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MATERIAL DIDÁTICO 
 
 
FUNDAMENTOS DE PSICOLOGIA 
JURÍDICA 
 
 
 
 
 
 
 
 
CREDENCIADA JUNTO AO MEC PELA 
PORTARIA Nº 1.282 DO DIA 26/10/2010 
 
0800 283 8380 
 
www.ucamprominas.com.br 
 
 
Impressão 
e 
Editoração 
 
2 
 
SUMÁRIO 
INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 3 
UNIDADE 1 – BREVE HISTÓRIA DA PSICOLOGIA ............................................ 9 
1.1 Funcionalismo ................................................................................................ 12 
1.2 Psicologia da forma (Gestalt) ......................................................................... 13 
1.3 Behaviorismo .................................................................................................. 15 
1.4 Psicanálise ..................................................................................................... 16 
1.5 Psicologia social ............................................................................................. 18 
UNIDADE 2 – TEORIAS DA PERSONALIDADE ................................................ 20 
2.1 O que é personalidade ................................................................................... 20 
2.2 Desenvolvimento da personalidade ............................................................... 22 
2.3 Teorias psicodinâmicas .................................................................................. 24 
2.4 Teorias comportamentalistas ......................................................................... 31 
2.5 Personalidade, psicologia social e psicologia jurídica .................................... 34 
UNIDADE 3 – FATORES QUE INTERFEREM NAS REAÇÕES DO INDIVÍDUO 41 
3.1 Constituição corporal ...................................................................................... 42 
3.2 Temperamento X caráter ................................................................................ 45 
3.3 Cognição ........................................................................................................ 48 
UNIDADE 4 – DIREITO E PSICOLOGIA: UMA UNIÃO POSSÍVEL ................... 56 
UNIDADE 5 – CONCEITUAÇÃO DE PSICOLOGIA JURÍDICA E CAMPO DE 
ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL ......................................................................... 61 
5.1 O que é psicologia jurídica ............................................................................. 61 
5.2 Campos de atuação da Psicologia Jurídica.................................................... 64 
UNIDADE 6 – ÉTICA NA PSICOLOGIA JURÍDICA ............................................ 70 
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 78 
 
3 
 
INTRODUÇÃO 
 
Enquanto orientadores sempre recomendamos a pesquisa de materiais 
recentes, porém, ao se utilizar obras clássicas (como no caso deste material, em 
que grande parte do conteúdo foi embasado em obras de teóricos que abordam 
sobre diferentes autores) isso não se faz possível – ainda mais em caso de livros 
que já possuem edições mais recentes, porém lançamos mão de cópias mais 
antigas. Fora isso, é sempre importante mantermos o conhecimento científico 
atualizado! Bons estudos! 
Essa introdução pretende, como diz o próprio nome, introduzir conceitos 
que serão abordados neste material, assim como pretende realizar uma breve 
apresentação do curso de Psicologia Jurídica. 
Dentre várias definições possíveis, compreende-se a Psicologia Jurídica 
como o ramo da psicologia que serve de subsídio para a prática do Direito. A 
especialização em Psicologia Jurídica é reconhecida no Brasil e, da mesma 
forma, a profissão é reconhecida nos meios jurídicos. Porém, antes de 
conhecermos melhor essa especialização, vale a pena apresentar brevemente o 
histórico da Psicologia no Brasil. Alguns detalhes da história da psicologia 
enquanto ciência (a nível mundial) e que possuem algum tipo de relação com a 
Psicologia Jurídica estarão explícitos nesse material, mas faz-se importante 
compreender como a profissão de psicólogo foi regulamentada no país. 
Segundo Baptista (2010), o processo de regulamentação da profissão de 
psicólogo levou anos para ser consolidado. Ao final da década de 1940, os 
profissionais brasileiros começaram a se manifestar em prol da regulamentação, 
ao mesmo tempo em que os primeiros cursos de especialização foram criados. 
A Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962 (BRASIL, 1962), dispõe sobre os 
cursos de formação em psicologia e regulamenta a profissão do psicólogo. Dois 
anos depois foi promulgado o Decreto n° 53.464 de 21 de janeiro de 1964, 
documento que regulamenta a Lei nº 4.119. Esse decreto, em seu artigo 4°, 
elucida as funções do psicólogo. Já pensando na atuação do Psicólogo Jurídico – 
a qual foi reconhecida posteriormente – destacam-se as seguintes funções: 
 
4 
 
1) Utilizar métodos e técnicas psicológicas com o objetivo de: 
a) diagnóstico psicológico; [...] 
d) solução de problemas de ajustamento. 
2) Dirigir serviços de Psicologia em órgãos e estabelecimentos públicos, 
autárquicos, paraestatais, de economia mista e particulares. [...] 
5) Assessorar, tecnicamente, órgãos e estabelecimentos públicos, 
autárquicos, paraestatais, de economia mista e particulares. 
6) Realizar perícias e emitir pareceres sobre a matéria de Psicologia 
(BRASIL, 1964, art 4°). 
 
Observamos aqui que a atuação do psicólogo pode ser útil ao meio 
jurídico devido às suas funções de diagnóstico psicológico (e consequente 
emissão de laudos), solução de problemas de ajustamento psicológico dos 
indivíduos, assessoria técnica em instituições. 
Importante destacar que mesmo antes da regulamentação, muitos 
profissionais da psicologia já exerciam seu trabalho no Brasil e, após a 
regulamentação, não apenas os profissionais que acabavam de formar poderiam 
ter sua profissão regulamentada; diretrizes foram instituídas para que os 
profissionais que já exerciam a função pudessem ser devidamente 
regulamentados e, posteriormente, inscritos nos órgãos de classe. 
A implantação da Lei e do Decreto supracitado foi essencial para a 
regulamentação da profissão do psicólogo, porém, o processo não se encerrou 
em 1964. Segundo Baptista (2010), o processo de regulamentação se encerrou 
na década de 1970, época em que os principais atos regulatórios já haviam sido 
aprovados e os conselhos de classe já haviam sido criados. 
Assim como aconteceu com a Psicologia de modo geral, a psicologia 
jurídica já era exercida no Brasil, porém os profissionais não eram organizados 
em associações. Isso modificou na década de 1990, como expresso na citação a 
seguir: 
A Psicologia Jurídica, como campo de conhecimento e de pesquisa, já 
existia no Brasil antes mesmo da regulamentação da profissão de 
Psicólogo, sendo este o marco que possibilitou a inserção oficial destes 
profissionais nas instituições jurídicas. No entanto, foi apenas na década 
de 1990 que se iniciou um movimento no sentido de organizar os 
psicólogos em uma associação de nível nacional. Nesta época, outros 
países da América Latina também vinham numa crescente mobilização e 
a criação da Associação Ibero-americana de Psicologia Jurídica (AIPJ) 
na Argentina foi determinante para a mobilização em nosso país (ABPJ, 
s.d., s.p.) 
5 
 
Já sabemos o que é a Psicologia Jurídica e que, assim como em outros 
países, no Brasil a atividade é regulamentada e bem organizada. Entretanto, 
surgem outras questões: 
 O que faz o psicólogo jurídico? 
 Para que a especialização em psicologia jurídica? 
 Como vou aprender a lidarcom testes? 
 
Tentaremos, ainda na introdução, responder esses questionamentos, de 
vital interesse para o primeiro momento neste curso. 
Para respondermos essa primeira pergunta: “O que faz o Psicólogo 
Jurídico?” teremos que recorrer ao passado, para assim compreendermos quais 
eram as atribuições iniciais do psicólogo jurídico e, atualmente, quais são elas. 
 Inicialmente a prática do psicólogo jurídico voltava-se apenas à avaliação 
psicológica e posterior emissão de laudos que serviam para contribuir para a 
tomada de decisão dos juízes. 
Optamos, nesse primeiro material do curso de Psicologia Jurídica, por 
fornecer subsídios básicos que nos levassem a compreender esse primeiro 
momento da psicologia jurídica. O livro texto que será citado em vários momentos 
da apostila é o clássico “Manual de Psicologia Jurídica” de Mira y López, cuja 
primeira publicação data de 1932. Essa obra é uma das pioneiras na área e ilustra 
a prática do psicólogo voltada para a avaliação e compreensão do indivíduo e 
suas possíveis reações. 
Atualmente, a Psicologia Jurídica sofreu uma série de reformulações e o 
psicólogo que trabalha na área – seja no fórum; no sistema prisional; nas Forças 
Armadas; ou em instituições para a aplicação de medidas socioeducativas ou 
voltadas para o acolhimento de crianças e adolescentes, ou em outras instituições 
– preza prioritariamente a assistência, o acolhimento, o respeito aos aspectos 
psicológicos e emocionais envolvidos nas situações nas quais há intervenção da 
lei. A questão dos direitos humanos passa a ser central nessa nova postura. 
Ainda há espaço para a realização de avaliação psicológica e elaboração de 
laudos – muitos dos quais essenciais ao trabalho de promotores, juízes, 
defensores públicos, advogados e outros profissionais da área – porém, a 
atuação do psicólogo jurídico é reconhecida e não se restringe a essas tarefas. 
6 
 
De posse dessas informações – as quais serão detalhadas ao longo deste 
material – surge um novo questionamento: Por que a especialização em 
psicologia jurídica? 
Parte-se do pressuposto que, atualmente, ao graduar-se em psicologia e 
associar-se à entidade de classe de sua região, o psicólogo generalista está apto 
a atuar em diferentes campos. Entretanto, sabe-se que a prática é diferente da 
teoria. Para uma atuação bem embasada, seja em qual área o psicólogo deseja 
atuar, a especialização faz-se necessária, principalmente se levarmos alguns 
pontos em consideração: 
 a Psicologia é bastante ampla e serve de fundamento para vários outros 
cursos. Hoje em dia, além da Psicologia Jurídica, existem outras especializações, 
tais como a Psicologia Hospitalar, a Psicologia Escolar, a Psicologia 
Organizacional, a Psicologia Clínica, a Psicologia do Esporte, dentre outras áreas. 
Frente a essa infinidade de campos fica fácil compreender que dificilmente um 
profissional terá ampla base teórica e experiência prática em todas as áreas, daí a 
necessidade de uma especialização na área de sua escolha; 
 frente a essa multiplicidade de áreas nas quais o psicólogo pode atuar, 
muitas instituições têm optado dividir a graduação em ênfases – normalmente 
uma mais voltada para a parte clínica e outra para a parte institucional. Assim, 
desde a sua formação, o estudante já opta por qual caminho deseja trilhar, mas, 
com isso, deixa de investir em sua formação em outras áreas. No caso da 
psicologia jurídica, muitos acadêmicos concluem o curso sem nem ter cursado 
essa disciplina. Outras instituições que mantêm o curso sem a divisão por 
ênfases, devido à quantidade de disciplinas obrigatórias, acabam por deixar a 
psicologia jurídica como uma disciplina eletiva, a qual acaba não sendo cursada 
por todos. 
 
Tendo isso em vista, compreendemos a necessidade do profissional que 
deseja atualizar seus conhecimentos em Psicologia Jurídica ao buscar uma 
especialização. Nesse sentido, faz-se importante esclarecer possíveis dúvidas. 
Através da Resolução 014/00, o CFP discorre acerca da instituição do 
título de especialista em psicologia que é concedido pelo respectivo Conselho. 
7 
 
Esse é um ponto que precisa ser ressaltado, para se evitar possíveis divergências 
de interpretação. 
Entende-se, de maneira bem simplificada, que o Título Profissional de 
Especialista é concedido pelo CFP, conforme regulamentado pela Resolução 
014/00 (CFP, 2000). Por outro lado, os cursos de pós-graduação são aqueles 
oferecidos por instituições reconhecidas pelo MEC (como o nosso caso). 
Diferentemente do título de Especialista, que visa um título profissional, num 
curso de pós-graduação – como este que você está cursando – o título é 
acadêmico. 
Em relação à formação acadêmica do psicólogo jurídico, a citação a 
seguir complementa o que já foi falado e responde claramente ao nosso 
questionamento: “Por que a especialização em psicologia jurídica?”: 
Certamente este panorama que passamos a denominar de psico-jurídico 
alerta as instituições responsáveis pela formação de psicólogos, que os 
novos profissionais interessados neste campo de atuação, deverão ter 
formação generalista e buscar sua especialização após a graduação. As 
diretrizes curriculares aprovadas para os cursos de Psicologia propõem 
esta formação genérica, dada a importância que se domine de maneira 
aprofundada os conhecimentos básicos em Psicologia, para depois 
adequá-los às várias necessidades que se apresentam na atualidade. 
Portanto, temas como Psicologia do Desenvolvimento e da 
Personalidade, Psicopatologia, Teorias e Técnicas de Avaliação 
Psicológica e Intervenção, dentre outros, são fundamentais para a 
inserção do psicólogo no campo jurídico. A partir daí, o profissional pode 
ser beneficiado pela formalização de espaços acadêmicos que incitem a 
reflexão, a crítica e o estudo da prática psicológica na justiça, fornecendo 
subsídios para atuação inovadora e contextualizada à realidade 
brasileira (ROHERIG, 2007, p.22). 
 
A citação mostra, também, que para a formação do psicólogo jurídico 
temas como Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade, Psicopatologia, 
Teorias e Técnicas de Avaliação Psicológica e Intervenção, dentre outros, são 
essenciais. Sabemos que esses temas são presentes em todos os cursos de 
graduação, mas, em nível de pós-graduação, faz-se necessário recapitulá-los e 
aprofundá-los, porém voltando o seu enfoque para o curso em questão. Isso será 
feito nesta apostila, que trata de muitos desses temas, e em outras. 
Realizamos a divisão desses temas ao longo do curso de forma que cada 
tema básico, por assim dizer, apareça na apostila que versa sobre um assunto 
8 
 
diretamente relacionado ao mesmo. Objetivamos, com isso, facilitar os seus 
estudos e, consequentemente, promover uma melhor aprendizagem. 
Finalmente surge a última questão: “Vou aprender a lidar com testes?”. 
Os testes psicológicos não estão no escopo deste material. Os mesmos são 
apresentados ao futuro psicólogo na graduação e, posteriormente, caso ele tenha 
necessidade de aprofundar seus estudos na área, faz-se necessário cursar um 
curso específico na área. O Conselho Federal de Psicologia apregoa que a 
aplicação de testes é instrumento privativo do psicólogo, conforme expresso na 
Lei nº 4.119 (BRASIL, 1962), que fala sobre a avaliação psicológica. Portanto, 
interpretando essa diretriz à risca, consideramos que especificamente, a questão 
dos testes psicológicos não deva ser utilizada em EaD, já que não encontramos 
nenhum documento que se referisse explicitamente a essa situação. 
A EaD atualmente é uma ferramenta bastante positiva, pois promove a 
democratização da educação, principalmente onde não há formação presencial 
disponível para aquele quedeseja se aperfeiçoar. O aluno tem a vantagem de 
construir seu próprio conhecimento onde e quando for mais conveniente para ele, 
o que acaba por promover maior adesão aos estudos num ritmo próprio, diferente 
do padronizado nas salas de aula. Com este curso, pretendemos levantar várias 
discussões imprescindíveis ao trabalho do Psicólogo Jurídico. 
Os objetivos deste material encontram-se na primeira página. Os principais 
autores pesquisados foram Mira y López (2015), Página do Conselho Federal de 
Psicologia (CRP – Código de Ética Profissional e Resoluções), ROEHRIG (2007); 
Gazzaninga e Heatherton (2005), Fadiman e Frager (1986), Sternberg (2010), 
Hall e Lindzey (1984), dentre outros livros e artigos científicos indexados em 
bases de dados. 
9 
 
UNIDADE 1 – BREVE HISTÓRIA DA PSICOLOGIA 
 
A Psicologia percorreu um grande percurso histórico para atingir o status 
de ciência e profissão. Seria impossível delinear esse trajeto em poucas páginas, 
visto que muitas escolas diferentes foram surgindo – muitas das quais são 
utilizadas até hoje devido à sua credibilidade. 
Diversos investigadores descobriram técnicas diferentes que lhes 
permitiram chegar a diversas concepções para a descrição 
compreensiva dos fatos e leis da vida mental; por conseguinte, o estado 
atual se caracteriza pela simultânea existência de distintas escolas 
psicológicas; cada qual delas em sua esfera é digna de atenção e 
respeito, desde que não procure sair dos limites do empirismo para 
invadir o terreno da metafísica ou da filosofia (MIRA Y LOPÉZ, 2015, 
p.12). 
 
 Além disso, tomamos o cuidado de selecionar algumas escolas que 
possuem relação com o Direito, visto que compreendemos a Psicologia Jurídica 
como uma interface entre questões da Psicologia aplicadas ao contexto jurídico. 
A Psicologia e o Direito trazem muitos pontos em comum desde os seus 
primórdios – ambos são cursos da área de Humanas e uma de suas bases 
repousa na Filosofia: 
Normalmente os historiadores da Psicologia identificam suas primeiras 
raízes em duas abordagens diferentes para a compreensão da mente 
humana: 
 a Filosofia busca entender a natureza geral de muitos aspectos do 
mundo, parte por meio da introspecção, ou seja, o exame das ideias e 
experiências internas (intro = para dentro; spectione = olhar, 
inspecionar). 
 a Fisiologia busca um estudo científico das funções vitais dos 
organismos vivos, basicamente por meio dos métodos empíricos 
(baseados na observação) (STERNBERG, 2010, p.3). 
 
Diferentemente da Psicologia, o Direito não proveio da Fisiologia. Essa 
origem faz com que a Psicologia fique, muitas vezes, “no meio” entre as áreas de 
Humanas e de Saúde. Compreendemos que para a psicologia jurídica, essa base 
da fisiologia também se faz necessária, visto que o psicólogo que atua nessa área 
precisa compreender questões relacionadas ao cérebro, à psicopatologia, dentre 
outras questões que são de interesse da área da saúde. 
A partir dessas correntes psicológicas surgiram várias outras linhas, 
muitas das quais de vital importância para a psicologia enquanto ciência e 
10 
 
profissão até os dias de hoje. Entende-se que a psicologia pode ser aplicada 
diretamente pelo profissional da psicologia em diferentes contextos, como, por 
exemplo, clínico, educacional, hospitalar, jurídico, dentre outros, ao mesmo tempo 
que pode servir de subsídio para o entendimento do funcionamento psíquico do 
ser humano. Por isso, a psicologia é uma disciplina que serve como base para a 
formação de outros profissionais que também lidam com seres humanos – sejam 
das áreas da saúde, educação ou humanas, por exemplo – e carregam, desde os 
seus primórdios, as bases na filosofia e na fisiologia – assim como a psicologia – 
como pudemos observar nesse breve histórico. 
A palavra “Psicologia” remete ao grego psyché, que significa “alma”, e 
logos, que significa “razão”. Assim, inicialmente compreende-se psicologia como o 
estudo da alma (MAIA, 2008). 
Schultz e Schultz (1992) elucidam que para a sua efetivação enquanto 
ciência e profissão – tal como se estabeleceu nos dias de hoje – a psicologia 
sofreu influência da fisiologia e da filosofia. 
“Sabe-se que a psicologia se desenvolveu no fim do século XIX como 
fruto da filosofia e da fisiologia experimental” (HALL, LINDZEY, 1984, p.3). 
Descartes (1596-1650) inaugurou a psicologia moderna ao sugerir que a 
mente influencia o corpo, ao mesmo tempo em que o corpo pode exercer sobre a 
mente uma influência maior do que até então se supunha, o que é um grande 
avanço, pois, desde as ideias de filósofos clássicos, como Platão, acreditava-se 
que a mente (ou alma) e o corpo possuíam naturezas diferentes. Observa-se que 
aqui já não se fala mais em alma, como na definição clássica de psicologia, mas 
em mente (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992). 
A ideia mais radical de Descartes foi sugerir que, embora a mente 
conseguisse afetar o corpo, o corpo também conseguia afetar a mente. 
Por exemplo, ele acreditava que paixões, como amor, ódio, tristeza, 
surgiam do corpo e influenciavam os estados mentais, embora o corpo 
agisse sobre essas paixões por meio de seus mecanismos. Dessa 
maneira, Descartes aproximou mente e corpo ao focalizar suas 
interações (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005, p.48). 
 
Retomando a ideia que levantamos anteriormente sobre as diversas 
escolas psicológicas existentes, citaremos a seguir nove grandes direções 
metodológicas da Psicologia enumeradas por Mira y López como aquelas que 
possuem conexão direta com o Direito. Optamos por esse livro texto, visto que é 
11 
 
um material de renome na área, cuja primeira edição data de 1932 e é uma obra 
que sempre ganha novas edições devido à sua grande importância. Porém, 
ressaltamos que não iremos aprofundar no estudo de todas essas escolas, 
apenas as que se mostrem mais relevantes para nós no momento, pois não 
podemos desconsiderar que em grande parte de sua trajetória profissional, o 
autor não esteve no Brasil (o que pode modificar o foco), além do que, com o 
passar dos anos, novas tendências também foram surgindo. Assim, pretendemos 
discorrer de forma mais aprofundada sobre poucas escolas, escolhidas por serem 
relacionadas à psicologia jurídica, mas também por serem uma tendência na 
psicologia brasileira atual. A tabela a seguir mostra essas correntes psicológicas: 
 
Tabela 1: Direções metodológicas da psicologia relevantes para a Psicologia 
Jurídica 
Escola Psicológica Principais representantes 
Funcionalismo (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992) Münsterberg (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992) 
Psicologia Condutista ou Condutismo Watson 
Psicologia da Forma, Configuracional ou 
Gestalt 
Wertheimer 
Psicanálise e Neoanálise Freud 
Alexander 
Psicologia Personalística Stern 
Psicologia Genético-Evolutiva Krueger 
Werner 
Psicologia Neuro-Reflexológica Betchterew 
Pavlov (no nosso material também representa 
o Behaviorismo ou Comportamentalismo) 
Psicologia Tipológica Kretschmer 
Sheldon 
Psicologia Patológica Jaspers 
Janet 
Psicologia Social Murphy 
Allport 
Fonte: adaptado de Mira y López (2015, p.13-14) e Schultz e Schultz (1992). 
 
12 
 
Os nomes das escolas e dos autores que aparecem em destaque na 
tabela sinalizam aqueles que serão abordados mais detalhadamente a seguir. 
 
1.1 Funcionalismo 
Não iremos aprofundar nos métodos apregoados pela corrente do 
funcionalismo, aqui o nosso objetivo se restringe a falar brevemente sobre as 
escolas que, de alguma forma, relacionam-se diretamente com a psicologia 
jurídica. 
Uma Escola anterior, o Estruturalismo, estudava, como diz o nome, as 
estruturas psicológicas, já o Funcionalismo voltou seu foco para o funcionamento 
daconsciência, ou seja, “a utilidade ou o propósito dos processos mentais para o 
organismo vivo em suas permanentes tentativas de adaptar-se ao seu ambiente”. 
Observa-se, a partir dessa definição, que o termo “funcionalismo” não foi 
claramente definido, fato esse que abriu margem para várias críticas a essa 
escola psicológica (SCHULTZ, SCHULTZ, 1992, p.143). 
Segundo o funcionalismo, a mente passou a existir no decorrer da 
evolução humana e funciona do jeito que funciona porque é útil para 
preservar a vida e transmitir genes para futuras gerações. Em outras 
palavras, ela ajuda o organismo a se adaptar às demandas ambientais. 
Em termos do problema mente-corpo, a maioria dos funcionalistas via os 
estados mentais como resultantes das ações biológicas do cérebro, o 
que caracterizaria a mente por ser ela própria um mecanismo fisiológico 
(GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005, p.51). 
 
Essas ideias do funcionalismo fizeram com que os psicólogos se 
interessarem a tornar a psicologia mais prática, ou seja, buscaram aplicar os 
conhecimentos em psicologia aos problemas da vida real, ao invés de se focarem 
apenas aos estudos em laboratório. A partir da investigação do funcionamento 
psicológico de animais, crianças, povos primitivos e pessoas com deficiência 
mental é possível para o psicólogo descobrir variações significativas e úteis na 
vida mental (SCHULTZ, SCHULTZ, 1992). 
“O Funcionalismo busca entender o que as pessoas fazem e por que o 
fazem” (STERNBERG, 2010, p.5). 
Apesar de não existir hoje enquanto corrente psicológica, o funcionalismo, 
enquanto atitude ou perspectiva geral, tornou-se parte da principal corrente de 
13 
 
psicologia americana. Um ponto que merece destaque em nosso estudo de 
psicologia jurídica é que essa escola desenvolveu, além do método de 
introspecção (que não será detalhado), outras técnicas para a obtenção de dados, 
como os testes mentais, os questionários e as descrições objetivas de 
comportamento (SCHULTZ, SCHULTZ, 1992). 
De acordo com Sternberg (2010), o funcionalismo apregoava que a chave 
para a compreensão da mente humana e dos comportamentos era entender 
como a mente funciona, por que funciona, dentre outras indagações relacionadas 
ao funcionamento da mente. 
Münsterberg foi um nome de destaque nessa corrente devido ao fato de 
buscar a aplicação da psicologia em diversas áreas, inclusive a forense. 
Münsterberg escreveu uma série de artigos sobre tópicos como o uso da 
hipnose no interrogatório dos suspeitos, formas de evitar o crime, 
detecção de pessoas culpadas por meio do uso de testes mentais e o 
caráter inconfiável das testemunhas oculares. [...] Em 1908, ele publicou 
On the Witness Stand (No Banco das Testemunhas), que descrevia os 
problemas das testemunhas oculares. A obra também considerava 
outros fatores psicológicos que podem afetar o resultado de um 
julgamento, tais como as falsas confissões, o poder de sugestão no 
interrogatório de testemunhas e o uso de medidas fisiológicas (a taxa de 
batimentos cardíacos, a pressão sanguínea, a resistência da pele) para 
detectar estados emocionais alterados num suspeito ou réu (SCHULTZ, 
SCHULTZ, 1992, p.199). 
 
A questão do testemunho ocular é um tema relacionado aos processos 
psicológicos básicos e merece investigação até nos dias de hoje. Numa outra 
seção desta mesma apostila, iremos falar mais sobre isso. 
 
1.2 Psicologia da forma (Gestalt) 
“De acordo com a teoria da Gestalt, o todo da experiência é muito maior 
do que simplesmente a soma de seus elementos constituintes, ou o todo é muito 
maior do que a soma das partes” (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005, p.52). 
A gestalt é também denominada psicologia da forma. Estudos mostram 
que a percepção dos objetos é subjetiva e dependente do contexto. Para 
comprovar essa hipótese, alguns desenhos (como o expresso na figura a seguir) 
foram apresentados para que diferentes pessoas os descrevessem. 
 
14 
 
 
Figura 1: Rosto e jarros 
Fonte: Canha (2014). 
Observa-se que há diferentes percepções da mesma figura. Há pessoas 
que primeiro enxergam dois rostos, outras visualizam um vaso. É difícil perceber 
as duas imagens ao mesmo tempo, mas a mesma pessoa pode visualizar ambas, 
uma de cada vez. 
Assim, a sua mente organiza a cena em um todo perceptivo, de modo 
que você vê o desenho de uma maneira específica. A lição importante da 
psicologia da Gestalt é que a mente percebe o mundo de forma 
organizada, que não pode ser dividida em seus elementos constituintes 
(GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005, p.52-53). 
 
Mesmo parecendo uma escola voltada apenas ao estudo da percepção, a 
psicologia da Gestalt também contribui com a Psicologia Jurídica, visto que os 
fenômenos perceptivos que essa escola aborda não são apenas os objetivos, 
como também os subjetivos, também passíveis de uma interpretação: 
[...] o ato delituoso é também uma estrutura (Gestalt) que não pode ser 
esmiuçada ou decomposta – como fazem os juristas – para ser 
deduzida. Toda tentativa de “análise” do delito, no sentido clássico, está 
sujeita a chegar a conclusões errôneas e assim, por exemplo, ante a um 
crime é completamente errado perder tempo em considerar se o 
indivíduo deu uma punhalada a mais ou a menos, se elas foram ou não 
“necessariamente mortais” etc.; a situação deve ser, antes, concebida 
em suas origens e ser focalizada sem solução de continuidade até o 
desenlace. É o que fazem alguns defensores hábeis, mas lhe falta para 
merecer o qualificativo de científico não só a “objetividade” como 
também a “técnica” necessária para a recoleção, compreensão e 
avaliação dos mal denominados “antecedentes do delito” (MIRA Y 
LÓPEZ, 2015, p.21). 
 
Recapitulando, a partir de uma abordagem gestáltica só é possível 
compreender melhor os fenômenos psicológicos quando se olha para eles como 
15 
 
todos organizados e estruturados. Por outro lado, não é possível compreender 
totalmente o comportamento quando os fenômenos que o compõem são 
desmembrados em partes menores (STERNBERG, 2010). 
Essa abordagem reforça – como expresso na citação anterior – porque a 
análise de um delito pode ocasionar em interpretações errôneas caso o todo seja 
decomposto em partes analisadas separadamente. 
 
1.3 Behaviorismo 
Nessa subseção, pretendemos apenas apresentar a escola behaviorista e 
a contribuição de um de seus principais teóricos para a evolução da psicologia 
jurídica. Na seção a seguir, retomaremos ao estudo desse tema, porém voltado 
para a dinâmica da personalidade. 
“Behaviorismo – nasceu nos Estados Unidos, com Watson, elevando o 
status de ciência à psicologia.” (MAIA, 2008, p.16). 
Seu fundador foi Watson (1878-1958), mas teve também outros nomes de 
grande importância, Skinner (1904-1990) e Pavlov (1849-1936). O behaviorismo 
ou comportamentalismo enfatiza o papel do ambiente no comportamento 
(SCHULTZ; SCHULTZ, 1992; GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005). 
O behaviorismo ou comportamentalismo preconiza uma abordagem mais 
científica da psicologia e, em linhas gerais, enfatiza o papel das forças ambientais 
no comportamento humano. Os primeiros estudos dos behavioristas 
(comportamentalistas) aconteceram em laboratórios de psicologia, com animais. 
(GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005). 
Para o behaviorismo há dois tipos de comportamento que merecem 
destaque para nós: o respondente e o operante. Segundo Schultz e Schultz 
(1992), no comportamento respondente “a resposta comportamental é suscitada 
por um estímulo observável específico” (p.281), enquanto que no 
condicionamento operante “a resposta do organismo é aparentemente 
espontânea – no sentido de não estar relacionada com nenhum estímulo 
observável” (p.281). 
Pavlov não representou apenas o behaviorismo, mas tambéma corrente 
denominada psicologia neuro-reflexológica, linha essa que contribuiu com a 
evolução da psicologia jurídica. Seu estudo baseia-se no estudo sistemático dos 
16 
 
reflexos condicionados e explica todas as reações dos indivíduos a partir da 
interação de dois processos fundamentais: a excitação e a inibição. Esses 
processos atuam nos diversos planos funcionais do sistema nervoso central 
(MIRA Y LÓPEZ, 2015). 
Com base nesses fundamentos, torna-se relevante para o psicólogo 
jurídico refletir que: 
A concepção neuro-reflexológica explica, igualmente, a ineficácia das 
sanções (penas e castigos) para conseguir evitar a reincidência: esta 
requereria a formação de um deflexo condicional negativo ante a 
situação delitógena e para isso, os estímulos inibidores teriam que ser 
aplicados de um modo que estivessem de acordo com as leis de 
formação e extinção desse tipo de reflexo, o que não sucede agora nem 
por causalidade, uma vez que a sanção é sempre a posteriori, distante e 
continuada (isto é, sem intervalos) (MIRA Y LÓPEZ, 2015, p.23). 
 
1.4 Psicanálise 
Daremos bastante ênfase no estudo da Psicanálise ainda nesta apostila, 
quando iremos expor a dinâmica da personalidade do indivíduo. Agora 
pretendemos apenas explanar brevemente sobre essa importante escola e 
associar alguns de seus conceitos à psicologia jurídica. 
“Psicanálise – nasceu com Freud, na Áustria, a partir da sua prática 
médica. Postula o inconsciente como objeto de estudo. Enfatiza que 
determinados impulsos instintivos seriam de origem sexual” (MAIA, 2008, p.16). 
Ao contrário das escolas psicológicas da época que enfatizavam o estudo 
do consciente, Freud propôs um novo ponto de vista ao considerar a importância 
do inconsciente na dinâmica da personalidade e no surgimento das neuroses. 
Além disso, postulou que a sexualidade é o cerne de grandes conflitos 
inconscientes. 
Freud deduziu que grande parte do comportamento humano é 
determinada por processos mentais que operam abaixo do nível do 
conhecimento consciente, no nível do inconsciente. Freud acreditava que 
as forças mentais inconscientes muitas vezes entravam em conflito, o 
que produzia desconforto psicológico e, em alguns casos inclusive, 
alguns transtornos mentais aparentes (GAZZANIGA; HEATHERTON, 
2005, p.53). 
 
Segundo Freud (1856-1939 apud JORGE; FERREIRA, 2002, p.7-8), 
criador da psicanálise: “Todas as criações humanas, sem exceção – os esportes, 
17 
 
as artes, a ciências etc. -, estão ancoradas num desejo sexual indestrutível que 
constitui o núcleo do inconsciente” 
O objetivo da psicanálise freudiana é trazer à percepção consciente 
lembranças ou pensamentos reprimidos, que ele supunha ser a fonte do 
comportamento anormal do paciente. [...] Mediante a livre associação, 
Freud descobriu que as lembranças do paciente iam invariavelmente à 
infância, e que muitas das experiências reprimidas de que o paciente se 
recordava tinham relação com questões sexuais (SCHULTZ; SCHULTZ, 
1992, p.335). 
 
A psicanálise enquanto método de intervenção psicológica visa à cura das 
neuroses através do processo de associação livre – expresso na citação anterior. 
As primeiras pacientes curadas pela psicanálise foram as histéricas e, através das 
sessões com as pacientes, Freud pôde compreender melhor o funcionamento 
psíquico, a etiologia e a cura das neuroses. 
O mecanismo de recalque (ou repressão) é compreendido como um 
mecanismo de defesa do ego, opera inconscientemente, de modo que a pessoa 
não tem consciência do que está acontecendo. Ao reprimir (recalcar) um 
conteúdo, a pessoa está enviando para o inconsciente algum tipo de conteúdo 
que causa dor, sofrimento, vergonha, repulsa ou medo muito grandes a ela, de 
forma que o sofrimento de ligar com esses sentimentos iria trazer prejuízos muito 
grandes ao seu ego. Hall e Lindzey (1984, p.39) ilustram sobre o processo de 
reclaque (repressão): 
As repressões, uma vez formadas, são difíceis de desfazer. A pessoa 
procura assegurar-se de que o perigo não existe mais, o que só 
consegue quando a repressão é suspensa e a realidade pode ser 
encarada de frente. É como um círculo vicioso. Essa é a razão por que o 
adulto conserva medos infantis. Nunca tem a possibilidade de descobrir 
que esses medos têm base na realidade. 
 
A Psicanálise – assim como o funcionalismo, a gestalt, o behaviorismo e 
as outras escolas que não iremos enfatizar aqui – também contribuiu para a 
psicologia jurídica. Mira y López (2015) afirma que a psicanálise oferece à 
psicologia jurídica subsídios para a compreensão da conduta delituosa, da 
psicologia do testemunho, de algumas atitudes reivindicatórias e de alguns erros 
judiciais cometidos até mesmo por juízes experientes. 
18 
 
Um ponto central na teoria de Freud (que será apenas superficialmente 
abordado aqui devido à sua complexidade) e diretamente relacionado com a 
psicologia jurídica é a transferência. Esse fenômeno foi observado por Freud na 
relação que seus clientes estabeleciam com ele – o analista: 
A transferência é uma manifestação do universo subjetivo do paciente, 
que encontrou na figura de determinado cuidador a possibilidade de 
manifestação, pois é compatível com as condições de relação 
previamente estabelecidas pelo sujeito. É a transferência de sentimentos 
de amor, raiva e ódio que muitas das vezes os pacientes nos remetem 
(ALVES; OLIVEIRA, 2010, p.67). 
 
Mira y Lopéz (2015) elucida que o princípio da transferência é de grande 
interesse para o profissional da área jurídica, pois esse explica inúmeras 
transgressões (simbólicas) que acontecem no dia a dia da rotina judiciária. O 
princípio da repressão (censura ou reclaque) ilustra que certas situações (de 
alguma forma interpretadas como agressivas pelo indivíduo) são “expulsas” da 
consciência e tornam-se conteúdo inconsciente, impossível de ser lembrado. O 
autor ilustra o delinquente que vive lutando contra o seu remorso. 
 
1.5 Psicologia social 
Assim como elucidamos nas subseções anteriores, este tema também 
será aprofundado na seção a seguir, por isso aqui, iremos apenas definir 
conceitos básicos acerca dessa área da psicologia que também oferece subsídios 
para a psicologia jurídica. 
Partimos do pressuposto de que o homem é um ser social, ou seja, as 
interações que se estabelecem com outras pessoas moldam quem somos e como 
compreendemos o mundo. A psicologia social é o ramo da psicologia que 
investiga a influência das outras pessoas no modo do indivíduo pensar, sentir e 
agir (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005). 
A psicologia social investiga temas como estereótipos, preconceitos, 
agressividade, dentre outros. Focaremos no estudo da agressividade – devido à 
sua íntima relação com o delito – na próxima seção desta apostila. 
As reações do indivíduo passam a ser compreendidas considerando-se 
alguns fatores, tais como o ambiente social; a pressão social e as contrapressões 
19 
 
que o indivíduo sofre e exerce em suas inter-relações; os recursos disponíveis 
(considerando-se tempo, lugar e circunstância social) para garantir o melhor 
ajustamento possível das equações indivíduo X grupo e grupo X indivíduo (MIRA 
Y LOPÉZ, 2015). 
A partir dessa perspectiva, investigaram-se as ideologias, aspirações, 
propósitos e condutas de pessoas caracterizadas como frustradas e desajustadas 
socialmente. Esse tipo de estudo é muito válido para a psicologia jurídica e 
também marca um novo olhar sobre os comportamentos delinquentes: estes 
deixam de ser atribuídos apenas ao individuo, mas também aos grupos: 
Principalmente, o estudo das oscilações da agressividade, das mutações 
radicais do nível de aspirações e dos fatos mais convenientes para uma 
mudança de atitudeou de opinião em diversos problemas de conduta, 
conduziram a uma nova concepção e enfoque das transgressões legais, 
quanto à sua profilaxia e correção coletivas. De acordo com isso, já não 
se trata o delinquente isolado, mas procura também tratar e corrigir 
grupos delinquenciais, podendo estabelecer-se uma verdadeira 
terapêutica social, baseada em fatos psicológicos irrefutáveis (MIRA Y 
LOPÉZ, 2015, p.28). 
20 
 
UNIDADE 2 – TEORIAS DA PERSONALIDADE 
 
2.1 O que é personalidade 
Compreender o conceito de personalidade (ou aprofundar o seu estudo) 
se faz necessário para o psicólogo que deseja atuar em diferentes áreas, 
inclusive a jurídica, visto que a sociedade e a justiça muitas vezes precisam 
compreender se fatores subjacentes à personalidade de determinado indivíduo 
influenciaram o acontecimento de determinada situação, por exemplo. A 
personalidade é a marca característica do indivíduo, mas não é imóvel, sofre 
transformações. 
A personalidade, síntese funcional do organismo humano, não pode de 
modo algum ser concebida como alguma coisa rígida e estática, incapaz 
de evoluir no tempo; ao contrário, o indivíduo modifica-se com a idade e, 
do mesmo modo, como as marcas dessa alteração se traduzem em 
modificações corporais morfológicas, dão lugar também a alterações do 
aspecto de sua personalidade. Existe, até certo ponto, uma norma geral 
de evolução da personalidade, de suma importância para o jurista, pois, 
sem seu conhecimento não chegará nunca a compreender devidamente 
os problemas psicológicos suscitados por seus clientes (MIRA Y LOPÉZ, 
2015, p.67). 
 
Partimos do pressuposto de que a personalidade garante a singularidade 
psicológica do indivíduo (assim como comparamos que sua composição genética 
carrega componentes que o caracterizam como indivíduo único). A personalidade 
se estrutura a partir da interação de um potencial herdado em contato com o 
ambiente. 
Segundo Mira y López (2015), o recém-nascido nasce em situação de 
total vulnerabilidade e não tem condições de sobreviver sem os cuidados dos 
pais. Entretanto, esse pequeno ser é dotado de um potencial energético 
transmitido através da hereditariedade e, a partir desse potencial e dos estímulos 
presentes no meio em que ele está inserido, desenvolve uma série de reações, 
cada vez mais complexas, que irão constituir sua vida interior, de 
autoconhecimento, que o levará à categoria de ser consciente dotado de uma 
personalidade que lhe é peculiar. 
Procuraremos abordar nessa seção algumas teorias da personalidade, 
considerando a diversidade de aspectos, segundo os teóricos seguidores da 
mesma, que influenciam na estrutura da personalidade humana. Existem diversas 
21 
 
teorias de personalidade, porém, para fins didáticos, selecionamos apenas 
algumas. Sabemos que cada teoria da personalidade carrega consigo 
características de extrema importância, mas como o intuito desse material é 
relacionar as teorias com a práxis do psicólogo jurídico, procuraremos abordar 
apenas as mais relacionadas ao assunto. 
Segundo a abordagem psicodinâmica, os motivos e conflitos 
inconscientes que são experienciados durante toda a vida, mas 
especialmente na infância, moldam a personalidade. Os humanistas 
acreditam que cada pessoa é única e capaz de realizar um grande 
potencial. Os teóricos do traço descrevem o comportamento das 
pessoas com base em disposições de traços. Os teóricos cognitivo-
sociais focalizam como as interpretações e crenças cognitivas afetam a 
percepção das pessoas de seu ambiente social. Essas variadas 
abordagens não se opõem, necessariamente, umas às outras. Elas 
compartilham o objetivo comum de tentar compreender de que maneira 
as pessoas são semelhantes e diferentes entre si (GAZZANINGA; 
HEATHERTON, 2005, p.479). 
 
Existem várias teorias, as quais divergem e convergem em vários 
aspectos, e podem ser definidas como tentativas desses diferentes teóricos para 
formular ou representar aspectos significativos do comportamento humano. 
Falamos sobre personalidade desde em rodas de conversa informais até nos 
meios acadêmicos, mas o que é personalidade? 
Gazzaninga e Heatherton (2005) definem que: 
A personalidade se refere às características, respostas emocionais, 
pensamentos e comportamentos do indivíduo que são relativamente 
estáveis ao longo do tempo e em diferentes circunstâncias. Os 
psicólogos da personalidade estudam os processos básicos que 
influenciam o desenvolvimento da personalidade em diversos tipos de 
análise, tal como a influência da cultura, aprendizagem, biologia e fatores 
cognitivos. Ao mesmo tempo, os que estudam a personalidade estão 
mais interessados em compreender pessoas na sua totalidade. Isto é, 
eles tentam entender o que torna cada pessoa única. (p.471) 
 
Já Hall e Lindzey (1984), importantes teóricos sobre o assunto, afirmam 
que é impossível definir personalidade de forma geral, sem, para isso, lançar mão 
dos conceitos de determinada teoria. Os autores enumeram alguns aspectos que 
se relacionam ao conceito, como habilidades sociais (caracterizam-se o indivíduo 
a partir de traços de personalidade, sejam eles positivos, ou negativos, como, por 
exemplo, uma “personalidade agressiva”); mediadora ao ajustamento do 
indivíduo; essência do homem (aquilo que é mais característico do indivíduo). 
22 
 
Gazzaninga e Heatherton (2005) acrescentam que, dentre as diferentes teorias da 
personalidade existentes, atribuem-se como fatores determinantes da 
personalidade fatores biológicos e genéticos, cultura, padrões de reforço ou 
processos mentais e inconscientes. 
Falamos em traços de personalidade ao nos referir a características das 
pessoas, como, por exemplo, extrovertidas e introvertidas. Esses traços de 
personalidade podem ser definidos como uma tendência para a pessoa agir de 
determinada maneira, ao longo dos anos, em diferentes situações 
(GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). 
 
2.2 Desenvolvimento da personalidade 
Antes de explorarmos algumas teorias da personalidade iremos 
apresentar brevemente como ocorre a evolução da personalidade. 
 
Tabela 2: Evolução da personalidade ao longo do desenvolvimento humano 
Período Características principais 
Infância - Curiosidade, experimentação. Divide-se em quatro períodos: 
 período dos interesses perceptivos – a criança volta-se para tudo o que 
estimula os seus órgãos sensoriais; 
 período dos interesses glóssicos – por volta do segundo ano há o 
desenvolvimento da linguagem e expansão do vocabulário; 
 período dos interesses intelectuais gerais – por volta dos quatro anos, 
fase dos “por quês”; 
 período dos interesses especiais – dos sete aos doze anos, o interesse da 
fase anterior torna-se mais especializado. 
 
- Na criança menor é notável a presença do pensamento mágico 
(projeção da personalidade infantil para o exterior, não distingue fantasia 
e realidade). 
- Com o passar dos anos, a criança começa a realizar a separação entre 
o real e o imaginário e apresentar ambivalência (reação oposta ante um 
mesmo estímulo: de um lado a partir de sua própria concepção, por outro 
lado, dependente da concepção objetiva proveniente dos adultos ao seu 
redor). 
- Entre 10 a 12 anos a personalidade distingue perfeitamente fantasia de 
realidade (juízo de realidade); o pré-adolescente já sabe a conduta social 
adequada para cada situação. 
Juventude  Pensamento abstrato (capacidade de estabelecer relações lógicas entre 
conceitos gerais). 
 Aquisição de responsabilidade social. 
 Término do desenvolvimento da sexualidade. 
 A personalidade adolescente organiza e pondera conhecimentos 
23 
 
concretos adquiridos anteriormente e estabelece seus conceitos e 
crenças gerais. 
 Excesso de agressividade, desejode independência que oscila com 
períodos de regressão à Infância. 
 Parece que a família não se encontra totalmente preparada para 
favorecer a normal evolução da personalidade do jovem, o que faz com 
que muitos adolescentes dissimulem sua própria personalidade em casa. 
 “A consideração desses fatos psicológicos é da maior importância para 
compreender múltiplos problemas suscitados pela delinquência infantil; 
toda a afetividade encontra-se exagerada e transformada ao ter que se 
adaptar a novas concepções ideológicas, até então não suspeitadas. [...] 
Nessa época podem dar mostras, ao mesmo tempo, do maior egoísmo e 
do mais sublime altruísmo, da mais fina sensibilidade e da mais fria 
indiferença ou ‘impermeabilidade sentimental’, por isso, devemos evitar 
bastante estabelecer um prognóstico da definitiva evolução moral ou 
caracterológica de um jovem, sem conhecer se seus fatos atuais 
correspondem ao observado na infância” (p.73). 
Estado 
adulto 
 Personalidade estruturada, o que permite o seu melhor reconhecimento e 
classificação. 
 Equilíbrio entre a atitude agressiva e romântica juvenil e a atitude 
medrosa e positivista da velhice. 
 “No campo psicológico social, isso é, da conduta delituosa, é 
característica masculina a menor frequência com que faz uso da 
violência, mas com menor intensidade desta; em troca, é característica 
feminina a fácil ‘perda de controle’, mas com as leves consequências 
dessa queda moral” (p.87). 
 Acentuam-se as diferenças psicológicas entre homem e mulher: 
Homem Mulher 
 Culto ao poder e à força. 
 Propensão para a conquista. 
 Interesse fundamental. 
 Tendência à experimentação. 
 Tendência à abstração. 
 Prefere o prestígio. 
 Usa mais julgamentos de 
forma. 
 Tendência à atitude sádica. 
 Encoleriza-se mais que 
assusta. 
 Maior resistência à pena que à 
dor (física). 
 Decisões rápidas. 
 Dificuldade de confessar seus 
erros. 
 Maior conhecimento lógico. 
 Mobilidade ampla, segura, 
enérgica, angulosa. (p.86-87). 
 Culto ao querer e à graça. 
 Propensão para a conservação. 
 Interesse pelo detalhe. 
 Tendência à contemplação. 
 Prefere o gozo. 
 Usa mais julgamentos de valor. 
 Tendência à atitude masoquista. 
 Suporta mais a dor do que a 
pena. 
 Tendência à dúvida, admite 
mais facilmente seus erros. 
 Maior conhecimento intuitivo. 
 Mobilidade suave, grácil, 
delicada e curvilínea (p.87). 
 
Maturidade  Alteração do funcionamento genital normal e na dinâmica das relações 
familiares (saída dos filhos de casa, promoção a posições sociais ou 
profissionais diferentes, etc). 
 Proximidade com a velhice e com o inevitável fim da vida faz com que as 
tendências egoístas da personalidade atinjam seu ápice. 
24 
 
Velhice ou 
senilidade 
 Progressiva diminuição da eficiência das funções psicológicas, dentre elas 
a atenção, o que faz com que as pessoas mais velhas sejam más 
testemunhas, mesmo se apresentarem boa fé. 
 Tendência a apresentar reações psicológicas de prejuízo ou perseguição 
(o que pode gerar boletins de ocorrência ou processos que não são 
embasados na realidade, mas no estado senil). 
 Necessidade de modificação de testamentos pode ser complicada para o 
idoso e os herdeiros. 
Fonte: Adaptado de Myra y López (2015). 
 
A seguir tentaremos expor duas teorias que realizaram o estudo da 
personalidade, porém vale a pena ressaltar que todas são teorias bastante 
complexas e muito embasadas. Para fins didáticos, selecionamos apenas 
aspectos de cada teoria que irão se relacionar com os temas abordados ao longo 
do curso, portanto, muitos pontos também importantes de cada uma não serão 
abordados aqui. 
 
2.3 Teorias psicodinâmicas 
A principal teoria psicodinâmica é a teoria de Freud, a qual será 
explicitada a seguir. Entende-se por psicodinâmicas por que são teorias que 
enfatizam os processos inconscientes e dinâmicos. O principal pressuposto da 
teoria da personalidade de Freud é que as forças inconscientes (instintos – 
pulsões), como os desejos e motivos influenciam o comportamento humano. 
Para Freud, o corpo é a fonte básica de toda experiência mental. Ele 
apregoa a ideia do determinismo psíquico, ou seja, cada evento mental decorre 
de intenções conscientes ou inconscientes (a grande maioria), em outras 
palavras, do ponto de vista psíquico nada ocorre como obra do acaso (FADIMAN; 
FRAGER, 1986). 
No estudo sobre a personalidade numa perspectiva psicodinâmica, 
partiremos do ponto em que Freud propôs a divisão da mente em três partes: o 
consciente, o pré-consciente e o inconsciente. Na primeira tópica da 
personalidade Freud propôs o modelo topográfico da mente, em que comparou a 
mente com um iceberg. 
 
25 
 
 
Figura 2: Modelo topográfico da mente. 
Fonte: EXPANDIR A MENTE (2009). 
 
Em síntese, pode-se compreender sobre cada uma dessas instâncias que 
compõem a primeira tópica do aparelho psíquico (FADIMAN; FRAGER, 1986): 
 Consciente – contém pensamentos dos quais as pessoas estão cientes. 
Recebe informações do mundo exterior e interior (percepção, atenção, 
raciocínio – processos cognitivos); 
 pré-consciente – zona intermediária que abriga conteúdos que não estão 
corretamente no inconsciente, mas podem ser trazidos à consciência com 
um certo esforço. “O pré-consciente é como uma vasta área de posse das 
lembranças de que a consciência precisa para desempenhar suas funções” 
(FADIMAN; FRAGER, 1986, p.8); 
 inconsciente – parte maior, mais importante e mais profunda do iceberg. O 
inconsciente contém desejos e motivos que estão associados a conflitos, 
ansiedade, sofrimento e o mecanismo de recalque (ou repressão) os 
deixam inacessíveis, protegendo a pessoa da angústia. Os conteúdos 
inconscientes são impossíveis de serem lembrados de forma voluntária. 
Gazzaninga e Heatherton (2005) complementam que, para Freud, na 
mente inconsciente há desejos e motivos carregados de conflitos, 
ansiedade e sofrimento – por isso, esses conteúdos não se localizam a 
26 
 
nível consciente, protegendo, assim, a pessoa da angústia. Em algumas 
situações esses conteúdos inconscientes escapam para o consciente de 
maneira involuntária, através dos sonhos, chistes, atos falhos (chistes e 
atos falhos são lapsos da linguagem), sintoma (quando os conflitos 
extrapolam o nível da linguagem e aparecem no corpo, na forma de dor ou 
doença), associação livre (o método do tratamento analítico – mencionado 
na seção anterior). 
No inconsciente estão elementos instintivos, que nunca foram 
conscientes e que não são acessíveis à consciência. Além disso, há 
material que foi excluído da consciência, censurado ou reprimido. Esse 
material não é esquecido ou perdido, mas não é permitido de ser 
lembrado. O pensamento e a memória ainda afetam a consciência, mas 
apenas indiretamente (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.7). 
 
O mecanismo de recalque (ou repressão) é compreendido como um 
mecanismo de defesa do ego. Opera inconscientemente, de modo que a pessoa 
não tem consciência do que está acontecendo. Ao reprimir (recalcar) um 
conteúdo, a pessoa está enviando para o inconsciente algum tipo de conteúdo 
que causa dor, sofrimento, vergonha, repulsa ou medo muito grandes a ela, de 
forma que o sofrimento de lidar com esses sentimentos iria trazer prejuízos muito 
grandes ao seu ego. Hall e Lindzey (1984, p.39) ilustram sobre o processo de 
reclaque (repressão): 
As repressões, uma vez formadas, são difíceis de desfazer. A pessoa 
procura assegurar-se de que o perigo não existe mais, o que só 
consegue quando a repressão é suspensa e a realidade pode ser 
encarada de frente. É como um círculo vicioso. Essa é a razão por que o 
adulto conservamedos infantis. Nunca tem a possibilidade de descobrir 
que esses medos têm base na realidade. 
 
Para compreendermos melhor a dinâmica da personalidade, faz-se 
necessário aprofundar o estudo sobre um conceito que já foi abordado: os 
instintos (ou pulsões). A denominação pode variar de acordo com a tradução da 
obra original de Freud para outras línguas primeiramente até chegar ao 
português. 
“Os instintos são pressões que dirigem um organismo para fins 
particulares” (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.8). 
27 
 
Os instintos são fatores propulsores da personalidade, já que 
impulsionam o comportamento e determinam a direção do mesmo. Diferente dos 
instintos animais, nos seres humanos, os instintos exercem controle seletivo 
sobre a conduta. Os estímulos podem ser tanto internos quanto externos e o 
desejo age como motivação para o comportamento. Alguns estímulos, como por 
exemplo, a fome, relacionam-se ao instinto de sobrevivência desde o nascimento 
e contribuem para a perpetuação das espécies (HALL; LINDZEY, 1984). 
Todo instinto tem quatro componentes: uma fonte, uma finalidade, uma 
pressão e um objeto. A fonte, quando emerge a necessidade, pode ser 
uma parte do corpo ou todo ele. A finalidade é reduzir a necessidade até 
que mais nenhuma ação seja necessária, e dar ao organismo a 
satisfação que ele no momento deseja. A pressão é a quantidade de 
energia ou força que é usada para satisfazer ou gratificar o instinto; ela é 
determinada pela intensidade ou urgência da necessidade subjacente. O 
objeto de um instinto é qualquer coisa, ação ou expressão que permite a 
satisfação da finalidade original (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.8). 
 
O funcionamento mental saudável consiste na redução da tensão para 
níveis aceitáveis, o que faz o organismo voltar ao estado de equilíbrio que era 
atingido antes do surgimento da tensão. Entretanto, alguns pensamentos e 
comportamentos não reduzem a tensão, pelo contrário, criam tensão, pressão ou 
ansiedade (FADIMAN; FRAGER, 1986). 
Para Freud, a personalidade é composta por três sistemas: id, ego e 
superego, os quais estão envolvidos em constantes conflitos e acordos psíquicos. 
“A um instinto opunha-se outro; proibições sociais bloqueavam pulsões biológicas 
e os modos de enfrentar situações frequentemente chocavam-se uns com os 
outros” (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.10). Segundo Hall e Lindzey (1984): 
O id é formado pelos aspectos psicológicos inatos, herdados, inclusive 
os instintos. Funciona de forma a descarregar a tensão interna do 
organismo e ocasionar prazer – o que ele denominou princípio do prazer. 
O ego seleciona a quais aspectos do meio reagirá, além de decidir quais 
instintos devem ser satisfeitos e de que modo. ‘A diferença básica entre 
o id e o ego reside em que o primeiro conhece somente a realidade 
subjetiva da mente, enquanto que o segundo faz a distinção entre as 
coisas da mente e as do mundo exterior’. O superego é o representante 
interno dos valores da sociedade, os quais são transmitidos pelos pais e 
reforçados pelos castigos e recompensas que foram impostos à criança 
‘De modo geral podemos considerar o id como o componente biológico 
da personalidade, o ego como o componente psicológico e o superego 
como o componente social’ (HALL; LINDZEY, 1984, p.27-28). 
 
28 
 
A meta fundamental da psique é manter – e recuperar, quando perdido - 
um nível aceitável de equilíbrio dinâmico que maximiza o prazer e 
minimiza o desprazer. A energia que é usada para acionar o sistema 
nasce no id, que é de natureza primitiva, instintiva. O ego, emergindo do 
id, existe para lidar realisticamente com as pulsões básicas do id e 
também age como mediador entre as forças que operam no id e no 
superego e as exigências da realidade externa. O superego, emergindo 
do ego, atua como um freio moral ou força contrária aos interesses 
práticos do ego. Ele fixa uma série de normas que definem e limitam a 
flexibilidade deste último (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.12). 
 
Os constantes conflitos entre o id e o superego podem levar à ansiedade 
e, em resposta a esta, o ego utiliza alguns mecanismos de defesa, que consistem 
em estratégias mentais inconscientes que a mente utiliza para proteger o 
indivíduo da angústia (GAZZANINGA HEATHERTON, 2005). 
Os principais mecanismos de defesa são a sublimação (não patológico), 
repressão, projeção, formação reativa e regressão. Os mecanismos de defesa 
(exceto a sublimação) negam, falsificam ou distorcem a realidade e operam 
inconscientemente (FADIMAN; FRAGER, 1986; HALL, LINDZEY, 1984). 
A tabela a seguir sintetiza os principais mecanismos de defesa: 
 
Tabela 03: Principais Mecanismos de Defesa 
Mecanismo de 
defesa 
Definição Exemplo 
Sublimação  Meio mais eficaz de adaptar-se 
a um desejo irrealizável, mais 
desenvolvido no adulto normal. 
 Energia destinada para fins 
agressivos ou sexuais, é 
canalizada para outras 
finalidades, como artísticas, 
culturais e acadêmicas. 
Pessoa com instinto sádico 
sublima os impulsos e 
transforma-se em cirurgião. 
Formação reativa  Atitude oposta ao do desejo, 
pois o ego procura afastar o 
desejo recalcado. 
 Aquilo que aparece (atitude) 
visa esconder do próprio 
indivíduo suas motivações e 
desejos, para preservá-lo de 
uma descoberta sobre si 
mesmo que poderia ser 
dolorosa. 
 
Pessoa com desejos 
homossexuais não 
reconhecidos faz frequentes 
comentários homofóbicos. 
Regressão  Retorno a etapas anteriores de 
seu desenvolvimento. 
Adulto que pede colo em 
situação de doença. 
29 
 
 Forma de expressão mais 
primitiva. 
 
Projeção  O indivíduo projeta ao mundo 
externo alguma característica 
sua e não percebe aquilo que 
foi projetado como algo seu 
que ele mesmo considera 
como indesejável. 
 “Esse mecanismo é também 
de particular importância, e o 
jurista deve conhecê-lo 
perfeitamente, pois é o 
responsável por um grande 
número dos denominados 
delírios de perseguição, 
origem de conflitos e litígios 
nos quais aquele deve intervir 
profissionalmente” (MYRA Y 
LÓPEZ, 2015, p.79). 
“A propósito, é típica a reação 
projetiva citada por Sanchis 
Banús em seu filho, de quatro 
anos, que, achando-se no 
jardim zoológico com seu avô 
e tendo se assustado por uma 
reação de cólera de um dos 
exemplares enjaulados, puxa 
a manga do velho e diz: 
‘Vamos embora, porque tu 
estás com muito medo’” 
(MYRA Y LÓPEZ, 2015, p.79). 
 
Repressão  Excluir da consciência a fonte 
da ansiedade. 
 Este aspecto que não é 
percebido pelo indivíduo faz 
parte de um todo e, ao ficar 
invisível, altera e deforma o 
sentido do todo. 
Não ouvir o “não” na frase 
“não fume”. 
 
Racionalização  O indivíduo cria uma 
argumentação 
intelectualmente convincente 
para justificar estados 
“deformados” de sua própria 
consciência. 
 Mecanismo mais consciente. 
 “A racionalização, como se 
depreende, desempenha um 
papel primordial em todas as 
declarações forenses, tanto de 
acusados como de 
acusadores, e é preciso toda a 
severidade do raciocínio 
lógico, precedida de uma fina 
seleção do material de fatos 
que serão discutidos, se quiser 
se destruir sua perniciosa 
ação.” (MYRA Y LÓPEZ, 2015, 
p.80). 
Justificativa dos nazistas para 
o extermínio. 
Identificação  O indivíduo assimila um 
aspecto, uma propriedade, um 
atributo do outro e se 
transforma, total ou 
parcialmente, segundo o 
modelo desta pessoa. 
 Mecanismo inconsciente 
Identificação da vítima com o 
agressor. 
Indivíduo para de odiar o rico 
quando também se sente rico. 
30 
 
Negação  Mecanismo mais simples e 
mais ineficiente. 
 O indivíduo apresenta 
objeções ao fundamento de 
seu desejo até que ele mesmo 
se conclui que não mais 
deseja aquilo. 
Pessoasque procuram um 
advogado para a resolução de 
assuntos econômicos e 
familiares e afirmam não 
serem movidas por nenhum 
tipo de interesse, já que esse 
mecanismo faz com que o real 
desejo não atinja a 
consciência. 
Realização imaginária 
do desejo 
 Mecanismo mais desenvolvido 
no jovem e na mulher. 
 Pessoa vive num mundo de 
ilusões. 
A pessoa perde várias 
oportunidades de realização 
de seus desejos por estar 
envolvida na satisfação 
imaginária dos mesmos. 
Catatimia  Mecanismo que justifica que a 
nossa percepção sofre 
influência de nossa tendência 
afetiva, ou seja, vemos as 
coisas como gostaria que 
fossem, não como realmente 
são. 
 “Tanto a percepção otimista 
como a pessimista serve 
definitivamente para o mesmo 
fim – a satisfação da tendência 
anterior da reação e, por 
conseguinte, devem ser 
estudadas e conhecidas sob o 
mesmo qualificativo” (MIRA Y 
LÓPEZ, 2015, p.78). 
A mãe vê seu filho como o 
melhor, parece enxergar 
apenas as suas características 
positivas e ainda exacerbá-las. 
Vemos apenas os defeitos do 
inimigo, independente de suas 
reais qualidades. 
Fonte: adaptado de Gazaninga e Heatherton (2005); Hall e Lindzey (1984); Fadiman e Frager 
(1986); Myra e López (2015). 
 
Como foi possível observar na tabela anterior, compreender os 
mecanismos de defesa é de suma importância para o profissional da psicologia 
que irá atuar na área jurídica. Esses mecanismos de defesa explicam o discurso 
de réus, vítimas e testemunhas, portanto, o profissional da área jurídica precisa 
conhecê-los, compreender que muitos são inconscientes e tentar identificá-los no 
discurso do cidadão em questão, seja ele quem for. 
Os mecanismos de defesa ilustram como o psiquismo reage diante de 
situações adversas, portanto, certas reações do sujeito tornam-se mais 
previsíveis e inteligíveis para o profissional da área jurídica – seja ele da área da 
Psicologia, do Direito, da Polícia, entre outras. Importante destacar que os 
mecanismos de defesa não aparecem apenas em situações adversas – como as 
muitas que acontecem nos meios forenses, prisionais e policiais – lançamos mão 
31 
 
dos mesmos em nosso dia a dia frente às pequenas ameaças às quais estamos 
expostos. Entretanto, no caso de situações que podem realmente ferir o indivíduo 
do ponto de vista físico ou psicológico, a ameaça torna-se real e o psiquismo, de 
forma inconsciente, tenta se adaptar às situações adversas de forma a evitar o 
sofrimento. 
 
2.4 Teorias comportamentalistas 
Na década de 1950, a maioria das teorias psicológicas da personalidade 
era fortemente determinista, isto é, a personalidade e suas 
características comportamentais associadas eram consideradas 
resultado de forças que estavam além do controle da pessoa. Como 
vimos, Freud acreditava que a personalidade era determinada por 
conflitos inconscientes. Em uma linha diferente, behavioristas como B. F. 
Skinner argumentaram que padrões de reforço determinavam tendências 
de resposta, que eram a base da personalidade (GAZZANINGA; 
HEATHERTON, 2005, p.474). 
 
Para Skinner, não há ego, eu ou personalidade, como a maioria dos 
teóricos costumam afirmar. Ao contrário das teorias psicodinâmica e humanista, 
por exemplo, no behaviorismo, os estudos são experimentais, científicos, o que 
inviabiliza o estudo da personalidade. “Se não podemos mostrar o que é 
responsável pelo comportamento do homem dizemos que ele mesmo é 
responsável pelo comportamento” (FADIMAN; FRAGER, 1986, p.208). 
Os comportamentalistas falam que, se formos pensar numa definição de 
personalidade, devemos entendê-la como uma coleção de comportamentos. 
Situações diferentes evocam diferentes padrões de resposta, sendo cada uma 
delas individual e baseada apenas em experiências prévias e na história de vida 
do indivíduo. “Skinner argumenta que, se você basear a definição do eu em 
comportamento observável, não é necessário discutir o eu ou a personalidade” 
(FADIMAN; FRAGER, 1986, p.195). 
“Ao contrário dos que vêm a personalidade como o resultado de 
processos internos, behavoristas como B. F. Skinner viam a personalidade como 
pouco mais que respostas aprendidas e padrões de personalidade” 
(GAZZANINGA; HEARTHETON, 2005, p.477). Por isso, para compreender a 
personalidade nessa perspectiva, faz-se necessário entender alguns conceitos 
básicos do behaviorismo. 
32 
 
Para o behaviorismo, há dois tipos de comportamento que merecem 
destaque para nós: o respondente e o operante. Segundo Schultz e Schultz 
(1992), no comportamento respondente “a resposta comportamental é suscitada 
por um estímulo observável específico” (p.281), enquanto que no 
condicionamento operante “a resposta do organismo é aparentemente 
espontânea – no sentido de não estar relacionada com nenhum estímulo 
observável” (p.281). 
Segundo Maia (2008), relacionam-se ao comportamento respondente 
(reflexo) as interações estímulo-resposta entre ambiente-sujeito incondicionadas, 
ou seja, aqueles comportamentos provocados por estímulos antecedentes ao 
ambiente (exemplo: arrepio de frio). Por outro lado, o comportamento operante é 
intencional, são aqueles relacionados diariamente de forma desejada (exemplo: 
ler um livro). Papalia, Olds e Feldman (2006) sintetizam a definição de 
comportamento operante ao afirmar que nesse tipo de aprendizagem a pessoa 
repete o comportamento que foi reforçado e cessa o comportamento que foi 
punido. 
“Outra diferença entre o comportamento respondente e o operante é que 
o comportamento operante opera no organismo, ao passo que o respondente não 
o faz” (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992, p.281). 
Entende-se como reforço qualquer estímulo que possibilite o aumento da 
probabilidade de resposta, podendo os reforços ser positivos ou negativos. (MAIA, 
2008). Os reforços são mais eficazes quando seguem um comportamento 
imediatamente. 
O reforço positivo consiste em dar uma recompensa, como comida, 
troféu, dinheiro, elogio – ou brincar com um bebê. O reforço negativo 
consiste em tirar alguma coisa que o indivíduo não gosta (conhecido 
como evento aversivo), como, por exemplo, um ruído intenso (PAPALIA; 
OLDS; FELDMAN, 2006, p.73). 
 
Importante não confundir os conceitos de reforço negativo e punição. 
Enquanto o reforço negativo consiste em retirar do indivíduo algo que ele não 
goste (o que faz com que ele se sinta beneficiado com isso), a punição é definida 
como um estímulo experimentado após um comportamento (bater numa criança 
ou aplicar um choque elétrico num animal) ou retirar um evento positivo (não 
permitir assistir televisão ou ir ao recreio). 
33 
 
Skinner e seus seguidores fizeram muitas pesquisas sobre problemas de 
aprendizagem, tais como o papel da punição na aquisição de respostas, 
o efeito de diferentes problemas de reforços, a extinção da resposta 
operante, o reforço secundário e a generalização. [...] No caso dos seres 
humanos, o comportamento operante envolve a resolução de problemas, 
reforçada pela aprovação verbal ou pelo conhecimento de ter dado a 
resposta correta (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992, p.281). 
 
A punição é um exemplo de obstáculo ao crescimento do indivíduo, visto 
que apenas informa sobre o que não fazer, ao invés de tentar ensinar o que se 
deve fazer (FADIMAN; FRAGER, 1986). 
O conceito de punição será melhor explorado no material que apresentará 
questões relativas ao sistema penal, mas, de início, podemos compreender a 
prisão, o pagamento de multa indenizatória e a prestação de serviços 
comunitários como exemplos de punições que são aplicadas no sistema penal 
brasileiro. Será a punição sempre efetiva? Isso iremos debater num outro 
momento. 
O comportamento verbal é, segundo Skinner, a única área emque há 
diferenças no condicionamento entre o homem e o rato. O comportamento verbal 
exige a interação de duas pessoas: um falante e um ouvinte. No caso da criança 
que está aprendendo as primeiras palavras, o adulto – o ouvinte – pode, através 
do seu comportamento, reforçar, não reforçar ou punir a criança pelo que disse ou 
não disser, assim controlando seu comportamento subsequente. “Para Skinner, a 
fala é comportamento, estando, pois, sujeita, como qualquer outro 
comportamento, a contingências de reforço, de previsão e de controle” 
(SCHULTZ; SCHULTZ, 1992, p.284). 
Essa abordagem da personalidade enquanto pouco mais que respostas 
aprendidas e padrões de reforço foi alvo de crítica de outros teóricos cognitivistas, 
como Kelly e Bandura, os quais defenderam pontos de vista de que a 
personalidade vai além disso. Kelly defendeu a existência dos construtos 
pessoais, os quais se desenvolvem a partir da experiência e representam sua 
interpretação e explicação dos eventos no meio social no qual o indivíduo está 
inserido. Já Bandura propôs uma teoria cognitivo-social da personalidade que 
enfatiza como as crenças, expectativas e interpretações pessoais das situações 
sociais moldam o comportamento e a personalidade. 
 
34 
 
Albert Bandura aceita muitos dos princípios da teoria da aprendizagem, 
mas argumenta que os humanos possuem capacidades mentais, como 
crenças, pensamentos e expectativas, que interagem com o ambiente 
para influenciar o comportamento (GAZZANINGA; HEATERTHON, 2005, 
p.478). 
 
A aprendizagem social também será explorada num momento posterior 
desse curso. Parte-se do pressuposto de que a criança aprende a partir das 
situações e interações que ocorrem no meio em que ela está inserida. Assim, é 
de se esperar que uma criança que nasceu num ambiente de violência e crime é 
mais propensa a reproduzir esse tipo de comportamento a medida em que cresce, 
por isso os apelos de que a ampliação de serviços educativos possa ser mais 
efetiva que a ampliação do sistema prisional. Parte-se do pressuposto de que é 
possível prevenir ou reduzir danos ainda em tenra idade, ao invés de remediar 
situações que, na verdade, foram reforçadas desde o início da vida. 
 
2.5 Personalidade, psicologia social e psicologia jurídica 
Após a Segunda Guerra, muitos psicólogos e pensadores procuraram 
compreender melhor o comportamento humano no mundo real, assim passaram a 
investigar questões como autoridade, obediência e comportamento de grupo. 
Esses estudos marcaram a psicologia social, que focaliza o poder da situação e 
como a interação das pessoas com os outros acaba por moldá-las. 
(GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). 
Em 1962, Adolf Eichmann, um dos principais oficiais de Hitler, foi 
enforcado por ‘causar a morte de milhões de judeus’. Um pouco antes da 
sua morte, Eichmann declarou ‘Eu não sou o monstro que fazem de 
mim. Sou vítima de uma falácia’. As atrocidades cometidas na Alemanha 
nazista levaram os psicólogos a investigar se o mal é uma parte integral 
da natureza humana (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p.55). 
 
Procuraram compreender por que alemães aparentemente normais 
participavam, de maneira voluntária, do assassinato de homens, mulheres e 
crianças inocentes. Concluíram, assim, que algumas pessoas, especialmente 
aquelas criadas por pais muito rígidos, apresentavam maior propensão para 
seguir ordens, porém a psicologia social ampliou essa linha de raciocínio ao 
perceber que quase todas as pessoas são diretamente influenciadas por 
situações sociais. Ou seja, voltando ao exemplo de Eichmann, seus argumentos 
35 
 
não desculpam os seus atos, porém ele estava correto ao explicar que as 
pessoas estavam ignorando o poder do contexto, da situação, como explicação 
para as suas ações hediondas (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). A partir 
desse exemplo, concluímos que ao se deparar com ações hediondas, a psicologia 
deve levar em consideração aspectos da personalidade do indivíduo e também 
situacionais. 
A psicologia social alerta para um fenômeno que deve ser levado em 
consideração pelo psicólogo jurídico: a desindividuação. Caracteriza-se por um 
fenômeno de baixa autoconsciência – ou seja, as pessoas não estão prestando 
atenção sobre os seus padrões pessoais – no qual os indivíduos perdem sua 
individualidade e passam a seguir padrões grupais. As pessoas desindividuadas 
fazem coisas que, muitas vezes, não fariam sozinhas e essas coisas podem ser 
ruins ou não. Exemplos de comportamento de desindividuação são tumultos 
ocasionados por fãs quando próximas de seu ídolo; saques após desastres, 
dentre outras (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). 
Num estudo realizado no departamento de psicologia da Universidade de 
Stanford transformaram o porão da instituição num presídio fictício e dividiram 
aleatoriamente os alunos em dois grupos: guardas ou prisioneiros. O estudo teve 
que ser abortado após seis dias, pois os alunos apresentaram desindividuação e 
reagiram de forma muito características, de acordo com os papéis 
desempenhados: enquanto os guardas mostraram-se agressivos, muitos 
prisioneiros reagiram com apatia e indiferença (GAZZANINGA; HEATHERTON, 
2005). 
Outro ponto que merece ser destacado é o conceito de normas sociais. 
Compreendem-se como normas sociais os padrões esperados de conduta que 
influenciam no comportamento do indivíduo e dos grupos, pois indicam qual 
comportamento é adequado para cada situação. Dessas normas sociais, 
observamos dois tipos de comportamento: a conformidade e a submissão. A 
conformidade consiste em alterar as suas próprias opiniões ou comportamentos 
para se adequar aos outros e explica, por exemplo, o fato de membros de um júri 
seguirem a opinião do grupo ao invés de defenderem sua própria opinião. A 
submissão é definida como a tendência do indivíduo a concordar com coisas 
36 
 
solicitadas pelo outro, especialmente se forem pedidas de maneira polida 
(GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). 
A obediência é a disposição que os indivíduos apresentam a seguir 
ordens dadas por uma figura de autoridade. Voltando às pesquisas que ocorreram 
após a Segunda Guerra, um experimento foi realizado para que pudessem 
compreender como as pessoas seguem ordens de autoridade, mesmo que para 
isso acabassem por ferir ou mesmo expor pessoas a risco de morte. Num 
experimento, um professor administrará choques elétricos, de carga progressiva, 
em seu suposto aluno – um senhor de 50 anos – cada vez que ele errasse as 
questões. Na verdade, a máquina de choque não funcionava de verdade, mas a 
pessoa que iria aplicar os choques não sabia disso e ouvia gritos de dor da 
“vítima” a medida que a intensidade dos choques iria aumentando, até que o 
mesmo parou de emitir sons, como se houvesse vindo a óbito. A pessoa que 
estava aplicando os choques pode até ter se arrependido de participar do estudo 
ou mesmo ter tentado parar o experimento, mas diante da negativa do 
experimentador – uma visível figura de autoridade que falava que ele não podia 
parar – a pessoa obedeceu e continuou aplicando os choques, independente das 
consequências do mesmo para o bem-estar do homem. Os resultados do estudo, 
o qual foi replicado em outros países, mostra claramente que pessoas comuns 
podem ser obrigadas a obedecer a autoridades insistentes, mesmo que para isso 
posam colocar pessoas em risco de morte ou mesmo matá-las, ou seja, não 
apenas os sádicos são capazes de tomar esse tipo de atitude (GAZZANINGA; 
HEATHERTON, 2005). 
Outro tema de estudo dos processos sociais em total consonância com a 
psicologia jurídica é a agressão. Em linhas gerais, compreende-se agressão como 
um amplo repertório de comportamentos ou ações que têm como objetivointencional prejudicar alguém. É um fenômeno multicausal que, no geral, assusta 
as pessoas, e precisa ser compreendido pela psicologia jurídica: 
A agressão física, embora comum entre as crianças pequenas, é 
relativamente rara entre os humanos adultos; seus atos agressivos 
envolvem mais palavras ou ações destinadas a ameaçar, intimidar ou 
machucar os outros. A agressão precisa ser considerada em diversos 
níveis de análise, da biologia básica ao contexto cultural. Vale a pena 
destacar que, na maioria das vezes, os fatores isolados não explicam, 
por si só, a agressão, mas quando combinados são capazes de 
37 
 
ocasionar situações agressivas (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, 
p.456). 
 
É importante reforçar que a agressão relaciona-se a fatores biológicos, 
afetivos, da aprendizagem e culturais, como expresso a seguir: 
 
Tabela 04: Fatores que influenciam a agressão 
Fatores que 
influenciam a 
agressão 
Como acontece Exemplos 
Fatores biológicos 
(estruturas 
cerebrais e 
neurotransmissores) 
 Lesões ou estímulos no 
septo, na amígdala e no 
hipotálamo são 
responsáveis por ocasionar 
mudanças no padrão de 
agressividade de animais. 
 Lesões no lobo frontal 
associam-se ao aumento da 
agressão – perda do 
autocontrole (inclusive dos 
impulsos agressivos). Não 
se pode afirmar que esse 
tipo de lesão, por si só, 
aumente a agressão, mas a 
perda do autocontrole 
acaba por favorecer o 
comportamento agressivo. 
Um caso clínico famoso que marca os 
primeiros estudos da neuropsicologia 
é o de Phineas Gage. O operário que 
se destacava por ser habilidoso, 
atencioso e cuidadoso, sofreu um 
acidente de trabalho com explosivos, 
os quais lesionaram seu lobo frontal. 
Todos se assustaram, pois, a despeito 
do grande ferimento, Gage andava e 
conversava normalmente. Entretanto, 
com o passar do tempo ficou visível 
uma mudança na personalidade de 
Gage, que se tornou agressivo, 
irresponsável, imaturo, suas decisões 
não levavam em conta interesses de 
longo prazo. 
 
“O neurologista Jonathan Pincus 
(1999) examinou mais de cem 
criminosos violentos, muitos dos quais 
estavam no corredor da morte. Ele 
encontrou uma combinação de abuso 
na infância inicial, transtornos 
psiquiátricos como paranoia e 
disfunções no lobo frontal evidentes 
em mais de 90% desses assassinos 
violentos” (GAZZANINGA; 
HEATHERTON, 2005, p.456). 
Afetos negativos  Hipótese de frustração-
agressão: “a extensão em 
que as pessoas sentem-se 
frustradas prediz a 
probabilidade de elas agirem 
agressivamente” 
(GAZZANINGA; 
HEATHERTON, 2005, p.457). 
 Qualquer situação que induza 
afeto negativo (ser insultado, 
estar com medo, sentir dor, 
entre outros) pode 
desencadear agressão física, 
Pessoa que assistiu a um filme 
violento ou se estiver próxima de 
armas, provavelmente reagirá com 
agressividade se estiver no trânsito e 
um motorista ultrapassá-la 
perigosamente. 
No Brasil, um crime ocorrido em 1999 
ilustra essa situação: um estudante foi 
assistir ao filme “Clube da Luta” no 
cinema e atirou na plateia, o que 
resultou em três mortos e quatro 
feridos. 
38 
 
mesmo que não induza 
frustração. 
 A possibilidade de ocorrer 
ação agressiva depende do 
contexto. 
Aspectos 
aprendidos e 
culturais 
 A evolução mostra que a 
natureza humana é 
agressiva, entretanto, a 
cultura exerce forte influência 
sobre a ocorrência de 
violência física. 
 A teoria da aprendizagem 
social (Bandura), mencionada 
na subseção anterior, explica 
que grande parte do 
comportamento agressivo é 
aprendida pela observação 
social de recompensas e 
punições. 
Os homens do sul dos EUA são 
criados para brigar por sua honra e 
responder agressivamente a ameaças 
pessoais, ou seja, são recompensados 
por defender sua honra e aprendem 
que a violência é uma maneira 
aceitável de se fazer isso. 
Fonte: adaptado de Gazzaninga e Heatherton (2005); Rosenthal e Affonso (2006); Terra (2012). 
 
Como vimos na seção sobre o desenvolvimento da personalidade, foi 
possível observar algumas diferenças entre a personalidade do homem e da 
mulher adultos. Algumas dessas diferenças dizem respeito à agressividade e são 
pontos-chave para o trabalho do psicólogo jurídico, visto que há uma íntima 
relação entre a agressão e a participação do indivíduo em delitos. 
Geralmente se acredita que os homens são muito mais agressivos do 
que a mulheres. Está claro que os homens são mais violentos que as 
mulheres, cometendo mais de 80% dos assassinatos e a vasta maioria 
dos estupros, assaltos, e assim por diante. Na verdade, mais de 90% 
das pessoas presas por violência são homens; os atos violentos 
cometidos por mulheres são raros (e quase nunca envolvem estranhos). 
Mas embora os homens sejam muito mais agressivos fisicamente do que 
as mulheres, homens e mulheres apresentam níveis similares de 
agressão verbal ao expressar raiva, proferir insultos, falar pelas costas 
de alguém ou revelar segredos. A escolha de agressão social em vez de 
física pelas mulheres pode refletir a atitude social de desencorajar a 
agressão física entre as meninas ou pode refletir a força física relativa de 
cada caso (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005, p.457). 
 
Convém ressaltar que os temas que estamos abordando nessa subseção 
dizem respeito aos padrões normais de personalidade do adulto, ou seja, dotada 
de capacidade de adaptação, com traços relativamente estáveis que se mantêm 
ao longo da vida. 
39 
 
Segundo Myra y López (2015), a personalidade do homem se caracteriza 
pelo pleno funcionamento dos mecanismos psíquicos de defesa outrora 
elucidados, os quais permitem que o indivíduo satisfaça seus desejos sem causar 
um maior mal-estar à consciência moral, ou mesmo conformar-se à incapacidade 
de satisfação dos mesmos. 
Do equilíbrio entre aqueles e estes resulta a conduta normal da 
personalidade; um ligeiro predomínio de qualquer deles e já nos 
encontramos diante de um tipo de personalidade mal preparada para a 
vida social e, por conseguinte, apta para entrar em conflito com as leis e 
consigo mesma (MYRA Y LÓPEZ, 2015, p.74-75). 
 
A personalidade adulta da mulher apresenta características distintas 
daquelas observadas no homem. Enquanto que no homem a maioria dos litígios 
se embasa em questão econômica, na mulher os mesmos costumam acontecer 
em decorrência de algum conflito afetivo. 
A lógica do homem e a intuição da mulher fazem sentir, por outro lado, 
de um modo distinto, sua posição perante a lei. Por isso, um argumento 
ou raciocínio que pode fazer mudar de critério o primeiro, é capaz de se 
mostrar completamente ineficaz na segunda. E vice-versa. Do ponto de 
vista criminológico, os motivos que impelem o homem ao delito 
costumam ser mais pragmáticos ou de imediata utilidade do que os da 
mulher; além do mais, não há dúvida de que a violência é mais usada 
pelo homem e a astúcia pela mulher (MIRA Y LÓPEZ, 2015, p.82-83). 
 
Assim, tendo em vista as discussões elaboradas até aqui neste material, 
fica evidente que os delitos não decorrem de uma única causa. Ainda iremos 
definir e delimitar o contexto de aplicabilidade da psicologia jurídica num outro 
momento, mas desde já, adiantamos que esta não se resume ao estudo do 
comportamento delituoso e intervenção nos indivíduos que cometem delitos. 
Porém, não podemos deixar de ressaltar que esta é uma área de grande 
relevância, principalmente se levarmos em consideração o contexto violento no 
qual estamos inseridos na atualidade. 
A personalidade é, sem dúvida, uma dimensão que precisa ser bem 
compreendida e investigada pelo psicólogo jurídico. Nessa seção, mostramos 
também a importância de aspectos sociais no comportamento delituoso, porém, 
restringirmos nossa compreensão a essasduas dimensões seria por demais 
reducionista. 
Para finalizarmos essa seção e já introduzirmos a outra fica a seguinte 
interrogação: a personalidade pode mudar? 
40 
 
Partimos nossa reflexão apontando evidências encontradas em estudos 
realizados com as mesmas pessoas em diferentes momentos de seu 
desenvolvimento (da infância à meia idade) que apontam que a personalidade 
permanece relativamente estável. Isso é fato, visto que conseguimos predizer 
mais ou menos o comportamento das pessoas que amamos ou que convivemos 
com bastante frequência. Alguns traços de personalidade tendem a se manter, ou 
seja, pessoas extrovertidas permanecem extrovertidas; indivíduos introvertidos 
continuam introvertidos. Essa estabilidade da personalidade do adulto é 
justificada por fatores como dependência de fatores biológicos (que normalmente 
não se modificam), ambientes estáveis (casam-se com parceiros com traços 
parecidos, escolhem empregos com características em comum), o que contribui 
para a estabilidade da personalidade (GAZZANINGA; HEATHERTON, 2005). 
Por outro lado, ocorrem algumas mudanças – por exemplo, quando uma 
pessoa tímida e introvertida sente-se incomodada com as situações ocasionadas 
ao seu estilo pessoal e busca ajuda psicológica para lidar com sua timidez – 
certas mudanças podem resultar, com o passar dos anos, em sabedoria. 
Reforçamos também que as pessoas mesmas relatam que elas mudaram, o que 
pode auxiliar a predizer motivos e comportamentos (GAZZANINGA; 
HEATHERTON, 2005). 
Em síntese, a personalidade costuma manter-se relativamente estável, 
mas também pode sofrer modificações (segundo a intenção do próprio indivíduo 
ou em decorrência de fatores biológicos, como as doenças e acidentes que 
podem afetar o cérebro e ocasionar várias mudanças de personalidade). 
Pretendemos encerrar essa seção (e realizar a abertura da próxima), deixando 
bastante evidente a ideia de que o psicólogo jurídico precisa compreender essa 
característica da personalidade de ser, ao mesmo tempo, estável no adulto, 
porém, adaptativa – o que pode ocasionar certas mudanças. Assim, ele será mais 
cuidadoso em seu trabalho quando precisar investigar mais aprofundadamente a 
personalidade de algum indivíduo e tomará cuidado ao realizar certas inferências 
do tipo: “Esse indivíduo sempre foi pacato, é impossível que tenha cometido esse 
crime”. 
41 
 
UNIDADE 3 – FATORES QUE INTERFEREM NAS 
REAÇÕES DO INDIVÍDUO 
 
Sabemos que a personalidade de determinado indivíduo apresenta 
padrões relativamente estáveis no decorrer da vida (em estado normal, pois, 
como ilustramos anteriormente, condições patológicas – tais como acidentes que 
lesionam o cérebro, doenças degenerativas, quadros psicopatológicos, dentre 
outras condições ligadas ao cérebro ou à mente), porém, também precisamos 
levar em consideração que certas reações do indivíduo podem ocorrer de maneira 
inesperada e fugir completamente do seu padrão de comportamento. 
Mira y López (2015) elucida os fatores gerais responsáveis pela reação 
pessoal em um determinado momento: 
 
Quadro 1: Fatores gerais responsáveis pela reação pessoal num determinado 
momento: 
Fonte: Mira y López (2015, p.37). 
 
Fatores gerais responsáveis 
pela reação pessoal em um 
dado momento 
Herdados... 
a) Constituição Corporal. 
b) Temperamento. 
c) Inteligência. 
Mistos... d) Caráter. 
Adquiridos... 
e) Experiência Anterior 
de Situações Análogas. 
f) Constelação. 
g) Situação Externa 
Atual. 
h) Tipo Médio da Reação 
Social (Coletiva). 
i) Modo de Percepção 
da Situação. 
42 
 
A seguir iremos explanar sobre cada um desses fatores. Dentre os fatores 
que o autor considerou como herdados, discorreremos também sobre alguns 
processos psicológicos básicos – como a memória e a inteligência – pois são 
fatores que podem influenciar diretamente a reação do indivíduo ou mesmo 
fornecer subsídios para uma compreensão maior das atitudes do mesmo e de seu 
funcionamento psíquico. Para fins didáticos, realizaremos agrupamentos um 
pouco diferentes desses expressos no quadro. 
 
3.1 Constituição corporal 
Segundo o Dicionário Michaelis On-line (s.d.), o termo constituição 
significa: 
1 Ação ou efeito de constituir. 2 Organização, formação.3 Compleição do 
corpo humano. 4 Temperamento. 5 Coleção de leis ou preceitos que 
regem uma corporação, uma instituição. 6 Lei fundamental que regula a 
organização política de uma nação soberana; carta 
constitucional. 7 Ordenação, estatuto, regra. 8 Dir Ato de estabelecer 
juridicamente (MICHAELIS, sd, sp). 
 
Dessa forma, podemos entender como constituição física, o conjunto de 
componentes anatômicos, fisiológicos, funcionais, hereditários e adquiridos que 
determinam fisicamente um indivíduo. Mira y Lopez (2015) definem constituição 
física como: “Conjunto de propriedades morfológicas e bioquímicas transmitidas 
ao indivíduo pela hereditariedade” (p.40) 
A constituição corporal parece influenciar diretamente certas atitudes do 
indivíduo. Posteriormente, iremos discorrer acerca do processo de tomada de 
decisão, mas sem uma maior reflexão, já se torna possível deduzir que as 
reações de uma pessoa alta e forte podem ser diferentes das reações de uma 
pessoa magra e baixa. 
Não podemos desconsiderar que, segundo Kretschmer (apud MIRA Y 
LÓPEZ, 2015), há relação entre a constituição corporal e o temperamento, assim 
também como entre o temperamento e o caráter. Inferimos que a influência 
desses fatores se encontra inter-relacionada, mas é importante que o psicólogo 
jurídico possa conhecer cada uma delas separadamente com o intuito de 
compreender de que forma esses fatores influenciam diretamente na reação do 
indivíduo, principalmente em situações adversas e inesperadas, ou naquelas 
43 
 
carregadas afetivamente – situações essas nas quais é mais comum o indivíduo 
reagir de forma diferente às respostas consonantes aos seus traços de 
personalidade. 
Permanecendo todos os fatores iguais [temperamento e caráter], não 
será a mesma reação de um homem corpulento e de um homem magro 
e baixo, por exemplo. Com efeito, o fator morfológico origina na pessoa 
um obscuro sentimento de superioridade física diante da situação, que 
entra muito na determinação do seu tipo de reação; é um fator vulgar 
que a mesma fosse pronunciada por um garoto ou por um carroceiro não 
desperta no ofendido a mesma reação e isso é, principalmente, devido a 
que o indivíduo se mostra subconscientemente superior em força ante o 
primeiro e inferior ante o segundo. Por conseguinte, sentir-se-á irritado 
diante daquele e o esbofeteará ‘para dar-lhe uma lição’, mas evitará 
travar discussões com o segundo ‘porque não é próprio de pessoas 
bem-educadas brigar com gente baixa’ (MIRA Y LÓPEZ, 2015, p.38). 
 
Fica aqui a ressalva de que o exemplo politicamente incorreto, por 
envolver a agressão de um “garoto” e de “gente baixa” é justificável visto que a 
obra original desse material, como já foi ressaltado, data de 1932, época em que 
a preocupação com o menor e seus respectivos direitos ainda não era 
considerada. Da mesma forma, não havia preocupação com o fato de certas 
expressões serem extremamente preconceituosas e pejorativas. A mesma foi 
escolhida, pois ilustra muito bem a linha de raciocínio que pode direcionar um tipo 
de atitude agressiva por parte de uma pessoa cuja constituição corporal pudesse 
colocá-la numa situação de vantagem em caso de uma possível luta corporal. 
Também devemos levar em consideração que, frente a situações de 
perigo, o indivíduo pode apresentar uma reação de ataque ou fuga. Para 
explicarmos essa reação – a qual apresenta um caráter evolutivo, pois garantiua 
sobrevivência das espécies – precisaremos abrir parênteses para falar do sistema 
nervoso e explicar por que ela ocorre. 
O Sistema Nervoso Central (SNC) é subdividido em dois (GAZZANINGA; 
HEATHERTON, 2005, STRAUB, 2014): 
 sistema nervoso somático – composto pelos nervos que levam as 
mensagens dos órgãos sensoriais até o SNC e deste para os músculos e 
glândulas. Controlado de maneira voluntária; 
 sistema nervoso autônomo (SNA) – nervos que ligam o SNC ao 
coração, intestinos e outros órgãos internos. Controlado de maneira 
involuntária. 
44 
 
Nesse momento iremos voltar nossa atenção para o sistema nervoso 
autônomo, o qual sofre grande influência das reações de estresse – como, por 
exemplo, aquele ocasionado quando o indivíduo é abordado por um ladrão. O 
SNA é subdividido em simpático e parassimpático. Em linhas gerais, a divisão 
simpática prepara o indivíduo para a ação, enquanto que a divisão parassimpática 
faz o corpo voltar ao seu estado de repouso (GAZZANINGA; HEATHERTON, 
2005). 
O sistema nervoso simpático prepara o organismo para o ataque e fuga, 
portanto, reações como dilatação da pupila, aceleração dos batimentos cardíacos, 
liberação de glicose pelo fígado e estimulação da produção de adrenalina 
preparam o corpo para esse tipo de reação. Passado o perigo, o sistema nervoso 
parassimpático contrai a pupila, reduz os batimentos cardíacos e volta ao corpo 
ao seu estado de repouso. 
Associando essa reação à constituição física do indivíduo fica possível 
compreender porque, independente de sua personalidade, temperamento ou 
caráter, a reação de uma pessoa que é abordada por um ladrão pode ser de 
ataque e fuga. Caso sua constituição corporal seja favorável em relação ao 
cidadão infrator, provavelmente ele partirá para o ataque, entretanto, caso seja 
desfavorável, ele poderá fugir, correndo com uma velocidade muito maior do que 
ele costuma atingir em seu dia a dia. 
Como deixamos claro anteriormente que as reações fisiológicas do SNA 
ocorrem de maneira involuntária, isso explica porque muitas reações das pessoas 
frente a situações de perigo (como ataque e fuga) não condizem com a 
personalidade do indivíduo, podem ser perigosas (pois não houve tempo para o 
indivíduo analisar sua tomada de decisão) e também podem não levar em 
consideração a constituição corporal. 
Vamos apenas citar que existem estudos tipológicos que associavam 
certas reações/atitudes do indivíduo ao seu biótipo. Assim, fatores como 
periculosidade, tendências antissociais e antilegais poderiam ser identificados 
antecipadamente ou também corrigidos graças à “terapêutica constitucional” 
(MIRA Y LÓPEZ, 2015). 
Como muitos desses estudos são bastante antigos e alguns já foram 
refutados por outros, optamos por não fazer alusão aos mesmos nesse material. 
45 
 
3.2 Temperamento X caráter 
O temperamento é definido por Mira y López (2015) como “a resultante 
funcional direta da constituição, que marca a cada momento a especial 
modalidade da primitiva tendência da reação ante os estímulos ambientais” 
(p.40). 
Gazzaninga e Heatherton (2005) elucidam que os temperamentos podem 
ser compreendidos como tendências gerais a agir ou sentir de determinada 
maneira. Os temperamentos são de base biológica, por isso os estudos sobre os 
mesmos são normalmente realizados com bebês, para perceber que as 
diferenças de personalidade existentes desde tenra idade são indicativos da ação 
de mecanismos biológicos. 
A questão que colocamos para reflexão é: os temperamentos 
permanecem estáveis ao longo da vida ou tendem a modificar-se? Para 
responder a essa questão, recorreremos às categorizações provenientes de um 
estudo realizado na década de 1970 e resultados de pesquisas mais recentes 
nessa mesma área. Chess e Thomas concluíram que é possível categorizar as 
crianças em três tipos de temperamento. Entre as décadas de 80 e 90 outros 
pesquisadores buscaram compreender se esses padrões de temperamento se 
mantinham na adolescência e início da idade adulta (GAZANINGA; 
HEATHERTON, 2005). Os resultados desses estudos podem ser conferidos na 
tabela abaixo: 
Tabela 05: Tipos de temperamentos 
Infância Adolescência 
Crianças fáceis: ciclos regulares de sono e 
alimentação; boa capacidade de adaptação 
a mudanças. 
Bem ajustado: padrões da infância mantêm-se 
relativamente estáveis. 
Crianças difíceis: padrões irregulares de 
sono e alimentação; dificuldade de 
adaptação a mudanças; tendem a afastar-se 
dos outros quando ficam mais velhas; 
dificuldades para lidar com as expectativas 
dos pais, professores e colegas. 
Subcontrolado: Possibilidade de apresentarem 
problemas com álcool, crime, desemprego, a 
tentar suicídio, a ser antissociais e ansiosos, além 
de terem menos apoio social. 
46 
 
Crianças de aquecimento lento: 
inicialmente cautelosas e ansiosas frente a 
novas situações, mas demonstram 
capacidade de adaptação com o passar do 
tempo. Menos emotividade positiva se 
comparadas às crianças fáceis. 
Inibido: Maior tendência à depressão. 
Fonte: adaptado de Chess e Tomas; Silva e Santon (1996 apud GAZZANINGA; HEATHERTON, 
2005). 
Como falamos anteriormente, não se pode afirmar que a personalidade 
sempre será estável. Ao mesmo tempo, compreendemos também que o 
temperamento corresponde à parte biológica da personalidade. Dessa forma, é 
relevante que o psicólogo jurídico compreenda que, muitas vezes, o 
temperamento e o caráter podem ser responsáveis por certas reações por parte 
do indivíduo, como expresso na citação a seguir: 
Um erro frequentemente cometido é o de confundir temperamento com 
caráter. Não obstante, este se define objetivamente pelo tipo de reação 
predominante, exibida pelo indivíduo ante as diferentes classes de 
estímulos e situações; claramente se compreende que nem sempre a 
tendência primitiva de reação coincide com a reação exibida, já que 
entre ambas se interpõe todo conjunto de funções intelectuais 
(discriminativas, críticas, de julgamento) e das inibições criadas pela 
educação. Ainda mais, em muitos casos o caráter da pessoa se 
desenvolve – por supercompensação psíquica secundária – em direção 
oposta à de seu temperamento (este fato foi percebido pelos antigos 
moralistas quando afirmavam que o medo de um erro pode fazer-nos 
cair em outro pior). Assim, quantas vezes uma reação agressiva e um 
caráter violento têm sua explicação na existência de um temperamento 
medroso! Por isso, é preciso conhecer bem as distintas modalidades de 
temperamentos, e os meios para sua explicação e diagnóstico, se 
quisermos ter a devida noção de todos os fatores determinantes de uma 
reação pessoal (MIRA Y LÓPEZ, 2015, p.40). 
 
A citação anterior aponta o temperamento como uma tendência primitiva, 
ou seja, como explanamos anteriormente, de origem biológica. Porém, o 
temperamento não é a única explicação para as reações pessoais. Somam-se a 
ele o caráter, as funções intelectuais (aqui iremos abranger o tema cognição) e a 
educação (falando em outros termos, podemos compreender essa educação 
como a aprendizagem social ou os comportamentos aprendidos por estímulo – 
respostas que moldam certas atitudes indesejadas na criança ou no adulto 
enquanto membro de determinada sociedade). 
 
47 
 
O caráter constitui o termo de transição entre os fatores endógenos e os 
fatores exógenos integrantes da personalidade, e representa 
definitivamente o resultado da sua luta. Os fatores endógenos impeliriam 
o homem a uma conduta puramente animal baseada na satisfação de 
seus instintos e tendência apetitivas ou repulsivas. Os fatores exógenos, 
ao contrário, o conduziriam à completa submissão ao meio externo; é a 
clássica oposição entre o homem e omundo (a luta pela vida) a que é 
simbolizada na luta entre o elemento endógeno e o exógeno, isto é, o 
caráter (MIRA Y LÓPEZ, 2015, p.43). 
 
Tanto o psicólogo quanto os outros profissionais da área jurídica devem 
prestar atenção em “caracterizar” uma pessoa, ou seja, em se dar conta de seu 
caráter. Deve-se levar em consideração que o indivíduo em questão pode 
aparentar-se de maneira extremamente oposta ao seu caráter, o que pode 
confundir a percepção ou o julgamento dos profissionais. Em linhas gerais, não se 
pode acreditar que é possível conhecer um indivíduo simplesmente por sua 
conduta externa, é importante, na maneira do possível, conhecê-lo internamente, 
para assim obter subsídios para compreender os motivos da ação em geral (MIRA 
Y LÓPEZ, 2015). 
A citação a seguir ilustra, de maneira prática, o que foi tratado 
anteriormente. Optamos por não abranger aqui a discussão de temas sobre 
preconceito e estereótipo, os quais poderiam se encaixar perfeitamente: 
[...] o problema é que em muitas ocasiões o fato que põe o indivíduo em 
contato com o jurista é em si contrário ao seu caráter. Quem diria, quem 
o adivinharia? O homem honrado e escrupuloso como poucos, cometeu 
um desfalque; B, tímido e escrupuloso como todos, cometeu um delito 
sexual; C, pacífico e inofensivo, chega a ser o autor de um crime 
horripilante (MIRA Y LÓPEZ, 2015, p.42). 
 
Para sintetizar, reforçamos que, como expresso no quadro anterior, 
proposto por Mira y López (2015), enquanto o temperamento é uma característica 
herdada (visto o que fora elucidado nos estudos que investigavam bebês de 
temperamento fácil, difícil e de aquecimento lento), o caráter provém de fontes 
mistas, ou seja, herdadas e adquiridas através da interação do indivíduo com o 
meio. 
 
48 
 
3.3 Cognição 
Em linhas gerais, compreende-se a cognição como o ato de pensar. O 
cérebro representa a informação que chega até ele (via órgãos dos sentidos e 
vias motoras, por exemplo) e a cognição manipula essas representações. 
A área da psicologia que estuda esse campo não é a psicologia jurídica, 
mas a psicologia cognitiva, que é “o estudo de como as pessoas percebem, 
aprendem, lembram-se e pensam sobre a informação” (STERNBERG, 2010, p.1). 
Em linhas gerais, pode-se afirmar que a Psicologia Cognitiva preocupa-se com os 
processos internos envolvidos em extrair sentido do ambiente e decidir que ação 
deve ser apropriada. São processos cognitivos a atenção, a percepção, a 
aprendizagem, a memória, a linguagem, a resolução de problemas, o raciocínio e 
o pensamento. Não iremos discorrer aqui sobre todos os processos cognitivos, 
apenas os que se associam diretamente com a psicologia jurídica. Dentre esses, 
Mira y López (2015) caracteriza a inteligência como herdada, enquanto que as 
demais funções cognitivas como funções psíquicas diferenciáveis que vêm a 
constituir o indivíduo. 
Talvez, numa leitura inicial dessa subseção, você irá se perguntar: “Qual 
a relação dos processos cognitivos com a práxis do psicólogo jurídico?” 
Reforçamos que alguns temas básicos – como as linhas que foram delineadas no 
percurso histórico da psicologia, a personalidade e os processos cognitivos são 
conteúdos que servem como base para outros estudos mais aprofundados que 
precisam ser desenvolvidos a posteriori. Esses temas são de relevância não 
apenas para o psicólogo jurídico, mas para a equipe diretamente relacionada à 
área jurídica que deseja realizar uma especialização na área, assim como para 
psicólogos que atuam em áreas afins. 
Além disso, como enfatizamos na introdução, esse curso não será voltado 
para a área de testes psicológicos devido aos motivos já elucidados. Entretanto, 
muitos psicólogos jurídicos lidam, em seu dia a dia, com o uso de testes e 
avaliações psicológicas que poderão, além de investigar aspectos da 
personalidade do indivíduo, avaliar instâncias como esses processos cognitivos – 
o que pode ser extremamente necessário para a elaboração de um laudo 
psicológico. 
49 
 
Assim, antes de se avaliar e saber utilizar um teste, faz-se ainda mais 
importante conhecer bem o que se pretende avaliar – como, por exemplo, a 
atenção, a memória e a inteligência. Numa outra apostila retomaremos esse 
assunto ao apresentarmos alguns transtornos relacionados a esses processos 
cognitivos que precisam ser considerados pelo psicólogo jurídico em situação de 
avaliação. 
 
a) Memória 
Assim como a atenção, a memória é imprescindível para o desempenho 
de atividades cotidianas, como para a nossa sobrevivência em geral. Gazaninga e 
Heatherton (2005, p.216) definem memória como: 
[...] a capacidade do sistema nervoso de adquirir e reter habilidades e 
conhecimentos utilizáveis, permitindo que os organismos se beneficiem 
da experiência. [...] Todo nosso senso de self é aquilo que sabemos por 
nossa memória, nossas lembranças de experiências pessoais. 
 
Os autores levantam um ponto extremamente importante, o qual iremos 
reforçar: a memória é nossa identidade, pois somos aquilo que lembramos. A 
linguagem exerce um importante papel por ser um processo cognitivo relacionado 
com a memória e, além disso, por, junto dessa, atuar na formação da identidade 
de cada um. Izquierdo, na citação a seguir, reforça essa ideia: 
Memória é a aquisição, a formação, a conservação e a evocação de 
informações. O conjunto das memórias de cada um determina aquilo 
que se denomina personalidade ou forma de ser. Um humano ou um 
animal criado no medo será mais cuidadoso, introvertido, lutador ou 
ressentido, dependendo mais de suas lembranças específicas do que 
de suas propriedades congênitas. Nem sequer as lembranças 
específicas dos seres clonados (como os gêmeos univitelinos) são 
iguais; as experiências de vida de cada um são diferentes. [...] O acervo 
das memórias de cada um nos converte em indivíduos. Em seu sentido 
mais amplo, então, a palavra “memória” abrange desde os mecanismos 
que operam nas placas de meu computador, até a história de cada 
cidade, país, povo ou civilização, e as memórias individuais dos animais 
e das pessoas. [...] Os seres humanos utilizam, a partir dos 2 ou 3 anos 
de idade, a linguagem para adquirir, codificar, guardar ou evocar 
memórias, as demais espécies animais, não (IZQUIERDO, 2006, p.9-
12). 
 
Os estudiosos da memória dividem-na em diferentes sistemas, o que não 
será abordado aqui. Apenas iremos ressaltar dois tipos de armazenamento na 
50 
 
memória que devem ser conhecidos: a memória de curto prazo e a memória de 
longo prazo. 
A memória de curto prazo possui capacidade limitada e contém 
informações na consciência por um período de tempo muito breve. Caso essas 
informações não sejam direcionadas para a memória de longo prazo elas serão 
perdidas (GAZANINGA; HEARTHETON, 2005). 
Já a memória de longo prazo contém informações que foram transferidas 
da memória de curto prazo, as quais pareceram úteis para o indivíduo que as 
armazenou. Para que a informação seja armazenada e mantida, alguns aspectos 
devem ser considerados, como, por exemplo, a repetição (GAZANINGA; 
HEARTHETON, 2005). 
A emoção e o interesse afetivo também estão diretamente relacionados a 
uma boa memória, da mesma forma que a ansiedade prejudica o bom 
funcionamento da mesma (STERNBERG, 2010). 
O estudo da memória é de suma importância para o psicólogo jurídico. 
Segundo Mira y López (2015), a Psicologia do Testemunho é uma área de grande 
relevância na psicologia jurídica e seu estudo associa-se diretamente com a 
investigação sobre a memória. Segundo o autor, há importantes atos psíquicos 
que compõem o processo mnêmico, como: 
 fixação das impressões; 
 conservação; 
 evocação; 
 reconhecimento.Ainda segundo o autor, é preciso examinar separadamente cada uma 
dessas fases para se descobrir o grau de confiança e certeza que é possível 
conceder uma declaração que determinada pessoa tenha feito em juízo, por 
exemplo. 
Nessa Psicologia do Testemunho vale a pena apresentar uma questão 
importante para o psicólogo jurídico: o paradigma do testemunho ocular. 
Sternberg (2010) elucida que grande número de suspeitos são presos anualmente 
nos EUA após serem identificados por testemunhas oculares, entretanto, nem 
sempre o possível suspeito era o verdadeiro culpado. Há relatos de muitos 
51 
 
indivíduos terem sido erroneamente presos devido a falsos testemunhos que, ao 
contrário do que se possa pensar, não ocorreram de maneira intencional por parte 
da pessoa que visualizou a cena. Nossa memória pode nos pregar peças. 
Estudos como os de Wells (1993 apud STERNBERG, 2010) embasam essa 
realidade. 
Existem problemas sérios de condenação errônea quando se usa o 
testemunho ocular como único ou mesmo principal fundamento para acusar 
pessoas acusadas de crime (LOFTUS; KETCHAM, 1991; LOFTUS, MILLER, 
BURNS, 1987; WELL, LOFTUS, 1984). 
Além disso, o testemunha ocular, muitas vezes, é um determinante 
poderoso para um júri vir a condenar uma pessoa acusada. O efeito é 
pronunciado, particularmente, se testemunhas oculares permanecem 
altamente confiantes de seu testemunho. Isso é verdadeiro mesmo se as 
testemunhas oculares conseguem indicar poucos detalhes perceptivos 
ou oferecem respostas claramente conflitantes. As pessoas, algumas 
vezes, até pensam que se lembram das coisas porque imaginaram ou 
pensaram sobre elas (GARRY; LOFTUS, 1994 apud STERNBERG, 
2010, p.212-213). 
 
Porém, bem antes de 1993 já se investigavam esses tipos de 
acontecimentos. Münsterberg, teórico funcionalista já citado nesta apostila, 
percebeu, em suas pesquisas sobre as testemunhas oculares o: 
[...] caráter falível da percepção humana de um evento como um crime e 
da lembrança subsequente do evento. Ele descreveu pesquisas sobre 
crimes simulados em que se pedia às testemunhas, imediatamente 
depois de terem visto o crime, que descrevessem o que tinha ocorrido. 
Os sujeitos não concordavam quanto aos detalhes do que tinham 
testemunhado, embora a cena ainda estivesse viva em sua memória. 
Quão preciso poderia ser tal testemunho numa corte, perguntou 
Münsterberg, já que o evento em discussão teria ocorrido muitos meses 
atrás? (SCHULTZ, SCHULTZ, 1992, p.199). 
 
O que pode fazer a memória humana falhar frente a uma situação tão 
séria que, em países como os EUA, pode levar o réu à pena de morte ou resultar 
em prisão perpétua? Mesmo no caso do Brasil, cujas penas aplicáveis não 
incluem a pena de morte ou a prisão perpétua, a condenação de um inocente e as 
implicações de ser preso num ambiente extremamente adverso pode ser 
suficiente para desencadear uma série de desajustes psicossociais no acusado 
injustamente. 
52 
 
 Sternberg (2010) enumera alguns aspectos, embasando-se em 
pesquisas já publicadas: 
 suscetibilidade das pessoas para distorção de relatos; propensão a 
imaginar que viram coisas que não viram (LOFTUS, 1975, 1977 apud 
STERNBERG, 2010); 
 fileiras de suspeitos – testemunhas oculares supõem que o suspeito 
sempre esteja na fileira, porém nem sempre é o caso, ou seja, quando os 
responsáveis pelo crime não estavam na fileira, as testemunhas tendem a 
reconhecer alguém naquela fileira como o responsável pelo crime 
(WELLS, 1993 apud STERNBERG, 2010); 
 características raciais – observa-se que o reconhecimento de uma face 
por testemunho ocular é ineficaz ao se identificar pessoas de uma raça 
distinta daquela da testemunha (BHIGHAM; MALPASS, 1985 apud 
STERNBERG, 2010); 
 nível de estresse das testemunhas – maior nível de estresse resulta em 
menor precisão da recordação do fato e da identificação do rosto (PAYNE 
et al., 2002 apud STERNBERG, 2010). 
 
O autor supracitado também mostra o outro lado: existem autores 
(ZARAGOZA; McCLOSKEY; JAMIS, 1987) que não são céticos aos relatos das 
testemunhas oculares. 
[...] alguns psicólogos (por exemplo, Egeth, 1993; Yuille, 1993) e muitos 
promotores acreditam que as provas existentes, baseadas em grande 
parte em estudos de testemunha ocular simulado em vez de relatos reais 
feitos por testemunhas oculares não são suficientemente sólidas para 
arriscar ir contra a credibilidade do testemunho ocular, quando tal 
testemunho poderia resultar na prisão de um criminoso verdadeiro, 
impedindo a pessoa de cometer mais crimes (STERNBERG, 2010, 
p.215). 
 
Visando aprimorar a identificação por testemunha ocular, faz-se 
necessário minimizar possíveis vieses de percepção e interpretação, tomando 
cuidados tais como: 
 diminuir a pressão de escolher um suspeito de um conjunto limitado de 
opções; 
53 
 
 assegurar que cada indivíduo na fila de suspeitos se enquadre na 
descrição dada pela testemunha ocular; 
 não formular entrevistas sugestivas; 
 avisar os jurados que o grau de confiança da testemunha ocular pode 
não corresponder ao grau de precisão da identificação realizada pela 
mesma (STERNBERG, 2010). 
 
Lago et al. (2006) elucidam, sobre o fenômeno das falsas memórias, que o 
ser humano é capaz de armazenar e recordar informações que não ocorreram e 
isso pode se dar devido à repetição de informações consistentes e inconsistentes 
no depoimento das vítimas sobre determinado exemplo. 
 
b) Inteligência 
 [...] inteligência é a capacidade para aprender com a experiência, 
usando processos metacognitivos para incrementar a aprendizagem e a 
capacidade de adaptar-se ao meio ambiente que nos cerca. Pode exigir 
adaptações diferentes no âmbito de contextos sociais e culturais 
diferentes (STERNBERG, 2010, p.474). 
 
Essa é uma definição bastante genérica sobre inteligência, conceito que 
não é unificado. Há testes para medir a inteligência, mas hoje em dia acredita-se 
que nem tudo pode ser testado e quantificado. Gazzaninga e Heatheton (2005) 
elucidam que uma série de estudos aponta que a inteligência sofre influência dos 
fatores genético e ambiental. 
Segundo Mira y López (2015), a inteligência é um fator endógeno e de 
grande importância no fator reação pessoal. Uma pessoa obtusa possui menor 
capacidade de adaptação às situações e pode recorrer à violência como forma de 
solucionar um problema. “[...] grande número de delinquentes e dos indivíduos 
que entram em conflito com a sociedade apresentam um déficit intelectual 
acentuado” (p.41). 
Alguns pesquisadores acreditam que a inteligência é um construto 
unificado, ou seja, existem pessoas muito inteligentes de maneira geral ou pouco 
inteligentes de maneira geral; por outro lado outros teóricos enfatizam a existência 
de inteligências múltiplas, o que torna a definição menos segregatória. Há 
54 
 
também o conceito de inteligência emocional, o qual, em linhas gerais, articula 
emoção e pensamento, bastante utilizado na atualidade. 
Segundo Mira y López, é possível associar determinados tipos de delitos 
à inteligência do cidadão infrator, ou seja, quanto maior o nível de inteligência 
maior a complexidade do delito. Porém, essa análise não pode se restringir à 
inteligência apenas, mas à capacidade de julgamento abstrato, diretamente 
relacionado ao juízo moral. 
Segundo Gazzaninga e Heatherton (2005), a moralidade envolve as 
escolhas que as pessoas precisam fazer e que afetam diretamente a vida de 
outras pessoas, como quando suas ações podem ocasionar em algum dano para 
determinada pessoa ou o rompimento de algum contrato social implícito ou 
explícito. Desde cedo, as crianças aprendem regras sociais e desenvolvem a 
moral,sendo a empatia – a capacidade de se colocar no lugar dos outros – a 
primeira emoção moral a surgir. O raciocínio moral envolve componentes da 
cognição e da emoção, já que cognição e afeto encontram-se interligados. 
“Pesquisas mostram que, se as pessoas não possuem capacidades cognitivas 
adequadas, suas emoções morais podem não se traduzir em comportamentos 
morais” (p.393). 
Ainda segundo o mesmo autor, as práticas parentais podem promover o 
comportamento pró-social nas crianças, porém, como já falamos na seção sobre 
personalidade, existem também fatores fisiológicos que se relacionam à 
moralidade. Estudos de Damásio e colaboradores com pessoas que sofreram 
lesão na córtex pré-frontal quando bebês apontam sérias deficiências no 
raciocínio moral e social, na tomada de decisões. Não expressavam empatia, 
remorso, culpa e cometiam delitos (furtos, ameaças e agressões físicas, 
mentiras). 
Nesse sentido, Mira y López (2015) elucida que existe, na infância, uma 
predisposição à delinquência por ignorância, ou seja, a criança pode tornar certas 
atitudes por desconhecimento da moralidade, o que tende a se desenvolver com 
o passar dos anos. Quando essa falta de compreensão da responsabilidade moral 
persiste na juventude ou na idade adulta, torna-se a melhor explicação de muitos 
atos delituosos – fato que também será explorado em outro momento do curso. 
55 
 
Segundo o mesmo autor, a capacidade de julgamento ou de inteligência 
resulta de um conjunto de disposições em virtude das quais é possível ao 
indivíduo solucionar novos problemas. Para isso, ela embasa-se na resolução de 
problemas anteriores, ajustando-os e combinando-os de acordo com cada 
situação. O autor mostra aqui a importância da inteligência no meio jurídico 
lançando mão do exemplo a seguir: 
Do mesmo modo que existem diferenças relativas na qualidade das 
distintas fases (quatro) do processo mnêmico, essas são também 
observadas nos períodos de que se compõe toda operação intelectual e, 
assim, podem ser encontradas na vida pessoas muito aptas para 
compreender, outras para inventar e outras preferentemente dotadas 
para a crítica destruidora. Essas diferenças devem ser conhecidas pelos 
juristas que têm de agir nos tribunais, visto que, definitivamente, 
conforme o tipo intelectual de seu oponente, deverá orientar sua 
informação de uma ou de outra forma. Tinha razão quem dizia que às 
vezes é mais interessante para o advogado conhecer a psicologia dos 
juízes que a psicologia de seus clientes (p.55-56). 
56 
 
UNIDADE 4 – DIREITO E PSICOLOGIA: UMA UNIÃO 
POSSÍVEL 
 
[...] a identidade do psicólogo jurídico está relacionada à Psicologia, 
enquanto área de conhecimento e atuação profissional, e ao Direito, 
enquanto um atributo que lhe confere a relação da sua atuação 
profissional com as especificidades do campo jurídico. 
ROEHRIG (2007, p.17). 
 
Optamos por iniciar esse curso discorrendo sobre alguns conceitos da 
psicologia diretamente relacionados ao contexto jurídico. Na maioria desses 
conceitos – como, por exemplo, de personalidade, memória, Inteligência – 
buscamos contextualizar exemplos de como a compreensão dos mesmos pode 
se associar à psicologia jurídica, para que, nesse momento, o cursista já tenha 
condições de compreender que a psicologia e o direito se inter-relacionam. 
Não iremos ainda definir psicologia jurídica – tema que será abordado na 
próxima seção. Nesse momento, nosso objetivo é compreender como a psicologia 
pode auxiliar o direito. No início deste material, citamos que tanto a psicologia 
quanto o direito derivam de uma mesma vertente: a Filosofia. A partir daí 
compreendemos que essa união entre psicologia e direito se faz possível, visto 
que ambos possuem uma de suas origens em comum. 
Esta área de especialidade da Ciência da Psicologia se posiciona em 
todas as áreas do Direito como corolário do princípio da dignidade 
humana, da efetividade da decisão jurisdicional e da busca da “verdade 
real”, consagrada ao magistrado na direção do moderno processo 
judicial (BODSTEIN, 2007, s.p.). 
 
Antes de focalizar especificamente a Psicologia Jurídica e sua relação 
íntima com o Direito, pretendemos expor brevemente alguns dados históricos que 
mostram o caminho que foi delineado há vários séculos para que essa união entre 
Psicologia e Direito se concretizasse tal como acontece nos dias de hoje. 
A literatura clássica mostra narrativas de casos verídicos e fictícios que 
ilustram quão complexa é a conexão entre a subjetividade e os fatos jurídicos. 
Essa conexão é bastante complexa, já que o homem elabora as leis, lança mão 
das mesmas nos julgamentos dos fatos, porém não podemos deixar de 
57 
 
considerar que é este mesmo homem quem protagoniza o ato jurídico passível de 
julgamento (CARVALHO, 2007). 
Lago et al. (2009) reforçam que, na Antiguidade e Idade Média, a loucura 
era um fenômeno bastante privado. A partir do século XVII, os doentes mentais 
passaram a ser excluídos da sociedade, todos aqueles que representavam algum 
tipo de ameaça à razão e à moral da sociedade passaram a ser confinados em 
manicômios. Posteriormente houve a desinstitucionalização. Não iremos entrar 
em detalhe sobre esse fato, apenas é importante relacionarmos a loucura à 
psicologia jurídica, já que muitos doentes mentais podiam cometer crimes e a 
avaliação psicológica dos mesmos pareceu uma estratégia importante para se 
aplicar possíveis penas. A associação da doença mental com a incidência de 
delitos é uma área de interesse para a psicologia jurídica e será elucidada num 
outro momento. 
Até a Idade Média, a religião desempenhava função primordial na 
discriminação e julgamento das atitudes do homem. O Direito passou a buscar 
maior diversidade de leis que organizassem os vários contratos estabelecidos 
entre as pessoas e que também considerassem os progressos ocorridos em 
outras ciências, os quais poderiam auxiliar na compreensão de comportamentos 
desviantes e criminais. A psiquiatria forense foi uma dessas ciências que auxiliou 
na análise de crimes por ser uma possibilidade para identificar alterações das 
funções mentais que poderiam estar relacionadas ao ato em julgamento, 
entretanto, os psiquiatras não dispunham de instrumentos para uma avaliação 
mais específica (CARVALHO, 2007). 
Por outro lado, no final do século XIX, a Psicologia foi reconhecida como 
ciência e vinha predominantemente pesquisando e desenvolvendo 
instrumentos para a investigação da memória, pensamento, entre outras 
funções mentais. É dessa forma que a Psicologia se aproximou do 
Direito, auxiliando nos processos periciais que forneciam subsídios ao 
juiz na determinação da pena a ser cumprida (CARVALHO, 2007, p.21). 
 
A psicologia – ou ciência psicológica, como denominam alguns autores da 
atualidade – pode ser muito útil à área jurídica porque: 
A ciência psicológica é igualmente útil para aqueles que, em sua 
profissão, precisam entender as pessoas. Para persuadir os jurados, os 
advogados precisam saber como os grupos tomam decisões 
(GAZANINGA; HEARTHETON, 2005, p.57). 
58 
 
Segundo Lago et al. (2009), a primeira aproximação entre a Psicologia e o 
Direito se deu na área criminal, já que a avaliação psicológica mostrou-se uma 
importante estratégia para os profissionais de direito atuarem junto aos indivíduos 
envolvidos em situações de crime. Com o passar dos anos, o psicólogo mostrou 
sua importância junto ao Direito da Infância e Juventude, sendo que, depois, a 
psicologia jurídica também abrange o Direito do Trabalho, Direito Civil, Direito de 
Família, dentre outras áreas. 
Segundo Gonzaga e colaboradores (2007), os psicólogos jurídicos 
formulavam laudos periciais a partir da realizaçãode diagnóstico e da aplicação 
de testes psicológicos, para assim auxiliarem a instituição judiciária na tomada de 
decisões. 
Mira y López (2015) elucidam claramente essa primeira aproximação 
entre a Psicologia e o Direito, já que o autor, em sua obra, enfatiza que, na época 
da primeira publicação desse livro (década de 1930), a psicologia jurídica estava 
limitada às seguintes questões: psicologia do testemunho, obtenção de evidência 
delituosa (confissão com provas), descoberta da motivação que levou a 
determinado delito, informação forense ao seu respeito, reforma moral do 
delinquente e prevenção de problemas futuros. Observa-se que nessa época não 
se falava da aplicabilidade da psicologia jurídica em outras áreas do direito, o que 
veio a acontecer em outro momento. 
Bodstein (2007) corrobora dos postulados de Mira y López ao afirmar que 
os primeiros estudos na área da psicologia jurídica voltavam-se ao Direito Penal; 
o psicólogo empenhava-se em buscar a “verdade judicial”. Para isso, os estudos 
da época postulavam que os fenômenos físicos ou sensoriais eram transformados 
pela sensação em fatos conscientes e assim provocavam a percepção como 
fenômeno psicológico. 
Desta inicial concepção – que o universo exterior chega ao nosso ‘eu’ 
como os sentidos nos apresentam –, temos a premissa de que há uma 
variação potencial de nosso ‘ser emocional’, de indivíduo para indivíduo 
e do mesmo indivíduo em cada momento de sua existência. 
(BODSTEIN, 2007, s.p.) 
 
Segundo Gonzaga et al. (2007), a Psicologia Jurídica, em seus 
primórdios, surgiu na tentativa de controlar os indivíduos. Para isso, os psicólogos 
59 
 
aplicavam testes psicológicos e exerciam laudos para auxiliar a instituição 
judiciária na tomada de decisão. Com o passar do tempo, a atuação psicológica 
do psicólogo jurídico passou a ser repensada. O psicólogo buscou novas formas 
de intervenção e o foco principal passou a ser o resgate da cidadania e a 
promoção do bem-estar dos indivíduos, como expresso na citação a seguir: 
Diante do exposto, percebe-se um histórico inicial da aproximação da 
Psicologia e do Direito atrelado a questões envolvendo crime e também 
os direitos da criança e do adolescente. Contudo, nos últimos dez anos, 
a demanda pelo trabalho do psicólogo em áreas como Direito da Família 
e Direito do Trabalho vem tomando força. Além desses campos, outras 
possibilidades de participação do psicólogo em questões judiciais vêm 
surgindo, (...) (LAGO et al., 2009, p.485). 
 
Importante destacar que, mesmo com a notável união entre Direito e 
Psicologia na atualidade, os cursos de graduação em psicologia nem sempre 
oferecem a disciplina Psicologia Jurídica. Quando o fazem, costuma ser uma 
disciplina opcional ou de carga horária reduzida. Por outro lado, no Direito, a 
disciplina é de caráter compulsório, mesmo sendo de carga horária reduzida 
(LAGO et al., 2009). 
Como pode ser evidenciado, o Direito e a Psicologia se aproximaram em 
razão da preocupação com a conduta humana. O momento histórico 
pelo qual a Psicologia passou fez com que, inicialmente, essa 
aproximação se desse por meio da realização de psicodiagnósticos, dos 
quais as instituições judiciárias passaram a se ocupar. Contudo, outras 
formas de atuação além da avaliação psicológica ganharam força, entre 
elas a implantação de medidas de proteção e socioeducativas e o 
encaminhamento e acompanhamento de crianças e/ou adolescentes. 
Observa-se que a avaliação psicológica ainda é a principal demanda dos 
operadores do Direito. Porém, outras atividades de intervenção, como 
acompanhamento e orientação, são igualmente importantes, [...]. São 
áreas de atuação que devem coexistir, uma vez que seus objetivos são 
distintos, buscando atender a propósitos diferenciados, mas também 
complementares (LAGO et al., 2009, p.486). 
 
Atualmente, percebe-se que a atuação do psicólogo nos meios judicial e 
forense deixou de se restringir à aplicação de testes na área criminal ou na 
atenção à infância e adolescência. Os ramos do Direito que frequentemente 
demandam a atuação do psicólogo jurídico são Direito da Família, Direito da 
Infância e Adolescência, Direito Civil, Direito Penal e Direito do Trabalho. Nesse 
contexto, a testagem continua sendo um importante processo de avaliação, 
porém, ao contrário do que aconteceu nos primórdios da psicologia jurídica, 
60 
 
deixou de ser a única estratégia adotada pelo psicólogo, mas sim um dos 
recursos que o profissional lança mão quando precisa realizar uma avaliação 
(LAGO et al., 2009). 
Finalizamos esta seção com a ideia de que no ambiente forense e 
prisional faz-se premente uma atuação multidisciplinar, na qual o psicólogo 
encontra-se inserido, já que nesses meios se faz necessária uma maior 
compreensão dos fenômenos emocionais subjacentes às situações e aos 
indivíduos a elas relacionados: 
No campo do Direito Moderno, em todas as áreas de atividade judicial e 
jurisdicional, observa-se a premente necessidade de subsidiar 
tecnicamente as decisões em compartilhamento inter, multi e 
transdisciplinar; calcadas no bem juridicamente tutelado no processo 
judicial à luz das percepções emocionais das partes (BODSTEIN, 2007, 
s.p.). 
 
61 
 
UNIDADE 5 – CONCEITUAÇÃO DE PSICOLOGIA 
JURÍDICA E CAMPO DE ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL 
 
5.1 O que é psicologia jurídica 
Recapitulando, antes de chegarmos à definição de psicologia jurídica, 
compreendemos que a união entre o Direito e a Psicologia não é apenas possível, 
mas sim bastante interessante e útil. Assim como acontece em outras áreas de 
saber – como a área da saúde, por exemplo – a perspectiva de um trabalho 
multidisciplinar também traz a possibilidade de inúmeros benefícios no âmbito 
jurídico. 
Tanto a equipe multidisciplinar, quanto as pessoas que precisam, por 
alguma razão, recorrer ao sistema jurídico, saem beneficiadas pela atuação do 
psicólogo já que, normalmente, as questões que precisam de intervenção judicial 
para ser resolvidas dependem da lei, mas não pode-se deixar de considerar o fato 
de que são questões bastante carregadas emocionalmente e afetivamente. Aí 
entra o diferencial oferecido pelo psicólogo. 
A Psicologia Jurídica emergiu quando as realidades fenomenológicas 
surpreenderam os operadores do Direito na tutela dos interesses de 
ordem pública, exigindo uma reflexão pacificadora voltada às finalidades 
sociais. Nos encontros e desencontros hermenêuticos e epistemológicos 
da atuação profissional, criou-se uma nova especialidade, além das 
tradicionais Psicologia Escolar, Organizacional e Clínica (BODSTEIN, 
2007, s.p.). 
 
Assim como outras áreas foram se despontado na psicologia – como a 
Escolar, a Organizacional, a Clínica e a Hospitalar – a Psicologia Jurídica surge 
como mais uma área da psicologia voltada para uma realidade institucional – 
nesse caso, o fórum, a prisão, as instituições que acolhem crianças e 
adolescentes devido a diversas situações – que passa a obter benefícios com a 
inclusão do psicólogo em sua equipe multidisciplinar. 
A partir daí vêm as definições. A primeira, de Mira y López (2015, p.28) 
refere-se ao início da psicologia jurídica, quando, como vimos na seção anterior, a 
psicologia ainda era aplicada a apenas algumas áreas do direito: “A psicologia 
jurídica é a psicologia aplicada ao melhor exercício do direito”. 
62 
 
Gonzaga et al. (2007, p.27) fornecem uma definição mais ampliada para a 
psicologia jurídica. Segundo eles, a Psicologia Jurídica é uma área específica da 
Psicologia que surge da inter-relação com o Direito, tanto no âmbito teórico 
quanto no prático. Nesse encontro interdisciplinar, Souza (1998, p.6) afirma: 
(…) que a Psicologia vem por um lado, procurando compreendero 
comportamento humano, e o Direito, por outro, possuindo um conjunto 
de preocupações sobre como regular e prever determinados tipos de 
comportamentos, com o objetivo de estabelecer um contrato social de 
convivência comunitária. 
 
França (2004) define a psicologia jurídica como a área da psicologia que 
se relaciona com a justiça. A autora estabelece uma diferenciação entre os 
termos “Psicologia Jurídica” e “Psicologia Forense” que, para alguns, aparecem 
como sinônimos. Enquanto o termo “forense” diz respeito ao foro judicial e aos 
tribunais, o termo “jurídica” é mais abrangente por relacionar-se aos 
procedimentos ocorridos nos tribunais, àqueles que são fruto da decisão judicial, 
assim como também àqueles que são de interesse do Direito. 
O CFP (2001) elucida claramente a descrição das atividades que podem 
ser desenvolvidas pelo psicólogo jurídico, as quais se encontram, na íntegra, na 
citação a seguir: 
Atua no âmbito da Justiça, colaborando no planejamento e execução de 
políticas de cidadania, direitos humanos e prevenção da violência, 
centrando sua atuação na orientação do dado psicológico repassado não 
só para os juristas como também aos indivíduos que carecem de tal 
intervenção, para possibilitar a avaliação das características de 
personalidade e fornecer subsídios ao processo judicial, além de 
contribuir para a formulação, revisão e interpretação das leis: Avalia as 
condições intelectuais e emocionais de crianças, adolescentes e adultos 
em conexão com processos jurídicos, seja por deficiência mental e 
insanidade, testamentos contestados, aceitação em lares adotivos, 
posse e guarda de crianças, aplicando métodos e técnicas psicológicas 
e/ou de psicometria, para determinar a responsabilidade legal por atos 
criminosos; atua como perito judicial nas varas cíveis, criminais, Justiça 
do Trabalho, da família, da criança e do adolescente, elaborando laudos, 
pareceres e perícias, para serem anexados aos processos, a fim de 
realizar atendimento e orientação a crianças, adolescentes, detentos e 
seus familiares; orienta a administração e os colegiados do sistema 
penitenciário sob o ponto de vista psicológico, usando métodos e 
técnicas adequados, para estabelecer tarefas educativas e profissionais 
que os internos possam exercer nos estabelecimentos penais; realiza 
atendimento psicológico a indivíduos que buscam a Vara de Família, 
fazendo diagnósticos e usando terapêuticas próprias, para organizar e 
resolver questões levantadas; participa de audiência, prestando 
informações, para esclarecer aspectos técnicos em psicologia a leigos 
ou leitores do trabalho pericial psicológico; atua em pesquisas e 
63 
 
programas sócio-educativos e de prevenção à violência, construindo ou 
adaptando instrumentos de investigação psicológica, para atender às 
necessidades de crianças e adolescentes em situação de risco, 
abandonados ou infratores; elabora petições sempre que solicitar alguma 
providência ou haja necessidade de comunicar-se com o juiz durante a 
execução de perícias, para serem juntadas aos processos; realiza 
avaliação das características das personalidade, através de triagem 
psicológica, avaliação de periculosidade e outros exames psicológicos 
no sistema penitenciário, para os casos de pedidos de benefícios, tais 
como transferência para estabelecimento semiaberto, livramento 
condicional e/ou outros semelhantes. Assessora a administração penal 
na formulação de políticas penais e no treinamento de pessoal para 
aplicá-las. Realiza pesquisa visando à construção e ampliação do 
conhecimento psicológico aplicado ao campo do direito. Realiza 
orientação psicológica a casais antes da entrada nupcial da petição, 
assim como das audiências de conciliação. Realiza atendimento a 
crianças envolvidas em situações que chegam às instituições de direito, 
visando à preservação de sua saúde mental. Auxilia juizados na 
avaliação e assistência psicológica de menores e seus familiares, bem 
como assessorá-los no encaminhamento a terapias psicológicas quando 
necessário. Presta atendimento e orientação a detentos e seus familiares 
visando à preservação da saúde. Acompanha detentos em liberdade 
condicional, na internação em hospital penitenciário, bem como atuar no 
apoio psicológico à sua família. Desenvolve estudos e pesquisas na área 
criminal, constituindo ou adaptando os instrumentos de investigação 
psicológica (p.10-11). 
 
O objeto de estudo da Psicologia Jurídica são os comportamentos 
complexos que ocorrem ou podem vir a ocorrer – comportamentos esses que 
devem ser de interesse do jurídico. Essa definição é bastante importante, pois 
delimita a ação da Psicologia Jurídica, já que o estudo do comportamento é uma 
das práxis da psicologia. Compreendem-se como jurídicas as atividades que 
fornecem embasamento ao campo do Direito, realizadas pelos psicólogos, dentro 
dos fóruns e fora deles. A especificidade da Psicologia Jurídica ocorre no campo 
de intersecção com o jurídico (POPOLO, 1996 apud FRANÇA, 2004). 
Retomando a Psicologia Jurídica, acredito que ela deve ir além do 
estudo de uma das manifestações da subjetividade, ou seja, o estudo do 
comportamento. Devem ser seu objeto de estudo as consequências das 
ações jurídicas sobre o indivíduo. (FRANÇA, 2003, p.76). 
 
No Brasil, a história da Psicologia Jurídica coincide com a data do 
surgimento da profissão, em 1960. A partir da Lei de Execução Penal – Lei 
Federal 7210/84, o psicólogo passou a ser reconhecido legalmente dentro da 
instituição penitenciária (FRENANDES, 1998 apud LAGO et al., 2009). Isso foi 
mostrado na introdução deste material. 
64 
 
5.2 Campos de atuação da Psicologia Jurídica 
Conforme explanamos anteriormente, em seu início, a Psicologia Jurídica 
voltava-se à área criminal, sendo que o uso de testes e avaliações psicológicas 
contribuiu para a sua disseminação. Com o passar dos anos, o psicólogo jurídico 
encontrou vários espaços de atuação, como pretendemos mostrar agora. 
Gonzaga et al. (2007) afirmam que, inicialmente, a atuação do psicólogo 
jurídico voltava-se à tentativa de classificar e controlar os indivíduos, porém, com 
o passar dos tempos, algumas mudanças foram surgindo e a psicologia jurídica 
buscou uma nova forma de intervenção que prioriza o resgate da cidadania dos 
indivíduos. 
As avaliações psicológicas, como as perícias, são importantes, contudo, 
há a necessidade de repensá-las. Justifica-se tal postura porque realizar 
perícia é uma das possibilidades de atuação do psicólogo jurídico, mas 
não a única. O psicólogo jurídico pode atuar fazendo orientações e 
acompanhamentos, contribuir para políticas preventivas, estudar os 
efeitos do jurídico sobre a subjetividade do indivíduo, entre outras 
atividades e enfoques de atuação (FRANÇA, 2004, p.75-76). 
 
A tabela a seguir ilustra as áreas do Direito e os tipos de atuação que o 
psicólogo jurídico pode desempenhar, deixando explícito, assim, que a união 
entre Direito e Psicologia não é apenas possível, mas extremamente necessária. 
 
Tabela 06: Atuação do psicólogo jurídico e as áreas do Direito 
Área do Direito Subárea Atividade desempenhada pelo psicólogo 
Direito de 
Família 
Separação e divórcio Atuação nos processos de divórcio litigioso. 
Atuar como mediador quando as partes se 
dispõem a encontrar um acordo. 
Quando a mediação não obtiver sucesso, o juiz 
pode solicitar avaliação psicológica de uma das 
partes ou do casal. 
Partilha de bens, guarda de filhos, 
estabelecimento de pensão alimentícia e direito à 
visitação. 
“[...] seja como avaliador ou mediador, o psicólogo 
buscará os motivos que levaram o casal ao litígio 
e os conflitos subjacentes que impedem um 
acordo em relação aos aspectos citados. Nos 
casos em que julgar necessário, o psicólogo 
poderá, inclusive,sugerir encaminhamento para 
tratamento psicológico ou psiquiátrico da(s) 
parte(s)” (p.486). 
65 
 
 Regulamentação de 
visitação 
A regulamentação de visitação faz parte do 
processo de divórcio, mas, mesmo após esse, é 
comum surgirem conflitos em torno da visitação 
dos filhos. 
 
“Nesses casos, o psicólogo jurídico contribui por 
meio de avaliações com a família, objetivando 
esclarecer os conflitos e informar ao juiz a 
dinâmica presente nesta família, com sugestões 
das medidas que poderiam ser tomadas” (p.486). 
Pode atuar na mediação dos conflitos do casal, 
visando um acordo pautado na colaboração 
(SCHABBEL, 2005). 
 Disputa de guarda Nos casos mais graves, o juiz pode solicitar uma 
perícia psicológica para verificar qual dos ex-
cônjuges dispõe de melhores condições 
psicológicas para deter a guarda da criança. 
 
A mediação não é uma estratégia muito comum 
nesses casos, pois normalmente os pais em 
questão são pessoas que colocam seus 
interesses pessoais, vaidades e conflitos com o 
ex-cônjuge em primeiro lugar, em detrimento do 
bem-estar do filho. 
 
“Além dos conhecimentos sobre avaliação, 
psicopatologia, psicologia do desenvolvimento e 
psicodinâmica do casal, assuntos atuais como a 
guarda compartilhada, falsas acusações de abuso 
sexual e síndrome de alienação parental podem 
estar envolvidos nesses processos” (p.487). 
Direito da 
Criança e 
Adolescente 
Adoção Nos Juizados da Infância e Adolescência, o 
psicólogo presta assessoria constante às famílias 
adotantes antes de depois da adoção. 
 
“Como a adoção é um vínculo irrevogável, o 
estudo psicossocial torna-se primordial para 
garantir o cumprimento da lei, prevenindo assim a 
negligência, o abuso, a rejeição ou a devolução” 
(p.487). 
 
Nas Fundações de Proteção Especial, busca-se 
prestar assistência às crianças e adolescentes 
institucionalizados para que a realidade nesses 
locais seja bastante parecida com a realidade 
familiar. 
 Destituição do poder 
familiar 
Os pais podem perder o direito à guarda dos 
filhos, que passa a ficar sob a tutela de uma 
família até a maioridade. 
 
“Independentemente da causa da remoção – 
doença, negligência, abandono, maus-tratos, 
abuso sexual, ineficiência ou morte dos pais – a 
66 
 
transferência da responsabilidade para estranhos 
jamais deve ser feita sem muita reflexão” 
(CESCA, 2004, p. 487). 
 Adolescentes autores 
de atos infracionais 
Medidas socioeducativas coercitivas e punitivas. 
 
“Os psicólogos que desenvolvem seu trabalho 
junto aos adolescentes infratores devem lhes 
propiciar a superação de sua condição de 
exclusão, bem como a formação de valores 
positivos de participação na vida social. Sua 
operacionalização deve, prioritariamente, envolver 
a família e a comunidade com atividades que 
respeitem o princípio da não discriminação e não 
estigmatização, evitando rótulos que marquem os 
adolescentes e os exponham a situações 
vexatórias, além de impedi-los de superar as 
dificuldades na inclusão social” (p.489). 
Direito Civil Dano psíquico Caracteriza-se por sequela psíquica ou emocional 
decorrente de um fato traumatizante. 
O psicólogo deve avaliar a real presença desse 
dano, levando em consideração a possível 
manipulação dos sintomas, já que está em suas 
mãos a determinação de um ressarcimento 
financeiro ou não (ROVINSKI, 2005). 
 Interdição Incapacidade do exercício, por si mesmo, dos 
atos da vida civil. 
 
Encaminhado pelo juiz, o psicólogo perito realiza 
avaliações que podem comprovar ou não situação 
de doença mental. 
 
“ À justiça interessa saber se a doença mental de 
que o paciente é portador o torna incapaz de 
reger sua pessoa e seus bens” (MONTEIRO, 
1999). 
 
“As questões levantadas em um processo de 
interdição incluem a validade, nulidade ou 
anulabilidade de negócios jurídicos, testamentos e 
casamentos. Além dessas, ficam prejudicadas a 
contração de deveres e aquisição de direitos, a 
aptidão para o trabalho, a capacidade de 
testemunhar e a possibilidade de ele próprio 
assumir tutela ou curatela de incapaz e exercer o 
poder familiar” (TABORDA, CHALUB & 
ABDALLA-FILHO, 2004). 
Direito Penal 
“o psicólogo pode 
ser solicitado a 
atuar como perito 
para averiguação 
de 
periculosidade, 
das condições de 
discernimento ou 
sanidade mental 
Atuação nos presídios 
“As avaliações psicológicas individualizadas, 
previstas em lei, são inviáveis nos presídios 
brasileiros em razão das superpopulações 
existentes. Pelo mesmo motivo, proporcionar um 
“tratamento penal” aos apenados ou estabelecer 
outro tipo de relações institucionais com os 
demais funcionários, internos e/ou seus familiares 
são tarefas difíceis para os psicólogos que 
trabalham junto ao sistema carcerário” (KOLKER, 
2004). 
67 
 
das partes em 
litígio ou em 
julgamento” 
(ARANTES, 
2004). 
 Institutos Psiquiátricos 
Forenses 
Atuação junto a doentes mentais que cometeram 
algum delito. 
 
Direito do 
Trabalho 
 Perito em processos trabalhistas. 
Investigar a relação entre supostos danos 
psicológicos e doenças relacionadas ao trabalho 
(afastamento, aposentadoria, condições de 
trabalho). 
Outros campos 
de atuação 
Vitimologia Avaliação do comportamento e personalidade da 
vítima. 
 
“Cabe ao psicólogo atuante nessa área traçar o 
perfil e compreender as reações das vítimas 
perante a infração penal. A intenção é averiguar 
se a prática do crime foi estimulada pela atitude 
da vítima, o que pode denotar uma cumplicidade 
passiva ou ativa para com o criminoso. Para tanto, 
a análise é feita desde a ocorrência até as 
consequências do crime” (BREGA FILHO, 2004). 
 
Além disso, a vitimologia dedica-se também à 
aplicação de medidas preventivas e à prestação 
de assistência às vítimas, visando, assim, à 
reparação de danos causados pelo delito. 
 Psicologia do 
Testemunho 
Avaliação da veracidade dos testemunhos de 
vítimas e suspeitos. 
Atenção ao fenômeno de falas memórias 
elucidado na seção anterior. 
 
Depoimento sem dano: “objetiva proteger 
psicologicamente crianças e adolescentes vítimas 
de abusos sexuais e outras infrações penais que 
deixam graves sequelas no âmbito da estrutura da 
personalidade” (p.489). 
Fonte: adaptado de Lago et al. (2009). 
 
Além dessas áreas de atuação detalhadas na tabela anterior, a citação a 
seguir expõe as áreas de atuação do psicólogo jurídico, elucidando que, além da 
parceria bastante comentada com os profissionais do Direito, o psicólogo jurídico 
também trabalha diretamente com os profissionais do Serviço Social: 
 
68 
 
Desdobra-se ao longo dos princípios constitucionais: proteção aos 
idosos; atendimento de réus, aprisionados e pró-egressos; conflitos 
interfamiliares; abandono e recolocação em adoção; preservação do 
afeto e do cuidado nas relações judiciais familiares – nos fóruns, no 
sistema prisional, nos procedimentos junto aos assistentes sociais; 
processos judiciais conciliatórios e mediatórios na esfera familiarista; 
atos de violência contra a mulher; preservação de abrigos legais para a 
inserção da criança e do adolescente em situação de risco por 
abandono, assistência inadequada ou orfandade (BODSTEIN, 2007, 
s.p.). 
 
Roehrig (2007) também elucida o vasto campo de atuação do psicólogo: 
 Sistema penitenciário; 
 Varas de família; 
 Varas da Infância e da Juventude; 
 Juizados Especiais (Cível e Criminal); 
 Varas de Penas Alternativas; 
 Varas Cíveis; 
 Diversos locais do Poder Judiciário. 
 Forças Armadas; 
 Secretarias Estaduais de Segurança; 
 Ministério Público; 
 Escolas de Magistratura, entre outros. 
 
Como já afirmamos em outros momentos, o campo de atuação do 
psicólogo jurídico sofreu grande ampliação, além da aplicaçãode testes e 
elaboração de laudos em réus, testemunhas e outros envolvidos em processos. O 
psicólogo jurídico pode realizar tais tarefas, mas, além disso, esse profissional 
preocupa-se com as questões emocionais e afetivas subjacentes às pessoas 
envolvidas nos ambientes forenses, prisionais, de abrigos – questões essas que 
nem sempre são abordadas pelos demais profissionais. 
Além de todos esses profissionais diretamente relacionados ao contexto 
jurídico, existem também os profissionais que não estão alocados no sistema 
69 
 
jurídico, mas que exercem funções diretamente associadas ao trabalho jurídico; 
fala-se na psicologia em interface com a justiça. A citação a seguir ilustra quem 
são esses profissionais, cuja atuação também é de suma importância tanto para o 
Direito, quanto para o Psicólogo Jurídico: 
Destaca-se, contudo, que o CFP vem usando a designação psicologia na 
interface com a Justiça, a partir do entendimento de que essa expressão 
incluiria não só os profissionais lotados nos tribunais, mas também os 
que executam trabalhos que são encaminhados ao sistema de Justiça, 
ou seja, psicólogos que não possuem vínculo empregatício com o Poder 
Judiciário. Inserem-se aí, portanto, trabalhos realizados por aqueles que 
atuam em consultórios clínicos e os que compõem equipes de outras 
instituições, convidados ou solicitados a emitir pareceres que serão 
anexados aos autos processuais. Nesse último grupo, pode-se listar, por 
exemplo, os psicólogos que exercem sua prática profissional em 
unidades que executam medidas socioeducativas, em penitenciárias, em 
Conselhos Tutelares, em CREAS e em ONGs, entre outros. (BRITO, 
2012, p. 199). 
70 
 
UNIDADE 6 – ÉTICA NA PSICOLOGIA JURÍDICA 
 
Antes de aprofundarmos sobre questões éticas que permeiam a práxis do 
psicólogo jurídico, faz-se necessário proceder a algumas definições. 
Primeiramente iremos definir ética e moral – duas palavras bastante comuns em 
nosso vocabulário, mas cuja definição nem sempre é bem delimitada. Após essas 
definições pretendermos discorrer brevemente sobre o Código de Ética dos 
Psicólogos (CRP, 2005), documento que delineia a atuação do psicólogo no 
Brasil. A partir de alguns postulados desse documento, iniciaremos nossa 
discussão sobre a ética na psicologia jurídica especificamente. 
Moral e ética costumam ser compreendidos como sinônimos. Assim, 
ambas as palavras dizem respeito a um conjunto de regras de conduta 
consideradas como obrigatórias. Essa sinonímia se dá devido à origem das 
palavras: enquanto a moral descende do latim, a ética descende de origem grega. 
Ambas as palavras, cada qual em sua cultura, nomeiam o campo de reflexão 
sobre os costumes dos homens, sua validade, legitimidade, desejabilidade, 
exigibilidade (LA TAILLE, 2006). 
Entretanto, mesmo observando que ambas as palavras, desde seus 
primórdios, aparecem como sinônimos, atualmente autores propõem uma 
diferenciação entre ambos. O termo “moral” diz respeito ao fenômeno social, ou 
seja, todas as comunidades humanas são regidas por um conjunto de regras de 
conduta e proibições cujas transgressões às mesmas acarretam sanções 
socialmente organizadas. Toda organização social humana tem uma moral (LA 
TAILLE, 2006). 
Chaui (1995) compreende a ética como “[...] filosofia moral, isto é, uma 
reflexão que discuta, problematize e interprete o significado dos valores morais” 
(p.339). Aqui deparamo-nos com outro ponto a ser compreendido: “a moral. 
Segundo a mesma autora, moral consiste nos [...] valores concernentes ao bem e 
ao mal, ao permitido e ao proibido, e à conduta correta, válidos para todos” (p. 
339). 
A moral, portanto, refere-se à normatividade oriunda da sociedade, refere-
se aos costumes, normas e regras que permeiam o cotidiano e que visam a 
71 
 
regular as relações entre os sujeitos. A ética é a reflexão crítica sobre a moral, ou 
seja, pensar naquilo que se faz, repensar os costumes, normas e regras vigentes 
na sociedade (MEDEIROS, 2002, s.p.). 
A ética consiste no trabalho de reflexão filosófica e científica acerca da 
moral, ou seja, pode-se viver uma moral sem se realizar uma reflexão ética. 
Também, pode-se definir a moral como as regras que valem para as relações 
privadas (por exemplo, comportamentos familiares), enquanto que a ética 
relaciona-se às normas que regem o espaço público (LA TAILLE, 2006). 
Moral e ética variam em função do contexto histórico, cultural e social. 
Como nosso foco é a psicologia jurídica, faz-se importante diferenciar a moral – 
livre escolha do sujeito – das normas jurídicas – impostas e obrigatórias: 
Os traços específicos que diferenciam a moral das normas jurídicas 
evidenciam a adesão íntima, característica particular da moral, e a 
coação externa, pertencente ao âmbito das normas jurídicas. Ou seja, a 
moral implica a livre escolha do sujeito frente às diferentes possibilidades 
de solução de uma determinada situação. Diferente da moral, as normas 
jurídicas não requerem convicção pessoal e liberdade no que se refere à 
escolha de possíveis alternativas de ação. As normas jurídicas são 
impostas pelo Estado e obrigatórias para todos. Mesmo considerando 
uma norma jurídica injusta, o sujeito deve cumpri-la, pois a 
desobediência implica punição. Para garantir o cumprimento das normas 
jurídicas, estas encontram-se codificadas formal e oficialmente – códigos 
e leis prescritos pelo poder legislativo (MEDEIROS, 2002, s.p.). 
 
Sem dúvidas, o aprofundamento do estudo da ética e da moral acarretaria 
em mais definições sobre os temas, porém, esse não é o nosso propósito. A partir 
dessas definições, conseguimos compreender o conceito de ética para assim 
entender a importância da “reflexão filosófica e científica da moral” relacionada às 
questões que permeiam o universo da Psicologia Jurídica. 
Em síntese, segundo Medeiros (2002), a atuação do psicólogo deve ser 
pautada em três pilares: no Código de Ética Profissional do Psicólogo – já que o 
seu cumprimento garante uma postura ética; em suas convicções pessoais – 
valores e princípios construídos ao longo de sua formação pessoal e profissional; 
em princípios éticos que servem a todos – aqueles que não priorizem crenças ou 
valores pessoais. 
72 
 
O primeiro ponto levantado anteriormente diz respeito aos códigos de 
ética profissionais – documentos que trazem uma série de diretrizes que visam 
nortear as atitudes dos profissionais. Ilustram, de maneira clara, os direitos, 
responsabilidades e deveres, proibições e penalidades que possam ser 
acarretadas ao profissional que executou alguma ação indevida. 
Daí as referências aos ‘códigos de ética’ de variadas profissões, ou da 
presença de expressões como ‘ética na política’, os ‘comitês de ética 
para a pesquisa em seres humanos’. Não faria sentido falar em ‘ética na 
família’. Note-se que a diferenciação entre espaços privado e público não 
implica diferenças de conteúdo: por exemplo, o não roubar ou o não 
mentir vale para os dois. Em compensação, os códigos de ética (que 
inspiram os diversos comitês, em cada instituição profissional) implicam 
um trabalho de elaboração intelectual, fato que nos reaproxima da 
definição de ética como reflexão sobre a moral. De fato, para elaborar-se 
um código desse tipo, é preciso não apenas conhecer a moral da 
sociedade em que se vive, mas também pensar sobre as 
particularidades da profissão contemplada (LA TAILLE, 2006, p.27). 
 
O Código de Ética do Profissional Psicólogo foi elaborado pelo Conselho 
Federal de Psicologia. A versão mais recente consta de 2005. Segundo o CFP 
(2005): 
Códigos de Ética expressam sempre uma concepção de homem e de 
sociedade que determina a direção das relações entre os indivíduos. 
Traduzem-se em princípiose normas que devem se pautar pelo respeito 
ao sujeito humano e seus direitos fundamentais. Por constituir a 
expressão de valores universais, tais como os constantes na Declaração 
Universal dos Direitos Humanos; sócio-culturais, que refletem a realidade 
do país; e de valores que estruturam uma profissão, um código de ética 
não pode ser visto como um conjunto fixo de normas e imutável no 
tempo. As sociedades mudam, as profissões transformam-se e isso 
exige, também, uma reflexão contínua sobre o próprio código de ética 
que nos orienta (p.5). 
 
Assim, postula-se que o trabalho do Psicólogo Jurídico deve ser 
embasado nos postulados expressos no Código de Ética do Profissional 
Psicólogo – documento que, como explicitou a citação anterior, vai além de um 
conjunto de normas imutáveis ao tempo. Pretendemos elucidar alguns pontos 
específicos deste documento e de outras resoluções do CFP que se relacionam 
diretamente com a práxis do Psicólogo Jurídico, os quais serão elucidados a 
seguir. 
73 
 
O primeiro ponto levantado diz respeito ao sigilo profissional. Sabe-se que 
esse é um dos princípios primordiais que norteiam o trabalho não só do psicólogo, 
mas de vários outros profissionais como, por exemplo, o advogado, o médico e o 
enfermeiro. Se não fosse por esse princípio, certamente os clientes não 
confiariam suas questões mais confidenciais aos profissionais que os assistem, 
porém, na Psicologia Jurídica, isso pode ficar confuso, já que, por um lado versa o 
direito do cliente ao sigilo, porém, por outro lado, versa a justiça. 
A citação a seguir ilustra sobre o direito do profissional a manter o sigilo, 
mesmo quando em atividade multiprofissional: 
[...] não há motivo para supor que, junto ao sistema de Justiça, o 
psicólogo estaria desobrigado de manter o sigilo profissional. Nessas 
situações, cabe recordar que o Código dispõe, na alínea b do artigo 6º, 
que o psicólogo, no relacionamento com profissionais de outras áreas de 
conhecimento, compartilhará somente informações relevantes para 
qualificar o serviço prestado, resguardando o caráter confidencial das 
comunicações, assinalando a responsabilidade, de quem as receber, de 
preservar o sigilo. (BRITO, 2012, p. 200). 
 
Observa-se que o sigilo profissional deve ser mantido na maioria dos 
casos. Entretanto, o Código de Ética versa também sobre situações especiais – 
que podem ocorrer no meio jurídico – e implicam na necessidade do profissional 
ser obrigado a quebrar o sigilo profissional, como as situações previstas em lei: 
Art. 9º 
– É dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional a fim de proteger, 
por meio da confidencialidade, a intimidade das pessoas, grupos ou 
organizações, a que tenha acesso no exercício profissional. 
Art. 10 
– Nas situações em que se configure conflito entre as exigências 
decorrentes do disposto no Art. 9º e as afirmações dos princípios 
fundamentais deste Código, excetuando-se os casos previstos em lei, o 
psicólogo poderá decidir pela quebra de sigilo, baseando sua decisão na 
busca do menor prejuízo. 
Parágrafo único 
– Em caso de quebra do sigilo previsto no caput deste artigo, o psicólogo 
deverá restringir-se a prestar as informações estritamente necessárias. 
Art. 11 
– Quando requisitado a depor em juízo, o psicólogo poderá prestar 
informações, considerando o previsto neste Código (CFP, 2005). 
 
Em síntese: a citação mostra que, caso seja obrigado por lei a revelar 
dados que tenha conhecimento em decorrência de sua atividade profissional, o 
psicólogo precisará quebrar o sigilo para não arcar com consequências judiciais, 
74 
 
porém deve se resguardar a revelar somente o estritamente necessário. Como 
essas exceções podem gerar dúvida ao profissional, recomenda-se que, quando 
frente a um dilema ético sigilo profissional X lei, o profissional pode se dirigir ao 
Conselho Regional de Psicologia de sua região e pedir orientações de como agir 
frente a uma situação específica. 
Em caso de perícia, o Psicólogo deve se atentar à Resolução 08/2010, 
respeitar a privacidade durante a avaliação e garantir que o periciado não seja 
constrangido: 
Art. 1º - O Psicólogo Perito e o psicólogo assistente técnico devem evitar 
qualquer tipo de interferência durante a avaliação que possa prejudicar o 
princípio da autonomia teórico-técnica e ético-profissional, e que possa 
constranger o periciando durante o atendimento (CFP, 2010a). 
 
Em relação ao sigilo profissional, outro ponto merece destaque. Quando o 
psicólogo é psicoterapeuta de alguma das partes envolvidas em questão judicial – 
a psicologia em interface com a justiça da qual nos referimos anteriormente – 
alguns pontos precisam ser destacados. 
Segundo a Resolução 008/2010, esse profissional não pode, por 
questões éticas, atuar como assistente técnico judiciário; fornecer informações 
sem consentimento formal dos envolvidos e, no caso de menores de idade, esse 
consentimento formal deve ser dado por pelo menos um dos responsáveis legais 
(CFP, 2010a). 
Segundo o mesmo documento, o psicólogo jurídico que for realizar perícia 
deve garantir que essa aconteça em ambiente adequado, que zele pela 
privacidade da pessoa atendida. 
A Resolução do CFP n° 010/2010 institui a regulamentação da Escuta 
Psicológica de Crianças e Adolescentes na Rede de Proteção. Dentre os 
aspectos considerados nessa resolução, convém destacar que, assim como já 
mencionado, a escuta precisa acontecer em local que garanta a privacidade do 
menor. Ao produzir documentos, o psicólogo compartilhará apenas as 
informações necessárias para qualificar o serviço prestado com outros 
profissionais envolvidos no atendimento, de forma a contribuir para que o menor 
atendido não seja revitimizado (CFP, 2010c). 
75 
 
Assim, até aqui foi possível observar que um dos pontos cruciais que 
regem o trabalho do psicólogo é o sigilo profissional e, mesmo em ambientes 
jurídicos, o assistido goza desse direito, salvo nas exceções elucidadas, nas quais 
o psicólogo deve cuidar para expor o cliente da menor forma possível para os 
demais profissionais envolvidos. Deve-se ressaltar que a exposição indevida pode 
causar danos morais ao indivíduo ou deixá-lo ainda mais exposto a situações de 
violência, ou seja, ocasionaria mais danos além daqueles aos quais o sujeito já 
está exposto. 
Outro ponto que merece destaque quando discutimos sobre a ética é a 
atuação do psicólogo junto ao sistema prisional. A Resolução 009/2010 postula 
sobre a atuação do Psicólogo Jurídico no sistema prisional, atuação que deve ser 
pautada pela ética, por uma mudança de paradigmas e pela garantia dos direitos 
humanos à pessoa em privação de liberdade: 
Art. 1º. 
Em todas as práticas no sistema prisional, o psicólogo deverá respeitar e 
promover: 
a) os direitos humanos dos sujeitos em privação de liberdade, atuando 
em âmbito institucional e interdisciplinar; 
b) processos de construção da cidadania, em contraposição à cultura 
de primazia da segurança, de vingança social e de disciplinarização 
do indivíduo; 
c) desconstrução do conceito de que o crime está relacionado 
unicamente à patologia ou à história individual, enfatizando os 
dispositivos sociais que promovem o processo de criminalização; 
d) a construção de estratégias que visem ao fortalecimento dos laços 
sociais e uma participação maior dos sujeitos por meio de projetos 
interdisciplinares que tenham por objetivo o resgate da cidadania e a 
inserção na sociedade extramuros (CFP, 2010b). 
 
Como já afirmamos várias vezes ao longo deste curso, a primeira prática 
executada pelo psicólogo jurídico é a avaliação psicológica e a elaboração de 
laudos. Mesmo com o surgimento de outras atividades que podem ser 
desempenhadas por esseprofissional, a avaliação psicológica continua sendo um 
ponto alto na atuação desse profissional e existem questões éticas envolvidas: 
Para melhor compreensão da complexidade que envolve uma avaliação 
psicológica, tarefa constantemente demandada àqueles que executam 
trabalhos direcionados ao sistema de Justiça, considera-se que não se 
deve desmembrar essa expressão, reduzindo-a a uma investigação 
qualquer, sob o risco de se deixar de lado toda a riqueza e a 
especificidade que contempla. Equiparar o termo avaliação psicológica 
ao ato de investigar pode conduzir ao uso de procedimentos que 
parecem se afastar do domínio das técnicas psicológicas, aproximando o 
76 
 
trabalho que se produz na área da Justiça ao de uma investigação de 
outra natureza, com instrumentos que seriam alheios à Psicologia. 
Dessa maneira, comportamentos como suspeitar de quem se está 
atendendo, verificar se o que está sendo dito seria verídico ou não e 
desenvolver uma postura investigativa soam como tarefas apropriadas a 
outras categorias profissionais que não a dos psicólogos (BRITO, 2012, 
p. 201). 
 
Ou seja, o psicólogo deve atentar-se, ao realizar uma avaliação 
psicológica, para não fazer uma avaliação genérica, além de não adotar uma 
postura preconceituosa, ou desenvolver postura investigativa – o que não seria 
uma atividade do psicólogo, mas de outros profissionais do meio jurídico. O 
psicólogo jurídico deve ter em mente que, mesmo trabalhando diretamente com 
outros profissionais do meio jurídico, ele não é graduado em Direito e sua função 
não é julgar ou realizar investigações policiais, por exemplo. 
Vale a pena ressaltar que o trabalho em equipe multidisciplinar deve ser 
caracterizado pela autonomia dos profissionais, cada qual dentro de sua área de 
atuação contribuindo com o saber multiprofissional. Ao contrário, um profissional 
não pode executar tarefas que não são próprias de sua profissão sob nenhum tipo 
de pretexto, suas tarefas precisam ser bem determinadas de forma a não ocorrer 
nenhum tipo de interferência no trabalho de outros profissionais. 
A Resolução 07/2003 do CFP é um Manual de Elaboração de 
Documentos Decorrentes de Avaliações Psicológicas e discorre sobre as 
questões éticas envolvidas na redação desse tipo de documento. O psicólogo 
jurídico precisa segui-las criteriosamente: 
Na elaboração de DOCUMENTO, o psicólogo baseará suas informações 
na observância dos princípios e dispositivos do Código de Ética 
Profissional do Psicólogo. Enfatizamos aqui os cuidados em relação aos 
deveres do psicólogo nas suas relações com a pessoa atendida, ao 
sigilo profissional, às relações coma justiça e ao alcance das 
informações – identificando riscos e compromissos em relação à 
utilização das informações presentes nos documentos em sua dimensão 
de relações de poder. Torna-se imperativo a recusa, sob toda e qualquer 
condição, do uso dos instrumentos, técnicas psicológicas e da 
experiência profissional da Psicologia na sustentação de modelos 
institucionais e ideológicos de perpetuação da segregação aos diferentes 
modos de subjetivação (CFP, 2003, p.4). 
 
Finalizamos esse material ressaltando que o Psicólogo Jurídico deve ter 
conhecimento desses documentos que versam especificamente sobre sua prática 
77 
 
profissional, assim como do Código de Ética. Deixamos aqui apenas a discussão 
de determinados pontos de cada um desses materiais, porém recomendamos ao 
cursista a leitura integral de todos os documentos. Todos estão disponíveis na 
Internet e os endereços para localizá-los encontram-se disponíveis nas 
referências. 
78 
 
REFERÊNCIAS 
 
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