específicas. Ao encontro dessa ideia, Almeida (2004) argumenta que o sujei- to percebe que, em situações de jogo, o educando inicialmente elabora estratégias para atingir sua meta, que é superar os obstáculos (estra- tégias do adversário, movimento, regras), pois já visualiza o resultado, mesmo que simbolicamente. Assim, o raciocínio é uma das habilidades cognitivas mais de- senvolvidas no jogo. Quando antecipa o resultado e pensa sobre as ra- zões de sua vitória ou fracasso, o sujeito cria hipóteses, as quais podem contribuir para o seu processo de construção do conhecimento. É nesse contexto que o autor chama a atenção para o processo do jogo como conteúdo de aprendizagem; é nesse momento que o edu- cador deve se concentrar, e não apenas no produto final, a vitória. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 117 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Ilustração: Andre Figueiredo Muller Nesse sentido, há a necessidade de se rever a preocupação de muitos educadores com os métodos de ensino e não com o modo como o educando aprende. Desconsiderando o processo pelo qual as crianças estabelecem relações com o meio, com suas aprendizagens anteriores, com o potencial conhecimento a ser construído, as mais diversas meto- dologias podem ser ineficazes e não corresponder ao modo de aprender do sujeito. É nessa perspectiva que a abordagem de Vygotsky (1984) sobre a aprendizagem da leitura e da escrita se destaca. Para o autor, o me- lhor método para aprender a ler e a escrever é descobrir essas habilida- des durante situações de brincadeira. O autor considera que é preciso que as letras passem a tornar-se uma necessidade na vida das crianças. O jogo como recurso pedagógico favorece a relação entre o processo de constru- ção do conhecimento por parte da criança e a ação pedagógica do professor. Nesse sentido, o lúdico na ação educativa possibilita que a informação seja apresentada à criança por meio de diferentes tipos de linguagens, atenden- do aos diferentes estilos de aprendizagem. O que você espera encontrar no curso de Pedagogia? Qual relação entre a teoria e a prática você pretende construir em seus estudos? Pare e pense Em relação à mediação do processo de aprender com os jogos, Moyles (2002) aborda que é preciso que o professor auxilie os educan- dos na resolução dos problemas. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 118 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Para a autora (2002, p. 78), o adulto, o educador, tem um papel fundamental e pode: aconselhar sobre ações ou materiais, permitir a ocorrência da tentativa e erro, oferecer novos materiais, informações ou perceber quando isso é necessário, estimular o interesse e a motivação, ouvir e responder apropriadamente às ex- plicações das crianças,garantir o envolvimento de todas as crianças de acordo com suas capacidades, proporcionar um meio ambiente com recursos apropriados, oferecer feedback, elogios, conservar o senso de humor e manter a situação agradável. A propósito, Friedmann (1996, p. 17) lembra que “através do jogo a criança fornece informações, e o jogo pode ser útil para estimular o desenvolvimento integral da criança e trabalhar conteúdos curriculares”. Nesse sentido, em relação à utilização do lúdico como recurso pedagógico na alfabetização, alguns pesquisadores destacam seu emprego como metodologia, em que o jogo aparece como um recurso que favo- rece a criança como sujeito ativo na construção do conhecimento, enten- dendo-o como um processo contínuo. Embora, em contato com a educação escolar, ainda possamos perceber alguns equívocos em relação às concepções e aos recursos utiliza- dos no processo de alfabetização das crianças, as próprias leis de incentivo Atenção, professor! Cabe ao educadorconhecer a necessidade de uma nova abordagem sobre o jogo que vá além da sua prática, aproveitando a motivação lúdica para estimular ainda mais a formulação de questionamentos construtivos, reflexivos e prazerosos, criando, assim, uma gama de oportunidades no processo de ensino-aprendizagem. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 119 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a à educação têm despertado reflexões sobre a necessidade de mudanças no contexto pedagógico escolar. A educação infantil, nesse sentido, obteve um incentivo com o estabelecimento, pela Constituição Brasileira, do direito à educação a partir do nascimento. Sobre esse direito, a LDBEN construiu uma nova concepção de educação infantil, definindo com precisão sua finali- dade, segundo o art. 29: “o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, em complementação à ação da família e da comunidade”. É daí que podemos deduzir o conteúdo e a forma da educação naquela primeira fase da vida escolar da criança. A educação infantil é o primeiro nível de ensino da educação básica, seguida pelo ensino fundamental e médio e nessa perspectiva deve ter garantido o direito a uma educação de qualidade. É o que destaca o art. 27: “os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as seguintes dire- trizes: I – a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e a ordem democrática [...]”. Nesse sentido, a prática de jogos e brincadeiras nessa etapa da vida da criança pode contribuir para a formação de um sujeito crítico e construtivo, pois aquela aprende a lidar com as suas emoções, explora e descobre diferentes formas de expressão, utiliza linguagens significativas, participa de grupos, expõe e ouve ideias e, por fim, faz tudo isso em diferentes contextos que não apenas o da esfera escolar. Nesse contexto, a alfabetização como processo de ensino-apren- dizagem pode ser organizada de modo que a leitura e a escrita sejam desenvolvidas por meio de uma linguagem real, natural, significativa e vivenciada. Nas palavras de Cocco (1996, p. 13), “A criança precisa sentir a necessidade da linguagem e o seu uso no cotidiano. Assim, a assimilação do código linguístico não será uma atividade de mãos e dedos, mas sim uma atividade de pensamento, uma forma complexa de construção de relações”. A esse respeito, a autora (1996) destaca que pensar no desen- volvimento da linguagem desde a educação infantil é considerar que Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 120 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au a criança inicia sua interação com um mundo cultural e social desde pequena e que não é apenas nos anos iniciais do ensino fundamental que a alfabetização inicia. As brincadeiras já traduzem ideias concebi- das histórica e socialmente pelo mundo adulto e auxiliam os pequenos nessa transposição de significados. Nesse sentido, Cocco (1996, p. 16) destaca características do desenvolvimento da linguagem da criança de 0 a 2 anos: i) as primeiras palavras têm som, entonação, ritmo, emoção; ii) as palavras são paralelas às ações; iii) suportes iniciais da palavra: ações concretas, sonoridade, ritmo e movimento corporal; iv) toda a construção do conhecimento faz-se de corpo inteiro; v) literatura, dança, teatro, artes, cantigas de roda, dramatizações; vi) a criança dramatiza para si mesma, é o lúdico e o inventivo. Quais atividades lúdicas e brincadeiras podem auxiliar o processo de alfabetização das crianças? Pare e pense Com base na observação das características apresentadas, pode- mos propor algumas sugestões de atividades lúdicas para serem desen- volvidas com essa faixa etária: • escolher uma história, contá-la para a turma e estimular a expressão corporal da ação dos personagens e dos animais; • após essa dramatização, é interessante convidar as crianças para transmitir para o desenho o que foi visto, utilizando pa- pel bobina e diferentes lápis e tintas coloridas, o que pode ser feito individualmente ou em grupo; Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 121 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a • construir máscaras com os alunos, evidenciando diferentes expressões faciais para serem utilizadas nas dramatizações; • contar uma história utilizando a mímica para os grupos de- codificarem os gestos. Nas dramatizações, de acordo com Cocco (1996), a criança de- senvolve a capacidade de representar; assim, as expressões ocorrem de maneira mais significativa. Para a autora, a criança começa a reproduzir recursos gestuais de modo intencional e sistemático. As histórias se en- riquecem de detalhes, são feitas as primeiras articulações entre as falas das diferentes crianças, o que evidencia a expressão de jogos simbólicos. Cocco (1996, p. 20) descreve também características do desen- volvimento da linguagem da criança de 4 a 5 anos: “i) a conversa se desencadeia a partir de experiências compartilhadas pela turma; ii) a professora combina no início do dia as atividades e no final conversa sobre o que aconteceu. O vocabulário da criança é cada vez mais preci- so; iii) animais, pessoas e objetos são todos importantes”. Por meio das características abordadas pela mesma autora (1996), podemos pensar em sugestões de atividades que podem ser de- senvolvidas com essa faixa etária: • contar o início de uma história e estimular as crianças a pro- duzir o final, ou contar o final e pedir que elaborem o início; colocar impasses durante a história e utilizar nomes sugesti- vos para criar as histórias, como “João e o pé de feijão”; • relato e narração de brincadeiras, propor ao educando pla- nejar as brincadeiras anteriormente, relatar a brincadeira du- rante seu desenvolvimento e ao término; • adivinhação do pensamento, estimular o educando a criar uma situação em que os colegas tenham que adivinhar o que o professor está pensando; Para isso, o docente utilizará a mí- mica, representando com gestos– apontar com a mão, olhar para o objeto etc.; • desenhos: desenhar, criar grafismos, marcas; Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 122 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au • linguagem oral: contar uma história, descrever um fato, uma notícia de jornal; • linguagem escrita: pedir à criança que pense em algo ou es- colha um objeto na sala de aula, para que, logo em seguida, o aluno representar o objeto por meio de um desenho; • chamar várias crianças para terem o desenho e discutirem e passar para a escrita o seu significado, elaborando uma his- tória, uma música etc.; essa atividade pode ser realizada em duplas. Cocco (1996, p. 22) explica, ainda, que, “se, por um lado, so- luções e enredo são elaborados na ausência de padrões convencionais, por outro, maior articulação com a fala dos outros e maior domínio das regras de linguagem permitem a elaboração de criações coletivas”. Conforme a autora, de acordo com a fase da criança, a professora pode explorar símbolos que se coletivizam e podem ser decodificados pela turma, como as atividades lúdicas envolvendo o corpo. Para a autora (1996), nas histórias ocorrem novos desafios de linguagem, como a invenção de nomes e palavras sugestivas, não só pela composição, mas também pelo tamanho, pela entonação etc. A au- tora destaca ainda que a alfabetização é um processo gradativo, assim como o falar e o andar, e tem por objetivo propiciar aos alunos a intera- ção com a leitura e a escrita, favorecendo-lhes a construção de sua base alfabética e ortográfica por meio da compreensão e da evolução desses conhecimentos de forma prazerosa e lúdica, respeitando seu ritmo e seus interesses, sem descuidar dos conflitos cognitivos que provocam o surgimento de novos esquemas de interpretação. Com base em Forquin, citado por Kishimoto (2010, p. 6), o repertório cultural de um país, repleto de contradições, constitui a base sobre a qual a cultura escolar se constrói. Assim se expressa a autora: “os conteúdos e atividades escolares que daí decorrem, resultam no perfil da escola e, no caso brasileiro, geram especialmente Pré-Escolas desti- nadas à clientela de 4 a 6 anos dentro do modelo escolarizado”. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 123 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a A propósito, Kishimoto (2010, p. 37) concebe o brincar “como forma de desenvolver a autonomia das crianças, que requer um uso livre de brinquedos e materiais que permita a expressão dos projetos criados pelas crianças”. A autora (2008, p. 8) enfatiza também o lugar dos brinquedos no imaginário dos professores, como objetos culturais carregados de valores considerados inadequados, e resumindo a questão nos seguintes termos: Bonecas Barbies devem ser evitadas por carregar valores americanos. Bonequinhos guerreiros, armamentos e outros brinquedos, com formas bélicas, recebem o mesmo trata- mento por estarem associados à reprodução da violência. Brincadeiras de casinhas com bonecas devem restringir-se ao público feminino. Brincadeiras motoras, com carri- nhos e objetos móveis, pertencem ao domínio masculino. Crianças pobres podem receber qualquer tipo de brinquedo, porque não dispõem de nada. A pobreza justifica o brincar desprovido de materiais e a brincadeira supervisionada. Esse tipo de atitude, segundo a mesma autora (2010, p. 38), demonstra “pré-concepções relacionadas à classe social, ao gênero e à etnia, e tenta justificar o brincar nas instituições de educação infantil”. No ensino fundamental as atividades podem ampliar os signi- ficados, mas ainda é importante utilizar a ludicidade como recurso pe- dagógico. Assim, as atividades podem ser feitas como nos exemplos a seguir: • utilizando recortes de revista, é possível estimular a criança a representar com o corpo ações apresentadas nas figuras; • construir imagens com sombras com base na técnica do teatro de sombra; • fazer mímica para representar um objeto a fim de que outra criança adivinhe; Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 124 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au • estimulando a imaginação, o professor pode solicitar que as crianças contem uma história com um pano na mão e, à me- dida que o pano vai passando de mão em mão, vai se transfor- mando em diferentes formas e significados; • simbolização: o que é, o que é? Pedir a um aluno que saia da sala e apalpe um objeto real. Ao voltar para a sala, deverá dizer que objeto era utilizando desenhos, gestos ou descrições escritas; • oferecer ao educando um saquinho de papel com objetos den- tro. Ele deverá tocar com a mão um deles (sem vê-lo) e repre- sentá-los com gestos ou desenhos. Quando o objeto for iden- tificado, mostrar como é a escrita da palavra que o representa; • ler para os educandos o significado de alguns símbolos, como sinais de trânsito, bandeiras, logotipos etc.; • ler alguns índices, como nuvens e trovão indicando chuva e árvores sem folhas indicando inverno; • inventar símbolos para representar as coisas, como o nome de uma criança e um objeto da sala de aula. Observemos por fim que, mesmo apresentando inúmeras possi- bilidades no que diz respeito ao processo de ensino-aprendizagem, o jogo nem sempre se faz presente no cotidiano escolar como meio de propiciar espaços e situações de aprendizagem nos anos iniciais do en- sino fundamental. Portanto, pensar na atividade lúdica enquanto um meio educacional significa pensar no jogo não apenas pela sua prática, mas como recurso pedagógico para atingir objetivos específicos. 2.9 o lúdico como recurso pedagógico direcionado ao desenvolvimento psicomotor A concepção do lúdico como um recurso pedagógico direcionado ao desenvolvimento psicomotor surge entre os aspectos relacionados à in- teração da criança com o meio em que vive e, nesse sentido, ao conhecer Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é crim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 125 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a o perfil neurosensório-motor da criança, o educador irá perceber como está o desenvolvimento dos sistemas nervoso, sensorial e motor, con- forme já foi apontado anteriormente, não separadamente, mas em sua interligação. Tal concepção é explicitada com uma situação cotidiana ocorri- da na escola e também descrita por Ferreira (2001, p. 15): “quando [o professor] tem diante de si um aluno que corre pela sala o tempo todo e não sabe pular amarelinha, ou uma criança que vê tudo o que se passa na sala e não sabe copiar do quadro, talvez pense que não quer estudar ou fazer a atividade”. Ao observar o comportamento de uma criança nessa situação, é comum que o professor não compreenda suas atitudes diante do momento direcionado à aprendizagem. Certamente que os professores tem expectativas em relação a seus alunos. Assim, como se sentem propensos a ensinar, esperam que seus alunos estejam naquele momento ao encontro dessa proposta. Porém, a aprendizagem requer do educando habilidades que vão além da esfera cognitiva, mas tam- bém da afetiva e da motora e, nesse sentido, uma criança com dificulda- des de aprendizagem expressa corporalmente como se sente. Considerando a área psicomotora como a interligação entre corpo e mente, o comportamento motor descrito anteriormente reflete dificuldades psicomotoras envolvendo as funções de lateralidade, equi- líbrio e esquema corporal. Segundo Amorim (1994), “Para a criança na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, o espaço é o corpo vivido, desco- berto e conquistado com suas próprias vivências, sendo esta a referência básica para que ela primeiro localize a si mesma no espaço e depois aos outros”. De acordo com Tolkmitt (1993), a lateralidade se caracteriza pela habilidade de identificar partes do corpo dos lados direito e es- querdo, mas também das partes superior e inferior. Assim, a criança que tenha dificuldade nessa habilidade não tem independência de mo- vimentos da parte superior e inferior, ou seja, não consegue coordenar os movimentos de ambas as partes do corpo, o que interfere também na sua atenção e concentração durante a aula. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 126 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Nesse sentido, é esperado que a criança busque alternativas dian- te do que sabe que irá lidar, a frustração que a falta de atenção irá lhe trazer quando não conseguir se concentrar e entender o conhecimento que será apresentado a ela. As funções psicomotoras de lateralidade, equilíbrio, esquema corporal e coordenação motora são indissociáveis e quando trabalhadas integralmente por meio de jogos e brincadeiras, auxiliam a criança a primeiro perceber-se, depois o outro, os objetos, o espaço. É a imagem corporal se formando e possibilitando a interação com o meio, condição essencial para a percepção e interpretação dos diferentes estímulos que conferem o processo de ensino-aprendizagem. Nessa perspectiva, a criança que não consegue pular amarelinha, por exemplo, mesmo após vivenciar a brincadeira com orientação, pode ter dificuldade de equilíbrio e coordenação motora. Já a criança que não consegue copiar a matéria do quadro pode apresentar dificuldade em perceber figuras e fundos e discriminação visual. Tais fatores dizem respeito à aprendizagem motora. Os aspectos que compõem o movimento são definidos nos es- tudos da psicomotricidade, desenvolvidos por autores como Le Boulch (1982), que conceitua a área como o controle mental sobre a expressão motora, que objetiva obter uma organização que possa atender, de for- ma consciente e constante, às necessidades do corpo. Nessa pespectiva, o sentir, o pensar e o agir estão indissociados, pois o sujeito é uma inte- gração de todas as áreas, motora, afetiva e cognitiva. Os elementos envolvidos na psicomotricidade, de acordo com Le Boulch (1982), são: • esquema corporal; • lateralidade; • organização espacial; • organização temporal; • coordenação motora; • ritmo; • postura; • controle respiratório e relaxamento. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 127 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a A psicomotricidade contempla as áreas de orientação, coordenação, ex- pressão e comunicação. Assim, a apren- dizagem requer habilidades motoras que são fundamentais para o desen- volvimento sensorial, cognitivo, afetivo, como os da linguagem. Ampliando a reflexão sobre a relação corpo e aprendizagem, a abor- dagem de Amorim (1994) destaca o educando na escola como referencial de todas as disciplinas, como um corpo em movimento, passível de ser conhecido, conhecer-se e dominar suas estruturas corporais. A criança não conseguirá localizar-se em um espaço geográfi- co, como é solicitado pela geografia, não poderá situar-se na contemporaneidade e dialogar com o passado, como necessita a história. Terá dificuldade em exercer a sua necessária participação histórico-cultural nas ciências, na matemática, na língua portuguesa, se for um corpo fragmentado, reprimido historicamente. Essa perspectiva coloca o movimento como um dos fundamentos que compõe o processo ensino e aprendizagem. O movimento encontra nos jogos os recursos e procedimentos metodológicos para a sua execução consciente, social e histórica. O homem sempre utilizou o corpo para se expressar; o que mudou no decorrer da história é como e para quê ele utiliza o corpo. De acordo com Tolkmitt (1993), historicamente os movimentos realizados para andar, correr, pegar, arremessar, soltar, arrastar, manipu- lar, entre outros, sempre estiveram presentes na vida humana. Os ho- mens primitivos utilizavam o corpo e esses movimentos para sobreviver desde o início das civilizações. Para lutar e manter a hegemonia, na Idade Média, por exemplo, esses mesmos movimentos eram realizados nos jogos olímpicos. Atualmente, o corpo continua sendo utilizado e “Para a criança na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, o espaço é o corpo vivido, descoberto e conquistado com suas próprias vivências, sendo esta a referência básica para que ela primeiro localize a si mesma no espaço e depois aos outros” (Amorim, 1994). Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er meio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 128 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au realiza os mesmos movimentos dos homens primitivos, porém ligados ao trabalho, à locomoção nas cidades ou zonas rurais, à prática esporti- va, à dança ou apenas à busca de um copo com água na cozinha. Como podemos ver, a psicomotricidade está presente em todas as atividades humanas, sejam elas ligadas à sobrevivência, às expressões artísticas, ao trabalho ou à aprendizagem sistematizada pela escola. A figura a seguir representa as áreas de conhecimento, parte in- tegrante do currículo escolar, e os elementos que articulam seus saberes e as habilidades do educando. Figura 2.2 – A relação entre os saberes das áreas de conhecimento e os saberes do educando Música Sons Educação Física Movimento História Tempo Ciências Corpo Matemática Raciocínio Geografia Espaço Artes ExpressãoLínguas Símbolo Educando A análise da figura apresentada nos remete à reflexão sobre quais aspectos fazem parte do processo de ensino-aprendizagem e que estão presentes tanto nos conteúdos que estruturam as bases do saber esco- lar como também nas habilidades requeridas pelo educando e que lhe possibilitam a observação, orientação, percepção, interpretação, organi- zação, compreensão e o conhecimento reconstruído. Nesse sentido, retomo com você a concepção do jogo como re- curso pedagógico a que tenho referido tantas vezes neste livro. O jogo é um recurso que possibilita a construção do conhecimento porque ex- plora infinitamente diferentes tipos de linguagens, característica que atende às diferentes necessidades e aos vários interesses do educando no processo de ensino-aprendizagem. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 129 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Assim, quando o professor prepara um ambiente lúdico, ele prio- riza conceitos espaciais, sonoros, visuais, e também considera as dife- rentes formas de expressão de seus educandos ao selecionar e organizar símbolos, formas, texturas, cores, tamanhos, odores, luminosidade, lei- turas etc., supondo as interações que os educandos irão constituir ao ela- borarem diálogos, movimentos, olhares, raciocínios, estratégias e como irão organizar o pensamento para realizarem as atividades planejadas. Portanto, eu pergunto a você: Esses aspectos não são os mesmos desenvolvidos em uma estrutura de jogo? Para auxiliar você nessa reflexão, aponto algumas questões: Por que brincar para aprender? Brincando a criança se faz conhecer melhor! Ela se expressa por meio do brilho nos olhos, a transformação da expressão facial, a movimentação do corpo, a maneira como explora o espaço e como representa a sua própria história. Qual o resultado desse tipo de atividade? Com o trabalho pedagógico envolvendo a ludicidade como recurso, percebe-se que aos poucos a criança adquire autoconfiança e conhecimento de suas possibilidades e limites, aprende a cooperar nas situações de aprendizagem e sociais, transforma suas atitudes, socializa-se, o que se refere a uma excelente condição de relação com o mundo! Brincando, a criança desenvolve as áreas sensorial e motora. Brincar é um dos recursos essenciais utilizados para o desenvolvimento psicomotor. Pare e pense Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 130 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Portanto, a criança, ao brincar, interage com o meio e com o grupo, ampliando sua autoimagem positiva e constituindo sua perso- nalidade. Acrescentemos aqui o que afirma Friedmann (1996, p. 66): “a afetividade é uma constante no processo de construção do conheci- mento e é ela que, na verdade, irá influenciar o caminho da criança na escolha de seus objetivos”. Nesse sentido, o educador tem de lidar com sentimentos como amor, ódio, agressividade, medo, insegurança, tensão, alegria, triste- za, para encaminhar a criança no seu desenvolvimento. É assim que Friedmann (1996, p. 66) define o jogo como um espelho do progresso da criança quando defende a ideia de que “o jogo é uma janela da vida emocional das crianças”. Nesse sentido, a oportunidade de o indivíduo expressar seus sentimentos por meio do jogo só será possível em um ambiente que facilite a expressão, e é papel do educador proporcionar esse espaço. Ao ser estimulada à aprendizagem por meio de diferentes materiais pedagógicos ou brinquedos, a criança explora o espaço livremente e de diferentes maneiras, estabelecendo, assim, um vínculo entre o objeto e as relações que o antecedem. Isso ocorre porque os objetos utilizados na aprendizagem não possuem uma existência neutra, mas refletem o próprio processo interior do educando e do professor. Nessa concepção, estudos demonstram que os brinquedos, como objetos estruturadores do conhecimento, não trazem em seu bojo um saber pronto e acabado; ao contrário, trazem um saber em potencial, que é dinâmico e se altera de acordo com a função simbólica e imagi- nária do aluno. O brinquedo apresenta uma historicidade própria de uma cultu- ra ou época, constituindo um grande eixo de representação de conceitos para a criança, mas necessita da mediação do professor para estabelecer um diálogo com o processo de ensino-aprendizagem. Brincando, a criança expressa suas emoções. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 131 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Contudo, considerando o desenvolvimento psicomotor um as- pecto fundamental no processo de ensino-aprendizagem, a prática pe- dagógica do lúdico tem nos jogos a possibilidade de estimular, além das potencialidades cognitivas e linguísticas do educando, as afetivas, motoras e sociais, constituindo, assim, umaampla possibilidade de pro- mover a formação integral do sujeito. síntese • As brincadeiras de faz de conta desenvolvem o controle emo- cional da criança. O resultado desse tipo de atividade é que a criança vai adquirir autoconfiança e melhor conhecimento de suas possibilidades e limites. • Na brincadeira, a imaginação propicia a vivência e troca de papéis e, assim, a criança cria e recria sua vida à sua maneira. • No brinquedo não há um sistema de regras para sua utilização. • Os estudos de Piaget (1976) sobre desenvolvimento e apren- dizagem destacam a importância do caráter construtivo do jogo no desenvolvimento cognitivo da criança. Para o autor, existem quatro formas básicas de atividade lúdica e que ca- racterizam a evolução do jogo para a criança, de acordo com a fase do desenvolvimento em que aparecem. Nessa perspec- tiva, o autor descreve que o jogo contribui para o desenvolvi- mento cognitivo da criança. • Para Vygotsky (1984), o jogo é considerado um estímulo à criança no desenvolvimento de processos internos de cons- trução do conhecimento e no âmbito das relações com os outros. Para o autor, a atividade lúdica possui regras e uma situação imaginária. Nesse sentido, destaca que o jogo é fun- damental para o desenvolvimento cognitivo, pois o processo de vivenciar situações imaginárias leva a criança ao desenvol- vimento do pensamento abstrato. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 132 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au • Os espaços e o tempo para os jogos precisam permitir às crianças possibilidades diferentes nos seus movimentos. • Os conteúdos abordados no jogo estabelecem relações com o conteúdo. Trabalhar com o lúdico como recurso pedagógico direcionado às áreas de desenvolvimento e aprendizagem de- senvolve relações que fazem parte de todo o currículo escolar. • Brincando, a criança aprende e tem um desenvolvimento in- tegral das áreas motora, afetiva e cognitiva. indicações culturais CRE Mario Covas – Centro de Referência em Educação. Disponível em: <http://www.crmariocovas.sp.gov.br>. Acesso em: 11 mar. 2010. Esse site traz sugestões de jogos e brincadeiras que podem ser desenvolvidos no ensino fundamental. HORN, M. G. S. Sabores, cores, sons e aromas: a organização dos espaços na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2004. A autora descreve com clareza a organização dos espaços na educação infantil. SMOLE, K.; DINIZ, M. I.; CÂNDIDO, P. Brincadeiras infantis nas aulas de matemática. Porto Alegre: Artmed, 2000. Essa obra traz jogos divertidos para serem desenvolvidos nas aulas de matemática. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 133 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Atividades de autoavaliação 1. Foi comentado que é necessário ampliar a concepção de jogo como um momento de competição, em que se privilegiam as regras como determinantes da ação da criança, sem esquecer que a imaginação é um elemento indispensável no contexto do jogo infantil. Sendo as regras uma característica básica do jogo, como pode o professor lidar com elas para atender às necessidades da criança? a) O jogo se inicia com as regras; porém, se não atenderem às ne- cessidades e aos interesses do grupo, elas podem ser repensadas e modificadas para que se constituam em elementos de união e não de segregação. b) O professor ensina as regras às crianças e define sua ação peda- gógica de maneira que elas as acatem e não queiram modificá-las. c) Mesmo considerando a ideia de união, o professor pode insistir nas regras que o jogo impõe, pois, assim, estará desenvolvendo noções de limite com as crianças. d) Não haverá segregação se o aluno ficar fora da brincadeira caso não consiga acatar as regras definidas no jogo. 2. Na brincadeira, o elemento que aparece inicialmente é a imaginação, a ação livre e espontânea da criança, a presença da representação de seu cotidiano, mas o que isso significa para o desenvolvimento e a aprendizagem infantil? I. Na brincadeira, a criança expressa as relações sociais em que está envolvida, vivencia e troca de papéis, posições, faz acordos, em uma tentativa de organizar a ação lúdica. II. Kishimoto (2008) define que o brinquedo supõe uma relação íntima com a criança, em que não há um sistema de regras para sua utilização, estimulando, assim, a imaginação. III. Uma boneca permite à criança brincar de várias formas. O brin- quedo estimula a representação e a expressão de imagens que evocam aspectos da realidade. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 134 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au IV. Quando a criança brinca, ela representa papéis que não são do seu cotidiano; assim, o brinquedo não representa um estímulo à imaginação. Estão corretas as alternativas: a) I e IV. b) I e III. c) I e II. d) I, II e III. 3. Estudos no campo dos jogos definem que cada um pode entendê- -los de modo diferente. Podemos encontrar na literatura específica da área três níveis de diferenciação, segundo Brougère, citado por Kishimoto (2008): I. O primeiro nível revela o jogo como um resultado de um sis- tema linguístico que funciona dentro de um contexto social e denota o sentido que cada sociedade lhe atribui. II. Um segundo sentido coloca o jogo como um sistema de regras, o que seria a característica principal da atividade, pois as regras de um jogo o diferenciam de outros tipos de jogos, como jogar caçador ou bola ao túnel. O objeto bola é o mesmo, mas o siste- ma de regras define o que fazer, o espaço, as relações etc. III. Para tratar do terceiro sentido, Kishimoto (2008) destaca o ob- jeto que é o suporte do jogo. Por meio do objeto, o jogo poten- cializa a ação lúdica da criança, podendo-se estabelecer o jogo como um recurso pedagógico ou como recreação. IV. Como terceiro sentido, os jogos, os brinquedos e as brincadeiras com fins pedagógicos não se constituem em elementos relevan- tes como recursos pedagógicos para situações de ensino e apren- dizagem e de desenvolvimento infantil. Estão corretas as alternativas: a) I e IV. b) I e III. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s erre pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 135 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a c) I, II e III. d) I e II. 4. O lúdico como recurso pedagógico pode ser direcionado para: a) O diagnóstico do processo de aprendizagem infantil. b) As áreas de desenvolvimento e aprendizagem. c) O desenvolvimento psicomotor. Relacionando esses aspectos com os conceitos apresentados, pode- mos afirmar que: )( Os estudiosos da área definem a concepção do lúdico como diagnóstico como uma maneira de o professor perceber seu alu- no em uma perspectiva cognitiva, afetiva, psicomotora e social. )( Em relação às áreas de desenvolvimento e aprendizagem, os es- tudos de Ferreira (2001) apontam que toda criança tem caracte- rísticas próprias e o professor não pode esquecer que estas são as portas de entrada de seu desenvolvimento. Essas características são identificadas nas áreas cognitiva, afetiva, social, linguística e psicomotora. )( A concepção do lúdico como recurso pedagógico surge entre os aspectos relacionados à interação da criança com o meio em que vive e, nesse sentido, ao conhecer o perfil neurosensório-motor da criança, o educador irá perceber como está o desenvolvimen- to dos sistemas nervoso, sensorial e motor, não separadamente, mas em sua interligação. As alternativas que correspondem respectivamente ao lúdico como recurso pedagógico e sua concepção são: a) a, b e c. b) a, c e b. c) b, a e c. d) c, b e a. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 136 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au 5. Assinale (F) quando a afirmação for falsa e (V) quando for verda- deira em relação ao texto a seguir. A afetividade está presente no processo de construção do conheci- mento da criança e, nesse sentido, influencia a trajetória do indiví- duo na construção de seus objetivos. Assim, o brincar auxilia nessa trajetória quando: )( a criança, ao brincar, interage com o meio e com o grupo, am- pliando sua autoimagem positiva e favorecendo a construção de sua personalidade. )( a criança tem a possibilidade de expressar seus sentimentos por meio do jogo, e para isso o educador pode aproveitar qualquer espaço e tipo de brinquedo. )( ao ser apresentada a um material pedagógico ou brinquedo, a criança o explora livremente e de diferentes maneiras, estabele- cendo um vínculo entre o objeto e as relações que o antecedem. )( os objetos utilizados na aprendizagem são selecionados pelo professor e não refletem o próprio processo interior do educando. )( no jogo de faz de conta, a criança fantasia sempre as situa- ções que lhe são mais agradáveis, e o educador não tem de lidar com sentimentos como ódio, agressividade, medo, inse- gurança, tensão ou tristeza, para encaminhar a criança no seu desenvolvimento. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 137 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Atividades de aprendizagem Questões para reflexão 1. Releia o trecho do segundo capítulo em que refletimos sobre o espa- ço e o tempo dedicados atualmente ao brincar espontâneo na escola. Miranda (1984) enfatiza a observação das crianças durante o jogo, des- tacando a utilização de um método objetivo de estudo psicológico, ou seja, uma observação sobre os movimentos, a socialização, a interpre- tação da criança, suas preferências, seus interesses e seu entusiasmo. Segundo o autor, a criança, nesse momento, está despreocupada, livre, e seu comportamento e suas aptidões são espontâneos. Ela está ex- pressando sua personalidade, que é um dos melhores elementos para propiciar a realização de um estudo completo. As informações obtidas com base na análise do jogo espontâneo permitem definir, por meio de uma escolha criteriosa, os jogos mais apropriados a cada grupo. Reflita sobre: a) a postura pessoal do professor frente a situações de jogos espon- tâneos nos quais as crianças expressam suas emoções; b) a possibilidade de o professor, mesmo que a brincadeira seja es- pontânea, perceber situações organizadas que expressam o coti- diano da criança. 2. Releia o trecho do capítulo em que refletimos sobre a relação do brincar com as áreas de conhecimento: A criança não conseguirá localizar-se em um espaço geográfico, como é solicitado pela geografia, não poderá situar-se na contemporaneidade e dialogar com o passado, como necessita a história,; ela terá dificuldade em exercer a sua necessária participação histórico-cultural nas ciências, na matemática, na língua portuguesa, se for um corpo fragmentado, reprimido historicamente. Reflita sobre como o brincar e o movimento podem auxiliar na for- mação de conceitos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 138 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Atividades aplicadas: prática Atividade 1 Procedimentos: 1. Escolha, em grupo, uma das concepções de lúdico como recurso pedagógico comentada no capítulo 2. A equipe deve ser formada com mais quatro colegas. Nessa etapa, observe os seguintes passos: a) em conjunto, elaborar um jogo que exemplifique a concepção escolhida. As regras a serem seguidas e os materiais a serem em- pregados no jogo devem ser registrados por escrito. Se houver materiais como brinquedos, a equipe deve construí-los; b) definir o ano do ensino fundamental para o qual o grupo indica o jogo; c) estabelecer os objetivos a serem alcançados; d) nomear o jogo e descrever o seu desenvolvimento, citando o es- paço, o ambiente, os recursos e as possibilidades de interação entre as crianças; e) escrever as ideias e as dúvidas que cada integrante do grupo tiver sobre o tema; f ) definir, em conjunto,quais os pontos que cada um vai pesquisar (dividir as tarefas para cada membro da equipe); g) estabelecer um horário para se reunirem e apresentar os resul- tados da pesquisa individual e da tarefa de cada um, quando também deve ser realizada a integração das tarefas. Elaboração da apresentação: 2. A equipe deve elaborar a apresentação em conjunto, integrando os materiais e os textos produzidos e escolhendo os meios (texto im- presso ou retroprojetor) e o material a ser utilizado na apresentação. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 139 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a 3. Apresentação Nessa fase final, é necessário: a) apresentar às demais equipes o trabalho; b) solicitar aos colegas que façam uma avaliação oral e por escrito do trabalho, indicando seus limites e pontos positivos; c) organizar e integrar os textos (escrito, sonoro e visual). Atividade 2 Redação do relatório sobre o planejamento e a elaboração da apresen- tação com multimeios. Com base no trabalho realizado, elabore um relatório descre- vendo como foi desenvolvida a metodologia do trabalho, percebendo principalmente os conceitos que foi formando ou ampliando. Faça um painel em uma folha-sulfite com os conceitos elaborados e anexo ao relatório. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. O estudo deste capítulo objetiva identificar as concepções sobre a ludi- cidade que estão imersas nas classificações dos jogos, acreditando que a partir do momento que o educador vier a propor a ludicidade como prática pedagógica, ele necessita recorrer à leitura aprofundada dos tex- tos e das contribuições dos pesquisadores e estudiosos da área lúdica e da educação. Nessa perspectiva, é bom lembrarmos que a pedagogia encontra seus saberes alicerçados nos conhecimentos das áreas social, psicológica e filosófica, que também fazem parte do estudo da ludici- dade, embora não estejam citados abertamente. Nesse sentido, é impor- tante que o futuro educador saiba que todo autor que escreve sobre uma área já traz consigo um universo de leituras e opções científicas, e que constituem a sua identidade. Assim, a leitura deste capítulo requer a reflexão sobre como es- colher os jogos e as brincadeiras para os educandos de acordo com suas necessidades e interesses, pois, com base nas escolhas, o educador deve refletir sobre a atitude pedagógica como uma estratégia constante na prática do educador comprometido com a educação. Inicialmente, retomaremos e ampliaremos algumas reflexões so- bre as concepções teóricas que circundam a ludicidade e, em seguida, apresentaremos as classificações dos jogos, conceituando, identifican- do objetivos e a aplicabilidade destes na educação. Ao final de cada 3 A LudicidAde pArA ALém dA práticA nA escoLA: umA Questão de Atitude Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 142 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au classificação organizaremos a síntese das características de cada tipo de jogo e a oferta de algumas sugestões de jogos com seus respectivos autores e obras a serem pesquisadas. A rotina educacional na sala de aula é tão diversificada que o educador precisa dar voltas ao redor do mundo em apenas um dia para identificar e significar as abstrações dos educandos nos momentos de ensino e aprendizagem. Nesse sentido, as contribuições de Moyles (2002) sobre o jogo apontam alguns aspectos a serem considerados em relação à qualidade do ensino e da aprendizagem, que serão interpreta- dos à luz de uma concepção educacional voltada à realidade brasileira, conforme a orientação da LBDEN nº 9.394/1996: • o envolvimento ativo das crianças nos aspectos motores e cognitivos; • objetivos claros e relacionados às experiências de vida dos educandos; • o planejamento elaborado com base em um currículo amplo, equilibrado e diferenciado; • planejamentos que considerem o desenvolvimento da auto- nomia dos educandos; • o brincar como prática que possibilite a resolução de problemas; • a aprendizagem de conteúdos de forma crítica e reflexiva, de maneira que proporcione aos educandos atitudes de coope- ração, respeito à diversidade e à concentração. As palavras de Moyles (2002, p. 100), ao identificar aspectos do que poderia ser chamado de currículo lúdico, vêm ao encontro da ideia a que pretendo que o leitor, futuro professor, reflita ao construir uma atitude pedagógica, ao utilizar o lúdico como recurso pedagógico: “[...] o brincar é um processo que proporciona um modo de aprendizagem e resulta em comportamentos lúdicos”. Nessa perspectiva, os estudos sobre a atividade lúdica no con- texto educacional apontam o jogo como um recurso pedagógico que possibilita o desenvolvimento de determinadas áreas e a promoção de Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 143 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a aprendizagens específicas. A concepção de Vygotsky (1984) sobre o jogo infantil, nesse sentido, atesta que, na situação de brincadeira, a criança imita papéis exercidos pelos adultos e ensaia futuros papéis e valores. Para o autor, ao brincar, a criança começa a desenvolver amo- tivação, as habilidades e as atitudes que serão necessárias para a sua participação social. Novamente buscando o referencial teórico de Moyles (2002, p. 100) sobre o brincar e a aprendizagem, a autora aponta que “o brincar é um processo e não um assunto, é dentro dos assuntos que devemos ver o brincar como um meio de ensinar e aprender e não como uma entidade separada”. Nessa perspectiva, Cória-Sabini (2004) destaca que, na prática dos jogos na escola, as crianças criam e estabilizam seus conhecimentos sobre o mundo. Contudo, essas situações não podem ser confundidas com aquelas em que os jogos são uti- lizados para ensinar. Mesmo sendo a brincadeira uma atividade espontânea da criança, existe uma diferença entre a situação de jogo que é elaborada por ela e o jogo com finalidades pedagógicas. O jogo como recurso pedagógico im- plica planejamento e previsão de etapas por parte do professor, para alcançar objetivos predeterminados. Quando se possibilita o diálogo sobre a prática dos professores, percebe- mos que estes estão abertos à necessária e séria busca de conhecimento sobre a importância do lúdico no desenvol- vimento e na aprendizagem infantil. Entretanto, no que se refere à formação lúdica na trajetória acadêmica, pouco se percebe tal discussão. Nesse sentido, ao brincar em situação escolar, a criança pode amadurecer, porém as brincadeiras precisam ser cuidadosamente elaboradas pelo professor. As situações promovidas por meio das brincadeiras precisam ser discutidas, analisadas e trabalhadas pelo professor para que possam propiciar a formação de conceitos específicos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 144 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Essa perspectiva também é abordada por Moyles (2002, p. 100), quando a autora destaca que “a maioria dos professores diz que considera va- lioso o brincar e que ele tem um lugar na sala de aula, mas a maioria também indica implicitamente, por suas atitu- des, que este lugar não é tão importan- te, sendo secundário às atividades que eles dirigem e supervisionam”. Seria importante então que você questionasse quais são os obs- táculos que os docentes enfrentam, não somente em relação à lacuna existente em sua formação quanto ao lúdico, mas também no que diz respeito às iniciativas práticas com a ludicidade em sala de aula. Para esclarecer melhor a você, aponto o conteúdo de diálogos entre professores de educação infantil e anos iniciais do ensino fun- damental de diferentes regiões do país interessados no processo de ensino-aprendizagem dos educandos, a quem tive o privilégio de co- nhecer. Quando em trocas de múltiplas experiências, a maioria relata que suas práticas com o lúdico como recurso pedagógico se esgotam quando enfrenta desafios como a interação das crianças, dos objetos e do espaço. Muitos relatam ter dificuldades com o comportamento das crianças que expressam ansiedade, competição exagerada, pouca reflexão sobre as regras, agitação motora etc. Identificar as atitudes das crianças e não saber como lidar evidencia a concepção de que trazer o jogo para a escola é simplesmente brincar, divertir-se, passar o tempo sem conflitos e, nesse sentido, praticá-lo considerando que rigidamente tem início, meio e fim e a atitude dos alunos deve corresponder a esse processo. Para refletir sobre o brincar como um recurso que evoca confli- tos cognitivos e afetivos, é necessário propormos questionamentos so- bre as diferentes metodologias utilizadas em sala de aula. Como exem- plo, vamos pensar em uma aula de matemática na qual se trabalha com o conteúdo “as operações”. O jogo como recurso pedagógico implica planejamento e previsão de etapas por parte do professor para alcançar objetivos predeterminados. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 145 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Quando o professor explica o conteúdo, aponta recursos para entendimento dos conceitos e abstrações necessárias, realiza questionamentos e exercícios, todos os educandos sempre entendem tudo facilmente? Pare e pense Se você lembrou do seu tempo escolar e reviu cenas que envol- viam dificuldades, frustrações, medo e ansiedade, provavelmente você respondeu que “não”; nem sempre todos os alunos aprendem mate- mática facilmente. Alguns têm dificuldades, como raciocínio lógico, atenção, classificação, seriação, interpretação, entre tantos aspectos que envolvem a aprendizagem da área. Sempre que se fala de matemática ou outra área de conheci- mento é comum considerarmos normal a existência de dificuldades, pois aprender exige representações mentais e corporais nitidamente complexas. O jogo também evoca as áreas cognitiva, social, motora e afetiva e, nessa perspectiva, também evoca dificuldades. É natural que os edu- candos precisem de tempo suficiente, de recursos e metodologias diver- sificadas que deem conta de explicitar o conteúdo de diversas maneiras para que enfim possam aprender; ou seja, a aprendizagem de operações matemáticas não ocorre em um espaço de tempo limitado, como o de uma ou duas aulas. Nesse sentido, aponto a você a necessidade de repensar o pro- cesso de desenvolvimento e aprendizagem dos educandos, pois seja qual for a aprendizagem a ser construída, haverá a presença de conflitos mais subjetivos, como os afetivos, que não podem ser lidos explicita- mente e que certamente surgem na aula de matemática com ou sem a ludicidade como recurso pedagógico. Nessa perspectiva, é preciso refletirmos que na prática lúdica os alunos não estabelecem relações com a aprendizagem de maneira Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 146 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au sincronizada, como um jogo é pro- posto, tendo início, meio e fim, sem considerar o processo. Contudo, de- verá haver a reflexão e a construção do conhecimento sobre a ludicida- de dos futuros professores em rela- ção ao jogo como um dos recursos que facilitam a ação pedagógica e o processo de ensino-aprendizagem, passível de estudos, análises, pro- blematizações, sínteses, objetivos e avaliações sistemáticas quanto à sua apropriaçãona escola. Seguindo o aporte teórico desta obra, apresentamos, conforme a concepção proposta por Kishimoto (1994, 2008) e Friedmann (1996), uma classificação dos jo- gos que os agrupa em seis categorias: jogos educativos, jogos de regras, jogos recreativos, jogos tradicionais, jogos cooperativos e dinâmicas de grupo. 3.1 Jogos educativos A ludicidade é construída histórica e socialmente; assim, Kishimoto (2008) define o jogo educativo como recurso pedagógico ligado à pro- dução do conhecimento, por estar carregado de conteúdos culturais e pelo fato de que os sujeitos tomam contato com ele por meio de conhe- cimentos construídos nas relações entre os sujeitos. Para que ocorra o entendimento sobre o jogo educativo, faremos a exposição do conteúdo à luz da teoria proposta por Kishimoto (2008). A autora destaca duas facetas do jogo educativo. A primeira refere-se à função lúdica do jogo, que ocorre quando o brinquedo propicia di- versão, prazer e até desprazer, ao ser escolhido pela criança; a segunda A atitude pedagógica do professor ao trabalhar com a ludicidade deve considerar o processo de aprender e seus condicionantes, como tempo, ritmo, recursos, interações, objetivos, estratégias diversificadas e flexíveis e avaliação diagnóstica. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 147 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a faceta refere-se ao jogo em sua função educativa, em que o brinquedo ensina qualquer coisa que faça parte do sujeito em seu saber, seus co- nhecimentos e sua apreensão de mundo. Historicamente, as pesquisas desenvolvidas por Kishimoto (2008) apontam que o jogo educativo ressurgiu na época do Renascimento e amadureceu a partir da expansão da educação infantil, principalmente no século XX. O jogo é entendido como um recurso que desenvolve e ensina de forma prazerosa. Tal concepção levou a uma maior atenção ao desenvolvimento infantil e à materialização da função psicopedagógica. Segundo a mesma autora (2008, p. 36), “O uso do brinquedo/jogo edu- cativo com fins pedagógicos remete-nos para a relevância desse instru- mento para situações de ensino e aprendizagem e de desenvolvimento infantil”. Em seus estudos, a autora (2008) considera que a criança apren- de com as explorações e relações que faz com os objetos e o meio em que vive; ela adquire noções espontâneas em processos interativos, nas quais existe integração total entre as áreas cognitiva, afetiva, corporal e social. Assim, o brinquedo ganha um papel relevante nesse processo. Nas palavras de Kishimoto (2008, p. 36), Ao permitir a ação intencional (afetividade), a construção de representações mentais (cognição), a manipulação de objetos e o desempenho de ações sensório-motoras (físico) e as trocas nas interações (social), o jogo contempla várias formas de representação da criança ou suas múltiplas inte- ligências, contribuindo para a aprendizagem e o desenvol- vimento infantil. Desse ponto de vista, situações lúdicas elaboradas pelos adultos com o objetivo de estimular aprendizagens específicas caracterizam a dimensão educativa do jogo, que atende às necessidades e potenciali- dades da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental. Desde que o educador mantenha as condições específicas do jogo para Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 148 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au a criança e sua ação intencional para brincar, o jogo potencializa as situações de aprendizagem. Kishimoto (2008) comenta ainda que, apesar da riqueza de oportunidades de aprendizagem que as brincadeiras propiciam, o pro- fessor nem sempre tem a certeza de que a construção do conhecimento produzida pela criança corresponderá às suas expectativas. Assim, ele pode assumir a função de mediador, intervindo para conduzir o pensa- mento dos alunos à consecução dos objetivos propostos. Nessa perspectiva, para Kishimoto (2008), na prática do jogo educativo o educando participa para brincar; assim, o educador deve ter objetivos claros e não perder de vista a mediação no processo. Atualmente, pesquisas têm evidenciado que, mesmo nos primei- ros anos de vida, a criança explora o mundo que a cerca com os olhos e as mãos, aperfeiçoando-se e tornando-se um ser livre e independente. A criança é um ser ativo que deseja participar de todos os fatos que ocorrem, considerando-se, em fases distintas, como o centro do univer- so. Tudo que pode despertar a imaginação na criança, inclusive brin- quedos e jogos, contribuem para extravasar sentimentos, desenvolver a área motora, propiciar desenvolvimento mental, adaptação social etc. A esse respeito, Braz (1998) também entende que a categoria dos jogos educativos contempla atividades que auxiliam a criança a interpretar o significado dos estímulos orais, visuais, táteis, auditivos, corporais, de coordenação, entre outros. Por meio da vivência desses jogos, as crianças tomam consciência do seu corpo, da forma como se movem, da sua posição no espaço e das relações entre si e o meio ambiente. Assim, Dal’lin, citado por Braz (1998, p. 32), expressa: “A integração da criança ao seu meio depende do estímulo adequado das atividades perceptivas, bem como o desenvolvimento das aptidões físi- cas que lhe permitirão executar habilidades motoras, das mais simples às mais complexas”. Ao apontar as atividades que visam aos objetivos perceptivo- motores, Braz (1998) observa que elas envolvem a estruturação do es- quema corporal, levando à conscientização do corpo, de suas partes, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 149 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a movimentos, postura, lateralidade dominante e percepção das relações espaciais. Essas atividades visam ainda à estruturação de espaço por meio do domínio de conceitos topológicos (dentro/fora, em cima/em- baixo, adiante/atrás, distância, altura), por meio do seu corpo, mas tam- bém por representações, imitações, simulações, percepção das relações temporais, objetivando à ordenação temporal. Essa abordagem do jogo permite a exploração e a construção do conhecimentopor utilizar a motivação interna do sujeito, mas, ainda assim, o trabalho pedagógico necessita de outros estímulos externos, a influência de parceiros e a sistematização de conceitos em situações que não comportam o lúdico. Portanto, o jogo é um dos recursos que favorecem a construção do conhecimento para educandos na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental por contemplar diferentes tipos de linguagem, mas requer conhecimento e domínio por parte do educador que o utilizar em sua prática pedagógica. Sugestões de jogos educativosd: • o cachorro e o osso; • carga elétrica; • guiando um cego; • dança das dobradiças; • explorando possibilidades de movimento; • o mágico; • percurso das formas; • as cores; • o nosso corpo; • a estátua dançante; • o triângulo. da O desenvolvimento desses jogos pode ser encontrado no livro de Almeida (2004) e de Braz (1998), cuja referência completa encontra-se no final desta obra. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 150 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au 3.2 Jogos de regras Os jogos de regras se relacionam à construção de limites por parte da criança e seu contexto social e educativo. Atualmente, uma das ex- pectativas frustradas do professor em sala de aula é justamente que os educandos se comportem de acordo com as atitudes eleitas como ade- quadas ao momento de aprendizagem. Entre elas estão a atenção e con- centração nos momentos de explicações orais, a postura anatômica ao sentar nas cadeiras, o diálogo construtivo nos momentos de interação com o professor e colegas, a assiduidade, a limpeza e estética pessoal e dos materiais utilizados, a pontualidade, atitudes de respeito a si, aos colegas e aos profissionais que estão envolvidos no processo de ensino- -aprendizagem, cooperação, reflexão e criticidade etc. Como formar cidadãos de direitos e deveres, conscientes de seu papel na sociedade, críticos para com as relações de sociedade, de poder, de cuidados com a infância, com o meio ambiente, com os idosos? Como possibilitar a consciência das regras como elementos importantes nas relações sociais, sem ser autoritário, estimulando a criatividade, a autoestima e a autonomia? Pare e pense A busca por métodos que não apenas reproduzam as normas de conduta, mas que possibilitem a sua construção de forma crítica, está cada vez mais na lista de prioridades do professor. No entanto, o que percebemos é que os educadores estão em uma corda bamba: se tentam o diálogo, o entendimento das razões afetivas para a indisciplina dos alunos, muitas vezes são vistos como os professores bonzinhos; porém, também como aqueles que não conseguem fazer o aluno comprometer- -se com o estudo. Outras vezes, se são extremamente rígidos, os docen- tes apresentam uma postura inflexível em relação às regras estabelecidas. Lidar com a indisciplina na escola é uma situação difícil e qua- se todos os educadores irão enfrentar algumas vivências delicadas com Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 151 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a seus alunos. Ao que se refere ao conteúdo deste livro, cabe a apresen- tação dos jogos de regras como um dos recursos que possibilitam a construção de comportamentos cooperativos, legais e de respeito a si, ao outro e ao meio. Estudos e pesquisas realizados na última década no Brasil têm demonstrado a importância desse tipo de jogo no desenvolvimento dos processos cognitivos, afetivos e sociais dos educandos, além do desen- volvimento motor. Macedo (2000) faz uma análise do jogo de regras à luz da teoria de Piaget e, nessa perspectiva, descreve como a prática dos jogos de regra pode contribuir para o presente e o futuro dos educandos. Conforme apontado no capítulo anterior, na apresentação sobre o lúdico como recurso direcionado à recreação e ao lazer, a aborda- gem de Macedo (2000) destaca que “todo jogo contém uma situação- -problema (objetivo) que poderá ser solucionada ou não pelo sujeito (resultado do jogo), devendo este obedecer a um sistema de regras que determinam os limites de sua ação”. A perspectiva do autor (2000) irá fundamentar a importância das regras para as crianças na educação in- fantil e anos iniciais do ensino fundamental com base na prática do jogo no contexto educativo. Nesse sentido, é fundamental refletirmos inicialmente sobre a importância do jogo no presente da criança. Como é a criança de hoje? Quais são as suas expectativas familiares, sociais e escolares? Pare e pense Durante anos, desenvolvemos o trabalho com jogos para a edu- cação infantil, para o ensino fundamental e também para o ensino médio. Gosto de observar as crianças também em situações cotidianas, como nas ruas, praças, parques, ônibus urbanos e rurais, shoppings, ou seja, em diferentes contextos. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 152 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Assim, podemos observar claramente como são suas reações, curiosidades, medos, ansiedades e tudo o que possa se relacionar à ma- neira como veem o mundo. As características mais observadas: • desenvolvem-se intelectual, afetiva e socialmente de forma precoce; • desenvolvem a aprendizagem para poder sobreviver, fazem um esforço para se adaptarem ao meio como necessidade vital; • são curiosas, gostam da tecnologia atual, exploram seus recur- sos naturalmente; • são ansiosas, inseguras e por isso às vezes são agressivas verbal e corporalmente; • têm seu tempo ocupado por inúmeras atividades; • têm seu tempo livre desprovido de brincadeiras com o acom- panhamento dos adultos; • gostam de atividades que envolvem o corpo, como dança, brincadeiras com obstáculos, jogos com bola; • divertem-se na prática lúdica espontânea. Por que as crianças atualmente apresentam essas características? Pare e pense As condições de vida das crianças seguem naturalmente as de seus familiares, que possuem diferentes condições socioeconômicas e necessidades, mas mesmo com diferentes contextos seus filhos desde cedo são colocados nas creches e em pré-escolas. Aprendem a lidar com o outro, explorando interações,o espaço, dividindo ou cedendo brinquedos e realizando as suas atividades cotidianas em grupo. Nas ruas, muitas vezes essas crianças, mesmo ainda pequenas para assumir responsabilidades de autocuidado, também são responsá- veis pela segurança de seus irmãos menores. Encontramos essas cenas Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 153 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a em ônibus, supermercados, parques etc. Quando em brincadeiras es- pontâneas, são menos medrosas e exploram o espaço corporalmente, subindo em árvores, grades, pendurando-se em cordas, brincando com água, entre outras ações. Nas brincadeiras dirigidas, na escola, encon- tram dificuldades em relação às regras que envolvem o individual e o coletivo, necessitando de mais tempo para aproximarem-se de uma prática organizada. Têm menos acesso a livros, recursos tecnológicos, como os computadores, as viagens e as visitas a espaços culturais, como museus, teatros e cinemas. Já as crianças que possuem familiares com maior poder aqui- sitivo descrevem situações diferentes em alguns aspectos. Também ocupam espaços escolares cedo, porém em menor número. Recebem alimentação e cuidado com segurança e higiene tão adequadas quanto às crianças em instituições públicas de educação infantil, já que o cui- dar historicamente antecede o binômio “cuidar e educar”. O estímulo pedagógico nem sempre se apoia nas brincadeiras para a aprendiza- gem, estando muitas vezes voltado aos recursos de uma escolarização preocupada em atender às expectativas dos pais. Em suas palavras: “Quando o meu filho vai aprender a ler?”. Essas crianças recebem es- tímulos culturais também pela família, por meio de idas ao teatro, ao cinema, acesso à informática, a jogos eletrônicos, mas continuam sem o acompanhamento afetivo dos pais. Têm atividades diversificadas, como dança, artes marciais, natação, estudo das línguas estrangeiras, mas o objetivo dos pais, em sua maioria, é ocupar o seu tempo e prepará-los para o mundo do trabalho. Já pensamos muitas vezes que devemos ir além da crítica ao que vem se observando em relação às necessidades dessas crianças, procu- rando alternativas metodológicas que vão ao encontro de suas dificul- dades e potencialidades. O que os jogos podem fazer para o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças atualmente? Pare e pense Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 154 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au De acordo com a abordagem de Macedo (2000), os jogos são um momento de folga no esforço adaptativo, pois é uma alternativa importante na perspectiva social, cultural e antropológica do ser huma- no. Tendo como exemplo que, quando o homem aprendeu a amansar o cavalo, pôde locomover-se mais rápido, o autor aponta a folga como economia de tempo. Nesse sentido, o homem pode realizar melhor as tarefas. O autor (2000) aponta o jogo para a aprendizagem na perspecti- va piagetiana, focando as fases lúdicas da criança e sua relação com o desenvolvimento e a aprendizagem. Macedo (2000) analisou a teoria de Piaget (1976), que define os jogos em quatro fases: o jogo de exercício sensório-motor, o jogo simbólico, o jogo de regras e o jogo de construção. A seguir, Macedo (2000) aponta as principais características desses jogos para as crianças. > Jogo de exercício sensório-motor A finalidade desse tipo de jogo é o prazer funcional e pode dar-se como exemplo o bebê, que joga objetos no chão para que seu irmão maior pegue e devolva várias vezes ou acende e apaga a luz pelo prazer de realizar o movimento. Esses tipos de jogos reaparecem após os 2 anos de idade, durante a infância e mesmo na fase adulta. Aos 5 ou 6 anos é comum percebermos uma criança pular com um pé só ou tentar saltar dois ou mais degraus da escada, e aos 10 ou 12 anos tentar andar de bicicleta sem segurar no guidão. Macedo (2000) aponta o prazer funcional e a folga no jogo de exercício sensório-motor quando a criança realiza uma atividade sem valor instrumental, mas que se justifica por si mesma. Para o autor, a criança tem um espaço para compreender o que em um contexto adap- tativo não lhe é permitido conhecer, como as ações cotidianas do adulto ligadas à alimentação. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 155 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a > Jogo simbólico Nesse tipo de jogo, a atividade lúdica manifesta-se sob a forma de imaginação e de imitação e ocorre para a criança no período de 2 a 6 anos. É a fase em que ocorre a transformação de objetos, como cabo de vassoura em cavalo e a vivência de papéis, como brincar de papai e mamãe, professor e aluno. A representação e a folga, de acordo com Macedo (2000), rela- cionam-se quando ocorre a possibilidade de a criança alterar a realidade de acordo com suas próprias necessidades. A criança, na prática do jogo simbólico, revive bons e maus momentos, antecipa outros e vive os que jamais experimentaria. Nesse sentido, o jogo simbólico ajuda a suportar representações adaptativas (reais) e as trocas simbólicas. > Jogo de regras Os jogos de regras têm sua prática com as crianças com idade próxima aos 5 anos, mas se desenvolve na fase que vai dos 7 aos 12 anos. São jogos de combinações sensório-motoras ou intelectuais que favorecem a socialização, pois a sua prática possibilita a inserção da criança no mundo social e cultural. As regras, no jogo, representam o limite, o pode e o não pode, e nesse sentido regulam as relações entre as pessoas. A folga nos jogos de regras, na perspectiva de Macedo (2000), possibilita que a criança tenha um espaço para adaptar-se a um am- biente social regrado; regula o comportamento, estabelece limites e transforma as regras de acordo com as suas necessidades. > Jogo de construção Esse jogo possibilita a reconstrução do real, seja um objeto, uma cena visível ou um acontecimento. A sua prática retoma aspectos da vida social, da vida do trabalho, da vida adaptativa. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po rq ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 156 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Macedo (2000) destaca que a folga no jogo de construção pro- picia à criança a livre construção, para que possa dispor das exigências da vida adaptativa. A sua prática possibilita a entrega ao real que faz parte da vida social. Nessa perspectiva, o mesmo autor (2000) destaca a importância do jogo no futuro da criança. O jogo pode ser um elemento dinamizador do potencial criativo para o futuro da criança? Pare e pense Para Macedo (2000, p. 148), “o futuro da criança envolve a sua inserção no mundo do trabalho visto como um momento de produção, compromisso, regra, transformação, processo, participação, coopera- ção”. Nesse sentido, quando adulto, o homem realiza o trabalho como prazer de participar e de produzir, de construir condições para o coleti- vo. Também pelo valor simbólico é revelador das frustrações da criança e de seu universo imaginário e terapêutico pelos desbloqueios que per- mite. Nesse sentido, o jogo constitui uma conduta por meio da qual se realiza certo equilíbrio entre o mundo exterior e o mundo interior. Veja a seguir o que o futuro cidadão herda de cada tipo de jogo, segundo Macedo (2000): • Jogo de exercício – o prazer funcional, considera o trabalho não como um sacrifício, mas como algo que produz satisfação. • Jogo simbólico – experimentação de papéis, representar, recriar situações, o que futuramente pode ser útil no seu trabalho. • Jogo de regra – contato com restrições, limites, possibilidades, com uma vida regularizada e harmônica. • Jogo de construção – contribui com os aspectos funcional e estrutural para o desenvolvimento e aprendizagem do educando. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 157 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Contudo, o jogo possibilita o desenvolvimento cognitivo com trocas entre a criança e o meio, o significar objetos e pessoas e o in- corporar a realidade ou o outro. Ao encontro dessa proposta, Miranda (1984, p. 27) afirma que: o jogo de regras caracteriza-se por ser regulamentado por leis que asseguram a reciprocidade dos meios empregados. É uma conduta lúdica que supõe relações sociais ou inter- individuais, pois a regra é uma ordenação, uma regularida- de imposta pelo grupo, sendo que sua violação é considera- da uma falta. É um jogo de caráter social. Miranda (1984) observa, ainda, que o jogo de regras tem como função desenvolver aspectos físicos, mentais e sociais da criança. Quanto aos aspectos físicos, aprimoram-se o equilíbrio, os órgãos sensoriais e os músculos e, quanto aos aspectos mentais, aperfeiçoam-se a atenção, a imaginação, a memória, o raciocínio, o espírito de cooperação e o senso social. Podemos afirmar, porém, que o jogo vai além de um processo de aperfeiçoamento físico, cognitivo e social: é também o momento para o conhecimento do comportamento da criança, suas aptidões, lacunas, características e tendências. Esse processo se torna possível por meio da observação, segundo Miranda (1984, p. 30), pois “os jogos de regras, em particular, constituem precioso recurso para o estudo da personali- dade infantil. Neles tem o educador um dos meios mais eficientes para apurar as qualidades e corrigir as dificuldades inerentes a cada criança”. Outra característica do jogo de regras apontada por Miranda (1984) é que a investigação pode ser coletiva ou individual, embora na verdade se trate de observação individual que ocorre enquanto a criança está inserida numa coletividade. Para essa observação, é necessário um conhecimento prévio sobre a psicologia infantil e sobre o jogo, nos seus vários aspectos, bem como o treino da observação, que é adquirida com a realização sistemática desse tipo de ação. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 158 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Miranda (1984) aponta também a importância de o educador ser objetivo, não se precipitar nas suas conclusões e verificar cuidado- samente a sua avaliação. Talvez possa ser necessário esperar por um se- gundo momento para a verificação desejada, pois uma única observação é sempre insuficiente. Segundo o autor (1984, p. 33), “O autocontrole do experimentador é uma condição sine qua non para um trabalho de caráter científico. Uma única observação é sempre precária. O experi- mentador deve repetir e insistir sobre a experimentação em que tenha particular empenho a fim de que o seu esforço seja recompensado”. Com efeito, nos jogos de regras há uma diferença sensível entre a observação feita antes e depois do jogo. Assim, é preciso levarmos em consideração que pode ocorrer fadiga, alterando o desenvolvimento da atividade. Dessa forma, ainda segundo Miranda (1984, p. 35), “Os jogos de regras podem ser selecionados com uma tríplice finalidade, a saber, aumentar a resistência orgânica, fortalecer a vontade e formar o caráter, tudo para o fim último de proporcionar eficiência social à crian- ça”. Estudos atuais revelam que o jogo precisa ser organizado para que a criança encontre nele oportunidades de desenvolver autodisciplina e autodireção, de acordo com as normas criadas pelos adultos. Cabe a você, professor, orientar as crianças nas situações éticas suscitadas pelo jogo. Já com adolescentes, Weiss (1999) relata que estes apreciam muito o uso de jogos de regras, pois é um momento em que os jo- vens podem brincar e, ao mesmo tempo, medir forças com o terapeuta. Assim, é bastante significativa a utilização de jogos que exijam racio- cínio, atenção, antecipação de situações e diferentes estratégias. Em si- tuações de jogo, os adolescentes revelam facilmente aspectos que não aparecem nas situações mais formais do diagnóstico, não só na área cognitiva, mas também na afetivo-social. Segundo Weiss (1999, p. 72), “ao se abrir um espaço de brincar durante o diagnóstico, já se está possi- bilitando um movimento na direção da saúde, da cura, pois brincar é universal e saudável”. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a utora is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 159 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Nesse sentido, estudos mostram que os jogos de regras utili- zados na psicopedagogia, de diferentes classificações e características, podem fazer com que venham à tona diferentes conteúdos ou aspectos do psiquismo, em seus níveis cognitivo, afetivo e social, o que pode ser melhor instrumentalizado pelo psicopedagogo. Abed (2000) des- taca que a estrutura do jogo configura o campo de transferência que se instala nas relações pessoais por ele mediadas. Assim, compreender a estrutura do jogo possibilita compreender a dinâmica dos vínculos ali estabelecidos pela criança. Abed (2000, p. 136) classifica os jogos de regras da seguinte maneira: i) jogos de controle: são os que requerem uma precisão no movimento, como pega-varetas e jogo de botão. Possuem um efeito relaxante, exigindo que os movi- mentos corporais sejam calmos e são utilizados para crianças que precisam retardar respostas impulsivas, que tentam resolver seus exercícios escolares rapida- mente, sem refletir; ii) jogos de rapidez e reflexos: nesta categoria, os jogado- res necessitam de rapidez na resposta a ser dada, como, por exemplo, o jogo do tapa certo ou do lince. Possuem efeito excitante, energético, exigem uma atenção con- centrada. O trabalho com esses jogos beneficia as crianças que se distraem facilmente e que precisam desenvolver a concentração, pois o jogo implica em canalizar a energia direcionada para um objetivo; iii) jogos de ataque e defesa: são os que se caracterizam por uma dinâmica em que atacar o oponente e dele defen- der-se é vital para alcançar a vitória. Como exemplo, temos o pique-bandeira, o caçador ou queimada. Os jogos de ataque e defesa abrem a possibilidade de se viver intensamente as questões ligadas à agressividade, o confronto direto, o destruir e ser destruído; Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 160 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au iv) jogos de expressão: são aqueles que solicitam aos joga- dores que passem mensagens por meio do desenho ou mímica. Nestes tipos de jogos, cria-se uma situação em que há a exigência de que o simbólico e o dramático apareçam integrados ao jogo. Esse jogo auxilia a criança que tem dificuldade de se expor, facilitando vivenciar situações lúdicas que as levam a se defrontar com esse constrangimento. Os jogos de regras são um excelente recurso a ser utilizado na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, pois auxiliam o trabalho edu- cativo do professor, que percebe algumas lacunas no processo de desenvolvimento e aprendizagem infan- til nos aspectos sociais, afetivos e motores. A seguir, apresentamos algumas sugestões de jogos de regrase: • acusado; • berlinda; • bola ao túnel; • arcos com bola; • corrida das batatas; • corrida de canguru; • cruzes em linha; • caçador ou queimada; • bola em ziguezague; • o poste humano; • tração da corda; • voadores; • rodeio; • sócios; • o sorteio. ea O desenvolvimento des- ses jogos pode ser encon- trado no livro de Miranda (1984), o qual a referência completa está relacionada no final desta obra. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 161 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a 3.3 Jogos cooperativos Os estudiosos da área demonstram que o jogo é a atividade mais in- dicada para satisfazer às necessidades de movimentos que a criança possui. Assim, na atividade lúdica, o professor pode perceber as carac- terísticas da personalidade do educando e orientá-lo, no sentido de in- centivar vivências sociais que contribuam para sua formação e atuação na sociedade. Por meio do jogo a criança obtém uma maior coordenação mo- tora, cria normas de conduta e assim aprende a viver em grupo. Hábitos e atitudes se modificam durante a prática de jogos, podendo algumas condutas ser transferidas para outras atividades. O movimento é fundamental para o ser humano, especialmente durante a infância, pois ativa o processo de crescimento e da convivência em grupo. Nesse sentido, a respeito dos jogos cooperativos, Saraydarian, citado por Consciência... (2003) observa que “Aprendendo o verdadei- ro significado da consciência de grupo, paramos de olhar para nós mes- mos como um ser separado de todos os outros e começamos a ver nosso elo com toda a humanidade, a natureza e os cosmos. Nessa realização, aprendemos a ciência e a arte de cooperação”. A afirmação de Ulrich, citado por Brotto (1997, p. 36), aponta para a mesma direção: “Assim, quando as pessoas ou grupos combinam suas atividades ou trabalham juntas para conseguir um objetivo comum, de tal maneira que o maior êxito de alguma das partes concorra para um maior êxito das demais, temos o processo social de cooperação”. Brotto (1997) enfatiza que os jogos cooperativos, nos quais to- dos cooperam e ganham, jogando uns com os outros e não uns contra os outros, atendem a um dos objetivos da recreação e do lazer. Esses jogos são mais divertidos para todos, pois todos têm o sentimento de vitória, todos participam, não havendo exclusão. Ao refletirmos sobre os jogos cooperativos, percebemos que, apesar de a recreação ser, historicamente, uma prática constante na in- fância, em diferentes contextos há muitos problemas no que se refere à Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 162 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au sua utilização como recurso pedagógico. Para a reversão desse quadro, tendo como objetivo o desenvolvimento das áreas cognitiva, afetiva e social das crianças, é preciso levá-las à reflexão no seu processo de cons- trução do conhecimento. Com efeito, estudos sobre jogos cooperativos apontam que, ao liberar o potencial criativo, os sujeitos se sentem mais confortáveis e confiantes para desfazer os bloqueios, conseguindo descontrair e ficar flexíveis nas interaçõesentre os grupos, sabendo que o poder de cada um é expandido pela cooperação. Nesse sentido, Cória-Sabini (2004, p. 27) destaca a infância “como a idade das brincadeiras e que, por meio delas, as crianças satisfazem grande parte dos seus desejos e interesses particulares”. Nas palavras da autora (2004, p. 27), Quando as crianças brincam, observa-se a satisfação que elas experimentam ao participar das atividades. Sinais de alegria, risos, certa excitação são componentes desse pra- zer, embora a contribuição do brincar vá bem além de im- pulsos parciais. A criança consegue conjugar seu mundo de fantasia com a realidade, transitando, livremente, de uma situação a outra. Porém, atualmente, a sociedade tem dado grande ênfase à com- petição, o que tem levado jovens a expressar comportamentos agressi- vos e violentos. É o que se percebe na prática esportiva mais popular no Brasil, o futebol. Torcidas organizadas, em nome da vitória, agridem fisicamente qualquer pessoa, não importando idade ou envolvimento com o momento de jogo, sem o menor discernimento. Embora saiba- mos que grande parte dos que praticam atos violentos já estão envolvi- dos socialmente com esse tipo de comportamento, pessoas que mesmo nunca tendo participado de uma briga deixam vir à tona expressões agressivas. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 163 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Nesse contexto, de acordo com a perspectiva de Brotto (1997), é importante salientar que o jogo competitivo tem como objetivo a busca do rendimento máximo para a superação do outro, porém essa supe- ração precisa ser entendida inicialmente com base em si mesma, a su- peração das habilidades cognitivas e afetivas juntamente às habilidades físicas. Todos os participantes de jogos competitivos estão nessa busca; porém há que haver a consciência de que se o outro venceu foi por- que apresentou estratégias cognitivas e corporais superiores às minhas. Assim, a humildade é o melhor sentimento e a melhor atitude a se esta- belecer nesse momento. A competição supervalorizando os vencedores e menosprezando os perdedores é o maior troféu da inferioridade que possa existir. De acordo com Brotto (1997, p. 38), isto resulta na perda da interdependência dos relacionamen- tos. Fica a reflexão: Será que podemos trazer a cooperação para o esporte? Vivenciá-lo de forma a despertar no ser hu- mano não o desprezo ao outro e sim entender que adversário é apenas aquele que disputa em um time diferente do seu, mas que porém continua a ser seu colega e seu amigo? Para o autor (1997), por meio dos jogos cooperativos existe a possibilidade de estimular a reflexão, a conscientização sobre a convi- vência com os outros e as mudanças que isso implica. Construir uma concepção de totalidade e interdependência, praticando a criatividade por meio da vivência de novas alternativas, estratégias, organização de pensamento, para conseguir alcançar um objetivo comum. Nessa pers- pectiva, Brotto (1997, p. 40) defende que: qualidades como alegria e entusiasmo, autoestima, confian- ça e respeito mútuo, comunicação espontânea, comunhão de objetivos pessoais e grupais, simplicidade são desenvol- vidas ao trabalhar-se com o enfoque cooperativo na prática esportiva e vêm ao encontro de qualquer proposta de edu- cação e valorização humana. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 164 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Com efeito, para Cória-Sabini (2004), a pala- vra brincar não se relaciona apenas às atividades in- fantis, pois em todas as idades as pessoas brincam e, desse modo, os jogos estariam presentes em todas as faixas etárias. Sugestões de jogos cooperativosf: • cadeira livre; • olhos de águia; • dança da cadeira cooperativa; • salve-se com um abraço; • olhos de águia; • coelho sai da toca; • barra-manteiga; • a galinha e os pintinhos; • corrida com jornal; • escravos de jó; • gato e o rato; • a história da serpente. 3.4 Jogos tradicionais Para compreender a noção de jogo tradicional, podemos situá-lo dentro do contexto mais amplo da cultura, da qual faz parte o folclore. Os es- tudos de Friedmann (1996) destacam que, para o folclorista, o folclore seria a ciência do saber popular, como as maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservadas pela tradição popular e cuja transmissão se faz por meio de processos informais. Uma das características mais fa Esses jogos são propos- tos por Brotto (1997), que se encontra na lista de referências no final dessa obra. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 165 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a críticas do folclore é a tradicionalidade, pois sendo ele politicamente ativo, codifica a identidade e reproduz símbolos que consagram um modo de vida de classe. De acordo com Friedmann (1996, p. 50), “Para as crianças, a cultura folclórica é a manifestação da sua riqueza natural, suas potencialidades físicas, corporais, motoras, sensoriais, intelectuais, emocionais e sociais, contribuindo para elas grande parte de seu patri- mônio lúdico”. Segundo Friedmann (1996, p. 50), os jogos tradicionais são vistos sob duas formas: “o jogo como sistema que regula a vida social das crianças; o jogo como função educacional no sentido pedagógico”. Atribuir um caráter educacional aos jogos tradicionais significa utilizá- -los como alternativa metodológica, que busca instrumentalizá-los com fins educacionais, resgatar o seu valor inestimável e constituí-los, para cada indivíduo, cada grupo, cada geração, como parte fundamental de sua história de vida. Friedmann (1996, p. 48) afirma: “os jogos tradi- cionais infantis têm qualidades que podem satisfazer de bom grado às necessidades de desenvolvimento das crianças contemporâneas”. A prática do jogo tradicional, de acordo com Le Boulch (1982), supõe uma relação íntima da criança com os brinquedos, pois ela ge- ralmente os constrói, montando bonecas de tecido, de papel, de recur- sos naturais. O processo de construir seu próprio brinquedo se torna valioso, pois é estimulante perceber-se potencialmentecriativo. Para o desenvolvimento psicomotor e cognitivo, a construção de brinquedos também é um elemento valioso, porque a criança utiliza e desenvol- ve habilidades de coordenação motora, esquema corporal, lateralidade, organização espacial, entre outras. A cognição é estimulada na medida em que a criança tem de lidar com conceitos, formas, texturas, cores, interpretação, classificação, raciocínio, memória, associação de ideias, estruturas, entre tantos aspectos a serem estimulados. Na perspectiva de Kishimoto (2008), os jogos de construção são considerados de grande importância, por enriquecerem a experiência Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 166 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au sensorial, estimular a criatividade e desenvolver habilidades da criança, tendo uma estreita relação com o faz de conta. Segundo a autora (2008, p. 40), “Não se trata de manipular li- vremente tijolinhos de construção, mas de construir casas, móveis ou cenários para as brincadeiras sim- bólicas. As construções se transfor- mam em temas de brincadeiras e evoluem em complexidade confor- me o desenvolvimento da criança”. E quando a criança só quer brincar com jogos eletrônicos? Pare e pense É comum haver debates que traduzem a preocupação com o res- gate das brincadeiras tradicionais no universo infantil e, algumas vezes, em diferentes situações, árduas críticas em relação aos jogos eletrônicos surgem pelos adultos. Porém, não podemos esquecer que os jogos ele- trônicos trazem também a significação do momento histórico vivido pelas crianças, em que o avanço tecnológico, a segurança e o próprio apelo da mídia são decisivos nas ações e nas opções lúdicas infantis. Percebemos, então, que o jogo tem mudado muito no decorrer de várias décadas. O adulto deve perceber que essas mudanças na realidade exis- tem com base nas relações que são estabelecidas socialmente. Como exemplo, temos a organização da alimentação nas famílias. Para o desenvolvimento psicomotor e cognitivo, a construção de brinquedos também é um elemento valioso, porque a criança utiliza e desenvolve habilidades de coordenação motora, esquema corporal, lateralidade, organização espacial, entre outras. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 167 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Ainda as mulheres se ocupam de preparar a alimentação de seus filhos? E quando o fazem, que implementos utilizam? Utilizam ainda as panelas de barro, de ferro ou já preferem as que possibilitam ocupar menor tempo para a limpeza? Pare e pense Além da alimentação, os utensílios e produtos eletrônicos uti- lizados dentro das casas atendem a quais objetivos? Refletindo sobre essas questões, vemos que a sociedade como um todo participa desse processo e que a tecnologia e seus avanços vêm ao encontro das ne- cessidades do ser humano. Assim como a ciência produz conhecimen- to tomando por base as necessidades do homem e esse conhecimento volta para a sociedade e se reelabora constantemente, o lazer obedece a mesma ordem. Nesse sentido, cabe ao adulto conceber o brincar com jogos eletrônicos como parte integrante das questões lúdicas atuais. Talvez, nesse momento, você reflita sobre um aspecto funda- mental apontado nos capítulos que falam do desenvolvimento e da aprendizagem dos educandos. E onde fica aquela ideia de que a criança precisa de atividades em que possa se movimentar? De que o brincar e o movimento são uma necessidade vital para o desenvolvimento e a aprendizagem? Pare e pense Nessa perspectiva, cabe ao adulto considerar os dois aspectos: o brincar com o corpo, ressaltando atividades com o movimento e o brincar cognitivo com os jogos de computador. O brincar com o corpo, abordado no capítulo 2, proporciona a interação com o meio. O brincar com o outro socializa, pois durante Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 168 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au a atividade surge a necessidade de se estabelecer regras para organizar as interações. Também o ato de lidar com a linguagem do outro, seus pensamentos, comportamentos, sentimentos possibilita que ao mesmo tempo a criança identifique as suas próprias emoções, como a alegria, a raiva, a frustração, o medo e a ansiedade. Nesse sentido, o que aponto sobre o brincar individual e coletivo é que em situações de grupo a criança, o adolescente ou o adulto necessita lidar realmente com ques- tões que irão conceber a sua formação pessoal. E no jogo eletrônico, como os de computador, do celular e o videogame? Pare e pense Nos jogos eletrônicos, o sujeito brinca com uma tela e é esti- mulado nas suas habilidades cognitivas, como o raciocínio, a atenção, a concentração e a memória, bem como habilidades psicomotoras, como a coordenação motora, a lateralidade e organização espacial e temporal. Na área afetiva, o indivíduo também necessita lidar com a frustração e a alegria. Porém, é uma reflexão individual e egocêntrica, que não esti- mula a autonomia e a criticidade, a coragem de comunicar-se aberta- mente e expor seus sentimentos. Um exemplo atual é observar como as pessoas se comunicam virtualmente, por meio de e-mails e mensagens de celular. Ao enviar uma mensagem afetiva a outra pessoa, não há a possibilidade de perceber como a outra a recebeu, quais foram as suas expressões faciais e corporais, a surpresa, os sentimentos envolvidos. Porém, os aspectos positivos dos jogos eletrônicos não devem ser negados, pois possibilitam uma gama maior de acesso a informa- ções que trazem acontecimentos importantes no mundo inteiro. Assim, a sugestão é que esse brincar também seja mediado por adultos, como os professores e familiares e também por educandos jovens que estão atentos aos recursos tecnológicos atuais. A mediação acontecerá de for- ma a possibilitar a interação do educando com esses jogos, traduzindo Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . Avi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 169 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a questões sociais como a violência urbana, a devastação das florestas, a falta de prevenção nos hábitos alimentares, nas relações sexuais, os preconceitos existentes na sociedade e que interpelam a cooperação e o respeito diante da diversidade cultural, étnica, social, a identidade sexual, entre tantos outros aspectos existentes e importantes para a for- mação do cidadão. Compreendendo a relação entre jogos tradicionais e eletrônicos, tente responder às questões a seguir: • Como os recursos tecnológicos estão presentes na vida do ser humano? • Quais benefícios eles trouxeram para as atividades cotidianas? • Quais as dificuldades encontradas pelos adultos para lidar com esses recursos? • Como o adulto pode interagir com os jovens com base em interações feitas com os recursos tecnológicos atuais? • Escolha uma forma de brincar que possa ser feita com o auxílio da internet. Estabeleça objetivos, procedimentos e avaliação diagnóstica dos benefícios e dificuldades encontrados nos aspectos motor, afetivo, social e cognitivo. Pare e pense Assim, de acordo com os estudos de Kishimoto (2008) sobre os jogos tradicionais, muitas brincadeiras preservam sua estrutura inicial. Outras, ao contrário, modificam-se, recebendo novos conteúdos. Ainda sobre a importância desses jogos, a autora (2008, p. 38) afirma: Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 170 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au A força de tais brincadeiras explica-se pelo poder da ex- pressão oral. Enquanto manifestação livre e espontânea da cultura popular, a brincadeira tradicional tem a função de perpetuar a cultura infantil, desenvolver formas de convivên- cia social e permitir o prazer de brincar. Por pertencer à cate- goria de experiências transmitidas espontaneamente confor- me motivações internas da criança, a brincadeira tradicional infantil garante a presença do lúdico, da situação imaginária. Na mesma concepção, a fala de Friedmann (1996, p. 45) apre- senta uma reflexão sobre o significado do resgate dos jogos tradicionais no contexto escolar atual: A institucionalização da educação contribuiu para alterar de forma significativa as condições do jogo; o meio ambiente natural do jogo foi substituído pelo oficial, que para a maioria das crianças é um espaço de trabalho. O chamado jogo livre passa a ser considerado como uma atividade não produtiva. As ações pedagógicas do professor passam a ocorrer no sentido de proporcionar a vivência de situ- ações nas quais se constitua o resgate da cultura lúdica de nosso país. Sugestões de jogos tradicionaisg: • em cima do piano; • alerta; • mãe cola; • barra-manteiga; • cabra cega; • caçador ou queimada; • cara ou careta; ga Esses jogos são des- critos por Miranda (1984), cuja referência completa se encontra no final desta obra. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 171 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a • dona polenta; • lenço atrás; • morto vivo; • estátua; • corrida com jornais; • chicote-queimado; • peteca; • amarelinha; • Jó campo. 3.5 dinâmicas de grupo Atualmente, as dinâmicas de grupo são atividades muito utilizadas em diferentes contextos, como o educacional, o clínico e o empresarial. Esses jogos têm sido empregados em situações que requerem um tra- balho em equipe ou em conjunto (grupo, grupos de trabalho, de cresci- mento ou treinamento) e objetivam integrar, desinibir, “quebrar o gelo”, divertir, levar a refletir e/ou motivar. Os estudos de Motta (1994) definem que o humor de um gru- po pode variar entre sentimentos de bem-estar e satisfação, estresse, entusiasmo, prazer, frustração e depressão. Tais expressões humanas, individuais ou em grupo, necessitam ser observadas e servir de objeto de reflexão em seu contexto. O psicodrama vem, há muito tempo, de- senvolvendo estudos sobre o assunto. Segundo Motta (1994), o psicodrama surgiu em 1912, com Jacob Levy Moreno, um jovem estudante de medicina apaixonado por teatro e música, que se contrapôs à psicanálise, na qual percebia um grande distanciamento entre o terapeuta e o paciente. É assim que sur- giram o jogo dramático e os pressupostos do que viria a caracterizar-se, Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 172 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au mais tarde, como dinâmica de grupo. Esta última foi criada com o obje- tivo de determinar as características das pessoas que compõem o grupo, a importância de cada membro e a rede de inter-relações nele presentes. Para Moreno (1983), o jogo é a expressão de uma ação extrema- mente rica de espontaneidade criadora. Nesse sentido, o autor entende que os jogos a serviço da manutenção cultural são os criados pela tradi- ção com o objetivo de manter padrões estabelecidos. Os jogos grupais, institucionais ou individuais podem estabelecer o mesmo princípio da não transformação. Atualmente, estudos sobre os jogos na abordagem psicodramá- tica demonstram que os povos continuam criando seus jogos, por meio dos quais é possível ter um perfil de cada cultura. Assim, percebemos que, segundo Motta (1994, p. 61): o jogo infantil criado ou estimulado pela mídia (robôs, vi- deogames, jogos de computador) demonstra o movimento no sentido de dissociar o brincar do falar. Nesses brinque- dos, a proposta é brincar com uma tela, enquanto os jogos tradicionais, como as brincadeiras de roda, a brincadeira de pique e a amarelinha, são associados à palavra e à interação entre o grupo. Os estudos de Motta (1994) na abordagem do psicodrama apontam que o jogar em diferentes situações favorece o desenvolvi- mento infantil de forma sadia. A possibilidade de brincar trabalha a an- gústia da divisão, de estar separadoe de pertencer a um grupo. Ocorre o início da socialização na criança, o poder sair e voltar, a elaboração da separação. O autor (1994, p. 82) esclarece: A busca de seu lugar e de sua importância na família, sua entrada no mundo, leva a criança a desenvolver ritos, rituais, mitos e tragédias para lidar com o desconhecido, que a atrai e a assusta. Por necessidade, a criança acorda o movimento lúdico em si para, jogando, nascerem os papéis. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 173 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a Foi Kurt Lewin, em 1945, segundo Mailhot (1991), quem criou o termo dinâmica de grupo, conceito oposto ao de estática, definindo dinâmica como o conjunto de forças sociais, intelectuais e morais que produzem atividades e mudanças em uma esfera específica. Esse tipo de jogo requer um facilitador do grupo, que tem a função de tornar fácil a comunicação, o conhecimento e a integração e, além disso, pode favorecer o relacionamento e mediar as situações geradas no grupo. Os requisitos para desempenhar o papel de facilitador do grupo, segundo Mailhot (1991), são: • saber ouvir e interpretar; • ter habilidade para sintetizar; • estar sensível aos movimentos do grupo; • procurar fazer e manter os comentários dentro do contexto; • estabelecer uma comunicação clara e objetiva; • manter coerência; • respeitar e manter sigilo; • promover um relacionamento agradável; • compartilhar o comando, expectativas e inseguranças; • não subestimar o potencial do grupo; ser paciente. Para o autor (1991) anteriormente citado, na dinâmica de gru- po são utilizados recursos como músicas, filmes, histórias e fábulas, e observam-se etapas de aquecimento, relaxamento, abertura ou fecha- mento. Os teóricos da dinâmica de grupo afirmam que grupos cami- nham juntos, mas não necessariamente se afinam, enquanto equipes compreendem seus objetivos e engajam-se a fim de alcançá-los. O pri- meiro grupo são os familiares, que constituem a primeira interação co- munitária do indivíduo, a origem de seus valores e suas normas de con- duta. Na escola, os grupos têm como característica a emancipação e, no trabalho, são formados por pessoas em diferentes espaços profissionais. No trabalho com equipes, existem diferentes jogos, conhecidos como dinâmicas de grupo, os quais têm como objetivo primordial facili- tar a integração nos planos grupal, intergrupal, interpessoal e individual. Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 174 A ludicidade na educação: um a atitude pedagógica • M aria C ristina T rois D orneles R au Independentemente de seus objetivos específicos – aprendiza- gem, desenvolvimento pessoal, gestão de equipes, reuniões de trabalho –, as dinâmicas de grupo contribuem para facilitar e melhorar a ação dos grupos. Isso ocorre em virtude de atuarem em relação a motivações individuais e como forma de estimulação tanto da dinâmica interna (sujeito – grupo) como da externa (grupo – grupos), de forma a poten- cializar a integração das forças existentes no grupo e melhor direcioná- -las para as metas estabelecidas. No âmbito educacional, Serrão (1999) descreve um trabalho com dinâmicas de grupo feito com alunos adolescentes no estado da Bahia. A autora (1999, p. 59) discute a questão fundamental, o objetivo principal das dinâmicas: “o primeiro momento na construção do sen- timento do grupo diz respeito à identidade de cada um dos seus parti- cipantes e à delimitação do espaço que ser-lhe-á dado a ocupar [sic]”. Assim, Serrão (1999, p. 59) aponta o quanto é importante tra- balhar com dinâmicas no sentido de favorecer o autoconhecimento, levando à reflexão sobre “quem sou eu”, “como quero ser chamado”, “como quero ser reconhecido”, além de proporcionar o fortalecimento da autoestima e favorecer o desenvolvimento pessoal e social. Nesse trabalho, o questionamento em torno da identidade sociocultural, que inclui temas como discriminações sociais, possibilita o resgate das ori- gens, para que o indivíduo retome a sua dignidade pessoal. Isso implica um novo registro de sua inserção no presente, no passado e no futuro. Nessa perspectiva, as dinâmicas propostas por Serrão (1999, p. 59) têm a função de estabelecer regras básicas de relacionamento e convivência, para que ocorra respeito mútuo. À medida que se estabele- ce esse tipo de ambiente, torna-se possível explorar a comunicação den- tro do grupo, possibilitando trocas interpessoais, permitindo a escuta e a expressão de sentimentos e emoções. Acrescentemos que, na participação em algumas práticas, po- dem ocorrer momentos de insegurança no que diz respeito à expressão das características pessoais, por exemplo. Os indivíduos percebem- -se como sujeitos que possuem preferências, atitudes, concepções e Ne nh um a p ar te de sta pu bli ca çã o p od er á s er re pr od uz ida po r q ua lqu er m eio ou fo rm a s em a pr év ia au tor iza çã o d a E dit or a I bp ex . A vi ola çã o d os di re ito s a uto ra is é c rim e e sta be lec ido na Le i n º 9 .61 0/1 99 8 e pu nid o p elo ar t. 1 84 do C ód igo P en al. 175 M ar ia C ri st in a T ro is D or ne le s R au • A lu di ci da de n a ed uc aç ão : u m a at itu de p ed ag óg ic a preconceitos no tocante a diferentes aspectos sociais e afetivos. Nesse sentido, é possível comprovar que o lúdico como recurso pedagógico na formação do educador contribui para seu autoconhecimento e para o reconhecimento de formas de expressão e comunicação na interação com o outro, necessárias à sua vida e à sua atuação profissional. Entendemos que deve haver uma análise crítica sobre a utiliza- ção de dinâmicas de grupo por professores sem conhecimento prévio sobre o assunto. Esse conhecimento pode se desenvolver na formação inicial, se for trabalhado na graduação ou, o que é mais comum, na formação continuada; porém, podemos questionar o nível de formação propiciado. Apesar de as dinâmicas serem utilizadas em quantidade, em diferentes contextos, não apenas educacionais, estas muitas vezes são desprovidas de um embasamento teórico, ficando apenas na realização da prática. Mesmo assim, Serrão (1999) ainda observa que o trabalho em grupo é uma temática importante a ser explorada, pois possui o objetivo de facilitar o autoconhecimento e fortalecer a autoestima do grupo. Nessa questão devem ser levados em consideração os papéis de- sempenhados pelos participantes, os estereótipos ou rótulos existentes, lideranças e as possíveis discriminações.